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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Algazarra canina nocturna

Tenha o sono pesado, mas mesmo assim acordou-me pelas duas da manhã a serenata nocturna de cão de que já aqui falei. 
Tempos atrás, a tentar minimizar o ruído, mandei instalar janela exterior em vidro duplo no meu quarto, que assim ficou com duas janelas, estores no meio. 
Tentei pensar noutras coisas. Sentir pena do cão. Inutilmente. O ladrar incessante, a procurar desgarrada, atravessava vidros, paredes duplas, portas interiores fechadas, entrava-me pelos ouvidos tapados pela roupa.
Peguei na almofada e percorri todas as divisões em busca de silêncio. Em vão. O ladrar enchia a casa.
Desesperado, levantei ruidosamente o estore da janela das traseiras, de onde vinha o barulho, e gritei para a escuridão o mais alto que pude, várias vezes: Cale esse cão! São horas de dormir!
Não se acendeu uma luz que fosse, não se ouviu porta ou janela a abrir, voz a repreender o cão -- que continuou o seu concerto nocturno, imperturbável.
Com sono, fico doido. Telefonei à polícia. 
Amável, o agente quis saber qual o número da porta do cão. Expliquei, o menos atabalhoadamente que consegui: o ladrar provinha de um grupo de várias casas, nas traseiras da minha, havia árvores a tapar a visão e no escuro...
O agente precisava das coordenadas para o Auto de Notificação... Eu devia saber quem tinha cão. Senhor agente, aqui todos temos cão! 
Agradeci, pedi desculpa pelo incómodo, o polícia ficou de mandar um carro verificar se havia ruído perturbador logo que tivesse um disponível. A conversa, longa, decorreu à janela, aberta, para o agente ouvir o chinfrim e não pensar que sou daqueles que em noite de insónia resolve chatear a polícia. Quando desliguei --
O cão calou-se! Misteriosamente, inexplicavelmente!
Agitado, dei voltas na cama durante horas, a medo de que recomeçasse a algazarra, ou que a polícia me tocasse à campainha a perguntar de onde provinha a altercação. 
Acordei rabugento, tensão arterial alta -- é assim que, na minha idade, nos dá enfarte, AVC, coisa ruim. 
Estou convencido de que o cão me ouviu a telefonar para a polícia e resolveu calar-se antes que ela chegasse. 
Ou os donos.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Canícula

De dia, transpiro como camponês ao menor esforço, fujo do Sol como vampiro, fora de casa procuro a frescura da brisa nas sombras, à noite abro as janelas e às escuras, a evitar as melgas, fico no silêncio possível, constantemente cortado pelo ladrar furioso da canzoada da vizinhança. 
Assim passo estes dias de Verão. Manhãs a tentar escrever o próximo romance e um conto, ginásio, tardes ocupadas com colheitas, regas, muita erva para mondar, bricolage, noites à espera que a casa arrefeça um poucochinho. 
Alegra-os a presença mais frequente dos netos, agora que as aulas dos mais velhos terminaram, o prazer de poder fazer aquilo de que gosto, uma mini à tardinha, um uísque ao anoitecer.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Neste ofício de apagador

Ontem à noite e hoje de manhã apaguei irreversivelmente largas dezenas de textos, antigos e recentes. A purga vai continuar. 
Para mim, escrever é sobretudo isto: apagar. E recomeçar, tentando fazer melhor. 
Preciso destes banhos de humildade. Tanto, que entre os raros textos que poupei estão autocríticas tão duras que me é doloroso relê-las. Ficam, são preciosas, volto a elas regularmente, não por masoquismo, mas para que os elogios me não façam perder o norte.
Nem tudo, porém, é tortura. Creio que veio até mim, depois de procura árdua, nova história, ainda com desenvolvimento desconhecido, já com o tom e a toada justos. 
Assim escrevo. Levado pelo ritmo, por bússola o instinto, por modelo o triste Avalor que parte em barca sem leme em busca da Arima amada -- personagens de uma história para a qual a narradora inicial não vislumbra leitores.
Mais fácil, mais produtivo, seria fazer ponto-cruz, arranjar desenho prévio e encher, encher. Só que não é esse o meu modus faciendi...

