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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ainda a Síria

Desculpem a insistência, era minha intenção não voltar a falar da Síria até a guerra começar. Mas não consigo calar-me. Hoje leio isto no DN:
O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, afirmou hoje que é improvável que o ataque com armas químicas tenha sido perpetrado pelos rebeldes e que uma possível ação militar contra a Síria não contará com tropas no terreno.
Porra, não tem a certeza, baseia-se em palpites aparentemente tão válidos como os meus, que considero improvável ter sido o regime sírio a recorrer às armas químicas, e propõe-se mesmo assim começar uma guerra? Uma guerra que pode depressa degenerar em conflito mundial, que a Rússia não ficará passivamente a ver  os americanos estoirarem alvos estratégicos do seu aliado?
Espertos foram os ingleses, que arranjaram forma airosa de se porem de fora desta pouca vergonha que americanos e franceses preparam para, dizem eles com despudor, defender os seus interesses.

A lição da fábula

O regime sírio não é cordeiro, antes lobo feroz. Mas a intervenção armada que se avizinha não se move pelo desejo nobre de proteger e livrar o povo sírio da tirania, antes por interesses vis, como os próprios dirigentes americanos despudoramente agora confessam, ao verem desmentidas as suas acusações de que havia sido o governo sírio a usar armas químicas.
A Casa Branca disse na última noite que os EUA vão "continuar a consultar o governo do Reino Unido – um dos nossos amigos e aliados mais próximos" e a decisão de avançar ou não "será norteada pelos interesses americanos". 
(no Público, negrito meu).
A mudança de argumentos, que aqui previ, assemelha-se em tudo à argumentação do lobo que na fábula de La Fontaine procura convencer o cordeirito de que tem motivos para o punir -- como Hollande. E quando as razões se esgotam, fazem como o lobo, que sem mais pretextos para comer o cordeiro, prontamente o matou e devorou, pois, ensina a fábula, a razão do mais forte é sempre a melhor ("La raison du plus fort est toujours la meilleure").
Como agora. Resta saber se americanos ainda são os mais fortes. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Quem usou armas químicas na Síria?

Isto de culpar antes de investigar tem que se lhe diga. Segundo o DN,

"A Síria apresentou ao Conselho de Segurança da ONU provas de que o ataque com armas químicas, a 21 de agosto nos arredores de Damasco, foi realizado por forças rebeldes, foi hoje anunciado.

"Entregámos às Nações Unidas todas as provas e documentos que mostram que foi a oposição, não o Estado, que utilizou armas químicas", disse aos jornalistas o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Faisal Miqdad.
As provas foram entregues na terça-feira, afirmou o responsável sírio, insistindo que as autoridades jamais utilizariam armas químicas contra civis.
Uma missão de peritos da ONU está atualmente na Síria, onde ficará, em princípio, até sábado, para investigar vários casos de alegados ataques com armas químicas, pelos quais se acusam mutuamente regime e oposição. (...)"
Qualquer que seja a verdade dificilmente mudará o curso dos acontecimentos. Se este pretexto para um ataque à Síria for inviabilizado, arranja-se outro.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Lá vamos nós outra vez

Jugoslávia. Iraque. Afeganistão. Líbia. Todos os outros países de que me esqueci. Sempre com bons pretextos, que depressa se verificaram falsos. Não tenho nenhuma dúvida de que os povos de todos esses países, e os vizinhos, estão pior do que antes das intervenções 'bem intencionadas'. De boas intenções está o inferno cheio.
O ímpeto justiceiro dos americanos e dos media que por eles ladram não cessa. Junta-se um Hollande que quer "punir" — foi o verbo que utilizou — o regime sírio. É difícil uma potência colonial como a França ultrapassar os traumas do passado. Sobretudo quando, como hoje se soube, o desemprego em França continua imparável.
Revolta-me o massacre de inocentes, o uso de armas químicas ou de outras contra a população indefesa. Mas não alinho em maniqueísmos, de um lado os bons americanos e seus amigos, do outro os seus inimigos, os maus. Estou farto de ser enganado. O homem é a mesma merda qualquer que seja o seu partido na guerra, todas as guerras são horríveis e as piores são as guerras civis, disse-o um francês sábio, creio que Descartes.  E a qual das partes mais aproveita o uso do  gás,  sabido que é que os vários grupos muçulmanos não hesitam em massacrar os seus para conseguir intervenção estrangeira?
Alegrem-se os media, podem até mandar o Rodrigues dos Santos fazer reportagens em directo de Damasco, terão com que encher os telejornais que preenchem os jantares em família. Alegrem-se os fabricantes de armas, os militares, os políticos, que desviarão as atenções da sua incompetência para governar os respectivos países, da sua incapacidade para cumprir as promessas eleitorais. Alegrem-se as boas consciências, vendo em directo os maus a serem punidos.
Mas vejam se não se esquecem, e se mais tarde não lamentam as atrocidades dos bonzinhos que colocaram no poder.
ADENDA
Diz-me a Cláudia no Facebook:
Nem de propósito, terminei hoje de ler estas 20 reportagens sobre a Croácia e acho que ficam aqui bem: http://www.pierreroux.com/photographe/prefacecroatie.html.