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quinta-feira, 30 de outubro de 2014
A lição do estucador
Os dois estucadores, cada qual a trabalhar num lado da sala enorme, aperceberam-se da entrada de um dos encarregados. O mais velho, homem magro, seco, a avizinhar os cinquenta, continuou na sua labuta, com o rigor e a calma habituais. O mais novo, jovem recluso da Prisão-Escola de Leiria, deu em lançar frenético estuque para o tecto, a todo o instante gritava-me: -- Massa! Traz mais massa depressa! Massa! E eu corria a dar-lhe serventia, estranhando, na minha juventude, tanta energia súbita...
O encarregado começou a implicar com o mais velho. Que pusesse os olhos no jovem. Porque afinal ganhava bem mais. Para fazer menos. A conversa depressa azedou.
Às tantas, ouço ao velho estucador: -- A chaminé ainda fuma e ainda tenho batatas na despensa!
Sem mais palavras, desceu do andaime, juntou as ferramentas e ala!
Também eu, que vou tendo batatas e lenha para o fogo, tenho a presunção de ser livre como esse estucador que nunca mais vi. Independente como ele. Com a arrogância de dispensar padrinhos, recusar empenhos, de não precisar das boas graças de nenhum merdas, dos muitos que infestam este país, que, por isso mesmo, fede insuportavelmente.
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
O morcego e a gripe das galinhas
Os media alvoroçavam o país. Era a pandemia de gripe. O governo decretou registo obrigatório nas juntas de freguesia das aves de capoeira, potenciais transmissores do vírus. Cidadãos apavorados chamavam as televisões, exigiam que toda a ave encontrada morta fosse analisada. Com o aparato protocolar. Na minha escola colocaram frascos de desinfectante, resmas de folhetos a alertar para a doença, a indicar procedimentos preventivos, arranjou-se uma sala para isolamento de aluno que fizesse atchim! até que chegassem técnicos do centro de saúde. Um colega abria as portas com toalhas de papel, recusando-se a tocar nos puxadores...
Pois com o país paranóico, um cidadão telefona em pânico para a protecção civil: tinha encontrado um morcego morto, exigia que fosse analisado. O responsável, não sabendo o que fazer, telefonou ao delegado de saúde.
-- Não posso fazer nada, vou a caminho do Algarve para umas férias...
-- Ó doutor, o homem não se cala...
-- Diga-lhe qualquer coisa...
-- Mas ele não sossega! Exige, por força, a presença do doutor!
-- Já lhe disse que não posso...
De repente, o responsável da protecção civil teve uma ideia, daquelas que nos fazem gritar como o sábio da antiguidade: Eureka!
-- Ó doutor, os morcegos não são aves!
-- É isso! Diga ao homenzinho que morcego não é ave, não apanha gripe das galinhas!
(História ouvida ao Nuno, em plena pandemia. Que me ocorreu agora ao ler um comentário sobre morcegos.)
Pois com o país paranóico, um cidadão telefona em pânico para a protecção civil: tinha encontrado um morcego morto, exigia que fosse analisado. O responsável, não sabendo o que fazer, telefonou ao delegado de saúde.
-- Não posso fazer nada, vou a caminho do Algarve para umas férias...
-- Ó doutor, o homem não se cala...
-- Diga-lhe qualquer coisa...
-- Mas ele não sossega! Exige, por força, a presença do doutor!
-- Já lhe disse que não posso...
De repente, o responsável da protecção civil teve uma ideia, daquelas que nos fazem gritar como o sábio da antiguidade: Eureka!
-- Ó doutor, os morcegos não são aves!
-- É isso! Diga ao homenzinho que morcego não é ave, não apanha gripe das galinhas!
(História ouvida ao Nuno, em plena pandemia. Que me ocorreu agora ao ler um comentário sobre morcegos.)
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Lá vai o gajo!
— Para a semana, lá vai o gajo!
E lançou em voo cana, a imitar o avião em que partiria para a América.
