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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Reflexões em torno da arte da escrita

Passei 36 anos a corrigir textos; mas era a minha profissão, pagavam-me para isso, eu tinha autoridade para corrigir, mesmo quando, sobretudo nos últimos anos, precisava frequentemente de provar a alunos e a pais e mães que tinha razão.
Este vício de emendar, de corrigir, de sugerir, entranhou-se-me nas veias. Frequentemente, ao ler textos próprios ou alheios, dou comigo a pensar que aquele texto melhorava se... ou que devia ser rasgado e rescrito. E não raro, num passado recente, tive a presunção e a arrogância de o dizer a autores orgulhosos, embevecidos com a obra produzida, só preparados para encómios e aplausos... Muitos foram os dissabores; passei a tomar algum juízo e já só leio e comento materiais inéditos de amigos que sei estarem receptivos a críticas.
Mas o vício de ensinar permanece vivo, mãos dadas com a tal arrogância que me leva a avaliar, a julgar, a classificar muito do que vou lendo. Por isso, ouso avançar com algumas sugestões, que bem tento seguir.

  • Um fotógrafo famoso -- mas podia ser qualquer outro artista -- respondeu assim a quem lhe perguntava porque é que demorava tanto tempo com uma simples fotografia que em exposição mereceria, no máximo, uns segundos de atenção: -- Para que as pessoas olhem para ela uns segundos.
  • Trabalho em busca da forma perfeita não implica produção de textos rebuscados, barrocos, gongóricos.
  • Estilo simples não é estilo simplório.
  • Uma coisa é o real, outra o verosímil. O primeiro é material de jornalistas, o segundo de escritores.
  • Um texto não deve apresentar erros de ortografia, de semântica ou de sintaxe; mas isso não o torna num bom texto. É preciso que tenha mais qualquer coisa. O quê?
  • Considero a história fundamental em romances e contos. Bem contada, sem erros de pormenor. Sem história, são livros, alguns muito bons. Mas a história não chega.
  • O essencial: que, como ensina o padre Vieira, as coisas sejam introduzidas com caso, queda e cadência. Com caso, porque devem ser relevantes naquele fragmento e naquela obra; com queda, devendo surgir não apenas com naturalidade, mas com inevitabilidade; com cadência, porque o ritmo é fundamental na escrita, isto se quisermos evitar textos chatos.
(Continua)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Lavoira

Hoje. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A RTP e os procurados pela justiça

Indigna-me que a RTP -- que eu pago na factura da electricidade -- dê voz e protagonismo a procurado pela justiça por morte de homem. Da GNR, abatido cobardemente. E isto antes do julgamento.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Os meus Fiéis Defuntos

Lembro-me vagamente de três bisavós. Nem sequer sei os respectivos nomes. A minha família conhecida começa com os meus avós: Francisca Ferreira e José Alves Catarino (o Avô Sargento) pelo lado paterno; Maria da Luz Trindade (a Avó da Luz) e José Cipriano, pelo lado da minha mãe.
Seguem-se meu pai, Afonso da Silva Catarino, e minha mãe, Maria Isabel Trindade Cipriano.
Todos eles são apenas nomes, fotos, memórias. E saudade.




segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dia de Finados*

Deixava-se candeia de azeite ou candeeiro a petróleo aceso toda a noite, a torcida baixa, para que os nossos mortos, de volta ao lar, o não encontrassem às escuras, ou para que a luz débil os impedisse de nos assustar com a sua presença, só visível no escuro, suponho.

Acabaram candeias e candeeiros a petróleo, as velhas habitações foram abandonadas, hoje muda-se de casa como de camisa – onde podem os defuntos visitar os entes queridos, na única noite do ano em que tal lhes é permitido? 

(*2 de Novembro)

Halloween

Acabam de me tocar a campainha: dois vultos negros, a dizer Travessuras ou gostosuras. Não percebo. Repetem.
-- Não sou dessa religião, voltem amanhã, que é o Dia de Todos os Santos!
(Este meu feitio de velho ranzinza!)

