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terça-feira, 15 de março de 2016

Leiria, 1968

A cidade cabia toda no olhar se a observássemos de um dos pontos mais altos, como o Castelo ou a Senhora da Encarnação. Ia-se a pé a todo o lado, esquivando nas ruas antigas os carros impacientes, de buzina fácil, novos senhores da cidade frequentemente envolvidos em toques e choques. Logo acorriam mirones das lojas e cafés, formava-se ajuntamento, todos conhecedores do código da estrada, estalavam discussões gritadas, por vezs violentas,
-- Este senhor é que tinha prioridade porque vinha da direita!
-- Qual prioridade, qual quê, o senhor não parou porque não quis, já eu tinha passado o eixo da via quando me bateu!
-- Quem bate por trás é sempre culpado, sentenciava camponês que viera feirar ao mercado.
-- Oiça lá,  sem matarruano, o que é que você percebe de leis?
Rolam já embrulhados pela calçada, ora o citadino por cima, ora o campónio -- e quando um logra montar a cavalo o outro, chega-lhe uns sopapos pouco convencidos.
-- Ninguém os aparta?, pergunta mulher, com vontade de estragar o divertimento da turba.
-- Ora, não se matam. e quem se mete de permeio apanha também.
É o que acaba de acontecer, homenzarrão fiado talvez na corpulência tenta separá-los, ei-lo que rebola também, camisa rasgada na bulha com o citadino, enquanto o campónio, livre do ataque, mete a fralda nas calças, apanha do chão a boina, incentiva o grandalhão, feliz com a desforra por interposto paladino.
Apita a polícia, separam-se os brigões, ninguém quer questões com a autoridade, não há vencedor nem vencido, ambos se ameaçam ainda, fingem querer atirar-se um ao outro, confiantes em que os braços que os seguram os não largarão e a polícia não permitirá mais desacatos. 
E é junto dos agentes que condutores acidentados e testemunhas argumentam, a um mais exaltado acalma-o aviso ameaçador -- Veja lá se quer ir à esquadra!, fita métrica na mão os polícias medem a rua, a distância às rodas, em bloco de notas esboçam croquis do sinistro, apitam novamente, ordem para dispersar, e as pessoas, obedientes, reentram nas lojas e cafés, onde prosseguirão as discussões acaloradas, mas agora pacíficas.
Outras vezes é a sirene da ambulância a soar imperiosa, exigindo passagem no caos do trânsito, ainda sem sinais nem rotundas, sobre tamborete no cruzamento sinaleiro impaciente de luvas brancas manda encostar, dar passagem, desimpedir o caminho, e o meu colega Ramalho corre à frente dos demais garotos até ao hospital, a uns centos de metros, a certificar-se de que o sinistrado não não é o pai, vendedor da Carbo Sidral sempre na estrada e amigo de carregar no acelerador.
Nas tardes amenas, após saída da escola e lanche, desço ao centro, detenho-me na contemplação das montras, dos cartazes do cinema, depois sento-me por instantes no jardim, alheado, em sonhos permanentes, saudoso da família, solitário na cidade, antes de passar pelo quiosque onde compramos e vendemos livros usados, Mandrake, Major Alvega, "cobóis" da colecção Seis Balas, Os Cinco e os Sete, policiais -- banda desenhada e literatura de cordel. Por vezes,  sentam-se homens no mesmo banco, tentam meter conversa, pedem lume ou oferecem cigarros. Sem sucesso, não fumava, não tinha fósforos, e conversas só comigo mesmo. Paneleiros, saberia mais tarde, mas naquele tempo, com a ingenuidade aldeã dos treze anos, paneleiro era apenas insulto, como ranhoso de merda, cabrão, filha da puta. Perturbado pelas interrupções,  levantava-me, prosseguia as deambulações. Peripatético, diria de mim se então conhecesse a palavra. Andar e pensar, andar e sonhar, como os heróis dos meus romances, a caminharem na ponte dos navios de trás para diante, de diante para trás, enquanto davam caça a piratas ou congeminavam planos de batalha, ou nas calmarias pensavam nas amadas distantes, imaginando-as fiéis, a prepararem o enxoval para casamento quando eles forem promovidos por bravura.
Interrompia o devaneio ao passar junto do stand da Ford, a admirar embasbacado o sonho reluzente de todos os rapazes da cidade, um Ford Capri, modelo desportivo, que me fitava com a soberba expressa nos seus grandes faróis.  Mas, novidade, acima deles há uma placa: VENDIDO. A quem, interrogava-me atónito, quem podia dispor assim de cento e vinte contos? O dono de uma fábrica de plásticos, como aquela onde eu seria operário anos depois -- outra história, já aqui contada. 
Era, aprendia,  o poder indecente do dinheiro, a roubar tudo o que nos encantava, tal como os jogadores de futebol do União nos levavam, logo do portão da escola, as beldades que amávamos platonicamente, e a nós, pobres admiradores mal vestidos, magoados com o olhar de desdém que elas nos deitavam ao entrarem para os carros último modelo dos futebolistas, só restava desabafo amargo: Putas! 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Ainda a guerra com o MEO

