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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Em torno da poesia (2 de vários)

— José Cipriano, decoraste a poesia, como te mandei?
E eu, olhos baixos: — Sim, minha senhora.
(Era assim que tratávamos a jovem professora primária.)
— Vem então aqui dizê-la.
Tímido, intimidado, subi para o estrado e sem ousar levantar os olhos para as quatro classes, balbuciei, monocórdico:
Em cima desta mesa, desta mesa de estudo, tenho o teu retrato, Mãe! 
A professora queria expressividade, mímica, gestos largos, dramáticos. E eu, cada vez pior. A cabeça sabia o que fazer, como dizer. Mas a vergonha paralisava-me.
— Assim não dá. Vai-te sentar.
Obedeci rápido, antes que descarregasse no meu corpito enfezado a raiva que a possuía, frustrada por não poder impressionar o inspector que viria à escola naquela semana com declamação do melhor aluno, menos de cinco reis de gente...

(O poema de José Régio, Colegial, pode ser lido aqui)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Em torno da poesia (1 de vários)

A poesia tem sido presença constante e marcante na minha vida. Porém, como contarei em várias mensagens, nem sempre assim foi, e aquilo a que chamo poesia pouco terá a ver com muito do que hoje se abriga debaixo do seu guarda-chuva -- ou guarda-sol, que vem aí o calor.
Não escrevo poesia. Tal como não escrevo música, nem pinto. Cada qual é para o que nasce. Ou tem talento para essas artes, ou não tem. Eu não tenho, e descobri-o bem cedo.

Na adolescência escrevia umas quadras anti-fascistas piegas, coisas do género:
O pão que o diabo amassou
Será comido por ele só
Chorará então como chorou
Aquele de quem não teve dó!

Depressa evolui para formas mais livres, vazando a inspiração em textos atafulhados de imagens, tentando imitar  poetas como Daniel Faria (ainda hoje me encanta A Invenção do Amor, que motivou o meu terceiro romance), José Gomes Ferreira, José Régio...
Então conheci Federico Garcia Lorca, em carta do meu primo António, com poemas que dactilografara, tomado de admiração por esse poeta que descobrira recentemente. Aquela música entrou-me logo nos ouvidos, Verde que te quero verde, Ai, Antoñito el camborio! A morte sai e entra, a morte entra e sai... Que bela fogueira deram os meus "poemas"!
O golpe fatal nas minhas ambições poéticas, porém, foi dado quando li Pessoa, e por via dele, Whitman, Klebnikov, Maiakovski. Prévert mais tarde. Vi claramente visto o que é arte. Dei-me conta das  minhas limitações insuperáveis. Porque, ao contrário do que por aí se diz, o querer não é tudo. Não chega desejar ser águia para ter as asas, as garras, a bravura - arriscamo-nos a não passar de cacarejadores de metáforas.
Pior: não consigo impedir-me de aplicar esse filtro a tudo o que leio. Pouco escapa. E aquilo que escapa é, quase sempre, mais velho do que eu.
Estará a poesia moribunda, ou será dos meus pobres olhos, que teimam em apreciar velharias? Suspeito que nem uma coisa nem outra. Que a poesia continua viva e pujante, e o o problema estará no desfasamento entre qualidade e divulgação, como aliás, também sucede na prosa literária. Até porque muitos dos poetas são seres tímidos, apreciadores da sombra, a quem a exposição confrange e repugna.
(Continua)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Abuso de confiança

Como o defunto João Gaspar Simões, tenho a pretensão de conseguir farejar o talento. Uma vez, por exemplo, já lá vão 25 anos, era eu estagiário, a minha escola fervia de indignação devido a um jornal de alunos. Entrei para uma reunião. Vociferavam escandalizadas as orientadoras, cacarejavam aprovadores os estagiários, eu suspeitosamente calado. Incomodamente calado. Todos os olhares acabaram por me cair em cima, como se o meu silêncio fosse comprometedor.
Desculpei-me: -- Ainda não vi o dito cujo...
Prontamente, um colega que sabia viver e foi longe na vida mo pôs debaixo dos olhos. Folheei, dei com um soneto, li-o em diagonal, e escandalizei orientadoras e orientados: -- Mas isto é mesmo bom!
Não caiu o Carmo e Trindade porque estavam distantes, em Lisboa. Digamos, apenas, que superior e sabiamente sovado pelas autoridades educativas de então, dei continuidade a uma carreira de desastres e de inconveniências, e alarguei o vasto leque de gente aguardando a primeira oportunidade de me escalpelizar... E foi já fora da reunião e longe de ouvidos zelosos que o meu colega de então me confidenciou: -- Como é que o poema não havia de ser bom? Se é de Bocage!
Pois eu não o conhecia, não estava assinado... Há dias, a mesma coisa. No meio de poemas medíocres, um destoava. Era muito bom... Até que leio o nome do autor: Vasco Graça Moura.
Vem isto a propósito da poesia da Ivone. Já, por várias vezes, lhe disse que tem poemas muito bons. Encolhe os ombros e diz que se trata de amiguismo. Que alguém me aponte um único elogio, a poemas ou a narrativas, em que haja amiguismo. Quantas vezes me não contorci como enguia na frigideira para evitar comentários negativos, não tendo positivos para fazer. Quantas vezes me não calei. Mas elogiar merda, nunca. Quem duvidar, que percorra o histórico deste blogue, que vá ao meu site, e me contradiga. Publicarei todos os desmentidos fundamentados.
Posto isto, repito: tem poemas muito bons. Veja-se este, acabadinho de roubar do seu blogue - que a Ivone desculpe o abuso de confiança:

O PRIMEIRO OUTONO

Foi numa noite assim
que Ceres se esqueceu da Terra.

Por debaixo das raízes e dos rios,
Proserpina deitou-se no leito de sombras.
Ainda seda, ainda memória, ainda luz,
viu os bagos de romã
caídos em redor de Plutão
que lhe estendia
numa mão o esquecimento,
noutra a eternidade.

Ivone Costa