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domingo, 7 de fevereiro de 2016

Um amor inventado (excerto)

[A meados dos anos sessenta do século passado, dois jovens, entusiasmados com as proezas do grande ciclista Alves Barbosa, montam nas bicicletas e partem da aldeia para darem, eles mesmos, a volta a Portugal. Na descida da Serra da Estrela, em Manteigas, um deles descobre o amor inventado...]

"Em cima, o sobrado parara de ranger e o silêncio profundo envolve novamente a pensão; em baixo, o Jorge esforça-se por se manter acordado para dizer das boas ao João quando voltar. Mas o João não pode descer, novamente preso entre as pernas da criada, que como tenazes o retêm dentro de si, ensinando-lhe que amar requer tempo e vagar; ternamente, a Berta olha-o das profundezas dos seus olhos verdes, diz-lhe meiguices como ele nunca ouviu e certamente jamais ouviria se não saísse da aldeia natal e a encontrasse tão longe, na Pensão Estrela, nos contrafortes da serra do mesmo nome, e arrulha, arrulha, mergulhando pelos olhos dele dentro à procura da alma, talvez para confirmar se se ajusta tão bem à sua como a boca dele ao seu mamilo esquerdo; a barba do companheiro pica-a e inocentemente diz que quando se casarem será melhor ele barbear-se à noite; esquece que o rapaz está completamente saciado, tão depressa não precisará de mulher e, quanto a casamento, Deus o livre enquanto puder — e quando casar não será com uma sopeira, mesmo tendo-se deitado uma noite com ela, ele, que ela terá passado sabe-se lá quantas, vá-se lá saber com quem! As pernas que o retêm, impedindo de sair de dentro dela o que restava dele, empurram-no furiosamente, a mão direita explode na cara do João com o som seco de um tiro de pistola, e é fera assanhada que grita, baixinho, para não provocar escândalo, apontando a porta — que desapareça dali. A surpresa da agressão, a violência da bofetada, dessa primeira vez em que ela lhe bateu, a indignação da moça, levam-no a não querer ser expulso como cão que entra na igreja apenas porque a porta está aberta. É ele que tenta emendar a asneira, é ela que tapa a cara com as mãos e o repele de si com os cotovelos, nua como nasceu, e tão brava está que nem o ouve, fala, fala: bem a enganou, julgou-o diferente dos outros, mas é apenas mais um porco que depois de se espojar volta para o seu masseiro e o seu curral; se já tem o que queria, ou mais do que isso até, porque não desaparece, dali, da vida dela?
Desorientado, exausto e sonolento, o João não sabe o que quer, mas sabe que não pode deixar a moça naquele estado e não acha justo depois de tudo o que ela lhe deu portar-se de forma tão ingrata, como peixe astuto que comeu a isca e escarnece do anzol. A Berta chora inconsolavelmente, enrolada no divã, os joelhos encostados ao queixo, uma das mãos cobrindo os olhos, ou para o não ver, ou para esconder dele a sua nudez, sabido que é assim que as mulheres reagem por pudor, diferentemente dos homens, que, se surpreendidos nus, se obstinam em ocultar com as mãos o que lhes pende entre as pernas; cauteloso como aranha que se aproxima da fêmea, receoso daqueles cotovelos, perigosos e cegos, batem por instinto naquilo que lhes toca, aproxima-se e diz: — Gosto de ti!, a única frase bonita e sincera que lhe ocorre naquele momento de desorientação. Não foi grande coisa, mas a Berta já sabe que não é dado à retórica; virou para ele os olhos verdes e, por entre lágrimas de desilusão e de raiva, surpreendeu-se: — O quê? 
Timidamente, o João repetiu o que antes dissera. Então ela deitou-lhe ao pescoço os braços que antes o repeliam, encharcou-o nas lágrimas que não cessavam de correr, e sem deixar que os olhos dele fugissem dos seus, repetiu-lhe, através deles, que nunca mais, mas nunca mais, lhe dissesse aquelas coisas feias; não o queria contrariado um instante que fosse junto de si; solteiro ou casado, podia deixá-la quando quisesse se não gostasse mais dela; mas sem ordinarices, entendia?
Estranha o rapaz que as lágrimas femininas aticem aquela parte do corpo que já esmorecera, suplicando por repouso... Quem diria que têm esse efeito, ao tombarem sobre os homens?"
Um amor inventado, JCC