Lá para meados do mês, posso ficar incomunicável durante uns dias -- sem telefone, telemóvel, internet, etc.
Isto porque, cumprindo com a minha palavra, como sempre procuro fazer, cancelei agora TODOS os serviços do MEO. 
Como se lembrarão, a guerra começou por  alguém do MEO falsificar documento imputando-me um contrato de banda larga móvel a que nunca aderi e a empresa, abusando da minha confiança, ter retirado dinheiro aproveitando autorização para débito directo concedida unicamente para o serviço M4O;  com o cancelamento, o conflito aproxima-se agora do fim, embora ainda me esperem muitas irritações e dissabores, que o mais difícil de esfolar é o rabo.
Só posso lamentar que uma empresa da dimensão do MEO se tenha recusado a apurar em processo interno o sucedido, identificando e agindo contra o autor da vigarice, optando por perder irremediável e definitivamente cliente que já vinha dos tempos em que apenas havia telefone fixo.

terça-feira, 1 de março de 2016

Os meus ajudantes

Na horta, conto com a preciosa ajuda de muitos auxiliares, como este, em plena caçada matinal, aproveitando a terra mexida.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Lição de vida

Esta andorinha, impedida de trabalhar pela forte chuvada que cai, aproveita-a para tomar banho de chuveiro.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A pensar nas batatas

A lavrar, ontem, aproveitando um dia bonito deste Fevereiro tão incerto. Pode ter sido trabalho deitado a perder pela chuva de hoje e pela que está prevista para os próximos dias. Pode S. Pedro, o manda-chuva, obrigar-me a plantar as batatas noutra courela. Assim é a agricultura: jogo de azar. Fica o prazer de uma tarde bem passada, a fazer o que gosto, sozinho, longe de aborrecimentos

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Teoria da conspiração

Irrita-me passar um serão a validar facturas: quase duzentas minhas, outras tantas da minha mulher. Se eu não tenho dificuldade em etiquetar despesas de oficina, restaurante, cabeleireira, esteticista,  porque é que os funcionários das Finanças, pagos para fazer esse trabalho, o não conseguem?
Dizem-me que algumas empresas têm vários CAE ou diferentes actividades para um mesmo CAE. Admito que sim. Mas não cabe antes de mais às finanças e a essas empresas resolverem esse problema, em vez de obrigarem o cidadão contribuinte a ser simultaneamente contabilista? E aqueles milhões de pagantes que usam com dificuldade o computador? Sobrecarregam familiares, amigos, ou vêem-se obrigados a pagar a quem lho faca para as Finanças, que nos levam couro e cabelo nos impostos, folgarem?
E o meu amigo, que escutava estes desabafos:
-- Ah, eu não valido as facturas!
Olho-o intrigado. Isto não está para desperdícios, ninguém quer pagar ainda mais de imposto.
-- Tenho um empregado das Finanças que mas valida.
Ah, então é isso! Não se faz o trabalho para receber por fora!

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sempre a aprender

Conta-se que o primeiro podador foi um burro: roeu uma videira, a qual produziu mais e melhor, pelo que o dono passou a imitar o asno, cortando também as outras.
É assim que tenho podado. Com pena por não fazer melhor, sempre a deitar olhares invejosos para as árvores podadas por quem sabe. E agora, que surgiu a oportunidade, inscrevi-me e estou a frequentar curso de podador.
Para não continuar a podar "à la burro".
Hoje era dia de trabalho de campo, tesoura na mão, pois o formador, engenheiro agrícola com doutoramento na área da fruticultura, entende que é nos pomares, a contas com as árvores, que se aprende. Mas a chuva obrigou a mudança de planos...
Eis-me em casa, outras podas, limpando textos de galhos, ramos secos, ladrões, esporões doentes, lenhos podres, atarracando verdascas, porque, como na poda das árvores, corta-se para produzir fruta e não madeira.
FOTOS: (1) Ilustração do pintor João Alfaro para a capa do meu Entre Cós e Alpedriz, que acabou por não ser utilizada; (2) na poda de pessegueiros, antes da formação.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Ah, rapazes do meu tempo!

