A uns, evasão; a quase todos, transpiração; à Ivone, inspiração. Muito bom este poema. Parabéns.
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segunda-feira, 8 de agosto de 2011
domingo, 7 de agosto de 2011
Herdanças e heranças
Uma velhota esteve nove anos morta em casa. Durante esse tempo, não teve herdeiros, suponho. Ninguém a visitou, ninguém lhe telefonou, ninguém estranhou a sua ausência o suficiente para meter dentro a porta da casa e saber o que lhe teria acontecido. Culpa do Estado.
Ah, a velhota tinha bens. Pois os herdeiros apareceram e até "pensam" (a notícia sugere que quem pensa é a advogada) processar o Estado:
Herdeiros não sabem dos bens da idosa que esteve morta nove anos dentro de casa
Os herdeiros da idosa que esteve morta durante nove anos em casa, em Rio de Mouro, continuam sem conseguir apurar onde se encontram os bens que estavam na casa antes da venda do imóvel em hasta pública.
Silly season
(1) Em certos empregos, um mês de trabalho dá direito a férias:
Desisto. Ou serei eu a precisar de ir não sei para onde recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai. Apenas sugiro que da próxima se desenfie uns dias sem dar cavaco a ninguém e, sobretudo, ao dito cujo. Ah, e não precisa de nos querer mostrar que é marido dedicado e pai extremoso. Já foi eleito.
...[Passos Coelho] vai estar uns dias com a mulher e as filhas "para recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai", notando que "vai ser um período mais curto do que seria a nossa vontade, mas será o possível dentro das actuais circunstâncias".(2) O que quer o homem dizer com "recuperar tempo do [seu] papel enquanto marido e pai"? Que governar é tempo perdido? Que "marido e pai" é um papel (representado, suponho)? Que o tempo perdido pode ser recuperado?
Desisto. Ou serei eu a precisar de ir não sei para onde recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai. Apenas sugiro que da próxima se desenfie uns dias sem dar cavaco a ninguém e, sobretudo, ao dito cujo. Ah, e não precisa de nos querer mostrar que é marido dedicado e pai extremoso. Já foi eleito.
sábado, 6 de agosto de 2011
A riqueza virtual
Bombardeado diariamente com imbecilidades noticiosas, vejo-me obrigado a, mais uma vez, meter a foice em seara alheia, falando da área económico-financeira, de que nada entendo, como a minha própria situação evidencia. Em defesa da minha pretensão, um argumento que julgo supremo: foram os entendidos, os génios das finanças, que conduziram o Mundo ao ponto em que se encontra. Portanto não saberão muito mais do que eu... Aqui vai.
Poucos animais se preocuparão com riquezas. Uma das excepções será o cão, pervertido por longo convívio com o homem. O meu, por exemplo, se acaso tem abundância de ossos, enterra o excedente; mas como esquece onde enterrou o seu tesouro, escava todo o jardim em busca da sua riqueza perdida...
O ser humano, complicado por natureza, tem desde há muito procurado algo que o superiorize em relação aos seus semelhantes: conchas, contas de vidro, quinquilharia, gado, artefactos em metais até há pouco perfeitamente inúteis, como ouro e prata. A riqueza resultava, não raro, da acumulação de objectos sem finalidade utilitária, frequentemente em associação com a arte. Havia, claro, riquezas sólidas, como a terra, casas, meios de produção, mas pelo reduzido peso que têm na economia actual, esqueço-as neste post.
Hoje, o que há é, antes de mais, especulação. Suponhamos que um pintor impressionista vendeu um quadro. Essa venda incluía materiais, mão-de-obra, talento artístico, criatividade, etc. De onde veio o valor actual, milhares ou mesmo milhões de vezes superior ao da primeira venda, se nenhum valor foi acrescentado à pintura original? A resposta é: especulação. Uma empresa colocou no mercado acções, as quais valorizaram astronomicamente relativamente ao preço de venda inicial? Especulação. Uma moradia foi vendida e revendida em curto espaço de tempo sempre com grandes valorizações: especulação. E para a especulação poder funcionar é necessário emitir cada vez mais papel-moeda, já esquecida a correspondência que em tempos houve entre as notas e riquezas mais consistentes, como o ouro. De modo que chegámos a um momento da história em que a riqueza é antes de mais especulação, com fraca ou nenhuma relação com a actividade produtiva. Assim, quando uma empresa reduz a produção, despede pessoal, as suas acções sobem e, inversamente, quando anuncia lucros e aumentos de produção, caem. Absurdo? Sem dúvida. Por isso abundam as notícias como esta:
O ser humano, complicado por natureza, tem desde há muito procurado algo que o superiorize em relação aos seus semelhantes: conchas, contas de vidro, quinquilharia, gado, artefactos em metais até há pouco perfeitamente inúteis, como ouro e prata. A riqueza resultava, não raro, da acumulação de objectos sem finalidade utilitária, frequentemente em associação com a arte. Havia, claro, riquezas sólidas, como a terra, casas, meios de produção, mas pelo reduzido peso que têm na economia actual, esqueço-as neste post.
Hoje, o que há é, antes de mais, especulação. Suponhamos que um pintor impressionista vendeu um quadro. Essa venda incluía materiais, mão-de-obra, talento artístico, criatividade, etc. De onde veio o valor actual, milhares ou mesmo milhões de vezes superior ao da primeira venda, se nenhum valor foi acrescentado à pintura original? A resposta é: especulação. Uma empresa colocou no mercado acções, as quais valorizaram astronomicamente relativamente ao preço de venda inicial? Especulação. Uma moradia foi vendida e revendida em curto espaço de tempo sempre com grandes valorizações: especulação. E para a especulação poder funcionar é necessário emitir cada vez mais papel-moeda, já esquecida a correspondência que em tempos houve entre as notas e riquezas mais consistentes, como o ouro. De modo que chegámos a um momento da história em que a riqueza é antes de mais especulação, com fraca ou nenhuma relação com a actividade produtiva. Assim, quando uma empresa reduz a produção, despede pessoal, as suas acções sobem e, inversamente, quando anuncia lucros e aumentos de produção, caem. Absurdo? Sem dúvida. Por isso abundam as notícias como esta:
As bolsas mundiais já perderam mais de 3,1 biliões de euros desde que a crise da dívida soberana na zona euro se instensificou, desde o princípio da semana passada, de acordo com a contabilização feita pela agência Bloomberg.
Aparentemente, não há qualquer relação entre a produção de riqueza não especulativa e a queda bolsista. Se assim for, as quebras ocorrem sobretudo na área especulativa, afectando o valor virtual e não tanto o valor real das empresas cotadas, seguramente bem inferior.
Será já no próximo ano que se lembram de mim para o Nobel da Economia?
ADENDA: veja-se também esta notícia:
Será já no próximo ano que se lembram de mim para o Nobel da Economia?
ADENDA: veja-se também esta notícia:
Homem mais rico do mundo perde 8 mil milhões de dólares em quatro dias
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Reforma ao Sol
Se não chover. Vejo que o ministro Álvaro não consegue escapar à tentação de encontrar uma solução salvadora para a pátria, à imagem e semelhança dos seus antecessores. Tivemos Soares, que descobriu o milagre da adesão à CEE, Cavaco com a receita do bom aluno europeu, o seu ministro das Obras Públicas a cobrir de betão o país, Guterres e as Tecnologias da Informação (que em 2010 colocariam a Europa -- e Portugal -- à frente dos Estados Unidos), Sócrates e os magalhães...
Faltava-nos esta, fazer de Portugal o asilo da Europa. Senhor ministro, a trazer gente dos países nórdicos e do Reino Unido, não prefere as gajas boas que por lá abundam? É que velhos, a começar por mim, somos de mais e já nos falta a genica para cuidar deste jardim à beira-mar plantado, quanto mais dos velhotes e velhotas que quer importar.
Senhor ministro, dois conselhos: aprenda a calar-se e esqueça a pretensão de salvar a pátria. A não ser que a queira salvar das idiotices com que cada governante nos afunda mais um pouco.
domingo, 31 de julho de 2011
Citação
O mal que atinge um membro corta-se ou tolera-se; quando atinge um organismo inteiro, o homem sabe que é então uma questão de vida ou de morte, ataca e defende-se. Mas uma criatura que perece por imprevidência, fraqueza, logro, não é o Homem -- e o povo sabe-o.
Agustina Bessa Luís, A Sibila
Povo manso
Tenho tanta dificuldade em compreender a projecção mediática que os noruegueses dão ao seu mais recente serial killer como a sua reacção mansa às chacinas que perpetrou. É que ainda não ouvi ninguém, dos dirigentes políticos e policiais aos homens e mulheres entrevistados na rua, a exigir apuramento das responsabilidades e castigo exemplar do assassino, a quem dão livre acesso aos media para livremente expor os seus dislates como se tivesse acabado de ganhar as eleições. Parecem um pacato rebanho de tímidas ovelhinhas conformadas a balir lugares-comuns politicamente correctos. Muito cristão, sem dúvida. Mas que ninguém se espante se o exemplo frutificar.
sábado, 30 de julho de 2011
Regresso
Sete meses depois, dos quais quase quatro internada em hospitais, a maior parte do tempo nos cuidados intensivos e intermédios, por três vezes à beira da morte, eis a minha mãe de volta. Hoje em minha casa, numa festinha de alegria pelo seu regresso do mundo das sombras.
Islamitas e islamistas
Incomodado com a constante referência do Público a "islamistas", fui conferir ao dicionário da Porto Editora. Como previa, só conhece "islamitas":
adjectivo e substantivo 2 géneros
que ou pessoa que segue o islamismo;Não haverá dicionários lá pelo jornal?
(De islame+-ita)
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Jion
A minha tokui-gata (kata favorita). Gostei desta interpretação (Didier Lupo) e das respectivas aplicações (bunkai):
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Atadores e atacadores
Ainda os sapatos (não, não fui aos saldos). Ouve-se frequentemente dizer: vou atar os sapatos. E eu interrogo-me: um ao outro? Ou será apertar aqueles cordões chamados atacadores? Será que uma das acepções do verbo atacar (vou atacar os sapatos) está em vias de extinção? Que vamos passar a ter atadores em vez de atacadores?
