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segunda-feira, 13 de março de 2017

Um panfleto

Em 1973, o tipo que no ano anterior me tinha recrutado para CLAC (Comité de Luta Anticolonial) foi preso pela Pide e falou, denunciando um rol de gente das estruturas dirigentes do MRPP e organizações satélites. 
Embora o meu nome não surgisse nos autos, ou pela minha insignificância, ou para ficar como isca para captura de peixe mais graúdo, seguindo as orientações transmitidas pelo meu controleiro, deixei o Instituto Comercial, fui secretamente viver para Leiria, que conhecia dos meus tempos do Curso Comercial, com o projecto de trabalhar como vidreiro na Marinha Grande para me ligar, e ao Movimento, ao meio operário da região.
Mas nas fábricas de vidro, já em crise, apenas admitiam filhos de trabalhadores, que entravam finda a escola primária como aprendizes, não 'velhos' de dezanove anos, e acabei por trabalhar em Leiria, primeiro servente de pedreiro, depois operário de plásticos e viver na Marinha Grande, dependente dos raros autocarros da rodoviária para as deslocações diárias, até que ganhei para uma bicicleta usada — e por pouco não morri, uma noite atirado para a berma por carro desembestado, noutra, de escuridão profunda, em choque com bicicleta sem luz... Outras histórias, para outra ocasião.
Quando saía do turno à meia-noite, tinha de aguardar pelo autocarro das oito, oito horas de espera, mal preenchidas com agitação nocturna na cidade adormecida, e pouco tempo depois lá voltava eu ao café de umas bombas de gasolina, o único que estava aberto durante toda a noite, e por lá ficava a um canto, uma bica, um rissol, a ocupar o tempo a escrever. Panfletos como este, redigidos nas costas de ficha de controle da minha produção, que depois haveria talvez de bater à máquina, imprimir na maquineta, esse copiador artesanal, e pela calada na noite deixar debaixo de automóveis estacionados, uma pedrinha em cima, para que só fossem descobertos muito depois de eu por lá ter passado. Ou poemas – textos empolgados, abundantemente adjectivados, recheados de metáforas e imagens, que há muito destrui.
Sobreviveu estranhamente, miraculosamente, este rascunho, exemplo da propaganda que então se fazia — quem a fazia! — contra a guerra colonial e o regime fascista. Demagógico, recheado de lugares comuns, com erros de ortografia, foi um produto das circunstâncias que vivi. 

sábado, 11 de março de 2017

11 de Março de 1975

11 de Março de 1975
(Reposição)

No dia 11 de Março de 1975, tinha eu vinte anos e tinha sido incorporado no exército em Janeiro desse ano. Fazia a minha recruta no Regimento de Infantaria de Leiria (RI7) como instruendo e ia começar a minha semana de campo. 
Na véspera, fomos informados dos planos: ao alvorecer, chegariam helicópteros, embarcaríamos e seríamos lançados numa pista de técnica de combate, em condições muito próximas do combate real nas colónias. Formámos na parada, equipamento completo (farda nº 3, arreios, cantil, carregadores vazios, G3, etc.) e ficámos horas a olhar para o céu, à espera da chegada dos hélis, um pouco assustados, que a guerra nunca é uma brincadeira, mesmo em treinos. 
A meio da manhã, sem esclarecimentos, mandaram-nos marchar e atravessámos a cidade ao toque de tambores, algo vaidosos, o trânsito interrompido à nossa passagem, quatro companhias, rumo aos Marrazes. Ainda de longe, ouvíamos já o estrondo grave do rebentamento das granadas, o matraquear das metralhadoras, os tiros constantes das espingardas G3, até o som amaricado de uma ou outra pistola-metralhadora Vigneron. 
As ordens chegavam já berradas, Tá a formar em bicha pirilau! Corram! E nós corríamos, sem saber para onde, atrás do camarada da frente, por entre o chinfrim infernal e o cheiro da pólvora. Então o da frente estaca, detenho-me também, passa camarada enlouquecido, sem que o furriel ranger que o perseguia o conseguisse deter, coxa a jorrar sangue às golfadas: tinham-lha furado com bala real. Gritam-nos para continuar, perco o medo, se já lixaram um vão ter mais cuidado com os outros. E corria por cima de troncos sobre riacho enlameado ainda com muita corrente, rastejava por debaixo do arame farpado enquanto assobiavam balas (o tiro estava regulado em altura, não devíamos levantar a cabeça, por isso a afundava na lama, já nem ligava aos tiros, era certamente munição de salva, nem às granadas de treino, azuis, que lançavam de todos os lados, inofensivas como bombas de São João, e liberto do arame farpado corria pelo leito do riacho, sempre por entre a berraria de oficiais e furriéis, ouço um gritar O pequenino é o melhor, então surge-me pela frente um tenente e lança uma granada ofensiva bem para cima de mim. Mergulho no lodaçal, estoira a granada, só quem já assistiu sabe do poder do estrondo, da violência do sopro, de resto são inofensivas, levanto-me prontamente para continuar a correr por ali abaixo, mas o braço direito, sempre segurando a G3, estava imobilizado. O tenente puxa-o, parece voltar ao sítio, continuo, só mais tarde soube que tinha uma lesão para o resto da vida. 
E subitamente tudo acaba para mim, camaradas do meu pelotão recebem-me risonhos, estamos felizes, sobrevivemos, não fugimos, não chorámos, abençoados palavrões, por isso nunca os desperdiço. 
Correm boatos: há guerra em Lisboa!  A disciplina prevalece, obedecemos às ordens, formar, marchar, começar novas e extenuantes provas, sempre debaixo de berros, tiros, explosões. À noite, para dormir, manta reles, um pano de tenda, com quatro faz-se um bivaque, o frio e a humidade são terríveis, os camaradas de "quarto" vão para uma fogueira, eu, doido com sono, morto de cansaço, durmo ali, sobre água que corre pelo chão, enregelado, a custo me despertam para o meu turno de sentinela, nevoeiro de cortar à faca, que guardo eu ali, no pinhal, sem uma única bala no carregador?
À alvorada, formamos e regressamos ao quartel, a semana de campo durou um dia, não tocam bélicos os tambores, marchamos como vencidos, envergonhados, para não atrair a atenção do povo. No quartel, contam-nos factos e boatos, ninguém sabe bem o que se passa, parece que os pára-quedistas atacaram o Ralis nos nossos helicópteros, há mortos e feridos, e olhamos constantemente para o céu, receosos de que desçam sobre nós, discutimos se os tentamos abater no ar ou os deixamos poisar primeiro, os corpos tremem, é frio, é medo. 
Grita fora o povo, somos fascistas e não o sabíamos, mandam-nos para a carreira de tiro interior fazer fogo com as HK21, na esperança ingénua de que o matraquear das metralhadoras afugente a multidão. À noite, mais boatos: os americanos preparam-se para desembarcar nas nossas praias, é a contra-revolução fascista do Spínola que aí vem. E um furriel, apavorado, pede-nos aguardente, vai sair com uma companhia de prontos para defender a Praia da Vieira de ataque iminente dos marines. 
Na manhã seguinte, 13 de Março, andamos em pequenos grupos pela parada, nenhum oficial aparece, os furriéis sabem tanto como nós, e desce um héli, não são pára-quedistas, são jovens oficiais, muito jovens, com patentes demasiado elevadas, que logo reúnem com o comandante. Acabamos por saber que foi demitido, o povo está com o MFA e tretas do género, eis que chega a época dos comícios, dos oficiais de aviário, ontem eram alferes, hoje são majores, começam os fins-de-semana cortados por prevenções rigorosas que vem aí o espectro da contra-revolução e esses valentes oficiais juram punho erguido que então morrerão com as botas calçadas a combatê-la – para se esconderem cobardemente no 25 de Novembro, mas essa é outra história, em que também estive envolvido, bem contra vontade.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Onze anos!

