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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sob a influência de Fernão Lopes

É antiga a minha admiração por Fernão Lopes, que considero um dos mais talentosos prosadores portugueses de todos os tempos. A interacção com o leitor ("como não queríeis que maldissessem sa vida...") levando-o subtilmente a tomar partido, a capacidade para nos envolver ma acção ("ora esguardai como se fôsseis presente"), a construção de personagens individuais, como Leonor Teles ou Nun' Álvares Pereira, as movimentações do povo de Lisboa ansioso por dar vida e escusar a morte ao Mestre de Avis, a descrição dos padecimentos da cidade durante o cerco, a narração cinematográfica da batalha de Aljubarrota, e do temporal que impediu o Mestre de cobrar Sintra, estão seguramente entre as melhores páginas que alguma vez se escreveram em Português. 
Foi sob a sua influência e de Lazarilho de Tormes, obra-prima da picaresca, que escrevi romance que principia em 1383, aquando  da morte do Conde Andeiro e do Bispo de Lisboa e a populaça amotinado manda nas ruas. Eis um fragmento, em que o protagonista e narrador escapa com dificuldade a linchamento por acusação de pedofilia.

"Acordei estremunhado com gritaria que alvoroçava toda a Travessa do Mata-Porcos, mas antes que assomasse à janela a apurar o motivo da algazarra, entra-me quarto adentro a dona da moradia acompanhada de brava regateira que arrasta consigo pela orelha moço. Olham em volta e não encontrando meu primo, viram-se furiosas para mim, atravessam-se-me à frente, impedindo-me de deitar a mão à espada pendurada em prego na parede ao lado da cama, a regateira empurra-me contra o tabique, deita-me as manápulas à camisa de dormir: onde estava esse canalha, meu primo, que lhe sodomizara o filho?
Olho-a aparvalhado, de nada sabia. Quando tal sucedera?
Não importava, berrava. Não viera a discutir calendários, mas a exigir reparação. Ou acusava-o na justiça e, quanto mais não fosse pela má fama que tinha, não se livraria de ser dependurado como tordo na boiz. Onde estava?
A gritaria atraía mais e mais gente, primeiro mulheres das vielas e da vida, logo seguidas por rapazes vadios que jogavam à bilharda na rua, homens desocupados que por ali arrastam os dias, toda a gente revoltada contra os fidalgos pervertidos que, lá por serem ricos e poderosos, se arrogam o direito de abusar das pobres crianças indefesas, e tantos e tantas entraram porta adentro que o pequeno quarto depressa ficou completamente atravancado, eu espalmado contra a parede, sofrendo safanões, piparotes, injúrias, como se fora o acusado. Tentava protestar a minha inocência, a ignorância do sucedido, mas ninguém queria ouvir as minhas razões: — Cala-te que és igual a ele. Família, farinha do mesmo saco.
A indignação popular crescia: — Ah, isto agora mudou de figura, acabou-se o tempo do “quero, posso e mando”, doravante outro galo cantará, que já não têm quem lhes acuda por parte da aleivosa da rainha!
— Hão-de pagar, senhora comadre, por aquilo que fizeram, por aquilo que nos têm feito, por aquilo que nos fariam se os deixássemos! Este já não escapa e o outro, quando lhe deitarmos a mão…
E das escadas, sem conseguir entrar, o taberneiro judeu grita que comêramos e bebêramos do seu sem pagar. Para não ficar atrás, berra a minha senhoria que lhe devíamos o aluguer do quarto. E a criada gorducha das redondezas acusa-me de dela haver abusado – fora ela a convidar-me, seduzida, ao que então me dissera, pela minha juventude e beleza, naquele tempo em que eu, receando ser sodomita, trabalhava para esclarecer as dúvidas e fatigar o que supunha ser a causa do pecado. E, acrescentava altas vozes, com ela fizera porcarias que são contra a nossa santa religião – - coisas que ela me ensinara, no seu gozo da minha virgindade, dessas a que as mulheres recorrem quando querem contentar os homens e receiam emprenhar -- pelo que se não admirava que também houvesse penetrado o pobre rapazinho no cu, pois a ela o mesmo fizera, isto depois de a desvirginar — e ninguém ria! 
Encostado à parede, via-me já como o pobre Bispo, como o tabelião e o prior de Guimarães que com ele jantavam, mortos sem por quê, lançados da torre da Sé afundo, desnudados, mutilados, a apodrecer em plena rua devorados pelos cães, roídos pelas ratazanas, infestados pelas larvas das varejas, sequer sem enterro cristão. E tomado pela cobardia que, por vezes, acomete até os mais valentes, gritei: – Mas é a meu primo, o senhor fidalgo Álvaro Domingues, que esta senhora acusa. E ele não está. Eu nada tenho a ver com isto, nunca vi o moço mais gordo!
O ruído enfraqueceu. E eu continuei: — Esta mulher acusa a meu primo, não a mim. E não diz quando ocorreram os acontecimentos...
E ela: – Quando? Ora toda a gente sabe. De há meses para cá. Ainda ontem...
Interrompi-a triunfante: – Mentes, má puta velha! Há mais de uma semana que meu primo saiu de Lisboa, a juntar-se à hoste de D. Nuno Álvares Pereira, acrescentei, na esperança de que o patriotismo e a adoração por D. Nuno sossegassem a populaça.
Mas a velha era osso duro de roer: –- Teu primo e tu são unha com carne. Ambos pervertidos e invertidos. Basta ver que dormem juntos, na mesma cama, dizia e apontava com gesto largo a estreita cama que partilhávamos. E virando-se para o filho, rapazote dos seus quinze, dezasseis anos, a penugem do bigode a despontar: – Este também foi? E perante o olhar duro da mãe, o moço aquiesceu com meneio de cabeça. E a velha, triunfante: – Diz alto o que te fizeram estes malandros.
— Tenho vergonha…
— Ou contas ou arrebento contigo antes de arrebentar com o fidalgote!
 — Tomaram-me à força, numa esquina do Poço do Chão, e fui por eles fodudo no cu...
 — Por qual deles?
Pois não o sabia. O olho de trás é furado, acrescentou com esgar malandrino. Talvez até por ambos… 
A fúria da multidão recrudescia. Pouco lhes importava que fosse inocente ou culpado. Afinal todos somos pecadores, assim reza a nossa santa religião, os maiores de todos são os poderosos, a mim não faltariam portanto pecados nem acusadores — se não foi teu primo foste tu, matam-se primeiro, o Senhor apurará depois a inocência ou a culpa e proferirá sentença em conformidade. E uma jurava altas vozes por tudo o que há de mais sagrado que sim, eu era sodomita, vira-me embrulhado com um rapaz, demais a mais judeu, aos beijos na boca e com lambuzadelas como os cães, em tal pouca-vergonha que nos enxotara dali para fora, e cresciam de novo para mim, arrepanhavam-me a camisa, empurraram-me para fora do quarto, lançaram-me escadas abaixo sob socos e pontapés, arrastaram-me pelos pés para o meio da rua enquanto troçavam cruelmente das minhas misérias que a camisa de dormir enrolada ao pescoço não lograva esconder, cuspiam, escarravam, atiravam terra e pedradas à pobre tripazinha que culpavam de haver penetrado rapazinhos, quando a velha, receando que pusessem cobro a meus breves dias com crueldades terríveis antes de haver em mãos o provento do ardil, se interpôs entre mim e a turba: – Pagas já em dinheiro pela desonra e maldades que fizeste a meu filho, ou preferes pagar com o corpo?
E ouvi na multidão a homem que se mantém de mulheres, certamente indignado por algumas delas me haverem ofertado seus serviços: – Paga primeiro em dinheiro, depois com o corpo
 — Pagas ou não?, berrava a regateira, enquanto me sacudia violentamente pelas abas da camisa de dormir.
— Eu também quero o meu dinheiro da vitelinha e das sardinhas comidas e jamais pagadas!
— E eu, os meus alugueres atrasados! 
— E eu, esganiçava-se a criada gorducha sem que nenhum a não desmentisse, exijo reparação por me haver desonrado!
E todos em uníssono:
— Primeiro a mim, que para isso cá vim e me fodeu o rapaz no cu!
— Não, a mim, que me papou as sardinhas e a vitelinha e me mamou o bom vinho!
— A mim, que fui por ele desvirginada!
E eu, apavorado, que em situações como aquela qualquer valente se acobarda, nem ousei continuar a protestar inocência: — Pago.
Prontamente todas as mãos se estenderam. 
 — Comigo não tenho..., mostrando com gesto a nudez, que a camisa de dormir enrolada ao pescoço não ocultava.
 — Vamos então buscar a contia ao quarto de Vossa Senhoria. 
Sempre debaixo de repelões, safanões, estaladas, que todos queriam molhar a sopa e fazer justiça por suas mãos além de receber as contias cujas suas diziam ser, empurravam-me para dentro de casa, depois escadas acima até ao cubículo onde dormia. Nem tentei protestar que lá também nada tinha. Antes, num daqueles relances de ousadia em que a juventude é fértil, sacudi as mãos que me empurravam, entrei lampeiro como se tivesse a enxerga forrada a dinheiro, de um pulo alcancei a espada, feri aos mais próximos sem gravidade, apenas cortes que os fizeram recuar de surpresa e de dor, e antes que me acometessem enraivecidos pelo logro e pela reacção, saltei pela janela para os telhados e corri, corri desalmadamente sempre perseguido por rapazolas, entre os dianteiros o que me acusara de o haver fodudo no cu, enquanto em baixo, pelas ruas e vielas me perseguiam os homens, mais atrás corriam as mulheres ululando por vingança, sangue, castigo cruel para pederastas e sodomitas. E eu, com asas nos pés, pulava sobre casas, saltava de ruela em ruela, telhas partiam-se à minha passagem, uma vez ou outra quase cai dentro dos sótãos, até que, junto à Sé, avistando a prelado a subir indolente a rua, saltei para a rua, tomei-lhe as rédeas, apeei-o da montada sob a ameaça da espada e, enquanto o diabo esfrega um olho, piquei a mula rua abaixo, finalmente a salvo dos meus perseguidores, apenas vestido com a camisa de dormir esvoaçante que nem sempre ocultava as partes pudendas, tão magoadas pela crueldade justiceira da populaça. Por onde passava, atraía a atenção e a mofa, uns a chamarem outros: — Mestre, venha cá fora ver isto! 
E gritavam-me, com a falta de respeito a que, melhor ou pior, me ia habituando: 
— Fidalgo, foges de marido sanhudo? 
— Ná, é de puta a quem ficou a dever.
— Taberneiro. Taberneiro, que o fidalgo é ruim caloteiro..."
JCC