Às vezes, normalmente em funeral de familiar na aldeia, encontro colega da escola primária, daqueles que não vejo há mais de meio século. E não o reconheço. Por exemplo, o Fernando, que me conta que abandonou a escola na segunda classe, e foi trabalhar para forno de tijolo, como as crianças de Esteiros. Acrescenta com orgulho legítimo: ele, que a pobreza deixou semi-analfabeto, conseguiu dar destino diferente aos filhos: o rapaz, que me apresenta, é engenheiro e já está empregado, a filha termina Economia. 
Recordo outros colegas, uns mortos, outros desaparecidos na diáspora montense, que nos levou, a quase todos, a abandonar a aldeia natal. Sugiro um almoço para nos encontrarmos. A ideia não o entusiasma. 
Porque na minha aldeia todos andam mal com todos. Não se falam. Ódios ancestrais, conflitos de há décadas, mexericos, intrigas, questões de vizinhança. Diferenças de classe herdadas de outro mundo, em que aldeia estava dividida em "ricos", os que tinham muitas terras e empregavam servos, e "pobres", com umas leiras de seu, mas sempre dependentes dos primeiros. 
Emigração, acesso aos estudos generalizado, 25 de Abril, mudaram a aldeia, mas não as mentalidades.
Nem mesmo no funeral, nem mesmo no cemitério, quando a terra que o coveiro lança sobre o caixão devia fazer recordar a efemeridade da vida e sentir o ridículo das questiúnculas que nos dividem, se decidem a esquecer rancores velhos, para voltarmos, por minutos que sejam, àquele tempo em que éramos apenas nome próprio e alcunha de família, o Zé Chaparrinha, o Fernando Galfarro, o Zé Balias, o Zé Codicas, o Armindo Escabelado, e tantos outros, e corríamos descalços por vinhas nos jogos de "coque", tomávamos banho em pelota no açude, roubávamos fruta nos pomares, disputávamos ninhos, jogávamos à pedrada...
Éramos então poucos, somos hoje menos. Muito menos. Como mais ninguém o faz, vou eu organizar o encontro, correndo o risco de almoçar ou jantar sozinho -- porque este não vai se for aquele, ou nesse dia não pode, ou não tem interesse nenhum na companhia dos outros.
Agradeço contactos e sugestões.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Um amor inventado (excerto)

[A meados dos anos sessenta do século passado, dois jovens, entusiasmados com as proezas do grande ciclista Alves Barbosa, montam nas bicicletas e partem da aldeia para darem, eles mesmos, a volta a Portugal. Na descida da Serra da Estrela, em Manteigas, um deles descobre o amor inventado...]

"Em cima, o sobrado parara de ranger e o silêncio profundo envolve novamente a pensão; em baixo, o Jorge esforça-se por se manter acordado para dizer das boas ao João quando voltar. Mas o João não pode descer, novamente preso entre as pernas da criada, que como tenazes o retêm dentro de si, ensinando-lhe que amar requer tempo e vagar; ternamente, a Berta olha-o das profundezas dos seus olhos verdes, diz-lhe meiguices como ele nunca ouviu e certamente jamais ouviria se não saísse da aldeia natal e a encontrasse tão longe, na Pensão Estrela, nos contrafortes da serra do mesmo nome, e arrulha, arrulha, mergulhando pelos olhos dele dentro à procura da alma, talvez para confirmar se se ajusta tão bem à sua como a boca dele ao seu mamilo esquerdo; a barba do companheiro pica-a e inocentemente diz que quando se casarem será melhor ele barbear-se à noite; esquece que o rapaz está completamente saciado, tão depressa não precisará de mulher e, quanto a casamento, Deus o livre enquanto puder — e quando casar não será com uma sopeira, mesmo tendo-se deitado uma noite com ela, ele, que ela terá passado sabe-se lá quantas, vá-se lá saber com quem! As pernas que o retêm, impedindo de sair de dentro dela o que restava dele, empurram-no furiosamente, a mão direita explode na cara do João com o som seco de um tiro de pistola, e é fera assanhada que grita, baixinho, para não provocar escândalo, apontando a porta — que desapareça dali. A surpresa da agressão, a violência da bofetada, dessa primeira vez em que ela lhe bateu, a indignação da moça, levam-no a não querer ser expulso como cão que entra na igreja apenas porque a porta está aberta. É ele que tenta emendar a asneira, é ela que tapa a cara com as mãos e o repele de si com os cotovelos, nua como nasceu, e tão brava está que nem o ouve, fala, fala: bem a enganou, julgou-o diferente dos outros, mas é apenas mais um porco que depois de se espojar volta para o seu masseiro e o seu curral; se já tem o que queria, ou mais do que isso até, porque não desaparece, dali, da vida dela?
Desorientado, exausto e sonolento, o João não sabe o que quer, mas sabe que não pode deixar a moça naquele estado e não acha justo depois de tudo o que ela lhe deu portar-se de forma tão ingrata, como peixe astuto que comeu a isca e escarnece do anzol. A Berta chora inconsolavelmente, enrolada no divã, os joelhos encostados ao queixo, uma das mãos cobrindo os olhos, ou para o não ver, ou para esconder dele a sua nudez, sabido que é assim que as mulheres reagem por pudor, diferentemente dos homens, que, se surpreendidos nus, se obstinam em ocultar com as mãos o que lhes pende entre as pernas; cauteloso como aranha que se aproxima da fêmea, receoso daqueles cotovelos, perigosos e cegos, batem por instinto naquilo que lhes toca, aproxima-se e diz: — Gosto de ti!, a única frase bonita e sincera que lhe ocorre naquele momento de desorientação. Não foi grande coisa, mas a Berta já sabe que não é dado à retórica; virou para ele os olhos verdes e, por entre lágrimas de desilusão e de raiva, surpreendeu-se: — O quê? 
Timidamente, o João repetiu o que antes dissera. Então ela deitou-lhe ao pescoço os braços que antes o repeliam, encharcou-o nas lágrimas que não cessavam de correr, e sem deixar que os olhos dele fugissem dos seus, repetiu-lhe, através deles, que nunca mais, mas nunca mais, lhe dissesse aquelas coisas feias; não o queria contrariado um instante que fosse junto de si; solteiro ou casado, podia deixá-la quando quisesse se não gostasse mais dela; mas sem ordinarices, entendia?
Estranha o rapaz que as lágrimas femininas aticem aquela parte do corpo que já esmorecera, suplicando por repouso... Quem diria que têm esse efeito, ao tombarem sobre os homens?"
Um amor inventado, JCC