O Afonso, o meu primeiro neto, nascido poucas horas antes. Onze anos de convívio e de camaradagem voaram entretanto, repletos de alegrias, um ou outro susto. Parabéns!

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Graças a Deus e graças com Deus

Eu era atentador. Judeu.
... os judeus são muito ruins! , sentenciava a minha avó.
-- Porquê? Perguntava, apenas para a arreliar. 
-- Então! Mataram Nosso Senhor!, exclamava, espantada com tanta ignorância.
-- Mas ele também era judeu!
-- Não digas heresias! Sempre ouvi dizer "graças a Deus, e não graças com Deus!"

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Camilo e Júlio Dinis

Os chavões tornam-se paulatinamente na sabedoria popular. Por exemplo, ensinava velho professor de liceu: “Camilo mata-os a todos, Júlio Dinis casa-os a todos”, -- ideia que parece ter-se colado como rótulo a estes autores.
Acontece que estas generalizações, como as demais, são ignorantes e falaciosas. O tal professor talvez não tivesse lido mais de Camilo que Amor de Perdição, em leitura adolescente, daquelas que, não raro, à força de concentrar a atenção nas personagens principais, perdem a riqueza de personagens secundárias, como o grande João da Cruz…  Pois o seu juízo  simplista não sobrevive à leitura de obras como  Onde Está a Felicidade, A Queda dum Anjo, A Brasileira de Prazins, Coração, Cabeça e Estômago…
Júlio Dinis não é mero autor-casamenteiro --  todos se recordam  de personagens suas como João Semana e José das Dornas (As Pupilas do sr. Reitor), o herbanário e Joãozinho das Perdizes (A Morgadinha dos Canaviais) ou Tomé da Póvoa e Clemente (Os Fidalgos da Casa Mourisca).  E desenvolveu com maestria temas perfeitamente actuais como o caciquismo político, a manipulação de massas (A Morgadinha dos Canaviais), a corrupção das autoridades e a viciação da justiça (Os Fidalgos da Casa Mourisca) , obra a que pertence o seguinte excerto:
“Julgou elle [Clemente, o regedor], com sympathica ingenuidade, que os superiores o conceituariam tanto melhor, quanto mais exacto e imparcial elle fosse no cumprimento dos seus deveres; com funda e amarga dôr de coração viu pois, que tendo arrostado com as sanhas de alguns fidalgos, cujas illegaes franquias procurára fazer cessar, o administrador, que sabia theorisar muito melhor do que elle sob o thema de emancipação do povo, dos direitos do homem e da igualdade perante a lei, mas que tambem sabia quebrar na pratica as quinas e os angulos agudos ás suas theorias, tomava o partido dos fidalgos, e censurava asperamente em officios o procedimento do regedor.”
É em Camilo e em Júlio Dinis que encontramos o povo português do séc. XIX , com as suas misérias e grandezas, como realidade social e não como caricatura, igualzinho ao que temos hoje…

JCC

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

44 anos de namoro

Feitos hoje, por coincidência aniversário da minha mulher. Ou talvez não.
Eis o texto do ano passado. Acrescento apenas umas fotos.






quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A minha mãe e a missa

Aos oitenta anos, a minha mãe perdeu a fé.
Nunca teve muita. Na minha infância, quando o sino chamava imperioso para a missa dominical, desabafava:
— Ora, tenho mais que fazer, Deus há-de perdoar.
Mas obrigava os filhos.
Logo de madrugada, acendia o lume, ia à fonte, preparava-nos o 'almoço', café de cevada com leite em pó aguado e pão com manteiga ou marmelada, aquecia água para os banhos no alguidar, vestia-nos a custo, sem poupar safanões, ralhos, meiguices aldeãs:
— Vê se páras quieto para te albardar!
E eu a choramingar, antecipando a chacota dos outros garotos:
— Não ponho o laço!!
— Pões sim senhor, quem manda sou eu!
Miúdo enraivecido descarrega nos mais pequenos.
— Ó mãe, ele bateu-me!
— Mentirosa, toquei-te sem querer!
Saia bofetada, eu berrava e protestava inocência, a minha mãe, já arrependida da justiça sumária, dava outra na minha irmã para se não ficar a rir, ela gritava como se a estivessem a matar,
— Cala-te!
Nova bofetada.
— Agora choras com razão!
Até que, finalmente, me conseguia pôr à porta: — Já para a missa e portar bem!
Lá ia eu cabisbaixo na roupa domingueira, calções e suspensórios a provocar a chacota da miudagem, laço de elástico que me faria brigar rebolando no pó do adro quando algum malandro o puxasse para me bater violentamente na garganta, emblema do Sporting na lapela, que os matulões iriam querer esborrachar debaixo de uma pedra e só com choro poupariam — por lhes dizer que era do meu pai.
À chegada do Sr. Prior, como chamávamos ao padre, as contendas acabavam instantaneamente, ajoelhávamos no cimento grosseiro da modesta capela da aldeia, à frente raros beatos, depois as mulheres, por último os garotos, sempre na macacada, a distraírem-me na minha devoção, atento às palavras do Sr. Prior a falar-nos do diabo que chegava a entrar na igreja para desencaminhar as almas — tal qual como aqueles diabos, que me beliscavam, obrigando-me a sofrer em silêncio, ou me sussurravam disparates ao ouvido para que risse, e o padre, mesmo em frente, empalidecesse e intimamente jurasse que lhas pagaria se me apanhasse na catequese — ou fizesse queixa à professora, de bendita régua justiceira...
Em casa, a minha mãe, em pecado mortal por faltar ao sacrifício da Santa Missa, por isso condenada aos tormentos do Inferno, assim garantia o padre, momentaneamente aliviada do inferno que era aturar-nos, acudia ao gado, que reclamava no pátio, não os coelhos, silenciosos, mas as galinhas, sempre com fome, os porcos lambões, a burra, impaciente por não sair ao domingo do curral e se espojar no pó da estrada, depois passava a roupa a ferro soprando as brasas para as espevitar enquanto sobre lume de vides e braças de pinheiro cozia o jantar, que o fogareiro a petróleo, fedorento, o bico sempre a entupir, estava reservado para alguma emergência nocturna, como fazer uma água com açúcar, remédio infalível, que outro não havia, para indisposições, indigestões, mal estar geral.
Passaram muitos anos. Enviuvou, passou a ir à missa, que já não é aos domingos por falta de vocações para o sacerdócio, mas de semana e ao anoitecer. Para minha satisfação  egoísta, sempre a querer que tivesse ocupações, caminhadas, ginástica, pintura, renda, pouco me importava, contanto que não estivesse dependente de mim...
Mas faltava frequentemente. Quando vizinha a chamava,
— Maria, vens á missa?
— Hoje não. Fico a fazer companhia ao meu Zé. 
Ou porque estava muito frio, ou lhe doíam as costas, ou "hoje não me apetece"...
Um dia a Morte veio procurá-la. Aneurisma da aorta com derrame pleural. Resistiu-lhe bravamente. Cirurgia de quatro horas in extremis com o coração fora do corpo, no gelo, uma hora. Meses nos Cuidados Intensivos, nos Cuidados Continuados, na Enfermaria...
Rija, arribou. Fraquinha, com complicações pulmonares contraídas em Santa Maria, de bactéria resistente aos antibióticos, a voz sussurrante, quase inaudível, de traqueostomia que correu mal e lesionou as cordas vocais. Incapaz de andar, até de comer. Com alta hospitalar, levei-a para o melhor lar que encontrei.
Voltou a andar, com dificuldade. Fazia a ginástica que podia. Recomeçou a fazer renda. As dores não a largavam, perdeu a vista num olho e o glaucoma ameaçava já o outro.
Na falta de novidades, repetia-lhe as já contadas nas visitas anteriores. Para a ocupar e preencher silêncios, passeávamos a pé, pelos corredores do Lar se chovia, fora se o tempo o permitia.
Apenas as visitas a animavam. Eu, a minha mulher, que a levava quinzenalmente à esteticista, as netas, o bisneto mais velho:

— Hoje veio cá o Afonso...
E eu a pensar que estava a delirar.
— Mãe, ele à tarde está na escola!
— Veio! Veio com a mãe e o irmão, antes de tu chegares! O irmão, como é que se chama, não  me lembro? já anda! Passou o tempo a correr por aí. E com a voz embargada pela emoção: — O Afonso, cada olho! A ver tudo, a querer saber tudo! Como tu eras, em pequeno!
Mas as semanas têm sete dias, os dias vinte e quatro horas.
— Os dias são tão compridos!
— Mãe, tem de se entreter!
— Com quê?
— Tem os trabalhos manuais...
Não lhes via interesse, não apreciava as conversas das companheiras, mais ou menos senis, e sentada naquelas cadeiras doíam-lhe as costas.
— Vens sozinho?
E eu, irritado, a sentir que me recriminava: — Mãe, que quer? As suas netas estão a trabalhar, hão-de vir no fim-de-semana! Domingo venho buscá-la para almoçar connosco! Tem se entreter, tem de se integrar nas actividades...
— Não me interessam!
— Mãe, hoje houve missa. Gostou?
— Fui-me embora, não ligo nada a isso!

Piorou. Deixou de poder sair da sala de convívio quando a freira começava a cerimónia.
— Mãe, hoje assistiu à missa?
— Ora, fingi que estava dormir!
FOTOS: (1) há mais de 40 anos, com a neta mais velha; (2) uma semana antes de morrer, a passear no lar com a outra neta; (3) um lanche no Lar, ao Domingo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O segredo da longevidade

Se acaso chegar aos oitenta ainda com os cinco alqueires bem medidos, vou atribuir o milagre ao vinho tinto e ao dedal de uísque, tomado como se remédio fosse.

Se não chegar, como é mais provável, os outros dirão vão  que foi do tinto e do uísque...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Falácias

As fotos que publiquei recentemente no Facebook, preparado para dormir em condições quase espartanas no dojo de Paredes de Coura e a de grupo, após o treino de sábado de manhã, revelando a verdade, mentem.
É um facto. Estive lá, de sexta a domingo, e dormi no dojo, nas condições que as fotos sugerem. Fui, não por militância, antes por compromisso, não por desejo de aprender, antes por amizade ao meu companheiro de viagem e de percurso, que venho acompanhando há mais de 35 anos nestas andanças, e foi o meu primeiro professor de karaté. Fui, prevenindo que não treinaria: os joelhos tornam penoso qualquer treino de karaté da minha linha, e a antecipação das dores, o receio de agravamento do mal de que sofrem — ruptura do menisco interno com derrames, confirmada por ressonância magnética que o meu amigo, médico, me mandou fazer — levam-me a querer poupá-los. É que me permitem fazer a vida normal, incluindo os treinos aeróbios no ginásio (bicicleta, remo, elíptica, passadeira, com corridas curtas, não mais de 15 minutos, mas não suportam as posições baixas do karaté, joelhos a fazer força para fora, as rotações, a recepção do peso corporal, a força impulsionadora, frequentemente lateral, etc. 
Mas, mesmo assim, não resisti e fiz treinos muito limitados. Ora, lá diz o provérbio, quando a cabeça não tem juízo o corpo é que as paga. O que está a acontecer.
Vou em breve a consulta de ortopedia; mas receio que intervenção cirúrgica, sempre incerta nos resultados, não me traga de volta os joelhos da minha mocidade. E não seria sensato proceder à respectiva reparação para voltar ao mesmo — para um profissional do karaté, não há escolha; para mim, não se trata de prescindir das actividades físicas, mas de as mudar, adaptando-as à idade e estado do corpo.
Treinos que sacrificam joelhos, costas, fazem subir a tensão arterial, etc., não são para velhos; e envelhecer, com as limitações que os anos trazem, não deve implicar abandono da actividade física, mas adaptação. É o que tenciono fazer — é o que faço há uns três ou quatro anos: evitar o que me faz mal, insistir no que me faz bem. Proceder de outra forma seria dar razão a Jacques Brel: "Plus ça devient vieux / Plus ça devient con".
Assim, este treino em Paredes de Coura marcou o encerramento da minha prática oficial na linha Shotokan /JKA. Aquilo que nas fotos aparenta ser um acto de militância, foi, na verdade, a minha despedida. 
É a vida a seguir o seu curso inexorável... Um abraço para aqueles que ficam.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Fraquinha, mas boa!

Naqueles tempos de brincadeiras parvas havia o costume de embebedar pobres diabos para chacota geral ao vê-los aos tombos, desnorteados,
-- Espetámos-lhe com tamanha bebedeira nos queixos que o tivemos de levar de carro de mão a casa! 
Era o que fazia grupo de rapazolas, mortos de riso, a encherem copos atrás de copos de bebida branca a velhote já senil: -- Ti Jaquim, beba mais um copo! Que tal é ela?
-- Obrigado, rapazes, é fraquinha mas é boa! 
Preocupado, o meu pai chega-se, a tentar evitar desgraça: -- Vocês ainda matam o velho!
E um dos rapazes, a chorar de riso, dá-lhe a cheirar o garrafão: -- É água!
E o meu pai, para poupar o pobre diabo à judiaria: -- Ti Jaquim, não beba mais senão fica transtornado!
-- É isso, rapazes. Muito obrigado, mas fico por aqui, que já me está a trepar à cabeça!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Função Fática no Facebook

Lembram-se das velhinhas funções da linguagem, de Roman Jacobson? Nunca lhes achei grande piada, nem utilidade para o estudo do texto. Mas em determinada altura tornaram-se quase obrigatórias em tudo o que era formação, pelo que ainda se devem recordar.
Uma das mais interessantes é a função fática, em que o emissor procura a todo o custo manter o contacto com o seu receptor, e o exemplo dado era, invariavelmente, uma dessas conversas telefónicas em que se fala sem dizer nada. Fosse hoje, e o exemplo seria o Facebook. De tal forma, que frequentemente desisto da sua leitura logo às primeiras mensagens, pelo que muito provavelmente perco outras mais interessantes, mas que não surgem imediatamente.

Permitam-me o conselho, perdoem-me a arrogância de o dar: não basta atirar o barro à parede; é preciso alisá-lo, poli-lo, pintá-lo para que o resultado final mereça rápida olhadela nestes tempos de excesso de materiais audiovisuais. Mais: fujam do trivial, dêem-me algo de novo, uma foto interessante, pelo enquadramento ou pelo assunto, uma frase original, uma rima, uma ideia arrevesada. Porque o mais é déjà vu, banalidades, fofuras e gostosuras. 
Ah, os meus "gosto" são sinceros, pouco se me dá se alguém ficar ofendido por não retribuir a fineza. Nunca pertenci à Sociedade do Elogio Mútuo.  