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Um amor inventado

A escritora e ilustradora Beatriz Lamas de Oliveira deixou esta nota de leitura no Facebook:
"Um amor inventado, de José Cipriano Catarino.

págª 132: " ..ocorreu à Berta, como raio que iluminasse a escuridão da noite, que o pai não era mau por causa do vinho, antes se embebedava para impunemente poder exercer a maldade".
Berta, a protagonista, é dura e inflexível como as penedias onde foi criada.
Amores, a mim, que sou a leitora deste livro, todos me parecem inventados. São desejos, ânsias, quereres que procuram uma realidade. É talvez como se a vida fosse uma pulsão, entre duas forças antagónicas. O bem e o mal. O bem todos o compreendem e aceitam. O mal quase todos o preferem ignorar e para ele buscam desculpas. Mas quem nunca enfrentou o mal, inventa, não o amor, mas a vida. E as mulheres, a quem demove o choro do homem ou as desculpas do vinho, estiolam em jardins onde nunca chove. Mas amam, por vezes, perdidamente.
Aconselho a leitura do livro!"

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A inspiração vem de Fátima

Passo em frente à televisão onde a minha sogra segue atentamente as cerimónias de Fátima. Ainda ouço ao padre pregador, dito sem se desmanchar a rir: "...a minha alma resolvida no meu Deus..." Deve ser isto a Fé: acreditar sem compreender, acreditar por não compreender, deixar-se levar pela melopeia encantatória, esquecer os porquês, jamais perguntar o que quer isso dizer, que entende por alma, em que acepção emprega o verbo resolver, qual a importância dos possessivos, se acaso estará a insinuar que há outros deuses para além do "meu", sem falar no mistério insolúvel da transformação feminina de uma religião que era masculina do Génesis ao Apocalipse...
Sustenta Alexandre Herculano em obra de cujo título me não recordo e não posso agora procurar porque escrevo no café, longe das cantorias religiosas e procissões, que esta ingenuidade nacional, recheada de santinhos, água-benta e devoções torna o nosso povo muito mais feliz, apesar da sua pobreza, do que os povos protestantes: enquanto o povo português se diverte em romarias e festas, apaga as agruras da vida nas orações que ocupam a cabeça sem a deixar deprimir, enfrenta as catástrofes com resignação católica, tenta mudar o destino pelo negócio das promessas, aos proletários protestantes a sua religião árida, despojada de santinhos, de ícones palpáveis, de ritos encantatórios só lhes deixa como escapatória as bebedeiras brutais após o trabalho, a violência contra os seus, contra as empresas que os sugam até ao tutano, contra a sociedade injusta e desigual que os condena a breves vidas em bairros sórdidos, a sofrer desde a tenra infância horários de trabalho hoje impensáveis, acima das dezasseis horas diárias, isto quando tinham horários de trabalho...
Não é difícil rebater Herculano, apontando situações similares entre nós. Em matérias como o sofrimento humano, o trabalho infantil, a miséria, a ignorância, a violência brutal contra os mais fracos, o alcoolismo, não temos lições a receber dos ingleses. Mas não duvido de que, no fundo, tenha alguma razão. À minha sogra, com 85 anos, ver as cerimónias de Fátima é das poucas coisas que ainda lhe interessam nesta vida; e basta ver a alegria dos peregrinos que por todo o país acorrem ao Santuário para pensar que este ópio do povo é, afinal, bem mais barato e muito mais inofensivo do que muitos outros. E inspirador. O excerto que se segue é do meu Um amor inventado, e passa-se nos anos sessenta do século passado. As rimas e assonâncias são propositadas.
"Chega o patrão, surpreende-se ao ver ali o ciclista do Verão, em pé, especado, expressão de gato que entornou o leite, cumprimenta-o, mas não se alonga em perguntas parvas, do género “O que é que o traz por cá?” — é óbvio que desta vez não faz cicloturismo; quem tem criada moça e atraente como é a sua não precisa de grande imaginação para adivinhar... 
— Canalizador, não é? recordou, estendendo-lhe a mão. É isso. E dos bons, o lava-loiça não voltou a entornar depois que você mo arranjou. Vamos até à sala de jantar, comprei uma televisão, está na hora do Telejornal. 
Cumprimenta clientes que jantam, conhecidos que seroam, toda a gente com os olhos pregados no televisor, TV, dizem os entendidos, ouvidos atentos às conversas, lábios comentando e descomentando, com futebol, fado e Fátima vamo-nos anestesiando e passando o tempo, no ecrã pagadores de promessas rasgam os joelhos entre rezas mastigadas mecanicamente — prometeram, obtiveram a graça, é a altura de a pagar para que no dia do Juízo Final nada conste em seu desfavor no razão divino.
— Venha cá, chama imperiosa a dona da pensão, e o rapaz tem um sobressalto, sabe que vai ser interpelado, admoestado, julgado, receia não passar no exame. É isso mesmo: tem de ouvir das boas, não que dona Noémia se tenha esquecido de que também foi na sua juventude criada de servir, também ela engravidou de moço fogoso, quem o imaginaria ao ver o seu discreto marido entretido a criticar o sacrifício dos peregrinos, contrapondo à fé dos ignorantes as novas ideias da igreja, agora mais avessa a sangue derramado, mais arredada de ritos pagãos."