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Lisboa, anos setenta

"Lisboa parece adormecida, como se a chuva a tivesse anoitecido prematuramente, há-de chegar o tempo em que nunca dorme, por agora apenas no Bairro Alto, no Cais Sodré, no Intendente, há arremedos de diversão nocturna, se se pode chamar diversão a arruaças protagonizadas por marinheiros bêbedos da esquadra americana que mal fundearam no Tejo logo correram às putas, outros, de gostos diferentes, fingindo que o fazem por brincadeira, seguem travesti mais produzido que corista do Parque Mayer, onde os burgueses assistem pacatos a revista com umas piadas políticas benevolamente toleradas pelo regime, e o travesti vai ser famoso na sua velhice, quando, mais plastificado que estômago de tartaruga marinha, fizer as capas das revistas de cabeleireira, por viela escura dois marines seguem o R, dos Marinheiros alcunhado, poeta famoso e paneleiro lendário, lá mais para a noite estalarão as tais rixas, pancadaria rija entre os bravos chulos lusos, quais cavaleiros andantes a baterem-se por suas damas, e estes americanos amaricados — que dentro de poucas semanas receberão baptismo de fogo no delta do Mekong e em feroz batalha provarão, mais uma vez, que para a guerra não há como os panascas, como é sobejamente sabido desde os duros espartanos, o grande Filipe da Macedónia, o seu filho Alexandre, magno conquistador e maior pederasta, Júlio, César Augusto, o homem de todas as mulheres e a mulher de todos os homens, os famosos generais ingleses…