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Reflexões em torno da arte da escrita

Passei 36 anos a corrigir textos; mas era a minha profissão, pagavam-me para isso, eu tinha autoridade para corrigir, mesmo quando, sobretudo nos últimos anos, precisava frequentemente de provar a alunos e a pais e mães que tinha razão.
Este vício de emendar, de corrigir, de sugerir, entranhou-se-me nas veias. Frequentemente, ao ler textos próprios ou alheios, dou comigo a pensar que aquele texto melhorava se... ou que devia ser rasgado e rescrito. E não raro, num passado recente, tive a presunção e a arrogância de o dizer a autores orgulhosos, embevecidos com a obra produzida, só preparados para encómios e aplausos... Muitos foram os dissabores; passei a tomar algum juízo e já só leio e comento materiais inéditos de amigos que sei estarem receptivos a críticas.
Mas o vício de ensinar permanece vivo, mãos dadas com a tal arrogância que me leva a avaliar, a julgar, a classificar muito do que vou lendo. Por isso, ouso avançar com algumas sugestões, que bem tento seguir.

  • Um fotógrafo famoso -- mas podia ser qualquer outro artista -- respondeu assim a quem lhe perguntava porque é que demorava tanto tempo com uma simples fotografia que em exposição mereceria, no máximo, uns segundos de atenção: -- Para que as pessoas olhem para ela uns segundos.
  • Trabalho em busca da forma perfeita não implica produção de textos rebuscados, barrocos, gongóricos.
  • Estilo simples não é estilo simplório.
  • Uma coisa é o real, outra o verosímil. O primeiro é material de jornalistas, o segundo de escritores.
  • Um texto não deve apresentar erros de ortografia, de semântica ou de sintaxe; mas isso não o torna num bom texto. É preciso que tenha mais qualquer coisa. O quê?
  • Considero a história fundamental em romances e contos. Bem contada, sem erros de pormenor. Sem história, são livros, alguns muito bons. Mas a história não chega.
  • O essencial: que, como ensina o padre Vieira, as coisas sejam introduzidas com caso, queda e cadência. Com caso, porque devem ser relevantes naquele fragmento e naquela obra; com queda, devendo surgir não apenas com naturalidade, mas com inevitabilidade; com cadência, porque o ritmo é fundamental na escrita, isto se quisermos evitar textos chatos.
(Continua)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Lavoira

Hoje. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

A RTP e os procurados pela justiça

Indigna-me que a RTP -- que eu pago na factura da electricidade -- dê voz e protagonismo a procurado pela justiça por morte de homem. Da GNR, abatido cobardemente. E isto antes do julgamento.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Os meus Fiéis Defuntos

Lembro-me vagamente de três bisavós. Nem sequer sei os respectivos nomes. A minha família conhecida começa com os meus avós: Francisca Ferreira e José Alves Catarino (o Avô Sargento) pelo lado paterno; Maria da Luz Trindade (a Avó da Luz) e José Cipriano, pelo lado da minha mãe.
Seguem-se meu pai, Afonso da Silva Catarino, e minha mãe, Maria Isabel Trindade Cipriano.
Todos eles são apenas nomes, fotos, memórias. E saudade.




segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Dia de Finados*

Deixava-se candeia de azeite ou candeeiro a petróleo aceso toda a noite, a torcida baixa, para que os nossos mortos, de volta ao lar, o não encontrassem às escuras, ou para que a luz débil os impedisse de nos assustar com a sua presença, só visível no escuro, suponho.

Acabaram candeias e candeeiros a petróleo, as velhas habitações foram abandonadas, hoje muda-se de casa como de camisa – onde podem os defuntos visitar os entes queridos, na única noite do ano em que tal lhes é permitido? 

(*2 de Novembro)

Halloween

Acabam de me tocar a campainha: dois vultos negros, a dizer Travessuras ou gostosuras. Não percebo. Repetem.
-- Não sou dessa religião, voltem amanhã, que é o Dia de Todos os Santos!
(Este meu feitio de velho ranzinza!)

Um par de botas


Aí por 1970, pobre mulher, de preto do lenço aos pés metidos em tamancos largueirões, entrou em sapataria da vila, a comprar calçado para o filho. 
A cada prova, pede outro par: -- Maiorzinho, que o pé está a crescer!
Tanto se repete a cena que às tantas o vendedor, exasperado, lhe sugere:
-- Minha senhora, porque é que lhe não compra umas botas 44, guarda-as debaixo da cama, que assim o moço ainda tem calçado quando for para a tropa?

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Montes, 1964

Sobre o pó das estradas, ou a lama, ou poças de água, mulheres e crianças andavam descalças. Eu levava sapatos para a escola, mas logo à saída me descalçava. O calçado, feito por medida no sapateiro da terra, era pesado, rígido dos protectores de ferro e cardas, e era desconfortável.
Era a liberdade nos pés, era a ligeireza, sempre fundamental para fugir de rapazola que me quisesse puxar as orelhas por lhe ter gritado a alcunha, ou de grupo que me quisesse “contar as velhas” – parvoíce muito em uso que consistia em agarrar rapazinho, deitá-lo ao chão, baixar-lhe calças e ceroulas, expor as suas misérias ao escárnio de raparigas de passagem, e sepultar a pobre gaita debaixo de bom punhado de terra.
Os pés descalços estavam expostos às agressões dos caminhos: topadas em pedras que rebentavam a cabeça dos dedos, espinhos, pregos, vidros que os laceravam… E o tratamento era terrível, autêntica tortura, aplicada por mãe desesperada, que outro remédio não conhecia, a criança que berrava e fugia: escaldar a ferida. Isso mesmo: meter o pé em água fervente, ou pingar azeite a ferver sobre o buraco infectado do espinho que acabava de ser extraído.
Sou desse tempo. Quase sempre às portas da morte: lombrigas, infecções, gripes constantes, sarampo, tosse convulsa, que me fazia ver luzes na escuridão do quarto quando tossia os pulmões, diarreias de caixão à cova, icterícia… Mas nunca tive piolhos, nem tinha, e só vi percevejos na asseada Lisboa.
Fui tratado, quase sempre, com a “medicina popular”. Dolorosa, fedorenta, ineficaz. Conheci demasiado bem o “mercúrio”, a tintura de iodo, a tintura de mostarda, o bálsamo, a aguardente com açúcar queimada e abafada, os escaldões, a enxúndia, as rezas. E depois, viva o progresso, vieram as sulfamidas, o Vick Vaporub, os rebuçados do Dr. Bayard, a aspirina… Mas esses são outros tempos, de transição para a nossa modernidade – em que, paradoxalmente, abundam os saudosos desse Portugal imundo, subnutrido, rude, malcriado e, o que mais me espanta, da “medicina popular”. A esses, deixo as palavras de um dos grandes mestres da escrita:
“Oo geeraçom que depois veo, poboo bem aventuirado, que nom soube parte de tamtos malles, nem foi quinhoeiro de taaes padecimentos!” (Fernão Lopes, Crónica d’el-rei D. Joham I)
FOTO do velho Kodak do meu pai: o meu irmão em bebé, eu mais atrás, a minha mãe, descalça; provavelmente 1964)

sábado, 22 de outubro de 2016

À espera do Inverno

Sexta-feira, 20 de Outubro, abri regos de drenagem.