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Incêndio na aldeia

Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, o clarão do incêndio parece vir de lá, e todos acorrem feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear do Abel, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, — Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do Abel e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada. 
— Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, — Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio — afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.
Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear do Abel, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por solidão e por carraças.
Um amor inventado, LeyaOnline

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Falando de armas

Deixemo-los, então, matando saudades e apaziguando os corpos jovens, virá o tempo em que se não procurarão com este ardor, bom é que aproveitem agora enquanto as peles escaldam e ruborizam, talvez o que neste momento os une os mantenha colados pela vida fora, a ver vamos, como dizia o tal invisual, e aproveitemos para falar de tropa, armas, tiros, balas; eu sei, é assunto que não merece figurar em romance do nosso tempo, há muito extinto o serviço militar obrigatório, estigmatizadas as armas, estejam elas nas mãos de marginais ou das forças policiais... Se eu tivesse juízo, esquecê-las-ia e faria antes a descrição de um restaurante chique da época, como Os Corações Unidos, falaria do vestuário feminino, matéria sempre interessante, iria até ao Mosteiro de Alcobaça, onde o Marino tantas fotografias tem tirado... Poderia até valorizar a obra relatando como se deixa engatar pelas francesas, mulheres já emancipadas, ardentes e desejosas de conhecer macho latino, espécie que o progresso tem vindo a colocar em vias de extinção e elas próprias apenas apreciam em país estrangeiro, para breves momentos de prazer em curtas férias. 
Mas não: como Camilo, “sou avesso às descrições”. Voltemos, portanto, às famigeradas armas, causa de toda a violência, sabido que sem elas o Homem seria dócil cordeiro, devendo as almas mais sensíveis saltar os parágrafos do capítulo seguinte que tresandam a pólvora e podem ferir tímpanos sensíveis.
Um amor inventado, Leya Online

domingo, 19 de janeiro de 2014

Uma boleia atribulada

(Pelos meus dezoito anos (foto de baixo) viajei muito à boleia. Num Verão, corri o Algarve, história que fica para outra ocasião. Acumulei experiências, ouvi histórias, conheci pessoas. Muitos anos depois, passei algumas à narrativa. Uma delas é a que se segue, e situei-a nas curvas de Cós, na subida para a Santa Rita (foto de cima, do mesmo rolo da outra), um dos lugares mais bonitos da minha terra. Vale a pena a visita, sobretudo se incluir também o Mosteiro de Cós, o castelo de Porto de Mós — e os Mosteiros da Batalha e de Alcobaça, estes certamente já conhecidos de todos.)