Coisas difíceis
Comprar um par de sapatos (um sozinho não serve para nada). E devia ser fácil: 39, castanhos ou pretos, de atacar, confortáveis, discretos e a prometerem durar. A vendedora, já impaciente com a esquisitice, tenta impingir-me uns.
-- Pois, mas os atacadores fazem parte dos sapatos e quando se partirem fico descalço.
Olha-me assarapantada com tanta ignorância: -- Mas são uns sapatos de vela!
-- Minha senhora, não os levava nem que tivessem motor-fora-de-bordo!
terça-feira, 19 de julho de 2011
Rua Garré, Madri e outras que tais
Irrita-me a moda -- sinal de velhice, isto de me irritar a moda -- de não pronunciar as consoantes em que terminam certas palavras, geralmente nomes próprios que têm, ou aparentam ter, origem estrangeira. Por exemplo, João Baptista da Silva Leitão, que considerou nome e apelidos impróprios para poeta e escritor (-- Já leste as Folhas Caídas? Sim, do Silva Leitão!) acrescentou-lhe Almeida Garrett. Com dois tês, para, dizia ele, lerem pelo menos um. Pois hoje basta uma reportagem sobre a rua que tem o seu nome para termos úlcera de estômago, à força de ouvir referir a Rua Garré.
Outras vezes são as notícias de Madri, o dê final botado fora -- mas, estranhamente, nunca ouvi Párri, mas sempre Paris...
Eu, por mim, sem medo de que me julguem ignorante, persisto em pronunciar à portuguesa os nomes próprios estrangeiros, na linha do que defendia o nosso primeiro gramático, Fernão de Oliveira, a propósito dos estrangeirismos: nós cá trataremos de os amansar.
Eu, por mim, sem medo de que me julguem ignorante, persisto em pronunciar à portuguesa os nomes próprios estrangeiros, na linha do que defendia o nosso primeiro gramático, Fernão de Oliveira, a propósito dos estrangeirismos: nós cá trataremos de os amansar.
domingo, 17 de julho de 2011
Leituras
Leio sobretudo por duas razões: por prazer e para aprender. Sem isto, bem pode um autor receber encarecidos encómios dos críticos -- e como eu confio neles, no seu bom gosto e, sobretudo, na isenção! -- , pode até ir posar nu para a auto-estrada, que eu, na melhor das hipóteses, folhearei a sua obra-prima, lendo-a em diagonal, apenas para ter a certeza de que estou a ser meramente preconceituoso e não estupidamente preconceituoso.
De momento, estou a ler The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture of Reality [Kindle Edition]. Interessa-me muito mais o Espaço e o Tempo do que, por exemplo, as desventuras de um quarentão que quer ser pai. Enfim, há gostos para tudo e longe de mim pretender insinuar que querer compreender o Universo, o Espaço e o Tempo seja mais interessante do que uma paternidade serôdia.
sábado, 16 de julho de 2011
Alves dos Reis
Génio das finanças português. Atribui-se-lhe a pergunta: "Que é roubar um banco ao pé de fundar um banco?" Na sua genialidade decidiu produzir notas falsas exactamente iguais às autênticas. Com sucesso. Apenas -- um desses azares, comparáveis às "notações" da Moody's -- um caixa de um banco ficou perplexo ao encontrar duas notas iguaizinhas, com a mesma matrícula. Por culpa deste picuinhas, Alves dos Reis teve um fim triste, indigno do seu talento para as finanças.
ADENDA: o meu amigo Acácio duvida de que a trafulhice de Alves dos Reis tenha sido descoberta graças ao episódio das notas iguais. É muito provável que eu esteja enganado: reproduzi a anedota que ouvi em miúdo. Descoberto dessa ou de outra forma, Alves dos Reis teve um fim de vida sofrido e, o ponto que me interessa, foi seguramente um génio incompreendido das finanças, antecipando em quase um século a política financeira dos Estados Unidos: emitir dólares sem cuidar da correspondência entre o papel e o respectivo valor em ouro ou em qualquer outra riqueza.
Já agora, Acácio: não terás na tua colecção uma das notas de Alves dos Reis?
ADENDA: o meu amigo Acácio duvida de que a trafulhice de Alves dos Reis tenha sido descoberta graças ao episódio das notas iguais. É muito provável que eu esteja enganado: reproduzi a anedota que ouvi em miúdo. Descoberto dessa ou de outra forma, Alves dos Reis teve um fim de vida sofrido e, o ponto que me interessa, foi seguramente um génio incompreendido das finanças, antecipando em quase um século a política financeira dos Estados Unidos: emitir dólares sem cuidar da correspondência entre o papel e o respectivo valor em ouro ou em qualquer outra riqueza.
Já agora, Acácio: não terás na tua colecção uma das notas de Alves dos Reis?
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Regresso
De dez dias de férias em Lagos. Reencontro com estatísticas, relatórios, mail atrasado e, em breve, a 2ª fase dos exames. Felizmente (para mim, que já não estou na praia), o tempo refrescou. Ah, e há também umas notícias com piada: o Obama a comparar os EUA com Portugal, dizendo de nós o que os nossos governantes ainda há dias diziam da Grécia: nós não somos...
Decididamente, o capitalismo atingiu o estádio supremo da estupidez. Ao ponto de o presidente americano não conseguir perceber que emitir dólares não é produzir riqueza. Nas últimas décadas, os génios das finanças não fizeram mais nem melhor do que Alves dos Reis ou a D. Branca. Conseguem entender?
Yes, we can.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Nascido a 4 de Julho
O Miguel, que hoje fez três anos. Como diz o povo, são eles que nos fazem (sentir) velhos, tão depressa crescem.
Olho negro, nariz negro, grita IÁ, respondem os irmãos IÁ, influências do Panda Kung Fu. Talvez mais tarde se venham a interessar pelo karaté.
Olho negro, nariz negro, grita IÁ, respondem os irmãos IÁ, influências do Panda Kung Fu. Talvez mais tarde se venham a interessar pelo karaté.
domingo, 3 de julho de 2011
Ufa!
Terminei há instantes pesada tarefa que por esta altura todos os anos me espera. Até que se fartem de mim e chamem gente mais jovem. Enfim, conteúdo funcional, nada a acrescentar. Salvo que me dói a mão e até tenho calo no dedo anelar direito de tantas vezes escrever o meu nome. Quase oitenta vezes seguidas, ao ponto de já nem ter a certeza de como me chamo.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Strauss-Kahn revisitado
Por uma e outra vez, manifestei aqui dúvidas sobre a violação de uma empregada de hotel pelo então boss do FMI. E revoltei-me ao ver multidões em fúria, à porta do tribunal, a injuriá-lo, gajas histéricas a exigirem a sua cabeça porque se não é culpado desta, é-o certamente de outras, numa versão moderna da fábula do lobo e do cordeiro: Se não foste tu, foi o teu pai! -- afinal, cenas déjà vues aquando do processo Casa Pia. Os ricos, os poderosos, os influentes, que as multidões adulam, são sempre culpados e merecem expiar os pecados da turba que os lincharia alegremente. Sempre foi assim, de Cristo aos regicídios, talvez por isso o Santo Ofício queimasse uns pobres diabos para evitar que a populaça assasse os grandes diabos. Catarse.
Não me surpreende, portanto, que hoje os media noticiem fragilidades na acusação. Só me surpreende que tenha sido preciso tanto tempo -- o suficiente, porém, para que Strauss-Kahn fosse substituído no FMI -- para verem o óbvio. E às numerosas indignadas deste país e d'ailleurs, só posso sugerir que da próxima vez se lembrem da dúvida metódica para que não baste uma criatura gritar que foi abusada para crucificar alguém. Não é apenas a presunção da inocência; é a diferença entre a barbárie e a civilização.
Da entropia
A segunda lei da termodinâmica é uma formulação científica do pessimismo: num meio fechado, a entropia aumenta sempre. Toda a organização se consegue à custa do caos criado – e este cresce sempre. Prosperaram sociedades organizadas na Europa e na América do Norte, tão ricas que até dispensavam migalhas para ajudar as vítimas do caos necessariamente criado em África e na Ásia; tão ricas que depois das matérias primas passaram a importar também os operários -- até concluírem que era preferível deslocalizar a produção e os seus custos humanos e ambientais. E a entropia diminuiu no antes chamado Terceiro Mundo, aumentando consequentemente no Ocidente. O caos da Grécia, da Espanha, não é fenómeno passageiro e localizado: é um sinal dos tempos. Num meio fechado como é o planeta Terra, a entropia aumenta sempre.
ADENDA, só necessária porque (1) Portugal é o país da esperança, seja no regresso de D. Sebastião, seja na protecção da Senhora de Fátima e (2) Portugal é o país da retórica (enfim, de uma certa retórica, onde todos se convencem de que é tudo uma questão de palavras e de conversa fiada -- talvez por isso os políticos saíssem maioritariamente de Direito, isto antes de saírem das jotas):
Contrariamente às leis religiosas ou jurídicas, uma lei científica não conhece excepções, seja aqui seja em Andrómeda: ou está correcta ou não está. E todos os dados disponíveis, toneladas, terabites deles, evidenciam a correcta formulação das duas leis da termodinâmica.
ADENDA, só necessária porque (1) Portugal é o país da esperança, seja no regresso de D. Sebastião, seja na protecção da Senhora de Fátima e (2) Portugal é o país da retórica (enfim, de uma certa retórica, onde todos se convencem de que é tudo uma questão de palavras e de conversa fiada -- talvez por isso os políticos saíssem maioritariamente de Direito, isto antes de saírem das jotas):
Contrariamente às leis religiosas ou jurídicas, uma lei científica não conhece excepções, seja aqui seja em Andrómeda: ou está correcta ou não está. E todos os dados disponíveis, toneladas, terabites deles, evidenciam a correcta formulação das duas leis da termodinâmica.