Afora putedo, paneleiros e revista no Parque Mayer, a vida nocturna da cidade resume-se a convívio pacato de oposicionistas nos seus cafés, na cervejaria Trindade, também os estudantes se encontram a pretexto do estudo nos cafés, alguns estão no Apolo 70 a ver A Semente do Diabo, e pouco mais, a capital do Império é serena, vive tranquila entre portas, culpa das televisões compradas a prestações que fixam as gentes nos seus lares, eléctricos e autocarros circulam quase vazios, o metro fechou antes da meia-noite, e a cidade repousa já, das Avenidas Novas até às barracas de Chelas, onde chega de táxi o Zé, acompanha-o outro Zé, mas tratemo-los pelos pseudónimos revolucionários, Pedro e Gustavo, adoptados a partir das iniciais do Comité de Luta Anti Colonial do Instituto Comercial, o "Guerra do Povo"."



Inédito meu, de romance em construção.


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Ni Dieu ni Maître

1846. No Minho, em plena revolução da Maria da Fonte -- e na cama com ela.
"Não lhe tinha mentido, não era maçon, pedreiro-livre como ela dizia, embora em tempos tivesse frequentado algumas das lojas que brotavam pela capital como as nascentes no Inverno. Não chegou a ser iniciado, desagradado com o ambiente rasca, nos antípodas da elevação espiritual que sempre associara à Grande Fraternidade, enojado com as intrigas, as disputas de cargos e lugares políticos, o compadrio, a alegre aceitação da corrupção por parte daqueles mangas-de-alpaca que não viam contradição entre os ideais maçónicos de justiça e o suborno que quotidianamente recebiam, inclusive de ambas as partes, nas litigâncias. Passada a novidade, começou a aborrecer os rituais, vendo-os como missa profana, o padre substituído pelo mestre, o bispo pelo grão-mestre, o Grande Arquitecto em vez de Deus, estátuas de santos devotos, imagens beatas, relíquias sagradas trocadas por objectos de uma profissão que não era a sua — martelos, compassos —, aventais ricamente decorados em vez de sotainas, mas sempre, tal como no seio do clero, a intriga, a luta pelo poder, a convicção de que aqueles que estão de fora são bestas ignorantes que importa manipular mas não redimir. E, sem romper por completo, começou a espaçar a participação, incapaz de aceitar como chefes espirituais homens de vícios e de baixezas como os padres, como eles a pregar uma coisa e a fazer o seu contrário. 
A perda da fé, primeiro no Deus bíblico, que apesar dos castigos com que flagelou a humanidade não conseguiu impedir que o Mal infectasse a Terra, depois no Seu Filho, o Salvador vindo ao Mundo para redimir o Homem e dar esperança ao Pobre, e o Homem, dezanove séculos depois laborava nos mesmos erros e mistificações e o Pobre cada vez estava mais pobre, por fim nos belos ideais maçónicos, convenceu-o paulatinamente de que teria de ser ele mesmo, Adolfo, a assumir a responsabilidade de libertar a humanidade das trevas da ignorância em que a queriam manter todos os outros, fossem eles cristãos, maçons, miguelistas, cartistas, setembristas até. Como se cada loja maçónica, cada partido, mais não fosse do que mera carruagem tomada para conduzir à Câmara dos Deputados, à governação. Sem confiar nos outros e nas organizações que criavam e logo atafulhavam de ritos embrutecedores, de rituais de submissão para obviar disputas de poleiro, julgava-se o homem providencial, aquele que chegada a ocasião não recuará e não hesitará em adoptar os meios necessários, em ser o Danton, o Robespierre do nosso tempo! Aquele que, como leu num panfleto francês, não receia recorrer à faca, à bomba, ao veneno, para despertar o povo para a revolução. Ni Dieu Ni Maître! — proclamava o opúsculo. Assim pensava, assim se sentia, livre, disponível para a revolução, à espera de oportunidade, que julgou surgir quando a sorte o bafejou com a reportagem da sublevação do Minho."
JCC, inédito

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

1972 (outro fragmento)

"Não muito longe, na Rua do Salitre, o sr. Fragoso arruma a secretária para sair do emprego, a mulher da limpeza começa a faxina, no Instituto Comercial, ao Camões, a professora de Cálculo Financeiro inicia a última aula da tarde, a que o Zé vai faltar, não por causa do engarrafamento na Baixa, pois anda a pé e poupa os quinze tostões do bilhete de autocarro, mas por ser um dos agitadores, ele que participa na sua primeira manifestação num misto de euforia e de medo. 
Ei-lo a atirar pedra a montra de banco, quem diria que este rapaz, provinciano e pacato, se envolveria em actividade subversiva — terrorista! dirá amanhã o Século, se a censura permitir que publique a notícia que noite alta redigirá o jornalista Ribeiro Esteves, a braços com a dificuldade de fingir condenar o sucedido para enganar o censor, deixando embora nas entrelinhas pistas para os oposicionistas saberem que o regime é contestado nas ruas. Entra o revisor tipográfico, também do reviralho, 
— Já terminou o artigo? 
— Ainda não, precisa de uns retoques, a ver se passa por entre as malhas.
— Duvido. A censura não vai deixar publicar nada sobre a manifestação dos estudantes. O que querem eles, afinal, não cheguei a perceber?
— E eu sei lá? Mas alegra-me que chateiem o regime.
E ficam a discutir por momentos, o revisor tem razão, pouco importa fingir, o  lacaio do lápis azul não permitirá que se noticie que um punhado de estudantes desceu a Almirante Reis, paralisou o trânsito, estilhaçou montra de banco, gritou palavras de ordem que nada dizem aos que as escutam retidos no trânsito a ver a polícia de choque desancar pobres transeuntes,os quais, fiados no proverbial  "quem não deve não teme" se deixam apanhar na confusão —  voltemos ao escritório da Andantino, onde, por causa do tumulto e engarrafamentos, chega atrasado o sr. Antunes, sócio gerente, vem acompanhar o turno da tarde, que patrão fora, dia santo na loja, despede-se do sr. Fragoso com aperto de mão, a dona Lourdes, a faxineira, ouve-o contar que para os lados dos Restauradores há confusão, a polícia de choque dá tareia em estudantes que se revoltaram, e mais em quem apanha pela frente, aperta-se-lhe o coração a medo que o filho estremado se tenha metido nessas desordens, raro é o dia em que lhe não suplica que se afaste dessa malta, cada qual deve acamaradar com seu igual, e nada de política, se o filho vai preso não tem como pagar a advogado, nem como o tirar da cadeia, e ele fica com a vida estragada, será prontamente incorporado — como soldado raso, destruindo o seu sonho de o ver oficial, será talvez mobilizado como castigo para a mortífera Guiné, de onde, se regressar vivo e inteiro, virá marcado com o ferrete de comunista, que para sempre o impedirá de ter bom emprego no funcionalismo público, e o  condenará a vida de escravatura, como a do pai, que Deus haja, guarda-freios da Carris, como a dela, que apenas sonha dar melhor futuro ao filho, assim ele não perca a cabeça e estrague a sua vida."
JCC, inédito, de romance em curso. Porque me apetece.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

