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quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Problemas conjugais

Naquela casa, os conflitos são frequentes. Ao contrário do habitual,  não é o dinheiro, nem a educação dos filhos, ou a interferência dos pais de um ou de outro que os desencadeia. É o uso da língua. Por exemplo, ele conta um problema do seu trabalho:

— Vi-me em papos de aranha…

E logo a mulher o corrige:

— Não é em papos, mas em palpos. As aranhas não têm papos!

Ele detesta ser corrigido. Sobretudo quando crê que tem razão.

-- Quero lá saber se as aranhas têm papos ou palpos! Nunca ouviste falar em metáforas?

— Não desvies a conversa. Sabes muito bem que eu tenho razão. Como sempre.

— Pois, tu tens sempre razão. E sabes sempre tudo.

— Não sei sempre tudo, mas sei que as aranhas têm palpos e não papos.


Passeiam no parque de uma cidadezinha de província:

— Olha, um círculo viçoso!

E ela, sem olhar sequer: –  Não se diz círculo viçoso mas sim círculo vicioso! 

— Não, é um círculo viçoso!

— És tão casmurro! E queres sempre ter razão, mesmo sabendo que a não tens!

— Então olha, e diz-me o que é aquela figura geométrica, redonda e coberta de relva verdinha?


— E depois veio a ovelha ranhosa do Oliveira…

— Ovelha ronhosa, queres tu dizer!

— Sei muito bem o que quero dizer. O Oliveira é um ranhoso dum graxa, que na presença da patroa se põe a balir mansamente, com olhos de carneiro mal morto…

— Então porque é que disseste ovelha e não carneiro?

— Não sabes que quando se quer achincalhar um homem se usa o feminino? Diz-se: ele é um filha da puta…

E prossegue:

— Tenho-lhe um ódio fidagal!

Lá vem a correcção: tens-lhe um ódio figadal!

— Como assim, se o odeio, não com o fígado, mas com altivez de fidalgo?


Sempre a emendá-lo. Se ele diz que vai meter o arroz no tacho, retruca ela que é pôr e não meter. 

— Como assim, meter não é pôr dentro de? Ora se o ponho dentro do tacho…

Se fala no testo, replica ela que é a tampa da panela; se ele lhe pede o alguidar, ela zomba: – Toma lá a tigela.  Se telefona a dizer que vai chegar tarde para o jantar pois perdeu o comboio: — Mas é tão grande! E já o achaste? 

— Olha, deixa-te dessas coisas, vou no primeiro comboio…

— O da meia- noite?

— Qual meia-noite, qual carapuça! Vou no primeiro que apanhar…

— E depois, traze-lo na mão?

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

O jogo do gato e do rato

Um rato passeia descaradamente, em plena luz do dia, pela valeta da rua. Ao que isto chegou, por onde andam os gatos de agora, esses que miam, gemem, berram desalmadamente durante as noites? 

Mas eis que, a uns cinquenta metros, parece ter sido detectado pelo gato da vizinha. Como quem não quer a coisa, vai-se aproximando lentamente. O rato imobiliza-se.

Ah, ainda há gatos como os de antigamente, que, mesmo gordos da comida gourmet, amolecidos por fofos sofás, mais propensos a carícias do que a brigas com os compadres, não resistem ao ancestral apelo da caçada!

Ei-lo, foto 1,




que se aproxima da distância do salto sobre a presa, estuda o ângulo, calcula os efeitos do impacto, escolhe o golpe que atordoará a vítima, que depois levará triunfalmente para casa, e com que brincará até que morra das sevícias, abandonando-a depois sobre o tapete da entrada como presente para a dona…

Desencadeia o ataque (foto 2).


O rato está perdido. Mas — ó surpresa!— ai estes gatos de agora, capados, amolecidos pela boa vida, instintos embotados pelas mordomias da boa vida! Não desfere o golpe incapacitante e deixa o rato afastar-se tranquilamente para o refúgio das pedras e das ervas!

Este mundo está perdido!

quinta-feira, 16 de junho de 2022

Paz e guerra

 O meu artigo no magazine Synapsis. Para receber um exemplar gratuito do magazine, enviar pedido para

synapsis11@gmail.com


PAZ E GUERRA

Conta Fernão Lopes que, quando o Mestre de Avis se apresentou armado no paço da rainha com a intenção de matar o Conde Andeiro, D. Leonor Teles, desconfiada, protestou: bom costume têm os ingleses, que em tempo de paz andam desarmados e usam vestidos e luvas como as donzelas; mas na guerra fazem bom uso das armas, como toda a gente sabe.

O Mestre de Avis retorquiu que isso era porque os ingleses tinham amiúde guerra e poucas vezes paz. Já nós, que temos amiúde paz,  e poucas vezes guerra, se não usássemos armas em tempo de paz, não as poderíamos suportar em tempo de guerra.

O predomínio da paz em Portugal, constatado pelo futuro rei D. João I, marca, entendo eu, a cultura e a maneira de ser portuguesas. Enquanto os povos do centro da Europa viveram e vivem quase permanentemente em guerra — a titulo de exemplo, as guerras púnicas, o genocídio da conquista da Gália por César, as guerras dos 100 anos, dos 30 anos, as campanhas napoleónicas, a primeira e segunda guerras mundiais, a guerra da Jugoslávia — ao longo da nossa história, não apenas nos seus nove séculos como nação independente, mas muito antes, vivemos quase sempre em paz. É certo que q romanização envolveu escaramuças, as invasões bárbaras e depois a árabe e a reconquista cristã fizeram correr sangue em períodos relativamente curtos; fizemos guerra no Norte de África, e depois, com os Descobrimentos, um pouco por todo o Mundo, mas, à escala das outras nações da Europa e dos EUA, em duração e em mortandade, não se me afigura descabido defender que a afirmação do Mestre de Avis, nós temos amiúde paz e poucas vezes guerra, tem sido uma constante ao longo da nossa história e, arrisco-me a dizê-lo, pré-história: não têm sido encontradas por cá as valas comuns pré-históricas que abundam no centro da Europa.

