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terça-feira, 25 de setembro de 2018

Palavras, apenas palavras

Tanto a religião como a ciência estão de acordo nisto: o Universo surgiu do Nada. Ou criado por uma divindade, ou como resultado de uma singularidade que originou o Big Bang.
(Divindade e singularidade são apenas palavras, uma criação humana, para mencionar o desconhecido.)
Mas ateus e crentes divergem num ponto fundamental: para os primeiros, não é necessária intervenção criadora: o Nada é instável, a criação de um universo exige uma energia mínima ou até nula (somada toda a energia do nosso Universo, positiva e negativa, dá zero), e as flutuações quânticas não só permitem, mas exigem que no Nada primordial surjam constantemente partículas, umas virtuais outras reais, pelo que os universos podem brotar como cogumelos na floresta após chuvada de Outono e nessa infinidade de universos, um, o nosso, reuniu as condições necessárias e suficientes para o aparecimento de seres capazes de reflectirem sobre a sua criação.
Porém, tal como a existência de um Criador coloca a questão da sua origem, também a criação de universos a partir do nada tem o seu calcanhar de Aquiles: o que é o Nada, porque há nesse Nada leis científicas, por básicas que sejam, a permitir a existência da Mecânica Quântica e respectivas flutuações?
Somos, tanto na hipótese criadora do Universo por divindade, como na materialista, por exigência das leis da Ciência, confrontados com algo pré-existente necessário à criação do Universo, e, eventualmente, de outros universos…
A distingui-las, apenas palavras.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Degradação do estatuto social dos professores

Estávamos nos anos 80, e o comboio tornava a minha escola muito procurada. Os professores vinham efectivar, ficavam dois ou três anos até conseguirem vaga mais próxima. De Coimbra ou de Lisboa, sem vontade de ver definhar a sua brilhante existência em vila de província. 
Era chegarem, não raro atrasados, culpa do comboio, com justificação assinada pelo  chefe de estação, aceite com a benevolência da direcção, que lhes retirava as faltas, “darem” as suas aulas, saírem à pressa, muitas vezes antes do toque, para apanharem o próximo comboio que os levava dali para fora,  para a civilização onde podiam respirar de alívio e criticar pelos cafés a escola que era a sua, mas não sentiam como tal. 
Isto quando a CP não estava em greve — maquinistas, ou pessoal de estação, ou revisores, ou outros, pouco importava. Não podiam vir à escola, falta de transporte.
A nós outros, que vivíamos a escola como nossa, embora nenhum fosse natural da vila, só nos restava resmungar contra tal desapego, incomodados com a imagem que passava para fora, todos os professores metidos no mesmo saco. 
Até porque alguns pareciam não ter compreendido a mudança que acarretava terem passado de alunos a professores. 
Lembro-me, por exemplo, de um, guedelhas desgrenhadas, barba por fazer, a correr pela sala de professores, abrir a janela, gritar para um aluno que passava no átrio:
— É pá, chama-me esse gajo!
O aluno, estupefacto, olhava-o sem compreender.
E o meu colega, a ver que perdia a boleia para a estação:
— Depressa, chama-me esse gajo... Aquele professor que vai além...


Pois é, a degradação do estatuto social da profissão começou em nós, começou por nós.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Contagem do tempo de serviço dos professores

No pouco que vi do debate parlamentar, estranhei nenhum partido recordar as “ajudas” à banca e a indemnização aos respectivos “lesados”, os vultuosos perdões de dívida aos grandes clubes de futebol pela CGD, quando Costa disse e repetiu que não tinha 600 milhões para a reposição da contagem do tempo de serviço dos professores. E o silêncio cúmplice da (soit-disante) esquerda.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Alfarrabistas e livrarias que fecham

Há uns anos, procurei pelas livrarias da zona do Chiado um livro. E explicava aos empregados desinteressados o que queria: em Português, de autor português, que tratasse da vinha e do fabrico do vinho. Sabia que devia haver porque, no passado, tinha lido várias obras com essas características na Biblioteca Municipal.
Sem o menor interesse, todos, em todas as livrarias, me diziam não haver tal livro.
Então, lembrei-me dos alfarrabistas e fui às Escadinhas do Duque. Na primeira loja em que entrei, uma senhora, já bem na meia idade, fazia o Sudoku e mal levantou os olhos para me ouvir. Não tinha nada do que eu queria, disse. E, já sem esperança, entrei no alfarrabista seguinte, que, salvo erro, pegava com a loja anterior.
Atendeu-me um senhor de idade avançada, octogenário, que me ouviu atentamente e sentenciou: o que procura é o livro do engenheiro Octávio Pato. O mais completo e o melhor. Venha comigo. E levou-me à loja anterior, foi directo a montão de livros, retirou um, passou-mo, Aqui o tem. E deixou-me a pagar à senhora do Sudoku.
Guardo preciosamente tal livro, a minha Bíblia no fabrico do vinho. Todos os anos o consulto, nem que seja apenas para dosear o ácido tartárico e o metabissulfito de potássio.

Já percebem porque é que fecham as velhas livrarias e os alfarrabistas?

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Numpelecebo!