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

43 anos de namoro

Quando começámos a namorar, a 3 de Fevereiro de 1973, o mundo era outro. Mas mudava depressa. Os americanos, com todo o seu poderio, tinham sofrido derrota humilhante no Vietname. Cá, a ditadura herdada por Marcelo Caetano agonizava. O "orgulhosamente sós" salazarista era por todo o lado interpretado como "vergonhosamente sós", tão mal acompanhado que Portugal estava: só Israel, sionista, e a África do Sul do aparteid nos apoiavam nas votações das Nações Unidas. A guerra colonial estava no auge, e nem a censura conseguia evitar que os jornais antecipassem a derrota iminente: lembro-me de título de primeira página do Diário de Notícias reproduzindo declarações do ministro da defesa, general Costa Gomes,  proferidas em visita a Moçambique: "A situação é grave, mas não desesperada".

Era tão desesperada que o general a não negava. E, se dúvidas houvesse, bastava ver as longas listas de mortos, sobretudo furriéis e alferes milicianos, que o mesmo jornal publicava diariamente e eu recortava para afixar no bar do Instituto Comercial onde estudava. Pouco. Já então a actividade revolucionária me absorvia de tal forma que o meu tempo era gasto a escrever e distribuir panfletos, de dia nas escolas e universidades, de noite nos "meus" bairros populares (Madragoa e Alvalade), a fazer "selos" (como chamávamos às tiras autocolantes com slogans revolucionários impressos com carimbo) e a colá-los por todo o lado, nas paragens de autocarro, nas vitrinas dos bancos, nas árvores de jardim, a pintar paredes, reuniões clandestinas, actividades de recrutamento, manifestações diárias...
Perdido de sono, de que sempre sofri e sofro, incapaz por natureza de noitadas, faltava frequentemente às primeiras aulas. Sempre alerta para não ser seguido ou preso pela PIDE, ia irregularmente às outras, sentava-me junto à janela, pronto a saltar e fugir se me tentassem prender lá. Nas aulas, escrevia constantemente, mas não eram apontamentos de aluno atento, antes panfletos estereotipados, para imprimir e distribuir mais tarde.
A minha vida era então a Revolução. Ou quase. Porque havia também a paixão inconfessada pela colega da foto, tirada antes de namorarmos. Sem coragem de me declarar, a medo de a perder.
Amigos. Colegas de estudo, inseparáveis nas aulas, nos intervalos, uma noite por outra noite no Big Ben, café de estudantes próximo da Faculdade de Ciências, onde o fumo era de cortar à faca e eu lhe tentava explicar os mistérios da matemática, a resolução de equações de segundo grau, o enigma dos números imaginários,

-- Se são imaginários não existem!
-- Mas repara, qual é o número que elevado ao quadrado dá -4?
-- Menos dois!
-- Mas não pode ser, bem sabes que o quadrado de um número negativo é sempre um número positivo!
E ela protestava contra a tirania dos axiomas, a irracionalidade dos números irracionais, a incompreensibilidade dos números imaginários! Coisa mais absurda, a Matemática! Não se podia ficar apenas pelos números naturais, afinal aqueles que importam a futura contabilista?