Ajax
Quando o jovem Ajax partiu para a guerra de Tróia, o pai recomendou-lhe que se encomendasse à protecção da deusa Atena. Recusou: com a ajuda da deusa dos olhos garços até o mais fraco dos homens brilharia na guerra. Não, ele haveria de vencer sem a ajuda de Atena e, se preciso fosse, contra a própria deusa – que, vingativa, o enlouqueceu e o precipitou na desgraça. E Ajax empalou-se, lançando-se sobre a própria espada.
Ai, ai, Ajax!
Ai, ai, Ajax! Quase vinte e cinco séculos se esboroaram, tudo continua na mesma: ai de quem não suplica a protecção dos deuses e deusas, fingindo que não lhes vê os pés de barro!
Ai, ai, Ajax!
Ai, ai, Ajax! Quase vinte e cinco séculos se esboroaram, tudo continua na mesma: ai de quem não suplica a protecção dos deuses e deusas, fingindo que não lhes vê os pés de barro!
terça-feira, 28 de junho de 2011
A geração mais qualificada
Têm as melhores notas de sempre, em boa parte mercê das explicações, do facilitismo, da inflação, das pressões que os pais exercem sobre escolas e professores -- e das calculadoras que contêm as cábulas: façam-lhes o reset antes dos exames (ou interditem o seu uso) e será a catástrofe.
Aprenderam a aprender, a fazer projectos, a investigar, estudaram formação cívica e sexual, tudo em planos aprovados pelos seus representantes e pelos dos seus pais. Rebolaram pelo chão em colchões nas aulas de Teatro, passearam amiúde em “visitas de estudo”, frequentemente até ao estrangeiro. Tiveram o maior tempo de permanência na escola, a maior carga horária de que me recordo; doses cavalares de Matemática, de Física, de Biologia, divididos em turnos por causa das experiências que talvez tenham sido mais raras do que se pensa; inscreveram-se em Moral pelas “visitas de estudo” e pelas notas altas para entrarem para os quadros de mérito e de excelência; fechados na escola, fechados nas salas de aula, transformaram-nas em recreios, saindo amiúde, para ir às sanitárias e aos cacifos, para encher as garrafas de água, para conviver, namorar – e o ruído durante o tempo de aulas tornou-se ensurdecedor, mas só dele dão conta quando fazem os testes intermédios.
Tiveram direito a complementos, a medidas de apoio, a apoio pedagógico acrescido, a tutorias, a professores de apoio, a psicólogos… Aprenderam a escrever colectivamente poemas e histórias, bem aplaudidos em cerimónias públicas, alguns lêem histórias de vampiros e quejandos – mas não tiveram “contacto merecedor de registo” com a literatura, nem sequer aquando do estudo das obras de leitura integral. Não aprenderam a amar a poesia, poucos leram alguma vez um bom romance. Desconhecem a História de Portugal, a Geografia, essas velharias, que ideias novas, como “A minha pátria é a Europa” ou a “Europa das Regiões”, tornaram obsoletas. São do mundo dos afectos, da não memorização, da investigação – que produz não raro trabalhos imprimidos directamente da Net. Não os culpo: sou também responsável pelas suas “qualificações”.
E depois têm exames. Ora, embora na sua maior parte saibam ler e o façam expressivamente, são incapazes de explicar o que acabaram de ler. Quando escrevem, poucos vão além do estilo telegráfico dos SMS e da trivialidade do Facebook. A pobreza lexical é confrangedora. Mesmo os textos daqueles que escrevem melhor se ressentem do vazio de conteúdo, da falta generalizada de cultura geral. Não lêem atentamente as perguntas dos exames porque tal nunca foi verdadeiramente necessário e nós, professores, sempre valorizáramos a conversa da treta com que enchem papel, aproveitando sempre que podemos uma palavra aqui, outra ali, para o almejado sucesso escolar – evitando planos de recuperação e justificações pelos resultados deles.
Receio que a situação seja irreversível: os professores mais velhos, entre os quais me incluo, sofrem de desalento, de desmotivação, descrentes num sistema de faz-de-conta, em que o que importa é apresentar “evidências” em inumeráveis projectos e relatórios ; os mais novos, que foram formados nas mais variadas instituições e entraram para o sistema com as regras actuais, dificilmente conceberão outro modelo de ensino… E, mesmo que fossem tomadas medidas correctivas – ai do ministro que o ouse fazer! --, na Educação os resultados demoram muito a surgir, por vezes uma ou duas gerações…
Aprenderam a aprender, a fazer projectos, a investigar, estudaram formação cívica e sexual, tudo em planos aprovados pelos seus representantes e pelos dos seus pais. Rebolaram pelo chão em colchões nas aulas de Teatro, passearam amiúde em “visitas de estudo”, frequentemente até ao estrangeiro. Tiveram o maior tempo de permanência na escola, a maior carga horária de que me recordo; doses cavalares de Matemática, de Física, de Biologia, divididos em turnos por causa das experiências que talvez tenham sido mais raras do que se pensa; inscreveram-se em Moral pelas “visitas de estudo” e pelas notas altas para entrarem para os quadros de mérito e de excelência; fechados na escola, fechados nas salas de aula, transformaram-nas em recreios, saindo amiúde, para ir às sanitárias e aos cacifos, para encher as garrafas de água, para conviver, namorar – e o ruído durante o tempo de aulas tornou-se ensurdecedor, mas só dele dão conta quando fazem os testes intermédios.
Tiveram direito a complementos, a medidas de apoio, a apoio pedagógico acrescido, a tutorias, a professores de apoio, a psicólogos… Aprenderam a escrever colectivamente poemas e histórias, bem aplaudidos em cerimónias públicas, alguns lêem histórias de vampiros e quejandos – mas não tiveram “contacto merecedor de registo” com a literatura, nem sequer aquando do estudo das obras de leitura integral. Não aprenderam a amar a poesia, poucos leram alguma vez um bom romance. Desconhecem a História de Portugal, a Geografia, essas velharias, que ideias novas, como “A minha pátria é a Europa” ou a “Europa das Regiões”, tornaram obsoletas. São do mundo dos afectos, da não memorização, da investigação – que produz não raro trabalhos imprimidos directamente da Net. Não os culpo: sou também responsável pelas suas “qualificações”.
E depois têm exames. Ora, embora na sua maior parte saibam ler e o façam expressivamente, são incapazes de explicar o que acabaram de ler. Quando escrevem, poucos vão além do estilo telegráfico dos SMS e da trivialidade do Facebook. A pobreza lexical é confrangedora. Mesmo os textos daqueles que escrevem melhor se ressentem do vazio de conteúdo, da falta generalizada de cultura geral. Não lêem atentamente as perguntas dos exames porque tal nunca foi verdadeiramente necessário e nós, professores, sempre valorizáramos a conversa da treta com que enchem papel, aproveitando sempre que podemos uma palavra aqui, outra ali, para o almejado sucesso escolar – evitando planos de recuperação e justificações pelos resultados deles.
Receio que a situação seja irreversível: os professores mais velhos, entre os quais me incluo, sofrem de desalento, de desmotivação, descrentes num sistema de faz-de-conta, em que o que importa é apresentar “evidências” em inumeráveis projectos e relatórios ; os mais novos, que foram formados nas mais variadas instituições e entraram para o sistema com as regras actuais, dificilmente conceberão outro modelo de ensino… E, mesmo que fossem tomadas medidas correctivas – ai do ministro que o ouse fazer! --, na Educação os resultados demoram muito a surgir, por vezes uma ou duas gerações…
Um montense no governo
Foi com grande alegria bairrista que tomei conhecimento da nomeação de Fernando Santo, meu conterrâneo e ainda colega de escola primária, como Secretário de Estado. Fernando Santo, com quem não falo há quase cinquenta anos devido à diáspora montense, é bem conhecido dos portugueses por ter sido bastonário da Ordem dos Engenheiros. Desejo que contribua significativamente para o sucesso das medidas que nos tirem do lodaçal onde outros nos atascaram, dignificando o nosso país e honrando a nossa aldeia.
Muitos parabéns.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Karaté em Almeirim
Sábado, 2 de Julho. Direcção: Sensei Vilaça Pinto; organização: Sensei Paulo Almeida . Lá estarei.
Foto: em primeiro plano, kumité entre os sensei Paulo e Xavier, Março de 2010, no Entroncamento.
Foto: em primeiro plano, kumité entre os sensei Paulo e Xavier, Março de 2010, no Entroncamento.
Pára-raios
"Os pára-raios nas igrejas
Servem para mostrar aos ateus
que os cristãos, por mais que o sejam,
Não confiam em Deus"
(popular)
A lição do galo
Serpenteando por entre as colinas verdejantes, brilham as paredes brancas das casas das encostas, destoando uma ou outra no amarelo que foi moda tempos atrás --- e acima de todas elas, sobressai a torre da igreja, encimada por pára-raios agressivamente virado para o céu, servindo de eixo a cata-vento de ferro, em forma de galo orgulhoso, bico sempre apontado para barlavento, cauda larga para sotavento.
Do galo se diz que é inconstante como a aragem que o faz rodar, mas se o observarmos sem ideias pré-concebidas, dia após dia, ano após ano, melhor ainda, se o pudéssemos acompanhar vida após vida, concluiríamos, como eu próprio já concluí, que também ele tem as suas querenças, visto que, podendo apontar em qualquer direcção, o vejo de manhãzinha olhando para Nascente, como se também ele, na sua mudez férrea, quisesse saudar o nascer do Sol, ou o cacarejar que vem dessa direcção lhe animasse uma qualquer molécula orgânica, depositada pelos pardais oportunistas que o usam como poleiro, sujando-o indecorosamente...
Vendo-o assim imóvel, pensar-se-ia até que a ferrugem lhe limitou os movimentos na sua velhice, imobilizando-o nessa direcção; mas não, que quando a aldeia gela fustigada pelos ventos secos de Leste, de onde nunca veio nada que preste, o pobre coitado, não tendo como se resguardar, mais não pode que apontar-lhes o bico, virando a cauda para os lados do mar. (...)
