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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Cartas de amor

“Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.”
(Álvaro de Campos)

Estava no turno da meia-noite às oito quando camarada recentemente admitido na fábrica veio ter comigo. Tinha a tropa feita, queria constituir família, contava, e eu ouvia-o, sem nunca desfitar a máquina nem me desconcentrar, que ali as distrações pagavam-se caro: queimaduras, dedos esmagados, mãos amputadas até. 
Contava ele que tinha posto anúncio em revista feminina, não me recordo qual, uma dessas coisas do género Cavalheiro empregado, de vinte e tantos anos, situação militar resolvida, procura moça honesta, entre os vinte e os trinta anos para relacionamento futuro.
Eu era então muito preconceituoso, desconhecia que até Agustina tinha arranjado marido por esse processo; e depois, pareciam-me arranjos de conveniência, seguramente sem o fogo da paixão, que não sabia ser luxo ao alcance de poucos felizardos — como eu.
Ouvia, no entanto, sem grandes objecções. Um revolucionário tem de se mover no seio do povo como peixe na água. 
Ora uma rapariga tinha-lhe respondido, prosseguia o meu camarada de trabalho, estendendo-me a carta.
Agora não posso ler, disse, a tentar safar-me das confidências. 
Estou na minha folga — cada um tinha uma de meia hora ao longo da noite, substituído pelo chefe de turno, pois as máquinas não podiam parar — lê, que eu faço o teu trabalho.

Vendo pelo remetente que respondia de Santa Margarida: Maria Machado? Estás a ser gozado! nos quartéis não há mulheres! É mas é algum soldado! Respondeu-te para se rirem de ti!
Mesmo assim, dizia, queria que lhe respondesses!
Eu? Mas a carta é para ti!
Sim, mas tu tens alguns estudos...
Só o Ciclo, atalhei, na pressa de esconder as habilitações e ali estava quase clandestino, forçado a abandonar a capital pelas minhas actividades clandestinas. E para criar comités anti-coloniais nas fábricas.
Tens estudos, lês, escreves de certeza bem melhor do que eu. Responde lá.
Tínhamos toalhas de papel para colocar sobre as bancadas de trabalho e não sujar as peças. Numa delas, redigi a resposta. Fria, irónica. Os magalas não se iam divertir à nossa custa!
Agora passa para papel de carta e vê se não dás erros!
E voltei ao trabalho,  julgando que o assunto estava encerrado.
Na semana seguinte, já no turno das quatro à meia-noite, ele voltou, risonho, com outra carta. Li-a alto.
A Maria Machado pedia desculpa. Tinha respondido ao anúncio no gozo, para se divertir com as colegas, julgando tratar-se de parolo. E em tom sincero, explicava-se: morava no Entroncamento,  e trabalhava num dos quartéis como funcionária administrativa. Terminava repetindo as desculpas e com desejos de que lhe respondesse porque, via-se, tratava-se de pessoa culta, séria, com quem valia a pena corresponder-se...
Vês, eu tinha a certeza de que tu eras capaz! E foi envaidecido que respondi, já a atirar-me, que é como quem diz, a atirá-lo à moça. Olha, este domingo vou estar com a minha namorada, que é de lá, pergunto-lhe se conhece uma Maria Machado, que trabalha em Santa Margarida.
Conhecia. Ah, o Machadão! Assim a tinham alcunhado na escola, desajeitada, mal-feitona, maria-rapaz.
Nada disso demoveu o meu camarada. E em breve consegui-lhe encontro.

O primeiro e o último. A Maria Machado, mesmo feia e sem jeito, ainda se não sentia tão desgraçada que tivesse de o aceitar!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Uma vila do interior

Ontem estive em Mora, outra vila envelhecida, despovoada. Ao almoço, excelente, na Tasca do Gigante, o proprietário, ao pé de mim um gigante, conta-nos isso mesmo: por aqui, ou se trabalha por conta própria, ou para a Câmara... De resto, não há nada! Nem empresas que dinamizem a economia local, nem empregos que fixem os jovens!
Mora merece visita: além da Tasca do Gigante, tem o Museu do Megalítico e o Fluviário. E, certamente, outros pontos de interesse, que não conheço. Mas isto não chega para fixar as gentes, para atrair a juventude.

Anos atrás, em Meda, outro jovem fez-me idêntico desabafo. Nada, fora do escasso turismo, dos serviços camarários. Podia multiplicar os exemplos, que gosto de percorrer o interior e ouvir as gentes. 
Fora das cidades, o país definha, agoniza moribundo.
Em 93, incomodado pelo abandono do interior, escrevi:
 Pelas auto-estradas que conduzem aos centros comerciais
telemóveis saúdam as novas catedrais
(Por aí fora, o abandono
Matas queimadas, hortas perdidas
peixes lançados ao mar
fábricas fechadas, reformas antecipadas
país de alheio dono
Desespero do desemprego, aldeias abandonadas
oh subsídio-servo-dependência!)”