Bem pode Camões pedir a “tuba canora e belicosa”. Com raras excepções, como a conquista de Ceuta, em 1415, as batalhas na Índia, a guerra colonial, somos mais de paz que de guerra, ao contrário dos anglo-saxónicos e seu descendentes, dos germânicos e eslavos. E quando a guerra nos chama, nos obriga a participar, nem sempre o fazemos entusiasticamente, como nesta cantiga de escárnio e maldizer, do século XIII, (CBN 1470) em que o trovador nos diz (adaptação minha):

D. fulano, que eu sei 

Que aprecia a liberdade

Vede o que fez na guerra

(Sabei-o por verdade)   

Logo que viu os ginetes [cavaleiros árabes vindos para a jiade]

(...)

Alçou o seu rabo

E foi à sua vida 

Em Portugal 


Não faltam exemplos na nossa história e na nossa literatura a comprovar que gostamos tanto de guerras como um cão de roer ferro: “contrariados, mas vamos”, no dizer no capitão Vasco Lourenço,  durante a guerra colonial; prontos a “cavar”, como no fado do Cavanço, cantado pelo nosso Corpo Expedicionário Português (CEP) nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial (História de Portugal, org. José Mattoso, VI vol., p. 518)

Nesta vida de cavanço,

A cavar, como se vê,

Se os boches dão um avanço,

Cava todo o CEP.


Apenas quando a guerra é nossa, naquilo que é nosso, como na Reconquista Cristã, ou em Aljubarrota, ou quando nos capitaneiam os terríveis Almeida e Albuquerque, ou quando é a liberdade que está ameaçada, como nas guerras liberais, aí nos envolvemos com bravura. De resto, pugnamos pela paz.

Por isso me espantou a sanha belicista que recentemente assolou o país, e, sobretudo, o envolvimento apaixonado de muitas mulheres. Pouco faltou para exigirem, se é o que o não fizeram, a nossa participação directa na guerra que corre entre a Rússia e a Ucrânia. Sem serviço militar obrigatório, não receiam mandar os namorados, os companheiros, os maridos, os filhos para a morte, para a mutilação, esquecendo, na sua fúria guerreira, quais novas padeiras de Aljubarrota, que a guerra é sempre injusta, sanguinária, cruel, má para todos, e que com a globalização pode cá chegar quando menos esperam, na forma de mísseis, ou de radiação, ou até de ataque marítimo.

Se o conflito não evoluir para guerra nuclear, como pode muito bem acontecer, e destruir a civilização, fazendo os sobreviventes recuar à pré-história, ucranianos e russos, filhos da mesma cepa torta, terão de se entender e, como no título do romance de Tolstoi, falar de guerra e paz; nós, passada esta fúria belicista, em boa parte empolada pelos media, continuaremos a falar de paz e guerra – dos outros, nos países dos outros, por causas que lhes são idiossincráticas.

Porque somos isto e aquilo, dirão as gentes mais aguerridas; ou porque sabemos, como magistralmente o clarifica o Padre António Vieira (1668), que


“É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades em que não há mal nenhum que ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro: - o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.”

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Ida às enguias

Resguardado na adega, após uma semana de chuvadas intensas, constantes, como as havia antigamente, dessas em que nada se podia fazer no campo, o meu pai, grande amigo de patuscadas, convidou o meu tio Zé para irem às enguias: Com este tempo, o guarda-rios passa o dia na taberna do Sulpício.

— Não está tempo para isso, chove a potes… Encharcamo-nos todos, não nos livramos de pneumonia...

O meu pai, olhando para o céu: — Vem aí uma aberta, esta tarde não chove, sentenciou entendido.

E eu, fartíssimo de estar fechado em casa nessas férias de Natal, pedi para ir também, que me cheirava a aventura.

Na minha terra não há cursos de água, pelo que logo após o “jantar” nos metemos ao caminho, capuz feito de saco de serapilheira, botins de  borracha, cestos para apanhar as enguias nas valas da Ribeira do Pereiro. A meio do caminho, na Salgueira, deu em chover torrencialmente. 

— É melhor voltarmos para casa, vai ser toda a tarde assim, disse o meu tio avisadamente, vendo a escuridão do céu.

E o meu pai, talvez por espírito de contradição, seguramente por teimosia: — És é maluco, estamos quase lá, a chuva já passa, chuva civil não molha militar, e tretas do género.

Avançamos, a atascarmo-nos na terra encharcada, a escorregar pelas serventias e caminhos lamacentos. Chegámos às Cobradas. Lá em baixo, por entre as cortinas de água que desciam do céu para a terra, nem se avistava a Ribeira do Pereiro.

O meu tio, mais ajuizado, disse que não prosseguia: Ainda caio e parto uma perna, fico inválido, e tenho de sustentar a família. Não vou.

O meu pai teimava. Afinal, era só descer aquelas ravinas…

— E depois metes-te dentro das valas, com água por baixo e por cima? És é maluco!

Era. E teimoso. E odiava alterar planos. Tal e qual como eu.