Pois um dia o gajo voltou, a férias com a família. Ele transmudado em adolescente gringo, no vestir, nos modos, nos interesses. Esquecera por completo as amizades de criança, olhava com desprezo para a nossa pobreza, que fora a sua até aos cinco anos. Naquele tempo, em que na aldeia as mulheres cobriam as tranças com lenços, e pouco mais descobriam que as mãos calejadas, as unhas sujas, as canelas peludas, os pés encardidos do pó dos caminhos, a irmã, mais velha, género boazona, deslumbrava a rapaziada com os seus decotes generosos, hot pants reduzidos a expor pernas depiladas, tentadoras coxas bronzeadas que enlouqueciam a rapaziada, a sonhar abri-las. (Ah, não tivessem arrancado as vinhas, e elas poderiam contar das inúmeras punhetas por lá batidas em sua honra por chusmas de rapazes augados!) O pai, que partira cavador, terceira classe feita, trajava agora como turista americano, sapatilhas e meias brancas, calções de cáqui, chapéu de palha, máquina fotográfica reflex a tiracolo. Contavam as velhas que o encontravam meditativo no cruzamento de caminhos, a tirar fotos a coisas sem jeito nenhum, ou a escrever em caderno que sempre o acompanhava. No adro da igreja os homens escutavam-no curiosos: na América, lia vários jornais por dia...
— Portugueses? Há lá jornais portugueses?
Haver, havia. Mas ele apenas lia os ingleses. Porque nos portugueses era só quem tinha nascido, quem tinha sido batizado, quem tinha morrido...
Crescia o espanto nos olhos dos ouvintes, também eles a suspirar por quem lies enviasse carta de chamada para largarem as enxadas e partirem para esse Eldorado, onde se entrava cavador analfabeto e se vivia como lorde letrado. Só eu duvidava de tal proficiência linguística, que na véspera ouvira a mulher, a única da família que se preservara barroa, a contar à minha mãe, após se assegurar de que não havia homens por perto: — Sabes como é que se diz saia em Inglês? Acena a minha mãe negativamente. E a americana, triunfante: — Cona! Pois vê tu, e ria perdidamente, que aquelas cabras andam com a cona à mostra!
É de ternura o sorriso com que recordo estes pequenos nadas da infância, paradigmas daquilo que fomos, daquilo que somos. Pobre país de ludíbrios, de mistificações, de mentiras, em que nos cobrimos de ridículo a fingir ser aquilo que jamais seremos, talvez para esquecer que a vida é cana lançada em breve voo, depois — Lá vai o gajo!
segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Bullying avant la lettre
O Tóino brinca pacífico à porta de casa. E eu a gritar-lhe, preparado para fugir ladeira acima:
-- Eh bucha! Não me apanhas, não me apanhas, gordo de merda!
Ele ainda me persegue. Mas depressa se cansa, volta atrás esbaforido, a vociferar ameaças:
-- Ah, quando te agarrar, eu faço, eu aconteço....
À noitinha a minha mãe manda-me fazer recado: -- Vais a casa da avó da Luz...
Tinha de passar pela casa do Tóino.
-- Não vou, tenho medo...
-- Medo de quê, se ainda é dia? Toca a andar, seu medricas!
Cheguei a casa da minha avó ofegante, coração aos coices, da rápida corrida para evitar maus encontros. Mas no regresso, lusco-fusco, o malandro pegou-me de emboscada:
-- Desta é que mas pagas!
E agarrava-me por uma orelha, esbofeteava-me, -- Vá, chama-me agora bucha!
Eu choramingava, entre lágrimas e ranho: -- Vou dizer à minha mãe... É tanto me contorci e berrei que consegui libertar-me. Apenas me afastei três pulos, -- Ranhoso, bucha, és só banhas, paneleiro de merda! -- nem sabia então o que era isso. E ele, a quem a fúria dava asas, quase a apanhar-me outra vez, perseguia-me até casa, a rosnar ameaças espumadas: -- Agora é que as levas a sério, dou-te coça que te vai servir de emenda!
A chinfrineira atrai à porta a minha mãe. -- Que guerra é essa, vamos lá a parar com isso!
-- É este bucha que me bateu e quer bater-me mais!
-- Não admito que me chames bucha!
-- Alguma lhe fizeste!
-- Eu? Vinha a passar de casa da avó, agarrou-me de surpresa, começou a bater-me...
-- Porque tu esta tarde chamaste-me nomes!
-- Eu? E para a minha mãe: -- Que eu seja ceguinho...
A minha mãe estava brava. Um marmanjo daqueles -- bucha, gordo, ia eu dizendo, já agarrado às saias dela -- a bater no seu filhinho, criança indefesa, "relezica", e sem quê nem porquê.