1972

Excerto de um inédito meu. Porque me apetece.
"Aquela tarde  de Dezembro de 1972 devia ser igual a tantas outras que a cidade já conheceu desde que Salazar impôs a sua ordem ao país, e o adormeceu como criança ao colo materno, que no conchego esquece os peitos secos, e se não agita a medo de forte palmada, ensinada desde o nascimento  que, se escasseia a comida,  sobeja a porrada para quem reclama.
Esta substituição da comida pela pancada está tão enraizada nas mentalidades que já entrou na língua: é o gaiato que na escola ameaça colega "lá fora tu *comezas*!", e não tenciona repartir o farnel, antes quebrar a cara do infeliz, seguramente mais pequeno, porque, eis outra virtude nacional, espancam-se os mais fracos e bajulam-se os mais fortes, é a mãe que carinhosamente previne o filho após patifaria insignificante, "Vais ver a carga de cachaporra que *comes* quando o teu pai chegar a casa" -- até na capital, de falares mais finos, mais polidos à superfície, se diz das ordens do governo, das leis, das ordens do patrão, por mais abstrusas que sejam: "é *comer* e calar!"
É este o nosso Portugal conformado. O do "come e cala-te", em que se *come* sofrimento, adoçado embora pela linguagem metafórica, pelo que não espantará ouvir camponesa na feira responder a filho que, olhos aguados, lhe choraminga "Mãe, compre-me um bolo!" "Compro-te mas é uma pouca de merda!", isto porque a merda, fedorenta, pegajosa, colou-se não apenas às línguas, mas também às mentalidades —"Este país é uma merda!".
Dois verbos, *comer* e *calar*; um nome, *merda*. Três palavrinhas que resumem o salazarismo e delas  deriva  tudo o mais: o silêncio resignado; a miséria de um povo descalço, a subnutrição, o analfabetismo, a violência animalesca contra os mais fracos. O medo. 
Por isso, naquela  tarde de sexta-feira, chuvosa, tristonha, apenas se deviam ter visto autocarros e eléctricos apinhados de trabalhadores a caminho de casa, fartos da merda do emprego, cansados da merda da vida, parados na Baixa, no Martim Moniz, na Praça da Figueira, no Terreiro do Paço, pela merda dos automóveis de uns merdas engravatados que compram carros a prestações para  entupir as ruas da cidade, e impacientes com os engarrafamentos, com as bestas que são os outros condutores, ainda buzinam infernalmente, interminavelmente, ou exasperados metem a cabeça de fora da janela a berrar "Cale essa merda, não vê que ninguém pode passar?", inconformados com esta injustiça social que os obriga a ficarem parados atrás dos autocarros onde antes viajavam!
Por todo o lado estalam conflitos, "Vá bardamerda!" "Vá você, seu malcriadão!" "Oiça lá, sabe com quem está a falar?", e o pretenso figurão exige a presença das autoridades, mas é sabido que estas só aparecem quando não fazem falta, e o cavalheiro olha em volta, desconsolado: "Quem me agarra, que mato aquele malandro?"
Ainda o não sabem, mas a polícia está ocupada mais adiante, um punhado de estudantes armou arruaça, bloqueou a Almirante Reis, em breve todos estes cidadãos, proprietários de automóvel ou desclassificados utilizadores de transportes públicos, uns e outros inocentes, pacatos, respeitadores da ordem, cumpridores da Lei,  ver-se-ão  envolvidos na  pancadaria, pois a polícia de choque quando carrega é como toiro bravo, também ela só vê pela frente o vermelho que a enerva, ai dos mais exaltados, esses que ciosos dos seus direitos de prioridade, garantidos pelo Código da Estrada,  exigem a presença das autoridades -- levarão umas boas cacetadas, um ou outro será detido e levado para os calabouços do Governo Civil, enquanto a malandragem que armou o desacato escapa por entre as malhas policiais como as ratazanas pelas sarjetas da cidade."

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Vaidade

Ao fim de um mau dia, leio isto, numa discussão entre leitores do blogue Horas Extraordinárias, de Maria do Rosário Pedreira:
"Entre Cós e Alpedriz ... foi dos melhores livros que li nos últimos tempos!
Se fosse pela notoriedade do autor ou pela divulgação que teve, pela editora... jamais o teria lido!"
MUITO OBRIGADO!