Perto, havia um palheiro sem paredes. O meu tio abrigou-se lá, — Daqui não saio enquanto não deixar de chover. O meu pai prosseguiu, eu atrás. Mas as botas de borracha  escorregaram na lama da ravina, caiu e rolou por terra. Voltou para o palheiro.

— Eu não te disse?

Desculpou-se com as botas. E estendendo-se sobre os caules de milho, logo começou a ressonar, sempre sonolento e exausto, de noite padeiro, de dia agricultor. Todas as noites era o mesmo fandango: a minha mãe, logo às onze da noite: Acorda, Afonso! Ele nada. Ela insistia. Abanava-o, chamava-o, mas o meu pai, que dormia três ou quatro horas por dia, nem reagia. Lá para a meia-noite, hora a que era suposto “pegar”, começava a rabujar. E, finalmente, já  atrasado, levantava-se, retirava a pequena maleta de couro onde guardava o dinheiro da venda do pão do prego na parede, punha a trabalhar a motorizada Mondial, e fazia-se à escuridão da noite, deixando-no receosos de que, mal acordado, caísse em barranco nas curvas de Cós e por lá ficasse estendido toda a noite.

Como aconteceu algumas vezes. Culpa do fantasma que lá o esperava para o assombrar, de pau que se metia nos raios, do raio do vinho — a sorte de um homem é escapar, dizia, e a sorte só o desamparou muito mais tarde, numa manhã em que morreu debaixo do tractor.

Fora do palheiro, a chuva incessante, densa, fundia vinhas, cabeços, carreiros, os próprios pinheiros à nossa volta, numa mesma névoa, como se as nuvens tivessem descido à terra, o que, por lá sucede frequentemente. Escurecia rapidamente. Farto de esperar por aberta, certamente desejoso de chegar a casa e se enxugar à lareira, o meu tio acordou o meu pai. Com as dificuldades costumeiras: — O quê? Onde? Deixa-me mas é dormir!

Lá acabou por se levantar, rabugento. Tarde perdida, sem enguias, mas molhados como elas. E como enguias, escorregámos quase às cegas pelos carreiros barrentos, subida após subida até à aldeia e depois a casa, logo a minha mãe, vendo-me encharcado como pinto, ralha: Tira-me já essa roupa e vem aquecer-te ao lume!, e para o meu pai, Vêm bonitos, vêm! Que falta de juízo, e levares o garoto com este temporal, sabendo como ele é enfermiço! Amanhã cai estar de cama outra vez!

Não fiquei doente. Mas, fosse do que fosse, nunca mais o meu pai me levou às enguias.



FOTO: uma meia dúzia de anos depois. O meu pai, orgulhoso do atomizador Fontan que comprara recentemente, o meu tio Zé, o meu primo Fernando, e o meu irmão Afonso montado na nossa motorizada Mondial. Por volta de 1968. Não apareço porque fui o fotógrafo.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Miúdo insuportável

Eu. Refilão, mal-criado, convencido de que era esperto. Se hoje me encontrasse comigo mesmo, com seis anos, digamos, nem à bofetada me suportava. E era demasiado pequeno para a idade, mesmo naquela época em que as crianças eram muito mais pequenas do que hoje — vejam o Aniki Bobó e digam-me se dão doze, treze anos àqueles garotos.

Pois numa manhã apanhámos a camioneta da carreira para Alcobaça e logo que o revisor chegou, 

— Que idade tem o menino.

— Cinco anos, respondeu a minha mãe, a querer escapar ao pagamento de meio bilhete.

— Não tenho nada, tenho seis!

— Cala-te, que não sabes o que dizes!

Na altura, nem bofetadas, sempre bem merecidas, me calavam. Não as levei.

— Não sei o quê? Tenho seis anos, que os fiz no dia 7 de Abril!

A minha mãe, envergonhada a mais não poder ser, pôs-se à minha frente, É só bilhete para mim, o garoto não paga ainda, que só faz os seis anos para o mês que vem.

— Mas ele diz…

— Ora, ele nunca está calado! Quem sabe sou eu, que sou a mãe!

Eu não me calava. E a minha mãe, a ferver, Ah ladrão, cala-te que até te trinco todo!

— Com quê, se anda a arrancar os dentes?

Aliviou a fúria com sonoras gargalhadas. E eu, sentindo-me outra vez sabichão e engraçado, esqueci a teima.

terça-feira, 24 de maio de 2022

O vinho e o porco

Em finais do século passado, seguia eu num comboio regional para Lisboa a tentar ler livro chato, Les Langues Spécialisées, que ia apresentar nessa manhã no seminário de Lexicologia. Em Santarém, entra e senta-se a meu lado jovem negro que, vendo-me a ler em Francês, se me dirige nessa língua. E como ele insistia, eu, polidamente, fechei o livro e fui fazendo conversa.

Tinha vindo do Senegal, era uma espécie de bruxo, e muçulmano. Ia a Lisboa à oração semanal na mesquita. O seu trabalho consistia em exorcizar, desfazer mau olhado, pragas e feitiços, intervir como conselheiro matrimonial reconciliando casais desavindos, isto sem pôr em causa a poligamia. Fazia feitiços — bons, só para proteger o cliente de bruxedo de amante rancorosa —, aconselhava submissão à mulher que queria deixar o marido, orientava as orações e rituais islâmicos.

Eu, a querer voltar para o meu livro, e para ver se o calava, lá acabei por dizer que essa não era religião para mim, apreciador do vinho e da carne de porco.

—Sabes porque é que um muçulmano não bebe vinho?

Eu não sabia.