Na viagem de regresso, estoirado, todo o corpo suspirando por descanso, adormecerá tão profundamente na camioneta que não fará o transbordo em Leiria e voltará novamente para trás... A uns cinco ou seis quilómetros, desperta-o o rádio, em berraria estridente, que condutor e revisor julgam-se sós no autocarro; atarantado vai ter com eles e pergunta se ainda falta muito para chegarem... 
— Já chegámos e já voltámos. Ainda estivemos uns dez minutos na garagem, responde o condutor. Acrescenta o revisor, em tom de justificação: 
— Olhei bem, e o autocarro estava vazio!
Desculpa-se: vinha a dormir, deitado no banco, lá atrás. 
— E agora?, pergunta preocupado, vendo que o autocarro ruge e devora estrada, motorista e revisor desejosos de chegar a casa, sem passageiros que protestem contra os tombos nas curvas ou que gritem assustados com o excesso de velocidade, o rádio sempre berrando tão alto que o João mal se consegue fazer ouvir.
— Ou volta connosco para Pombal, ou sai aqui e vai à boleia. 
— A esta hora, quem parará? 
Mas não tem outra solução e é isso que faz, com tanto azar que o deixam junto a um cemitério, raio de lugar, raio de hora, como chegará a casa, a uns bons trinta quilómetros? Meia hora depois, avista uns faróis, pede insistentemente boleia, o carro afrouxa, chiam os pneus com a brusquidão da travagem, ainda tenta explicar-se, mas interrompe-o voz apressada: — Entre! 
É médico e já devia estar há horas no hospital de Alcobaça, atrasou-o outro parto que correu mal, imagina rindo a fúria da parturiente que o aguarda gritando com dores, as imprecações da parteira, uma e outra supondo-o no conforto de cama de amante ou em farra bem bebida — se é homem há que esperar o pior, dir-lhes-á a sabedoria feminina. Não está incomodado, insultos e pragas aliviam o sofrimento de uma e a aflição da outra, e talvez entretanto a criança nasça sem a sua ajuda, poupando-lhe o trabalho de a pôr cá fora. É também aflito que o João se retesa e segura ao que pode, enquanto o doutor, divertido, troça dos seus receios, estranhos em quem pede boleia à porta do cemitério à meia-noite: parara convencido de que fosse alma penada que quisesse fugir de lugar tão macabro... O João, desesperadamente agarrado à porta para evitar cair em cima do doutor nas curvas, para não ser projectado nas travagens nem bater com a nuca nas acelerações, que, embora o veículo tenha já cinto de segurança não sabe como o pôr nem se atreveria a fazê-lo, ofendendo o condutor, aproveita uma recta para se explicar: tinha ido visitar a namorada, adormecera na camioneta e perdera a ligação... O médico ri, imaginando os motivos. Depois, sério, vendo a cara inocente do rapaz, dá conselhos, os quais, como sempre sucede com todos nós, só serão tomados, se o forem, tarde de mais. Diz-lhe que o comportamento feminino é frequentemente imprevisível, porque homens e mulheres pensam e reagem de diferentes maneiras, dão diferente importância às coisas... O João ouve-o, embora a atenção se concentre na estrada, como ele próprio gostaria que o médico também fizesse, olhando para o caminho em vez de o olhar nos olhos quando fala, bom seria também que não tirasse as mãos do volante para gesticular... Vendo que o pendura está mais preocupado com a sua condução “agressiva”, como a caracteriza, do que com os conselhos que prodigaliza, lembra-lhe que ele próprio trava quando entender necessário, não precisa o João de o fazer, nem de se inclinar nas curvas, que não vão de mota... Agora as mulheres, insiste, talvez por as considerar especialidade sua, pela profissão e pela importância que lhes dá fora dela, as mulheres podem ser, e são frequentemente, um problema, porque os homens as não compreendem nem são ensinados a fazê-lo. 
— Por exemplo, há mulheres que no período mudam por completo de comportamento, tornando-se agressivas, más, embirrantes, entendendo que por elas passarem mal os companheiros se devem desfazer em atenções, quando muitas vezes eles nem sequer sabem do sofrimento que as aflige — mas se gostassem realmente delas, deviam adivinhá-lo, sem que fosse preciso explicar-lhes, pensam elas. 
— Olhe, continua, conheci casos de casais com óptimo relacionamento que acabaram por se separar por causa desta incompreensão, elas ofendidas com a falta de solidariedade para com os tormentos delas, tão zangadas ficavam que acabada a menstruação os continuavam a privar da ração ou, se acaso entretanto faziam as pazes, entretanto começava novo período... Um círculo vicioso, está a ver, não é?
Mas o que o João via era a morte diante dos olhos: chiavam pneus, os faróis devassavam a noite, árvores e muros corriam loucamente direito ao carro e desviavam-se no último momento, o cheiro da borracha queimada penetrava novamente no interior do veículo... A dada altura, uma nuvem de centelhas chispou quando a parede de uma casa se não arredou, mas o médico nem sequer afrouxou: 
— Deixe lá, é só chapa riscada, o seguro paga a pintura. Onde é que você mora? 
E insistiu em o deixar em casa, para terror do João, ao imaginar aquela condução louca pelas curvas de Cós acima. Tinha razão em se assustar, que o médico parecia querer antecipar o lema que o povo defendeu nos anos noventa, sem conseguir convencer o Presidente da Câmara: Vamos fazer das curvas uma recta! Por várias vezes o carro teve pelo menos uma roda no precipício, chegou a entrar pelo atalho e após saltos violentos, apercebendo-se de que a o caminho não era por ali, acelerou em marcha atrás, enquanto os cabelos do João se punham em pé ao ver a velocidade a que recuavam sem que fosse possível descortinar na escuridão os limites do abismo; na Curva da Segunda o automóvel derrapou tanto que quase fez inversão de marcha: 
— Isto sim, são curvas que dão luta! Hei-de cá voltar! 
Subiam já em estrada melhor. 
— Olhe, tenho uns colegas com a mania dos ralis, vou desafiá-los para uma corridinha até cá acima.
— Moro aqui, senhor doutor, atreveu-se o João, ainda distante de casa, receoso de que o bólide entrasse pela sua rua adentro, raspando paredes, alvoroçando cães, apavorando moradores. — Muito obrigado pela boleia, sr. dr.!
— Não tem de quê. Olhe, tome o meu cartão, pode precisar se a sua namorada engravidar...
— Já está, descaiu-se o João. 
— Vê-se que você é dos que não perdem tempo!
Um Amor Inventado (ebook, Leya Online)