Um par de botas


Aí por 1970, pobre mulher, de preto do lenço aos pés metidos em tamancos largueirões, entrou em sapataria da vila, a comprar calçado para o filho. 
A cada prova, pede outro par: -- Maiorzinho, que o pé está a crescer!
Tanto se repete a cena que às tantas o vendedor, exasperado, lhe sugere:
-- Minha senhora, porque é que lhe não compra umas botas 44, guarda-as debaixo da cama, que assim o moço ainda tem calçado quando for para a tropa?

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Montes, 1964

Sobre o pó das estradas, ou a lama, ou poças de água, mulheres e crianças andavam descalças. Eu levava sapatos para a escola, mas logo à saída me descalçava. O calçado, feito por medida no sapateiro da terra, era pesado, rígido dos protectores de ferro e cardas, e era desconfortável.
Era a liberdade nos pés, era a ligeireza, sempre fundamental para fugir de rapazola que me quisesse puxar as orelhas por lhe ter gritado a alcunha, ou de grupo que me quisesse “contar as velhas” – parvoíce muito em uso que consistia em agarrar rapazinho, deitá-lo ao chão, baixar-lhe calças e ceroulas, expor as suas misérias ao escárnio de raparigas de passagem, e sepultar a pobre gaita debaixo de bom punhado de terra.
Os pés descalços estavam expostos às agressões dos caminhos: topadas em pedras que rebentavam a cabeça dos dedos, espinhos, pregos, vidros que os laceravam… E o tratamento era terrível, autêntica tortura, aplicada por mãe desesperada, que outro remédio não conhecia, a criança que berrava e fugia: escaldar a ferida. Isso mesmo: meter o pé em água fervente, ou pingar azeite a ferver sobre o buraco infectado do espinho que acabava de ser extraído.
Sou desse tempo. Quase sempre às portas da morte: lombrigas, infecções, gripes constantes, sarampo, tosse convulsa, que me fazia ver luzes na escuridão do quarto quando tossia os pulmões, diarreias de caixão à cova, icterícia… Mas nunca tive piolhos, nem tinha, e só vi percevejos na asseada Lisboa.
Fui tratado, quase sempre, com a “medicina popular”. Dolorosa, fedorenta, ineficaz. Conheci demasiado bem o “mercúrio”, a tintura de iodo, a tintura de mostarda, o bálsamo, a aguardente com açúcar queimada e abafada, os escaldões, a enxúndia, as rezas. E depois, viva o progresso, vieram as sulfamidas, o Vick Vaporub, os rebuçados do Dr. Bayard, a aspirina… Mas esses são outros tempos, de transição para a nossa modernidade – em que, paradoxalmente, abundam os saudosos desse Portugal imundo, subnutrido, rude, malcriado e, o que mais me espanta, da “medicina popular”. A esses, deixo as palavras de um dos grandes mestres da escrita:
“Oo geeraçom que depois veo, poboo bem aventuirado, que nom soube parte de tamtos malles, nem foi quinhoeiro de taaes padecimentos!” (Fernão Lopes, Crónica d’el-rei D. Joham I)
FOTO do velho Kodak do meu pai: o meu irmão em bebé, eu mais atrás, a minha mãe, descalça; provavelmente 1964)

sábado, 22 de outubro de 2016

À espera do Inverno

Sexta-feira, 20 de Outubro, abri regos de drenagem.