sábado, 15 de outubro de 2016

Taxistas, Uber e o Admirável Mundo Novo

Agora que a guerra dos taxistas conhece uma trégua e os ânimos não parecem estar tão exaltados, atrevo-me a chamar a atenção para o cerne do problema.
A ameaça maior que pesa sobre os taxistas não é a que provém da Uber e afins, embora seja a mais imediata, porque, antes de mais, lhes desvaloriza os alvarás, a partir do momento em que deixam de ser indispensáveis para o exercício da actividade profissional, e não suporta idênticos custos comerciais, nem em pessoal, nem em impostos, licenças, etc.
A maior ameaça, e não é ficção científica, pendente sobre taxistas e TODOS os condutores profissionais de transportes rodoviários, públicos e privados, chega sob a forma de veículos sem condutor, em fase avançada de testes nos EUA e na Alemanha, por exemplo.
Se os particulares podem não querer, ou não poder, comprar um carro sem condutor, já os gestores das empresas de transportes de toda a natureza devem estar a esfregar as mãos de contentes com esta solução, previsivelmente mais segura, porque isenta do erro humano, e incomparavelmente mais barata.  E não duvido de que as grandes empresas do sector do táxi sejam das primeiras a aderir, dispensando os condutores que agora levam para a rua em protestos exaltados.
É a vida. Foi assim nos primórdios da Revolução Industrial, quando os operários em greve destruíam as máquinas que os enviavam para o desemprego, foi assim que profissões inteiras, algumas até medianamente prestigiadas, desapareceram. Por força do progresso tecnológico. Dactilógrafas, estenógrafas, relojoeiros…
Neste Admirável Mundo Novo, em que até as mulheres-a-dias se vêem ameaçadas por robots já acessíveis, que não se sentam a ver televisão no sofá na ausência das patroas, nem têm horário de trabalho nem salário, haverá cada vez menos trabalho, especializado e não especializado. Até que o ser humano, cada vez mais remetido ao papel exclusivo de consumidor e fruidor, seja, ele mesmo, dispensável.
A cada dia que passa, esse momento fica mais próximo. E os taxistas julgam poder adiá-lo, ou evitá-lo, dando uns pontapés nos carros da concorrência, por enquanto ainda com condutor…


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Literatura chata

Muito me podem gabar certos autores. O que para mim conta é se passam ou não no teste da leitura inicial -- das primeiras linhas, de um ou de outro parágrafo lá para o meio, escolhido aleatoriamente.
A esmagadora maioria, de autores nacionais e estrangeiros, reprova. 
Porque lhes falta interesse, e parecem estar a encher morcelas, e vai gordura, e vai sangue, e vão cominhos em excesso, na forma de adjectivos empregues na ilusão de assim escreverem "poético". 
Porque a escrita não tem ritmo, não tem cadência. Porque não desenvolve, e lemos, lemos, e, como no velho lugar comum, nem o pai almoça nem a gente morre -- ou o seu contrário. Porque o seu gosto é diferente do meu -- por exemplo, um famoso autor americano começa com um "não as podes f. todas!" e eu ponho-o de lado, ainda na livraria, por achar a escrita vulgar, e não se pense que é pelo emprego do palavrão, magistralmente utilizado, por exemplo, por Gil Vicente. Outros livros, porque são chatos, andem neles à procura de carneiros selvagens ou leve o protagonista a amante para hotel e três capítulos depois ainda não tenham chegado a vias de facto -- neste caso, tinha decidido ler o romance, custasse o que custasse, mas acabei por dar parte de fraco.
Lembram-se de Boleano, esse génio da literatura? Bem tentei ler O Terceiro Reich. Acho que até consegui chegar à página 4. Bem menos do que nos Versículos Satânicos, no Ulisses, em que cheguei quase à centena antes de desistir.
Há dois anos, numa férias, emprestaram-me livro de autor português da nova vaga, de quem até já tinha lido um romance aceitável. Logo às primeiras páginas, uma adolescente, no momento de perder a virgindade, imagina que as partes do homem se desintegram e sobem por ela... Como é possível escrever tamanho disparate e a editora deixá-lo passar? Ou agora as moças, nesse momento marcante da sua sexualidade, entretém-se a imaginar cenas que nem nos desenhos animados se vêem?
Outro, pelos excertos divulgados no Facebook, põe uma personagem, também adolescente, a exigir que a amada os imagine velhinhos. Lindo, não? Só que os adolescentes, como aquele que fui, como os que conheci, como os que conheço, nunca serão velhos, pelo que tal proposta é simplesmente absurda...
E assim perdem um leitor, o que nenhuma diferença lhes fará. Contanto que os seus livros se vendam para prendas de natal e de aniversário, contanto que alguém os vá citando com veneração. 
-- Não gostas? Problema teu, não faltam admiradoras.
-- Criticas? É só inveja.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Eucaliptos, imaginação e disparates

No conto O Largo, de Manuel da Fonseca, o bêbedo local estraga a história que conta com um mero pormenor -- no Rossio, em Lisboa, atinge o carteirista com um soco e este, ao cair, bate com a cabeça num eucalipto...
Assim é a arte da escrita. Basta um detalhe para arruinar uma bela história, e não há frases, por mais trabalhadas, que a possam salvar. Porque a imaginação não torna aceitável a ignorância, e um disparate, por mais ornamentado que esteja, não deixa de ser um disparate, a não ser que o leitor se aperceba de que o escritor está a gozar com ele.
Exemplifico: no seu Voyage dans la Lune, do séc. XVII, Cyrano de Bergerac põe o seu narrador a dizer que, como toda a gente sabe, a Lua atrai as gorduras... Mark Twain, num conto, faz uma descrição em que um esófago contempla meditativamente o pôr-do-sol...
Bem diferente é a frase que  li no Facebook, dias atrás, atribuída a Clarice Lispector, segundo a qual a vida tinha começado com duas moléculas. Falta-lhe a piada dos exemplos de Cyrano e Twain, e é disparate tão gritante que me surpreendi por a frase não ter sido prontamente  dissecada e desmentida, fosse à luz do conhecimento actual, fosse do que estava acessível no tempo da autora.
Leitores, abram esses olhos e não prescindam do espírito crítico, não se deixem enrolar por palavreados, perguntem sempre, como o Calisto Elói, de Camilo, o que é que tal significa em vernáculo; escritores, se fazem questão de afirmar assertivamente (desculpem o pleonasmo) o que não sabem, e julgam ter tanta certeza no cag... que não erram o chão, dispensando-se de modalizar, ao menos coloquem as asserções na boca das vossas personagens. porque, podem ter a certeza, basta um pormenorzinho para arruinar o trabalho do dia, de semanas ou meses até.
 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Nunca o invejoso medrou...

A alegria  que aqui manifestei por um conto meu ter sido distinguido com Menção Honrosa no Prémio Literário Irene Lisboa parece ter azedado o humor de leitor que, a coberto do anonimato, me censura e dá conselho (ou ordem?):
"Caramba, você comporta-se com uma menção honrosa em Arruda dos Vinhos como se tivesse recebido o Nobel. Tenha juízo. "
Pois é, caro anónimo: cada qual usa o seu blogue para o que bem entende; o meu serve, entre outras coisas, para aqui partilhar as minhas alegrias, coisas insignificantes como distinções literárias, produção de batatas, uma lavoura, desenhos dos netos... Suponho que as suas, a existirem, só ocorrerão quando o seu clube de futebol ganha ou quando consegue estragar o dia a alguém... Adiante.
Manda a boa educação que, se quiser entrar em morada alheia, se identifique como pessoa de bem, dê a saudação, ao entrar limpe os pés, e já agora, a boca, aceite e agradeça o pão e o vinho que o dono da casa lhe oferece. Ou, não querendo, vá bater a outra porta, ou, mais adequadamente, deixe-se ficar na sua casa, a remoer amargamente como vai receber o Nobel, enquanto lhe falham outras distinções, mas atenção: ponha-se na bicha, que à sua frente já está, assumidamente, o Arquitecto Saraiva!
E também não quero juízo, como esse que manifesta no comentário. Sempre assino por baixo do que escrevo e não perco o meu tempo a tentar azedar a alegria alheia.
Vá comentando: é que, por vezes, faltam-me ideias para posts...