domingo, 5 de junho de 2016

Na morte de Moamed Ali

Morreu Moamed Ali. (Ou lá como escrevia o nome quando deixou de ser C. Clay).  Morreu o pugilista que tirou o boxe das sarjetas e o tornou no desporto mais bem pago da actualidade. O homem do poder negro, uma das vozes importantes da emancipação negra nos EUA, o homem que não hesitou em recusar combater no Vietnam como soldado, tendo-lhe então sido roubados todos os títulos.
Mas M. Ali, com a sua coragem e grandeza de carácter, sabia que é o homem que dá valor aos títulos, não são os títulos a dar valor ao homem. E após o fim da guerra do Vietnam, voltou aos ringues, velho de 37 anos, para defrontar campeão que tinha posto KO todos os campeões que, no passado, tinham vencido Ali.
"Sou mais bonito, sou mais inteligente, vou ganhar aos pontos", fanfarronava Ali, para gáudio dos jornalistas, que acorreram depois ao combate para presenciar o massacre do velho gabarolas.
O adversário, o grande Joe Frazier, contou depois:" Bati-lhe tanto que depois do quarto assalto já não conseguia levantar os braços".
E Ali, o pugilista mais inteligente de todos tempos, com um jogo de pés inimitável, sobreviveu ao massacre, inverteu a situação, para estupefação geral venceu, não aos pontos, como tinha anunciado, mas por KO.
Não se pode ganhar sempre. Hoje, perdeu com adversário invencível. E se neste breve post há incorrecções e exageros, queiram desculpar. Afinal, trata-se de Moamed Ali, o maior de todos os tempos, talvez o último dos homens de uma espécie em extinção.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Início de Junho

Numa semana, a erva junto às cepas cresceu tanto que as abafava. Eis a vinha, com a erva roçada ainda fresca no chão. E alternei o trabalho no campo, que incluiu a preparação de terra e sementeira de dois quilos de feijão, com a pintura: o portão da direita estava no estado do da esquerda -- que, muito em breve, sofrerá intervenção idêntica. Logo que eu recupere do cansaço dos três últimos dias.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Cem mil visitas

Este blogue ultrapassou as cem mil visitas. Número nada impressionante, se considerarmos que sobrevive há uns dez anos.
Falava-se então muito de blogues, e eu perguntei como criar um a aluno meu, do Karaté, rapaz então com os seus doze, treze anos, inteligente, educado, aplicado e rigoroso nos treinos -- com a internet cortada pelos pais por se ter envolvido em pequena patifaria precisamente com o seu blogue -- asneiras da adolescência, quem as não fez?
-- É fácil, explicou-me, vai ao blogspot, escolhe criar blogue...
E assim nasceu este blogue. Sem objectivos claros, sem temática caracterizadora, apenas porque sim.
Entretanto, os blogues proliferaram, frutificaram como as faveiras em Maio, como elas muitos secaram.
Este, embora com manutenção irregular, vai andando. Como nós...

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Vaidade

Ao fim de um mau dia, leio isto, numa discussão entre leitores do blogue Horas Extraordinárias, de Maria do Rosário Pedreira:
"Entre Cós e Alpedriz ... foi dos melhores livros que li nos últimos tempos!
Se fosse pela notoriedade do autor ou pela divulgação que teve, pela editora... jamais o teria lido!"
MUITO OBRIGADO!

terça-feira, 10 de maio de 2016

Verão Quente (3)