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Chuva e fome

A chuva que insiste em nos incomodar, e a mim me impede de plantar as batatas, era há apenas meio século causa de desemprego e fome -- e não era a fome de que hoje os jornais nos falam, era aquela com que se definhava e morria, que não havia então subsídios, nem apoios, nem banco alimentar contra a fome, nem solidariedade organizada. Nesse tempo duro, de penúria e de falta de quase tudo, passei por privações hoje inimagináveis, embora nunca tenha passado fome, nem andado descalço e semi-nu à chuva por falta de roupa e calçado. Mas vi, recordo, e dei testemunho, quanto mais não seja para que se nos queixarmos de barriga cheia, não o façamos na ignorância daquilo por que os pais de muitos de nós passaram.
"Chuva e vento, vento, chuva e frio. Gemia água a terra, rebentaram as nascentes, os regatos cresceram até serem novamente rios, submergiram as pontes, matando mesmo a filha do Mouco. De manhã, atravessara com outras mulheres o rio de Cós, que no Verão é apenas um humilde fio de água, levando o jantar ao homem, empregado na padaria, as outras seguindo para a Castanheira, com o comer para os companheiros, que laboravam num lagar de azeite. Demorou-se, ajudando-o a carregar as braças de pinheiro ainda verdes com que aquecia o forno, mal protegidas da chuva numa arribana próxima, e no regresso encontrou a ponte já submersa pela inundação. As companheiras recearam atravessar a enchente, mas, ou afoita ou em fezes pela criança de dois anos que deixara sozinha fechada em casa, certamente a chorar desalmadamente há horas, acordando só e sentindo-se talvez abandonada, aventurou-se. Quando já estava na outra margem, afundou-se subitamente numa cova oculta na água barrenta e, apesar de não ter perdido o pé, o ar contido nas roupas levantou-a e a enxurrada arrastou-a sem que ninguém lhe pudesse valer; só no dia seguinte o corpo foi encontrado, numa várzea do Valado.
E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os pexins. Há meses que não podiam pescar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.
Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.
Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.
Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha seja o vinho vendido."
José Cipriano Catarino, Entre Cós e Alpedriz, Leyaonline 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Um amor inventado (excerto)

[A meados dos anos sessenta do século passado, dois jovens, entusiasmados com as proezas do grande ciclista Alves Barbosa, montam nas bicicletas e partem da aldeia para darem, eles mesmos, a volta a Portugal. Na descida da Serra da Estrela, em Manteigas, um deles descobre o amor inventado...]

"Em cima, o sobrado parara de ranger e o silêncio profundo envolve novamente a pensão; em baixo, o Jorge esforça-se por se manter acordado para dizer das boas ao João quando voltar. Mas o João não pode descer, novamente preso entre as pernas da criada, que como tenazes o retêm dentro de si, ensinando-lhe que amar requer tempo e vagar; ternamente, a Berta olha-o das profundezas dos seus olhos verdes, diz-lhe meiguices como ele nunca ouviu e certamente jamais ouviria se não saísse da aldeia natal e a encontrasse tão longe, na Pensão Estrela, nos contrafortes da serra do mesmo nome, e arrulha, arrulha, mergulhando pelos olhos dele dentro à procura da alma, talvez para confirmar se se ajusta tão bem à sua como a boca dele ao seu mamilo esquerdo; a barba do companheiro pica-a e inocentemente diz que quando se casarem será melhor ele barbear-se à noite; esquece que o rapaz está completamente saciado, tão depressa não precisará de mulher e, quanto a casamento, Deus o livre enquanto puder — e quando casar não será com uma sopeira, mesmo tendo-se deitado uma noite com ela, ele, que ela terá passado sabe-se lá quantas, vá-se lá saber com quem! As pernas que o retêm, impedindo de sair de dentro dela o que restava dele, empurram-no furiosamente, a mão direita explode na cara do João com o som seco de um tiro de pistola, e é fera assanhada que grita, baixinho, para não provocar escândalo, apontando a porta — que desapareça dali. A surpresa da agressão, a violência da bofetada, dessa primeira vez em que ela lhe bateu, a indignação da moça, levam-no a não querer ser expulso como cão que entra na igreja apenas porque a porta está aberta. É ele que tenta emendar a asneira, é ela que tapa a cara com as mãos e o repele de si com os cotovelos, nua como nasceu, e tão brava está que nem o ouve, fala, fala: bem a enganou, julgou-o diferente dos outros, mas é apenas mais um porco que depois de se espojar volta para o seu masseiro e o seu curral; se já tem o que queria, ou mais do que isso até, porque não desaparece, dali, da vida dela?
Desorientado, exausto e sonolento, o João não sabe o que quer, mas sabe que não pode deixar a moça naquele estado e não acha justo depois de tudo o que ela lhe deu portar-se de forma tão ingrata, como peixe astuto que comeu a isca e escarnece do anzol. A Berta chora inconsolavelmente, enrolada no divã, os joelhos encostados ao queixo, uma das mãos cobrindo os olhos, ou para o não ver, ou para esconder dele a sua nudez, sabido que é assim que as mulheres reagem por pudor, diferentemente dos homens, que, se surpreendidos nus, se obstinam em ocultar com as mãos o que lhes pende entre as pernas; cauteloso como aranha que se aproxima da fêmea, receoso daqueles cotovelos, perigosos e cegos, batem por instinto naquilo que lhes toca, aproxima-se e diz: — Gosto de ti!, a única frase bonita e sincera que lhe ocorre naquele momento de desorientação. Não foi grande coisa, mas a Berta já sabe que não é dado à retórica; virou para ele os olhos verdes e, por entre lágrimas de desilusão e de raiva, surpreendeu-se: — O quê? 
Timidamente, o João repetiu o que antes dissera. Então ela deitou-lhe ao pescoço os braços que antes o repeliam, encharcou-o nas lágrimas que não cessavam de correr, e sem deixar que os olhos dele fugissem dos seus, repetiu-lhe, através deles, que nunca mais, mas nunca mais, lhe dissesse aquelas coisas feias; não o queria contrariado um instante que fosse junto de si; solteiro ou casado, podia deixá-la quando quisesse se não gostasse mais dela; mas sem ordinarices, entendia?
Estranha o rapaz que as lágrimas femininas aticem aquela parte do corpo que já esmorecera, suplicando por repouso... Quem diria que têm esse efeito, ao tombarem sobre os homens?"
Um amor inventado, JCC

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Um amor inventado

A escritora e ilustradora Beatriz Lamas de Oliveira deixou esta nota de leitura no Facebook:
"Um amor inventado, de José Cipriano Catarino.

