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domingo, 31 de agosto de 2014

Contra o fecho de escolas


Fecham as escolas, obrigam as crianças a viagens demoradas e perigosas, todo o dia afastadas das famílias. Desertificam o interior do país. Porém, não me consta que tenham encerrado os serviços inúteis do Ministério da Educação. Quando muito, mudam-lhes o nome.
Na 24 de Julho, na Praça de Alvalade, na 5 de Outubro, nas capitais de distrito, essa hidra de mil cabeças (quem duvidar que as conte) inventa constantemente tarefas inúteis para melhor sobrecarregar escolas e professores, alimenta a burocracia, alimenta-se da burocracia. Uns bons anos atrás, inspirado em factos reais (como mestre Camilo, "não tenho imaginação, tenho memória") trouxe para a ficção uma das suas funcionárias.

"Podia ter telefonado a combinar encontro, mas preferi aguardar a minha nora à porta de casa. Asneira. Passaram as cinco, hora a que é suposto chegar do emprego, as seis, as sete... Eis que finalmente aparece, sai do carro, divertida, radiosa. Interpelo-a, volta-se, vê-me, e quem cora sou eu, homem de outro tempo, ao ver sair pela porta do pendura cavalheiro bem posto que a abraça pela cintura... Ela, surpreendida por me ver ali, à sua espera, mas sem perder a pose nem a prosápia, afasta discretamente o braço do parceiro e cumprimenta-me afectuosamente com duas frescas beijocas nas faces escaldantes: que gosto em ver-me, que prazer, há tanto tempo, que fizesse o favor de subir... Recuso.
Não, não aceita desculpas, certamente veio para falarmos, e depois é sempre um prazer receber o "ex"-sogro, remata descaradamente... E com o mesmo despudor apresenta-me o seu "namorado", acrescentando pudicamente que só o era desde que se tinha separado do Bruno, não fosse eu imaginar coisas...
Ah, não me obrigará a entrar, a fazer sala estupidamente, a ouvir os seus argumentos (sempre o que mais facilmente se arranja). Já estou perfeitamente esclarecido, dispenso mais explicações, e se as julga necessárias não é a mim que as deve dar.
"Adeus", digo secamente, e começo a afastar-me.
Parece surpreendida: "Mas não entra? Temos tanto para conversar... "
"Comigo, não. Já percebi tudo." Afasto-me apressadamente, ignorando malcriadamente os seus chamamentos. Como é que é? Corneia o meu filho e quer a minha bênção? E já no carro, a caminho de casa onde o Bruno aguarda ansioso por boas novas, enquanto peso as palavras, procuro a forma de lhe dizer o que tem de ser dito sem agravar mais a sua neura depressiva, faz-se-me luz, tão certo como dois mais dois serem quatro!
Quando casaram, uns anos atrás, a mulher era professora e queixava-se constantemente dos alunos e respectivos pais, das colegas e da escola, do excesso de trabalho e das agruras da profissão. Colocada no Alentejo, fazia então uns duzentos quilómetros diários de casa para a escola e da escola para casa. O Bruno, para lhe evitar tal incómodo, e também para a ter mais perto de si, aproveitou conhecimentos partidários, meteu cunha, conseguiu que fosse destacada para um qualquer serviço do Ministério da Educação. Nova, gira, certamente aproveita as trinta e cinco horas de ócio para namorar! Não admira, portanto, que se queixasse da sensaboria da relação conjugal, depois de um dia de trabalho exaustivo, por entre mails com anedotas, toques de telemóvel, SMS aos colegas mais atraentes, namorisco no bar antes dos almoços de trabalho para discutir os mais prementes problemas educativos das escolas a seu cargo, como a pertinência do razoado dos respectivos projectos educativos..."

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Incêndio na aldeia

Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, o clarão do incêndio parece vir de lá, e todos acorrem feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear do Abel, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, — Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do Abel e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada. 
— Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, — Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio — afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.
Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear do Abel, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por solidão e por carraças.
Um amor inventado, LeyaOnline