Da única vez na minha vida em que entrei num restaurante chinês, depois de estudar a ementa à procura de comida que a minha boca aceitasse, pedi pato com grelos. Veio, e eu chamei a empregada para reclamar: aquilo era frango com brócolos! E ela, até aí fluente no Português, só me dizia: Numpelecebo! Numpelecebo!
Pois nunca mais entrei num restaurante chinês porque também eu Numpelecebo!

sexta-feira, 30 de março de 2018

Ler no telemóvel

Certamente já toda a gente sabe, mas aqui vai na mesma. Descarregando para um telemóvel (smartphone) a aplicação gratuita Kindle, passa-se a poder não apenas ler com facilidade e conforto os ebooks disponíveis na loja da Amazon, entre eles os meus livros, de que anexo duas fotos ilustrativas, mas, também, milhares de livros gratuitos, o que é especialmente importante para quem gosta de ter sempre consigo os clássicos.
É também possível descarregar gratuitamente amostras dos ebooks à venda, o que me permite decidir da compra após a leitura dos primeiros capítulos. Evito, assim, muitas compras precipitadas, frequentemente influenciadas pelas críticas, de livros que depois não leria por se não enquadrarem nos meus gostos.

E, como se vê pelas fotos,  nem o aspecto nem a legibilidade são prejudicados.


segunda-feira, 5 de março de 2018

Alerta um pouco técnico e chato: Windows 10 Home

Tenho um computador portátil sem CD-ROM, que comprei há uns bons anos com o Windows pré-instalado. Ora anteontem precisei de o usar, mas cometi um erro que apagou o carregador de arranque (winload.exe) da MBR.
Sem conseguir arrancar o computador, e impossibilitado de recorrer ao velho amigo Linux, que sempre me resolve problemas deste tipo por, como disse, não ter CD-ROM, fui ao site da Microsoft descarregar uma imagem ISO para pen, a fim de tentar arrancar o computador e recuperar o sistema. Só encontrei para Windows 10.
Não foi às primeiras, mas lá pus o portátil a trabalhar. E a história acabaria aqui, não fosse algo muito preocupante, que passo a descrever.
Descontando o facto de não gostar do W 10, tentei repor o Word. Todos os meus programas são legais. Ou comprados, como é o caso do Office — tenho dois, o 2007 e o 2010, ambos em DVD — ou software livre.
Não me foi permitido instalar nada. Nem o Office, da Microsoft, nem, por exemplo, o Chrome. Surgia sempre o aviso indicando que, por razões de segurança, só podia instalar o software existente na loja da Microsoft. Ou comprar outra versão do Windows por 250 euros.
Se bem percebi — o Windows 10 Home já foi à vida — quem o instalar, ou comprar um computador com ele pré-instalado, fica preso à loja da Microsoft, que tem pouco software, caro, e inadequado para muitos utilizadores.
Se assim for, tenham cuidado com a ratoeira. Quase todos os comoutadores são vendidos com o Windows pré-instalado, sem unidade de DVD / CD-ROM, aliás inútil pois é o sistema operativo que só permite instalar os programas comprados na sua loja. E não será fácil para a generalidade dos utilizadores substituírem o Windows por outros sistemas operativos.  

É o que vou tentar fazer esta tarde.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Eu e a Medicina Tradicional Chinesa

Na assistência, barbudos fardados de hindus, outros de rabicho e vestuário tradicional chinês, professoras de ioga de salto alto, alguns discípulos do mestre vestidos à ocidental como eu, que estava naquele seminário atraído pela fama do orador, fascinado pelos seus livros, seduzido pela sua execução de Tai Chi, que conhecia de vídeos comprados na Amazon.
Falava fluentemente o Inglês, bom conversador, gabarola, divertido. Segundo o currículo, a viver há muitos anos nos Estados Unidos, onde se doutorara num qualquer ramo da Mecânica; trabalhou primeiro na NASA, até se deixar disso, e passar a viver das artes chinesas — medicina, tai chi, seminários, livros e vídeos.
E contava, para delicia da audiência, que o seu antigo emprego o matava. Por exemplo, com frequentes pedras nos rins, na bexiga, que a medicina ocidental não resolvia, apesar dos cinquenta dólares que lhe custavam os medicamentos. Em desespero, parou numa herbanária chinesa, comprou um chá por uns cêntimos, que em dois ou três dias o curou, bastando-lhe depois beber desse chá de tempos a tempos, preventivamente. E eu fiquei deveras impressionado, a lembrar-me do que tinha padecido com crise renal uns anos antes. 
Ele continuava a exaltar os prodígios da medicina chinesa, rindo e fazendo rir a assistência à custa da medicina ocidental, cara, ineficaz, nociva para o organismo. Por exemplo, um dia entrou-lhe no consultório um doente desesperado, a quem os médicos davam pouco tempo de vida devido a cancro nos pulmões. Receitou-lhe uns exercícios respiratórios, que ali nos exemplificou, e para sua alegria e surpresa, semanas depois o moribundo entra-lhe pelo consultório aos gritos Doctor Yang (os mais atentos repararão que com o doutoramento em Mecânica se fazia passar nos EUA e cá por médico!), doctor Yang, estou curado! E mostrava exames que comprovavam que o tumor desaparecera.
Bom, aqui confesso que fiquei algo incrédulo; mas continuei calado enquanto o chinês se vangloriava dos múltiplos milagres, dele, da medicina chinesa, da prática da meditação e do Tai Chi.
Até que.
— Quem é que tem problemas de coração?
Ninguém se acusou.
Passou os olhos pela assistência e fixou-os em mim, talvez por ser dos mais velhos (andava então pelos cinquenta, a idade do mestre), ou por ser dos mais atentos, pois tomava notas. Arrepiei-me: o mestre teria visto em mim sintomas de doença cardíaca? E abanei negativamente a cabeça: — Creio que não, fiz há pouco tempo um ecocardiograma, treino karaté, não sinto ainda nenhuma insuficiência cardíaca...
Pois ele tinha. Recentemente, tinha feito um bypass às coronárias, após a morte de um irmão aos 48 anos. E na recuperação o médico — este não era doutorado em Mecânica — mandou-o fazer muito exercício.
— Mas, doctor, faço doze horas diárias de Tai Chi.
E o doctor ocidental a dizer que o Tai Chi é bom para baixar a tensão arterial e o stress, mas não para baixar os níveis elevadíssimos de colesterol que o paciente apresentava. Devia fazer corrida, bicicleta, saco — exercícios violentos, para queimar colesterol.  O que o nosso crítico das práticas ocidentais passou a acrescentar aos seus treinos de  Tai Chi.
“Então curas os outros, curas o cancro alheio, mas que doctor és tu que não te curas a ti mesmo? Vendes seminários caríssimos — salvo erro, e estávamos no princípio do séc. XX, paguei 140 euros para o frequentar durante 2 dias — , mas quando “ela” te bate à porta, confias a tua vida à medicina que ridicularizas e não à que vendes aos outros?” — ruminei, logo ali.
Mas, já que o tinha pago, frequentei o seminário até ao fim. A ver os portugueses “hindus” de amarelo, os “chineses” de branco ou de preto, fascinados, a contribuirem para a discussão da inquestionável presença de extra-terrestres entre nós, a raptar mulheres e a engravidá-las...
Nem tudo se perdeu. O mestre era e ainda é um excepcional praticante de Tai Chi — embora os místicos não participassem nas aulas práticas, ficando-se pelo bar, certamente a comer vegetais e a prosseguirem a discussão sobre os sentimentos dos pobres animais que ao saberem que vão ser abatidos libertam enzimas e hormonas que contaminam a carne e arruinam a saúde dos parvos dos ocidentais.

