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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Palavras, apenas palavras

Tanto a religião como a ciência estão de acordo nisto: o Universo surgiu do Nada. Ou criado por uma divindade, ou como resultado de uma singularidade que originou o Big Bang.
(Divindade e singularidade são apenas palavras, uma criação humana, para mencionar o desconhecido.)
Mas ateus e crentes divergem num ponto fundamental: para os primeiros, não é necessária intervenção criadora: o Nada é instável, a criação de um universo exige uma energia mínima ou até nula (somada toda a energia do nosso Universo, positiva e negativa, dá zero), e as flutuações quânticas não só permitem, mas exigem que no Nada primordial surjam constantemente partículas, umas virtuais outras reais, pelo que os universos podem brotar como cogumelos na floresta após chuvada de Outono e nessa infinidade de universos, um, o nosso, reuniu as condições necessárias e suficientes para o aparecimento de seres capazes de reflectirem sobre a sua criação.
Porém, tal como a existência de um Criador coloca a questão da sua origem, também a criação de universos a partir do nada tem o seu calcanhar de Aquiles: o que é o Nada, porque há nesse Nada leis científicas, por básicas que sejam, a permitir a existência da Mecânica Quântica e respectivas flutuações?
Somos, tanto na hipótese criadora do Universo por divindade, como na materialista, por exigência das leis da Ciência, confrontados com algo pré-existente necessário à criação do Universo, e, eventualmente, de outros universos…
A distingui-las, apenas palavras.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Imerso num mar de dúvidas

Desde a mais tenra infância que os porquês da vida e do Universo me intrigam e inquietam.
Cresci, mais em anos do que em tamanho, e deixei de irritar os outros com questões que a muito poucos interessam, por demais preocupados com assuntos verdadeiramente importantes, como o campeonato de futebol, a Albuquerque e o negócio dos swaps, o nascimento de um bebé na família real britânica, as viagens do novo papa.

Passei a procurar respostas nos livros, sem desprezar obras religiosas como A Bíblia; mas nela encontrei sobretudo poesia primorosa, como o Cântico dos Cânticos, e um repositório de histórias encantadoras na sua ingenuidade, como o Génesis, a par de outras de fraco proveito e mau exemplo, como Abraão e o filho, José e os irmãos, o velho pai que os filhos sodomizam... Nem o Novo Testamento escapa à vulgaridade, com S. João obcecado em nos convencer de que era o discípulo que Jesus mais amava, discussões de comadres entre os apóstolos sobre o respectivo lugar no poleiro celeste, comparações entre o baptismo com o Espírito Santo e o baptismo com água do Baptista...

Palavreado sem significado, como muito daquilo que hoje se escreve, que me traz invariavelmente à boca o velho Porquê? O que é que isso quer dizer? Qual o significado desse adjectivo, desse substantivo, desse verbo, dessa metáfora, dessa comparação?
Pois, todos o sabemos, palavras, por bonitas que sejam, depressa as leva o vento, sem que nos deixem ideias, as quais, raras e preciosas como as pérolas autênticas, devem ser colhidas com esforço nas profundezas do mar do pensamento. As quais, quando existem, dispensam o floreado de palavras, rejeitam a expressão gongórica, recusam os artifícios da retórica. Ideias que surgem sobretudo na ciência e raramente sobrevivem aos argumentos destruidores dos pares e à experimentação. E a ciência, tão compartimentada, tão especializada, com a sua metalinguagem, surge opaca ao leigo como eu. Só o talento de cientistas-escritores que a Gradiva tem trazido até nós me tem permitido acompanhar, vagamente, o espantoso mundo das descobertas.
Há uns anos, insatisfeito com a escassez de obras de divulgação científica e com a lentidão com que são traduzidas, com a sua desactualização, inevitável dada a rapidez do progresso científico, passei, graças à Amazon e ao Kindle, a ler penosamente no original as obras mais recentes. Tenho encontrado, não a resposta aos grandes porquês, que a ciência não é o domínio das certezas, mas novas questões, igualmente fascinantes, de que, por vezes, aqui tenho dado conta, como, por exemplo, reflexões sobre a natureza do Universo, quais e quantas as suas dimensões, como pôde surgir do nada, a matéria e a energia negras, o espaço e o tempo... Saber que não terei as respostas não me desanima. Sou capaz de viver sem certezas. Também eu prefiro a incerteza e a dúvida à certeza da ignorância.