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segunda-feira, 1 de agosto de 2016

L'arroseur arrosé

O S. era um velho implicativo, quezilento, amigo de armar zaragata por ofensas reais ou imaginárias. E passava o tempo a sacanear os outros, em parte por maldade, em parte para se vangloriar das partidas pregadas.
Por isso, num dia em que pediu ao dono do café e padaria que lhe guardasse meio cabrito amanhado na arca congeladora, este regozijou e prontamente convidou os amigos: -- Logo à noite apareçam e tragam o vinho, que vou assar meio cabrito no forno!
A patuscada prolongou-se noite alta, bem regada a tinto, acompanhada com pão quente acabado de sair do forno. Para sobremesa, o dono do café quis contar a patifaria que tinha pregado ao S.: -- Sabem como é que arranjei este cabrito?
Pois não sabiam. E aguardavam curiosos a explicação, a pressentir patifaria: E o dono da padaria, ufano: -- Vejam lá que hoje me apareceu aqui o S. a pedir para lho guardar na arca!
-- Mas ele não tem cabritos!
E outro a adivinhar o sucedido: -- Só se foi o cão que lhe morreu ontem! Vais ver, o sacana esfolou-o, amanhou-o, cortou-o a meio para não desconfiares e pediu-te para o guardares na arca!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Custos repartidos

O velhote pedia ao bombeiro -- Precisava que vocês me viessem cortar a nogueira...
-- Isso arranja-se...
-- Mas olha que as nozes são para os meus netos! E a lenha fica para a minha família... Mas deixa lá, e sorriu malandro, o trabalho fica para os pretos!
O bombeiro mudou de cor. Ao chico-esperto só conseguiu responder: -- Bom, mas há custos...
-- Custos? Que custos? Vocês têm as escadas, as serras...
E o bombeiro, a desviar a conversa: -- Porque é que vossemecê quer cortar a árvore?
-- Toda as manhãs, quando abro a porta da cozinha, vejo-a à frente!
-- Sorte a sua, eu, de manhã, quando abro a porta da cozinha, vejo logo a minha sogra...
-- Bom, mas cortam a nogueira, não é?
-- Já lhe disse, há custos... Tem de falar com o comandante.
-- Assim, corto-a eu! E não tenho custos.
Pois teve, mas os custos foram repartidos: ao avarento, a proeza custou a vida; aos bombeiros, retirar-lhe o corpo, caído na estrada.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Todos príncipes

Andaba o rei Bamba a labrar no xeu campo...
Caía a chuva torrencial, pelas janelas embaciadas avistavam-se lameiros nos acessos ao Pavilhão Novo. O professor Lindley Cintra prosseguia a leitura da lenda do Rei Vamba ou Rei Wamba, que recolhera de pobre camponesa das Beiras aquando da pesquisa para o seu Atlas Linguístico da Península Ibérica. Assim tinham de ser as fontes: analfabetos, mais de sessenta e cinco anos, com os dentes da frente para que os esses ápico-alveolares não pudessem ser atribuídos à sua falta.
E eu via distinto o rei lavrador, pernas nuas, pés descalços, uma mão na rabiça, outra na vara com o aguilhão, a gritar incentivos aos bois Ah, Galante! Força, Moreno!
Isto é que era monarquia: a merecer o pão com o suor do rosto, sem vergonha de sujar as unhas na terra em vez de parasitar na Corte, esquiar nas estâncias alpinas, ou veranear nas praias quentes da França republicana, a fugir dos paparazzi, ansiosos para encher com fotos de flirts e pequenos escândalos as  revistas cor-de-rosa que nos salões de cabeleireira entretêm as mulheres, lhes dão matéria para fabricar sonhos, sobretudo às desiludidas com as imperfeições masculinas — tanto sapo beijado e nenhum metamorfoseou em belo príncipe!
A proclamação da República não extinguiu a realeza. Multiplicou-a. Democratizou-a. O que escasseia em marqueses, duques, condes e viscondes sobeja em príncipes e princesas. No café, correm histéricas as crianças, guincham desalmadamente, jogam à bola? A Suas Altezas Reais tudo se tolera. Não querem ir à escola? Seus desejos são ordens. Exigem dormir todas as noites com a mamã? Meu Príncipe! Minha Princesa! O Mundo será como quiseres, tua vontade a minha vontade, a nossa vontade, que apenas cá estamos, todos nós, para te servir!