E nunca mais voltei...

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Os meus contos publicados

A quem possa interessar: os meus contos estão finalmente publicados, em papel e em ebook.
O livro, intitulado Vento e Barro, pode ser adquirido na Amazon. Recomendo a Amazon espanhola ,uma vez que os envios são gratuitos.
Em caso de dificuldade, agradeço contacto.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Como se faz um descrente

Conta Lobo Antunes que foi assediado sexualmente por um professor de Moral, fazendo-me recordar que as minhas desavenças com religiosos e igreja começaram bem cedo, aí pelos meus sete anos.
O meu pai mandava-me à catequese, não por fé, que a não tinha, mas porque sempre era melhor do que andar na rua, na coboiada com a garotada de má fama, suspeitos de crimes atrozes como roubar fruta de árvore de onde caía para o chão. E eu já então lia tudo o que apanhava, tinha memória espantosa e a mania de que sabia tudo. Ora um dos raros livros que havia em minha casa, não imagino o motivo, era Os Quatro Evangelhos. Que eu sabia de cor e salteado, pois naquela idade bastava-me ler para decorar.
Era uma guerra com a pobre catequista, quase analfabeta, ela a papaguear o catecismo e eu a desmenti-la: Jesus não tinha dito nada daquilo porque S. Mateus contava que...
Chegou seminarista para ajudar e a catequista logo me despachou para ele. Que também não parecia ter lido os evangelhos: quando o desmenti, pregou-me forte chapada. E eu saí sacristia fora, para satisfação de ambos.
O meu pai estava em casa.
— A catequese já acabou?, perguntou desconfiado.
— Vim-me embora e não vou mais!
— E porquê?
Contei que o padreco me tinha batido. O meu pai nada disse, mas não me obrigou mais a frequentar a catequese. Quando tive de gramar as aulas de Religião e Moral fiz a vida negra aos padres, que não raro me punham na rua, mas essas são histórias para outra ocasião
Foi apenas aos 14 anos que de uma assentada me confessei pela primeira e última vez, comunguei, e fui crismado, aproveitando visita do bispo à minha freguesia.
Talvez por isso me não possa agora vir gabar de ter sido assediado por um qualquer padre, que entre mim e eles sempre quis distância.

Loucuras anódinas



Apesar do frio e do vento agreste, não resisti e saí a experimentar a velha Vespa, que tem andado a ser intervencionada quase todas as tardes, e também para estrear o capacete integral que comprei recentemente.
Máquina e capacete impecáveis. 
Reconheço que devia ter juízo e ficar resguardado no conforto doméstico. Mas ainda bem que uma pequena dose de loucura me não abandonou pois, como diz o poeta
“Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?”
(Fernando Pessoa, Mensagem, D. Sebastião)

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Contos em ebook

Os meus contos já estão disponíveis em ebook. E em breve, em papel.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Publicação de contos

PUBLICAÇÃO DE CONTOS
Entusiasmado com a recolha que as minhas filhas me ofereceram com textos do meu blogue, fui aos meus contos, dispersos por pastas, mais ou menos perdidos em discos externos, seleccionei-os e publiquei-os na Amazon, em papel e em ebook.
Título: Vento e barro.
182 páginas, formato 13,50X21 cm.
Para além do texto autobiográfico homónimo com que abre, o livro inclui:
A sereia
Os cornos do Diabo (Prémio Irene Lisboa 2010)
Ramalho e Filomeno
Ferido d’asa
Tu quoque (2 Prémio Dr. João Isabel)
Lá vai o gajo!
Figuras sem estilo (3 Prémio Dr. Joao Isabel)
Jogo de azar
Sortilégio fatal (Menção Especial Prémio Glória Marreiros)
O Velho Défice, Rapaz, o Empréstimo, e o Burro PIBE
Por um sestércio
A freira e o Diabo
À lareira
Uma casa portuguesa
Amanhecer cinzento
Os dois pombos
As uvas do pessoal
El Chupacabras
Despedimento com justa causa
A pequena enguia, o Sapo Fanfarrão e a RÃ Cantadora
Tino, o cachorro perneta ( Menção Honrosa Prémio Irene Lisboa)
Bullying
Uma velha foto
Suave milagre (Título e frase final roubados ao Eca)
Acidente com arma
Pirulito, Rimas e a Associação de Moradores
Do Princípio da Incerteza