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Um empresário

Se eu tivesse juízo, ou ambição, escrevia coisinhas lindinhas, ou então deprimentes, pois me parece que para ambas não escasseia público e procura. Como me falta o sentido prático e por ambição literária apenas tenho a de escrever o que quero, como quero, desperdiço esforço e tempo com textos como o que se segue, extraído de um conto já com uns anitos. E depois, de cada vez que se fala noite e dia do último escândalo financeiro, se pergunta ingenuamente como é que se chegou a este ponto... bom, lembro-me: já escrevi sobre isso.  Como há dias aqui coloquei excerto de um conto premiado que fala de bancos e acções, hoje, para desenjoar do BES, segue um centrado no têxtil. Afinal, a causa  de sempre para a nossa decadência: somos país de chico-espertos.
"— O Velho come aquelas gajas todas. Nem imaginas. E mais as secretárias dos clientes, na Alemanha. Vai lá todos os meses, sempre carregado de boas prendas para elas. Por isso, faz bons negócios, e diverte-se à grande, o cabrão.
Apesar de o negócio do têxtil pressagiar já crise, corre a rodos o dinheiro, não rareiam ainda os fundos provindos da CEE, uns para formação profissional, outros para modernização da maquinaria, actualização tecnológica, construção de uma ETAR, incentivos e apoio à exportação… Não importa o pretexto. Os efluentes continuam a seguir direitinhos e fedorentos para o rio Vizela. Os operários sabem mais do que precisam para trabalhar, se querem estudar matriculem-se no liceu à noite, e fazem falta junto das máquinas, nem pensar em os dispensar umas horas que seja para os cursos de formação profissional; as verbas recebidas para pagar a formadores e a formandos embolsa-as o patrão (então não paga o salário a engenheiros e a operários, pontualmente a 30 de cada mês?) As máquinas actuais servem muito bem, e das exportações trata ele próprio, como faz com os incentivos à exportação, gastos em prendas e noites de hotel com as secretárias alemãs. E o sobrante é investido meticulosamente em carros topo de gama, jipe para a mulher, almoços e jantares de luxo, iate na marina de Vila do Conde, mulheres e despesas de sedução — despesas de representação, como as inscreve o seu contabilista. 
Veio há pouco ao Norte o primeiro-ministro Cavaco Silva avisar que é tempo de acabar com as despesas sumptuárias no vale do Ave. Pois sim. Como sempre, os seus discursos sibilinos servirão para mostrar à posteridade, quando se recandidatar à Presidência da República, que lançou oportunamente os alertas e deixou continuar a roubalheira — palavras, leva-as o vento. Chegará o dia em que os têxteis serão liberalizados, a fábrica declarará falência, pouco depois o Velho abrirá outra com novos subsídios, outros empréstimos bancários, e a vida à tripa-forra prosseguirá até que a Europa se canse de nos financiar. Então o industrial viverá dos proventos acumulados e bem acautelados, uns em nome da mulher, que oportunamente entrará com processo de divórcio embora continuem a coabitar (pobrezinhos, não têm outra casa onde viver!), o palacete posto a salvo de penhoras judiciais, em nome da filha, se lhe leiloarem bens em hasta pública serão seguramente os carros velhos, pois os amigos nas finanças continuarão a valer-lhe como ele antes lhes valeu, também o apartamento em Portimão será oportunamente resguardado dos credores, esse fica em nome do filho, que agora descobre que a internet também serve para o engate, enquanto lentamente, faixa a faixa, o CD-ROM vai gravando as músicas pirateadas que à noite venderá aos amigos, modesta ajuda para farra e passa…"

domingo, 27 de julho de 2014

Conservador me confesso

A propósito do post anterior, o meu amigo Reinaldo chama-me conservador. E põe-me a reflectir. Porque desde a infância procuro saber quem sou, o que sou. Mas conservador?
Bom, como classificar homem casado com uma só mulher, há mais de quarenta anos, nestes tempos de casa e descasa? Que respeita a palavra dada, os compromissos assumidos? Que paga prontamente as dívidas? Que prefere, sem a menor dúvida, a comida tradicional portuguesa à de autor, gourmet e quejandos? Que usa lenços de pano, sempre calça peúgas debaixo das sapatilhas, a que não chama ténis, cumprimenta com aperto de mão clássico os amigos e preserva-os ao longo dos anos? Que dizer de um homem que, nos tempos que correm, põe, como sempre pôs, os valores acima dos interesses, dos apetites? Que aprecia rotinas, que pratica a mesma arte marcial há mais de três décadas?
Visto assim, nenhuma dúvida de que sou um conservador.
Por outro lado, não sou avesso à inovação. Escrevo num iPad e não com caneta Parker de aparo de ouro. Antes escrevia no computador, desde que adquiri o primeiro, no início dos anos noventa -- e mais para trás escrevia à máquina. Aderi à fotografia digital nos seus primórdios, farto de câmara escura. Prefiro ler ebooks a papel -- mas a minha vista e os meus hábitos de leitura podem ajudar a explicar esta preferência pouco conservadora. Fascinam-me as engenhocas, as descobertas alheias, as novidades do progresso tecnológico e, sobretudo, científico. 
Mas o meu amigo quer insinuar que sou politicamente conservador. Ora aí tenho de discordar. Desde que me afastei da praxis política, pouco depois do 25 de Abril, não me filiei, não me tornei simpatizante de nenhum partido, o que me permite manter a distância, a visão fria sobre as respectivas ideologias e ideias (um deserto) e as políticas propostas - infelizmente, digo-o com pena sincera - é tudo a mesma merda. Todos, com as suas políticas, ou com a ausência de políticas alternativas, nos mergulharam na fossa fedorenta de onde não vejo como conseguiremos sair. Já votei em todos os partidos, inclusive, confesso-o com alguma vergonha, no partido do Reinaldo, como aconteceu recentemente nas eleições autárquicas, precisamente porque alguns dos candidatos eram amigos cujo mérito reconheço e admiro...

Tudo bem pesado, parece-me evidente que o fiel da balança se inclina nitidamente para o lado conservador. Mas, assim gosto de me ver, assim gostaria de ser, conservador esclarecido, de olhos abertos. Conservador, mas não de direita, nem atacado pela cegueira conservadora do PC ou do Bloco, nem afectado pelas fogaças mediáticas de um PS acéfalo. Sem preconceitos, livre para votar no partido que, em cada eleição, me apresentar o projecto mais credível, ou menos mau, ou candidatos que respeite. Ou em nenhum, como fiz nas últimas eleições presidenciais.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Caixinha e o caixão

Cheguei um pouco atrasado à primeira aula da manhã, já os corredores do Instituto Comercial estavam vazios. O professor de Elementos de Direito Civil, Caixinha de seu apelido, pessoa de ordinário afável, camarada, sempre a insinuar que também ele estava contra o regime, parecia esperar apenas por mim para começar raspanete exaltado: ele a tratar-nos bem, como pessoas, nós a espetar-lhe a faca nas costas, mas daqui para a frente outro galo cantará, acabaram-se as confianças, cada macaco seu galho!
Consciência tranquila, nada sabendo, nada compreendendo, olhava-o fixamente, a tentar perceber o que o teria zangado daquela forma -- pelos vistos comigo, e os meus colegas da dianteira pareciam confirmar as suas suspeitas, voltando as cabeças para trás, para mim, como se eu fosse o responsável pela fúria sonorosa que se tinha apossado do homem.