Do galo se diz que é inconstante como a aragem que o faz rodar, mas se o observarmos sem ideias pré-concebidas, dia após dia, ano após ano, melhor ainda, se o pudéssemos acompanhar vida após vida, concluiríamos, como eu próprio já concluí, que também ele tem as suas querenças, visto que, podendo apontar em qualquer direcção, o vejo de manhãzinha olhando para Nascente, como se também ele, na sua mudez férrea, quisesse saudar o nascer do Sol, ou o cacarejar que vem dessa direcção lhe animasse uma qualquer molécula orgânica, depositada pelos pardais oportunistas que o usam como poleiro, sujando-o indecorosamente...
Vendo-o assim imóvel, pensar-se-ia até que a ferrugem lhe limitou os movimentos na sua velhice, imobilizando-o nessa direcção; mas não, que quando a aldeia gela fustigada pelos ventos secos de Leste, de onde nunca veio nada que preste, o pobre coitado, não tendo como se resguardar, mais não pode que apontar-lhes o bico, virando a cauda para os lados do mar. (...)
A mim, que raramente termino aquilo que começo, volúvel como o vento, de tal forma que já troco barlavento com sotavento, consola-me este amigo de outros tempos, testemunha muda de homens e de ventosidades, que tanto sabe e tudo cala, apenas preocupado como eu em virar a cauda ao desconforto, o olhar impassível fitando o infinito. Que ele me valha nesta narração, orientando-me para os protagonistas certos, inspirando-me a seguir a direito, sem desvios nem divagações, e, sobretudo, sem verborreia que se pegue ao texto como excremento de galinha às botas do criador.
Cata-vento
Como o cata-vento: humildemente a apontar um rumo vago. Não faltará quem sobranceiro o despreze, o ridicularize, quem recuse levantar o olhar do chão das certezas nem que seja apenas para constatar a inconstância dos ventos...
FOTO: Ferreira, Paredes de Coura
FOTO: Ferreira, Paredes de Coura
domingo, 26 de junho de 2011
Da fé
Invejo aqueles que têm fé sincera, genuína. Por isso, creio que não faz sentido o exercício que o José Ricardo nos propõe:Porque, penso eu, se Deus me aparecesse à frente, eu já não teria medo de morrer. Nem de nenhuma outra coisa. Não ficaria em pânico, não imploraria prolongamento do tempo de vida, fosse para poder ler mais uns livros ou para aprofundar a via do karaté.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
É português
O empregado de limpeza mais bem pago do mundo. Chama-se Villas-Boas (atenção ao duplo "L" e ao hífen, apesar do acordo ortográfico) e, segundo li hoje, vai limpar o balneário do Chelsea.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Fadinho do cavanço
Impressionam-me estas declarações patrióticas, sobretudo vindas de quem nos abandonou. Tanto que até lhe dedico esta adaptação do "fado do cavanço" do Corpo Expedicionário Português na 1ª guerra mundial:
Nesta vida de cavanço,
A cavar, como se vê,
Se os boches dão um avanço,
Cava o governante português.
NOTA: A versão original, conforme a História de Portugal, 6º vol., dir. José Mattoso, p. 518, difere apenas no último verso:Cava todo o CEP.
As férias do governo
Passos Coelho só dá uma semana de férias ao governo. Que diabo, como é que os governantes têm direito a férias se apenas entraram em funções na semana passada? Ou será já a revisão das leis laborais?
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Quando for velho
Jacques Brel
LA... LA... LA... 1967
Quand je serai vieux je serai insupportable
Sauf pour mon lit et mon maigre passé
Mon chien sera mort ma barbe sera minable
Toutes mes morues m'auront laissé tomber
J'habiterai une quelconque Belgique
Oui m'insultera tout autant que maintenant
Quand je lui chanterai Vive la République
Vivent les Belgiens merde pour les Flamingants...
La... la... la...
La... la... la...
Je serai fui comme un vieil hôpital
Par tous les ventres de haute société
Je boirai donc seul ma pension de cigale
Il faut bien être lorsque l'on a été
Je ne serai reçu que par les chats du quartier
A leur festin pour qu'ils ne soient pas treize
Mais j'y chanterai sur une simple chaise
J'y chanterai après le rat crevé
Messieurs dans le lit de la Marquise
C'était moi les quatre-vingt chasseurs...
La... la... la
Quand viendra l'heure imbécile et fatale
Où il paraît que quelqu'un nous appelle
J'insulterai le flic sacerdotal
Penché vers moi comme un larbin du ciel
Et je mourirai cerné de rigolos
En me disant qu'il était chouette Voltaire
Et que si y en a des qu'ont une plume au chapeau
Y en a des qui ont une plume dans le derrière...
La... la... la
La... la... la
Quand je serai vieux je serai insupportable
Sauf pour mon lit et mon maigre passé
Mon chien sera mort ma barbe sera minable
Toutes mes morues m'auront laissé tomber
Jacques Brel
Desprazeres
Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.
Camões
Quarenta e muitos anos atrás o meu avô paterno confidenciou-me que queria morrer. Porque, perguntava-me e eu não respondia, o que é que cá andava a fazer. Talvez por isto, tenho sempre defendido que devemos cultivar interesses e ocupações que possamos manter em idade mais avançada. E agora que a minha mãe está finalmente num lar choca-me vê-la, desinteressada, apática, como tantos outros à espera de que os dias passem por eles, sem uma alegria visível, sem um sonho, um desejo. Sem vontade, sem a vontade de viver, o que não significa terem vontade de morrer. E dou por mim a pensar como também prazeres anteriores têm já o gosto danado: deixei de ler religiosamente ao sábado o Expresso e há muito que não sinto interesse pela leitura dos outros jornais; de há uns meses para cá a leitura dos blogues tem sido menos intensa, menos atenta, mais aleatória até; depois de A amante holandesa, não comecei nenhum dos muitos romances que esperam por leitura... Estarei eu a ficar desinteressado como os velhotes do lar, o mesmo vazio no olhar, idêntico ar parado, semelhante conversa resmungona? É sabido que quem lida com um coxo acaba por coxear, pelo que prestei atenção às minhas ocupações e leituras. Ora o que verifico é que cada vez leio mais: neste momento, The Elegant Universe: Superstrings, Hidden Dimensions..., Fernão Lopes (Crónica de D. Pedro e re-re-leituras da de D: João I), João de Barros (Gramática da Língua Portuguesa, Ropica Pnefma -- culpa de Mário de Carvalho, que a refere num dos seus romances --, José Mattoso (Naquele Tempo), e tantos outros. O que se está a passar comigo é, suponho, uma crise de impaciência face à superficialidade de alguns textos e, sobretudo, de temáticas da actualidade.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Uma lição
-- Porquê?
-- Tenho coisas para aprender.
Recordo-me de um estudo sobre iliteracia que mostrava duas realidades nacionais: (1) baixíssima formação e (2) convencimento de que as habilitações e os conhecimentos possuídos eram mais do que suficientes para a execução da função social do inquirido. Coisas como "para aquilo que faço sei de mais" ou "estou velho para estudar (ou para aprender)". Enquanto nação, enquanto povo, enquanto adultos, imitemos as crianças, abandonemos a auto-satisfação arrogante de quem tudo sabe e nada precisa de aprender, recusemos as facilidades em que não haja correspondência entre títulos académicos e conhecimentos obtidos. Neste momento de crise nacional, mais do que protestos deitados, precisamos de nos levantar, de estudar com vontade, de exigir dos professores, não notas cada vez mais altas (chegando a 20, pára-se), mas um ensino de qualidade. Que paulatinamente substitua as patranhas do eduquês por conhecimento científico, técnico, literário. É o que espero, é seguramente o que o país espera, do novo ministro da educação, a quem desejo o maior sucesso. Para bem de todos nós.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
O óbvio
A minha mãe estava a melhorar. Devagar, mas progressivamente. Por isso, na terça devolveram-na ao Hospital de Alcobaça, de onde tinha saído a 10 de Março, à beira da morte. Para quem não sabe (e eu não o sabia até lá entrar) o SO é uma espécie de urgência. Arrumam lá os doentes que não têm lugar nos restantes serviços. Arrumam-nos, porque, dizem e eu acredito, mais não podem fazer. Por isso, logo na terça à noite, a minha mãe numa maca, perguntei à médica porque é que estava no SO e não noutro serviço.
-- É tão óbvio que nem vejo porque é que lho tenho de explicar.
Tenho muita dificuldade em ver o óbvio, ao contrário dos médicos. Os quais, desde 3 de Janeiro deste ano, diagnosticaram à minha mãe: 1. Tendinite. 2. Zona. 3. Artroses. 4. Trombo-flebite. 5. Infecção pulmonar. 6. Aneurisma da aorta -- este último, certeiro, em Santa Maria. É óbvio que alguns diagnósticos estavam errados. É óbvio que os tratamentos para diagnósticos errados podem ter agravado o seu estado de saúde. É óbvio que se perderam meses preciosos enquanto a saúde se deteriorava. É óbvio que em Santa Maria lutaram incansavelmente pela vida dela. É óbvio (ou não será?) que se o Hospital de Alcobaça não tinha possibilidade de receber e tratar adequadamente a minha mãe, deveria ter sido enviada para outro hospital. É óbvio que não vale a pena salvar doentes com esforço, dedicação e custos elevadíssimos para depois definharem numa cadeira de hospital, quase sem visitas (só 2 familiares, 15-16H e 21H-21H30)), o resto do dia sem ocupação, sem estímulos, sem fisioterapia...
Na quarta-feira, ontem, fui humilhado por uma auxiliar: a visita das 21H começou bem depois das 21H30, hora a que termina; a minha prima entrou primeiro, a meu pedido, que a minha mãe não a via desde 10 de Março, e avizinhando-se o términos da visita, saiu para me dar lugar; eu, como tinha a minha senha e o corredor é muito longo, não vendo segurança nem outro pessoal por ali, entrei à pressa, apenas para me despedir da minha mãe. E encontrei uma auxiliar.