sábado, 15 de outubro de 2016

Taxistas, Uber e o Admirável Mundo Novo

Agora que a guerra dos taxistas conhece uma trégua e os ânimos não parecem estar tão exaltados, atrevo-me a chamar a atenção para o cerne do problema.
A ameaça maior que pesa sobre os taxistas não é a que provém da Uber e afins, embora seja a mais imediata, porque, antes de mais, lhes desvaloriza os alvarás, a partir do momento em que deixam de ser indispensáveis para o exercício da actividade profissional, e não suporta idênticos custos comerciais, nem em pessoal, nem em impostos, licenças, etc.
A maior ameaça, e não é ficção científica, pendente sobre taxistas e TODOS os condutores profissionais de transportes rodoviários, públicos e privados, chega sob a forma de veículos sem condutor, em fase avançada de testes nos EUA e na Alemanha, por exemplo.
Se os particulares podem não querer, ou não poder, comprar um carro sem condutor, já os gestores das empresas de transportes de toda a natureza devem estar a esfregar as mãos de contentes com esta solução, previsivelmente mais segura, porque isenta do erro humano, e incomparavelmente mais barata.  E não duvido de que as grandes empresas do sector do táxi sejam das primeiras a aderir, dispensando os condutores que agora levam para a rua em protestos exaltados.
É a vida. Foi assim nos primórdios da Revolução Industrial, quando os operários em greve destruíam as máquinas que os enviavam para o desemprego, foi assim que profissões inteiras, algumas até medianamente prestigiadas, desapareceram. Por força do progresso tecnológico. Dactilógrafas, estenógrafas, relojoeiros…
Neste Admirável Mundo Novo, em que até as mulheres-a-dias se vêem ameaçadas por robots já acessíveis, que não se sentam a ver televisão no sofá na ausência das patroas, nem têm horário de trabalho nem salário, haverá cada vez menos trabalho, especializado e não especializado. Até que o ser humano, cada vez mais remetido ao papel exclusivo de consumidor e fruidor, seja, ele mesmo, dispensável.
A cada dia que passa, esse momento fica mais próximo. E os taxistas julgam poder adiá-lo, ou evitá-lo, dando uns pontapés nos carros da concorrência, por enquanto ainda com condutor…


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Literatura chata

Muito me podem gabar certos autores. O que para mim conta é se passam ou não no teste da leitura inicial -- das primeiras linhas, de um ou de outro parágrafo lá para o meio, escolhido aleatoriamente.
A esmagadora maioria, de autores nacionais e estrangeiros, reprova. 
Porque lhes falta interesse, e parecem estar a encher morcelas, e vai gordura, e vai sangue, e vão cominhos em excesso, na forma de adjectivos empregues na ilusão de assim escreverem "poético". 
Porque a escrita não tem ritmo, não tem cadência. Porque não desenvolve, e lemos, lemos, e, como no velho lugar comum, nem o pai almoça nem a gente morre -- ou o seu contrário. Porque o seu gosto é diferente do meu -- por exemplo, um famoso autor americano começa com um "não as podes f. todas!" e eu ponho-o de lado, ainda na livraria, por achar a escrita vulgar, e não se pense que é pelo emprego do palavrão, magistralmente utilizado, por exemplo, por Gil Vicente. Outros livros, porque são chatos, andem neles à procura de carneiros selvagens ou leve o protagonista a amante para hotel e três capítulos depois ainda não tenham chegado a vias de facto -- neste caso, tinha decidido ler o romance, custasse o que custasse, mas acabei por dar parte de fraco.
Lembram-se de Boleano, esse génio da literatura? Bem tentei ler O Terceiro Reich. Acho que até consegui chegar à página 4. Bem menos do que nos Versículos Satânicos, no Ulisses, em que cheguei quase à centena antes de desistir.
Há dois anos, numa férias, emprestaram-me livro de autor português da nova vaga, de quem até já tinha lido um romance aceitável. Logo às primeiras páginas, uma adolescente, no momento de perder a virgindade, imagina que as partes do homem se desintegram e sobem por ela... Como é possível escrever tamanho disparate e a editora deixá-lo passar? Ou agora as moças, nesse momento marcante da sua sexualidade, entretém-se a imaginar cenas que nem nos desenhos animados se vêem?
Outro, pelos excertos divulgados no Facebook, põe uma personagem, também adolescente, a exigir que a amada os imagine velhinhos. Lindo, não? Só que os adolescentes, como aquele que fui, como os que conheci, como os que conheço, nunca serão velhos, pelo que tal proposta é simplesmente absurda...
E assim perdem um leitor, o que nenhuma diferença lhes fará. Contanto que os seus livros se vendam para prendas de natal e de aniversário, contanto que alguém os vá citando com veneração. 
-- Não gostas? Problema teu, não faltam admiradoras.
-- Criticas? É só inveja.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Eucaliptos, imaginação e disparates