Numa qualquer interrupção, talvez a receber o livro de ponto, bichanei a colega do lado: porque é que o Caixinha estava tão bravo?
Passou-me à socapa panfleto acabadinho de sair, emanado da clandestina Pró-Associação de Estudantes, composta predominantemente por alunos expulsos nas greves dos anos anteriores, os quais agora integravam também o Estar na Luta, de Económicas -- onde o pasquim fora elaborado.
Da primeira à última página, professores e funcionários eram ofendidos, ridicularizados. E encontrei, pelo meio, desenho tosco, feito a estilete no estêncil, de uma faca e um caixão, a ilustrar texto com título sugestivo:
CADA CAIXINHA FABRICA O SEU CAIXÃO
Compreendi então. As evidências estavam contra mim, desde o meu aspecto -- cabelo comprido, barba, camisa de camuflado comprada na Feira da Ladra --, ao comportamento e às companhias: chegara atrasado, como para evitar que me relacionassem com o panfleto, e viam-me amiúde com revolucionários; não sabiam, não podiam saber, que eles, no entanto, não confiavam em mim, que era então anarquista, e por isso mesmo me não tinham posto a par dos conteúdos do panfleto, nem mo tinham dado para distribuir.
No intervalo, avisto o Luís M., "estudante" que apenas entrava no Instituto para agitação: -- A malta, pá, tem que se unir, pá, contra o director, pá...
-- Então, já leste? Tá bom, não tá?
Protesto. Mal escrito, conteúdos injustos e reles. Então o do Caixinha...
-- Um bom filha da puta, pá! Os professores são todos fascistas, pá, ou social-fascistas. Uns bufos! E tu, ou estás com os estudantes e a luta, ou estás com o inimigo. O do Caixinha está muito bom, os estudantes gostam, pá, já muitos mo disseram, pá, há que desmascarar esses gajos que se fingem amigos dos estudantes, pá... Fui eu que o escrevi, podes ir bufar-lhe...
Obviamente não fui. E no ano seguinte, cabelo curto, barba rapada, vestuário normal, eu era já um "estudante progressista", de dia a manifestar-me nas ruas de Lisboa berrando vivas à ditadura do proletariado, de noite a pintar nas paredes Abaixo a guerra colonial, a distribuir pelas caixas de correio tarjetas com votos de longa vida ao camarada Mao...

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Menos Dois

1971 ou 1972, Instituto Comercial de Lisboa. Os estudantes em protesto apinham-se nas escadas em caracol exigindo a presença do director. Como não aparece, começam a bater com os pés nos degraus de madeira. Eis que se abre porta no primeiro andar, surge apavorado professor de Matemática, o Menos Dois:
-- Senhores alunos! senhores alunos, grita, tentando fazer-se ouvir sobre o clamor geral, estou aqui não como professor, mas como engenheiro! Para vos dizer que se continuam a bater com os pés as escadas caem!

FOTO: em frente, o edifício onde funcionou o Instituto Comercial de Lisboa.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Julho é ladrão...

[Dois anos atrás sofri a agonia da minha mãe. O texto que se segue é um dos registos da época, amputado de fragmentos demasiado pessoais.]