Longe, longe, a uns trinta e tal anos de distância, distraio-me a ver moça de saltos altos que corre para a paragem de autocarro junto à faculdade, evita poças e lama, o vendaval revira-lhe o guarda-chuva, a chuva fustiga-a, ensopa-lhe os longos cabelos, depois perco-a de vista e amodorrado escuto as histórias do Mestre, encanto-me com a monarquia visigótica, nobres de carne, osso e trabalho: Andaba o Rei Bamba a labrar no xeu campo...

Álvaro, Álvaro, como sinto teus versos, como os faço meus!
Toda a gente que eu conheço (...),
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...(...)
Ó príncipes, meus irmãos, 
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Aparas

Fragmentos que estão a mais. Não são gorduras nem excrescências. Mas não pertencem à história em que surgiram e por isso são aparados. Ou podados.

"2. In illo tempore
Começa a nossa narrativa já não naquele tempo em que Jesus andava pelo Mundo, mas noutro igualmente saudoso, em que a missa era ainda em Latim para gáudio da miudagem que, ao fundo da igreja, o mais afastada possível de beatas, pouco compreendendo e menos ainda querendo entender, adulterava as respostas, mantendo a música: se, do alto do altar, o padre abria os braços e lançava cantado Dominus vobiscum, haveria malandro que substituiria o Contigo também entoado em coro por Merda pra ti também, com ar tão inocente que se, acaso, olhares indignados se viravam para trás era por causa da risota e não do dito... Orate frates, dizia o vigário e o povo respondia em vernáculo Oremos, enquanto ajoelhava no cimento da capela — mas o que se ouvia, se estivéssemos perto e atentos, era moço sussurrar, ao baixar-se como faria em vinha para arrear o calhau: Caguemos!
Pregado no crucifixo, Jesus refulgia quando a passagem da sotaina do padre espevitava as velas, como se também ele animasse com os disparates da mocidade naquele ritual chato e repetitivo e então eu pensava que se Ele saísse da cruz onde o aprisionaram para todo o sempre, também Ele quereria escafeder-se do cheiro a cera e a incenso, sem mágoa abandonaria beatas e templo mal iluminado e, atraído pelo Sol que penetrava pelos vitrais, voaria aliviado para o adro, sem esperar pelo final daquele santo suplício semanal que torturava a nossa juventude e O castigava há quase dois milénios...
Corria assim a vida, lenta, chata, sonhando com os vinte anos, distantes, tão distantes como a eternidade — então eu deixaria a aldeia, embarcaria, correria mundo sofrendo tempestades, evitando icebergues, sim, conhecia já a palavra, que já lera e relera Pedro, Pescador de Baleias, e também eu as caçaria, ou enfrentaria os piratas na Ilha do Tesouro, ou então chamar-me-ia Zé Crusoé e sobreviveria com arte e manha, sozinho numa ilha deserta do Pacífico...
O Sr. Prior prosseguia com o ritual e eu alheava-me novamente, e conversava agora com o próprio Jesus, persuadindo-O a deixar-me ajudá-lO a endireitar o Mundo, que tão mal andava; já então a Morte, como fim de tudo, me apavorava, sem que, por isso, me convencesse a retórica do padre apregoando o Céu, assustando com os padecimentos infinitos do Inferno. Não, aquele Céu de devoção beata, água benta e hóstias desenxabidas, tresandando a cera e a incenso, feito à imagem e semelhança de uma qualquer capela mal iluminada, onde o prazer adviria exclusivamente da eterna adoração a Deus, não me convencia, como me não seduzia viver a Eternidade na companhia dos velhos e velhas que assistiam ao Santo Sacrifício dominical.
Sobrevivíamos; hoje, meio século depois, creio que éramos felizes; naquele tempo, a palavra não tinha significado. Sabíamos o que era doença e saúde, fartura e miséria, frio e calor, mas felicidade não pertencia ao nosso vocabulário. Sonho, sim; eu devaneava acordado o tempo todo..."
(Original meu)