domingo, 27 de outubro de 2013

Um amor inventado (5)

Mais para a noite, já com a sala de refeições limpa e arrumada, a loiça lavada e a cozinha em ordem para a lida da madrugada seguinte, o João e a Berta poderão namorar um pouco, na sala, nada de poucas-vergonhas, chegam as que já fizeram, pensa a patroa, momentaneamente esquecida das suas enquanto jovem... Sentados em frente um ao outro, conversam em voz baixa, mas quando do hall que serve de recepção e de escritório chega o tilintar das moedas retiradas da caixa registadora, se ouve o ranger de ferrolhos que trancam portas e janelas, certos de que os donos da pensão estão ocupados e afastados, perdem compostura e atiram-se desesperadamente um ao outro, ardendo ambos no fogo do desejo, as bocas coladas, a Berta de olhos fechados, os do João arregalados, e as mãos dele, talvez por estarem desocupadas e quererem também elas participar, tacteiam em vão procurando abertura para a pele dos seios da Berta, e ela, receando ser apanhada descomposta, afasta-lhas, mas teimosas, insidiosas, porfiam por cima da roupa, talvez para confirmarem se ainda se ajustam perfeitamente, feitas umas para as outras, dissera a Berta naquela noite de Julho já tão distante... Ah, mas tendo as mãos encontrado passagem e posto a nu um seio, a boca toma a dianteira, ardorosamente, apaixonadamente, já a Berta ruge, novamente em surdina, e tem de o afastar a contragosto — uma mulher como ela não é de ferro, e certas coisas são como o vinho, se não é para fazer efeito mais vale afastar o cálice...