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Denunciantes (1j

Manhã de segunda-feira, a arrumar a mala para a escola.
Mãe, a minha bata?
Ainda está molhada, sempre a chover, não enxugou, não a levas.
A professora bate-me!
Bate-te lá agora! Quando entrares, vais-lhe logo dizer que eu não ta mandei porque ainda está ensopada, com este tempo não enxugou.
Bom, que remédio! Pelo caminho, encontro colega, mais velho.
E ele: Tenho de voltar a casa, esqueci-me da bata!
Sempre fui fala-barato. Do género que fala sem pensar: Ora, não precisas, quando a professora te perguntar por ela dás uma desculpa qualquer!
Mas ele voltou atrás. Afinal, estava a meia dúzia de passos de casa.
Entramos. José Cipriano, a tua bata?
Minha senhora..., e repeti a desculpa encomendada pela minha mãe.
A professora, compreensiva, ia passar a outro menino quando o meu vizinho se levanta e fala acusador:
Minha senhora, eu voltei a casa para buscar a minha bata, e ele disse-me que não valia a pena, para dar uma desculpa qualquer à senhora professora quando me perguntasse por ela!
O olhar da jovem professora endureceu, o rosto crispou-se. Levantou-se, furiosa, já com a régua em riste: O quê? Vem já aqui!
A tremer, lavado em lágrimas, tentava inutilmente convencê-la de que tinha dito a verdade. A pesada régua bate impiedosa, dor lancinante, dor sofrida também por antecipação enquanto a próxima reguada não martiriza a minha mãozinha enfezada, que por entre gritos e contorções procura, em vão, fugir ao castigo!
Agora a outra mão, para se não ficar a rir desta!
Quem ria era o feliz denunciante, pelo meu sofrimento, pela sua colaboração no exercício da justiça sobre o sabichão preferido da professora.
Então como agora, a justiça era cega, e exercida com imparcialidade — sobre os pobres. Os meninos abastados, “ricos”, como o meu delator, nunca apanhavam, mesmo se  burros que nem portas! 

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O Tai Chi Chuan e eu

Nos anos noventa treinei versões de Tai Chi Chuan, muito adaptadas, desfiguradas até, pelo mestre Kenji Tokitsu. Paradoxalmente, treinei muito, aprendi pouco, que o mestre, por razões de que suspeito, mas não adianto, fazia, não ensinava, e ralhava à bruta com quem ousava pedir-lhe esclarecimentos: Je suis pas un moniteur!, berrava, furioso. E não corrigia, excepto, talvez, os aduladores que o endeusavam.
Ora aprender apenas pela imitação dos gestos de alguém, de costas para nós, no meio dos outros praticantes, não é muito produtivo, sobretudo quando se trata de algo tão complexo como o Tai Chi. E a brutidade (não confundir com brutalidade) do mestre fez com que me afastasse.
Enveredei por outros caminhos, sempre com muito treino individual. Frequentei seminários do mestre Yang Jewying-Ming, grande especialista em Qi Qong (ou Chi Kung) e Tai Chi Chuan, estilo Yang. Apercebi-me da diferença abismal entre o Tai Chi executado por um chinês com meio século de prática intensa e um japonês com meia dúzia de anos, na melhor das hipóteses, e que o executa de forma demasiado pessoal.
Mas as conversas de curandeiro do mestre Yang, os exemplos e a pseudo-ciência com que fundamentava métodos e tratamentos de herbanários e curandeiros chineses, as suas histórias de mulheres engravidadas em OVNIS, que deliciavam os iógues que também participavam nos seus seminários, ditaram o meu afastamento.
Continuei a incluir nos meus treinos individuais o que de bom, no meu pobre conhecimento e fraco entendimento, tinha aprendido com ambos, como é visível no filme da kata do Goju-Ryu Sanchin, que aqui postei, datada do início deste século: a procura da descontração, a respiração abdominal a conduzir os movimentos, num fluxo ininterrupto como as ondas do mar...
Há uns dois anos, problemas de saúde a que já aqui aludi levaram-me a deixar de participar nos  treinos de karaté de instrutores e avançados, mas não a abandonar os meus treinos individuais, que executo diariamente após uma caminhada, às vezes bicicleta estática.
Incluem aquecimento e Qi Qong, algumas katas (de karaté, passe o pleonasmo) procurando a descontração e a fluidez, depois Tai Chi, estilo Chen, o da minha predilecção. Mas agora tenho a ajuda preciosa de excelentes videos didáticos do YouTube!

Pela clareza da execução e pelo pormenor das explicações, optei pela forma dos 18 movimentos,(na verdade, 18 sequências), destinada a principiantes estrangeiros e legendada em Inglês. E há um vídeo para cada sequência!

Não é fácil de acompanhar, mas a execução e o ensino por esta senhora do Tai Chi, estilo Chen (o mais antigo, de onde derivam os outros estilos), é primorosa. Admire-se, se para tal houver paciência, a elegância, a fluidez, a perfeição de movimentos!
https://www.youtube.com/watch?v=jhzhQ0cVkCQ

sábado, 21 de dezembro de 2019

No jornal Tornado

Tão massacrado tenho sido com as longas prelecções televisivas sobre o Orçamento de Estado — e o pior ainda está para vir! — que fui adaptar este meu texto, escrito quando Sócrates e Passos Coelho dançavam juntos o tango do Orçamento.
https://www.jornaltornado.pt/portugal-profundo/

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Una historia más de guerra

 Em 1975, durante toda uma noite, um soldado pronto, de alcunha o Portimão, infernizou o quartel de Torres Novas, disparando rajada sobre rajada sobre tudo o que mexia. E nós, resguardados nas esquinas, perguntávamos Porquê?”

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Livro What is space? What is time?