No conto O Largo, de Manuel da Fonseca, o bêbedo local estraga a história que conta com um mero pormenor -- no Rossio, em Lisboa, atinge o carteirista com um soco e este, ao cair, bate com a cabeça num eucalipto...
Assim é a arte da escrita. Basta um detalhe para arruinar uma bela história, e não há frases, por mais trabalhadas, que a possam salvar. Porque a imaginação não torna aceitável a ignorância, e um disparate, por mais ornamentado que esteja, não deixa de ser um disparate, a não ser que o leitor se aperceba de que o escritor está a gozar com ele.
Exemplifico: no seu Voyage dans la Lune, do séc. XVII, Cyrano de Bergerac põe o seu narrador a dizer que, como toda a gente sabe, a Lua atrai as gorduras... Mark Twain, num conto, faz uma descrição em que um esófago contempla meditativamente o pôr-do-sol...
Bem diferente é a frase que  li no Facebook, dias atrás, atribuída a Clarice Lispector, segundo a qual a vida tinha começado com duas moléculas. Falta-lhe a piada dos exemplos de Cyrano e Twain, e é disparate tão gritante que me surpreendi por a frase não ter sido prontamente  dissecada e desmentida, fosse à luz do conhecimento actual, fosse do que estava acessível no tempo da autora.
Leitores, abram esses olhos e não prescindam do espírito crítico, não se deixem enrolar por palavreados, perguntem sempre, como o Calisto Elói, de Camilo, o que é que tal significa em vernáculo; escritores, se fazem questão de afirmar assertivamente (desculpem o pleonasmo) o que não sabem, e julgam ter tanta certeza no cag... que não erram o chão, dispensando-se de modalizar, ao menos coloquem as asserções na boca das vossas personagens. porque, podem ter a certeza, basta um pormenorzinho para arruinar o trabalho do dia, de semanas ou meses até.
 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nunca o invejoso medrou...

A alegria  que aqui manifestei por um conto meu ter sido distinguido com Menção Honrosa no Prémio Literário Irene Lisboa parece ter azedado o humor de leitor que, a coberto do anonimato, me censura e dá conselho (ou ordem?):
"Caramba, você comporta-se com uma menção honrosa em Arruda dos Vinhos como se tivesse recebido o Nobel. Tenha juízo. "
Pois é, caro anónimo: cada qual usa o seu blogue para o que bem entende; o meu serve, entre outras coisas, para aqui partilhar as minhas alegrias, coisas insignificantes como distinções literárias, produção de batatas, uma lavoura, desenhos dos netos... Suponho que as suas, a existirem, só ocorrerão quando o seu clube de futebol ganha ou quando consegue estragar o dia a alguém... Adiante.
Manda a boa educação que, se quiser entrar em morada alheia, se identifique como pessoa de bem, dê a saudação, ao entrar limpe os pés, e já agora, a boca, aceite e agradeça o pão e o vinho que o dono da casa lhe oferece. Ou, não querendo, vá bater a outra porta, ou, mais adequadamente, deixe-se ficar na sua casa, a remoer amargamente como vai receber o Nobel, enquanto lhe falham outras distinções, mas atenção: ponha-se na bicha, que à sua frente já está, assumidamente, o Arquitecto Saraiva!
E também não quero juízo, como esse que manifesta no comentário. Sempre assino por baixo do que escrevo e não perco o meu tempo a tentar azedar a alegria alheia.
Vá comentando: é que, por vezes, faltam-me ideias para posts...