Ouvem porta que bate ao fechar, saltos altos martelam no corredor, advertências inequívocas de que lá vem a patroa, ruidosa para evitar surpresas, para não ver o que não quer — então teria de dizer o que é seu dever mas não seu prazer — e encontra-os decentemente sentados frente a frente, apenas as mãos enlaçadas mostram que se trata de um par de namorados, respeitável, constata com satisfação dona Noémia, que não admite poucas vergonhas em casa sua, embora no seu íntimo saiba que rapaz tão bem comportado, se existe, não servirá nunca para mulher que se preze — há que guardar as aparências, mas não as ilusões. Chega o marido, boceja, são horas de deitar, amanhã, domingo, será dia de trabalho como os outros, sete dias tem a semana, cada qual de labuta, só o Senhor, porque é Deus Todo-Poderoso, pôde descansar num deles...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Um amor inventado (4)

Amanhã (...) dirá das boas ao mau amigo que o atraiçoou, encher-lhe-á os ouvidos: se pensa que a Berta gosta dele é um grande parvo, está na cara que dorme com o primeiro que lhe entrar no quarto; ofenderá sentimentos e moça perguntando repetidamente quanto é que lhe pagou... O João seguirá mais adiante ou
mais atrás, desinteressado da sua companhia, que parece querer evitar --- como gato que entornou o leite,
na opinião do Jorge, porque não está para aturar as provocações do ex-amigo, pensará amiúde o João e, para fugir às suas conversas, pedalará furioso, cheio de força como se tivesse dormido regalado toda a noite, embora, como sabemos, apenas tenha caído no sono por breves instantes, após cada uma das vezes em que o sobrado rangeu. Vai enlevado no seu mutismo, a cabeça perturbada por ideias e sentimentos contraditórios --- talvez goste da Berta, e o aperto que sente na garganta seja a saudade a magoá-lo: apesar de só se ter afastado dela duas escassas horas, já os separam montes de pedra e montanhas de preconceitos; mais do que a estrada que se abre à sua frente --- rectas, curvas, subidas penosas, descidas em que folgam as pernas --- o que lhe enche os olhos é sempre o rosto da rapariga, os loiros cabelos soltos, os dentes fortes e sãos, a pele branca, as sardas, até nas mamas --- ah, as mamas! Maiores do que pareciam com ela vestida, mas como se lhe ajustavam às mãos, aveludadas e rijas! e os mamilos... Melhor pensar noutra coisa, pedala numa bicicleta e se se entusiasma lá está o selim para o reprimir dolorosamente; por isso, faz subir o olhar, passa pela boca ardente que parece querer engolir inteiro o seu ser, e afoga-se nos olhos, fundos como poço verde dos limos com que as rãs o atapetaram. Olhos que se despediram ‘‘tão tristes, tão saudosos, tão doentes da partida’‘ estavam os rapazes prestes a abalar. Ignorou o Jorge (...), que parecia esperar justificação atabalhoada capaz de lhe salvar o orgulho. Foi direita ao João, já montado na bicicleta, agarrou-lhe o braço nu e suplicou: --- Promete que não te esqueces de mim.

Ao lado, o Jorge, despudoradamente, ofendia a moça e ridicularizava o João: --- Isto é só amor! E para se apaixonar, basta entrar-lhe no quarto, que a Berta deixa sempre a porta aberta! Tás aqui tás casado coa tipa! ‘Bora, que o fotógrafo já está à nossa espera, na estrada de Coimbra!