Verão quente (3)
Estão a ver o boné da foto do Salgueiro Maia? É um quico. Fazia parte da farda de de trabalho, a n.3, se a memória me não falha. Sem valor especial, ao contrário, por exemplo, das botas de trabalho.
Pois no Verão de 1975 estava eu destacado num dos quartéis de Santa Margarida e entrei no bar dos sargentos para um café.
Sempre distraído, paguei, peguei o boné de cima do balcão, e saía quando um primeiro sargento me detém, puxando-me pelo braço. Rudemente.
-- Nosso furriel, esse quico é meu!
Olho-o espantado. Levo a mão à cabeça -- descoberta. Nego.
E ele, malcriadão: -- Vá-se f..., o seu está aí! -- e apontou para a presilha das minhas divisas de segundo furriel.
Pois estava! Tinha-o lá prendido ao entrar no bar.
Nem me tentei desculpar. Apressei-me a sair, a evitar os remoques do sargento-chico, a arengar contra o chico-esperto que lhe queria roubar o quico, ah, mas ele tinha-os bem abertos, não era qualquer furriel maçarico que lhe passava a perna!

sábado, 7 de maio de 2016

Verão Quente (2)

A FBP, pistola metralhadora do sargento de serviço, deu em disparar crivando de balas a parede em frente à qual os soldados alinhavam para a formatura da manhã -- e eles, mandando a disciplina ao tal sítio, instantaneamente se lançaram por terra.
-- O meu sargento é doido ou quê?
O pobre sargento de dia, incapaz de controlar a arma, que disparava incessantemente em todas as direcções, gritava em pânico: -- Venham-me cá parar isto!
-- Vamos mas é o c...! Tire o dedo do gatilho, vire essa merda para o ar!
A FBP só parou de disparar quando esvaziou o carregador...

Verão. Quente (1)

1975. A contra-revolução crescia. No Tejo, ameacadores navios de guerra da NATO. Em Rio Maior, barricadas. Caça aos comunistas no Oeste, incêndio das sedes do PC. 
No meu quartel, deram camuflado a cozinheiros e a padeiros, passaram-nos a operacionais, a eles que mal sabiam manejar a G3 e pareciam ansiosos por a usar. Um dia, vi da minha janela um açoreano gritar para outro: -- Pá, dá-me um tiro!
-- És doido ou quê?
-- Ah, não dás? Atão dou eu! 
E zás, aponta-lhe a G3, pum! Pum!
Grita o outro, resguardado na camarata: -- Pára com essa merda, és doido ou o c...?
A medo, assomam às portas e janelas outros prontos, acaba por vir o oficial de dia, cauteloso,
-- Sim, meu aspirante, fui eu, esta merda disparou-se não sei como!
Segue responso: não deve ter bala na câmara, e a arma deve estar travada. Tiros, só contra a reacção. E furriel ranhoso acrescenta: -- E contra o M-R- Pum-Pum! Podes furar esses cabrões todos!

sábado, 30 de abril de 2016

O galo de ferro

Branquejam pela encosta as paredes das casas, vermelhos os telhados — e, acima de todas elas, sobressai a torre da igreja, encimada por pára-raios agressivamente virado para o céu, servindo de eixo a cata-vento em forma de galo orgulhoso, bico sempre apontado para barlavento, cauda larga para sotavento.
Do galo se diz que é inconstante como a aragem que o faz rodar, mas se o observássemos sem ideias pré-concebidas, dia após dia, ano após ano, melhor ainda, se o pudéssemos acompanhar ao longo das gerações que passam sob o seu olhar indiferente, concluiríamos, como eu próprio já concluí, que também ele tem as suas querenças, visto que, podendo apontar em qualquer direcção, o vejo de manhãzinha virado para Nascente, como se também ele, na sua mudez férrea, quisesse saudar o nascer do Sol, ou o cacarejar que vem dessa direcção lhe animasse uma qualquer molécula orgânica, depositada pelos pardais oportunistas que o usam como poleiro, sujando-o indecorosamente... 
A mim, que raramente termino aquilo que começo, volúvel como o vento, de tal forma que já troco barlavento com sotavento, agrada-me este amigo de outros tempos, testemunha muda de homens e de aragens, que tanto sabe e tudo cala, apenas preocupado em afastar a cauda do desconforto, o olhar vazio fitando o infinito. 

Coisas que não esquecem

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Onde estavas, Zé, no 25 de Abril?