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Apreciação de Tino, o Perneta

Diz a escritora e ilustradora Beatriz Lamas Oliveira:
"Acabei agora de ler o conto integral que o José Cipriano Catarino me enviou por correio eletrónico! Gostei muitíssimo. Escrita impecável, isso já o autor nos habituou. Ritmo, vivacidade, graça, elegância, ironia, algum deleitoso sarcasmo, uma visão, diria eu, andrógina, dos factos comezinhos da vida doméstica, que oscila entre a ternura, a armadilha da luxúria e a graça conventual! Deliciei-me a ler_eu não sou muito de doces, mas a leitura deste conto fez-me lembrar lembrar o encanto das horas de vésperas no pátio interior de uma ermida com despensa bem fornecida!"

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Menção Honrosa

Amigos, alegrem-se comigo: acabo de saber que um conto meu foi distinguido com Menção Honrosa no Prémio Literário Irene Lisboa, de Arruda dos Vinhos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Ni Dieu ni Maître

1846. No Minho, em plena revolução da Maria da Fonte -- e na cama com ela.
"Não lhe tinha mentido, não era maçon, pedreiro-livre como ela dizia, embora em tempos tivesse frequentado algumas das lojas que brotavam pela capital como as nascentes no Inverno. Não chegou a ser iniciado, desagradado com o ambiente rasca, nos antípodas da elevação espiritual que sempre associara à Grande Fraternidade, enojado com as intrigas, as disputas de cargos e lugares políticos, o compadrio, a alegre aceitação da corrupção por parte daqueles mangas-de-alpaca que não viam contradição entre os ideais maçónicos de justiça e o suborno que quotidianamente recebiam, inclusive de ambas as partes, nas litigâncias. Passada a novidade, começou a aborrecer os rituais, vendo-os como missa profana, o padre substituído pelo mestre, o bispo pelo grão-mestre, o Grande Arquitecto em vez de Deus, estátuas de santos devotos, imagens beatas, relíquias sagradas trocadas por objectos de uma profissão que não era a sua — martelos, compassos —, aventais ricamente decorados em vez de sotainas, mas sempre, tal como no seio do clero, a intriga, a luta pelo poder, a convicção de que aqueles que estão de fora são bestas ignorantes que importa manipular mas não redimir. E, sem romper por completo, começou a espaçar a participação, incapaz de aceitar como chefes espirituais homens de vícios e de baixezas como os padres, como eles a pregar uma coisa e a fazer o seu contrário. 
A perda da fé, primeiro no Deus bíblico, que apesar dos castigos com que flagelou a humanidade não conseguiu impedir que o Mal infectasse a Terra, depois no Seu Filho, o Salvador vindo ao Mundo para redimir o Homem e dar esperança ao Pobre, e o Homem, dezanove séculos depois laborava nos mesmos erros e mistificações e o Pobre cada vez estava mais pobre, por fim nos belos ideais maçónicos, convenceu-o paulatinamente de que teria de ser ele mesmo, Adolfo, a assumir a responsabilidade de libertar a humanidade das trevas da ignorância em que a queriam manter todos os outros, fossem eles cristãos, maçons, miguelistas, cartistas, setembristas até. Como se cada loja maçónica, cada partido, mais não fosse do que mera carruagem tomada para conduzir à Câmara dos Deputados, à governação. Sem confiar nos outros e nas organizações que criavam e logo atafulhavam de ritos embrutecedores, de rituais de submissão para obviar disputas de poleiro, julgava-se o homem providencial, aquele que chegada a ocasião não recuará e não hesitará em adoptar os meios necessários, em ser o Danton, o Robespierre do nosso tempo! Aquele que, como leu num panfleto francês, não receia recorrer à faca, à bomba, ao veneno, para despertar o povo para a revolução. Ni Dieu Ni Maître! — proclamava o opúsculo. Assim pensava, assim se sentia, livre, disponível para a revolução, à espera de oportunidade, que julgou surgir quando a sorte o bafejou com a reportagem da sublevação do Minho."
JCC, inédito

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O argueiro e a trave

É espantosa a capacidade que muitas pessoas têm para orientar a vida dos outros. Sobretudo quando não aparentam aplicar a si mesmas essa capacidade e assim vêemr o argueiro no olho alheio mas não ver a trave no próprio, como dizia Jesus.
"Se viesses a pé só te fazia bem!" 
E eu não me dou à maçada de explicar que não, nem me fazia bem, nem tenho falta de actividade física: no estado em que tenho os joelhos, acabaria a coxear, com dores lancinantes; mas já hoje fiz uma hora de ginásio...
"Tiras os óculos para ler? Devias ir ao oftalmologista para te mudar a graduação !"
E falta-me a paciência para explicar, mais uma vez, que tenho queratocone, o problema não se resolve com mudança de lentes, nem com cirurgia...
Porque não adianta. Explicamos, as pessoas não nos ouvem, ou se ouvem, ouvem apenas uma parte, distraídas, percebem mal, esquecem depressa. E depois, sabem tudo, o que faz bem e o que faz mal. 
Aos outros.

domingo, 4 de setembro de 2016

As Tripas de Deus

“Hablo en las tripas de Dios
Y vos hablaisme en los gatos!”
(O Castelhano, Auto da Índia, Gil Vicente)
Ontem, por mero acaso, a que não foi alheio o calor que me fechou em casa, vi no canal Discovery “Criou Deus o Universo?”, com base em livro do físico S. Hawking.
Ao longo do programa, o físico deixa claro que não pretende mudar crenças e convicções, mas, à luz do conhecimento científico, e é este o busílis, Deus não é necessário para a criação do nosso Universo. Para tal, e como a energia total do Universo tem de ser zero – vejam o programa para compreenderem a explicação, aliás perfeitamente intuitiva – são suficientes, para que um universo surja do Nada, três ingredientes: Matéria, Energia, Espaço.
Matéria e Energia, sabemo-lo desde Einstein, são a mesma coisa; Espaço -- e aqui as minhas orelhas arrebitaram, curioso para conhecer a definição de Hawkings – pois fiquei na mesma, limitou-se a dizer que é abundante no Universo. Mas nem outra coisa seria de esperar, que o universo não existe fora do Espaço. Do Espaço-Tempo, como sabemos desde Einstein.
Não duvido de que um universo possa surgir espontaneamente do Nada, como argumenta Lawrence Krauss no seu extraordinário livro A Universe from Nothing (Amazon), mas parece-me que esta visão estritamente materialista tem uma insuficiência insuperável. Para que um universo surja e se estruture como aquele em que vivemos é preciso Informação (ver, por exemplo, também da Amazon, God, Soul, New Physics, de Trevelyan).
Explico-me sumariamente: se uma única das forças que regem o Universo (força forte, força fraca, electromagnética e gravidade) tivesse um valor infinitesimalmente diferente, o nosso Universo não existiria, e nós não estaríamos cá a colocar questões sobre Deus e o Universo. Em termos mais vulgares, não basta juntar ingredientes para cozinhar. É preciso seguir uma receita – as leis da Física.
Ficamos, portanto, como na história do ovo e da galinha. Sem Informação não há universo materialista, mesmo que todos os restantes ingredientes necessários à sua criação estejam presentes. Como surgiu essa informação estruturadora? Porquê?
Se a esses Princípios Criadores chamar Deus, ou leis da Física, pouco interessa; as palavras surgiram muito provavelmente quando ainda andávamos de tanga pelas savanas africanas, cruidas pela necessidade de descrever um mundo – e não um universo – que se não estenderia muito para além do horizonte, quando cada força da Natureza, cada catástrofe, era obra de um deus e os milagres eram corriqueiros. As palavras que temos, as línguas naturais que as integram, não são certamente adequadas para descrever a estranheza do Universo e das suas leis e a nossa lógica de primatas não consegue conceber nem os seus mistérios (que é a matéria negra? A energia negra? Que é o Espaço-Tempo?...) nem os da sua criação.