— Porque com o vinho ralha e bate na mulher, arma zaragata com os vizinhos…

Bom argumento. Embora eu pense, mas não lho disse, o vinho pague muita culpa injustamente, convencido que estou de que não faz as pessoas piores, apenas revela o que são.

— E a carne de porco?, perguntei, a abreviar-lhe o arrazoado.

Então ele explicou-me esse grande mistério: o Profeta estava a morrer à sede no deserto, apareceu um porco que o levou até uma fonte, salvando-lhe a vida. Pelo que decretou: não comas o porco, que é teu irmão!

Esta irmandade não me convencia. Mas passávamos então pelos estaleiros de construção da Expo e ele, apontando os operários, exclamou triunfante: — Vês? É só pretos a trabalhar nas obras!

Pois, pensei então, penso hoje: viver não custa, é preciso é saber viver.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

No tempo da magia

 “Em nome do Anjo Bento…”

E a velha passava uma vez com a faca ferrugenta  sobre o cobrão

“Eu te corto…”

E a faca passava segunda vez

“Bicho peçonhento…”

Última passagem coma faca. A terceira.

“Está feito. Amanhã ou depois já estás bom. Mas, se o rabo se tivesse juntado à cabeça, ias para debaixo da terra.

Assim se tratavam as picadas de aranha. E todas as outras maleitas, cada qual com sua oração. O que faltava em médicos, em remédios, sobrava em rezas, as quais, se ditas com fé suficiente, porque então como hoje basta acreditar para que o milagre aconteça, tudo curavam graças à intervenção dos santos  da especialidade. 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Um médico de outro tempo

Aí pelos meus catorze anos, adoeci. De diferente, desta vez, o estar fora de casa, longe da família, num tempo em que a comunicação se fazia por carta, e o telefone estava reservado para emergências, ligando para o posto da terra e pedindo que fossem chamar alguém — enquanto não chegava, os períodos caíam como a chuva em Dezembro.

Tentei não ligar muito à doença; mas os donos da casa onde estava hospedado insistiram: tens de ir ao médico. Eu recusava. Além do mais, e não o confessava, preocupava-me a despesa, que a magra mesada dificilmente suportava. Adivinhando a causa da minha resistência, ofereceram empréstimo. Com o meu orgulho de fidalgo espanhol pelintra, recusei: não, obrigado, eu tenho. E acabei por ir ao consultório do médico que me recomendaram.

Diagnóstico: papeira. Enquanto passava a receita, o velho médico fazia perguntas de natureza pessoal, adivinhando a minha situação. Sim, era estudante, estava hospedado em Leiria, os meus pais eram emigrantes…

Quando me levantei, Quanto é sr. dr.? 

Não percebi a resposta: nada qualquer coisa.

E eu, desorientado: Ah, pago lá fora, à sua empregada?

Homem, desapareça daqui, que estudantes não têm direito a pagar!


segunda-feira, 9 de maio de 2022

Uma história mais de guerra*

Um grave acidente de motorizada deixou o — chamemos-lhe Zé, então o mais comum dos nomes próprios— incapacitado, quase inválido. Foi chamado para a Inspecção Militar. Quiseram-no dar por inapto para o serviço militar. Indignou-se.

Enquanto os outros mancebos se queixavam da vista, dos joelhos, das varizes, num esforço vão para se livrarem da guerra, ele, mais receoso das línguas femininas que das balas e das minas dos turras, protestava:  O quê, eu, inapto? Veja aqui! E de pé tocava com as mãos no chão, depois fazia flexões. Eu estou bom, está a ver?

No seu desespero, imaginava as conversas no rio, uma avó a gabar o físico do neto, rapaz tão “profeito” que tinha sido logo apurado para a marinha, uma mãe a retorquir que o seu rapaz iria ser furriel, depois da recruta talvez passasse a oficial, moçoilas a lembrar que também os seus namorados tinham sido apurados, casariam logo que tivessem a tropa feita, e depois todas, a voltarem-se para a sua mãe: Então o teu Zé ficou livre? E murmurando entre beiços: Coitadinho!

Aleijadinho para o resto da vida!

Ah, não! Não ele! E tanto se torceu, tanto suou, que um dos militares já sem paciência disse para os outros: É pá, se o gajo faz tanta questão de ir à tropa, que vá. Prá minha vida…

Para grande gáudio do Zé, foi então apurado, tal e qual como os restantes rapazes da terra, tão “profeito” como eles. E nessa semana as conversas no rio versaram não sobre a sua invalidez, mas sobre  a sua estupidez, todos a quererem ficar livres da tropa sem conseguirem, ele a querer ir, podendo livrar-se.

Chegou a altura da incorporação. Recruta, depois especialidade: atirador. Nas costas dele, riam-se. Os outros eram electricistas, escriturários, cozinheiros, tudo o que os pudesse afastar da mata e das emboscadas, só ele — atirador, a especialidade dos que outra não conseguiam.

Desculpava-se, em tom superior: Lá fora, somos todos atiradores.

Mobilizado. Para a Guiné, onde a guerra recrudescia, fervia, matava e feria — eu recortava as longas listas de mortos que o Diário de Notícias publicava diariamente para afixar no bar da minha escola, o Instituto Comercial.

A cada aerograma do Zé, lido à mãe, analfabeta, na loja que era também posto de correios, a pobre arrancava os cabelos, gritava pelas ruas que era um dor de alma ouvi-la, tão alto e tão sofredoramente como os coitados dos porcos quando os capavam ou matavam:

— Ai o meu Zé, que o não volto a ver!