A dormir.
Era uma da tarde e acordou-me a minha mulher, tínhamos casado um mês antes, para me dizer que, segundo boato ouvido na padaria, havia um golpe de estado na capital. "Pois sim, deixa-me  mas é dormir", devo ter respondido, com o sono de pedra dos vinte anos, e voltei a adormecer, não sobre fofo colchão, mas no chão, que cama não tínhamos. 
Naquela semana fazia na fábrica o turno da meia noite às oito e precisava desesperadamente de dormir. Também não tínhamos televisão nem rádio. Nem mobília nenhuma, exceptuando um mocho comprado no mercado.
Vivia na Marinha Grande e trabalhava (operário de plásticos) em Leiria. Motivos: estão em Do lacrau e da sua picada. Chego à cidade ainda de dia, procuro sinais de agitação, nada. Na Praça Rodrigues Lobo encontro o Luís Marques, também ele na clandestinidade, que não via há coisa de um ano. A notícia do golpe de estado trouxera-o até à claridade. Tal como eu, não acreditava que viessem aí grandes mudanças: "Coisas do Spínola e dos spinolistas", terá dito, e eu acreditei. E fui trabalhar, porque o patrão também não tinha ouvido falar em revolução.
Muita coisa mudou. Logo nos dias seguintes, aqueles que até então nos insultavam quando nos manifestávamos nas ruas contra a guerra colonial e o fascismo, que telefonavam à polícia quando pela calada da noite pintávamos paredes, que nos denunciavam como perigosos agitadores comunistas ao encontrarem propaganda nos quartos alugados, reconverteram-se ao vermelho, mas só no cravo na lapela, e muitos tornaram-se guardiães do regime.
Apesar deles, do dia de trabalho para a nação, do fim da luta de classes que apregoavam, o país mudou. Tanto, e para melhor, que está hoje irreconhecível. 
Aos que fizeram a revolução, agradeço a criação de condições para acabar com a ditadura, a sua polícia política, a guerra colonial, para democratizar e desenvolver. Embora, não poucas vezes, tal ter sido conseguido contra eles -- e em dia de festa não é bonito lembrar tais coisas. 
Quanto ao povo, esse está nas praias, aposto, a festejar feriado a que dá tanta importância como ao 5 de Outubro, ao 1 de Dezembro, à Nossa Senhora Não-Sei-de-Quê...

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Sexo e género

SEXO é uma categoria biológica; GÉNERO é uma categoria gramatical. Sobre a categoria biológica, que se pronuncie quem sabe; mas sobre a categoria GÉNERO, lembro que em Português só pode ter um de dois valores: Masculino e Feminino, diferentemente, por exemplo, de línguas como o Inglês, que têm também o GÉNERO Neutro. A gramática de uma língua não é politicamente correcta. É o que é, e importa respeitá-la. Não o fazer, por moderno, ou chic, ou prá-frente que se queira parecer, apenas revela ignorância, que nada abona em favor do partido que até tem líder com mestrado em Linguística. Dizem.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Batatas com pele e fruta por descascar