-- Pois a tua mãe vai sabê-las e é agora!
Eis que as nossas mães ralham, a do Tóino que não aguenta mais ouvir a garotada a atentar-lhe o filho, que só quer brincar sossegado, a minha que nomes não fazem sangue nem marcas como as que tenho na cara: -- Ora veja-me lá o que o seu filho me fez ao garoto, acha bem?
-- E você acha bem que o seu lhe chame gordo?
-- Pois se o é!
Era, mas de doença! E doenças não se atiram à cara.
-- Doença? Vossemecê até conta por aí: "O meu Tó é uma boquinha abençoada, come uma dúzia de sardinhas de cada vez!"
-- Ora, o que come ou não come é comigo. Felizmente posso dar-lhas, não sou como umas e outras que têm de dividir uma sardinha pelos filhos.
-- Pobre, mas honrada, ouviu? E que o seu filho que não torne a bater no meu!
-- Ora, o seu que lhe não chame nomes! E fecha ruidosamente a porta de casa, farta da peixarada.
No caminho de casa, levo reprimenda forte: -- Ai de ti se eu sei que o voltas a provocar! Quem vai, vai, quem está, está.
-- Eu, mãe? Ele é que me bate primeiro...
-- Se não podes com ele à unha, chega-lhe à pedrada! Não te venhas é queixar para casa!
Pois sim. Mal saía da escola, atirava a mala para cima da mesa, enchia a boca de torrões de açúcar e corria escadas abaixo antes que a minha mãe me impedisse. Ainda me gritava da janela: -- Onde vais? Já fizeste os trabalhos de casa? Merenda primeiro!
-- Vou brincar, depois faço-os. Não tenho fome, como depois...
Lá estava o bom do Tóino a brincar pachorrento à porta.
-- Eh gordo! Bucha de merda, paneleiro! Não me apanhas! Não me apanhas!
E ele outra vez a espumar ladeira acima: -- Vais ver a coça que te dou quando te agarrar! Ainda te faço pior do que ontem!
-- Ó mãe, o bucha quer bater-me outra vez! grito, ele olha em volta, detém-se por um instante, o bastante para me pôr a salvo em casa, galgando de pulo as escadas.
-- Vieste a fugir de algum? E a minha mãe, desconfiada por me ver chegar bofes à boca, deita mão a verdasca justiceira.
-- Eu, mãe? Vim a correr para fazer os trabalhos da escola!
sexta-feira, 3 de outubro de 2014
O mistério da agricultura biológica
De todos os mistérios da vida moderna, o que mais me intriga é a moda da agricultura biológica. Nascido no campo, descendente de gerações de camponeses pobres, nunca consegui ver na agricultura o maná que agora apregoam. Antes sempre fiz minhas a as palavras daquele papa, Pio não sei quantos: "Há três maneiras de um homem se arruinar. Ao jogo, com as mulheres, com a agricultura. O meu pai escolheu a mais trabalhosa." (Já agora, o meu também. E morreu debaixo do tractor...) Depois, ouvi, li. Que a maior parte dos solos do nosso país não tem aptidão agrícola; que o relevo dificulta ou torna inviável a mecanização; que o clima, quase imprevisível, é uma ameaça permanente. Que sem financiamento...
Pois olho para a televisão e lá estão os profetas da novíssima revolução agrária — a agricultura biológica. Como os adeptos das novas religiões, não se contentam em acreditar, querem persuadir todos os outros de que há um mundo de oportunidades em cada recanto de urtigas, em cada silvado, em cada terra inculta. E trazem consigo um mundo de promessas, de certezas, numa área onde sempre predominou a incerteza da chuva, do Sol, das pragas, do escoamento dos produtos a preço compensador.
Escuto-os com atenção. Um cavalheiro jovem, bem falante, cujas mãos negam ter alguma vez pegado num cabo de enxada, numa tesoura de poda — ou não estariam assim mimosas, esguias, de unhas irrepreensivelmente cuidadas, a indiciar cuidados de manicure. Três jovens senhoras, branquinhas de cera como ele, por cujas faces nunca passou o quente Suão, a agreste nortada, os ventos carregados de água que fustigam o rosto como agulhas. A agricultura é agora actividade de salão?