Pois na noite de 3 de Fevereiro, dia do seu aniversário, começámos a namorar. E, quarenta e três anos depois, ainda não parámos. 
FOTOS: (1) Junto a Económicas, em cuja cantina almoçávamos frequentemente; (2) a estudar, salvo erro na estufa fria, aí por 1972. Somos o par da direita.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Um amor inventado

A escritora e ilustradora Beatriz Lamas de Oliveira deixou esta nota de leitura no Facebook:
"Um amor inventado, de José Cipriano Catarino.

págª 132: " ..ocorreu à Berta, como raio que iluminasse a escuridão da noite, que o pai não era mau por causa do vinho, antes se embebedava para impunemente poder exercer a maldade".
Berta, a protagonista, é dura e inflexível como as penedias onde foi criada.
Amores, a mim, que sou a leitora deste livro, todos me parecem inventados. São desejos, ânsias, quereres que procuram uma realidade. É talvez como se a vida fosse uma pulsão, entre duas forças antagónicas. O bem e o mal. O bem todos o compreendem e aceitam. O mal quase todos o preferem ignorar e para ele buscam desculpas. Mas quem nunca enfrentou o mal, inventa, não o amor, mas a vida. E as mulheres, a quem demove o choro do homem ou as desculpas do vinho, estiolam em jardins onde nunca chove. Mas amam, por vezes, perdidamente.
Aconselho a leitura do livro!"

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Entre Cós e Alpedriz

A escritora e ilustradora Beatriz Lamas Oliveira deixou no Facebook esta nota de leitura:
"Entre Cós e Alpedriz"_é o livro que estou a ler.Vou na página 139. Autor José Cipriano Catarino.
Neste livro, que devia ser lido por todos os que têm problemas de memória, conta-se com realismo e vivacidade a história de Joaquina Guiomar Afonso. Através da história singular desta mulher, vão surgindo factos históricos que marcam duramente a vida dos camponeses em Portugal no seculo XX. A primeira guerra mundial, a pneumónica, as fomes dos anos ruins, as secas e dilúvios que sempre infernizam a vida daqueles sobre quem o marmeleiro cai. Homens e mulheres vivem dentro do livro, sinto-os vivos como se os tivesse conhecido, sinto-me triste pelas suas dores e pelas cruzes que carregam. É a história colectivo do Povo, aquele que tem as costas largas e anda sempre na boca dos "outros".
Aconselho a leitura. Avivar a memória é como afiar a navalha.
Beatriz Lamas, in Facebook

MUITO OBRIGADO!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Morte pelada

Passavam os anos, mais aquela mulher se queixava. Dores insuportáveis, sofrimentos sem fim, graves doenças.
Mulher doente, mulher para sempre.
"Ah, se ao menos a Morte me levasse!"
Mas a Morte gosta de escolher as vítimas. Deixava-a ficar. A penar. A lamentar-se. 
Um dia, o pobre marido, já sem paciência para tanta lamúria, combina com o criado: "Matas e depenas o peru, à noite bates à porta, respondes que és a morte e vens buscá-la."
E para a mulher: "Consta que a Morte anda pelas redondezas..."
"Virá à minha procura?", pergunta apavorada.
"Não é o que queres?"
"Sim, mas como a conheço?"
"Ora, a Morte é como alma depenada..."
Ceiam à luz da candeia. Batem à porta. "Quem é?", sussurra a mulher assustada.
"Sou a  Morte!", geme à porta o criado.
"Que queres, Morte danada?"
"Venho por alguém que chamou por mim..."
"Esconde-te na cama, diz para o marido, deixa-me conversar com essa malvada. Que me leve, a mim, que cá já não faço nada!"
Abre-se a porta. O criado atira-lhe o peru aos pés.
"Ó Morte depenada
Não me leves a mim
Leva o que está escondido debaixo da almofada!"
(Popular, contado à minha maneira"

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Tempo da poda

Com este bom tempo, digam-me lá se há melhor sítio para estar que no meu Casal, a podar os pessegueiros?
Duvidam? Perguntem ao TeX.




sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Oito máximas importantes do Karaté