Parece ter virado moda em tudo o que é restaurante, tasca, boteco, servir as batatas com pele -- a murro. O que era uma receita camponesa, que muito aprecio no tempo da batata nova, generalizou-se. Poupam em mão de obra, poupam na matéria prima.
Acontece que não gosto da pele dura das batatas velhas, e vejo-me em palpos de aranha para a separar da polpa quando me servem tal manjar. Mas há outra razão para querer as batatas descascadas: é na pele que se acumulam os pesticidas utilizados tanto durante a produção como, sobretudo, na conservação. Eu tenho ouvido cada história! -- por exemplo, há agricultores que aquando da colheita mergulham durante 24 horas os sacos de batatas em Decis, um insecticida não homologado para o efeito. Ou noutro qualquer, que tenham em armazém para combate ao bichado da fruta!
Depois, há os tratamentos regulares, no mínimo mensais, com insecticidas em pó para combater a traça da batata (a "fia-maria" , diz-se na minha terra) e antiabrolhantes para evitar que grelem, perdendo peso e qualidade.
E então, mesmo bem lavadas, o que pouco adiantará pois os pesticidas costumam ser resistentes à lavagem, seguem para o forno com a casca onde os resíduos se acumularam -- o que não mata engorda, diz o povo.
Batatas assadas a murro -- sim! Mas novas, quando a pele é tenra e ainda não receberam cobertura de pesticidas. E apenas das minhas, que sei o que levaram, quando levaram.
Dir-me-ão: assim, não podemos comer nada! Discordo. Precisamos é de saber o que comemos. Os supermercados deveriam apresentar garantias de que batatas, fruta, hortaliças foram analisadas e estão isentas de resíduos químicos ou que estes se encontram abaixo dos limites internacionalmente fixados. E, para vos preocupar um pouco mais, acrescento que não são as grandes associações de produtores que estarão em incumprimento, mas, mais provavelmente, os pequenos agricultores que, mal informados, vendem os "bons" produtos do campo sem controle, especialmente nas regiões de minifúndio, em que estreitas leiras de horta pegam com pomares, nada impedindo que as hortaliças frescas vendidas na praça ou mercado pela manhã tenham levado banho de pesticida que o vizinho aplicou no seu pomar durante a noite, quando faz menos vento...
A fruta -- só como da minha, e na época -- fica para outra ocasião. Mas descasquem-na, se não for da vossa árvore. E não obriguem as crianças, como tentaram fazer em tempos a um dos meus netos na escola, a comer a fruta com casca.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

A etimologia de um palavrão

Ainda eu era professor quando uma aluna de 12 ano, a protestar contra preconceitos, me deu como exemplo a palavra "caralho", que, dizia ela, se reportava a um dos mastros das caravelas, pelo que mandar alguém para o dito cujo significava, no tempo dos Descobrimentos, mandar subir ao mastro. Sempre valorizei, e muito, o facto de os meus alunos serem capazes de pensar pela própria cabeça e de defenderem os seus pontos de vista com argumentação sólida e nunca me agastaram assuntos ou palavrões, contanto que fossem discutidos com seriedade, como era o caso.
Porém, duvidei da etimologia e prometi verificar. Porque, como lhe disse, eu já tinha encontrado a palavra, ou o palavrão, em textos muito mais antigos, por exemplo nas Cantigas de Escarnho e Maldizer e lembrava-me até, mas não citei, de uma de Afonso X, rei de Leão e Castela, que exaltava o peninsular, "cuja grossura sua" as damas preferiam.
Assim fiz. Mas a falsa etimologia do palavrão parece ter-se tornado "mito urbano", estribado na crença actual de que toda a informação encontrada na internet é igualmente válida, agravada com a falta de exigência quanto ao rigor das fontes.
Na falta de um dicionário etimológico credível, o Professor Lindley Cintra, de quem tive o privilégio de ter sido aluno a Literatura portuguesa III (Teóricas) e Linguística Românica, recomendava o Dicionário da Porto Editora. Continuo fiel aos ensinamentos do Mestre por nada de novo ter surgido de então para cá em termos de dicionários etimológicos.
E é esta a a tipologia proposta no referido dicionário: "Do latim *caraculu-, «pequena estaca»"
Aqui vai portanto a correcção, embora convencido da inutilidade. A palavra é, repito, muito anterior aos Descobrimentos, o que não invalida que nessa época a possam ter empregado para designar mastro de caravela ou nau. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Segurança Social e obras públicas

Desaprovo e fico muito preocupado com a decisão de António Costa de usar 1400 milhões de euros da Segurança Social para financiar um programa de construção e recuperação do património. O dinheiro dos trabalhadores jamais deveria ser usado para financiar os patrões, no caso as grandes construtoras que tanto têm lucrado com a política de betão e obras públicas. 
Que me diz a isto, camarada Jerónimo? Outro sapo vivo que vai engolir?

