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terça-feira, 10 de maio de 2016

Verão Quente (3)

Verão quente (3)
Estão a ver o boné da foto do Salgueiro Maia? É um quico. Fazia parte da farda de de trabalho, a n.3, se a memória me não falha. Sem valor especial, ao contrário, por exemplo, das botas de trabalho.
Pois no Verão de 1975 estava eu destacado num dos quartéis de Santa Margarida e entrei no bar dos sargentos para um café.
Sempre distraído, paguei, peguei o boné de cima do balcão, e saía quando um primeiro sargento me detém, puxando-me pelo braço. Rudemente.
-- Nosso furriel, esse quico é meu!
Olho-o espantado. Levo a mão à cabeça -- descoberta. Nego.
E ele, malcriadão: -- Vá-se f..., o seu está aí! -- e apontou para a presilha das minhas divisas de segundo furriel.
Pois estava! Tinha-o lá prendido ao entrar no bar.
Nem me tentei desculpar. Apressei-me a sair, a evitar os remoques do sargento-chico, a arengar contra o chico-esperto que lhe queria roubar o quico, ah, mas ele tinha-os bem abertos, não era qualquer furriel maçarico que lhe passava a perna!

sábado, 7 de maio de 2016

Verão Quente (2)

A FBP, pistola metralhadora do sargento de serviço, deu em disparar crivando de balas a parede em frente à qual os soldados alinhavam para a formatura da manhã -- e eles, mandando a disciplina ao tal sítio, instantaneamente se lançaram por terra.
-- O meu sargento é doido ou quê?
O pobre sargento de dia, incapaz de controlar a arma, que disparava incessantemente em todas as direcções, gritava em pânico: -- Venham-me cá parar isto!
-- Vamos mas é o c...! Tire o dedo do gatilho, vire essa merda para o ar!
A FBP só parou de disparar quando esvaziou o carregador...

Verão. Quente (1)

1975. A contra-revolução crescia. No Tejo, ameacadores navios de guerra da NATO. Em Rio Maior, barricadas. Caça aos comunistas no Oeste, incêndio das sedes do PC. 
No meu quartel, deram camuflado a cozinheiros e a padeiros, passaram-nos a operacionais, a eles que mal sabiam manejar a G3 e pareciam ansiosos por a usar. Um dia, vi da minha janela um açoreano gritar para outro: -- Pá, dá-me um tiro!
-- És doido ou quê?
-- Ah, não dás? Atão dou eu! 
E zás, aponta-lhe a G3, pum! Pum!
Grita o outro, resguardado na camarata: -- Pára com essa merda, és doido ou o c...?
A medo, assomam às portas e janelas outros prontos, acaba por vir o oficial de dia, cauteloso,
-- Sim, meu aspirante, fui eu, esta merda disparou-se não sei como!
Segue responso: não deve ter bala na câmara, e a arma deve estar travada. Tiros, só contra a reacção. E furriel ranhoso acrescenta: -- E contra o M-R- Pum-Pum! Podes furar esses cabrões todos!

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

As uvas do pessoal

O povo. Espezinhado, oprimido durante meio século — sem erguer a voz. Veio o 25 de Abril e era ouvi-lo gritar que jamais seria vencido. Na vanguarda, o sr. João: chegara a hora da mudança. De  fazer cooperativa, onde pobres e ricos entregassem a fruta, as uvas, e recebessem justa paga. 
Defendia a ideia há muito, no café, no largo, respeitosamente escutado — afinal era o senhor João, proprietário de muitas terras, empregador de servos —, mas, mal virava costas,
— O que ele quer sei eu!
Sabiam. Que toda a gente é igual, todos querem tudo para si, nada para os outros. Que Deus fizera torto o Mundo e não havia dilúvio que o endireitasse. Que o homem é o ladrão do homem. Não que negassem razão ao sr. João. Bem sabiam que os intermediários vendiam em Lisboa os pêssegos cinco vezes mais caros. Que penavam para receber o dinheiro do vinho vendido, esmolando adiantamentos junto dos compradores, figurões da terra, os quais pagavam quando e como queriam. 
Mas no minifúndio os camponeses têm dupla personalidade, simultaneamente proprietários e assalariados; cuspiam nas mãos, como se ainda segurassem o cabo da enxada, empurravam a boina para o alto da cabeça, acenavam afirmativamente, sim senhor, uma cooperativa é coisa boa, isso é que nos resolvia as coisas, mas mal o sr. João virava costas costas lá vinha
— O que ele quer sei eu!
Desconfiavam dele, bem se via. Era ateu. Contra o regime. Desconfiavam da família: um tio, republicano velho, estivera envolvido nos motins contra Salazar e, murmurava-se, em morte de homem. Um irmão, desertor, estava fugido em França.
Veio o 25 de Abril e o sr. João assumiu-se: era da CDU. Para os camponeses — comunista, como sempre tinham suspeitado.
A cooperativa avançava, empregava gente na abertura dos alicerces:
— O que é que fazes agora?
— Ando na construção da adega dos comunistas!
Nunca passou das fundações. Matou-a a caça aos comunistas, no Verão Quente de 75. Pouco importava se eram militantes ou meros simpatizantes. O ódio ancestral ao jacobinismo, aos pedreiros livres, aos ateus, renascera com as ocupações de terras no Alentejo, e os mais raivosos eram aqueles que de seu pouco iam além dos sete palmos que nos esperam no cemitério. 
A cooperativa, que comprara uvas, não as pagava, que o vinho não escoava, perdidos os mercados africanos com a descolonização. 
Pôs-se a esperança na ajuda revolucionária:
— A União Soviética compra o nosso vinho!
Não fazia diferença o serem vermelhos — contanto que o quisessem. E durante algum tempo sonhou-se largo, seriam muitos milhões de bêbedos eslavos a trocar o ruim vodka, que tanto mal faz à saúde, pelo nosso tinto quem sabe se graças a ele se operaria o terceiro milagre de Fátima, a conversão da santa Russia. Mas os tempos não estavam para milagres, e a fraternidade revolucionária era mera propaganda. O vinho não se vendia.
E numa noite homens revoltados pintaram em letras vermelhas no muro da casa do sr. João 
Pequeno Cunhal
Quando é que pagas as uvas do pessoal?"