págª 132: " ..ocorreu à Berta, como raio que iluminasse a escuridão da noite, que o pai não era mau por causa do vinho, antes se embebedava para impunemente poder exercer a maldade".
Berta, a protagonista, é dura e inflexível como as penedias onde foi criada.
Amores, a mim, que sou a leitora deste livro, todos me parecem inventados. São desejos, ânsias, quereres que procuram uma realidade. É talvez como se a vida fosse uma pulsão, entre duas forças antagónicas. O bem e o mal. O bem todos o compreendem e aceitam. O mal quase todos o preferem ignorar e para ele buscam desculpas. Mas quem nunca enfrentou o mal, inventa, não o amor, mas a vida. E as mulheres, a quem demove o choro do homem ou as desculpas do vinho, estiolam em jardins onde nunca chove. Mas amam, por vezes, perdidamente.
Aconselho a leitura do livro!"

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Entre Cós e Alpedriz

A escritora e ilustradora Beatriz Lamas Oliveira deixou no Facebook esta nota de leitura:
"Entre Cós e Alpedriz"_é o livro que estou a ler.Vou na página 139. Autor José Cipriano Catarino.
Neste livro, que devia ser lido por todos os que têm problemas de memória, conta-se com realismo e vivacidade a história de Joaquina Guiomar Afonso. Através da história singular desta mulher, vão surgindo factos históricos que marcam duramente a vida dos camponeses em Portugal no seculo XX. A primeira guerra mundial, a pneumónica, as fomes dos anos ruins, as secas e dilúvios que sempre infernizam a vida daqueles sobre quem o marmeleiro cai. Homens e mulheres vivem dentro do livro, sinto-os vivos como se os tivesse conhecido, sinto-me triste pelas suas dores e pelas cruzes que carregam. É a história colectivo do Povo, aquele que tem as costas largas e anda sempre na boca dos "outros".
Aconselho a leitura. Avivar a memória é como afiar a navalha.
Beatriz Lamas, in Facebook

MUITO OBRIGADO!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Agradecimento

É duro, confesso, continuar a escrever romances na quase certeza de que nenhum editor se interessará pela respectiva publicação. Mas não é surpreendente, tendo em conta que os editores de ficção nacional se contam pelos dedos de uma mão (e sobrarão dedos) e enfrentam eles mesmos dura luta pela sobrevivência, a qual os aconselha a não arriscar em autores sem peso mediático -- e, menos ainda, no dizer do meu amigo António L. Pacheco, em plantadores de couves, de bigodinho. O que, aliás, já me tinha sido dito por um editor contactado depois do sucesso do Eu, Carolina, obra autobiográfica que se vendeu como sabonetes: "O que é que V/ quer, se não dorme com o Pinto da Costa, nem trabalhou numa casa de alterne?")
Note-se que me não me têm faltado propostas de publicação de editoras -- pagando. O que continuo a recusar, indiferente aos eufemismos que envolvem as propostas. A pagar, prefiro fazer edições de autor, que me ficam muito mais baratas, não cedo direitos, os livros são meus, faço com eles o que bem entender. E pouco me afectam os comentários escarninhos dos críticos da edição de autor, que partem da ideia implícita -- e errónea -- de que, se as obras auto-publicadas tivessem mérito, não faltariam editores interessados, esquecendo, por exemplo, Camões, Fernando Pessoa, cada um com apenas um livro publicado em vida, esquecendo aqueles que só foram publicados postumamente, ou os que recorreram sistematicamente à edição de autor, como, por exemplo, Miguel Torga...
Envergonhar-me-ia a auto-publicação se me dissessem que o aspecto gráfico dos livros é mau, que encontraram erros de ortografia ou de sintaxe, incoerências nas histórias, que as narrativas não prestavam, etc.
Porém, os numerosos leitores que ao longo dos anos me têm feito chegar o seu feedback, não raro por escrito, têm sido pródigos em encómios. Haverá, presumo, outros tantos que nada disseram, ou porque não gostaram, ou porque não leram; mas não é meu desiderato agradar a todos. E muito me apraz sentir o respeito dos pares, na certeza de que, oficiais do mesmo ofício, conhecem bem os truques, sabem onde procurar os pontos fracos como costumam fazer nas suas obras antes de as darem à luz pública, faltar-lhes-á como a mim a paciência para amadorismos.
Por isso me encho de orgulho -- tão legítimo como o do operário que terminou a contento tarefa penosa e exigente -- ao ler a recensão que Cristina Torrão, escritora radicada na Alemanha, teve a amabilidade de escrever no seu blogue e no Facebook sobre o meu romance Um amor inventado, e que pode ser encontrada AQUI.
Muito obrigado, Cristina, muito obrigado João Madeira, muito obrigado António Pacheco! Muito obrigado a todos aqueles que ao longo dos anos me têm feito chegar as suas opiniões, persuadindo-me de que vale a pena continuar a escrever! 

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Epigrama do meu trovador

Álvaro Domingues escreveu sobretudo versos satíricos, de qualidade duvidosa, tão impróprios hoje, nestes tempos politicamente correctos, como no seu (morre em Ceuta, em 1425):
"Raramente via a meu primo, que fazia alguma vida social, convidado amiúde para ceias em casa de burgueses ricos e grandes senhores, a quem deleitava com histórias das suas andanças por essa Europa nos seus anos de expatriado, ao serviço de duques e príncipes — eram sobretudo as senhoras da casa, seduzidas pelo exotismo de reinos longínquos, sempre ansiosas por conhecer as grandes capitais europeias, por saber quais as modas, as intrigas, as paixões dos grandes senhores e senhoras. E meu primo, com os seus dons de contador de histórias, e o seu jeito nunca perdido para rimas e outras coisas de folgar e gentilezas, recriava suas narrativas, embelezava-as, pois, mais do que a verdade das histórias, importa o saber contá-las. (...)
E falava então do desprezo que sentia por estas matronas que o tentavam seduzir descaradamente, sem pensarem antes que o esborrachariam sob o seu peso. Improvisara-lhes até epigrama:
Vós, que grande dama vos julgais
Tanto mal me quereis, pois trabalhais
Para me esmagar em vossas camas
Sob vossas banhas, pança e mamas
Deleitai-vos antes com minhas histórias
Apreciai minhas memórias
Que se pouco valor dou à vida
Não a quero em tal sofrimento perdida
Guardo-me para melhor Sorte
Mais honrosa morte
Que debaixo de vós,
dama de grande porte."