Envergonhado, apenas conseguiu responder que jamais a esqueceria. Então, sem timidez nem discrição, a Berta puxou-lhe a cabeça e beijou-o na boca, profundamente, demoradamente, como se procurasse aprisionar-lhe a alma, ou então apenas impregná-la com lembrança que o acompanhasse na viagem de regresso à aldeia natal e não mais lhe permitisse olvidar a criadita da Pensão Estrela. Partiu, deixando atrás de si palavras de circunstância que se misturavam com as lágrimas que jorravam do poço fundo que eram os olhos da Berta fundidos num só, tão perto de si e tão profundamente o olhava, lágrimas que rolavam pelo avental, tantas, tão abundantes, que algumas tombavam na terra batida do caminho, desaparecendo no pó como as palavras na aragem matinal.

domingo, 20 de outubro de 2013

Um amor inventado (3)

Recordava, saudoso, uma vez após outra, os momentos que passaram juntos, procurava significados que lhe tivessem passado despercebidos e, antes que o olvido lhos apagasse da memória, revivia todos os pormenores de que se conseguia lembrar — o corpo sardento da rapariga, a cara dela, a sua maneira de olhar e de sorrir e, sobretudo, cada um dos seus gemidos, dos seus suspiros, das suas palavras quando parecia voltar de novo ao presente, como se também ela tivesse caído em poço profundo, saciada, boca aberta, corpo lasso, olhos semicerrados e vazios. Ouvia-a de novo a falar de si própria, contando por alto a pobreza em que nasceu e viveu, quase vendida pelos pais, que assim se livravam de uma boca para alimentar e ainda hoje lhe ficavam com a quase totalidade do magro ordenado, — Não fazes ideia ideia o que é a vida de uma criada, trabalhando de madrugada até às tantas da noite, sete dias por semana, não imaginas o que é preciso aturar aos clientes em má-criação, apalpões e piropos porcos, aos patrões, que não sendo dos piores, são patrões e basta.
Falava, os olhos afundados nos dele, e perguntava-lhe se no dia seguinte ainda se recordaria dela, se alguma vez a procuraria de novo. E o João queria dizer que sim para a não magoar novamente; mas faltava-lhe a prática do logro que torna sincera a mentira, ainda por cima com a Berta a ver-lhe a alma através da menina dos olhos: 
— Mentiroso! E tapava-lhe a boca com a mão, impedindo-o de jurar falso. 
E um amor inventado, que há muito ultrapassara os cinco minutos, crescia como o Zêzere, tão humilde na nascente, no Cântaro Magro, lá no alto da Serra, verdadeiro mar azul em Castelo do Bode, onde o aprisionaram, impedindo-o de jorrar impetuoso para o Tejo para seguirem juntos lado a lado em busca do mar, sonho de todos os rios — também os moços, nascidos em montes tão diferentes, se criam separados para sempre.
Um Amor Inventado  --  romance motivado por poema que marcou a minha juventude:  A Invenção do Amor, de Daniel Filipe. À venda na Leya Online)

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

In illo tempore

Começa a nossa narrativa já não naquele tempo em que Jesus andava pelo Mundo, mas noutro igualmente saudoso, em que a missa era ainda em Latim para gáudio da miudagem que, ao fundo da igreja, o mais afastada possível de beatas, pouco compreendendo e menos ainda querendo entender, adulterava as respostas, mantendo a música: se, do alto do altar, o padre abria os braços e lançava cantado Dominus vobiscum, haveria malandro que substituiria o Contigo também entoado em coro por Merda pra ti também, com ar tão inocente que se, acaso, olhares indignados se viravam para trás era por causa da risota e não do dito... Orate frates, dizia o vigário e o povo respondia em vernáculo Oremos, enquanto ajoelhava no cimento da capela — mas o que se ouvia, se estivéssemos perto e atentos, era moço sussurrar, ao baixar-se como faria em vinha para arrear o calhau: Caguemos!