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Apreciação de Tino, o Perneta

Diz a escritora e ilustradora Beatriz Lamas Oliveira:
"Acabei agora de ler o conto integral que o José Cipriano Catarino me enviou por correio eletrónico! Gostei muitíssimo. Escrita impecável, isso já o autor nos habituou. Ritmo, vivacidade, graça, elegância, ironia, algum deleitoso sarcasmo, uma visão, diria eu, andrógina, dos factos comezinhos da vida doméstica, que oscila entre a ternura, a armadilha da luxúria e a graça conventual! Deliciei-me a ler_eu não sou muito de doces, mas a leitura deste conto fez-me lembrar lembrar o encanto das horas de vésperas no pátio interior de uma ermida com despensa bem fornecida!"

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Menção Honrosa

Amigos, alegrem-se comigo: acabo de saber que um conto meu foi distinguido com Menção Honrosa no Prémio Literário Irene Lisboa, de Arruda dos Vinhos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Ni Dieu ni Maître

1846. No Minho, em plena revolução da Maria da Fonte -- e na cama com ela.
"Não lhe tinha mentido, não era maçon, pedreiro-livre como ela dizia, embora em tempos tivesse frequentado algumas das lojas que brotavam pela capital como as nascentes no Inverno. Não chegou a ser iniciado, desagradado com o ambiente rasca, nos antípodas da elevação espiritual que sempre associara à Grande Fraternidade, enojado com as intrigas, as disputas de cargos e lugares políticos, o compadrio, a alegre aceitação da corrupção por parte daqueles mangas-de-alpaca que não viam contradição entre os ideais maçónicos de justiça e o suborno que quotidianamente recebiam, inclusive de ambas as partes, nas litigâncias. Passada a novidade, começou a aborrecer os rituais, vendo-os como missa profana, o padre substituído pelo mestre, o bispo pelo grão-mestre, o Grande Arquitecto em vez de Deus, estátuas de santos devotos, imagens beatas, relíquias sagradas trocadas por objectos de uma profissão que não era a sua — martelos, compassos —, aventais ricamente decorados em vez de sotainas, mas sempre, tal como no seio do clero, a intriga, a luta pelo poder, a convicção de que aqueles que estão de fora são bestas ignorantes que importa manipular mas não redimir. E, sem romper por completo, começou a espaçar a participação, incapaz de aceitar como chefes espirituais homens de vícios e de baixezas como os padres, como eles a pregar uma coisa e a fazer o seu contrário. 
A perda da fé, primeiro no Deus bíblico, que apesar dos castigos com que flagelou a humanidade não conseguiu impedir que o Mal infectasse a Terra, depois no Seu Filho, o Salvador vindo ao Mundo para redimir o Homem e dar esperança ao Pobre, e o Homem, dezanove séculos depois laborava nos mesmos erros e mistificações e o Pobre cada vez estava mais pobre, por fim nos belos ideais maçónicos, convenceu-o paulatinamente de que teria de ser ele mesmo, Adolfo, a assumir a responsabilidade de libertar a humanidade das trevas da ignorância em que a queriam manter todos os outros, fossem eles cristãos, maçons, miguelistas, cartistas, setembristas até. Como se cada loja maçónica, cada partido, mais não fosse do que mera carruagem tomada para conduzir à Câmara dos Deputados, à governação. Sem confiar nos outros e nas organizações que criavam e logo atafulhavam de ritos embrutecedores, de rituais de submissão para obviar disputas de poleiro, julgava-se o homem providencial, aquele que chegada a ocasião não recuará e não hesitará em adoptar os meios necessários, em ser o Danton, o Robespierre do nosso tempo! Aquele que, como leu num panfleto francês, não receia recorrer à faca, à bomba, ao veneno, para despertar o povo para a revolução. Ni Dieu Ni Maître! — proclamava o opúsculo. Assim pensava, assim se sentia, livre, disponível para a revolução, à espera de oportunidade, que julgou surgir quando a sorte o bafejou com a reportagem da sublevação do Minho."
JCC, inédito