Falta-me, agora, adquirir os meus exemplares, um em papel, outro em formato Kindle. Para eventuais interessados, colocarei aqui os respectivos links.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Entropia

Na primeira metade do século XV, em romance meu não publicado, o sonho de reversão da entropia: 
“Prouvera ao Todo o Poderoso que as coisas corressem em sentido contrário – a vida, da velhice para a infância, os rios do mar para a nascente, as montanhas do cume para o vale que um dia foram — e todo este mundo sempre em mudança seria um lugar bem diferente e certamente bem mais tranquilo, talvez ainda intacto o Jardim do Éden onde fomos criados e nados: Adão e Eva, conhecendo antes o mal do pecado original havê-lo-iam evitado e, se o não fizeram, nós, seus descendentes, à medida que os anos passassem, corrigiríamos cada um dos erros da juventude que nos atormentam na velhice e não terminaríamos os nossos dias enfermos, rabugentos, amargos como fel, antes risonhos e felizes como crianças de peito a quem nem o Mundo nem a alma, nem o próprio corpo doem, até que, paulatinamente, desapareceríamos bem aconchegados no ventre materno. Os próprios rios, em vez de desalmadamente procurarem destino incerto resvalando por encostas, lançando-se por penhascos, embatendo furiosos contra rochedos que lhes barram o caminho, espreguiçar-se-iam tranquilos da foz para a nascente, contornando obstáculos, evitando sofrimentos, e as montanhas, livres do pecado da soberba, minguariam das alturas para o vale ou a concavidade que antes foram, sentindo-se tanto mais próximas do Céu quanto mais dele se afastavam...”
JCC, não publicado

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

A canção do vinho branco

O jantar foi ao borralho, na aldeia: costeletas do cachaço grelhadas na lareira, pão, vinho branco e novo para mim, velho e tinto para a minha mulher, laranja caseira, enorme e deliciosa, passas de figo e jeropiga da minha produção. 
O branco está uma maravilha, seco, límpido (passei-o a limpo na terça-feira passada). E, inevitavelmente, ao bebê-lo me recordei da canção do vinho branco, interpretada aqui a escassas dezenas de metros, na Associação Recreativa Montense, há quase meio século.
Uma artista da rádio, cujo nome esqueci há muito, abrilhantava o espectáculo e, para nele envolver o povo, organizou um "festival da canção": ganharia quem tivesse mais aplausos. 
Muitos moços acorreram ao palco, ansiosos por brilhar, por ganhar. Beatles para os estudantes, fado e folclore para os outros. 
A competição estava a terminar sem que a força das palmas anunciasse vencedor inequívoco, quando o Tio A., a cair de bêbedo, cambaleou até ao palco, travado pela mulher: 
— Homem, tu tem juízo, não me envergonhes mais!
E ele: — Larga-me, tartamudeava, que vou mostrar a esta rapaziada como é que se canta.
— O que é que vossemecê vem cantar?
— Eu venho cantar a canção do vinho branco.
O povo delirou. E ele cantou por entre gritos e assobios de encorajamento:
Ai vinho branco
Que te adoro tanto
A toda a hora
Bebo um casco inteiro
Sem deitar nada fora...
Os aplausos foram ensurdecedores. Ganhou.

Pois eu hoje não bebi um casco, apenas um único copo. É que o safado tem mais de 15 graus!

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

As bicicletas (1)

Aprendi tarde, e mal, a andar de bicicleta. Não havia nenhuma em minha casa, o que me fazia sentir desfavorecido face a miúdos ainda mais pobres, os quais, embora sem altura para chegar do selim aos pedais, as montavam com as pernas por debaixo do quadro e se exibiam no adro em corridas e acrobacias.
É certo que o meu pai tinha motoreta, e então eram tão raras na aldeia como os automóveis. Mas nem me passava pela cabeça montar nela, cair certamente, amassar chapa, riscar a pintura; receava sobretudo que, por volta da meia noite, quando o meu pai lhe pegasse para sair, sempre atrasado para o trabalho distante, ela não trabalhasse, fazendo-o perder o dia, ameaçando até o emprego.
Um dia, um primo, uns anos mais velho, apareceu com bicicleta. Talvez do tio, já não sei. E lá vamos nós a correr pelas ruas, ele a pedalar, eu atrás apeado, esbaforido. A certa altura, propôs ensinar-me.
Comecei por recusar, a medo de cair. Ah, mas ele amparava a bicicleta, não me deixava cair!
Assim tranquilizado, montei a custo no selim, tentei chegar aos pedais. 
— Não precisas, eu empurro, depois aprendes a dar meias pedaladas. 
Poucos metros depois, já ele largava a bicicleta por breves momentos, e eu ganhava confiança. Até que, quase no fim da rua, entendeu terminada a lição, que a paciência das crianças é curta. E não encontrou melhor forma de marcar o final do que com violento empurrão no guiador, fazendo-me estatelar violentamente no pó da estrada.
Esfarrapado, dorido, chorei, protestei contra a estupidez do acto.
— Todos caem, precisavas de aprender!
Não voltei a montar em bicicleta até que, aí pelos meus dezoito anos, outro primo, mais novo, surgiu com velha pasteleira. Experimentei sozinho, rua abaixo, pouco depois já pedalava pelas ruas da aldeia, triunfante, eufórico, por, finalmente, ter aprendido algo que qualquer miúdo de seis anos fazia, e muito melhor do que eu.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Levantar quando entra senhora