A recente passagem por Portugal do físico Carlo Rovelli, que participou nas conferências da Fundação Manuel dos Santos, e uma breve entrevista que deu à televisão, aguçaram-me a curiosidade sobre o seu trabalho na área do espaço e do tempo, e sobre a Gravidade Quântica em Loop, em que se enquadra teoricamente, pelo que imediatamente comprei, como ebook, o seu livro What is time? What is space?, (70 pp. na versão em papel), cuja sinopse promete
“[a] novel image of the world is taking shape in fundamental physics: a world without time and without space. “
Esperava eu encontrar uma nova perspectiva do espaço e do tempo, sustentada por sólidos, ou pelo menos por convincentes, argumentos teóricos e, melhor ainda, empíricos, derivados, por exemplo das mais recentes descobertas, como a confirmação da existência do bosão de Higgs, que permeia o espaço, ou das ondas gravitacionais que o agitam.
Em vez disso, o autor preenche a obra com a sua autobiografia, viagens, universidades importantes, cientistas famosos que por lá conheceu, generalizações filosofadas... 
Sobre os assuntos que dão o título à obra, o espaço e o tempo, muito, muito pouco. Afirma que o espaço não existe — mas refere-se-lhe constantemente, precisando embora que espaço são as conexões entre os grãos do campo gravitacional. Como, porquê? Pois ficamos sem saber, uma vez que é silogisticamente que chega a tais conclusões. Atente-se, por exemplo, nos conectores que assinalei a negrito no seguinte excerto:
If one now combines the basic ideas of general relativity and quantum mechanics, it follows immediately that since space is a field (the gravitational field) space must have a granular structure, as does the electromagnetic field. The quanta of the electromagnetic field are the photons. The quanta of the gravitational field must be “grains of space”, because the gravitational field is the physical space. The dynamics of these grains must be probabilistic. Hence space (i.e. the gravitational field) must be described as “clouds of probability of grains of space”.”

A mesma lógica é empregue para negar a existência do tempo:

“Time does not exist: it is necessary to learn to think about the world in non-temporal terms. This is difficult, because we are accustomed to thinking about time as something in itself, which is flowing.”

Sobre o seu posicionamento teórico, a Gravidade Quântica em Loop, fiquei apenas a saber que a teoria não tem ainda a capacidade preditiva necessária para descrever o Universo e ele mesmo não parece muito convencido da sua virtude, embora a prefira à Teoria das Cordas:
“There are various reasons for which I do not like string theory. One is that the theory predicts an enormous amount of stuff, for which there is no evidence: many extra dimensions, super-symmetric particles, new exotic kinds of particles. Experimental evidence for all this has been searched, but without any positive result. Second, I think that string theory fails to incorporate the true discovery of general relativity: namely the fact that spacetime is just a field.”

Lógico. Se preferisse a Teoria das Cordas trabalharia nela, suponho. E quanto a evidências empíricas, e segundo este livro, a Gravidade Quântica em Loop não está melhor, o que lhe suscita dúvidas salutares, as quais, no entanto, não reforçam nem validam as suas opções teóricas:
“but on the other there is the frustration of the risk of working a whole life on theories that in the end might turn out to be wrong.”


Vou baixar amostras gratuitas dos seus outros livros, na esperança de que sejam mais esclarecedores do que este. Que é uma grande desilusão.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

No jornal Tornado

Invernias

Aí pelos meus cinquenta anos, sentindo a aproximação inexorável do inverno da vida, escrevi “Invernia”, que viria a fechar o romance Entre Cós e Alpedriz:
Invernia

Badaladas do sino
Ecoam pela aldeia deserta
Porta-voz do destino
Recordam aos velhos a morte certa

Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera neste tempo tão chuvoso?

Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração

Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma

Lá, onde corre a fresca regueira
onde nasce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão


O sino dobra novamente a finados...

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O Drácula

No segundo ano do meu estágio, então chamado Profissionalização em Exercício, chegaram vários colegas de outras escolas. 
Um deles, alto, magro, camisa sem colarinho, longo sobretudo preto, olhar esgazeado, pose de génio, foi logo alcunhado por um de nós: Drácula.
Incompreendido por todos nós,  exceptuando uma outra estagiária, do seu grupo disciplinar, a quem apalpava as coxas nas reuniões, seduzida pela “linguagem do Mestre” — era assim que se lhe referia — pois o nosso Drácula respirava Lacan, arrotava Lacan, tratava-nos, tanto a nós, colegas de estágio, como aos orientadores, com tal sobranceria que me lembro de ouvir um dizer-lhe que, de cada vez que abria a boca, era para nos chamar burros.
Num seminário em que ele arengava interminavelmente, insuportavelmente, um orientador, baixo, obeso, que sempre dormia nas reuniões após o almoço, desculpado pelos seus pares com  problemas cardíacos de que efectivamente sofria e cedo haveriam de o vitimar, interrompeu o forte roncar e, ouvindo o Drácula a proclamar, deliciado com o efeito de choque da boutade, que todos nós temos três pais, resmungou alto:
— Só se és tu!
Ruidosa gargalhada geral quebrou o formalismo, desvaneceu o enfado e enfureceu o distinto orador.

Mas os alunos conheciam-no por outra alcunha. “O professor do c*”.
Isto porque, na aula de apresentação, incomodado com a entrada às pinguinhas da turma, berrou para um dos retardatários com o seu sotaque cerrado do Porto:

— Olha lá, pá, que c*ralho de turma é esta?

