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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A lição do estucador

Os dois estucadores, cada qual a trabalhar num lado da sala enorme, aperceberam-se da entrada de um dos encarregados. O mais velho, homem magro, seco, a avizinhar os cinquenta, continuou na sua labuta, com o rigor e a calma habituais. O mais novo, jovem recluso da Prisão-Escola de Leiria, deu em lançar frenético estuque para o tecto, a todo o instante gritava-me: -- Massa! Traz mais massa depressa! Massa! E eu corria a dar-lhe serventia, estranhando, na minha juventude, tanta energia súbita...
O encarregado começou a implicar com o mais velho. Que pusesse os olhos no jovem. Porque afinal ganhava bem mais. Para fazer menos. A conversa depressa azedou.
Às tantas, ouço ao velho estucador: -- A chaminé ainda fuma e ainda tenho batatas na despensa! 
Sem mais palavras, desceu do andaime, juntou as ferramentas e ala!
Também eu, que vou tendo batatas e lenha para o fogo, tenho a presunção de ser livre como esse estucador que nunca mais vi. Independente como ele. Com a arrogância de dispensar padrinhos, recusar empenhos, de não precisar das boas graças de nenhum merdas, dos muitos que infestam este país, que, por isso mesmo, fede insuportavelmente.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Na pacatez aldeã

O homem não dá um passo a pé? Problema dele.
Não é da minha conta que para fazer uns míseros metros  pegue no carro. Mas já me afecta que embirre com as paredes, como se lá estivessem apenas para lhe lixar a condução e o carro. Sobretudo quando as paredes são minhas e as deixa no estado que a foto mostra.
Enfim, pior seria, pior será se criança ou velhota não conseguir resguardar-se a tempo quando surge ao volante.
Insinuam as más línguas, que infelizmente abundam nas aldeias, que tal condução errática se deve...
Calúnias. Posso afiançar que, neste caso e em muitos análogos que venho presenciando ao longo dos anos, a culpa foi sempre das paredes.
(Espanta-se o Jeroen, que a tudo assistiu da sua varanda: -- E ainda dizem que nas aldeias nunca se passa nada!)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

No Canal Caveira

Os diálogos, sobretudo ao telefone, são frequentemente de uma pobreza confrangedora, especialmente visível quando reproduzidos por escrito, sem a mímica, os trejeitos faciais, a entoação, o alongamento de vogais, as onomatopeias adequadas, os beijos repenicados no ar, hum, hum...
Há um ano, ainda era eu professor, registei para a posteridade este diálogo (ou monólogo, ou mero exercício da função fática da linguagem, não sei bem),  ouvido e sofrido na sala de professores, enquanto aguardava que a colega ao telemóvel acabasse de lançar as suas classificações e libertasse o computador para que eu pudesse introduzir as minhas.
-- Onde tás?
-- O quê? No Canal Caveira? No Canal Caveira?
-- Ah, tás no Canal Caveira!
-- ... No Canal Caveira!
-- Muito bem! No Canal Caveira...
-- Sim senhor! No Canal Caveira! Não acredito!
-- Não acredito!
-- No Canal Caveira!
-- No Canal Caveira!
--Tás a brincar!
--Tás a brincar comigo! No Canal Caveira!
--Tu, no Canal Caveira!

Muitos canais caveira depois:

-- Beijinhos, tchau tchau!
-- Hum! Hum! beijinho, beijinho!
-- No Canal Caveira! Não acredito!
-- Não acredito!
-- Tu, no Canal Caveira!
Hum, hum, jinho, jinho grande, grande, hum! hum!!

E eu, já por natureza impaciente, a ver o tempo passar, consegui resistir, contive-me e não lhe disse: -- Acredite, colega, o gajo está no Canal Caveira!

Novilíngua

Preciso urgentemente de comprar dicionário e gramática actualizados para entender o português facebookiano:

dizem k um sorriso vale mais k mil palavras,por isso ca vai,....loool.....=)....estas lindissima....tenho.t vist miga,soke n me meto contigo nem nda do genero pk kuand te veijo tax smp com as tuas amigas,lool....beijao gand**
Linda como sempre fonfinha...
tas gira miga