Os antigos mestres viam o karaté como uma forma de estar na vida, contribuindo para o aperfeiçoamento do indivíduo e da sociedade. Um exemplo está na máxima que todos os praticantes conhecem, mas poucos respeitam, segundo a qual o essencial não está na vitória ou na derrota, mas no aperfeiçoamento do carácter. Máxima que sempre me faz sorrir ironicamente... Talvez por ter ouvido a mestre: "Se a prática do combate aperfeiçoasse o carácter, os pugilistas deveriam ser santos".
Pois hoje, com este tempo chuvoso que me priva do meu treino individual, deu-me para traduzir um excerto de Karaté-Do Kyohan, de Gichin Funakoshi, obra que considero a Bíblia da Arte da Mão Vazia, antes chamada Arte da Mão da China, ou, simplesmente, Mão (Té).
"Oito máximas importantes do karaté:

  1. O espírito está em harmonia com os céus e a terra.
  2. O ritmo do corpo é o do Sol e da Lua.
  3. A Lei tem em conta simultaneamente a dureza e a doçura.
  4. É preciso agir de acordo com o tempo e as mudanças.
  5. É preciso aplicar as técnicas quando se encontra a abertura.
  6. O 'Ma' necessita do recuo e do avanço, do encontro e da separação.
  7. Os olhos não devem perder a mínima mudança.
  8. As orelhas ouvem intensamente em todas as direcções."
Gichin Funakoshi, Karaté-Do Kyohan, p.248, tradução francesa de Tsutomu Ohshima, 1979.

 (Numeradas por mim para facilitar leitura e apreciação.)
1.Procuremos a harmonia, busca transversal às artes marciais japonesas, como, por exemplo, o Aikido, em vez de nos desgastarmos em guerras constantes pela afirmação pessoal rebaixando os outros, atitude típica da infância e da adolescência, mas imprópria do adulto.
2. O ritmo do corpo deve obedecer ao ying (Lua) e ao yang (Sol). Como convencer jovens karatekas de que o treino yang é bom, mas não basta, há que o enriquecer com a vertente ying?
3. A Lei não deve ser vista como o conjunto das regras de arbitragem, ou do dojo, ou do código civil, nem sequer como os Direitos Humanos, mas como algo que rege o Universo, que remete para (2). Doçura, suavidade, estão ausentes da prática até mesmo no estilo de karaté que foi buscar o nome a esta máxima: o Go ju-Ryu, à letra a escola da força e da suavidade, ou no Ju do, hoje nos antípodas do ramo de salgueiro. Dúvidas? Vejam uma arte suave, como o Tai Chi, mesmo na sua vertente mais dura, como no estilo Chen.
4. Nem podia ser de outra forma num mundo composto de mudança, nas palavras de Camões. Apenas insisto no tempo, que fará inevitavelmente de cada jovem karateka um velho. E que o deveria pensar se deve treinar destruindo o seu corpo e não raro o de outros, seguindo a mentalidade de mestres formados na Segunda Guerra Mundial, cujo ideal de vida era morrer gloriosamente aos vinte anos. Não morreram, mas transmitiram a Arte como se cada um de nós fosse um samuraizinho sem sabre. Felizmente sobreviveu nos livros o testemunho dos mestres anteriores a esse período negro da História e do Japão.
5. Não desperdiçar energia em técnicas inúteis, para espectador ver. Um golpe, uma vida, defendiam os antigos mestres, mesmo sabendo que dificilmente um único golpe é letal. E não esquecer outro ensinamento do mestre: se um objecto apresenta uma cavidade de dois centímetros cúbicos, então dois centímetros cúbicos de água são suficientes para o encher. Que é como quem diz: procurar e não desperdiçar as aberturas do inimigo, evitar ter pontos fracos.
6. Qualquer karateka com prática do kumité tem suficiente experiência da importância do recuo e do avanço no Ma, que costumamos traduzir de forma redutora como distância; pode não estar suficiente sensibilizado para a necessidade de encontro e separação, sobretudo se fizer muita competição.
7. e 8.: a atenção ao que nos rodeia é fundamental para não sermos apanhados desprevenidos pela vida. Para isso, é preciso que as ilusões não distorçam a realidade. Ou, como diz o mestre em poema seu, "Em todas as coisas, o Homem deve manter o espírito claro".
Nota final: seria um erro crasso restringir estas oito máximas à prática do karaté. Como o mestre escreveu na página 7, "A vida através do karaté-do é a própria vida, tanto pública como privada".

