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domingo, 7 de agosto de 2011

Herdanças e heranças

Uma velhota esteve nove anos morta em casa. Durante esse tempo, não teve herdeiros, suponho. Ninguém a visitou, ninguém lhe telefonou, ninguém estranhou a sua ausência o suficiente para meter dentro a porta da casa e saber o que lhe teria acontecido. Culpa do Estado.
Ah, a velhota tinha bens. Pois os herdeiros apareceram e até "pensam" (a notícia sugere que quem pensa é a advogada) processar o Estado:

Herdeiros não sabem dos bens da idosa que esteve morta nove anos dentro de casa

Os herdeiros da idosa que esteve morta durante nove anos em casa, em Rio de Mouro, continuam sem conseguir apurar onde se encontram os bens que estavam na casa antes da venda do imóvel em hasta pública.

Silly season

(1) Em certos empregos, um mês de trabalho dá direito a férias:
...[Passos Coelho] vai estar uns dias com a mulher e as filhas "para recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai", notando que "vai ser um período mais curto do que seria a nossa vontade, mas será o possível dentro das actuais circunstâncias".
(2) O que quer o homem dizer com "recuperar tempo do [seu] papel enquanto marido e pai"? Que governar é tempo perdido? Que "marido e pai" é um papel (representado, suponho)? Que o tempo perdido pode ser recuperado?
Desisto. Ou serei eu a precisar de ir não sei para onde recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai. Apenas sugiro que da próxima se desenfie uns dias sem dar cavaco a ninguém e, sobretudo, ao dito cujo. Ah, e não precisa de nos querer mostrar que é marido dedicado e pai extremoso. Já foi eleito.


sábado, 6 de agosto de 2011

A riqueza virtual

Bombardeado diariamente com imbecilidades noticiosas, vejo-me obrigado a, mais uma vez, meter a foice em seara alheia, falando da área económico-financeira, de que nada entendo, como a minha própria situação evidencia. Em defesa da minha pretensão, um argumento que julgo supremo: foram os entendidos, os génios das finanças, que conduziram o Mundo ao ponto em que se encontra. Portanto não saberão muito mais do que eu... Aqui vai.
Poucos animais se preocuparão com riquezas. Uma das excepções será o cão, pervertido por longo convívio com o homem. O meu, por exemplo, se acaso tem abundância de ossos, enterra o excedente; mas como esquece onde enterrou o seu tesouro, escava todo o jardim em busca da sua riqueza perdida...
O ser humano, complicado por natureza, tem desde há muito procurado algo que o superiorize em relação aos seus semelhantes: conchas, contas de vidro, quinquilharia, gado, artefactos em metais até há pouco perfeitamente inúteis, como ouro e prata. A riqueza resultava, não raro, da acumulação de objectos sem finalidade utilitária, frequentemente em associação com a arte. Havia, claro, riquezas sólidas, como a terra, casas, meios de produção, mas pelo reduzido peso que têm na economia actual, esqueço-as neste post.
Hoje, o que há é, antes de mais, especulação. Suponhamos que um pintor impressionista vendeu um quadro. Essa venda incluía materiais, mão-de-obra, talento artístico, criatividade, etc. De onde veio o valor actual, milhares ou mesmo milhões de vezes superior ao da primeira venda, se nenhum valor foi acrescentado à pintura original? A resposta é: especulação. Uma empresa colocou no mercado acções, as quais  valorizaram astronomicamente relativamente ao preço de venda inicial? Especulação. Uma moradia foi vendida e revendida em curto espaço de tempo sempre com grandes valorizações: especulação. E para a especulação poder funcionar é necessário emitir cada vez mais papel-moeda, já esquecida a correspondência que em tempos houve entre as notas e riquezas mais consistentes, como o ouro. De modo que chegámos a um momento da história em que a riqueza é antes de mais especulação, com fraca ou nenhuma relação com a actividade produtiva. Assim, quando uma empresa reduz a produção, despede pessoal, as suas acções sobem e, inversamente, quando anuncia lucros e aumentos de produção, caem. Absurdo? Sem dúvida. Por isso abundam as notícias como esta:
As bolsas mundiais já perderam mais de 3,1 biliões de euros desde que a crise da dívida soberana na zona euro se instensificou, desde o princípio da semana passada, de acordo com a contabilização feita pela agência Bloomberg.
Aparentemente, não há qualquer relação entre a produção de riqueza não especulativa e a queda bolsista. Se assim for, as quebras ocorrem sobretudo na área especulativa, afectando o valor virtual e não tanto o valor real das empresas cotadas, seguramente bem inferior.
Será já no próximo ano que se lembram de mim para o Nobel da Economia?
ADENDA: veja-se também esta notícia:
Homem mais rico do mundo perde 8 mil milhões de dólares em quatro dias