Telefonam-me do lar: a minha mãe vai a caminho do hospital. Precipito-me, chego ainda antes dos bombeiros. Fazemos o check in, passamos à triagem. O enfermeiro, moço, preenche formulário, desinteressado das respostas, coloca-o em placard junto à porta de um dos dois gabinetes médicos de triagem, e começa a espera. Ninguém parece ter pressa, nem as enfermeiras, seguras e empertigadas que andam para trás e para a frente como se estivessem atarefadas, nem as auxiliares que se juntam em grupo, galhofeiras, nem os raros médicos, aparentemente desocupados, todos indiferentes ao sofrimento das pessoas que agonizam no corredor degradado, na acanhada sala de espera tão apinhada de macas que ao movimentá-las chocam entre si e provocam gritos de dor a jovem acidentado, cabeça envolta em ligadura ensanguentada, há horas ali, esquecido por todos excepto por senhora discreta, elegante Olha a tua professora de Inglês, diz mãe para miúdo que passava sem a ver, ou porque, como os outros miúdos, há muito deixou de conhecer as professoras, ou porque a febre lhe embotou o discernimento.
Passam sonolentas as horas, chegámos pelas quatro da tarde, são quase duas da manhã, cabeceio com sono, imagino-me a mim mesmo estendido numa daquelas macas, agonizante talvez, esquecido por todos de que estamos nas Urgências, quem o diria com tamanha demora, com tanta calma dos profissionais. Em que pensarão os doentes, a sofrer silenciosamente, apenas o ferido na cabeça chora baixinho? Talvez, mais do que viver ou morrer, desejem que aquele purgatório acabe depressa, arrependidos de terem vindo ao hospital, melhor morrer em casa, a sós que seja, que naquela sala de espera, de solidão e indiferença atrozes.
A minha mãe chama-me, contorno as macas, desvio o olhar dos rostos marcados pela fealdade da doença e da velhice, assim serei eu, assim seremos todos um dia, uns de olhos fechados, outros de olhar vazio fitando o branco sujo da parede, Como está agora? Abana a cabeça com indiferença, sussurra, a voz minada pela fraqueza e quase inaudível devido à traqueostomia: — É tarde para ti, vai-te embora! É tarde, sim, amanhã tenho aulas às oito, e para além delas, que são o meu trabalho, as inevitáveis aulas de substituição dos jovens professores que incapazes de aguentar as suas turmas se baldam, deixando aos velhotes como eu o inferno de aguentar na sala os seus alunos, sem plano de aula, sem perceber nada das respectivas disciplinas.
Não a abandono, há um ano e meio que andamos os dois nesta vida, peregrinando de hospital em hospital, de urgência em urgência. Eis que finalmente nos chamam, primeiro para a triagem, depois para a consulta, é ainda preciso aguardar pelo resultado dos exames, das análises, que finalmente chegam.
Está tudo bem.
Mas, doutor, e recordo o historial clínico da minha mãe, Veja o estado em que está!
Como se sente, dona Isabel?
Mal, sussurra, e eu falo novamente da traqueostomia, dos meses entre a vida e a morte nos cuidados intensivos de Santa Maria após cirurgia de quatro horas, uma das quais com o coração de fora, no gelo, a derrame da aorta pleural, a infecção por bactérias resistentes aos antibióticos...
A sua mãe tem oitenta anos...
E o Manuel de Oliveira mais de cem...
As pessoas não são iguais.
E termina a consulta com a recomendação de que beba muita água. Tanto sofrimento, da minha mãe e algum meu, tantas horas de hospital, para receitar mais água?
Quantas urgências, quantos hospitais conheci já? Em quantas não passámos horas infindas, de espera insuportável? Leiria, em pavilhão pré-fabricado, apesar de o hospital ser novo. Ampla sala de espera, pistas de cor, amarela, vermelha, azul, consoante a gravidade diagnosticada na triagem, feita por jovem enfermeira na galhofa com os maqueiros, sem prestar atenção às respostas que eu lhe dava; Alcobaça, pequeno hospital da Misericórdia, tão pouco misericordioso como os outros, a mesma espera, as mesmas macas amontoadas em qualquer espaço livre, as enfermeiras divertidas a verem no computador as fotos das férias de uma delas; Santa Maria, sentado no chão do corredor por falta de cadeiras, com a Ana e a Sofia, na penumbra, à espera que por ali passasse o cirurgião com informações da operação ao aneurisma da aorta, depois meses à porta dos cuidados intensivos, de cheiro agoniativo, entontecedor, na esperança de fugazmente poder ver a minha mãe ligada à maquina, ciente de que podia ser a última, a piorar de dia para dia, – Mãe, sou o Zé, conhece-me? Vago gesto afirmativo, talvez apenas com o olhar, e eu falo, falo, sempre as mesmas conversas, invento, minto, mesmo que pareça ter adormecido, fico até ter de sair a mando da enfermeira ou porque se esgotaram os breves minutos da visita, ou porque soa o alarme de uma das máquinas, ou porque a minha mãe está novamente engasgada com muco, a precisar de ser aspirada...
Horas de viagem, horas de espera, para trazer algum alento: Mãe, não se deixe morrer, precisamos de si! E por resposta, aceno de mão a revelar desinteresse por tudo, vida e morte...
Tubo no nariz, tubo na garganta trasqueotomizada, máscara de oxigénio, mostradores a indicarem perigosa falta de oxigénio no sangue, ou ritmo cardíaco, ou tensão arterial elevada, ou sei lá que mais, naqueles aparelhos que tento decifrar, como tento decifrar a conversa enigmática das enfermeiras, talvez não saibam, apenas cumpram as indicações dos médicos, e estes também nada sabem, há que esperar...

Telefona-me a dona do lar com rodeios. Interrompo-a: a minha mãe morreu? Confirma.
Acrescenta pormenores. Estava de pé, agarrada ao lavatório. Caiu, deitaram-na na cama, vomitou. Terá sido como conta, suponho. Nenhum de nós lá estava. E o médico está de férias, virá à noite para passar a certidão de óbito.

() Caminhamos silenciosos atrás do carro funerário, quase um quilómetro e a subir, o calor aperta, lembro-me de que no funeral do meu pai, dezanove anos antes, o padre rezava altas vozes o padre-nosso. No cemitério a emoção vai e vem, só quero que tudo acabe depressa, sofri a agonia durante ano e meio, sofro a sua morte há já três dias, anseio por alívio, esquecimento. Censuro o meu egoísmo, recordo que de cada vez que peregrinei para as Urgências quase recriminava mentalmente a minha mãe por me fazer sofrer, por perturbar a minha rotina com as suas doenças que os médicos não diagnosticavam, ou diagnosticavam erradamente, minimizando-as, e eu então quase lhes pedia desculpa pelo incómodo, e agradecia veementemente, em vez de censurar a ignorância ou o desleixo com que a observavam... Acreditava neles porque era o que queria, o que me convinha, para que tudo continuasse na mesma... Afinal, quem tinha razão era a minha mãe: Está tudo a acabar! É o fim... E repetia com a certeza de que Julho é fatal para a nossa família: Julho é ladrão...Em Julho acaba tudo!