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O argueiro e a trave

É espantosa a capacidade que muitas pessoas têm para orientar a vida dos outros. Sobretudo quando não aparentam aplicar a si mesmas essa capacidade e assim vêemr o argueiro no olho alheio mas não ver a trave no próprio, como dizia Jesus.
"Se viesses a pé só te fazia bem!" 
E eu não me dou à maçada de explicar que não, nem me fazia bem, nem tenho falta de actividade física: no estado em que tenho os joelhos, acabaria a coxear, com dores lancinantes; mas já hoje fiz uma hora de ginásio...
"Tiras os óculos para ler? Devias ir ao oftalmologista para te mudar a graduação !"
E falta-me a paciência para explicar, mais uma vez, que tenho queratocone, o problema não se resolve com mudança de lentes, nem com cirurgia...
Porque não adianta. Explicamos, as pessoas não nos ouvem, ou se ouvem, ouvem apenas uma parte, distraídas, percebem mal, esquecem depressa. E depois, sabem tudo, o que faz bem e o que faz mal. 
Aos outros.

domingo, 4 de setembro de 2016

As Tripas de Deus

“Hablo en las tripas de Dios
Y vos hablaisme en los gatos!”
(O Castelhano, Auto da Índia, Gil Vicente)
Ontem, por mero acaso, a que não foi alheio o calor que me fechou em casa, vi no canal Discovery “Criou Deus o Universo?”, com base em livro do físico S. Hawking.
Ao longo do programa, o físico deixa claro que não pretende mudar crenças e convicções, mas, à luz do conhecimento científico, e é este o busílis, Deus não é necessário para a criação do nosso Universo. Para tal, e como a energia total do Universo tem de ser zero – vejam o programa para compreenderem a explicação, aliás perfeitamente intuitiva – são suficientes, para que um universo surja do Nada, três ingredientes: Matéria, Energia, Espaço.
Matéria e Energia, sabemo-lo desde Einstein, são a mesma coisa; Espaço -- e aqui as minhas orelhas arrebitaram, curioso para conhecer a definição de Hawkings – pois fiquei na mesma, limitou-se a dizer que é abundante no Universo. Mas nem outra coisa seria de esperar, que o universo não existe fora do Espaço. Do Espaço-Tempo, como sabemos desde Einstein.
Não duvido de que um universo possa surgir espontaneamente do Nada, como argumenta Lawrence Krauss no seu extraordinário livro A Universe from Nothing (Amazon), mas parece-me que esta visão estritamente materialista tem uma insuficiência insuperável. Para que um universo surja e se estruture como aquele em que vivemos é preciso Informação (ver, por exemplo, também da Amazon, God, Soul, New Physics, de Trevelyan).
Explico-me sumariamente: se uma única das forças que regem o Universo (força forte, força fraca, electromagnética e gravidade) tivesse um valor infinitesimalmente diferente, o nosso Universo não existiria, e nós não estaríamos cá a colocar questões sobre Deus e o Universo. Em termos mais vulgares, não basta juntar ingredientes para cozinhar. É preciso seguir uma receita – as leis da Física.
Ficamos, portanto, como na história do ovo e da galinha. Sem Informação não há universo materialista, mesmo que todos os restantes ingredientes necessários à sua criação estejam presentes. Como surgiu essa informação estruturadora? Porquê?
Se a esses Princípios Criadores chamar Deus, ou leis da Física, pouco interessa; as palavras surgiram muito provavelmente quando ainda andávamos de tanga pelas savanas africanas, cruidas pela necessidade de descrever um mundo – e não um universo – que se não estenderia muito para além do horizonte, quando cada força da Natureza, cada catástrofe, era obra de um deus e os milagres eram corriqueiros. As palavras que temos, as línguas naturais que as integram, não são certamente adequadas para descrever a estranheza do Universo e das suas leis e a nossa lógica de primatas não consegue conceber nem os seus mistérios (que é a matéria negra? A energia negra? Que é o Espaço-Tempo?...) nem os da sua criação.

