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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Rimas, aliterações e assonâncias

Rentes de Carvalho alerta neste post para o desprezo que alguns escritores parecem mostrar pelo ofício da escrita, ao centrarem o seu labor na história, não fazendo, ou relegando para outros -- editor, revisor, etc. --, o trabalho fastidioso de lapidação da frase e de polimento de texto.
Tais autores esquecem algo que é óbvio para os poetas: o som é tão importante como o sentido, pelo que, não raro, ao descurarem o trabalho formal, prejudicam o ritmo e a elegância do texto.
Porém, atrevo-me a acrescentar aos conselhos do mestre um outro, extensivo, aliás, a todos os conselhos de todos os mestres: depois de os ter interiorizado, é preciso esquecê-los. Ir mais além -- ou jamais passaremos de imitadores. Primeiro aprender com humildade, depois aplicar com zelo, finalmente seguir o nosso próprio instinto, escrevendo segundo o nosso gosto.
Assim, as assonâncias, de que Rentes de Carvalho dá abundantes exemplos, tanto podem revelar desleixo do escritor como evidenciar uma intenção estilística. Neste caso, corre-se o risco de desagradar a certos leitores, que podem ver nelas expressão de mau gosto. Outros, pelo contrário, menos presos aos cânones, sabedores de que o escritor transgride frequentemente a norma, podem deixar-se enlevar pelo efeito encantatório das repetições.
Com efeito, se tudo na natureza se repete -- os batimentos do meu coração, nascer e pôr-do-sol, dia e noite, estações do ano, luzes, formas, cheiros, sabores, sensações, prazeres, sofrimentos --, se a poesia e a música assentam na repetição, porquê evitar a repetição de palavras e de sons na mesma frase?
Veja-se o que faz o Padre Vieira no excerto que se segue e que, contraditando Rentes de Carvalho no que concerne à utilização das repetições, confirma, no entanto, a sua chamada de atenção para a necessidade de o escritor proceder a apurado trabalho formal, palavra a palavra, frase a frase, parágrafo a parágrafo:
Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, - primeiro, membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Diferenças de Rentes de Carvalho

Rentes de Carvalho regressou, após mini sabática que deixou mais pobre a blogosfera. Um único post como o de hoje dá por bem empregues as visitas diárias na sua ausência, na esperança de que, arrependido, tivesse voltado mais cedo. É a voz do mestre, que tanta faz nestes tempos de lugares comuns, verbosidade lamechas, textos mal escritos a imitar a moda das calças rotas e cuecas à vista.
Da extrospecção para a introspecção, nem uma palavra a mais, nem uma a menos no post Diferenças. Com queda, cadência e caso, como recomenda Vieira: "A queda é para as coisas, porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar hão-de ter queda; a cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas nem dissonantes, hão-de ter cadência; o caso é para a disposição, porque há-de ser tão natural e tão desafectada que pareça caso e não estudo..."

domingo, 29 de julho de 2012

Gratidão

Rentes de Carvalho foi um dos raríssimos escritores a aceitar receber um exemplar de Entre Cós e Alpedriz. Leu-o e enviou-me o seguinte comentário, que me encheu de satisfação (suponho que por volta de 2010):

Caro colega,
Em quatro noites seguidas fiz a leitura de “Entre Cós e Alpedriz”. Sinceramente lhe posso dizer que o primeiro parágrafo me entusiasmou de tal modo que com grande interesse continuei a ler. A sobriedade da cena de violação e, sobretudo, o sugerir em vez de mostrar ou detalhar, são prova de quem sabe o que encerra o mister escrita.
Essas excelentes qualidades notam-se em várias cenas, e notavelmente no final, quando Joaquina revê o seu passado.
 Assim, pois, lhe dou aqui merecidos parabéns. “Entre Cós e Alpedriz”  não é um livro perfeito -- não há livros perfeitos -- é, sim, um carinhoso, solidário e muito sentido testemunho.
Foi para mim um prazer lê-lo, e grato lhe fico por se ter lembrado de mo oferecer.
Cordialmente,
JRC

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tempo contado

Rentes de Carvalho anuncia o fecho do seu blogue Tempo Contado. Leitor assíduo, só posso lamentar a decisão do autor; mas compreendo as suas razões pois, como diziam os antigos, não dá para cavar na vinha e no bacelo ao mesmo tempo. Um blogue exige alimento frequente, rouba tempo que faz falta, especialmente quando, como no caso de Rentes de Carvalho ou no meu, todo ele está contado. 
Aproveitemos para ler e reler Rentes de Carvalho nos seus romances e aprender com o mestre. E talvez ele não consiga resistir e cedo interrompa a ausência anunciada.