Aquele meu amigo estava sentado à secretária no seu gabinete quando entrou intempestiva uma professora a ralhar — só quem não foi professor desconhece a elegância de modos de algumas delas.
Gritou, barafustou; ele, sereno, continuava a escrever com a sua Parker.
E ela, talvez por ter esgotado o rol das queixas docentes:
— Oiça lá, o colega não se levanta quando está a falar com uma senhora?
Ele levantou então os olhos, fitou-a e respondeu:

— Sempre!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Vale a pena ter seguros?

Eu, que nada percebo de Direito, interrogava-me: culpa e responsabilidade pelos estragos do mau tempo devem ser imputados ao vento, que os causou, à Câmara Municipal de Lisboa, que não cortou as árvores da cidade, ou aos proprietários dos carros, que os estacionaram na proximidade das árvores, apesar dos alertas da meteorologia e da protecção civil?
Não foi necessário sequer aguardar por julgamento; acabo de ouvir que a CM de Lisboa assume a responsabilidade. 

Assim sendo, admitindo que daqui para a frente o Estado assume a responsabilidade pelos danos provocados pelas  forças da natureza — incêndios, derrube de árvores, inundações, certamente, e por que não tremores de terra — vale a pena continuar a pagar exorbitâncias em seguros para proteger casa e carro?

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Telefones e conversas

Para mim, as conversas ao telefone são um triste remedeio.  Ao fim de algum tempo,  a mão que o segura fica dormente, aquece a orelha, mudo para a outra, vejo a conversa a arrastar-se, mas não a desenvolver-se, a impaciência provoca-me bicho-carpinteiro, que os numerosos afazeres com que preencho os dias reclamam insistentemente a minha pessoa...
Também nisto me revejo na (minha) avó da Luz. Apesar da solidão, que bem lhe devia pesar durante as longas invernias na aldeia quase deserta, quando me telefonava a conversa era mais ou menos esta: “Vocês estão todos bons? Olha, se cá quiseres vir, já há laranjas apanhadoiras. Beijos para todos, fiquem bem e até à próxima, se Deus quiser." E desligava.
Já a sua filha (e minha mãe) se alongava um pouco mais ao telefone; mas, também ela, logo que tinha sabido dos "meus", me despachava, mesmo quando eu procurava prolongar a conversa:
"Mãe, e por aí?"
"Ora, por cá tudo na mesma, não há novidades. Vou desligar que estou a arrefecer. E estou em pé, doem-me  as costas."

Hoje, que tenho a idade de uma e de outra, sinto também que conversar longamente requer ocasião e condições: é preciso disponibilidade, estar presencialmente com os interlocutores, bem instalado, confortável, melhor ainda com comida e bebida à frente — e televisão, computadores e telemóveis desligados.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A minha Vespa


Tempos atrás, pu-la à venda; mas apenas fui contactado por um vigarista no estrangeiro, pelo que a fui deixando ficar. Neste Inverno, vou pô-la como nova: remoção de pontos de ferrugem, retoques de pintura, substituição de cromados ferrugentos, matrículas novas, que nas velhas caíram caracteres, lubrificação, bateria nova... 

Com a alegria da criança que redescobre brinquedo há muito esquecido, voltei à minha velha Vespa 125, abandonada a um canto da garagem e com pouco uso anual por ter deixado de lhe fazer seguro — umas pequenas voltas de tempos a tempos para não enferrujar, e pronto.
Já renovei o seguro, já dei umas boas voltas nela a ver o estado geral.
Como quando a comprei, no início dos anos 80, pega à segunda pedalada, responde bem, o motor trabalha como relógio bem afinado; noto, porém, o banco mais rígido, a suspensão um pouco dura, o que não surpreende pois amortecedores e pneus ainda  ainda são de origem.
Não, não está à venda.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Os sapatos do antifascista

Foi no Itau, café do Camões, aí por 1972, que me apresentaram aquele revolucionário, acabado de sair de Caxias, onde a Pide o manteve preso por largos meses. E ele, olhando em redor sempre vigilante, sempre alerta, que os informadores estão por todo o lado, contava pormenores. Não tinha sido submetido à tortura do sono. Nem à da estátua. Nem... Ah, mas foi torturado, muito torturado, a sua militância duramente posta à prova, e baixando a voz, escondendo os lábios de olhares indiscretos com a concha da mão, contava: punham-lhe pó nos sapatos para as solas se romperem mais depressa! “E os bufos, pá, vinham ter comigo: — Isto está mal! 

Mas eu fazia-me parvo, esgazeava os olhos, nada dizia, até que, sem me conseguirem arrancar nada, tiveram de me soltar!”
Despediu-se, saiu, sempre a olhar em redor, assustadiço como coelho em tempo de caça.
E eu: — O gajo é doido, não é?



Ah, tinha ficado maluco em Caxias. Mas já antes não batia muito certo, talvez por isso tivesse sido preso: durante a greve do ano anterior, um grupo de estudantes tentava forçar a entrada numa sala para expulsar os fura-greves, a polícia foi chamada, todos fugiram menos ele, que foi apanhado a forçar a porta!

