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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Leitura recomendada

Não sou muito dado a actividades sociais e fujo como o diabo da cruz dos eventos que me cheiram a feiras de vaidades, onde importa estar presente para ver e ser visto. Mas faço questão de participar  naqueles que me tocam, como foi ontem o caso do lançamento do livro de Pedro Correia Vogais e consoantes politicamente incorrectas do acordo ortográfico.

A apresentação, na Bertrand do Picoas Plaza, apinhada de gente interessada e atenta, coube  ao editor, a Pedro Mexia e ao autor. Divertida, esclarecedora, cativante, defendeu posições que eu mesmo, quando no activo, tinha reivindicado na minha escola, como o direito de os professores opositores se poderem declarar objectores de consciência. 
O livro, que li entusiasmado na viagem de regresso, constitui um estudo exaustivo sobre a génese e a implementação do acordo ortográfico de 1990, as suas vicissitudes e motivações, em Portugal, no Brasil, nos restantes países de língua portuguesa; põe a nu as incoerências, os disparates, as asneiras resultantes da sua aplicação (embora saliente aspectos positivos), e propõe um plano de acção claro, sucinto, exequível para resolver a trapalhada criada pela incompetência ou o desleixo de (pessoas que se dizem) linguistas e políticos. 
Bem fundamentado, claro na exposição, combina o rigor com a arte de bem escrever.
Apenas senti a falta de uma secção, mesmo que genérica, sobre as motivações económicas do acordo: encontros e conferências internacionais, com as inerentes mordomias, ganhos com a formação, guerras pelo controlo do mercado livreiro, substituição quase forçada dos dicionários e demais ferramentas de língua... Porque, pressinto, as motivações para a elaboração do acordo ortográfico de 90 e as posteriores pressões para a sua aplicação podem não ter sido sempre nobres e elevadas -- científicas nunca foram, nem pretenderam ser, como o livro deixa claro, citando um dos pais deste aborto.
Seria a ocasião de proponentes e defensores deste acordo ortográfico prepararem obra que desminta as evidências e rebata os argumentos apresentados por Pedro Correia, justificando a aberração em vigor. Seria, mas duvido de que isso aconteça, tal a solidez das Vogais e consoantes politicamente incorrectas, provavelmente estocada final no acordês e possível ponto de partida para emenda consistente das asneiras -- que um pequeno grupo não escolhido, não nomeado, trabalhando à revelia dos linguistas e demais intelectuais, impôs sem debate público à sociedade portuguesa, à brasileira, e quer impor aos demais países da lusofonia...

quinta-feira, 1 de março de 2012

Objecção de consciência

Sempre disse muito claramente que não iria aplicar o novo acordo ortográfico. Já nem tenho paciência para explicar as numerosas razões desta decisão, tomada em consciência, apesar do risco de vir a ser sancionado. E é inútil lembrarem-me de que antigamente farmácia se escrevia com ph, pois passo muito do meu tempo a ler textos antigos, alguns dos quais  remontam à alvorada da nossa literatura, em finais do séc. XII. 
Diferente foi a atitude de muitos dos meus colegas, uns por, em consciência, concordarem com as alterações propostas, outros, raros, porque sempre correm atrás das modas.
Hoje foi a vez  da Presidente da Associação de Professores de Português sair em defesa do novo acordo em declarações ao DN:

A Associação de Professores de Português (APP) "lamenta" as declarações do secretário de Estado da Cultura sobre possíveis alterações ao Acordo Ortográfico (AO), e considera que se anda "a brincar" com o Ensino.
Em declarações à Lusa, a presidente da APP, Edviges Ferreira, afirmou que "é de lamentar as declarações do secretário de Estado [da Cultura], e também que entre os governantes não haja acordo".
A responsável recordou que "saiu uma portaria do Ministério da Educação, segundo a qual os professores são obrigados a aplicar o novo Acordo Ortográfico a partir do ano letivo 2011/12, a decorrer".
"E agora com que cara vão dizer aos alunos que cada um escreve como entende", questionou a docente.
Edviges Ferreira considerou estarem "a brincar com os professores, alunos, pais, e toda uma comunidade".
Para a presidente da APP as declarações de Francisco José Viegas "destoam da contenção orçamental que nos é exigida", referindo os gastos já feitos com "os manuais escritos já impressos segundo as novas regras" e os que implica a reformulação das regras.
Declaração de interesses: em devido tempo, desvinculei-me da referida associação por entender que não defendia devidamente os interesses dos professores de Português. Este comunicado bem o comprova: afinal, um dos motivos para a rejeição de alterações reside nos custos dos manuais já impressos pelas editoras. Pena não ter denunciado o preço indecente dos manuais escolares, pena não ter avançado com propostas para reduzir o seu custo, purgando-os daquilo que pode ser cortado, o que melhoraria a respectiva operacionalidade. 
Talvez por detrás desta rejeição indignada esteja algo mais profundo e difícil de erradicar: o apego ao eduquês. Que, qual hidra, continua peçonhenta com todas as suas cabeças intactas, quase um ano após a tomada de posse do ministro Nuno Crato-- que, já deu para ver, não é nenhum Hércules.