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O sindicato e eu

Assim que fui colocado pela primeira vez tratei de me sindicalizar. Entendia ser essa obrigação de cada trabalhador. E, na minha ingenuidade, até li e concordei com os estatutos do sindicato.
Levei a sindicalização a sério. Apresentei lista, candidatei-me a delegado sindical na escola em que então estava colocado — e perdi.
Paciência. Tal não arrefeceu a minha fé sindical.
Até que, após greve selvagem, os professores de uma escola de Lisboa foram despedidos.
Logo o sindicato estendeu asa protectora, comprometendo-se a pagar-lhes os salários, conforme estabelecido nos estatutos.
E eu aprovei.
Mas, poucos meses depois, a pretexto de uma lacuna no boletim de candidatura (lacuna que o certificado de habilitações anexado esclarecia), me vi no desemprego. Sem economias, com renda de casa elevadíssima— as casas para arrendar eram então raras como a chuva neste Outono —, família a meu cargo, nada de empregos, de trabalho naquela época em que o país e a economia andavam pelas ruas da amargura.
E lá vou eu ao sindicato. A querer que pressionassem o Ministério a reapreciar o meu boletim de candidatura. Não valia a pena. Havia milhares como eu, tratava-se de manobra do governo para diminuir drasticamente o número de professores provisórios. Processar o Ministério? Para quê, se lá não havia duas pessoas a dizer o mesmo?
Então, e o subsídio de desemprego, que consta dos estatutos e foi já atribuído aos colegas da escola X?
Riram-se. O sindicato não tinha verbas para tal, diziam. Em funcionários, assessores, equipamentos, rendas, ia-se todo o dinheiro das quotas.
Fui colocado meses mais tarde. E uma das primeira coisas que fiz foi cancelar a minha sindicalização.
Passaram muitos anos. Um amigo, delegado sindical, convenceu-me a voltar a aderir ao sindicato. Fizemos greve prolongada, bem organizada. O governo ia ceder. Depois de tantas greves simbólicas, em que perdíamos o salário para que o PC marcasse posição, finalmente uma que íamos ganhar. E uma manhã, ao entrar na escola, soube que o sindicato, o Teodoro, nos tinha novamente traído, pondo fim à greve sem nos ouvir.
Outra vez cancelei a sindicalização.
Há quem nunca aprenda certas lições. Como eu.
Nos tempos negros da Maria de Lourdes e da sua famigerada avaliação fui a uma reunião sindical, pedi o papéis e voltei a ser sindicalizado.
O dirigente sindical que me inscreveu  bandeou-se para o Ministério da Educação.
E eu continuei a pagar a quota, 1% do salário, até à aposentação.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Da violência nas escolas

Mário Nogueira, dirigente vitalício do meu sindicato, voltou ontem a envergonhar-me publicamente. Foi em declarações que prestou à TV a propósito da agressão a um aluno por parte de um professor de TIC.
Para Mário Nogueira, não há presunção de inocência quando se noticia que um professor bateu num aluno. Essa presunção fica, talvez, reservada para os políticos corruptos, seguramente para os pais que agridem professores e funcionários. Nem importa, antes de mais, apurar os factos, aguardar os resultados do processo disciplinar que foi ou vai ser instaurado.
Adiante.
O que me envergonhou mais, o que me enojou, foi ouvi-lo a retomar a velha discriminação contra os professores não profissionalizados.
(Tantos anos após o 25 de Abril, o velho preconceito, de que também  eu fui alvo, primeiro miniconcursiano, depois provisório, continua subjacente:
— O colega é efectivo? Não? Então não devia estar a dirigir esta reunião!
— Vá-se queixar à direcção, que me nomeou!
Mas doía. E a prova é que não esqueci.)
Agora Nogueira com conversa parecida. Como se na formação para a profissionalização se aprendesse a não perder a cabeça! Como se a formação fizesse uma qualquer triagem segundo as competências científicas e pedagógicas, a adequação aos requisitos da profissão, à saúde mental, até!
Como se não houvesse no activo alguns profissionalizados que jamais deveriam estar à frente duma turma!
Como se as condições de trabalho em certas escolas não fossem suficientes para qualquer um se passar!
Não. O problema é que o colega, que até pode ser engenheiro informático, não tem a profissionalização.
Já quanto à agressão de Valença, feita por pai orgulhoso do feito, tanto que até organizou contra-manifestação com a tribo, nem uma palavra. Bater em funcionários e em professoras e professores, tal como em polícias, não tem idêntica gravidade. Não merece que se pronuncie.
Porque neste caso, seguramente, a culpa é dos agredidos. Mesmo se profissionalizados.

domingo, 13 de outubro de 2019

Pedantice

No supermercado, estendo uma alface para o empregado das pesagens:
— Bom dia! Pode-me pesar...
E ele, bem humorado:
— Sim, mas duvido que o senhor consiga subir para a balança!
Tenho mau feitio. E não gosto de ser corrigido por um mocinho ainda imberbe. Talvez para depois se gabar de ter gozado com o velho.
De modo que...
— Recorri à elipse, processo linguístico que permite omitir um constituinte frásico, reconstituível a partir do contexto. No caso vertente, como lhe estendi o saco com a alface, era óbvio que o objecto do pedido de pesagem, pelo que o não realizei foneticamente.

Assim mesmo, o discurso todo. Para que soubesse que ainda está muito verde para gozar com os velhotes.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Putas e vinho verde

Estava no início de carreira, professor provisório sem habilitação própria, miniconcursiano, como nos designavam pejorativamente os colegas já instalados, e coube-me horário nocturno.
A tentar esconder o pavor, olhei para aqueles alunos, todos mais velhos do que eu, e comecei a aula de apresentação. 
Ia talvez a meio do tempo lectivo quando aluno mal encarado, olhos turvos pelo nevoeiro, abre a porta da sala, entra e senta-se sem dizer água-vai nem água-vem.
Não ia perder a face logo na apresentação!
— Boa noite! 
Nem me olhou.
— Boa noite! E, já agora, manda a boa educação que ao entrar atrasado bata à porta, peça licença para entrar... Como o não fez, e já se instalou, quer apresentar-se?
Olhou-me com desprezo.
— O que eu quero é putas e vinho verde!
A turma, do major reformado da Força Aérea à freira do hospital vizinho, olha-me na expectativa.
E eu, em tom duro, aparentado uma coragem que bem gostaria de ter:
— Então enganou-se na porta, que isto não é nem taberna nem casa de putas! É uma sala de aula, e se quer ficar é para se portar com respeito e educação!
Deitou-me olhar assassino, do género lá fora ‘comezas’, levantou-se e foi embora.