Ao lado, no adro, os homens que tinham também passado pela guerra, abanavam a cabeça e lastimavam a parvoíce do Zé, o único que vazava o seu terror para os aerogramas, afligindo escusadamente a mãe, que via já morto o seu menino, ou a regressar ainda mais inválido.

Um dia o Zé voltou. Quando tentava contar os seus episódios heróicos na guerra, o que fazia aos pretos mortos ou capturados, como conseguira a picha que trouxe em frasco de álcool, logo os outros lhe lembravam os aerogramas aflitos que quase matavam de susto a mãe.

— Eu? Isso é mentira! Nunca escrevi coisas dessas! Era a velha que queria fazer a suas fitas para que tivessem pena dela!

E de nada adiantava recordar-lhe o testemunho da Maria, que lia as cartas à mãe:

— Isso era para afligir a velha, para me deixar mal visto por não ter querido namorar com ela! Eu, hem? Sempre na dianteira, o alferes até me quis propor para condecoração. Eu é que recusei, não ligo a merdas dessas! 

[Ficção. Como todas as minhas histórias, escusado seria lembrá-lo. Mas faço-o, não se ponha alguém a relacionar estes produtos da minha imaginação com este ou aquele. Ah, até o narrador (“eu”) é apenas o meu alter-ego.]


*Verso de Paxti Andion

terça-feira, 3 de maio de 2022

Da vida e da morte

Pontaria. Em cem biliões de galáxias do universo conhecido, talvez um entre uma infinidade de outros a brotarem como bolhas em pântano, cada uma com pelo menos cem biliões de estrelas, uma infinidade de planetas, saí eu do Nada logo condenado a regressar depressa a esse Nada, como luz que apaga e nada deixa atrás de si, nem sequer simples fotões a viajarem infinitamente no tempo e no espaço...

Comecemos pelo princípio óbvio. Não tivesse eu nascido e nada sofreria. Não me assustaria o medo do vazio que é a morte, essa eternidade sem tempo, sem ontem, hoje, amanhã, sem causa e sem efeito, sem conhecimento nem sofrimento nem prazer. Ou tivesse morrido na infância, como esteve para suceder vezes sem conta, antes de ter consciência de que estava vivo. Hoje, nem uma memória seria, falecidos todos aqueles que me me podiam recordar como pálida tristeza. 

Cheguei a velho. Vi partirem os meus pais, os meus tios, amigos, muitos dos meus conhecidos. Aos poucos, perdi alguma da minha repugnância por doenças, nojo pelos cadáveres. 

Aproxima-se, demore anos ou escassas décadas, a minha hora. Inexorável, inelutável. Vi morrer quem já não queria viver. Creio agora compreender o que sentiam então, essa indiferença que me chocava para com filhos, netos e bisnetos, para com a vida em geral.

A minha mãe. Internado em Santa Maria com aneurisma da aorta roto, retirou a máscara para em grande sofrimento, me dizer: -- Eu não vou morrer! E ano e meio depois, acamada, mãos amarradas para não arrancar os tubos das sondas, abanou a cabeça afirmativamente quando, já sem mais palavras para lhe dizer, lhe perguntei: -- Mãe, quer que me vá embora? 

A minha sogra. Levada ao hospital uma semana antes da morte, onde nada lhe encontraram, pedia que lhe desligassem o pacemaker que a mantinha viva.

Tios que Alzeimer enlouqueceu ao ponto de nem reconhecerem os filhos. Mortos em corpos vivos.

Pelo menos, não sofreram com o avizinhar da morte.

NOTA: não contei as galáxias nem as estrelas, baseio-me em números da ciência, certamente aproximativos, e é também possível que em vez de “biliões “ sejam “milhares de milhões“, sabido que é que o termo inglês “billion” designa um milhar de milhões.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

A minha primeira bica

 Aí pelos meus doze anos, aldeão a estudar na vila, fui convidado por colega mais velho para ir ao então café da moda em Alcobaça, o café Portugal. Comecei por recusar, sem confessar que, para além da escassez de dinheiro, tinha vergonha: nunca tinha entrado em café, e logo nesse tão chique?

Mas a companhia e a curiosidade venceram. Eis-nos sentados, o empregado de bandeja na mão a perguntar o que é que os senhores vão tomar?, e eu sem saber o que pedir que pudesse pagar e não revelasse a minha ignorância rústica do que se consumia em tais estabelecimentos; o meu colega pediu uma bica e eu imitei-o, convencido de que seria algo semelhante a um copo de laranjada, na época a minha bebida de sonho, que apenas bebia em casamentos e baptizados.
Logo que o empregado se afastou, bichanei, preocupado: quanto é que custa? Dez tostões. Fiquei mais descansado, tinha mais do que isso na algibeira, certamente para a sopa do almoço na cantina da escola.
E vieram as bicas. Grande desilusão! Em vez de copo de doce laranjada, um poucochinho de café negro como carvão, que quase não cobria o fundo da chávena! Tão azedo, que nem o pacotinho de açúcar SEMPA logrou adoçar. Devo ter-me queixado, ou a minha cara ao provar a bebida terá revelado ao meu companheiro que o único café que conhecia era a cevada do pequeno-almoço.
Não gostas? É a melhor bica de Alcobaça!
E eu a tentar disfarçar a minha saloíce: é pouco açúcar …
Ele pegou no pacote vazio e repetiu a anedota do labrego que chamou o empregado e protestou pela escassez de açúcar, descodificando a marca SEMPA: Só Esta Merda Para Adoçar?
O empregado retorquiu, lendo ao contrário: Adoça Pouco Mas É Suficiente!
Não foi, portanto, paixão imediata o meu gosto pela “bica”. E não me recordo de ter voltado ao café enquanto estudei em Alcobaça.
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quarta-feira, 13 de abril de 2022

O silêncio é de ouro

Ensinaram-me os anos a desconfiar de quem se chega melífulo, palmadinhas nas costas, sempre sorrisos, abraços, beijinhos — como o velho Malhadinhas, lembram-se? O do Aquilino,  que por entre pias demonstrações de afecto ia enterrando a navalha nas tripas da vítima. 