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Reforma ao Sol

Se não chover. Vejo que o ministro Álvaro não consegue escapar à tentação de encontrar uma solução salvadora para a pátria, à imagem e semelhança dos seus antecessores. Tivemos Soares, que descobriu o milagre da adesão à CEE, Cavaco com a receita do bom aluno europeu, o seu ministro das Obras Públicas a cobrir de betão o país, Guterres e as Tecnologias da Informação (que em 2010 colocariam a Europa -- e Portugal -- à frente dos Estados Unidos), Sócrates e os magalhães...
Faltava-nos esta, fazer de Portugal o asilo da Europa. Senhor ministro, a trazer gente dos países nórdicos e do Reino Unido, não prefere as gajas boas que por lá abundam? É que velhos, a começar por mim, somos de mais e já nos falta a genica para cuidar deste jardim à beira-mar plantado, quanto mais dos velhotes e velhotas que quer importar. 
Senhor ministro, dois conselhos: aprenda a calar-se e esqueça a pretensão de salvar a pátria. A não ser que a queira salvar das idiotices com que cada governante nos afunda mais um pouco.

domingo, 31 de julho de 2011

Citação

O mal que atinge um membro corta-se ou tolera-se;  quando atinge um organismo inteiro, o homem sabe que é então uma questão de vida ou de morte, ataca e defende-se. Mas uma criatura que perece por imprevidência, fraqueza, logro, não é o Homem -- e o povo sabe-o.

Agustina Bessa Luís, A Sibila

Povo manso

Tenho tanta dificuldade em compreender a projecção mediática que os noruegueses dão ao seu mais recente serial killer como a sua reacção mansa às chacinas que perpetrou. É que ainda não ouvi ninguém, dos dirigentes políticos e policiais aos homens e mulheres entrevistados na rua, a exigir apuramento das responsabilidades e castigo exemplar do assassino, a quem dão livre acesso aos media para livremente expor os seus dislates como se tivesse acabado de ganhar as eleições. Parecem um pacato rebanho de tímidas ovelhinhas conformadas a balir lugares-comuns politicamente correctos. Muito cristão, sem dúvida. Mas que ninguém se espante se o exemplo frutificar.

sábado, 30 de julho de 2011

Regresso

Sete meses depois, dos quais quase quatro internada em hospitais, a maior parte do tempo nos cuidados intensivos e intermédios, por três vezes à beira da morte, eis a minha mãe de volta. Hoje em minha casa, numa festinha de alegria pelo seu regresso do mundo das sombras.


Islamitas e islamistas

Incomodado com a constante referência do Público a "islamistas", fui conferir ao dicionário da Porto Editora. Como previa, só conhece "islamitas":
 adjectivo e substantivo 2 géneros
que ou pessoa que segue o islamismo;


(De islame+-ita)
Não haverá dicionários lá pelo jornal?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Jion

A minha tokui-gata (kata favorita). Gostei desta interpretação (Didier Lupo) e das respectivas aplicações (bunkai):

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Atadores e atacadores

Ainda os sapatos (não, não fui aos saldos). Ouve-se frequentemente dizer: vou atar os sapatos. E eu interrogo-me: um ao outro? Ou será apertar aqueles cordões chamados atacadores? Será que uma das acepções do verbo atacar (vou atacar os sapatos) está em vias de extinção? Que vamos passar a ter atadores em vez de atacadores?

