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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Vaidade

Ao fim de um mau dia, leio isto, numa discussão entre leitores do blogue Horas Extraordinárias, de Maria do Rosário Pedreira:
"Entre Cós e Alpedriz ... foi dos melhores livros que li nos últimos tempos!
Se fosse pela notoriedade do autor ou pela divulgação que teve, pela editora... jamais o teria lido!"
MUITO OBRIGADO!

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Chuva e fome

A chuva que insiste em nos incomodar, e a mim me impede de plantar as batatas, era há apenas meio século causa de desemprego e fome -- e não era a fome de que hoje os jornais nos falam, era aquela com que se definhava e morria, que não havia então subsídios, nem apoios, nem banco alimentar contra a fome, nem solidariedade organizada. Nesse tempo duro, de penúria e de falta de quase tudo, passei por privações hoje inimagináveis, embora nunca tenha passado fome, nem andado descalço e semi-nu à chuva por falta de roupa e calçado. Mas vi, recordo, e dei testemunho, quanto mais não seja para que se nos queixarmos de barriga cheia, não o façamos na ignorância daquilo por que os pais de muitos de nós passaram.
"Chuva e vento, vento, chuva e frio. Gemia água a terra, rebentaram as nascentes, os regatos cresceram até serem novamente rios, submergiram as pontes, matando mesmo a filha do Mouco. De manhã, atravessara com outras mulheres o rio de Cós, que no Verão é apenas um humilde fio de água, levando o jantar ao homem, empregado na padaria, as outras seguindo para a Castanheira, com o comer para os companheiros, que laboravam num lagar de azeite. Demorou-se, ajudando-o a carregar as braças de pinheiro ainda verdes com que aquecia o forno, mal protegidas da chuva numa arribana próxima, e no regresso encontrou a ponte já submersa pela inundação. As companheiras recearam atravessar a enchente, mas, ou afoita ou em fezes pela criança de dois anos que deixara sozinha fechada em casa, certamente a chorar desalmadamente há horas, acordando só e sentindo-se talvez abandonada, aventurou-se. Quando já estava na outra margem, afundou-se subitamente numa cova oculta na água barrenta e, apesar de não ter perdido o pé, o ar contido nas roupas levantou-a e a enxurrada arrastou-a sem que ninguém lhe pudesse valer; só no dia seguinte o corpo foi encontrado, numa várzea do Valado.
E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os pexins. Há meses que não podiam pescar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.
Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.
Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.
Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha seja o vinho vendido."
José Cipriano Catarino, Entre Cós e Alpedriz, Leyaonline 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Entre Cós e Alpedriz

A escritora e ilustradora Beatriz Lamas Oliveira deixou no Facebook esta nota de leitura:
"Entre Cós e Alpedriz"_é o livro que estou a ler.Vou na página 139. Autor José Cipriano Catarino.
Neste livro, que devia ser lido por todos os que têm problemas de memória, conta-se com realismo e vivacidade a história de Joaquina Guiomar Afonso. Através da história singular desta mulher, vão surgindo factos históricos que marcam duramente a vida dos camponeses em Portugal no seculo XX. A primeira guerra mundial, a pneumónica, as fomes dos anos ruins, as secas e dilúvios que sempre infernizam a vida daqueles sobre quem o marmeleiro cai. Homens e mulheres vivem dentro do livro, sinto-os vivos como se os tivesse conhecido, sinto-me triste pelas suas dores e pelas cruzes que carregam. É a história colectivo do Povo, aquele que tem as costas largas e anda sempre na boca dos "outros".
Aconselho a leitura. Avivar a memória é como afiar a navalha.
Beatriz Lamas, in Facebook

MUITO OBRIGADO!

sábado, 31 de janeiro de 2015

Sem paciência para disparates

(1) Todos os meus romances têm sido motivados por poemas. Entre Cós e Alpedriz não foi excepção. O nome da protagonista, Guiomar Afonso, foi roubado a este poema de Roi Queimado (séc. XIII), que tanto aprecio, apesar de se tratar de um autor injustamente desconsiderado por ter sido alvo de uma cantiga d' escarnho e de mal dizer do seu contemporâneo Pero Garcia Burgalês:
Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
  