Mas não: nem dessa vez, nem em nenhuma outra, fui espancado por alunos. E aquela ave nunca mais apareceu nas minhas aulas.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Do meu vinho e da minha escrita

Anos atrás, num dia em que se acabou o vinho na colectividade da minha terra, telefonou-me um sobrinho a perguntar se vendia um pote de 10 litros.
Não, não vendia. Dava. Que o fosse buscar.
Tempos depois, perguntei-lhe o que é que os entendidos, bebedores diários e inveterados, tinham achado da minha pinga.
Devia ter adivinhado: santos de ao pé da porta não fazem bom vinho, menos ainda o Zé, que nunca foi agricultor a sério, nem anda a cair de bêbedo nas noites de sábado; ainda se fosse descendente dos “ricos” da terra, ainda se o vendesse, que o dado não presta, nem permite dizer que não vale o que custou...
Não, aquilo não era vinho, sem o forte sabor do sarro dos tonéis, sem dose cavalar de metabissulfito — feito com toda a higiene, conservado em cuba de aço, não sabia a vinho!
Soube depois que o meu sobrinho, desgostoso, retirou o invólucro interior e colocou-o dentro de  embalagem de cartão da marca habitual. Aí beberam-no, ao que me parece sem mais protestos, excepto quando um dos habitués se queixou dias depois: Este vinho não é da... (a marca da caixa de cartão)!
Como é que sabes?
Deixei de cagar preto!
(O que tem isto a ver com os meus romances? Tudo. As editoras rejeitam-nos por razões análogas e preferem as cagadas. E depois queixam-se da falta de leitores.)

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Uma história em ar

As três jovens saíram a passear.
Vamos no meu carro, tirei a carta e preciso de praticar.
Damos uma volta, paramos a lanchar.
E assim chegou a hora de regressar.
A condutora dá à chave, o motor de arranque soluça, sem força para fazer o motor pegar.
E agora, telefonamos ao teu marido para nos vir desenrascar?
Não, que vai ralhar. E gozar.
Empurramos o carro até àquela ladeira, pega de empurrão, e depois já podemos voltar.
Empurram duas, o carro move-se devagar, pára logo que solta a embraiagem. E já próximo da ladeira, diz uma para a condutora: Tens de vir também ajudar!
Empurram as três. O carro embala na descida, pega, aí vai ele a acelerar!
A pobre dona olha para as amigas, desconsolada: E agora? O meu marido vai-me matar!
Não, o teu carro é que vai matar aquela velha que vai a atravessar!
E em pânico, desatam as três a gritar:
Fuja, fuja minha senhora, o carro vai-a atropelar!
Lá ao fundo, a velhota olha, sem compreender, avista o carro que desce desembestado, apressa-se, o andarilho não ajuda, na aflição deita-o fora, em passinhos trôpegos corrica, chega à berma e trepa para o patamar.
Mas, entretanto, o carro, desviado por buraco, curvou e espatifou-se contra muro num estrondo de assustar.
E agora, como vamos regressar?
E que direi ao meu marido quando chegar?
Estão já junto do automóvel, dianteira espatifada, radiador a fumegar.
Olha, dizemos que foi o buraco que o fez estampar!

E nem estaremos a mentir, lá está o buraco para o provar!

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Chico Buarque

Estávamos em 1972, havia a guerra colonial, a agitação constante nas universidades, as manifs nas ruas que o regime não lograva impedir, a música que nos chegava de fora, Brel, Simon&Garfunkel, Donovan, Chico Buarque, Patxi Andion, por cá a de José Afonso.
O meu primo, então a frequentar o Conservatório, pediu-me que comprasse bilhetes para concerto que Chico Buarque ia dar num cinema entre os Restauradores e o Marquês, esqueci o nome. Quando lhe entreguei o bilhete, 
— Compraste também para ti?
— Não. Estou teso...
Insistiu para que comprasse, quis pagá-lo ele. Recusei, e voltei ao tal cinema. Comprei o mais barato, para o poleiro, o último balcão. E lá me sentei, a ver no palco figuras minúsculas que tocavam os primeiros acordes — o conjunto do Chico (hoje diz-se banda), o MPB4. Na sala, gigantesca, uma pessoa aqui, outra ali.
Então, chega funcionário a pedir para nós, os do poleiro, nos sentarmos na primeira fila, para que Chico Buarque não actuasse para cadeiras vazias. Tive, assim, oportunidade de assistir ao seu espectáculo juntinho a ele.
Excepcional. Mas com fraca assistência, nem a banda a passar colocou a sala ao rubro. E o cantor, a determinada altura, desabafou: não sabia se as suas músicas eram apreciadas em Portugal, mas no Brasil quase ninguém as conhecia. 
Pois, cá, fora do meio intelectual, apenas a banda a passar tinha chegado às massas, embora na rádio se ouvisse muita música brasileira, eu quero buzinar o seu calhambeque e quejandos.
Ainda bem que tudo mudou. Chico Buarque, que talvez fizesse suas as palavras (creio que) de Brel, algo como não sou poeta nem músico, faço canções — conheceu no Brasil e cá a glória merecida pelo seu talento, enorme e diversificado (letrista, músico, actor, escritor), e acaba de ser distinguido com o Prémio Camões.
E eu tive o privilégio, graças à insistência do meu primo, de o ter visto no palco, tão perto que quase lhe podia tocar, quando era jovem, antes da consagração, e de me ter embevecido com a sua genialidade e a dos músicos que o acompanhavam...
(A time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence
A time of confidences
Long ago it must be
I have a photograph
Preserve your memories
They're all that's left you
Simon&Garfunkel, Old Friends)