Fico à espera de respostas: que é preciso para uma família sobreviver nessa agricultura? Que rendimento pode esperar, por mês, por hectare, ou por cabeça? Como fazem para que o regadio chegue às culturas, como as defendem das pragas, dos coelhos, dos javalis, das geadas inesperadas, das vagas de calor, das semanas de chuva constante em que tudo apodrece? Pagam impostos? Os filhos frequentam a escola? De onde lhes vem o dinheiro para as alfaias, as reparações e manutenções mecânicas? Têm assalariados quando o trabalho urge e não conseguem dar conta do recado?
Muita conversa, nada que me esclareça. E começo a suspeitar de que o negócio possa ser outro. Vender o produto. Dar formação, fazer cursos, talvez para desempregados. Eventualmente, receber subsídios...
Agoiro. Se assim for, como ficaremos quando os subsídios acabarem, que lá diz o povo, não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe? Ou os mercados saturarem. Ou, faltos de rendimento decente e seguro, aqueles que agora pegam na enxada desistirem da salsa, da segurelha e da hortelã?
Mas isto são apenas cogitações de Velho do Restelo, desconfiado de milagres, farturas e facilidades. Que viveu sem electricidade, sem água canalizada, sem saneamento básico, sem papel higiénico, a comer um pouco de carne nos dias de festa, nesses em que talvez houvesse gasosa ou laranjada para as crianças. Que não gostaria nada, mesmo nada, de voltar a viver nessa penúria cruel. E que não consegue imaginar como sobreviver, como sustentar família, com o produto da venda de ramos de ervas aromáticas, umas alfaces, couves, algumas cebolas ou tomates, ou batatas, conforme a estação.
Também eu defendo a produção nacional, o cultivo dos campos, a ocupação das gentes desempregadas. Poucas coisas me agradam tanto como o amanho da terra. Que não dá férias, nem dias de descanso. Que se não compadece com idealizações. Por isso me irritam os vendedores de ilusões. Que parece não dizerem aos candidatos a agricultor que o trabalho no campo é duro, ingrato, fedorento, porco, estraga as mãos, envelhece precocemente — e todo o investimento de uma vida pode ser perdido numa única noite de temporal, ou num desses incêndios em que o nosso Verão é pródigo.
FOTO: dez anos atrás, na sacha das batatas. Pois este belo batatal foi completamente destruído pelas geadas poucos dias depois. Assim é a agricultura...
terça-feira, 30 de setembro de 2014
Entre Cós e Alpedriz no Andanças Medievais
A escritora Cristina Torrão, cuja amizade muito prezo, publicou no seu blogue Andanças Medievais uma simpática nota de leitura referente ao meu segundo romance, Entre Cós e Alpedriz. Aqui vai o link, depois, e excepcionalmente, comentarei o meu próprio post:
Entre Cós e Alpedriz
Entre Cós e Alpedriz
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Eternidade, Deus, Alma, Física
Desde criança, quando a minha aldeia era o centro do Mundo e o Mundo o Universo, que penso insistentemente em questões que escapam ao humano entendimento: Deus, Eternidade, Criação, Alma, Vida, Morte, bem e Mal... Envelheci, mas nem por isso me deixei dos porquês da infância, sempre insatisfeito com a ausência de respostas convincentes -- que o correr inexorável do tempo torna mais urgentes e necessárias.
Por isso sou leitor compulsivo das obras de divulgação científica, na esperança de que a ciência me esclareça daquilo que as religiões são incapazes. E o último livro terminado, Eternity, God, Soul, New Physics, de Trevelyan,
é absolutamente fascinante. O autor, sem prescindir de linguagem científica rigorosa, discute estes assuntos que, em geral, andam arredados da ciência, relegados para a religião ou para a filosofia, e, tendo em conta recentes experiências intrigantes, que parecem indiciar a possibilidade de existência (ou, pelo menos, a concepção) de um espaço sem tempo (a Eternidade) e a Ciência da Informação, recupera velhas ideias, como o Idealismo e o Panteísmo.
Em termos muito sumários, faz da Informação, entidade abstracta, sem massa nem energia, mas com existência indiscutível, a chave para a resolução dos paradoxos da Mecânica Quântica, como, por exemplo, o facto de uma partícula, qualquer que seja, ter natureza corpuscular ou ondulatória -- dependendo da observação. Defende, sempre sustentado em experiências de laboratório, que não é a observação que determina a natureza corpuscular ou ondulatória das partículas (o que permitiu num passado recente a afirmação de que a Lua só lá está porque há alguém para a observar), mas a possibilidade de observação.