-- O que é que está aqui a fazer?
-- Sou a segunda visita, e mostrei a senha.
-- Faça favor de sair.
Aparvalhado, nem percebia. Pensei que me dizia que a visita tinha terminado. E o tom de voz. Há seis meses por hospitais, ninguém me tinha assim destratado -- e sem razão.
-- Faça favor de sair, repetia, autoritária.
-- Quero só dizer até amanhã à minha mãe.
-- Faça favor de sair, que eu vou buscá-lo à entrada.
-- Mas se estou aqui consigo...
-- Tem de sair. São as normas do hospital.
A perder tempo de visita, caminhei à frente da auxiliar até à porta de entrada, para depois reentrar atrás dela e percorrer novamente os longos e labirínticos corredores.
É óbvio que em Santa Maria me habituaram mal as auxiliares, enfermeiras e enfermeiros, médicas e médicos, do Bloco Operatório, dos Cuidados Intensivos, dos Cuidados Intermédios, da Enfermaria. A todos eles, o meu muito obrigado. Pela gentileza, pela compreensão, pelo apoio, pelos esclarecimentos óbvios que me nunca negaram. Por aquilo que fizeram pela minha mãe. Esperemos que agora se não perca.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Equívocos agrícolas
A agricultura voltou a ser assunto de discussão, talvez devido às recentes intervenções do Presidente da República, que tendo descoberto primeiro o mar e os seus recursos, se volta agora para a terra. Mudou de opinião este "bom aluno europeu", o qual, como é apanágio de alguns "bons alunos", se preocupou então mais em agradar aos seus mestres do que com o futuro nacional, promovendo políticas que implicaram o abate da frota pesqueira e o abandono da actividade agrícola.
Porém, esta mudança de posição preocupa-me, não por discordar do aproveitamento dos nossos recursos, mas porque me parece assentar numa ilusão salvadora, sebastiânica, e por ser demasiado tarde para arrepiar caminho. Antes de mais, importa recordar que os nossos solos, na sua maior parte, têm fraca aptidão agrícola, são frequentemente demasiado acidentados, escasseia a água em muitas regiões e o clima é não raro adverso. Os agricultores que ainda resistem têm idade avançada, baixa formação, pouca ou nenhuma apetência pela comercialização e gestão. E os mais novos não terão grande interesse pela agricultura, actividade mal paga, dura e socialmente desconsiderada em todos os tempos e culturas. E nada sabem fazer, não bastando uns cursos de formação do centro de emprego para virar agricultor.
Acresce ainda o facto de a agricultura moderna, latifundiária, à moda da França ou da Alemanha, ser muito exigente em capitais e os respectivos agricultores se encontrarem fortemente endividados.
Não vale a pena, portanto, ver na agricultura (e talvez nas pescas) a tábua de salvação para o naufrágio nacional. Exceptuando em certas regiões favorecidas pelo clima, pelo solo, que dispõem de infra-estruturas e em que os agricultores têm um savoir-faire que alia a qualidade ao marketing, não haja ilusões: como disse o papa Pio-não-sei-quantos, há três formas de um homem se arruinar: ao jogo, com as mulheres e com a agricultura, acrescentando que o pai tinha escolhido a mais trabalhosa.
Tudo isto parece estar em contradição com a defesa que regularmente faço da terra neste blogue. Não está. A agricultura possível na generalidade do território poderá assegurar a sobrevivência das famílias, proporcionar alguma rentabilidade se combinada com a exploração racional da terra envolvendo o turismo, a pecuária, a caça. Não enriquecerá os agricultores nem lhes dará proventos comparáveis aos que teriam se empregados nas cidades. Terão de se contentar com liberdade, felicidade, exercício físico. E forte desconsideração social. Até na minha aldeia o povo ri quando passo de tractor para a labuta. E imagino o que dirão: grande bruto, a cansar o corpo sem ter necessidade disso. A gastar o que ganha como professor, porque, todos o sabemos, os alimentos comprados nos hipermercados ficam mais baratos do que os produzidos. Mas isso é matéria para outro post, que este já vai longo e eu tenho de me meter ao caminho, rumo a outro hospital para onde transferiram a minha mãe.
sábado, 11 de junho de 2011
Karaté em Paredes de Coura
Chego de mais um estágio fantástico, dirigido como sempre pelo sensei Vilaça Pinto. Cansado, dorido, mas muito satisfeito por ter aguentado a dureza dos treinos. Mais notícias e sobretudo fotos dos exames de graduação, muitas fotos, logo que tenha tempo para as seleccionar. Vão passando.
FOTO: os participantes nos treinos de sexta-feira. No sábado houve mais, mas não foto de família.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Ah, le français...
Saudades do tempo em que ensinava Francês -- e como então os alunos queriam aprender! No secundário, a literatura francesa, a música, Brel, embora não fosse francês, tantos outros... Hoje, apesar de ter o meu francês enferrujado, que desde 2000 não vou a França, dou-me conta, ainda, dos pontapés que por cá vamos dando nessa língua que quase foi também minha: é o cantor que traduz "l'ombre de ton chien" por "o ombro do teu cão", são os admiradores do grande Jacques a esquecerem que "doute", 'dúvida' é do género masculino. Que importa? Le français, je l'aime encore, je l'aimerai toujours, sans aucun doute!
FOTO: chez monsieur Michel (de pé), Annonay, 1-15 Abril de 1998. Sentados, da esquerda para a direita, o Sven, sueco, a Clara, a Dália. a Maria José e eu próprio. Curso Les TIC en classe de Langue.
FOTO: chez monsieur Michel (de pé), Annonay, 1-15 Abril de 1998. Sentados, da esquerda para a direita, o Sven, sueco, a Clara, a Dália. a Maria José e eu próprio. Curso Les TIC en classe de Langue.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Ressaca pós-eleitoral
Para acalmar euforias -- sim, também eu fiquei muito contente com a saída de Pinto de Sousa --, quero só avivar memórias: antes deste primeiro-ministro, agora democraticamente afastado, houve outros: Santana Lopes (PSD), demitido por notória incompetência, Durão Barroso (PSD), que trocou a governação nacional pelo cargo europeu que ainda desempenha, António Guterres (PS), que se demitiu ao aperceber-se da inevitabilidade de medidas de austeridade. Ventos que semearam causaram as tempestades que hoje nos fustigam.
Calma, portanto. Deixem de nos massacrar o juízo com Passos Coelho, veremos o que faz, como se porta. Não há grandes razões para a esperança. E ele não é D. Sebastião.
domingo, 5 de junho de 2011
Final de campanha
Neste fim-de-semana arranquei as batatas. Quinze horas de trabalho duro, solitário. Calor, muito calor, logo às sete da manhã. Sem o alívio de uma brisa na face, sem que nuvem simpática ocultasse o Sol. O suor (eu sei, gente fina não sua, transpira, e só nos ginásios, mas gente fina não arranca batatas), o suor sempre a correr, copioso, da testa, empapando o boné, das sobrancelhas, como de bicas abertas, do peito, ao ponto de a t-shirt poder ser espremida. No regresso a casa acelerava deliciado o tractor para sentir a fresquidão das sombras dos caminhos. E banho frio, para arrefecer o corpo, e seven up traçada com limão, depois com vinho, agoniado dos litros de água ingerida na labuta.
Final de uma campanha difícil, marcada pela doença da minha mãe, que pouco tempo me deixa para a agricultura, e pelos azares climáticos, com chuvadas habituais aos fins-se-semana. Mesmo assim, já estão armazenadas, sem que tal signifique descanso: é preciso combater a traça, que no ano passado destruiu toda a minha produção, retirar regularmente as podres, mais tarde desgrelá-las amiúde.
Vale a pena? Não. Mas em cada Primavera, enquanto puder, continuarei a plantar batatas. É um bom exercício -- perdi quilos só na arranca --, não pensei no monte de testes que tenho de corrigir até quarta-feira, não me preocupei com desgraças, da doença da minha mãe à situação do país, da Europa, do Mundo -- e tenho o prazer de as comer e a satisfação da abundância: se não se estragarem, chegam para a família até à próxima colheita.
NOTA: a imagem de baixo é de colheita anterior, que este ano não houve quem tirasse as fotos.
NOTA: a imagem de baixo é de colheita anterior, que este ano não houve quem tirasse as fotos.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Estranheza
Casam e descasam por dá cá aquela palha, trocam de casa quase tão depressa como eu de camisa, raízes só as dos dentes, e, no entanto, amarram-se vitaliciamente a um partido que os ilude, lhes mente, nos arruína -- e ser-lhe-ão fiéis e leais como jamais foram aos cônjuges... Não adianta apontar-lhes trafulhices, indecências, desonestidades, corrupção; de nada serve mostrar-lhes as consequências e as inconsequências da governação: só pode ser amor louco, enlouquecedor, que os cega e nos conduz inevitavelmente para o abismo, porque se um cego conduz a outro cego ambos acabaremos por cair no barranco.
Esperança para esta lusitânica, que tem a fama de não se saber governar? Apenas uma, nada patriótica: a troika; mas ténue, muito ténue, porque, é sabido, também não nos deixamos governar...
(Imagem: extraída d' O Livro da Primeira Classe)
(Imagem: extraída d' O Livro da Primeira Classe)
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Sobre a justiça
Há um descontentamento geral, pelos visto partilhado pela troika, relativamente ao estado da justiça em Portugal. Nada de novo: já o rei D. Pedro sentiu necessidade de a disciplinar. Como curiosidade, veja-se como o rei diagnosticou o problema e o atacou sem tibiezas (negrito meu):
E porque achou que os procuradores prolongavam os feitos como não deviam, e davam azo de haver hi maliciosas demandas, e o peior, e muito de estranhar, que levavam de ambas as partes, ajudando um contra o outro, mandou que em sua casa, e todo o seu reino, não houvesse advogados nenhuns; e encommendou aos juizes e ouvidores que não fossem mais em favor de uma parte que outra; nem se movessem por nenhuma cobiça a tomar serviços alguns por que a justiça fosse vendida, mas que se trabalhassem cedo de livrar os feitos, de guisa que brevemente, e com direito, fossem desembargados, como cumpria. E sabendo que eram a ello negligentes, que lh'o estranharia nos corpos e haveres, e lhe faria pagar ás partes toda perda que por ello houvessem. (...)