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
  
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Roi Queimado
Para gente distraída: Guiomar não é Guimar; não há, nunca houve, nos Montes nenhuma Joaquina Guiomar Afonso. Se a minha personagem tivesse existido realmente, teria hoje cento e doze anos! Só mesmo gente ociosa para especular se será esta ou aquela!
(2) O meu pai chamava martinho-larau ao pica-pau. Aproveitei o nome, sem saber que há essa alcunha na terra. Mas digam-me: como podem confundir uma pessoa ainda viva com uma personagem que teria hoje uns bons cento e trinta anos? Como podem estabelecer correspondência entre realidade e ficção se a minha personagem morreu em briga à enxadada (p. 91) aí por 1920?
(3) Querem personagens com existência real? Procurem o meu avô 'Sargento', a minha avó Francisca, o meu pai Afonso (Afonso Carriçudo / Alça a perna e mija tudo (p. 180), os meus amigos, como o Adelino Galfarro, precocemente morto de cancro, o meu primo Zé Luís, vitimado por acidente de carro, como o foram o Adolfo, o Carlos, encontrem o Zé Firmino, o único sobrevivente desse acidente. Procurem-me a mim, que lá estou "um cachopo bem mais pequeno, pequeno de mais par a idade, (...) o cagarola..." (p.223), como estou na toirada, como lá está o mar tal como o vi aos quatro ou cinco anos... 
(4) É ocioso perder tempo em tentativas de usar o romance para intrigas e brigas; é tarefa insensata, que não resiste à simples cronologia dos acontecimentos. Em vez disso, apreciem essa obra de amor à aldeia onde nasci e às suas gentes, dedicada "aos homens da minha terra, grandes contadores de histórias, cujo talento bem invejo e gostaria de poder imitar", recordem o sofrimento em que viveram os nossos antepassados, sintam a dor da perda causada pela passagem do tempo e pela inevitabilidade da doença e da morte.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Entre Cós e Alpedriz no Andanças Medievais

A escritora Cristina Torrão, cuja amizade muito prezo, publicou no seu blogue Andanças Medievais uma simpática nota de leitura referente ao meu segundo romance, Entre Cós e Alpedriz. Aqui vai o link, depois, e excepcionalmente, comentarei o meu próprio post:
Entre Cós e Alpedriz

sábado, 14 de junho de 2014

Entre Cós e Alpedriz

António Severino publicou no seu blogue Kontestu uma nota de leitura sobre o meu romance Entre Cós e Alpedriz.

Muito obrigado!

quinta-feira, 27 de março de 2014

A verdade da ficção

É na ficção que ponho toda a verdade, e surpreendem-me por vezes dúvidas de leitores questionando a verosimilhança de certas situações, tão verdadeiras que lhes parecem inacreditáveis. Mas a verdade tem de ser entendida como a verdade da ficção. Veja-se, por exemplo, o excerto seguinte, extraído de Entre Cós e Alpedriz. Não há nele nada que não seja rigorosamente verdadeiro. E, no entanto, todo ele é ficção.
"Até lá, pelo seu cérebro enevoado como o de recém-nascido continuarão a desfilar imagens, sensações, fragmentos de histórias, que não raro se amalgamam numa outra maior — e as personagens desmenti-la-iam se a ouvissem, dizendo que pessoas, tempo e acontecimentos estão baralhados, mas isso não importa — que é um nome, que é uma data mais do que um açude efémero que tenta deter por um momento que seja Vida e Tempo? O passado mais longínquo e o presente mais recente fundem-se  e vê novamente jovens rostos que morreram velhos — Aquele é o Mitadá, e o velho tem agora oito anos, e ambos ouvem a bisavó contar como fugiram dos franceses para a Mata da Castanheira e como por lá sobreviveram, era ela uma menina e os franceses emboscaram-nos: — Matamo-los?, perguntou um. — Não, deixa-os ir, são apenas crianças, respondeu outro, sem que nenhum dos miúdos estranhasse que a avó tivesse compreendido o Francês, é o deslumbramento da descoberta de um ninho de melro num vergueiro, e as avezinhas implumes e cegas abrem novamente os bicos enormes relacionando o ruído da folhagem afastada com a chegada dos progenitores, é a cabaça de água-pé que leva à boca em dia de estiagem, e a bebida faz novamente gluglu enquanto lhe escorre pelas goelas abaixo, é a satisfação do estrume nos poceirões da burra a caminho do chão-de-horta que depressa fará crescer enormes pepinos e tomates, patarecos e melancias e sempre, sempre, a água que corre livre pelas regueiras e que ele captura numa folha de couve para sorver deliciado matando a sede em dia de Verão escaldante...
Como o vento que em certos dias de Inverno sopra de todas as direcções, dando-nos a sensação de o ter sempre pela frente, assim são as suas memórias, surgindo sem causa, por vezes indesejadas, impondo a sua própria lógica, que, a bem dizer, não é nenhuma, pois talvez nem mesmo o Sol, que nasceu bem antes da humanidade e certamente morrerá bem depois dela desaparecer, saiba porque se levanta todos os dias a Nascente para se deitar a Poente.
Porque se lembra agora dos ninhos? Porque sofre novamente como quando os rouxinóis-pais o seguiram durante toda uma tarde, piando dolorosamente, por lhes ter tirado os filhos ainda implumes, sonhando, na sua ingenuidade infantil, criá-los e impressionar toda a aldeia ao ser o único possuidor de rouxinóis cantantes? Morreriam pouco depois, nesse mesmo dia, tendo-os antes abandonado já moribundos sobre um muro velho, na esperança vã de que os pais cuidassem deles e deixassem de o perseguir piando de forma tão dorida que a recordação lhe dói hoje como lhe doeu então.
Cai a noite sobre a aldeia, mas não cai ainda a noite sobre o Jaime, pondo fim ao seu definhar lento, qual candeia a que o azeite vai faltando, tresandando a ranço ardido e nauseabundo."