(Foto: fachada do prédio onde funcionou o Instituto Comercial de Lisboa)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Eu enquanto leitor

Foi aí pelos meus quinze anos que me tornei leitor eclético, anárquico, incapaz de ler livros que não me seduzam, me agarrem desde o início. (Os Maias foi uma das excepções, mas tive de saltar as páginas iniciais, com a descrição do Ramalhete.)

Estudava então em Leiria, pouco, e estava alojado em casa modesta, velha, escura, tristonha, de uma senhora divorciada que recebia estudantes como hóspedes — sim, ao contrário do que hoje se diz por aí, o divórcio existia antes do 25 de Abril, embora se não  aplicasse aos casamentos religiosos. 
Adiante. O que interessa é que, ao fundo de um corredor, amontoavam-se centenas de livros, sem qualquer ordem. Para um miúdo viciado na leitura, afastado da família, num meio completamente estranho, foi um maná dos céus. Devorava um ou dois por dia, misturando Júlio Dinis com Caryl Chessman, o condenado à morte que na cela se tornou escritor, Thor Heyerdahl e a sua Kon-Tiki, Júlio Verne, Dumas, Salgari, Defoe, histórias policiais e de terror com os famosos livros de cowboys e o Major Alvega...
Os dias voavam, as saudades não doíam tanto... 
(Naquele primeiro período, os resultados escolares não foram brilhantes.)
Passou meio século, creio que evolui como leitor, mas não mudei de critérios: se o livro não me puxa, não o leio. Por muito elogiado, por muito premiado que seja. Os meus gostos não se subordinam aos alheios. E vem isto a propósito de ontem ter procurado obra muito badalada recentemente. Bem escrita, mas intragável, barroca, em que o discurso (o modo de contar) abafa a história. 
Deixo-o para as noites de insónia de leitores persistentes e pacientes, convicto de que só com paciência de corno se conseguirá ler.

O rei vai nu...

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A brincar, a brincar...

Aí por 82 ou 83, tive professor na Faculdade que começou a apresentação ridicularizando o nome da disciplina: — Fonética e Morfologia do Português é o mesmo que dizer os Alhos e Bugalhos do Português! E prosseguiu no mesmo tom criticando acerrimamente o programa que tinha acabado de distribuir, com o qual, pelos vistos não se identificava minimamente, culminando na sugestão de que deitássemos para o lixo a bibliografia anexa, que substituiu  por outra, obviamente indisponível e quase inacessível. 
Não, não sabia se existiam tais obras nas bibliotecas da Faculdade, nem o preocupavam as dificuldades de aquisição naquele tempo em que as compras ao estrangeiro estavam fortemente restringidas pela falta de divisas e problemas cambiais, e nós, pobres alunos, mal tínhamos dinheiro para fotocópias.
As aulas eram erráticas, sem planificação, ao sabor dos seus humores. O professor, sempre arrogante, autoritário, sobranceiro com os alunos. Sardónico ao falar dos colegas da área, sempre pronto a destruir as nossas respostas às suas perguntas com mordacidade cruel, num desejo infantil, assim supunha eu, de se ver venerado. Mas havia mais, como vim a descobrir quando veio a “frequência”. Que, inevitavelmente, me correu mal.

— S’tôr, quando é que entrega os testes?
— Não  entrego. E do alto da sua estatura, ampliada pelo estrado, passeou olhar de gozo pelo Pavilhão Velho repleto de alunos incrédulos, a  apreciar o efeito, a saborear o burburinho de protesto.
Depois acrescentou: — O departamento não permite, mas podem passar amanhã pelo meu gabinete para os ver e  saber as notas.
Bom, à hora aprazada lá estávamos, eu e uma colega, autêntico mulherão.
— Você, disse-me, teve onze. Espantei-me. O teste não tinha sinais de ter sido corrigido. Mas ele era o deus único e verdadeiro da linguística e eu estava, tinha consciência disso, mal preparado pela leitura apressada de fotocópias e apontamentos dispersos e desconexos. 
Onze dava para passar, era o que eu queria.
— E você, disse à boazona minha colega, teve sete.
— Sete? O s'tôr está a brincar comigo!
O s'tôr ria. E ela teimava: — O s’tor só pode estar a brincar comigo!
Com pressa para o comboio — trabalhava à noite, a cem quilómetros, estudava de dia — deixei a minha colega a insistir que  o professor só podia estar a brincar com ela. Até porque me sentia a mais, com ele a propor-lhe irem os DOIS tomar um café fora da faculdade enquanto discutiam a nota.
No dia seguinte, encontro-a na faculdade: — Vês, o professor sempre estava a brincar comigo! Tive dezassete!

Bom, eu fiquei feliz com o meu onze.

sábado, 26 de agosto de 2017

É deixar arder

Já por várias vezes aqui escrevi que os bombeiros não apagam fogos florestais, sem com isso pretender diminuir a sua abnegação e altruísmo postos ao serviço da protecção das pessoas e bens em risco.
Pois ontem tive a prova desta minha afirmação: ao passarmos na serra d’Aire avistámos um reacendimento, com fumo e chamas bem visíveis; parámos no quartel de bombeiros mais próximo a avisar. Já sabiam, aquilo já tinha ardido e não tinham acesso… É deixar arder…
Compreendo-os. Há prioridades, riscos a ter em conta, esforços inúteis. Bem precisam de dar descanso aos corpos exaustos, recuperar as forças para poderem continuar a intervir nos incêndios mais graves, os que ameaçam as populações , os quais, se não chover a sério, irão continuar até aos frios de Novembro.

domingo, 20 de agosto de 2017

AMI ou fraude?