Por enquanto. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Os três gostos

Aí pelos anos 90 pululavam pelas ruas de Lisboa os vendedores de time-sharing. Emboscados nas esquinas, escolhiam as vítimas com o olhar predador do carteirista e atacavam-na com requintes de psicologia dignos de mestre do conto do vigário, a vender, não a torre de Belém ou a ponte sobre o Tejo, mas férias paradisíacas em locais de sonho. 
Um deles cortou-me passagem no passadiço que puseram no Chiado após o incêndio. Fiz gesto com a mão esquerda, a recusar conversa. E ele: -- São só três perguntinhas..., em tom de voz que insinuava que eu seria malcriado em recusar, como se responder a desconhecido importuno fosse o mesmo que negar copo de água a viandante sedento.
Com o olhar, fiz-lhe sinal para que se despachasse.
-- Gosta de andar de avião?
-- Não.
Gosta de viajar?
-- Não.
Gosta de férias?
-- Não.
E deixei-o pasmado, em visível conflito interior entre os seus dois neurónios: o saloio era mesmo parvo ou estava a fazer-se?

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A Caixa Geral de Depósitos e eu

A minha relação com a Caixa Geral de Depósitos remonta, pelo menos, às minhas primeiras colocações como professor. Era, então, obrigado a receber o vencimento pela Caixa. Depois, surgiu a possibilidade de receber o ordenado noutro banco, mas não vi razões para mudar. Nesses bancos  clientes pouco abonados, como eu, eram tratados com sobranceria, mesmo quando queriam abrir depósito; se precisavam de empréstimo, sofriam vexames hoje inacreditáveis. Passei por isso.
E fui ficando cliente da Caixa. Nada percebo de finanças, mas ultimamente preocupam-me as notícias. Antes de mais, por a Caixa ser notícia. Depois, por ser invariavelmente má notícia. Buraco astronómico -- como é possível, ó Vara, ó génios colocados na administração pelos aparelhos partidários? -- e agora a proposta de uma equipa de gestão  numerosa, que não faltam boys a precisar de jobs, e, pior, declaradamente, atestadamente, incompetente:
"O BCE impõe que três futuros gestores executivos da CGD que não tinham ainda experiência em gestão bancária de topo - João Tudela Martins, Paulo Rodrigues da Silva e Pedro Leitão - frequentem o curso de Gestão Bancária Estratégica do Insead. Segundo a brochura desta escola de gestão, a propina deste curso é de 12 600 euros por aluno, o que significa que a CGD vai pagar à cabeça perto de 38 mil euros para inscrever estes três gestores no Insead.

Mas a despesa deverá ser superior Como explica a escola sediada em Fontainebleau, a “propina não inclui viagens, acomodação e outras eventualidades”.Tendo em conta os atuais preços de quartos em hotéis de cinco estrelas em Fontainebleau e as viagens da TAP para Paris em classe executiva, os gastos com viagens e acomodações poderão ascender a cerca de 10 mil euros. E há ainda outros custos, como a alimentação. Além disso, um dos gestores, João Tudela Martins, terá de frequentar outro curso específico de Gestão de Risco na Banca, que custa 8,6 mil euros - mais viagens, alojamento e alimentação. Contas feitas, a CGD terá de gastar perto de 60 mil euros para o “regresso à escola” de três gestores." (Da notícia do Sapo/Sol)