Ensinou-me a dura experiência que muitas pessoas boazinhas, caridosas ou solidárias, independentemente do seu posicionamento político, são na realidade interesseiras, más, egoístas, não raro velhacas e vingativas. Que se regem menos por padrões morais, que, aliás, distorcem segundo as suas conveniências, mas sobretudo pelo egoísmo, por impulsos e motivações animalescas. E depois, com os artifícios da linguagem, distorcem, explicam e justificam o injustificável.

Pior ainda. O nosso cérebro mamífero adora rituais, hierarquias, submissão, e resiste à aprendizagem. As ideias esgrimidas pelos adversários normalmente entram por um ouvido e saem pelo outro — sem deixar nada dentro.

Duvidam? Experimentem convencer, recorrendo a factos sólidos e argumentação lógica, um crente de que a sua religião é um embuste, um fanático de futebol de que o seu clube é beneficiado pelas arbitragens, ou um adepto das praxes da vergonha que é a existência de tais práticas, sobretudo em meio que se presume intelectual.


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Percevejos

 Apesar de nado e criado em humilde aldeia, em condições de higiene e de viver que hoje seriam insuportáveis, foi apenas em Lisboa, então a capital do império, que vi pela primeira vez percevejos.

Tinha chegado recentemente, e fiquei alojado em lar na Rua do Século, em frente ao jornal do mesmo nome. Era um prédio antigo, e, apesar de oficialmente ser instituição dependente da igreja, lá funcionava com completa autonomia uma espécie de república, dirigida democraticamente pelos jovens moradores, quase todos estudantes trabalhadores.
Dormia profundamente quando o meu amigo Serafim, hoje a viver nos Açores, me acordou. Com dificuldade, que então tinha o sono pesado. Queria que eu fosse ver.
Ver o quê, pá? Deixa-me mas é dormir, que não são horas de ver nada!
Ele insistiu. E sem outra forma de voltar a dormir, acompanhei-o ao quarto, onde o colega, o Rogério, ressonava tranquilamente. E sobre o rosto, o pescoço, os braços destapados, vi, com a claridade que entrava pela janela, um formigueiro de bichos repelentes, vermelhos de sangue roubado, que passeavam inchados, tranquilos como operários em linha de montagem. Percevejos! Um nojo, para mim, rapaz do campo, habituado a quase tudo o que era porcaria.
Com a luz acesa, os percevejos desapareceram quase instantaneamente. Nessa noite, o Serafim dormiu na tábua de passar a ferro do corredor, uma robusta mesa. Eu, perdido o sono, acendia volta-não-volta a luz, coçava-me. Logo de manhã, aspirei cuidadosamente o quarto, fui a uma drogaria comprar “Gesarol”, que apliquei em volta dos pés da cama e em todas as fendas do sobrado. Não voltei a ver percevejos, a praga das famílias reais, até anos depois, na tropa quando fazia a especialidade na EPAM, no Lumiar. Na balbúrdia revolucionária que se vivia, feita de boatos e prevenções revolucionárias, saídas cortadas e alertas de ataques da reacção, calhou-me, apesar de instruento, ser escalado para serviço de guarda, isto para os “operacionais” – cozinheiros, padeiros, que mal sabiam manusear a espingarda G3 --, irem proteger a RTP da reacção.
Após dois turnos de sentinela, que ninguém apareceu para me substituir, fui rendido noite alta, e dirigi-me, como era minha obrigação, à casa da guarda. Sobre o rosto de camarada adormecido, passeavam percevejos, gordos e felizes…

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Ver sem óculos de pala

 Hoje, no telejornal da TVI, ouvi, com grande surpresa, um major-general português a comentar a crise na Ucrânia.

Segundo este militar, que certamente sabe muito mais do assunto do que eu, a guerra não interessa à Rússia, mas sim -- a surpresa! -- aos comandos militares ucranianos, tomados de assalto pela extrema-direita ucraniana após o golpe militar de 2014.
E duvida de que o poder político ucraniano possa controlar o sector militar, que anseia pela guerra. Ora, se o exército ucraniano passar a linha divisória que o separa dos pró-russos, como pretende fazer, aí a Rússia tem de atacar e a guerra será inevitável.
Para melhor informação, sugiro que vejam esse excerto do telejornal da TVI, salvo erro por volta das 21H. Desde já previno que não vou discutir a situação aqui, embora tenha, como cada um dos meus amigos terá, opinião sobre as causas e responsabilidades desta crise.
Mas, como é meu costume, não pretendo doutrinar, nem sequer convencer ninguém. Longe vão os meus tempos de pregador.
Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