Então ordenou el-rei, e pôz defeza em sua casa e todo seu senhorio, que nenhum que tivesse poderio de fazer justiça, não filhasse peita nenhuma dos que houvessem pleitos perante elles; e se lhe fosse provado que a tomára, que morresse por ello, e perdesse os bens para a corôa do reino.
Fernão Lopes, Chronica de El-Rei D. Pedro IProibiu os advogados, impôs celeridade no andamento dos processos, puniu a negligência com castigos e multas, a corrupção com a morte e a perda dos bens. Há quase sete séculos!
domingo, 29 de maio de 2011
De olhos postos no céu
Atomizador às costas, apresso-me ligeiro por entre as fiadas de cepas. Mais um tratamento, que o ano corre de feição -- ao míldio e ao oídio e, apesar das curas anteriores, há ataques aqui e ali. Apresso-me, que há previsões de aguaceiros e trovoadas para a região de Alcobaça e eu só posso cuidar da vinha ao fim-de-semana. Quando estou a acabar, um trovão, logo outros, é tempo de abalar, nem lavo o material, não quero ser apanhado pela trovoada num alto, em cima do tractor, além do mais descapotável. E o aguaceiro desaba sobre mim, sobre a vinha, lavando-a -- tempo perdido, esforço inútil, dinheiro desperdiçado. Fica a esperança: talvez não chova no próximo sábado.
sábado, 28 de maio de 2011
Nunca o invejoso medrou...
"Compreendo a desilusão do leitor: resistiu até aqui, mas já desespera... Onde estão esses capítulos intragáveis, de um só parágrafo, páginas e páginas preenchidas apenas com listagens de nomes próprios ou de igrejas, que tornam o romance no melhor dos soporíferos e comprovam que estamos perante escritor de primeira água, capaz de desprezar e maltratar o leitor? Onde as partidas pregadas, para avaliar a cultura de quem lê, como aquele esófago de Mark Twain, que debruçado sobre uma asa contemplava meditativamente o pôr-do-sol? Onde a metáfora para decifrar, alegoria que dê um significado profundo à obra e envolva o leitor na produção de sentidos? Quando aparece esse pintor que ganha a vida fazendo retratos dos turistas junto ao Sacré Coeur e a sua namorada, jornalista sempre em viagem, ora na Quinta Avenida, ora nas gôndolas de Veneza, ora pelas montanhas do Afeganistão? Pois, não há...
Está visto, este contador de histórias não respeita as regras do ofício; pior, vê-se que lhe falta paciência para minudências, pormenores, irrelevâncias. E esquece-se de explicar, evita dissertar, não se atira à igreja num anticlericalismo violento, mordendo-a com a ferocidade do Pitt Bull! Não ridiculariza as suas personagens, não nos dá herói decente nem vilão detestável... Eu sei: ele está errado. Sem mistérios para decifrar, conspirações tenebrosas contra a Humanidade, crimes nefandos, como espera cativar o leitor? E os críticos, se não são devidamente torturados, como podem admirar primeiro, valorizar depois, a arte do narrador? E é preciso tomar partido, dividir a sociedade em bons e maus, encontrar culpados para os males do Mundo, evitar o farisaísmo, apontar corajosamente dedo acusador!
A simplicidade aborrece e irrita, cada qual dizendo que assim também era escritor. Onde já se viu (tirando talvez o Decameron, o Lazarilho de Tormes, as Histórias e Contos de Proveito e Exemplo, o Amor de Perdição, O Velho e o Mar, O Estrangeiro...) uma obra impor-se, apesar da simplicidade e da clareza? Se até o velho Homero tem um capítulo da sua Ilíada recheado com nomes e genealogias!
Que fique lavrado, portanto, e sirva para memória futura, o protesto deste narrador descontente, a quem o autor não consente a autodiegese — vê-se que pouco aprendeu em Teoria da Literatura, de que lhe serve ter estudado o Genette? —, que se tenha presente este descontentamento, autorizando-se desde já o leitor a pôr de lado este livreco e a deleitar-se com outros mais ousados, que por isso mesmo conhecem o sucesso merecido, como aquele que até transcreve, ipsis verbis, o menu real que está sobre uma das mesas do Paço dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa.
Histórias de amor há-as a pontapés, basta ligar a televisão, de amor feliz temos algumas, como a do David Mourão-Ferreira — que interesse pode ter uma história límpida de pessoas límpidas, que nem sequer são ricas, poderosas ou vestem bem, nem, pelo contrário, são miseráveis desgraçados, esquecidos por Deus e desprezados pelos homens, nem santos para o cardeal português da Congregação para a Doutrina da Fé beatificar enquanto aguardamos impacientemente pela canonização, com ou sem milagres, sabido que rareiam nestes tempos de cepticismo e de análises clínicas — nem canalhas a pedir escarro de desprezo?
Queria-se uma narrativa polifónica, emaranhada, que obrigasse o leitor a trabalhar, alisando rugas e pregas do texto, corrigindo incoerências, adivinhando sentidos ocultos, descodificando imagens, tropeçando em hipálages; na sua falta, que o autor para tal não tem nem imaginação nem talento, exige-se, pelo menos, um oponente, um adjuvante, e essas coisas todas do modelo actancial de Greimas, presente durante décadas nos manuais escolares de Português, por onde as leitoras e os leitores estudaram! Não me sendo concedido outro, venham de lá os escroques da Pide e, tendo conseguido esta mísera vitória, que prossiga a narrativa, remetendo-se este infeliz narrador à malfadada heterodiegese."
Está visto, este contador de histórias não respeita as regras do ofício; pior, vê-se que lhe falta paciência para minudências, pormenores, irrelevâncias. E esquece-se de explicar, evita dissertar, não se atira à igreja num anticlericalismo violento, mordendo-a com a ferocidade do Pitt Bull! Não ridiculariza as suas personagens, não nos dá herói decente nem vilão detestável... Eu sei: ele está errado. Sem mistérios para decifrar, conspirações tenebrosas contra a Humanidade, crimes nefandos, como espera cativar o leitor? E os críticos, se não são devidamente torturados, como podem admirar primeiro, valorizar depois, a arte do narrador? E é preciso tomar partido, dividir a sociedade em bons e maus, encontrar culpados para os males do Mundo, evitar o farisaísmo, apontar corajosamente dedo acusador!
A simplicidade aborrece e irrita, cada qual dizendo que assim também era escritor. Onde já se viu (tirando talvez o Decameron, o Lazarilho de Tormes, as Histórias e Contos de Proveito e Exemplo, o Amor de Perdição, O Velho e o Mar, O Estrangeiro...) uma obra impor-se, apesar da simplicidade e da clareza? Se até o velho Homero tem um capítulo da sua Ilíada recheado com nomes e genealogias!
Que fique lavrado, portanto, e sirva para memória futura, o protesto deste narrador descontente, a quem o autor não consente a autodiegese — vê-se que pouco aprendeu em Teoria da Literatura, de que lhe serve ter estudado o Genette? —, que se tenha presente este descontentamento, autorizando-se desde já o leitor a pôr de lado este livreco e a deleitar-se com outros mais ousados, que por isso mesmo conhecem o sucesso merecido, como aquele que até transcreve, ipsis verbis, o menu real que está sobre uma das mesas do Paço dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa.
Histórias de amor há-as a pontapés, basta ligar a televisão, de amor feliz temos algumas, como a do David Mourão-Ferreira — que interesse pode ter uma história límpida de pessoas límpidas, que nem sequer são ricas, poderosas ou vestem bem, nem, pelo contrário, são miseráveis desgraçados, esquecidos por Deus e desprezados pelos homens, nem santos para o cardeal português da Congregação para a Doutrina da Fé beatificar enquanto aguardamos impacientemente pela canonização, com ou sem milagres, sabido que rareiam nestes tempos de cepticismo e de análises clínicas — nem canalhas a pedir escarro de desprezo?
Queria-se uma narrativa polifónica, emaranhada, que obrigasse o leitor a trabalhar, alisando rugas e pregas do texto, corrigindo incoerências, adivinhando sentidos ocultos, descodificando imagens, tropeçando em hipálages; na sua falta, que o autor para tal não tem nem imaginação nem talento, exige-se, pelo menos, um oponente, um adjuvante, e essas coisas todas do modelo actancial de Greimas, presente durante décadas nos manuais escolares de Português, por onde as leitoras e os leitores estudaram! Não me sendo concedido outro, venham de lá os escroques da Pide e, tendo conseguido esta mísera vitória, que prossiga a narrativa, remetendo-se este infeliz narrador à malfadada heterodiegese."
(Inédito meu, de uma novela inédita)
Linguagens
Por que razão se espera que um escritor seja bom orador, se escrita e fala são linguagens diferentes? Tal como Rentes de Carvalho, também eu invejo os escritores que impressionam a plateia com os seus dotes oratórios, como eles invejarão, muito provavelmente, o talento que Rentes de Carvalho evidencia, talvez não ao falar em público, mas nos seus romances, afinal aquilo que, no seu caso, conta.
Inveja sarcástica a minha, eivada de desconfiança por esses escritores que se impõem pela fala, explicando brilhantemente alegorias e metáforas, isotopias e distopias...
"-- Você sabe falar -- comentou.
-- Nasceu comigo.