Um trovador serôdio

Álvaro Domingues, personagem de ficção de romance meu inédito -- desculpem as redundâncias, mas a experiência mostrou-me que não são escusadas, já que os primeiros leitores se deixaram enganar por ilusão do real demasiado bem construída -- deixou-nos, para além das cantigas trovadorescas que ele muito admirava, mas já estavam fora de moda, versos noutros registos. Por exemplo, estes:
"O esquecimento é a morte
De nós e de nossos amados
Uns e outros levados
Pelo Tempo, pela crua Sorte"

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Setembro

"Eis Setembro, que chega fresco e risonho como a Primavera, após outro Agosto infernal, de calor e de incêndios. Não nos iludamos: nada voltará a ser como dantes. Setembro jamais será Abril, mesmo que este Sol e esta luz nos queiram convencer de que a Primavera dura todo o ano e a juventude é eterna, mesmo que a cidade pareça a mesma, com o castelo indiferente à passagem dos séculos e o Lis correndo sempre ao encontro do irmão gémeo, para juntos procurarem o mar, sonho de todos os rios."
Assim começa Do Lacrau e da Sua Picada, escrito quinze anos atrás. Para minha grande mágoa, tinha então razão, Setembro jamais será Abril, por muito que em dias como o de hoje se assemelhem.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

À conquista de Ceuta

Foi há seiscentos anos. No meu romance inédito Gheke Pepe decorreu assim:
"Porém, nada do que se escreve é o que aconteceu: faltam as cores, os odores, os ruídos, mais do que tudo, a juventude sumida nesse rio que se aproxima da foz para se diluir no mar do olvido, águas indistintas onde tudo o que antes correu se dissolve inexoravelmente… Ou, como na balada de meu primo, cantada a bordo da nau que nos levou até Ceuta, “é no fel que tudo fenece.”

— Cantai-nos uma de vossas cantigas para nos animarmos, pediu D. Henrique, para nossa surpresa, que o infante ao saber-nos seus protectores, zangara-se arrogantemente: já não tinha, barafustava, idade para precisar de amas; menos ainda queria ser guardado por velhos.
Meu primo ainda se quisera escusar; mas o filho de nosso rei e senhor insistiu gentilmente: — Uma de vossas cantigas de amigo, trovador.
Assim instado, meu primo cantou — para galhofa geral. O que aqueles moços queriam era tão só divertirem-se às nossas custas. Não fossem eles os infantes que juráramos proteger com nossas vidas e ter-se-iam prontamente arrependido — se nossas espadas para tal lhes dessem tempo.
— Senhor, protestou meu primo, vosso vassalo sou. A vosso pai sempre bem servi e ele mesmo me incumbiu, é certo que contra vossa vontade, de zelar por vossa vida e segurança. Não é assim justo, nem de cavaleiro (como tal, em Ceuta sereis armado) escarnecer do seu fiel servidor. Compreendo e aceito que minhas cantigas vos não agradem; mas por que as pedistes então?
D. Duarte, mais velho, mais avisado, levou dali o irmão e os moços que com ele acamaradavam. E, pouco depois, em seu nome e no do pai, pediu-nos encarecidamente que desculpássemos D. Henrique: era da tenra idade, era dos mimos com que fora criado, do excesso de atenções de todos os que o rodeavam.
— Vós, senhor fidalgo que tantas provas de valor destes ao serviço de meu pai e de tantos grandes senhores por essa Europa fora, não vos podereis sentir amesquinhado por aquelas infantilidades.
— Senhor, tornou-lhe meu primo, é a majestade que fala pelos vossos beiços ainda bem tenros. Dareis, vejo-o, um grande rei, digno de vosso pai e de nosso reino. Vossa vontade é a minha vontade. Já esqueci a desfeita de vosso irmão.
— Para mostrardes que ressentimentos não haveis, cantai-nos então uma de vossas cantigas.
— Senhor, bem gostaria de o poder fazer, mas a guitarra está desafinada, a voz rouca. Dir-vos-ei porém umas cobras que fiz há tempos e vos poderão ajudar quando sobre nós reinardes:

Longe, longe, vão os sonhos
De minha mocidade
Que a maior idade
Torna medonhos
Assim nos tornamos enfadonhos
Aos ouvidos de nossos senhores
Esquecidas as mercês prometidas
Ninguém nada nos agradece
É no fel que tudo fenece…

— Senhor, vereis que, quando reinar, de vós (e abarcou-nos a ambos no mesmo olhar) me não esquecerei.
Quero crer que não nos esqueceu, apenas que na sua árdua missão de nos governar, neste reino atormentado por fomes e pestes, tem assuntos mais urgentes a que acudir. Nada pôde fazer por meu primo, caído em Ceuta na salvação do infante D. Henrique, que na sua arrogância e desejo de glória, se afoitara no ataque à cidadela e os sarracenos cercaram: a não ser mandar trasladar seus restos para a pátria, mas, morto, nada importará a meu primo o lugar onde apodrecem suas ossadas. Por mim, que com pouco me contento, nada fez, nada lhe pedi, nem ao senhor D. João. Por aqui me arrasto, do quarto até taberna onde engano a fome, da taberna até à Ribeira, invisível para os vizinhos como os velhos soem ser, olhado com desprezo pela nova fidalguia que comprou os títulos pagando a capitão da nau que a Ceuta os levou para os fazer cavaleiros, antes ainda de chegarem a terra, sem jamais entrarem em guerra ou escaramuça que fosse: Vai vilão a Ceuta, vem cavaleiro de papel passado."