A historieta censurada pelo Facebook

 Bullying

O Tóino brinca pacífico à porta de casa. E eu a gritar-lhe, preparado para fugir ladeira acima:
– Eh bucha! Não me apanhas, não me apanhas, gordo de merda!
Ele ainda me persegue. Mas depressa se cansa, volta atrás esbaforido, a vociferar ameaças:
– Ah, quando te agarrar, eu faço, eu aconteço....
À noitinha a minha mãe manda-me fazer recado: – Vais a casa da avó da Luz...
Tinha de passar pela casa do Tóino.
– Não vou, tenho medo...
– Medo de quê, se ainda é dia? Toca a andar, seu medricas!
Cheguei a casa da minha avó ofegante, coração aos coices, da rápida corrida para evitar maus encontros. Mas no regresso, lusco-fusco, o malandro pegou-me de emboscada:
– Desta é que mas pagas!
E agarrava-me por uma orelha, esbofeteava-me, – Vá, chama-me agora bucha!
Eu choramingava, entre lágrimas e ranho: – Vou dizer à minha mãe...
E tanto me contorci e berrei que consegui libertar-me. Apenas me afastei três pulos,
– Ranhoso, bucha, és só banhas, paneleiro de merda! – nem sabia então o que era isso. E ele, a quem a fúria dava asas, quase a apanhar-me outra vez, perseguia-me até casa, a rosnar ameaças espumadas: – Agora é que as levas a sério, dou-te coça que te vai servir de emenda!
A chinfrineira atrai à porta a minha mãe. – Que guerra é essa, vamos lá a parar com isso!
– É este bucha que me bateu e quer bater-me mais!
– Não admito que me chames bucha!
E para mim: – Alguma lhe fizeste!
– Eu? Vinha a passar de casa da avó, agarrou-me de surpresa, começou a bater-me...
– Porque tu esta tarde chamaste-me nomes!
– Eu? E para a minha mãe: – Que eu seja ceguinho...
A minha mãe estava brava. Um marmanjo daqueles – bucha, gordo, ia eu dizendo, já agarrado às saias dela – a bater no seu filhinho, criança indefesa, "relezica", e sem quê nem porquê.
– Pois a tua mãe vai sabê-las e é agora!
Eis que as nossas mães ralham, a do Tóino que não aguenta mais ouvir a garotada a atentar-lhe o filho, que só quer brincar sossegado, a minha que nomes não fazem sangue nem marcas como as que tenho na cara: – Ora veja-me lá o que o seu filho me fez ao garoto, acha bem?
– E você acha bem que o seu lhe chame gordo?
– Pois se o é!
Era, mas de doença! E doenças não se atiram à cara.
– Doença? Vossemecê até conta por aí: "O meu Tó é uma boquinha abençoada, come uma dúzia de sardinhas de cada vez!"
– Ora, o que come ou não come é comigo. Felizmente posso dar-lhas, não sou como umas e outras que têm de dividir uma sardinha pelos filhos.
– Pobre, mas honrada, ouviu? E que o seu filho que não torne a bater no meu!
– Ora, o seu que lhe não chame nomes! E fecha ruidosamente a porta de casa, farta da peixarada.
No caminho de casa, levo reprimenda forte: – Ai de ti se eu sei que o voltas a provocar! Quem vai, vai, quem está, está.
– Eu, mãe? Ele é que me bate primeiro...
– Se não podes com ele à unha, chega-lhe à pedrada! Não te venhas é queixar para casa!
Pois sim. Mal saía da escola, atirava a mala para cima da mesa, enchia a boca de torrões de açúcar e corria escadas abaixo antes que a minha mãe me impedisse. Ainda me gritava da janela: – Onde vais? Já fizeste os trabalhos de casa? Merenda primeiro!
– Vou brincar, depois faço-os. Não tenho fome, como depois...
Lá estava o bom do Tóino a brincar pachorrento à porta.
– Eh gordo! Bucha de merda, paneleiro! Não me apanhas! Não me apanhas!
E ele outra vez a espumar ladeira acima: – Vais ver a coça que te dou quando te agarrar! Ainda te faço pior do que ontem!
– Ó mãe, o bucha quer bater-me outra vez! grito, ele olha em volta, detém-se por um instante, o bastante para me pôr a salvo em casa, galgando de pulo as escadas.
– Vieste a fugir de algum? E a minha mãe, desconfiada por me ver chegar bofes à boca, deita mão a verdasca justiceira.
– Eu, mãe? Vim a correr para fazer os trabalhos da escola!

Da censura

Hoje, uma historieta minha publicada no grupo da minha terra foi retirada pelo Facebook, com o argumento de que fazia discurso de ódio. Fui advertido de que a minha conta será restringida se voltar a violar os padrões da “comunidade”.

Nunca imaginei vir a ser alvo de censura, ainda por cima por um mecanismo informático.
No meu entender, e creio que entendo alguma coisa, nada na história ofendia quem quer que fosse, ou o que quer que fosse, mesmo nestes tempos de melindres exacerbados.
Não preciso, não tenho idade nem vontade de compactuar com isto, e menos ainda de impor qualquer forma de autocensura à minha escrita.
Se já pouco frequentava o Facebook, a partir de hoje menos ainda o farei.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Suave milagre (1)

 

Suave milagre (1)