-- Daria um péssimo escritor -- prosseguiu. -- Nunca conheci um escritor que fosse um bom orador. "
Ray Bradbury, "Rumo a Quilimanjaro", in As Vozes de Marte, colecção Argonauta, Ed. Livros do Brasil, Lisboa)
quarta-feira, 25 de maio de 2011
O rei dos porcalhões
É sabido que machos de muitas espécies têm hábitos porcos, repugnantes até. Assim, sem pensar muito, e correndo o risco de errar porque a minha área não é a zoologia, lembro-me dos hipopótamos, que com a cauda espalham aos sete ventos os respectivos excrementos antes que eles tombem por terra. Dos cães, sempre de perna alçada... Pois o quadro não ficaria completo sem uma referência ao rei dos animais, o homo sapiens, campeão dos porcalhões. As senhoras duvidam? Então entrem, como que por engano, nas sanitárias, vulgo casas de banho, masculinas. Não importa se em cafés, transportes, centros comerciais, hospitais. Se possível, numa que seja limpa regularmente. Conseguirão explicar-me o chão coberto de urina, se os homens têm órgão de precisão que acerta onde querem? Não é assombroso que muitos jamais primam o botãozinho do autoclismo para evitar que desapareçam os preciosos vestígios da sua presença?
Ecce homo.
domingo, 22 de maio de 2011
Para a (bis)avó Isabel
Há quase dois meses e meio em Santa Maria. Desenho do Afonso. Ele próprio, os irmãos, uma girafa, uma borboleta e um animal terrestre que não consigo identificar. Graças à simpatia de uma das enfermeiras, já está afixado na parede do quarto. CLICAR PARA AMPLIAR.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
O professor Cavaco Silva e a agricultura
Tenho memória. Lembro-me bem de teorias segundo as quais era imperativo retirar gente, muita gente da agricultura, porque nos países europeus que nos serviam de modelo a percentagem de população agrícola era muito inferior à nossa. Lembro-me bem dos subsídios para arrancar pomares e vinhas, dessa estranha forma de vida em que alguns prosperaram, plantando com subsídios para arrancar com outros subsídios um ou dois anos depois. Lembro-me dos subsídios para não produzir, ou apenas para alimentar as abetardas. Lembro-me das multas recentes, bem pesadas, para quem recuse arrancar as vinhas plantadas, salvo erro, depois de 2001...
Se alguém tem problemas de memória é seguramente o professor Cavaco Silva. Já se tinha esquecido do que fez pela destruição da nossa frota pesqueira quando veio apontar-nos o mar e os seus recursos como jangada salvadora. Hoje quer aumento da produção agrícola. Um reconhecimento público das asneiras das suas políticas governativas está, suponho, fora de questão. Porque em Portugal nunca ninguém tem culpa de nada. É o destino.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Violação
(Último post sobre o assunto, espero, ou ainda fico igual àqueles que só falam no político que todos detestamos, mas, receio, acabará por ganhar as eleições. Para que não tenha publicidade grátis, optei por lhe dar desprezo: quanto mais se mexe na merda, pior ela cheira.)
-- Conte então o que sucedeu.
-- Senhor doutor juiz, aquele senhor agarrou-me e violou-me...
-- E você, um rapaz novo, atlético, não reagiu? Porque é que não fugiu?
-- Ó senhor doutor juiz, como é que podia, de saltos altos e saia travadinha?
Uma noite com Pessoa
Uma noite com Pessoa, propõe a casa do dito cujo, o tal que morreu anónimo e miserável e cuja obra continua entre nós a ser mais citada do que lida -- mas quanta gente não ganha a vida à custa dele e da sua memória! Prefiro -- é certo que ninguém me convidou, a mim que sou ninguém -- prefiro passar a noite com a minha mulher. Na tropa tive de dormir em camarata com meio pelotão e não recomendo. Menos ainda dormir com fantasmas. Honrar Fernando Pessoa é bem diferente: faz-se lendo-o e ensinando outros a amar a sua obra. Tarefa árdua, cada vez mais árdua, nestes tempos em que as leituras são não raro substituídas por visitas de estudo, passeios e roteiros, resumos, filmes, peças de teatro, eventos mediáticos -- a actividade não é importante, contanto que poupe aos nossos alunos a maçada da leitura e lhes proporcione conversa suficiente para se desenrascarem em exame.
Confissões
Sou daqueles que sempre evitaram a proximidade da doença e da morte. Melhor dizendo, era desses. Por força de circunstâncias conhecidas, regularmente relatadas neste blogue, vi-me obrigado a conviver com a doença, a acompanhar o tratamento de doentes, a cruzar-me com a morte, tendo, por exemplo, de sair do elevador no Hospital de Santa Maria para entrar cadáver. Mais frequentemente, como me sucedeu ainda hoje, partilho elevador à cunha com maca e bombeiros que transportam doente urgente, o rosto do enfermo entubado a menos de meio metro do meu... Durante as visitas, ouvem-se frequentemente os alarmes dos aparelhos alertando para situações de urgência, temos de sair e esperar aflitos que a emergência seja resolvida, separados dos nossos familiares por uma única porta envidraçada ou por simples cortina corrida...
Já não desvio o olhar dos tubos enfiados pelo nariz, pela boca, das agulhas espetadas nas mãos e braços, do saco da urina, já não fujo apressadamente ao ouvir pedido de arrastadeira, já consigo encarar a fealdade da velhice doente, a degradação dos enfermos despojados dos vestígios da sua condição humana, dentaduras e brincos, anónimos sob as batas, desocupados dia e noite, à espera de melhores dias em que talvez tenham deixado de acreditar. E penso, valerá a pena, quero eu um dia, espero que distante, agonizar ligado a máquinas, adiar o inadiável, ter um final de vida em sofrimento prolongado, isto se não tiver a sorte de uma morte rápida? Não sei. Até porque, como escreveu Gabriel García Márquez, não se morre quando se quer, morre-se quando se pode.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Cepticismo: Strauss-Kahn e a violação
Não têm conta as vezes em que fui mistificado, levado a indignar-me, manipulado pelos media ao serviço, soube-o depois, de interesses pouco claros mas demasiado poderosos. Assim, de repente, sem puxar muito pela cabeça, recordo-me da Jugoslávia, em que apenas os sérvios assassinavam, primeiro os croatas, os muçulmanos depois -- felizmente o Tribunal Penal Internacional ousa contrariar esta visão maniqueísta; lembro-me, aquando do ataque às torres gémeas, de imagens de palestinianas a festejar ululando pelas ruas -- para saber depois que as imagens, embora autênticas, tinham sido filmadas uns anos antes... E das armas de destruição em massa do Saddam, dos seus terríveis mísseis Scut (estarei a confundir com o nome de autoestradas nacionais à borla?), da guerra de libertação do Iraque em que, afirmava lambão um dirigente americano, quem não veio à festa não fica para o jantar... Por estas e por muitas outras, duvidei da morte do Bin Laden; agora que os talibãs a confirmam, enfim, começo a acreditar pois dificilmente dois mentirosos se poriam de acordo apenas para me ludibriar. Mas nem por isso me passou o cepticismo ranzinza que me põe frequentemente a discutir sozinho com a televisão. Por exemplo, quando ouço as notícias da violação ou tentativa de, depende das versões, por parte do presidente do FMI. Eis algumas das minhas dúvidas, enquanto aguardo por factos que me convençam da culpabilidade do homem.
1. Como é que um velho, ou idoso como agora é moda dizer-se, por mais recauchutado que esteja, nascido, se bem compreendi, em 1939, logo com 72 anos em cima, tem tamanha potência sexual? Capaz de atacar, despir, sodomizar, forçar a sexo oral um mulher que, supostamente, resistia, gritava, arranhava, batia, esquivava, fugia... O tipo não é grande latagão e ela tem apenas 32 anos... E sempre sem esmorecer?
2. Nos quartos de hotel há um letreirozinho para pôr na porta quando estamos lá dentro: do not disturb. E as empregadas não entram sem bater, pois não? E se acaso entrarem, prontamente saem ao aperceber-se de que o hóspede está lá. E então, se ele vem nu, a correr para elas (ah velho danado!), não fogem?
3. Um gajo que gasta numa única diária mais do que aquilo que eu recebo por mês, se está tão atrapalhado, tão pressionado pelas hormonas que é capaz de deitar para o bidé a candidatura à presidência da França e se arrisca a pena de prisão até à morte, não prefere telefonar para uma profissional em vez de atacar uma mulher da limpeza que talvez nunca´tivesse visto, logo sem saber se é bonita ou feia, nova ou velha, gorda ou magra, branca, preta, amarela, se está no período ou se sofre de sífilis, gonorreia, sida?
4. Há também razões técnicas. Sugiro uma reconstituição para se apurar como é que o tarado ataca uma mulher vestida, certamente com as partes pudendas bem cobertas, a sodomiza sem mais aquela, a leva para a casa de banho (porquê aí?) para sexo oral, depois foge em pânico para o avião, o primeiro lugar onde o poderiam apanhar...
Ou o gajo é estúpido de mais e fez o que dizem que fez, ou é estúpido de mais para se deixar caçar desta forma ignara. Em qualquer dos casos, tem muito pouco de francês.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
quinta-feira, 12 de maio de 2011
Elogio, agradecimento e constatação
São frequentes as críticas ao tratamento hospitalar, em que não faltam acusações de antipatia, desinteresse, frieza por parte dos profissionais de saúde. Não era e não é essa a minha percepção, sobretudo após mais de quatro meses em que tenho passado horas infindáveis em urgências, cuidados intensivos, cuidados intermédios, enfermaria. Só posso elogiar e agradecer o profissionalismo, a simpatia, a disponibilidade de todos os profissionais, nomeadamente auxiliares, enfermeiras e enfermeiros, médicos e médicas dos hospitais (Leiria, Alcobaça, Santa Maria) por onde tenho acompanhado a minha mãe, que felizmente recupera de forma visível e animadora, depois de, por três vezes, ter pensado que não viveria até ao dia seguinte. A todos, o meu muito obrigado.