FOTOS: no lar, com a Sofia e eu, a 16 de Junho. Morreu a 22 do mês seguinte.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Causas próximas do desconcerto em que vivemos

[A cena que se segue, pouco anterior à entrada do nosso país no Euro, faz parte de um longo conto meu, distinguido em concurso no ano passado. Leiam-na como e se vos aprouver, mas sugiro que, como num jogo, estejam atentos a causas do nosso desconcerto actual.]
"Já o Pedro e a Soraia nos esperam na esplanada, cerveja e tremoços amenizam o final da tarde, indolente como o teleférico ao fundo, como o Tejo que mansamente, imperceptivelmente, segue o seu destino, como as gaivotas que planam sem esforço, esganiçando-se estridentemente, imitadas, na mesa do lado, por umas donas da província, gente que aproveita o comboio para vir passear à capital e comprar vestuário da moda para os rebentos — esses índios que brincam à apanhada por entre as mesas, aperaltados em roupa de marca, Zara e afins.
“Imperiais também para nós, faz favor!”
A minha mulher cumprimenta lisonjeira a Soraia: “Que elegância!”
“É um Valentino, e pavoneia o vestido. Colecção deste ano.”
“Caro?”
“Um pouco. Mas o que importa é o gosto que proporciona.” — responde ufano o Pedro. Pega nas mãos da companheira como se estivesse em baile e a convidasse para dançar, roda-a de pé, para que apreciemos mulher e vestido no seu esplendor. Reconheço: num corpo daqueles qualquer trapo resplandece; e o Pedro sorri orgulhoso da sua mulher — boa, bem vestida, tudo a preceito, tudo conforme a moda da estação.
O Rodrigo e a Leonor chegam e interrompem sorridentes a exibição, ele com assobio galante, ela batendo as palmas entusiasmada: “Lindo. E fica-te a matar!” E procura com o olhar os outros amigos: “A Soraia e o cujo?”
“Ah, não podem vir, ele tem uma reunião hoje à noite, conselho de turma ou lá o que é...”
“Coitados dos profs, trabalham tanto!”, troça a Leonor. E nem ouve a resposta, deslumbrada com a beleza do vestido da Soraia, que tão bem realça a elegância da proprietária. Também ela e o Rodrigo vestem caro, vivem ricamente, viajam frequentemente. É o boom bolsista, volfrâmio dos nossos dias na forma de fundos comunitários a entrar diariamente a rodos no país, que permite este esbanjamento, esta ostentação, escandalosa aos olhos dos nossos pais: férias frequentes em países de sonho, palmares e praias de águas quentes, mergulho por entre corais, raias e tubarões, festas onde há sempre personalidades do jet set, massagens relaxantes, vestuário de autor, telemóveis e óculos de sol a centenas de contos, gadgets, carros e jipes topo de gama — um povo obcecado em fazer desaparecer vestígios da miséria ancestral, em trocar os tamancos paternos por sapatos Prada, disfarçar o fedor ancestral a estrume com perfumes franceses, olvidar o caldo e a broa dos avós na degustação de pratos artísticos nos restaurantes mais badalados pelas revistas do jet-set e estrelados pelo guia Michelin...

“Vamos ao Brasil nas próximas férias”, conta o Rodrigo. “Para o Nordeste.” E alarga-se já por essas infinidades de dunas e praias de águas azuis, boa comida, aventuras de Jipe pelos pantanais das telenovelas.
Ouvia-os, divertia-me com as suas histórias, o exotismo e a excentricidade seduziam-me também — como à minha mulher, sempre a sonhar com águas quentes e cristalinas, areais a perder de vista, hotéis requintados, mas o nosso rendimento familiar, embora bem acima da média, nem sempre nos permitia acompanhá-los.
O Pedro admirava-se da minha relutância em jogar na bolsa: “Não sabes o que perdes.”
“Também tenho umas acções”, justificava-me.
“Não, ter umas acções”, e imitava o meu tom de voz, “é como fazer um depósito a prazo: seguro, sem dúvida, que mais facilmente cai a serra da Estrela do que irão à falência estes bancos que por aí brotam, BPN, BPI...”
“Criados por políticos…”, acrescenta a minha mulher, e ele continua como se não tivesse sido interrompido: “Com as acções, o importante é comprar e vender. Depressa, em vez de as guardar.”
E discutimos esta promiscuidade entre política, banca, negócios, que assegura a rápida prosperidade de alguns, mas me parece pouco ética. Nasci em família remediada, com princípios morais, trabalho e honestidade, o que explica os meus excessos de prudência, a relutância em jogar na bolsa: “Vender produtos seguros para comprar outros, de valor incerto, não me entusiasma. É absurdo os títulos de uma empresa caírem quando tem lucros e os de outras, que nunca os tiveram, valorizarem constantemente…”
Conversa de comunista. Se queria endireitar sozinho o Mundo em vez de dele fruir, criticava a Soraia, secretária bem paga de uma multinacional: “As acções sobem e descem ao ritmo da oferta e da procura. São as leis do mercado. E toda a gente joga na bolsa se tiver com quê.”
“E precisa? Os bancos estão desejosos de emprestar dinheiro a quem quiser arriscar. Ganham eles, que capital parado não rende, ganham os clientes com as mais-valias, ganham os gerentes, que assim podem atingir os objectivos fixados.”
Eu, como sempre acontece nestas discussões, vacilava. Não eram tanto as frequentes viagens de sonho, as roupas de marca, os gadgets topo de gama que me deslumbravam. Mas há tanta coisa que me seduz e está fora do meu alcance: um jipe para a mulher, que os adora e deixaria de depender de mim para os transportes, um apartamento maior e melhor, se possível com vista para o rio, umas obras em casa dos velhos... Ela, no regresso a casa, invariavelmente insistia comigo: “Tens de investir em acções.”
“Em quais?”
“Sei lá. São assuntos de gajos, como o futebol e a política. Pergunta aos teus amigos o que deves comprar.""