Coisas difíceis

Comprar um par de sapatos (um sozinho não serve para nada). E devia ser fácil: 39, castanhos ou pretos, de atacar, confortáveis, discretos e a prometerem durar. A vendedora, já impaciente com a esquisitice, tenta impingir-me uns.
-- Pois, mas os atacadores fazem parte dos sapatos e quando se partirem fico descalço.
Olha-me assarapantada com tanta ignorância: -- Mas são uns sapatos de vela!
-- Minha senhora, não os levava nem que tivessem motor-fora-de-bordo!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Rua Garré, Madri e outras que tais

Irrita-me a moda -- sinal de velhice, isto de me irritar a moda -- de não pronunciar as consoantes em que terminam certas palavras, geralmente nomes próprios que têm, ou aparentam ter, origem estrangeira. Por exemplo, João Baptista da Silva Leitão, que considerou nome e apelidos impróprios para poeta e escritor (-- Já leste as Folhas Caídas? Sim, do Silva Leitão!) acrescentou-lhe Almeida Garrett. Com dois tês, para, dizia ele, lerem pelo menos um. Pois hoje basta uma reportagem sobre a rua que tem o seu nome para termos úlcera de estômago, à força de ouvir referir a Rua Garré.
Outras vezes são as notícias de Madri, o dê final botado fora -- mas, estranhamente, nunca ouvi Párri, mas sempre Paris... 
Eu, por mim, sem medo de que me julguem ignorante, persisto em pronunciar à portuguesa os nomes próprios estrangeiros, na linha do que defendia o nosso primeiro gramático, Fernão de Oliveira, a propósito dos estrangeirismos:  nós cá trataremos de os amansar.

domingo, 17 de julho de 2011

Leituras

Leio sobretudo  por duas razões: por prazer e para aprender. Sem isto, bem pode um autor  receber encarecidos encómios dos críticos -- e como eu confio neles, no seu bom gosto e, sobretudo, na isenção! -- , pode até ir posar nu para a auto-estrada, que eu, na melhor das hipóteses, folhearei a sua obra-prima, lendo-a em diagonal, apenas  para ter a certeza de que estou a ser meramente preconceituoso e não estupidamente preconceituoso.
De momento, estou a ler The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture of Reality [Kindle Edition]. Interessa-me muito mais o Espaço e o Tempo do que, por exemplo, as desventuras de um quarentão que quer ser pai. Enfim, há gostos para tudo e longe de mim pretender insinuar que querer compreender o Universo, o Espaço e o Tempo seja mais interessante do que uma paternidade serôdia.

sábado, 16 de julho de 2011

Alves dos Reis

Génio das finanças português. Atribui-se-lhe a pergunta: "Que é roubar um banco ao pé de fundar um banco?" Na sua genialidade decidiu produzir notas falsas exactamente iguais às autênticas. Com sucesso. Apenas -- um desses azares, comparáveis às "notações" da Moody's -- um caixa de um banco ficou perplexo ao encontrar duas notas iguaizinhas, com a mesma matrícula. Por culpa deste picuinhas, Alves dos Reis teve um fim triste, indigno do seu talento para as finanças.

ADENDA: o meu amigo Acácio duvida de que a trafulhice de Alves dos Reis tenha sido descoberta graças ao episódio das notas iguais. É muito provável que eu esteja enganado: reproduzi a anedota que ouvi em miúdo. Descoberto dessa ou de  outra forma, Alves dos Reis teve um fim de vida sofrido e, o ponto que me interessa, foi seguramente um génio incompreendido das finanças, antecipando em quase um século a política financeira dos Estados Unidos: emitir dólares sem cuidar da correspondência entre o papel e o respectivo valor em ouro ou em qualquer outra riqueza.
Já agora, Acácio: não terás na tua colecção uma das notas de Alves dos Reis?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Regresso

De dez dias de férias em Lagos. Reencontro com estatísticas, relatórios, mail atrasado e, em breve, a 2ª fase dos exames. Felizmente (para mim, que já não estou na praia), o tempo refrescou. Ah, e há também umas notícias com piada: o Obama a comparar os EUA com Portugal, dizendo de nós o que os nossos governantes ainda há dias diziam da Grécia: nós não somos...
Decididamente, o capitalismo atingiu o estádio supremo da estupidez. Ao ponto de o presidente americano não conseguir perceber que emitir dólares não é produzir riqueza. Nas últimas décadas, os génios das finanças não fizeram mais nem melhor do que Alves dos Reis ou a D. Branca. Conseguem entender?
Yes, we can.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Nascido a 4 de Julho

O Miguel, que hoje fez três anos. Como diz o povo, são eles que nos fazem (sentir) velhos, tão depressa crescem.
Olho negro, nariz negro, grita IÁ, respondem os irmãos IÁ, influências do Panda Kung Fu. Talvez mais tarde se venham a interessar pelo karaté.

domingo, 3 de julho de 2011

Ufa!