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Entre Cós e Alpedriz no Andanças Medievais

A escritora Cristina Torrão, cuja amizade muito prezo, publicou no seu blogue Andanças Medievais uma simpática nota de leitura referente ao meu segundo romance, Entre Cós e Alpedriz. Aqui vai o link, depois, e excepcionalmente, comentarei o meu próprio post:
Entre Cós e Alpedriz

domingo, 31 de agosto de 2014

Contra o fecho de escolas


Fecham as escolas, obrigam as crianças a viagens demoradas e perigosas, todo o dia afastadas das famílias. Desertificam o interior do país. Porém, não me consta que tenham encerrado os serviços inúteis do Ministério da Educação. Quando muito, mudam-lhes o nome.
Na 24 de Julho, na Praça de Alvalade, na 5 de Outubro, nas capitais de distrito, essa hidra de mil cabeças (quem duvidar que as conte) inventa constantemente tarefas inúteis para melhor sobrecarregar escolas e professores, alimenta a burocracia, alimenta-se da burocracia. Uns bons anos atrás, inspirado em factos reais (como mestre Camilo, "não tenho imaginação, tenho memória") trouxe para a ficção uma das suas funcionárias.

"Podia ter telefonado a combinar encontro, mas preferi aguardar a minha nora à porta de casa. Asneira. Passaram as cinco, hora a que é suposto chegar do emprego, as seis, as sete... Eis que finalmente aparece, sai do carro, divertida, radiosa. Interpelo-a, volta-se, vê-me, e quem cora sou eu, homem de outro tempo, ao ver sair pela porta do pendura cavalheiro bem posto que a abraça pela cintura... Ela, surpreendida por me ver ali, à sua espera, mas sem perder a pose nem a prosápia, afasta discretamente o braço do parceiro e cumprimenta-me afectuosamente com duas frescas beijocas nas faces escaldantes: que gosto em ver-me, que prazer, há tanto tempo, que fizesse o favor de subir... Recuso.
Não, não aceita desculpas, certamente veio para falarmos, e depois é sempre um prazer receber o "ex"-sogro, remata descaradamente... E com o mesmo despudor apresenta-me o seu "namorado", acrescentando pudicamente que só o era desde que se tinha separado do Bruno, não fosse eu imaginar coisas...
Ah, não me obrigará a entrar, a fazer sala estupidamente, a ouvir os seus argumentos (sempre o que mais facilmente se arranja). Já estou perfeitamente esclarecido, dispenso mais explicações, e se as julga necessárias não é a mim que as deve dar.
"Adeus", digo secamente, e começo a afastar-me.
Parece surpreendida: "Mas não entra? Temos tanto para conversar... "
"Comigo, não. Já percebi tudo." Afasto-me apressadamente, ignorando malcriadamente os seus chamamentos. Como é que é? Corneia o meu filho e quer a minha bênção? E já no carro, a caminho de casa onde o Bruno aguarda ansioso por boas novas, enquanto peso as palavras, procuro a forma de lhe dizer o que tem de ser dito sem agravar mais a sua neura depressiva, faz-se-me luz, tão certo como dois mais dois serem quatro!
Quando casaram, uns anos atrás, a mulher era professora e queixava-se constantemente dos alunos e respectivos pais, das colegas e da escola, do excesso de trabalho e das agruras da profissão. Colocada no Alentejo, fazia então uns duzentos quilómetros diários de casa para a escola e da escola para casa. O Bruno, para lhe evitar tal incómodo, e também para a ter mais perto de si, aproveitou conhecimentos partidários, meteu cunha, conseguiu que fosse destacada para um qualquer serviço do Ministério da Educação. Nova, gira, certamente aproveita as trinta e cinco horas de ócio para namorar! Não admira, portanto, que se queixasse da sensaboria da relação conjugal, depois de um dia de trabalho exaustivo, por entre mails com anedotas, toques de telemóvel, SMS aos colegas mais atraentes, namorisco no bar antes dos almoços de trabalho para discutir os mais prementes problemas educativos das escolas a seu cargo, como a pertinência do razoado dos respectivos projectos educativos..."

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Incêndio na aldeia

Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, o clarão do incêndio parece vir de lá, e todos acorrem feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear do Abel, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, — Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do Abel e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada. 
— Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, — Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio — afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.
Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear do Abel, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por solidão e por carraças.
Um amor inventado, LeyaOnline

sábado, 14 de junho de 2014

Entre Cós e Alpedriz

António Severino publicou no seu blogue Kontestu uma nota de leitura sobre o meu romance Entre Cós e Alpedriz.

Muito obrigado!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Falando de armas

Deixemo-los, então, matando saudades e apaziguando os corpos jovens, virá o tempo em que se não procurarão com este ardor, bom é que aproveitem agora enquanto as peles escaldam e ruborizam, talvez o que neste momento os une os mantenha colados pela vida fora, a ver vamos, como dizia o tal invisual, e aproveitemos para falar de tropa, armas, tiros, balas; eu sei, é assunto que não merece figurar em romance do nosso tempo, há muito extinto o serviço militar obrigatório, estigmatizadas as armas, estejam elas nas mãos de marginais ou das forças policiais... Se eu tivesse juízo, esquecê-las-ia e faria antes a descrição de um restaurante chique da época, como Os Corações Unidos, falaria do vestuário feminino, matéria sempre interessante, iria até ao Mosteiro de Alcobaça, onde o Marino tantas fotografias tem tirado... Poderia até valorizar a obra relatando como se deixa engatar pelas francesas, mulheres já emancipadas, ardentes e desejosas de conhecer macho latino, espécie que o progresso tem vindo a colocar em vias de extinção e elas próprias apenas apreciam em país estrangeiro, para breves momentos de prazer em curtas férias. 
Mas não: como Camilo, “sou avesso às descrições”. Voltemos, portanto, às famigeradas armas, causa de toda a violência, sabido que sem elas o Homem seria dócil cordeiro, devendo as almas mais sensíveis saltar os parágrafos do capítulo seguinte que tresandam a pólvora e podem ferir tímpanos sensíveis.
Um amor inventado, Leya Online