Ontem, sábado, por volta do meio-dia, junto da estação do Oriente, do lado do Vasco da Gama, fui interpelado por jovem casal com coletes da AMI. O rapaz, a falar pelos cotovelos, perguntava-me quanto era necessário para dar uma refeição a uma criança necessitada no nosso país.

Não sabia.

__ Quarenta cêntimos!, dizia triunfal. E eu, que habitualmente não sou dado a contribuições nem a solidariedades, puxo da carteira: — Está bem vou contribuir por ser para a AMI, mas não com 40 cêntimos, que é ridículo. E prontificava-me a dar cinco euros.

O moço não aceitou. E falava, falava apressadamente, numa ânsia de despejar a cartilha aprendida: — Se arranjar uma caixa em sua casa, puser diariamente 40 cêntimos, o dinheiro de um café…

— Não há café a 40 cêntimos! E a querer sair dali, incomodado pelo calor, prossigo: — Já disse que contribuo, vamos lá a isso, que estou com pressa!

… Com os quarenta cêntimos guardados todos os dias para alimentar uma criança, ao fim de três meses tem sabe quanto?

Ia responder. Ele não deixou e arredondou: — 40 euros! E com esses 40 euros de 3 em 3 meses pode ajudar a AMI a alimentar as crianças necessitadas, recebendo em contrapartida um seguro de saúde! Tem algum?

— Não.

— E quanto é que paga quando vai ao dentista ou ao Hospital da CUF?

— Muito dinheiro., abreviei. Não conto a minha vida a estranhos.

— Ora veja… 

Mas eu não queria ver. Uma coisa é dar um donativo para a AMI; outra subscrever um seguro de saúde por 120 euros anuais. Ele não desistia. Queria saber onde tratava dos meus dentes. Disse-lhe. E ele telefona a saber se essa clínica tem acordo com o seguro deles. Entretanto, diz à colega para me fazer o inquérito.

Olho-a com mais atenção. O colete branco da AMI tem nódoas. Puxa de uma ficha cheia de quadradinhos — amarrotada, também pouco asseada.

— Qual o seu clube?

De futebol, presumi. —Não tenho.

Queria que cantasse o hino de um clube. Que coisa mais parva! Nem sei nem sou artista de rua.

O moço interrompe-nos: não havia acordo com a minha clínica. Mas pode ir a qualquer outra…

— Não o faço, por razões que não estou para explicar. E não subscrevo seguros de saúde na rua. Se me der os papéis para estudar em casa…

Não podia.E já desinteressado de mim, despedia-se para prosseguir na caça aos otários. Um pouco mais afastados, outros jovens, com idênticos coletes da AMI, abordavam transeuntes.


A AMI anda nisto? 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Anjinhos ou anjolas?

Protestam contra o terrorismo gritando Não temos medo. O problema é que "eles" também não têm medo. Ficamos nisto de fazer peitaça e proclamar valentia, na esperança de que os inimigos se intimidem (o que não acontecerá) ou se deixem vencer pelo cansaço ou partimos para a porrada, no duro, a bater onde lhes dói, onde lhes faz mossa -- nos seus pontos fracos, que os hão-de ter? Sem piedade nem misericórdia? Lembram-se dos Hunos, das pirâmides com centenas de milhar de cabeças, de Átila, o flagelo de Deus?

No Delito de Opinião

Hoje há um texto meu no Delito de Opinião, gentileza de Pedro Correia. Muito obrigado!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Alegretes

Alegretes
A casa, que uma inscrição datava de meados do século XIX, era de pedra tosca, telha romana, pequenas janelas de madeira, os vidros partidos remendados com papelão. 
Na frente, que dava para rua estreita, tinha, de cada lado dos degraus da porta de entrada, alegretes estreitos cobertos por sardinheiras coloridas acima dos quais se elevavam — cabaças! Que eu e o meu primo cobiçávamos, disputávamos: — Aquela é minha! 
Nem sei para que as queríamos. Eram novidade, eram diferentes das demais plantas aldeãs, eram, assim as achava e acho, bonitas na sua elegância feminina de curvas simétricas e perfeitas.
Mas a casa, que tinha pertencido ao nosso bisavô Zabel e passado por herança ao avô Zé Cipriano, estava arrendada. A indivíduo de maus fígados, quezilento — o Maneta, de alcunha e de facto, pois tinha o braço direito amputado pelo pulso. O que nos alimentava as esperanças de em breve nos tornarmos proprietários das apetecidas cabaças era o facto de o nosso avô querer despejar o inquilino:
— Preciso da casa, o meu Emílio quer casar e não  tem onde morar…
Verdade. Quando o tio casou, à pressa como era costume na nossa família, lá se instalou até arranjar melhor.
O Maneta é que não parecia convencido e resistia. Até que o nosso avô nos anunciou: sai no fim do mês, dia 1 vamos lá.
Bem cedo, o meu primo e eu estávamos em casa do nosso avô, cada qual receoso de que o outro, se chegasse sozinho, se apropriasse das melhores cabaças. 
Desilusão: as sardinheiras e cabaceiras jaziam por terra, cortadas rente, cobertas pelas  flores e cabaças, tudo espezinhado maldosamente. 
O meu avô abriu a porta e logo à entrada, grande poia de merda humana enfeitada com flor de sardinheira — tal como em todas nos dois pequenos quartos, na cozinha, até na minúscula despensa interior. E o sobrado encharcado por penicadas de mijo. Fedor insuportável. Olhámos para o avô Cipriano, talvez à espera de ataque de raiva, de ameaças justiceiras.
Mas ele, bom homem e aliviado por se ver libre de tão ruim inquilino, riu às gargalhadas:
— Filhas da puta, muita vontade tiveram para cagar e mijar tanto!
(FOTOS: o avô Cipriano, na única foto que tenho dele, dos seus tempos de militar; no casamento da tia Cesaltina: o meu primo António à esquerda, eu à direita, no meio a minha irmã e o primo Fernando Cipriano; a menina à esquerda era a filha de uma amiga da minha mãe do tempo em que vivemos em Chaqueda, mãe solteira. Nunca mais soube nada dela, a dona Capitolina nem da filha.)