FOTO extraída da obra citada: o mestre exercitando-se no makiwara


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A luta continua


Lembram-se da minha guerra com o MEO, motivada por um serviço de banda larga que não subscrevi? Sim, esse, de que me não facultam o contrato verbal ou telefónico -- pois se ele não existe! -- e a "prova" da entrega do equipamento é um documento com assinatura falsa, de alguém que desconheço?
Já apresentei queixa na PSP, acabo de apresentar outra na ANACOM, amanhã será na DECO... 
Vou até ao Papa, se for preciso. Por enquanto, só estou a exigir o cancelamento do contrato a que sou alheio, a devolução das verbas indevidamente retiradas da minha conta aproveitando débito directo para o M4O, entretanto cancelado, e um pedido formal, por escrito, de desculpas.
Por enquanto.
Mas a fúria que me dá esta vigarice, juntamente com o tempo perdido a tentar resolvê-la, agravada pelas respostas arrogantes e burocráticas do MEO podem, a qualquer momento, fazer-me querer ser ressarcido de incómodo, deslocações à loja MEO, tardes aí perdidas, serões como este estragados a reclamar daquilo que aparenta ser um caso de fraude, roubo de identidade, falsificação de assinatura, utilização abusiva da autorização de débito directo.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Bricolage

O que me falta em habilidade sobra-me em vontade. Assim, meti mãos à obra, desmanchei resguardo velho de polibã por se ter quebrado um dos vidros, e montei este, comprado no Aki. Não ficou nada mal. Levou três serões, que os dias são reservados para outras actividades.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Agradecimento

É duro, confesso, continuar a escrever romances na quase certeza de que nenhum editor se interessará pela respectiva publicação. Mas não é surpreendente, tendo em conta que os editores de ficção nacional se contam pelos dedos de uma mão (e sobrarão dedos) e enfrentam eles mesmos dura luta pela sobrevivência, a qual os aconselha a não arriscar em autores sem peso mediático -- e, menos ainda, no dizer do meu amigo António L. Pacheco, em plantadores de couves, de bigodinho. O que, aliás, já me tinha sido dito por um editor contactado depois do sucesso do Eu, Carolina, obra autobiográfica que se vendeu como sabonetes: "O que é que V/ quer, se não dorme com o Pinto da Costa, nem trabalhou numa casa de alterne?")
Note-se que me não me têm faltado propostas de publicação de editoras -- pagando. O que continuo a recusar, indiferente aos eufemismos que envolvem as propostas. A pagar, prefiro fazer edições de autor, que me ficam muito mais baratas, não cedo direitos, os livros são meus, faço com eles o que bem entender. E pouco me afectam os comentários escarninhos dos críticos da edição de autor, que partem da ideia implícita -- e errónea -- de que, se as obras auto-publicadas tivessem mérito, não faltariam editores interessados, esquecendo, por exemplo, Camões, Fernando Pessoa, cada um com apenas um livro publicado em vida, esquecendo aqueles que só foram publicados postumamente, ou os que recorreram sistematicamente à edição de autor, como, por exemplo, Miguel Torga...
Envergonhar-me-ia a auto-publicação se me dissessem que o aspecto gráfico dos livros é mau, que encontraram erros de ortografia ou de sintaxe, incoerências nas histórias, que as narrativas não prestavam, etc.
Porém, os numerosos leitores que ao longo dos anos me têm feito chegar o seu feedback, não raro por escrito, têm sido pródigos em encómios. Haverá, presumo, outros tantos que nada disseram, ou porque não gostaram, ou porque não leram; mas não é meu desiderato agradar a todos. E muito me apraz sentir o respeito dos pares, na certeza de que, oficiais do mesmo ofício, conhecem bem os truques, sabem onde procurar os pontos fracos como costumam fazer nas suas obras antes de as darem à luz pública, faltar-lhes-á como a mim a paciência para amadorismos.
Por isso me encho de orgulho -- tão legítimo como o do operário que terminou a contento tarefa penosa e exigente -- ao ler a recensão que Cristina Torrão, escritora radicada na Alemanha, teve a amabilidade de escrever no seu blogue e no Facebook sobre o meu romance Um amor inventado, e que pode ser encontrada AQUI.
Muito obrigado, Cristina, muito obrigado João Madeira, muito obrigado António Pacheco! Muito obrigado a todos aqueles que ao longo dos anos me têm feito chegar as suas opiniões, persuadindo-me de que vale a pena continuar a escrever! 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O 35