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Os segredos de Jacinta, Cristina Torrão

Cristina Torrão teve a amabilidade de me convidar para apresentar amanhã na Livraria Pó dos Livros, em Lisboa, o seu último romance, Os segredos de Jacinta. Aqui fica o convite. Em breve coloco aqui uma nota de leitura sobre esta obra apaixonante, que se lê, como eu a li, de um fôlego.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Podia ser uma parábola

Por vezes, raramente, o meu pai contava-me algumas das terríveis provações e privações dos seus primeiros tempos de emigração, no final da década de sessenta, a labutar nessa Holanda gelada, de língua incompreensível, costumes e alimentos estranhos, apinhado com dez companheiros no quarto, a forrar cada florim, cada cêntimo e a despachá-los para Portugal para sustento da família, pagamento de dívidas, os meus estudos, o começo de uma poupança.
Um dos colegas, lisboeta, queixava-se das cartas da mulher, sempre com exigências impossíveis, como se ele nadasse em dinheiro e, em vez de dezasseis horas diárias em dois empregos, passasse a vida na farra. Afinal, onde, como, é que ela gastava tão depressa o que lhe enviava -- praticamente tudo o que ganhava? E estranhava que os colegas não se queixassem de mal idêntico: -- Não sei o que é que ela faz ao dinheiro, aquilo é chapa recebida, chapa gasta!
Veio de férias. No regresso, desiludido, lamentava-se do desafecto, do desamor, do desprezo dos filhos, crianças de tenra idade, que o mimavam constantemente com insultos raivosos. Do dinheiro enviado à custa de tanta privação, de tanto trabalho, nada. Evaporara. Mais: evaporava tão depressa que nunca chegava até ao final do mês. E soube: quando acabava e mais não havia até à próxima remessa ainda distante, a mulher reunia os filhos esfomeados em frente à fotografia do marido e ensinava-os:
-- Ladrão! Gatuno! Tu aí a esturrar tudo com as putas e nós cá a passar fome! Chulo! 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Agradecimento

A Cristina Delgado, que publicou no blogue O tempo entre os meus livros o meu texto "Do vento e do barro" e uma foto da capa do romance Entre Cós e Alpedriz.
Muito obrigado!

domingo, 15 de junho de 2014

Primeiro dia de praia

Encontro a praia como gosto: envolta em nevoeiro, mar bravo, bandeira vermelha. Começo com passeio pela beira-mar, seguindo o conselho do meu amigo Maurício para o menisco: caminhar em
terreno mole. Está calor, apesar de não se ver o Sol. Quando me afasto o suficiente, ocultado pela neblina, começo o meu ritual: sorvo a maresia, sinto no trovejar da rebentação das ondas
desencontradas a potência do Atlântico, fosse eu dado a tretas eruditas e falaria do rugir de Posídon, o Sacudidor da Terra homérico, mas o que me interessa é puxar até mim a sua força, concentrá-la no meu centro, o hara em japonês, e a salvo de olhares indiscretos começo a minha oração, a minha tokui-gata, Hangetsu, kata respiratória, caracterizada por movimentos lentos e em força na primeira parte, explosivos na segunda. Com a tensão que crio na parte inferior do corpo os pés afundam na areia, óptimo, que eu seja por instantes um com o areal, com o mar, com o nevoeiro, com a maresia, que todos os meus sentidos participem na execução da kata, que o meu pensamento se esvazie, que os meus movimentos tenham a firmeza da terra, a força do mar.
Ah, tudo o que é bom acaba depressa, nem pensar em repetir, aproximam-se banhistas em corrida, levantou-se uma brisa que dispersa a cerração, e eu, feito pessoa normal, daquelas que têm os cinco alqueires bem medidos, pois eu caminho de regresso à toalha, onde o sossego é difícil por entre o bater constante de bolas dos desportistas de fim-de-semana.

sábado, 14 de junho de 2014

Entre Cós e Alpedriz

António Severino publicou no seu blogue Kontestu uma nota de leitura sobre o meu romance Entre Cós e Alpedriz.

Muito obrigado!

domingo, 8 de junho de 2014

Ciclo Preparatório

Certificado de conclusão do ciclo preparatório do ensino técnico profissional. Tinha 12 anos, terminei com belas notas, raras na época, a Língua Portuguesa e a Ciências, mas insuficientes para manter uma das bolsas de estudo, perdida, segundo anotação ao alto, logo no primeiro ano. Era preciso ter média de 14 e então os professores não davam notas para ajudar o aluno, como o 10 a Desenho evidencia...
Aliás, recordo-me, a média subiu e muito com o exame, em que dei espectáculo na prova oral, enchendo de orgulho o meu pai, que estava na assistência. Eu, de pé no estrado, cinco reis mal medidos de gente, respondi com segurança a tudo. A questão final foi algo como: "Quais são as marés que conhece?"
"Preia-mar e baixa-mar."