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Os raposinhos

Fui ensinado a recusar todas as dádivas de toda a gente que não pertencesse à família mais chegada. Por palavras, sobretudo pelo exemplo. Suponho que para não ficarmos “na obrigação”. Na desconfiança ancestral de que ninguém dá nada a ninguém desinteressadamente. 
Os olhos a aguar, a boca a salivar — mas não, não aceitava, muito obrigado, mas não quero, ou não gosto, ou agora não me apetece.
— Toma, vá lá, sou eu que te quero dar!
Escondia as mãos atrás das costas, olhos baixos, cabeça a menear negativamente, contrariando o coração, atormentando o pobre estômago, sempre tão carente de guloseimas.
Pobre e remendado, mas orgulhoso como faminto fidalgo espanhol.
De tempos a tempos, passava pela aldeia mendigo.
— Mãe, está ali um pedinte!
— Leva este punhado de batatas ao pobrezinho e diz-lhe que Nosso Senhor o favoreça!
O mendigo metia a pobre dádiva no saco de serapilheira por entre ladainhas de agradecimento, e ia bater a outra porta, de gente que não pedia nem aceitava esmolas, embora quase tão pobrezinha como ele.
Ora um dia apareceram-me à porta a pedir dois homens na força da idade, aspecto de cavadores. Aqueles não eram mendigos, bem no via pelo aspecto, e por serem dois. 
Ladrões?
Vendo-me paralisado pelo medo, à janela do primeiro andar, riram: não vinham roubar nada, andavam a pedir. E um deles abriu o saco de serapilheira, onde, em vez de batatas, feijões, maçãs ou cacho de uvas, havia uma ninhada de lindos cachorrinhos a ganirem tão tristes que de vê-los e ouvi-los se me partia o coração.
— Raposinhos, disse o homem. Matámos os velhos e estes em breve vão pelo mesmo caminho.

E, vendo que naquela casa se não safavam, os meus pais ausentes, eu dinheiro não tinha, e se o tivesse não o dava, seguiram rua fora, convencidos de que, como benfeitores da Humanidade, mereciam paga por exterminarem aquela praga — enquanto eu chorava de impotência e raiva por não ser grande e valente para salvar os pobres raposinhos do saco.

sábado, 6 de abril de 2019

Como apoucar factos

Perante o facto, inegável, de que há demasiadas relações de parentesco no actual governo, a sua central de contra-informação riposta, recordando relações análogas nos governos de Cavaco Silva. 
Nem sequer argumento com a oposição passado / presente, nem com a expectativa de ver os governantes actuais a procederem de forma diferente, de acordo com a tão propalada “ética republicana”.
Não. Prefiro recordar a velha história da velha que ensinava a filha: 
— Chama-lhes putas, filha, chama-lhes putas, antes que te chamem a ti!
Porque não se nega o facto. Apenas se diz dele ser prática comum.  E depois queixam-se do crescimento dos populismos, das extremas-direitas. O que esperam, se estão sempre a lembrar que, discursos à parte, a prática dos políticos se revela, afinal, igual quando está em causa a defesa dos seus privilégios e interesses mesquinhos?

É para isso que pedem o nosso voto? Para fazer igual àqueles que criticam?

sexta-feira, 15 de março de 2019

Diálogo de surdos

Sábado, na esplanada de um restaurante em pequena cidade da província.
— Vanessa, esta tarde preciso de ti no salão!, diz a mãe para a filha, moça dos seus dezassete anos.
— Não há nada para eu fazer!
— Só que atendas quem chega, já me ajudas muito.
Amuada, a jovem, virou a cara para o lado: — Porque é que me não avisaste antes?
— Sabes bem que a mãe precisa de ajuda.
O pai mete-se: — Vanessa, porque é que não vais ajudar a tua mãe?
— Agora vou para a Biblioteca, tenho lá os meus amigos.
— Não são os teus amigos que te dão de comer.
— É sempre o mesmo. Só me dizem quando tenho outras combinações!
— Tens a semana toda para estares com eles. Porque é que não estiveste com eles hoje de manhã?
— Porque estive a aspirar, a arrumar, a passar a ferro…!
— Não querias que a tua mãe fizesse isso depois de sair do trabalho, à noite?
— Queria era que me dissesse com tempo quando é que precisa de mim. E aquilo é uma seca. Não tenho nada, nada, que fazer!
— Se aparecer alguma cliente, a tua mãe não precisa de largar o que está a fazer.
— Deixa lá, diz a mãe, e aponta a expressão da filha: — Não quero ninguém a receber as clientes com estas trombas.
— Tenho voleibol às quatro!, diz, lágrimas a correr pelo rosto.
Passa o tio, dono do restaurante, e manda-a tirar os pés de cima da mesa: 
—Isso é para fazeres lá em casa!
— Em casa, o pai não deixa!
— Ah, estava a ver que te não dava educação!

Momentaneamente, fico a sós com o pai da moça: — Isto é um problema, gerir conflitos constantes entre mãe e filha. A mãe fica lixada por a Vanessa a não ajudar, a Vanessa reponde-lhe com duas pedras na mão…

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Outros tempos

O S. era um velho implicativo, quezilento, amigo de armar zaragata por ofensas reais ou imaginárias. E passava o tempo a sacanear os outros, por maldade, e para se vangloriar das partidas pregadas.
Ora um dia veio,  humildemente, pedir ao dono do café e padaria, malandro como ele, o favor de lhe guardar metade dum cabrito na arca congeladora: 
— Bem vês, tive de o matar e só para a mim e para a patroa é carne demais... Se mo puderes guardar umas semanas, até à Páscoa...
E rematou, desconfiado: — Mas não  lhe tiras bocado, pois não?
— Por quem me tomas? Achas que preciso da tua carne para alguma coisa?
— Bem, sendo assim, deixo-o à confiança, venho buscá-lo para a Páscoa! E agradeceu muito o favor.
Ele a virar costas e o padeiro a passar palavra: — Logo à noite apareçam e tragam o vinho, que a ceia ofereço-a eu, é cabrito assado no forno!
Bela patuscada, bem regada, acompanhada com pão quente acabado de sair do forno. 
Chegou a hora da gabarolice. 
— Sabem de quem era este cabrito?
Pois não sabiam. Mas riem já, pressentindo partida  pregada a infeliz.
— Do S. 
Espanto geral. Como é que tinha conseguido passar a perna a esse sacana, tão desconfiado, tão matreiro?
—Veio-me pedir para guardar na arca meio cabrito esfolado, amanhado, prontinho a assar, só precisei de temperar!