Era casinha modesta da CP, em bairro ferroviário, divisões minúsculas, quintalzinho dividido por curto passeio de cimento até à capoeira e barracas, pequeno alpendre encostado à casa, sob o qual, aos domingos, almoçávamos em mesa tosca de madeira, resguardados do Sol no Verão, aconchegados por ele no Inverno, quando penetrava baixo, pouco acima dos muros caiados.
Era exigência da minha sogra ter a família reunida para o almoço dominical, a que não seria alheia a consciência das necessidades que todos nós passávamos -- raro era o mês em que não precisávamos de lhe pedir pequeno empréstimo, coisa de uns centos de escudos, pago logo que recebíamos o ordenado.
O meu sogro, rijo assentador, alto, seco, de força invulgar, rabugento por natureza, conformava-se com a vontade da mulher, sacrificava-se pelas filhas -- mas os genros? Franzinos, fracotes, sem apetência para a enxada de bicos, nem jeito algum para granjeios de hortelão -- um desgosto que o deve ter perseguido até ao final da vida, aos 85 anos. Ah, como deve ter lamentado que nenhuma das filhas lhe tivesse dado genro à maneira, um desses homenzarrões de força, capazes de assentar travessas na via sob estiagens e invernias, disposto a acamaradar com ele ao despegar do emprego para uns copos na taberna do Pescador, famoso pelo peixe frito, antes de ir amanhar até à noite a horta emprestada!
Nós três, com o apetite dos vinte e poucos anos, fazíamos orelhas moucas a remoques, deliciados com a comida da nossa sogra, cozinheira exímia: caldo verde ou sopa de feijão, frango assado, ou coelho frito ou guisado com ervilhas, feijoada, empadão... Quase tudo da casa, quase tudo cozinhado no fogão a lenha alimentado com madeira de velhas travessas do caminho de ferro, rachadas pelo meu sogro com a bita do serviço.
E tanto como a boa comida, apreciava eu o convívio alegre, por vezes povoado por pequenas quezílias, que nunca deram azo a animosidades sérias e duradouras como as da minha aldeia, onde frequentemente as famílias, pais e filhos até, se não falavam, zangados em disputa por palmo de terra nas partilhas, ou por águas, ou por direitos de serventia, quase sempre por mesquinhez, invejas, má língua.

A família cresceu e multiplicou-se. A velhice roubou à minha sogra as forças necessárias para preparar os almoços de domingo, que começavam na véspera, a matar e amanhar os galos ou os coelhos, a acender alta madrugada o fogão de ferro -- e é possível que a algazarra de tanta gente junta a incomodasse já, ou os protestos do meu sogro, excelente homem, mas sempre rude e áspero, a tivessem finalmente descorçoado.
Há muito tinham deixado o 35, desde então ao abandono. Dele ficaram-nos as memórias, dele fica-nos a tristeza ao vê-lo desabitado, ao abandono, degradado – nem CP o voltou a alugar, nem ferroviário algum aceitaria nos dias de hoje viver em casinha tão modesta, tão pequena, tão sem comodidades. E ficam as saudades desse espaço e desse tempo em que, fazendo minhas as palavras da minha sobrinha, autora da foto, “eu fui tão feliz.”,

FOTOS: (1) entrada, foto da Catarina; (3) pombo observa atento a minha mulher a arranjar alface; (2) neste almoço, lombo assado, seguramente bem melhor do que aquele que servem a Jerónimo de Sousa nas campanhas eleitorais.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os grelos e eu

-- Come-me esses grelos, ladrão! 
-- Não gosto!
-- Até tos meto pelos olhos dentro!
Fui criado com mimos, de comida, de linguagem. À ceia, a que hoje chamamos jantar, os malditos grelos, em abundância, pouca batata, prontamente comida, meio ovo cozido,
-- A metade dele é maior 'ca' minha!
-- Cortei o ovo a meio, não tenho régua na faca!
-- Pois, mas a mim dá-me sempre a metade mais pequena!
-- Cala-te, lambona! São iguais, mas se fosse maior, que mal tinha? Ele é homem!
-- E o que é que isso tem? 
Não dava já para comparar metades, que a minha tinha desaparecido com as poucas batatas, no prato ainda cheio restavam, verdoengos, agoniativos, amargos como fel, os grelos com os seus talos, paus chamava-lhes eu, que se enrolavam na boca e não atravessavam a garganta. Dia bom, as galinhas tinham posto dois ovos, coisa rara no Inverno, um para o meu pai, quando vier cear, o outro para nós. Para a minha mãe, que parte e reparte, mas como mãe fica com a pior parte, os grelos mal azeitados, azedos como ela, exasperada com as nossas brigas, sobretudo com a minha recusa em engolir o pitéu, que mais nada tinha para me dar.
Por isso volta a gritar, que coma os grelos ou mos enfia pelos olhos adentro, pelas goelas abaixo, quem manda, diz, é ela, aí vão eles à força, empurrados com bofetadas, arrepelões, safanões, passam o estreito, Ah, mas nasci torcido, hei-de terá última palavra, e vomito-os triunfalmente,
-- Malandro, não comes, vás prá cama com fome! E vou, orgulhoso, triunfante.
Traumas de infância. Este tão grave que hoje não troco simples grelos cozidos por qualquer comida gourmet da moda. E sempre, enquanto me delicio com os grelos azedos, recordo  com remorsos o que fiz sofrer a minha pobre mãe, recusando comê-los naqueles tempos de penúria. 
Cá se fazem, cá se pagam.