Pregado no crucifixo, Jesus refulgia quando a passagem da sotaina do padre espevitava as velas, como se também ele animasse com os disparates da mocidade naquele ritual chato e repetitivo e então eu pensava que se Ele saísse da cruz onde o aprisionaram para todo o sempre, também Ele quereria escafeder-se do cheiro a cera e a incenso, sem mágoa abandonaria beatas e templo mal iluminado e, atraído pelo Sol que resplandecia nos vitrais, voaria aliviado para os céus, sem esperar pelo final daquele santo suplício semanal que torturava a nossa juventude e O castigava há quase dois milénios...
Corria assim a vida, lenta, chata, sonhando com os vinte anos, distantes, tão distantes como a eternidade — então eu deixaria a aldeia, embarcaria, correria mundo sofrendo tempestades, evitando icebergues, sim, conhecia já a palavra, que já lera e relera Pedro, Pescador de Baleias, e também eu as caçaria, ou enfrentaria os piratas na Ilha do Tesouro, ou então chamar-me-ia Zé Crusoé e sobreviveria com arte e manha, sozinho numa ilha deserta do Pacífico...
O Sr. Prior prosseguia com o ritual e eu alheava-me novamente, e conversava agora com o próprio Jesus, persuadindo-O a deixar-me ajudá-lO a endireitar o Mundo, que tão mal andava; já então a Morte, como fim de tudo, me apavorava, sem que, por isso, me convencesse a retórica do padre apregoando o Céu, assustando com os padecimentos infinitos do Inferno. Não, aquele Céu de devoção beata, água benta e hóstias desenxabidas, tresandando a cera e a incenso, feito à imagem e semelhança de uma qualquer capela mal iluminada, onde o prazer adviria exclusivamente da eterna adoração a Deus, não me convencia, como me não seduzia viver a Eternidade na companhia dos velhos e velhas que assistiam ao Santo Sacrifício dominical.

Sobrevivíamos; hoje, meio século depois, creio que éramos felizes; naquele tempo, a palavra não tinha significado. Sabíamos o que era doença e saúde, fartura e miséria, frio e calor, mas felicidade não pertencia ao nosso vocabulário.

Um amor inventado. À venda na Leya Online

domingo, 6 de outubro de 2013

Um amor inventado (2)

"É tempo de nova pausa na narração, não para virarmos envergonhados a cara para o lado, mas apenas porque os jovens precisam novamente de intimidade, já outra vez o sobrado range, força ele para baixo, responde ela para cima, até parece que estão em desacordo, eles que rugem em uníssono. Deviam ter apagado a luz, para que, mesmo que quiséssemos, não víssemos nada; assim, não há como evitar, diga-se apenas que fazem um belo par, enlaçados, momentaneamente apaixonados, novamente alquebrados, outra vez o João a adormecer — sempre a mesma coisa, só para eles a cena não é monótona."

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Um amor inventado

"Escurecia rapidamente. Dos arbustos ao fundo do jardim chegou o arfar de amantes escondidos e ouviu-se distintamente pergunta augada: — Agora tu deixavas!

— Deixava!, rosnou ela, e talvez ali tenha sido gerado outro ser vivente, que virá ao mundo pela mesma razão que todos nós viemos: porque calhou, como há milhões de anos calha de cada vez que a Vida decide que um único espermatozóide entre milhões de iguais penetrará num óvulo, simplesmente isso, aquele girino que jamais ouviu falar de amor, de moral, que não compreende metáforas, nem filosofias, nem teorias científicas explicativas do seu comportamento, nada cego rumo a um destino que apenas pressente, querendo ser o primeiro e o único, alcançá-lo-á, vá-se lá saber como, a Vida perpetua-se e a morte inelutável do Ser é outra vez adiada.

— Vamos embora daqui, disse a Berta, talvez por ser já noite e o ar estar gelado, talvez incomodada com os gemidos de outro amor inventado agora mesmo e ali ao lado, que tanto pode ser esquecido já daqui a minutos quando a coisa murchar, como durar até que a morte os separe, fortalecendo-se com a passagem das décadas, crescendo em ternura o que diminuirá em desejo... A ver vamos, que é matéria incerta."

Um Amor Inventado  --  romance motivado por poema que marcou a minha juventude:  A Invenção do Amor, de Daniel Filipe. À venda na Leya Online)