domingo, 6 de agosto de 2017

Milagre ou sugestão?

Entrei na piscina termal de São Pedro do Sul sem fé alguma nos poderes curativos daquelas águas quentes vindas das profundezas, que carregam consigo os odores sulfúreos do Inferno.

E as dores nos joelhos desapareceram! Diluíram-se, evaporaram, não sei. Mas deixaram-me logo ao primeiro tratamento, contrariando a opinião do médico das termas, que me tinha prevenido de que só a partir de onze sessões se começa a notar os benefícios.

Fui como turista, desafiado por amigos para umas mini-férias na região, que incluíam, para preencher os dias, tratamento termal. Voltei sem dores, não digo que convencido, mas muito satisfeito: os joelhos permitiram-me dar por lá umas boas voltas a pé, de tal forma que abusei, mesmo sabendo que não devia; apreciei muito a ginástica na piscina — exercícios igualzinhos ao Chi Kung (Qi Qong) que pratico regularmente há muitos anos —, as massagens e o vapor na coluna; a região, que já tinha visitado no passado, é linda, com muito para descobrir, como os moinhos das fotos abaixo, a gastronomia excelente, pelo que trouxe peso extra a sobrecarregar os joelhos…

Milagre ou sugestão? Tanto se me dá.

sábado, 1 de julho de 2017

Cuidado com os emails!

Este mail  (ver imagem) é uma sofisticada forma de ataque informático (pishing). Aparentemente vem da Amazon e resulta de uma compra de jogos (que, obviamente, não fiz) no Facebook. 

Os piratas esperam que o visado, indignado, clique no link 

 (ver CLICK HERE) para  repor a sua verdade -- e ser, seguramente, infectado.

Desconfiado como sou, não cliquei. Mesmo tendo a certeza de que nada tinha sido comprado, fui ao site da Amazon. fiz o login e procurei por "orders". Nenhuma nos últimos 6 meses.

Não caiam nas armadilhas dos piratas! Nunca cliquem nos links! Lembrem-se sempre do Cântico Negro,  de José Régio: "Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces 

Estendendo-me os braços, e seguros 

De que seria bom que eu os ouvisse 

Quando me dizem: "vem por aqui!" 

Eu olho-os com olhos lassos, 

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) 

E cruzo os braços, 

E nunca vou por ali... "

Incêndios e roubo de armas: Verão Quente

Um governo substitui outro para fazer melhor e não para se desculpar com as asneiras do anterior.

Pergunto novamente, como perguntei logo após o morticínio de Pedrógão Grande: não há responsabilidades políticas no roubo de armas e munições em Tancos?

Ou atribuímos  as culpas no primeiro caso a um qualquer e anónimo cabo da GNR, no segundo à falha na videovigilância? 

O que me suscita outra questão: com tanto militar a coçar o cu pelas paredes, não há quem faça serviços -- sentinelas, rondas?

terça-feira, 20 de junho de 2017

O povo

Há o povo que deita foguetes em alvorada de festa, indiferente ao risco de incêndio e sem respeito pelas vítimas dessa noite.
Há o povo que com fingido pesar  faz antes de cada noite de festas da cidade hipócrita minuto de silêncio. 
Mas há também o povo que luta em desespero, com fraca ou nenhuma ajuda oficial, pelo menos nos momentos críticos, mas com uma coragem que me comove. 

Como a moça que no sábado por volta da meia noite saiu de Lisboa, onde vive, rumo à aldeia natal, para acudir  a pais e avós cercados pelos fogos. Conseguiu chegar, passando por estradas em chamas, com cadáveres ainda a arder nas bermas, num percurso inverso ao daqueles que morreram na fuga.
Lá continua, e disponibilizou o número  de telefone para ajudar a encontrar desaparecidos, conforme post da Sofia Cipriano:
"A minha amiga Teresa é de Pedrogão Grande e esta lá a ajudar no que pode. Ela pediu para avisar: Se souberem de alguém à procura de pessoas desaparecidas, digam para ligarem de imediato para o seguinte contacto: 236488060. Obrigada"

O povo é o mesmo, as pessoas é que não.

domingo, 18 de junho de 2017

Vergonha!

Ainda um destes domingos, um vizinho que muito considero me deu descompostura por ir regar, em manifesto desrespeito pelo dia santo e por aqueles que nele acreditam.
Hoje, já com as notícias da tragédia da noite amplamente divulgadas, na aldeia vizinha, Alpedriz,  anunciam a festa da terra com prolongada salva de foguetes.
O respeito que se defende abrange os dias santos, mas não os pinhais nem os mortos.
Povo estranho.