Aquele meu familiar vivia por uma única razão: o medo de morrer. Ou assim me parecia, nas cada vez mais raras vezes que o visitava, falto de paciência para as suas lamúrias constantes, a viver desinteressado de todos os outros, do mundo à sua volta, tendo por único assunto de conversa as suas doenças, recorrentes e cumulativas, as suas dores, a sua pessoa. De início, tentava animá-lo, insistia para que saísse, pelo menos até à porta, a ver o Sol primaveril, a tomar umas golfadas de ar limpo. Não. Uma pessoa de idade constipa-se facilmente, há que se resguardar. Mas constipações não são doença grave, argumentava eu para ouvir raspanete: quem as tem é que sabe delas! E se lhe chamava a atenção para a necessidade de arejamento, físico e mental, de exercício, de pequeno passeio diário, até à esquina que fosse, rebatia-me impaciente: estava frio, podia apanhar gripe, sempre perigosa em pessoa de idade, e sim, quando viesse o tempo bom, já sem perigo de adoecer, então sairia, então daria os seus passeios – que eu nunca fui preguiçoso!, culminava indignado. E eu pensava: como mudamos, naquilo em que nos tornamos, como os anos transformaram este meu amigo de amante da vida ao ar livre a velho que passa os dias na cama porque levantado tem dores, desinteressado da vida de que, no entanto, recusa abdicar. E toda a conversa, toda a minha argumentação caía em saco roto, porque com a manha que os anos trazem, qualquer tentativa de o forçar a mudar de atitude resultava em gritos de dor, sufocos assustadores, ameaças até: quando passares pelo mesmo vais ver como é! Tentava calar as minhas censuras com mentiras ingénuas: não atendera o telefone porque estava longe e não o conseguira alcançar, não fizera o que lhe recomendara porque se esquecera, já me esqueço das coisas, será princípio de Alzheimer?

Creio que assim supunha enganar também a Morte, escondido dela em casa. Afinal, com tantos clientes à espera, bem se podia esquecer dele. E pelo sim, pelo não, mantinha de noite as lâmpadas acesas, que Morte é escuridão, é trevas, não o procurará na luz intensa. Receoso de morrer em falha de iluminação provocada por trovoada, acordava amiúde, para confirmar que as luzes continuavam acesas, que a Velha se não aproximara sub-repticiamente, capuz negro sobre a caveira, sarcasmo trocista a brilhar nas órbitas vazias, longa foice ensanguentada ao ombro. Espantava as visitas, gente do seu tempo que o procurava ainda para dois dedos de conversa, temeroso das respectivas doenças e dos germes que seguramente carregavam consigo, impaciente também com as suas conversas: como se atreviam a vir falar com ele de dores, a lembrar que também sofriam de maleitas, a dizer que um ou outro tinha estado já às portas da morte? E a recordar que havia quem estivesse bem pior? Era uma ofensa, era um escândalo, quase uma calúnia supor sequer que alguém tinha ou alguma vez tivesse sofrido como ele, e encolhia os ombros se lhe recordavam, prova suprema, que o outro até tinha morrido. Pois sim, nunca se poupara, sempre a comer bem e a beber melhor, nunca se resguardara de aragens e de micróbios, nunca tivera o devido cuidado com a saúde, com a tensão, com o colesterol, com outras causas conhecidas de falecimento. Pois ele, medicamentos para tudo, inclusive para proteger o organismo dos malefícios de outros dos remédios. E sempre a exigir a vinda do médico de família ao domicilio, era o que lhe faltava estar no Centro de Saúde sujeito a resfriados, a contaminações desses velhos e velhas que para lá vão fazer salão, passar tempo, actualizar conversas. Não ele: se chamava o doutor é porque precisava, e não sossegava enquanto, bem tarde, lhe não entrasse porta adentro, trocista, Ora o que é que temos hoje?, sempre pronto a minimizar as maleitas, a rir delas. Enfim, essa besta, apesar de tudo, receitava-lhe medicamentos às sacadas, cada vez maiores, de que, bem o sabia, carecia para se manter vivo, no seu reduto inexpugnável e camuflado: se a Morte o não via, se não deixava entrar germe que a avisasse da sua existência, se, além do mais, se resguardava, uma vida inteira sem fumar, sem beber, sem abusar da comida, colesterol e glicemia sempre vigiados, tensão controlada, porta fechada a gente linguaruda que o lembrasse da Velha Ceifeira não morreria. E zangava-se comigo, quando lhe recordava que aquilo não era vida, que para viver temos de aceitar a possibilidade de morrer. Lérias. Que falava assim por ser muito novo.

Pois numa bela manhã de sol primaveril, a porta entreabriu-se suavemente, e voz meiga falou-lhe sorrindo meigamente:

Estou aqui!

(1) inspirado no conto homónimo de Eça de Queirós.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Pisar o risco

Diz-se que a indisciplina, o mau comportamento e a má educação nas escolas, a violência para com os professores, começaram com a liberdade trazida pelo 25 de Abril.

Não é esse o meu entendimento, baseado na minha experiência de aluno. Por exemplo,  no liceu de Leiria, nos anos sessenta, não faltava quem tentasse pôr o pé em ramo que sentisse verde, assim o permitissem os professores.

Aquela turma de quarto ano tinha dois professores deficientes: o de Inglês, cego, mas com esse ninguém fazia farinha, que era mau como as cobras e, mesmo não vendo, via tudo o que se passava; e a de Matemática, surda como uma porta.

Nas suas aulas, um regabofe pegado da entrada ao toque de saída. E não era só a falação constante; uma das graçolas recorrentes consistia em deixar cair como por acidente a esferográfica, e, apontando para ela,

—Stôra, posso tocar uma punheta?

— Apanha lá a caneta!

Vendo a risota geral, a balbúrdia instalada, que em vão tentava debelar, a professora pensaria, talvez, que outra vez tinha sido gozada. Mas fingia de nada se aperceber.

Até que…

Logo no início da primeira aula do segundo período, o mesmo aluno, a repetir a graçola estafada:

— Stora, posso tocar uma punheta?

— Rua, já! E levas participação disciplinar, de uns dias de suspensão não te livras, seu parvalhalhão mal educado!

Ninguém se atrevia a rir. Ninguém repetiu as asneiras costumeiras. 

Instantaneamente, todos tinham percebido que nas férias de Natal a professora havia posto aparelho auditivo.