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Invernias de antigamente

Nem mesmo turvados pelo álcool conseguem imaginar esses tempos que um dia virão e que poucos deles conhecerão, tempos em que a aldeia terá telefones, água canalizada, esgotos, estradas e caminhos alcatroados. Não haverá então fome em Portugal, mas outros problemas surgirão, fazendo talvez os seus netos e bisnetos desejarem ter vivido no tempo dos avós, em que éramos, disse-se depois, pobrezinhos, mas honrados e felizes. É sabido, ninguém está bem com o bem que tem. Fiquemos, portanto, naquele Inverno terrível, como poucos terá havido antes ou depois, desde que os Montes são habitados.
Chuva e vento, vento, chuva e frio. Gemia água a terra, rebentaram as nascentes, os regatos cresceram até serem novamente rios, submergiram as pontes, matando mesmo a filha do Mouco. De manhã, atravessara com outras mulheres o rio de Cós, que no Verão é apenas um humilde fio de água, levando o jantar ao homem, empregado na padaria, as outras seguindo para a Castanheira, com o comer para os homens, que laboravam num lagar de azeite. Demorou-se, ajudando-o a carregar as braças de pinheiro ainda verdes com que aquecia o forno, mal protegidas da chuva numa arribana próxima, e no regresso encontrou a ponte já submersa pela inundação. As companheiras recearam atravessar a enchente, mas, ou afoita ou em fezes pela criança de dois anos que deixara sozinha fechada em casa, certamente a chorar desalmadamente há horas, acordando só e sentindo-se talvez abandonada, aventurou-se. Quando já estava na outra margem, afundou-se subitamente numa cova oculta na água barrenta e, apesar de não ter perdido o pé, o ar contido nas roupas levantou-a e a enxurrada arrastou-a sem que ninguém lhe pudesse valer; só no dia seguinte o corpo foi encontrado, numa várzea do Valado.
E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os pexins. Há meses que não podiam pescar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.
Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.
Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.
Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha seja o vinho vendido.