E o professor Eurico, por nós alcunhado Eurico Burrico, que tinha entrado com pauta para o júri assinar, quebrou a solenidade do exame e pôs a assistência:às gargalhadas ao responder-me:"Bai xamar pai a outro!"

terça-feira, 3 de junho de 2014

Quarta classe

Há momentos marcantes na nossa vida. Para as pessoas da minha geração, a conclusão da quarta classe é um deles, e marcava também o fim da infância. No meu caso, fui um privilegiado: com duas bolsas de estudo, uma que a professora primária arranjou, outra que o meu pai conseguiu, da Caixa de Previdência, pude ir estudar, o que implicou sair de madrugada, voltar ao cair do dia nas velhas camionetas de carreira, mais tarde hospedagem em Leiria, vindo a casa uma ou duas vezes por mês. Destino pior, muito pior tiveram os colegas cujos pais não tinham possibilidade de os "pôr a estudar", os rapazes a aprender ofício ou a agarrar a enxada de pontas, as raparigas a serem as criadas das casas maternas, até que, por casamento, tivessem o seu próprio lar.
Fomos com a professora na camioneta, eu, o Zé “Chaparrinha”, o Fernando “Balias” “Escabelado”, o Ildefonso “Mitadá”, o Zé “Cristo”, outros que por serem já ricos não tinham direito a alcunhas. Dias depois a professora ficou uma fera por lhe ter constado que um dos que andava na Admissão, espécie de explicações para preparar o exame de admissão às escolas técnicas e aos liceus, tinha errado um problema. Éramos apenas dois, eu e o meu primo Zé, e ele pagou as favas, com tareia de caixão à cova. Quando a professora soube que afinal eu é que tinha errado o problema, bom já tinha feito justiça, aliviado a fúria, e mais uma vez escapei incólume, graças à minha Sorte, que, reconheço, me tem acompanhado vida fora e espero me não abandone tão depressa.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A ditadura do verbo ser

Reduzem o conhecimento do Mundo, das pessoas, dos movimentos sociais à colagem de etiquetas. É de esquerda. É de direita. É fascista. É comunista. É um escritor regionalista. É literatura light. É casada. É divorciada. É uma besta. É parvo. É fumador. É do Benfica. Chega-se até a usar o rótulo -- já o ouvi -- É apaixonado.
E uma vez etiquetada a entidade, dispensa estudo aprofundado. A etiqueta revela tudo. Pelo menos o que importa saber aos etiquetadores. Por isso, quando algo de novo surge, na nossa paróquia, nessa Europa a que pertencemos mas, excepção à regra, não somos, é um afã, um frenesim, uma inquietação, até que se lhe cole a etiqueta tranquilizadora: É de extrema-direita! É de extrema-esquerda! É...!
Espantosa, omnipresente, a ditadura do verbo ser. E tão conservadora!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Falando de armas

Deixemo-los, então, matando saudades e apaziguando os corpos jovens, virá o tempo em que se não procurarão com este ardor, bom é que aproveitem agora enquanto as peles escaldam e ruborizam, talvez o que neste momento os une os mantenha colados pela vida fora, a ver vamos, como dizia o tal invisual, e aproveitemos para falar de tropa, armas, tiros, balas; eu sei, é assunto que não merece figurar em romance do nosso tempo, há muito extinto o serviço militar obrigatório, estigmatizadas as armas, estejam elas nas mãos de marginais ou das forças policiais... Se eu tivesse juízo, esquecê-las-ia e faria antes a descrição de um restaurante chique da época, como Os Corações Unidos, falaria do vestuário feminino, matéria sempre interessante, iria até ao Mosteiro de Alcobaça, onde o Marino tantas fotografias tem tirado... Poderia até valorizar a obra relatando como se deixa engatar pelas francesas, mulheres já emancipadas, ardentes e desejosas de conhecer macho latino, espécie que o progresso tem vindo a colocar em vias de extinção e elas próprias apenas apreciam em país estrangeiro, para breves momentos de prazer em curtas férias. 
Mas não: como Camilo, “sou avesso às descrições”. Voltemos, portanto, às famigeradas armas, causa de toda a violência, sabido que sem elas o Homem seria dócil cordeiro, devendo as almas mais sensíveis saltar os parágrafos do capítulo seguinte que tresandam a pólvora e podem ferir tímpanos sensíveis.
Um amor inventado, Leya Online

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Gilvaz (2)

Gilvaz é a história de um jovem jornalista e revolucionário enviado ao Minho a cobrir os motins que por lá eclodiam contra os enterros nos cemitérios. Eis mais um excerto, provavelmente o último que divulgarei nos próximos tempos:
"Especulam aquelas santas, nada de concreto sabendo — mas aproveitam a oportunidade de denegrir Ermelinda aos olhos do missionário, essa fingida que dá espectáculo na missa lhe para cair nas boas graças! Como se cada uma delas não tivesse também abandonado aldeia, família, marido as casadas, para acompanhar de terra em terra, de igreja em igreja, aquele missionário, um dos quinze que partiram de Leiria a evangelizar, persuadidos de que a que a melhor África era o nosso Portugal e os seus inocentes pretinhos, os quais, faltos de douta cabeça a orientá-los, se perdiam, levados pela conversa ímpia dos liberais, enquanto os padres, acomodados no conforto das respectivas paróquias, esqueciam o rebanho e apenas zelavam pela preservação dos seus prazeres lidibinosos e proveitos cúpidos — quando não eram, também eles, livres-pensadores descrentes da virtude das penitências, das benfeitorias dos jejuns, sem fé no fogo purificador do Inferno!
Irmãs — assim se tratam entre si, assim se lhes dirige o povo, como se fossem freiras nesta confraria ambulante, todas elas a dar testemunho dos milagres do missionário: à Maria do Rosário, há anos acamada, bastou o "Levanta-te e anda!" para se pôr de pé e o seguir, Maria de Jesus, que há muito sofria de terrível prisão de ventre, ouviu-lhe a pregação e em poucos dias ficou aliviada, Joana Bartolomeu, toda a vida gaga até que o santo lhe soltou o freio, deu em falar escorreita e é um gosto ouvi-la .alardear os milagres do varatojano, Maria Angelina, de quem muito se falará nesta história, maria-rapaz, bêbeda, brigona, amiga de espancar homens à unha ou à paulada, fez-se tenra ovelhinha, meiga, amorosa, tão contristada com o padecimento de Jesus na cruz que se deixou dos palavrões feios com que atroava tabernas e escandalizava homens e mulheres de bons costumes, e só se lhe ouvem sofridos gemidos "Ai, meu Jesus! Porque te fizeram tanto mal?", agora Ermelinda, possessa por espírito maligno sem ninguém o saber, nem ela própria, talvez apenas o marido, João Pereira, de tal desconfiasse, tão duramente ela o tratava — e o poder do missionário de ambos a libertou!