Por enquanto. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Os três gostos

Aí pelos anos 90 pululavam pelas ruas de Lisboa os vendedores de time-sharing. Emboscados nas esquinas, escolhiam as vítimas com o olhar predador do carteirista e atacavam-na com requintes de psicologia dignos de mestre do conto do vigário, a vender, não a torre de Belém ou a ponte sobre o Tejo, mas férias paradisíacas em locais de sonho. 
Um deles cortou-me passagem no passadiço que puseram no Chiado após o incêndio. Fiz gesto com a mão esquerda, a recusar conversa. E ele: -- São só três perguntinhas..., em tom de voz que insinuava que eu seria malcriado em recusar, como se responder a desconhecido importuno fosse o mesmo que negar copo de água a viandante sedento.
Com o olhar, fiz-lhe sinal para que se despachasse.
-- Gosta de andar de avião?
-- Não.
Gosta de viajar?
-- Não.
Gosta de férias?
-- Não.
E deixei-o pasmado, em visível conflito interior entre os seus dois neurónios: o saloio era mesmo parvo ou estava a fazer-se?

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A Caixa Geral de Depósitos e eu

A minha relação com a Caixa Geral de Depósitos remonta, pelo menos, às minhas primeiras colocações como professor. Era, então, obrigado a receber o vencimento pela Caixa. Depois, surgiu a possibilidade de receber o ordenado noutro banco, mas não vi razões para mudar. Nesses bancos  clientes pouco abonados, como eu, eram tratados com sobranceria, mesmo quando queriam abrir depósito; se precisavam de empréstimo, sofriam vexames hoje inacreditáveis. Passei por isso.
E fui ficando cliente da Caixa. Nada percebo de finanças, mas ultimamente preocupam-me as notícias. Antes de mais, por a Caixa ser notícia. Depois, por ser invariavelmente má notícia. Buraco astronómico -- como é possível, ó Vara, ó génios colocados na administração pelos aparelhos partidários? -- e agora a proposta de uma equipa de gestão  numerosa, que não faltam boys a precisar de jobs, e, pior, declaradamente, atestadamente, incompetente:
"O BCE impõe que três futuros gestores executivos da CGD que não tinham ainda experiência em gestão bancária de topo - João Tudela Martins, Paulo Rodrigues da Silva e Pedro Leitão - frequentem o curso de Gestão Bancária Estratégica do Insead. Segundo a brochura desta escola de gestão, a propina deste curso é de 12 600 euros por aluno, o que significa que a CGD vai pagar à cabeça perto de 38 mil euros para inscrever estes três gestores no Insead.

Mas a despesa deverá ser superior Como explica a escola sediada em Fontainebleau, a “propina não inclui viagens, acomodação e outras eventualidades”.Tendo em conta os atuais preços de quartos em hotéis de cinco estrelas em Fontainebleau e as viagens da TAP para Paris em classe executiva, os gastos com viagens e acomodações poderão ascender a cerca de 10 mil euros. E há ainda outros custos, como a alimentação. Além disso, um dos gestores, João Tudela Martins, terá de frequentar outro curso específico de Gestão de Risco na Banca, que custa 8,6 mil euros - mais viagens, alojamento e alimentação. Contas feitas, a CGD terá de gastar perto de 60 mil euros para o “regresso à escola” de três gestores." (Da notícia do Sapo/Sol)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

1972 (outro fragmento)

"Não muito longe, na Rua do Salitre, o sr. Fragoso arruma a secretária para sair do emprego, a mulher da limpeza começa a faxina, no Instituto Comercial, ao Camões, a professora de Cálculo Financeiro inicia a última aula da tarde, a que o Zé vai faltar, não por causa do engarrafamento na Baixa, pois anda a pé e poupa os quinze tostões do bilhete de autocarro, mas por ser um dos agitadores, ele que participa na sua primeira manifestação num misto de euforia e de medo. 
Ei-lo a atirar pedra a montra de banco, quem diria que este rapaz, provinciano e pacato, se envolveria em actividade subversiva — terrorista! dirá amanhã o Século, se a censura permitir que publique a notícia que noite alta redigirá o jornalista Ribeiro Esteves, a braços com a dificuldade de fingir condenar o sucedido para enganar o censor, deixando embora nas entrelinhas pistas para os oposicionistas saberem que o regime é contestado nas ruas. Entra o revisor tipográfico, também do reviralho, 
— Já terminou o artigo? 
— Ainda não, precisa de uns retoques, a ver se passa por entre as malhas.
— Duvido. A censura não vai deixar publicar nada sobre a manifestação dos estudantes. O que querem eles, afinal, não cheguei a perceber?
— E eu sei lá? Mas alegra-me que chateiem o regime.
E ficam a discutir por momentos, o revisor tem razão, pouco importa fingir, o  lacaio do lápis azul não permitirá que se noticie que um punhado de estudantes desceu a Almirante Reis, paralisou o trânsito, estilhaçou montra de banco, gritou palavras de ordem que nada dizem aos que as escutam retidos no trânsito a ver a polícia de choque desancar pobres transeuntes,os quais, fiados no proverbial  "quem não deve não teme" se deixam apanhar na confusão —  voltemos ao escritório da Andantino, onde, por causa do tumulto e engarrafamentos, chega atrasado o sr. Antunes, sócio gerente, vem acompanhar o turno da tarde, que patrão fora, dia santo na loja, despede-se do sr. Fragoso com aperto de mão, a dona Lourdes, a faxineira, ouve-o contar que para os lados dos Restauradores há confusão, a polícia de choque dá tareia em estudantes que se revoltaram, e mais em quem apanha pela frente, aperta-se-lhe o coração a medo que o filho estremado se tenha metido nessas desordens, raro é o dia em que lhe não suplica que se afaste dessa malta, cada qual deve acamaradar com seu igual, e nada de política, se o filho vai preso não tem como pagar a advogado, nem como o tirar da cadeia, e ele fica com a vida estragada, será prontamente incorporado — como soldado raso, destruindo o seu sonho de o ver oficial, será talvez mobilizado como castigo para a mortífera Guiné, de onde, se regressar vivo e inteiro, virá marcado com o ferrete de comunista, que para sempre o impedirá de ter bom emprego no funcionalismo público, e o  condenará a vida de escravatura, como a do pai, que Deus haja, guarda-freios da Carris, como a dela, que apenas sonha dar melhor futuro ao filho, assim ele não perca a cabeça e estrague a sua vida."
JCC, inédito, de romance em curso. Porque me apetece.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A arte de matar o pinto no ovo