Entre Cós e Alpedriz

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Agonia

A mulher e a filha, que uma só não pode com ele, levam-no para dentro de casa, deitando-o no divã onde dorme só. Ocorre-lhe, então, que toda a sua vida foi apenas um dia que agora chega ao fim, embora a agonia se possa arrastar por meses ou mesmo anos, como sucedeu ao avô, acamado durante seis anos. Até lá, pelo seu cérebro enevoado como o de recém-nascido continuarão a desfilar imagens, sensações, fragmentos de histórias, que não raro se amalgamam numa outra maior — e as personagens desmenti-la-iam se a ouvissem, dizendo que pessoas, tempo e acontecimentos estão
baralhados, mas isso não importa — que é um nome, que é uma data mais do que um açude efémero que tenta deter por um momento que seja Vida e Tempo? O passado mais longínquo e o presente mais recente fundem-se  e vê novamente jovens rostos que morreram velhos — Aquele é o Mitadá, e o velho tem agora oito anos, e ambos ouvem a bisavó contar como fugiram dos franceses para a Mata da Castanheira e como por lá sobreviveram, era ela uma menina e os franceses emboscaram-nos: — Matamo-los?, perguntou um. — Não, deixa-os ir, são apenas crianças, respondeu outro, sem que nenhum dos miúdos estranhasse que a avó tivesse compreendido o Francês, é o deslumbramento da descoberta de um ninho de melro num vergueiro na cova da Silveirinha, e as avezinhas implumes e cegas abrem novamente os bicos enormes relacionando o ruído da folhagem afastada com a chegada dos progenitores, é a cabaça de água-pé que leva à boca em dia de estiagem, e a bebida faz novamente gluglu enquanto lhe escorre pelas goelas abaixo, é a satisfação do estrume nos poceirões da burra a caminho do chão-de-horta que depressa fará crescer enormes pepinos e tomates, patarecos e melancias e sempre, sempre, a água que corre livre pelas regueiras e que ele captura numa folha de couve para sorver deliciado matando a sede em dia de Verão escaldante... 
Como o vento que em certos dias de Inverno sopra de todas as direcções, dando-nos a sensação de o ter sempre pela frente, assim são as suas memórias, surgindo sem causa, por vezes indesejadas, impondo a sua própria lógica, que, a bem dizer, não é nenhuma, pois talvez nem mesmo o Sol, que nasceu bem antes da humanidade e certamente morrerá bem depois dela desaparecer, saiba porque se levanta todos os dias a Nascente para se deitar a Poente.
Porque se lembra agora dos ninhos? Porque sofre novamente como quando os rouxinóis-pais o seguiram durante toda uma tarde, piando dolorosamente, por lhes ter tirado os filhos ainda implumes, sonhando, na sua ingenuidade infantil, criá-los e impressionar toda a aldeia ao ser o único possuidor de rouxinóis cantantes? Morreriam pouco depois, nesse mesmo dia, tendo-os antes abandonado já moribundos sobre um muro velho, na esperança vã de que os pais cuidassem deles e deixassem de o perseguir piando de forma tão dorida que a recordação lhe dói hoje como lhe doeu então.
Cai a noite sobre a aldeia, mas não cai ainda a noite sobre o Jaime, pondo fim ao seu definhar lento, qual candeia a que o azeite vai faltando, tresandando a ranço ardido e nauseabundo…

Entre Cós e Alpedriz (2007)

domingo, 22 de setembro de 2013

Sol de Inverno

Nada tem a ver com a telenovela da SIC. É o título do Capítulo 9 do meu romance Entre Cós e Alpedriz (2007), a que pertence este excerto:

Nuvens baixas correm pelo céu, das Sesmarias para a Santa Rita e, muito mais acima, outras vogam lentamente em sentido contrário, vagas, fluidas, incertas, indiferentes às vinhas perdidas que sobrevoam. Já o Sol de Inverno se esconde por detrás do Alto Casal, o dia arrefece, a luz intensa desaparece, fundindo-se com as sombras do crepúsculo. Ah, se estivesse agora nas Tojeiras, vê-lo-ia mais uma vez desaparecer ao fundo entre os pinhais que ocultam da vista o mar, onde se afundará tingindo-o de rubro.
Mar, mar, tão próximo e tão distante, mar gelado no Verão, afagando-lhe os pés descalços, mar cinzento no Outono, cheiroso do mexilhão com que enchia saca de serapilheira para patuscada na adega, mar violento no Inverno, quebrando-se contra molhes e penhascos, mar azul na Primavera, mar das sardinhas e dos chicharros, onde lavram pescadores em ceroulas de flanela, mar que chega aos Montes trazido pela maresia quando o vento sopra de feição ou nas canastras das peixeiras, as pexinas, correndo para evitar que outra chegue primeiro a casa da freguesa, sempre apregoando o pescado com a musicalidade do falar da Nazaré...
Mar — vê-o nitidamente, tal como o avistou do Sítio quando levou o filho Francisco pela primeira vez à praia, teria o moço então uns seis anos. Ah, como lamentava agora o rigor com que tratara a criança, surra em cima de surra, ralhos sobre ralhos, proibições de fazer isto, de andar com este ou com aquele, e nem a desculpa de ter procedido como todos os outros pais, como o seu próprio pai procedera para consigo, lhe servia já de atenuante. Fora brutidade, fora ignorância, fora maldade, e ainda bem que já havia quem começasse a quebrar o costume que se arrastava há tantas gerações que parecia perder-se na origem dos tempos; vê crianças semi-nuas, vestindo apenas uma camisola interior que já não lhes tapa a barriga inchada pela subnutrição, descalças sobre geadas de Fevereiro, arrancando lâminas de gelo da superfície de poças de água, o ranho escorrendo pelas faces — para “enrijar”, dirão rindo cinicamente as bestas dos pais, tentando assim justificar a crueza com que tratam a prole... Logo, logo, o remorso cede lugar à imagem da água do mar espelhada nos olhos do moço enquanto caminhavam ambos pela beira-mar, os pés finalmente livres das botas que todo o ano os aprisionavam, o perfume da maresia enchendo-lhes o peito, o céu azul cortado pelo voo branco das gaivotas, as sardinhas prateadas palpitando nas redes, a alegria resplandecendo no rosto dos pescadores,
como camponeses após abundante vindima — e lamentava novamente todos os momentos desperdiçados por não ter reparado que os dias desfilavam velozmente como os cavalinhos do carrossel na Feira de São Bernardo, sempre correndo, ora subindo, ora descendo, — Mais uma volta! 'Tá a andar! Entravam crianças, saíam adultos, aqueles que de fora olhavam viam apenas rostos e corpos que rodavam, bem agarrados ao cavalo de pau ou rodopiando em banco rotativo, e na vertigem que as voltas causavam, não sabiam já se os velhos que de lá saíam, — O quê, já acabou? Passou tão depressa!, não seriam as crianças que tinham visto pouco antes a entrar...
(A quem possa interessar: o romance está à venda na Leya Online. Em papel, pode ser encontrado, por exemplo, no Parque dos Monges).

sábado, 9 de março de 2013

Nunca mais Primavera


Badaladas do sino
Ecoam pela aldeia deserta
Porta-voz do destino
Recordam aos velhos a morte certa

Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera
Neste tempo tão chuvoso?

Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração

(Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma)

Lá, onde corre a fresca regueira
onde cresce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão

O sino dobra novamente a finados...

(Entre Cós e Alpedriz)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Mundo pequeno

Excerto do mail de uma amiga: (...) o teu livro "Entre Cós e Alpedriz" [me] foi pedido, via Bookmooch, por alguém com nome árabe que está no Reino Unido! :)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Entre Cós e Alpedriz

Levei anos a escrever este romance e durante a maior parte desse tempo intitulei-o Joaquina Guiomar Afonso, inspirado numa cantiga de amor de Roi Queimado:
"Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
 
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
 
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!

Quando estava quase terminado, teve o mesmo título do último capítulo, De um Verão até ao outro. Só mesmo no fim lhe atribui o título definitivo, que tem o inconveniente de levar alguns leitores a chamarem-me escritor regionalista. 
Não que o epíteto me aborreça: o mesmo dizem, igualmente sem razão, do grande Aquilino; mas considero-o inapropriado: como o meu amigo Arnaldo Marques escreveu então, a matéria do romance
"... é historicamente o século XX português, abafado pela longa e pesada herança salazarenta, vivido numa aldeia do concelho de Alcobaça -- Montes, situada entre Cós e Alpedriz..."
O título final, extraído do dito local Entre Cós e Alpedriz qualquer burro é juiz,  revelou-se certeiro, como salientou na apresentação na Junta de Freguesia dos Montes o falecido dr. Sapinho, então Presidente da Câmara de Alcobaça,  e como confirmam as 5 (pequenas) tiragens que fiz da 1ª edição. E o sucesso não pára: segundo o Google, já há quem o use pelo Brasil. Não faço birras nem cenas sobre autoria e paternidade -- inspirar outros, ser porventura plagiado, envaidece-me. Mas, que diabo, vejam o Google Maps (clicar para ampliar)! Entre Cós e Alpedriz -- só os Montes, outrora terra de Muito vinho e poucas fontes.
NOTA: não é marketing. Tenho apenas meia dúzia de exemplares e pouca vontade de me pôr a fazer a 2ª edição, corrigida com os testemunhos de intervenientes.