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Chuva e fome

A chuva que insiste em nos incomodar, e a mim me impede de plantar as batatas, era há apenas meio século causa de desemprego e fome -- e não era a fome de que hoje os jornais nos falam, era aquela com que se definhava e morria, que não havia então subsídios, nem apoios, nem banco alimentar contra a fome, nem solidariedade organizada. Nesse tempo duro, de penúria e de falta de quase tudo, passei por privações hoje inimagináveis, embora nunca tenha passado fome, nem andado descalço e semi-nu à chuva por falta de roupa e calçado. Mas vi, recordo, e dei testemunho, quanto mais não seja para que se nos queixarmos de barriga cheia, não o façamos na ignorância daquilo por que os pais de muitos de nós passaram.
"Chuva e vento, vento, chuva e frio. Gemia água a terra, rebentaram as nascentes, os regatos cresceram até serem novamente rios, submergiram as pontes, matando mesmo a filha do Mouco. De manhã, atravessara com outras mulheres o rio de Cós, que no Verão é apenas um humilde fio de água, levando o jantar ao homem, empregado na padaria, as outras seguindo para a Castanheira, com o comer para os companheiros, que laboravam num lagar de azeite. Demorou-se, ajudando-o a carregar as braças de pinheiro ainda verdes com que aquecia o forno, mal protegidas da chuva numa arribana próxima, e no regresso encontrou a ponte já submersa pela inundação. As companheiras recearam atravessar a enchente, mas, ou afoita ou em fezes pela criança de dois anos que deixara sozinha fechada em casa, certamente a chorar desalmadamente há horas, acordando só e sentindo-se talvez abandonada, aventurou-se. Quando já estava na outra margem, afundou-se subitamente numa cova oculta na água barrenta e, apesar de não ter perdido o pé, o ar contido nas roupas levantou-a e a enxurrada arrastou-a sem que ninguém lhe pudesse valer; só no dia seguinte o corpo foi encontrado, numa várzea do Valado.
E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os pexins. Há meses que não podiam pescar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.
Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.
Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.
Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha seja o vinho vendido."
José Cipriano Catarino, Entre Cós e Alpedriz, Leyaonline 