Eça, que  como o Chouriço, personagem da sua A Capital, a sabia toda, dá-nos conta de várias artimanhas utilizadas pelos donos da literatura para aniquilarem potenciais rivais. 
Duas delas estão presentes n' Os Maias: todos nos lembramos da crítica feroz do Alencar, que aponta "dois erros de gramática, um verso errado, e uma imagem roubada a Beaudelaire"  nos versos do Craveiro -- acusações sempre terrivelmente eficazes, pois poucos arriscam discutir os supostos erros, a medo de serem tomados por ignorantes, e acusação de plágio é coisa feia, que sempre enlameia os visados, mesmo quando injusta; outra, é o velho ataque ad hominem, tão ao gosto nacional: Alencar lança torpe calúnia contra a irmã do poeta rival, "esse caloteiro que se não lembra de que a irmã é uma meretriz de doze vinténs em Marco de Canavezes".
Já em A Capital, o estratagema demolidor usado contra o potencial rival é mais subtil, mas igualmente demolidor: pressentido talento no estreante literário, o patrão da poesia aplaude -- não o drama, mas uma pilhéria involuntária do artista ("estrelados, só ovos") desviando as atenções dos ouvintes, que prontamente esquecem a peça para se gabarem das respectivas habilidades cómicas, uma das quais consiste na imitação do zurrar de um burro no cio...
Outro truque, também presente n' A Capital, consiste em descobrir uma cacofonia -- no verso "nunca cauda mais pura..." logo apontam: "Ca-cau, cacau do Brasil, chocolate..."
Por hoje, fico-me por estes exemplos do Eça, na certeza de que não há nada de novo sob o Sol. Facebook e blogosfera ficam para outra ocasião.
E deixo para reflexão dito de Saramago, numa das suas entrevistas: na literatura ninguém tira o lugar a ninguém...

terça-feira, 16 de agosto de 2016

1972

Excerto de um inédito meu. Porque me apetece.
"Aquela tarde  de Dezembro de 1972 devia ser igual a tantas outras que a cidade já conheceu desde que Salazar impôs a sua ordem ao país, e o adormeceu como criança ao colo materno, que no conchego esquece os peitos secos, e se não agita a medo de forte palmada, ensinada desde o nascimento  que, se escasseia a comida,  sobeja a porrada para quem reclama.
Esta substituição da comida pela pancada está tão enraizada nas mentalidades que já entrou na língua: é o gaiato que na escola ameaça colega "lá fora tu *comezas*!", e não tenciona repartir o farnel, antes quebrar a cara do infeliz, seguramente mais pequeno, porque, eis outra virtude nacional, espancam-se os mais fracos e bajulam-se os mais fortes, é a mãe que carinhosamente previne o filho após patifaria insignificante, "Vais ver a carga de cachaporra que *comes* quando o teu pai chegar a casa" -- até na capital, de falares mais finos, mais polidos à superfície, se diz das ordens do governo, das leis, das ordens do patrão, por mais abstrusas que sejam: "é *comer* e calar!"
É este o nosso Portugal conformado. O do "come e cala-te", em que se *come* sofrimento, adoçado embora pela linguagem metafórica, pelo que não espantará ouvir camponesa na feira responder a filho que, olhos aguados, lhe choraminga "Mãe, compre-me um bolo!" "Compro-te mas é uma pouca de merda!", isto porque a merda, fedorenta, pegajosa, colou-se não apenas às línguas, mas também às mentalidades —"Este país é uma merda!".
Dois verbos, *comer* e *calar*; um nome, *merda*. Três palavrinhas que resumem o salazarismo e delas  deriva  tudo o mais: o silêncio resignado; a miséria de um povo descalço, a subnutrição, o analfabetismo, a violência animalesca contra os mais fracos. O medo. 
Por isso, naquela  tarde de sexta-feira, chuvosa, tristonha, apenas se deviam ter visto autocarros e eléctricos apinhados de trabalhadores a caminho de casa, fartos da merda do emprego, cansados da merda da vida, parados na Baixa, no Martim Moniz, na Praça da Figueira, no Terreiro do Paço, pela merda dos automóveis de uns merdas engravatados que compram carros a prestações para  entupir as ruas da cidade, e impacientes com os engarrafamentos, com as bestas que são os outros condutores, ainda buzinam infernalmente, interminavelmente, ou exasperados metem a cabeça de fora da janela a berrar "Cale essa merda, não vê que ninguém pode passar?", inconformados com esta injustiça social que os obriga a ficarem parados atrás dos autocarros onde antes viajavam!
Por todo o lado estalam conflitos, "Vá bardamerda!" "Vá você, seu malcriadão!" "Oiça lá, sabe com quem está a falar?", e o pretenso figurão exige a presença das autoridades, mas é sabido que estas só aparecem quando não fazem falta, e o cavalheiro olha em volta, desconsolado: "Quem me agarra, que mato aquele malandro?"
Ainda o não sabem, mas a polícia está ocupada mais adiante, um punhado de estudantes armou arruaça, bloqueou a Almirante Reis, em breve todos estes cidadãos, proprietários de automóvel ou desclassificados utilizadores de transportes públicos, uns e outros inocentes, pacatos, respeitadores da ordem, cumpridores da Lei,  ver-se-ão  envolvidos na  pancadaria, pois a polícia de choque quando carrega é como toiro bravo, também ela só vê pela frente o vermelho que a enerva, ai dos mais exaltados, esses que ciosos dos seus direitos de prioridade, garantidos pelo Código da Estrada,  exigem a presença das autoridades -- levarão umas boas cacetadas, um ou outro será detido e levado para os calabouços do Governo Civil, enquanto a malandragem que armou o desacato escapa por entre as malhas policiais como as ratazanas pelas sarjetas da cidade."

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Solidões

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people (Ah, look at all the lonely people!)
Where do they all belong?
(Eleanor Rigby, The Beatles, Lennon/McCartney)

Hospital. Na sala de recobro, a enfermeira corre a cortina para que paciente, chegada de intervenção cirúrgica, desperte com recato da anestesia.
– Dona (chamemos-lhe Leonor) – Dona Leonor, está-me a ouvir?, insiste. A paciente, pela voz ainda nova, responde debilmente. Paulatinamente, regressa à consciência.
– Dona Leonor, quem quer que chame para junto de si?
Não ouço a resposta. A enfermeira insiste: – Quem é que a vem buscar ao hospital? Assim, não pode sair! Tem de ter alguém que a leve. Não tem família? Uma amiga? Uma vizinha, uma conhecida? A doutora não a deixa sair sozinha!
Não sei como acaba a história. Bem não é, certamente, qualquer que tenha sido o desfecho.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

L'arroseur arrosé

O S. era um velho implicativo, quezilento, amigo de armar zaragata por ofensas reais ou imaginárias. E passava o tempo a sacanear os outros, em parte por maldade, em parte para se vangloriar das partidas pregadas.
Por isso, num dia em que pediu ao dono do café e padaria que lhe guardasse meio cabrito amanhado na arca congeladora, este regozijou e prontamente convidou os amigos: -- Logo à noite apareçam e tragam o vinho, que vou assar meio cabrito no forno!
A patuscada prolongou-se noite alta, bem regada a tinto, acompanhada com pão quente acabado de sair do forno. Para sobremesa, o dono do café quis contar a patifaria que tinha pregado ao S.: -- Sabem como é que arranjei este cabrito?
Pois não sabiam. E aguardavam curiosos a explicação, a pressentir patifaria: E o dono da padaria, ufano: -- Vejam lá que hoje me apareceu aqui o S. a pedir para lho guardar na arca!
-- Mas ele não tem cabritos!
E outro a adivinhar o sucedido: -- Só se foi o cão que lhe morreu ontem! Vais ver, o sacana esfolou-o, amanhou-o, cortou-o a meio para não desconfiares e pediu-te para o guardares na arca!