Maravilha-se o povo com os prodígios do santo, indigna-se com as críticas dos ímpios, que riem das prédicas e apoucam os milagres, como se também eles fossem capazes de fazer o mesmo — pôr a andar paraplégica, a falar muda, curar obstipação crónica, fazer largar bebida e maus costumes, expulsar espíritos imundos! Alguns hereges chegam ao extremo de duvidar do testemunho de pessoas sérias que juram ter visto com aqueles "dois que a terra há-de comer" o missionário parar o Sol enquanto decorria a pregação para que nenhuma mulher se fosse pressionada pelas urgências da lide doméstica, depois há ainda os jacobinos, de má fé, a denegrirem, a ofenderem frade e devotas, atrevendo-se a insinuar que a muda deixara de falar por se ter zangado com a família, que a da obstipação nunca comia couves e feijões, a entrevada era retorcida e preguiçosa e recusava sair da cama para castigar o marido, a possessa mulher mal fodida, doença de que, calúnia ignóbil, o frade a terá depressa curado... Enfim, quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça, embora milagre maior fosse certamente ouvir com os olhos ou ver pelos ouvidos."

terça-feira, 20 de maio de 2014

O homem das cicatrizes

"Minho, Abril de 1846

Repare-se naquela mulher, Ermelinda de seu nome, trigueira rechonchuda, meia idade, cabelo tosquiado, trajada de negro e de vermelho — uma das beatas que pelo Minho acompanham os missionários com devoção idêntica àquela com que os apóstolos seguiram a Cristo. Atente-se nela porque, muito em breve, e em plena missa, cairá por terra, uivará como lobo ferido, torcer-se-á com horríveis convulsões, obviamente possessa pelo Maligno, que pela boca de Ermelinda insultará o missionário:
— Bêbedo! Calão! Calaceiro!
O frade varatojano cora com as injúrias, mas é teso; nenhum demónio o assusta. Interrompe a cerimónia, desce do púlpito, com voz firme ordena: — Vade retro, Satanás! Em nome de Maria e de seu filho Jesus, eu te ordeno, porco imundo, sai do corpo de Ermelinda do Nascimento Canhestro!
De gatas, a mulher guincha imitando porco no chiqueiro, pela sua boca ronca o demónio que a possui, o missionário pega-a pelos braços, levanta-a, dá-se o primeiro milagre, a mulher deixa de se debater, o varatojano olha-a nos olhos, repete esconjuros em Latim, e finalmente, após roucas recusas, gemidos protestos, vãs súplicas para que o deixe ficar naquela morada, o demo sai do corpo de Ermelinda, que tomba inconsciente. Necessário foi, para além do esconjuro, que o frade tivesse dito por inteiro o nome da mulher, para que ao espírito imundo não restassem dúvidas de que era daquela morada, e não de outra, que o escorraçava, subentendendo-se, no entanto, que poderá voltar amanhã a tomar conta do seu corpo e espírito, para que o frade o expulse novamente. Assim o demónio vai ocupando a eternidade, e assim ajuda o missionário nas conversões. 
Ermelinda continua prostrada, inconsciente, como se com a saída do espírito demoníaco se tivesse ido também o seu, e o frade pega-lhe na face, esbofeteia-a, ordena-lhe que volte a este mundo pois não é ainda o tempo de o abandonar — admire-se, como faz o povo, o poder deste santo, que comanda a própria morte!
Jovem forasteiro, vindo talvez em busca de diversão, chama indiscretamente a atenção para o saiote atado, como se a possessa já soubesse que iria cair por terra, e o demo não quisesse estragar a solenidade do milagre com a exposição das partes íntimas, alvas coxas..."
(Romance inédito meu, em fase de conclusão. Mais seis meses, um ano talvez, e estará terminado.)

domingo, 18 de maio de 2014

Subsídios para a compreensão das causas de morte nos galináceos


Os meus galos, ao contrário das galinhas, raramente chegam a velhos. Intrigado com as discrepâncias entre sexos no que à longevidade respeita, procedi a exaustivo estudo estatístico, o qual me permitiu identificar as principais causas de morte dos machos. São elas:

1. Atacar o dono. Morte em uma a duas semanas.
2. Barulho excessivo, sobretudo durante a noite. Duas a três semanas de vida.
3. Violência doméstica excessiva, que é como quem diz brutidade para com as fêmeas. Menos de um mês de vida.
4. Fricassé, púcara, cabidela. Morte quase imediata.