— Mas ele não tem cabritos! Viste a cabeça do animal? Não? Ai o cabrão! Foi mas é o cão que lhe morreu ontem!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A Idade de Ouro

Longe vão os meus tempos de pregador. Hoje, sem pretender converter, nem sequer convencer, as polémicas não me motivam como antigamente e fico-me pela contra-argumentação, na esperança vã de que os factos que avanço levem os meus opositores a considerar, tenuamente que seja, que podem não estar tão carregados de razão como se julgam.
Mas, assim mo mostra a vida e confirma a realidade facebookana, esgrimir argumentos é inútil contra a fé, seja ela a religiosa, seja a das causas que se vão construindo sob os meus olhos cépticos: agricultura ‘biológica’, medicinas alternativas, acupunctura, vegetarianismo, alimentos milagrosos que até curam o cancro e se acaso fracassam é porque ou o doente os descobriu demasiado tarde, ou porque os não consumiu da forma adequada, ou com fé suficiente, atitudes anti-científicas que rejeitam as vacinas, desdenham dos medicamentos, põem em causa evidências como a da Terra ser esférica, ou o homem ter descido na Lua, embora, estranhamente, pareçam aceitar que algumas das nossas naves já viajam para fora do sistema solar...
Será a saudade do passado que me leva a considerar muito mais poética a ignorância meio século atrás, com espíritos e espiritistas, almas assombradas e exorcistas, crendices que me deixavam apavorado por ter ingerido cabelo, a medo que se transformasse no meu interior em cobra, a benzer-me para afastar Satanás, a mijar nas feridas para as desinfectar?
Certamente. Mas a ignorância de antanho resultava da falta de informação. A de hoje envolve sobretudo gente dos meios urbanos, com estudos, que se enreda em argumentos e justificações palavrosas, ignorando uns factos, deturpando outros segundo as suas conveniências, não raro sustentando as suas crenças, inevitavelmente assertivas, em “estudos” facilmente desmentíveis.
Por exemplo, partem de factos inegáveis, como os efeitos secundários dos medicamentos, ou os perigos da utilização dos pesticidas agrícolas, para desencadearem campanhas contra o uso de uns e outros, não querendo ver, pois a fé é cega, que o nosso bem-estar depende crucialmente da utilização correcta de uns e de outros.
Sou velho. Já vivi mais do que o meu pai, talvez tanto como o meu avô Cipriano. E lembro-me muito bem, que as recordações do passado são as que a memória melhor retém, de como era a vida meio século atrás, num Portugal pré-científico, subnutrido e cheio de doenças. Infantis, que as vacinas evitaram. Crónicas e incapacitantes que os medicamentos curaram  ou tornaram suportáveis. Em que o cancro — sim, comia-se tudo biológico, mas morria-se igualmente de cancro — se tratava pondo-lhe ovos cozidos por cima, para que o cancro os comesse em vez do doente. E com rezas, que pouco mais havia.

Essa época, com escasso conhecimento científico, quase sem remédios (lembro-me das sulfamidas, da tintura de iodo, do melhoral, mais tarde do Vick Vaporub), em que apenas comia ‘biológico’ do que havia, quando o havia, não foi uma Idade de Ouro. Foi uma idade de sofrimento. Onde, como diz Álvaro de Campos, eu era feliz e ninguém estava morto. Sobretudo por isso.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Moda Outono/Inverno

As tendências da moda na condução para esta época obedecem ao estilo négligé (ou ‘desleixé’) e são inspiradas no mau tempo que se tem feito sentir, com dias escuros, chuvosos, de visibilidade reduzida, e também em preocupações ecológicas 
Por isso, a moda é conduzir com as luzes apagadas, mesmo que o dia se tenha feito noite; alguns levam a moda tão a peito que nem na noite mais escura acendem as luzes. Poupa as lâmpadas, poupa energia, e, o mais importante, segue os ditames da moda. Alguns, ainda indecisos, optaram por apenas ter luzes de um dos lados da viatura, o que tem a vantagem de permitir uma dupla interpretação: uns, observando o lado escuro do carro, deduzirão que é de fiel seguidor da moda desta estação; outros, pensarão que se trata de uma mota, já que os motociclistas, velhos jarretas que desprezam modas, teimam em circular, de dia ou de noite, com as luzes todas acesas.
Outra tendência da moda deste ano deriva da anterior: jamais sinalizar a mudança de faixa ou de direcção: Era o que me faltava ter de dizer aos outros para onde vou! Viro para onde quero, quando quero, não admito que restrinjam a minha liberdade, para que é que se fez o 25 de Abril?
Tenho observado ainda outra tendência, mas não sei se vingará, por me parecer demasiado infantil: sobretudo na autoestrada, há aqueles condutores que, imaginando-se talvez a competir na Fórmula 1,  se colam ao pára-choques do carro da frente para aproveitar o efeito de sucção e de repente, zás! guinam bruscamente à esquerda e ultrapassam ã falsa fé.

E agora que todos conhecem a moda da estação, vamos lá a respeitá-la: NUNCA acender as luzes, NUNCA sinalizar as mudanças de direcção, e SEMPRE pregar cagaços aos outros condutores, que isto de andar na estrada não precisa de ser enfadonho!

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Que fazemos debaixo do Sol?