Nota: sem menosprezo para as dos outros hospitais, as enfermeiras mais giras são as de Santa Maria, Cirurgia Cardiotorácica.
terça-feira, 10 de maio de 2011
A troika, a crise e eu
Estrangeiros ditam-nos a política, gerem as nossas finanças, aconselham-nos, vigiam-nos, enquanto nós mendigamos empréstimos, sofremos vexames, discutimos acaloradamente responsabilidades – como chegámos à pré-bancarrota, como deitámos a perder a independência penosamente preservada durante mais de oito séculos? De quem a culpa, onde as soluções? Não procurem neste blogue por resposta válida, não esperem de mim julgamento imparcial, sentença equitativa, punição justa. É outra a minha tarefa: plasmar em narrativas o sofrimento alheio e próprio. Qual médium, cabe-me dar voz às vozes que me habitam e anseiam por se fazer ouvir. Que cada uma delas fale por si, que conte a sua história. O mais do que isso é com os especialistas, que não nos faltam e constantemente se fazem ouvir.
domingo, 8 de maio de 2011
O povo é quem mais ordena
Numa pausa do duro trabalho da terra, vi no telejornal os homens (?) da luta (?) por terras germânicas nas suas palhaçadas rotineiras. Têm fortes hipóteses de conseguir um bom resultado, até de ganhar, como vi suceder a outro folião numa votação ocorrida durante a "Primavera Marcelista":
Uma artista da rádio, cujo nome esqueci há muito, fez espectáculo na associação da minha aldeia e, para nele envolver o povo, organizou um "festival da canção": ganharia quem tivesse mais aplausos. Os moços de então acorreram ao palco, Beatles para os estudantes, fado e folclore para os menos versados no Inglês. Aproximava-se a competição do final sem que a força das palmas anunciasse vencedor inequívoco, quando o Tio António V., a cair de bêbedo, cambaleou até ao palco, travado pela mulher: -- Homem, tu tem juízo, não me envergonhes mais!
E ele: -- Deixa-me, que vou mostrar a esta rapaziada como é que se canta.
O povo e a artista pressentiram o manancial de risota que se aproximava: -- O que é que vossemecê vem cantar?
E ele, tentando segurar-se de pé, tartamudeou borracho -- Eu venho cantar a canção do vinho branco.
Microfone na mão, a canção lá saiu, arrastada, aos tombos, mais gritada que cantada:
Ai vinho branco
Que te adoro tanto
A toda a hora
Bebo um casco inteiro
Sem deitar nada fora...
Os aplausos, os gritos, os risos -- foram ensurdecedores. Ganhou, sem margem para dúvidas.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Contadores de histórias
Nos almoços e jantares de karaté, depois de matada a fome e a sede -- e não é a água que nos hidrata -- escorrem as histórias, valorizadas pelo talento dos contadores. O Vítor é um dos melhores:
Infelizmente, neste 2011 vi-me forçado a faltar a todos os estágios. Saudades!Um ligeiro entrou numa rua estreita de Leiria. Pois um camião, em vez de esperar que passasse, avançou também: pesado tem sempre prioridade, vale a força do tamanho, além do mais anda a trabalhar, saiam da frente que quer passar. O velhote do ligeiro não se deixa intimidar. Em vez de meter marcha atrás, pára o motor. Mesmo em frente, o pesado faz o mesmo. O condutor do ligeiro reclina o banco, desdobra jornal, liga o rádio, calmamente começa a leitura refastelado como em tranquila esplanada. Pouco depois, o condutor do pesado, desatinado, sai furioso lá de cima, bate com a porta do camião, aproxima-se ameaçador, esmurra raivoso o capot do carro do velhote, que, impávido, continua a leitura do seu jornal. O outro, a espumar, bate no vidro, ruge: -- A sua sorte, a sua sorte é eu estar cheio de pressa!Indolente, o velhote do ligeiro, dobra meticulosamente o jornal: -- O seu azar, o seu azar foi ter dado com um homem sem nenhuma pressa!Pois o Xavier conhece história melhor: os dois carros frente a frente, motores parados, a bloquear a estrada estreita, um dos condutores começa a ler tranquilamente o jornal, o outro aproxima-se, bate no vidro: -- Olhe, desculpe lá, quando acabar a leitura do jornal, pode-mo emprestar?
FOTO: Paredes de Coura. O Xavier, o sensei Vilaça Pinto, eu, o Augusto (meu professor há trinta anos), o Luís Carneiro. No restaurante do Paulo.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Desabafo
As notícias cansam-me depressa, não sei se por feitio, se por excesso de atenção. Se por encontrar sempre a mesma história, cada vez mais mal contada. A falta de paciência para telejornais e debates estendeu-se aos jornais e agora até já me escasseia o apetite para a leitura da maior parte dos blogues que sigo. Enjoa-me a obsessão dos seus autores na defesa ou no combate ao primeiro-ministro demissionário, na dissecação das medidas, reais ou imaginárias, do verdadeiro governo nacional, a troika. Por mim, acredito que quanto mais se mexe na merda, pior ela cheira; penso que atacar sistematicamente Sócrates é dar-lhe visibilidade que não merece e aumentar as suas probabilidades de vencer as próximas eleições; julgo que fossar na crise e nas suas consequências é um desperdício de energia que não nos torna mais felizes nem aumenta a produtividade ou a produção nacionais, ao contrário, por exemplo, do que sucede quando amanhamos a terra que décadas de cavaquismo e socratismo tornaram improdutiva.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Maio, maduro Maio
Dois meses depois de ter entrado para a cirurgia cárdio-toráxica de Santa Maria, quatro depois de ter começado a ter sérios problemas de saúde, a minha mãe mudou dos cuidados intermédios para a enfermaria. Há ainda um longo caminho a percorrer na recuperação, mas a esperança renasce.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Cenas ciganas (2)
Nota prévia: entendo que os ciganos são cidadãos nacionais como eu próprio, sujeitos aos mesmos deveres e usufrutuários dos mesmos direitos. Mas não tenho a certeza de que eles partilhem esta minha convicção.
O duplo
Aprecio sobremaneira os filmes de Akira Kurosawa. Em Kagemusha, a sombra do guerreiro, um condenado à morte é forçado a tornar-se no sósia de um senhor feudal com quem apresenta parecenças espantosas. E, quando o senhor morre, para evitar o caos, o duplo assume a identidade dele com tal perfeição que, para assombro dos poucos que sabem do ardil, pensa, fala, age como o senhor, impressionando-os ao ponto de o julgarem possuído pelo espírito do defunto.
De forma genial, Kurosawa mostra-nos um homem a perder a sua identidade e a assumir a de outro, a transformar-se paulatinamente nele, para, desmascarado, acabar expulso do castelo sob o olhar triste do "neto".
Saliento ainda a reconstituição do ambiente feudal japonês, o realismo dos guerreiros samurai e dos espiões ninja e a extraordinária lição da arte da guerra que a sombra do senhor dá ao "seu" neto quando lhe explica o lema do estandarte:
Saliento ainda a reconstituição do ambiente feudal japonês, o realismo dos guerreiros samurai e dos espiões ninja e a extraordinária lição da arte da guerra que a sombra do senhor dá ao "seu" neto quando lhe explica o lema do estandarte:
"Veloz como o vento, silencioso como a floresta, devastador como o fogo, imóvel como a montanha".
Morte de Bin Laden
Não sou dado às teorias da conspiração. Mas aprecio as provas, na linha do ver para crer, como S. Tomé. Acredito que os americanos tenham enviado os seus assassinos ao Paquistão; que eles tenham morto uns talibãs (depois de mortos, todos o são); que tenham chamado a um deles Bin Laden. Agora aquilo em que não consigo acreditar é que tendo conseguido matá-lo, tenham depois atirado o corpo ao mar. O Che, depois de assassinado, foi fotografado, exposto, para que ninguém tivesse dúvidas; o Saddam foi filmado enquanto era enforcado. Com o Bin, que perseguem há tanto tempo, porquê tanta pressa em se livrarem do presunto? Desde quando os militares não adoram exibir troféus e despojos de guerra?
Ou surgem evidências evidentes da execução, ou alguém acabará por desconfiar de que se trata de outra obama-treta. Talvez até alguém prove que não é possível matar um morto...
domingo, 1 de maio de 2011
Cenas ciganas
Nota prévia: entendo que os ciganos são cidadãos nacionais como eu próprio, sujeitos aos mesmos deveres e usufrutuários dos mesmos direitos. Mas não tenho a certeza de que eles partilhem esta minha convicção.
Duas da tarde. Na pequena sala de espera do hospital de Alcobaça, à cunha de doentes e de familiares, entra gigante cigano, quarentão, calmeirão, trajado de preto, dobrado pela cintura quase em ângulo recto, mãos nos ombros de mulher, que conduz em rectas e curvas como se fosse carro de mão. Estacionam de lado, junto à recepção. A menina informa: -- Hoje isto está complicado. A demora é de sete horas. O cigano protesta, a mulher ajuda à festa. Ele precisa de uma injecção.
Chega cigana mais jovem, criança ao colo. É sobrinha. Chegam seis jovens, todos a rondar os dois metros. Em breve, chegam outros, todos eles gigantes. Começo por admirar a unidade do clã: um tem dores de costas, logo toda a tribo invade o hospital. Mas deixo de achar tanta graça quando uns vinte minutos depois chamam o dobrado às urgências. Para entrar sozinho. Protesta e conduz a mulher à sua frente, dois dos jovens acompanham-no. De fora, fica a sobrinha com a criança ao colo e o resto da tribo. Saio da sala de espera, atravancada. Pouco depois eles saem também. Jogam animados às cartas. Tudo bem. E o segurança, anão ao pé deles, apesar de alto, aproxima-se e atreve-se: --- Aquele estacionamento está reservado às ambulâncias. Um dos ciganos levanta os olhos, cigarro ao canto da boca, enquanto joga carta: --- Aquilo (e aponta com o olhar para as camionetas da tribo) são ambulâncias.
O segurança ri amareladamente e reentra no hospital. Em breve, sai das urgências o das dores nas costas com os respectivos acompanhantes. A demora de sete horas é para a minha mãe, que, saber-se-á quando a examinarem já bem de noite, só tem um aneurisma da aorta com derrame pleural. Que a não matou por milagre.
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