Terminei há instantes pesada tarefa que por esta altura todos os anos me espera. Até que se fartem de mim e chamem gente mais jovem. Enfim, conteúdo funcional, nada a acrescentar. Salvo que me dói a mão e até tenho calo no dedo anelar direito de tantas vezes escrever o meu nome. Quase oitenta vezes seguidas, ao ponto de já nem ter a certeza de como me chamo. 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Strauss-Kahn revisitado

Por uma e outra vez, manifestei aqui dúvidas sobre a violação de uma empregada de hotel pelo então boss do FMI. E revoltei-me ao ver multidões em fúria, à porta do tribunal, a injuriá-lo, gajas histéricas a exigirem a sua cabeça porque se não é culpado desta, é-o certamente de outras, numa versão moderna da fábula do lobo e do cordeiro: Se não foste tu, foi o teu pai! -- afinal, cenas déjà vues aquando do processo Casa Pia. Os ricos, os poderosos, os influentes, que as multidões adulam, são sempre culpados e merecem expiar os pecados da turba que os lincharia alegremente. Sempre foi assim, de Cristo aos regicídios, talvez por isso o Santo Ofício queimasse uns pobres diabos para evitar que a populaça assasse os grandes diabos. Catarse.
Não me surpreende, portanto, que hoje os media noticiem fragilidades na acusação. Só me surpreende que tenha sido preciso tanto tempo -- o suficiente, porém, para que Strauss-Kahn fosse substituído no FMI -- para verem o óbvio. E às numerosas indignadas deste país e d'ailleurs, só posso sugerir que da próxima vez se lembrem da dúvida metódica para que não baste uma criatura gritar que foi abusada para crucificar alguém. Não é apenas a presunção da inocência; é a diferença entre a barbárie e a civilização.

Da entropia

A segunda lei da termodinâmica é uma formulação científica do pessimismo: num meio fechado, a entropia aumenta sempre. Toda a organização se consegue à custa do caos criado – e este cresce sempre. Prosperaram sociedades organizadas na Europa e na América do Norte, tão ricas que até dispensavam migalhas para ajudar as vítimas do caos necessariamente criado em África e na Ásia; tão ricas que depois das matérias primas passaram a importar também os operários -- até concluírem que era preferível deslocalizar a produção e os seus custos humanos e ambientais. E a entropia diminuiu no antes chamado Terceiro Mundo, aumentando consequentemente no Ocidente. O caos da Grécia, da Espanha, não é fenómeno passageiro e localizado: é um sinal dos tempos. Num meio fechado como é o planeta Terra, a entropia aumenta sempre.

ADENDA, só necessária porque (1) Portugal é o país da esperança, seja no regresso de D. Sebastião, seja na protecção da Senhora de Fátima e (2) Portugal é o país da retórica (enfim, de uma certa retórica, onde todos se convencem de que é tudo uma questão de palavras e de conversa fiada -- talvez por isso os políticos saíssem maioritariamente de Direito, isto antes de saírem das jotas):

Contrariamente às leis religiosas ou jurídicas, uma lei científica não conhece excepções, seja aqui seja em Andrómeda: ou está correcta ou não está. E todos os dados disponíveis, toneladas, terabites deles, evidenciam a correcta formulação das duas leis da termodinâmica.

Ajax

Quando o jovem Ajax partiu para a guerra de Tróia, o pai recomendou-lhe que se encomendasse à protecção da deusa Atena. Recusou: com a ajuda da deusa dos olhos garços até o mais fraco dos homens brilharia na guerra. Não, ele haveria de vencer sem a ajuda de Atena e, se preciso fosse, contra a própria deusa – que, vingativa, o enlouqueceu e o precipitou na desgraça. E Ajax empalou-se, lançando-se sobre a própria espada.
Ai, ai, Ajax!
Ai, ai, Ajax! Quase vinte e cinco séculos se esboroaram, tudo continua na mesma: ai de quem não suplica a protecção dos deuses e deusas, fingindo que não lhes vê os pés de barro!