Para quê fazer, por exemplo, água-pé, se o pessoal, depois de a provar, e mesmo que esteja muito boa, a não bebe, preferindo o vinho do ano anterior? E eu também...
Para quê escrever, se os editores nada querem comigo, se os leitores dos meus romances, exceptuando Entre Cós e Alpedriz, se contam pelos dedos das mãos — talvez de uma das mãos?
Não sei. Tal como não sei se a vida terá algum sentido. Ou se faz sentido preenchê-la de manhã à noite com inutilidades.
Nada de novo, nada de original nestas minhas medíocres reflexões — já o velho Eclesiastes o disse e muito melhor do que eu:
“E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol.” (Ec. 2.11)
Mesmo assim, enquanto as forças, que vão já escasseando, me não faltarem, enquanto a cabeça funcionar e os meus múltiplos interesses se não esvanecerem por completo, vou continuar. Porque sou teimoso, casmurro de tal forma que nem a mim próprio logro convencer-me e, mesmo sabendo da inutilidade do esforço, prefiro-o de longe ao arrastar da vida e da velhice em estéreis conversas de café, ao definhar tristonho, sem desejar partir, sem querer ficar.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O Nada da vida

Num universo saído do Nada — talvez um entre miríades a brotarem constantemente como bolhas de metano em pântano — hoje com mais de cem biliões de galáxias, cada uma com com mais de cem biliões de estrelas, uma infinidade de planetas, nascemos nós, condenados a regressar depressa a esse Nada, como luz que apaga e nada deixa atrás de si, nem sequer simples fotões a viajarem infinitamente no tempo e no espaço...
Comecemos pelo óbvio. 
Não tivesse eu nascido e nada sofreria. Não me atormentariam os mistérios do Universo, nem me incomodariam os sofrimentos da Humanidade, nem o seu destino inexorável, nem recearia o vazio que é a morte, essa eternidade sem tempo, sem ontem, nem hoje, nem amanhã, sem causas e sem efeitos, sem conhecimento, nem sofrimento, nem prazer. 

Ou tivesse eu morrido na infância, como esteve para suceder vezes sem conta, antes de ter consciência de que estava vivo. Hoje, nem uma memória seria, falecidos todos aqueles que me me podiam recordar com pálida tristeza. 

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Do profissionalismo

(A noite estava escura e tempestuosa)
Chovia torrencialmente, o vento soprava forte, o frio era cortante naquela noite de Janeiro. Não havia então casas próximas da minha, situada no limite da vila, em zona tida por insegura, com tiroteios frequentes nas imediações.
Aí pela meia noite, tocam-me à campainha. Quem será, com um temporal destes? Outra vez algum bêbedo desnorteado?
Assomo à janela. Um táxi, de onde saem para a chuva duas mulheres desconhecidas. Engano, seguramente.
Se era ali que morava — eu! Sim.
Se podiam entrar e falar comigo — com o colega, somos do Júri Nacional de Exames...
Já eu corria a abrir a porta, que entrassem, que saíssem do temporal, Mas o que se passa?
Entram, encharcadas, a tremer com frio. E em frente à lareira, enquanto aqueciam, em vez de explicações, perguntas: Se já tinha começado a corrigir os exames que me tinham sido entregues nessa manhã, em Lisboa — a cem quilómetros de distância.
Surpreendido, disse que não. Só tencionava começar esse trabalho no dia seguinte. E não me passou despercebido o alívio que transpareceu nos seus rostos preocupados.
E onde tinha os exames? Ah, em gaveta da minha secretária, no escritório, no primeiro andar, fechados à chave. Se os podiam ver? Sim, claro, mas porquê?
Vamos lá, então.
Abri a gaveta onde estavam os envelopes com os exames. E elas: cá está! Colega, este envelope foi-lhe entregue por engano, vamos substitui-lo por este, e retirou um da pasta, faça favor de conferir se o número de provas está correcto.
Compreendi o que tinha sucedido: por engano, naquele tempo em que ainda não havia computadores, entre os vários envelopes com provas para eu corrigir, tinha-me sido entregue um da minha escola. E aquelas professoras correram até à província em demanda de um desconhecido, que nem sabiam onde morava, indiferentes ao temporal, a expensas próprias, para corrigirem o erro, que nem seria culpa delas, antes que pudesse chegar ao conhecimento público.
Era com este profissionalismo que trabalhávamos nos anos 80. E que continuámos a trabalhar nas décadas seguintes.
Ah, naquele ano, o da PGA — Prova Geral de Acesso (ao ensino superior) — corrigi mais de mil exames, nas quatro fases, sem qualquer redução ou dispensa das minhas funções docentes. Foi duro, não tive escolha, embora esse trabalho fosse pago. E o dinheirito deu-me muito jeito naqueles tempos de penúria.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Palavras, apenas palavras

Tanto a religião como a ciência estão de acordo nisto: o Universo surgiu do Nada. Ou criado por uma divindade, ou como resultado de uma singularidade que originou o Big Bang.
(Divindade e singularidade são apenas palavras, uma criação humana, para mencionar o desconhecido.)
Mas ateus e crentes divergem num ponto fundamental: para os primeiros, não é necessária intervenção criadora: o Nada é instável, a criação de um universo exige uma energia mínima ou até nula (somada toda a energia do nosso Universo, positiva e negativa, dá zero), e as flutuações quânticas não só permitem, mas exigem que no Nada primordial surjam constantemente partículas, umas virtuais outras reais, pelo que os universos podem brotar como cogumelos na floresta após chuvada de Outono e nessa infinidade de universos, um, o nosso, reuniu as condições necessárias e suficientes para o aparecimento de seres capazes de reflectirem sobre a sua criação.
Porém, tal como a existência de um Criador coloca a questão da sua origem, também a criação de universos a partir do nada tem o seu calcanhar de Aquiles: o que é o Nada, porque há nesse Nada leis científicas, por básicas que sejam, a permitir a existência da Mecânica Quântica e respectivas flutuações?
Somos, tanto na hipótese criadora do Universo por divindade, como na materialista, por exigência das leis da Ciência, confrontados com algo pré-existente necessário à criação do Universo, e, eventualmente, de outros universos…
A distingui-las, apenas palavras.