terça-feira, 15 de março de 2016

Leiria, 1968

A cidade cabia toda no olhar se a observássemos de um dos pontos mais altos, como o Castelo ou a Senhora da Encarnação. Ia-se a pé a todo o lado, esquivando nas ruas antigas os carros impacientes, de buzina fácil, novos senhores da cidade frequentemente envolvidos em toques e choques. Logo acorriam mirones das lojas e cafés, formava-se ajuntamento, todos conhecedores do código da estrada, estalavam discussões gritadas, por vezs violentas,
-- Este senhor é que tinha prioridade porque vinha da direita!
-- Qual prioridade, qual quê, o senhor não parou porque não quis, já eu tinha passado o eixo da via quando me bateu!
-- Quem bate por trás é sempre culpado, sentenciava camponês que viera feirar ao mercado.
-- Oiça lá,  sem matarruano, o que é que você percebe de leis?
Rolam já embrulhados pela calçada, ora o citadino por cima, ora o campónio -- e quando um logra montar a cavalo o outro, chega-lhe uns sopapos pouco convencidos.
-- Ninguém os aparta?, pergunta mulher, com vontade de estragar o divertimento da turba.
-- Ora, não se matam. e quem se mete de permeio apanha também.
É o que acaba de acontecer, homenzarrão fiado talvez na corpulência tenta separá-los, ei-lo que rebola também, camisa rasgada na bulha com o citadino, enquanto o campónio, livre do ataque, mete a fralda nas calças, apanha do chão a boina, incentiva o grandalhão, feliz com a desforra por interposto paladino.
Apita a polícia, separam-se os brigões, ninguém quer questões com a autoridade, não há vencedor nem vencido, ambos se ameaçam ainda, fingem querer atirar-se um ao outro, confiantes em que os braços que os seguram os não largarão e a polícia não permitirá mais desacatos. 
E é junto dos agentes que condutores acidentados e testemunhas argumentam, a um mais exaltado acalma-o aviso ameaçador -- Veja lá se quer ir à esquadra!, fita métrica na mão os polícias medem a rua, a distância às rodas, em bloco de notas esboçam croquis do sinistro, apitam novamente, ordem para dispersar, e as pessoas, obedientes, reentram nas lojas e cafés, onde prosseguirão as discussões acaloradas, mas agora pacíficas.
Outras vezes é a sirene da ambulância a soar imperiosa, exigindo passagem no caos do trânsito, ainda sem sinais nem rotundas, sobre tamborete no cruzamento sinaleiro impaciente de luvas brancas manda encostar, dar passagem, desimpedir o caminho, e o meu colega Ramalho corre à frente dos demais garotos até ao hospital, a uns centos de metros, a certificar-se de que o sinistrado não não é o pai, vendedor da Carbo Sidral sempre na estrada e amigo de carregar no acelerador.
Nas tardes amenas, após saída da escola e lanche, desço ao centro, detenho-me na contemplação das montras, dos cartazes do cinema, depois sento-me por instantes no jardim, alheado, em sonhos permanentes, saudoso da família, solitário na cidade, antes de passar pelo quiosque onde compramos e vendemos livros usados, Mandrake, Major Alvega, "cobóis" da colecção Seis Balas, Os Cinco e os Sete, policiais -- banda desenhada e literatura de cordel. Por vezes,  sentam-se homens no mesmo banco, tentam meter conversa, pedem lume ou oferecem cigarros. Sem sucesso, não fumava, não tinha fósforos, e conversas só comigo mesmo. Paneleiros, saberia mais tarde, mas naquele tempo, com a ingenuidade aldeã dos treze anos, paneleiro era apenas insulto, como ranhoso de merda, cabrão, filha da puta. Perturbado pelas interrupções,  levantava-me, prosseguia as deambulações. Peripatético, diria de mim se então conhecesse a palavra. Andar e pensar, andar e sonhar, como os heróis dos meus romances, a caminharem na ponte dos navios de trás para diante, de diante para trás, enquanto davam caça a piratas ou congeminavam planos de batalha, ou nas calmarias pensavam nas amadas distantes, imaginando-as fiéis, a prepararem o enxoval para casamento quando eles forem promovidos por bravura.
Interrompia o devaneio ao passar junto do stand da Ford, a admirar embasbacado o sonho reluzente de todos os rapazes da cidade, um Ford Capri, modelo desportivo, que me fitava com a soberba expressa nos seus grandes faróis.  Mas, novidade, acima deles há uma placa: VENDIDO. A quem, interrogava-me atónito, quem podia dispor assim de cento e vinte contos? O dono de uma fábrica de plásticos, como aquela onde eu seria operário anos depois -- outra história, já aqui contada. 
Era, aprendia,  o poder indecente do dinheiro, a roubar tudo o que nos encantava, tal como os jogadores de futebol do União nos levavam, logo do portão da escola, as beldades que amávamos platonicamente, e a nós, pobres admiradores mal vestidos, magoados com o olhar de desdém que elas nos deitavam ao entrarem para os carros último modelo dos futebolistas, só restava desabafo amargo: Putas! 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Ainda a guerra com o MEO

Lá para meados do mês, posso ficar incomunicável durante uns dias -- sem telefone, telemóvel, internet, etc.
Isto porque, cumprindo com a minha palavra, como sempre procuro fazer, cancelei agora TODOS os serviços do MEO. 
Como se lembrarão, a guerra começou por  alguém do MEO falsificar documento imputando-me um contrato de banda larga móvel a que nunca aderi e a empresa, abusando da minha confiança, ter retirado dinheiro aproveitando autorização para débito directo concedida unicamente para o serviço M4O;  com o cancelamento, o conflito aproxima-se agora do fim, embora ainda me esperem muitas irritações e dissabores, que o mais difícil de esfolar é o rabo.
Só posso lamentar que uma empresa da dimensão do MEO se tenha recusado a apurar em processo interno o sucedido, identificando e agindo contra o autor da vigarice, optando por perder irremediável e definitivamente cliente que já vinha dos tempos em que apenas havia telefone fixo.