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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Setembro

"Eis Setembro, que chega fresco e risonho como a Primavera, após outro Agosto infernal, de calor e de incêndios. Não nos iludamos: nada voltará a ser como dantes. Setembro jamais será Abril, mesmo que este Sol e esta luz nos queiram convencer de que a Primavera dura todo o ano e a juventude é eterna, mesmo que a cidade pareça a mesma, com o castelo indiferente à passagem dos séculos e o Lis correndo sempre ao encontro do irmão gémeo, para juntos procurarem o mar, sonho de todos os rios."
Assim começa Do Lacrau e da Sua Picada, escrito quinze anos atrás. Para minha grande mágoa, tinha então razão, Setembro jamais será Abril, por muito que em dias como o de hoje se assemelhem.

sábado, 14 de setembro de 2013

Quase como Diógenes

Éramos novos, acreditávamos, procurávamos.  Não apenas um homem -- então como hoje, uma raridade -- mas a humanidade. E a verdade, a beleza, a justiça. De dia, como Diógenes, mas também na negrura da noite, impenetrável, misteriosa, sedutora -- irresistível.
Irrelevante o que achámos. Como a certeza de que as verdades que nos moviam residiam no ferrão peçonhento de um lacrau. Que a justiça, mais retórica, menos retórica, continua a ser a lei do mais forte. Que a própria beleza é passageira...
Mas descobrimos também, como os jovens das gerações que nos precederam, que é a procura que anima a vida, lhe dá sentido, e nos diferencia dos restantes animais, não humanos e humanos. Que a beleza está em ajeitar o caminho que inevitavelmente teremos de percorrer. 

FOTO: o Henrique, anos 70. Acampados na Serra da Estrela, na neve, com frio que nos trespassava. Éramos assim.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Ebook: Do lacrau e da sua picada

O meu primeiro romance, Do lacrau e da sua picada, foi publicado em formato ebook pela Leya Escrytos, e já está disponível nas principais lojas (Apple, Amazon,...).
Não gosto de elaborar resumos e sinopses: se precisei de duzentas páginas em que não há, nem poderia haver, uma palavra a mais ou a menos, ou não o teria considerado terminado, como posso reduzir o livro a algumas linhas?
Assim, sugiro a quem tiver paciência e apetência a leitura da amostra gratuita, certamente mais esclarecedora do que a sinopse que acompanha o ebook.
Em breve, terá a companhia dos irmãos mais novos -- Entre Cós e Alpedriz, Um Amor Inventado, GueHek Pepe.
As críticas e sugestões são sempre bem-vindas e muito apreciadas.
(IMAGEM: do pintor João Alfaro, autor da capa da versão em papel)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O título do lacrau

Há dias expliquei aqui o título de Entre Cós e Alpedriz. O lacrau, o meu primeiro romance, quer também ver explicitada a razão de ser do seu título:

Ao fundo, de costas para o Lis, atrás de uma mesa tosca, sem funil nem megafone, estava de pé um homem de boina, aspecto de cavador. Sobre a mesa, em duas caixas de sapatos, escorpiões agitavam caudas e tenazes em tentativas frenéticas para fugir do cativeiro. Sempre que algum o conseguia, caindo sobre a mesa, as mãos encortiçadas do curandeiro seguravam-no, pegando-o entre o polegar e o indicador. Então levantava-o à altura dos olhos, deixava o medo e a repugnância crescerem entre a assistência, e voltava a colocá-lo na caixa de onde se evadira.
As pessoas aproximaram-se, mas não demasiado, e observavam, curiosas e horrorizadas, os homens tecendo comentários sobre o que sucede à pessoa que tem a desdita de ser picada pelo ferrão de semelhante bicho, as mulheres apertando os filhos pequenos ao peito ou, se mais crescidos, agarrando-os firmemente pela mão para que a curiosidade juvenil os não fizesse aproximar demasiado, advertindo-os sobre os perigos deste inimigo da humanidade, eles e elas recordando o velho aforismo: Se o lacrau voasse e a víbora visse, não havia ninguém que no mundo existisse.
Quando a multidão se adensou, o curandeiro falou. Segurou um lacrau à altura dos olhos, para que todos o vissem bem, das tenazes que se agitavam convulsivamente ansiando por presa até ao ferrão que procurava em vão vítima, e disse:
— Este bicho é mau e nojento, mas bem pior é o que alguns de vocês têm dentro do próprio corpo, talvez sem ainda o saberem.
O silêncio arrepiou a multidão, espraiou-se como água agitada por pedrada até às últimas filas e retrocedeu outra vez até ao centro. Então o curandeiro falou de novo:
— Uma picada mata, uma picada cura. A picada do lacrau mata a pessoa... ou o escorpião que a devora. É preciso saber escolher. Lacrau macho para cancro fêmea, lacrau fêmea para cancro macho. Quem quer experimentar?
(Tantos anos se passaram já! Contudo, fecho os olhos e continuo a ver, fascinado, os escorpiões passeando pelas mãos calejadas do curandeiro, ressequidas e tostadas por uma vida de trabalho de sol a sol, o olhar honesto de quem recusa usar o seu dom para fugir à enxada, com o brilho de quem está disposto a sofrer e a morrer pela sua verdade, mesmo que ela resida no ferrão peçonhento de um lacrau, macho ou fêmea, tanto faz. Ah, como o compreendo, eu que também tive uma verdade, venenosa como aqueles escorpiões, e a perdi algures no tempo, juntamente com a minha mocidade!)

A epígrafe deste blogue

A frase que serve de epígrafe a este blogue ocorre neste excerto de Do lacrau e da sua picada:
Calmamente arranja-se para sair, está uma linda tarde de Inverno, dará uma volta a pé, quando regressar sentar-se-á num dos bancos do jardim em frente à sua casa, sorrirá vagamente porque é a primeira vez que o faz desde que ali mora, ela é mulher de centros comerciais e de bares, não de jardins públicos e ar puro.
Pela janela, o Luís avista-a, tem um impulso, correr até ela como fazia em criança, contém-se, com a idade vai ficando mais tímido. Atira-se novamente para cima da cama, não sabe o que pensar, mas julga que tem de pensar qualquer coisa, talvez seja sua obrigação ralhar com a mãe, persuadi-la. Contudo, ela falou de modo tão seguro que pressente não valer a pena insistir, embora algo lhe diga que é essa a sua obrigação, os filhos devem tomar conta dos pais, especialmente o Luís, que tem pais tão difíceis. Chora impotente, convencido de que se já fosse um homem saberia o que fazer, mal ele sabe que está enganado, os homens, mesmo muito velhos, morrem meninos.
O Sol desce rapidamente no horizonte e é escondido pelos prédios de andares que circundam o jardim; o frio instala-se. A Lúcia regressa a casa, está calma, como se tivesse encontrado algum sentido para a sua vida. Começa a cozinhar, sem mau humor, quase com prazer, embora algo distraída. Não nos enganemos, não é nem nunca será uma dona de casa prendada, cada qual é para o que nasce, apenas precisa de actividade física ou então sabe que tristezas não tiram o apetite a rapazes de catorze anos. Pelo canto do olho, vê chegar o filho, que começa a ajudá-la sem que lho tivesse pedido. Sorri-lhe. Ele fala:
— Mãe, acho que devia ralhar contigo, mas não sou capaz de o fazer. Conta-me tudo: quem é, porque é que te queres casar, o que vai ser de mim...
A mãe pega-lhe ao colo. Não é fácil, o Luís já é bem maior do que ela, faz-se a olhos vistos um latagão como o pai. Desta vez, ele não resiste. Deixa-a acariciar-lhe o cabelo, beijá-lo, Ah, é bom voltar a ser criança novamente, um dia o Luís descobrirá que um homem é só uma criança crescida, não precisa de se envergonhar por chorar no colo da mãe, que se explica no tom de voz meigo com que antigamente, quando fugiram de casa do pai, lhe contava histórias para o acalmar e adormecer: (...)