O Universo é assim constituído não apenas por matéria e energia, mas também, e sobretudo, por informação. Na síntese do físico J. Wheeler, "it from bit": as partículas são pacotes de bits.
Não há, na sua perspectiva, incompatibilidade entre as recentes descobertas da Ciência e a existência de Deus, Alma, Eternidade. Pelo contrário, essas descobertas parecem evidenciar, sustenta o autor, a verosimilhança dessas entidades postuladas pelas várias religiões desde tempos imemoriais.
Um livro que seguramente aborrecerá tanto os ateus convictos -- se Deus não existe, para quê perder tempo com Ele? -- como, por exemplo, os cristãos fundamentalistas, ao rejeitar a ingénua criação do Mundo por um ancião ranzinza, não raro ciumento, frequentemente colérico e vingativo -- o velho Jeová do Antigo Testamento. O Deus que nos propõe é uma recriação actualizada à luz do conhecimento científico do velho Panteísmo:
Por isso sou leitor compulsivo das obras de divulgação científica, na esperança de que a ciência me esclareça daquilo que as religiões são incapazes. E o último livro terminado, Eternity, God, Soul, New Physics, de Trevelyan,
é absolutamente fascinante. O autor, sem prescindir de linguagem científica rigorosa, discute estes assuntos que, em geral, andam arredados da ciência, relegados para a religião ou para a filosofia, e, tendo em conta recentes experiências intrigantes, que parecem indiciar a possibilidade de existência (ou, pelo menos, a concepção) de um espaço sem tempo (a Eternidade) e a Ciência da Informação, recupera velhas ideias, como o Idealismo e o Panteísmo.Em termos muito sumários, faz da Informação, entidade abstracta, sem massa nem energia, mas com existência indiscutível, a chave para a resolução dos paradoxos da Mecânica Quântica, como, por exemplo, o facto de uma partícula, qualquer que seja, ter natureza corpuscular ou ondulatória -- dependendo da observação. Defende, sempre sustentado em experiências de laboratório, que não é a observação que determina a natureza corpuscular ou ondulatória das partículas (o que permitiu num passado recente a afirmação de que a Lua só lá está porque há alguém para a observar), mas a possibilidade de observação.
O Universo é assim constituído não apenas por matéria e energia, mas também, e sobretudo, por informação. Na síntese do físico J. Wheeler, "it from bit": as partículas são pacotes de bits.
Não há, na sua perspectiva, incompatibilidade entre as recentes descobertas da Ciência e a existência de Deus, Alma, Eternidade. Pelo contrário, essas descobertas parecem evidenciar, sustenta o autor, a verosimilhança dessas entidades postuladas pelas várias religiões desde tempos imemoriais.
Um livro que seguramente aborrecerá tanto os ateus convictos -- se Deus não existe, para quê perder tempo com Ele? -- como, por exemplo, os cristãos fundamentalistas, ao rejeitar a ingénua criação do Mundo por um ancião ranzinza, não raro ciumento, frequentemente colérico e vingativo -- o velho Jeová do Antigo Testamento. O Deus que nos propõe é uma recriação actualizada à luz do conhecimento científico do velho Panteísmo:
And if we have the courage to look beyond the simplistic views thundered from pulpits and the primitive conceptions of ancient prophets, to analyze reality with minds enlightened by knowledge and reason, we see God right before us. Not as a glorious king on a golden throne aloof from the travails of humanity. Not as a remote, abstract force, a ruler of mathematical laws from which Nature evolves, indifferent to our sufferings. But as a transcendent Mind, interwoven with all of reality. This is the God of science, the pantheistic God, the God who suffers with us.
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sábado, 27 de setembro de 2014
Chuva civil não molha militar
O tempo convida à preguiça, a chusma de alertas laranja e amarelo que recebo do IPMA, à razão de dúzias por dia, desaconselha sair de casa, desaconselha ir para os Montes trabalhar no campo. Afinal, com os temporais previstos nada poderei fazer.
Mas lembro-me de que isto dos alertas, das previsões catastróficas, é recente. Meia dúzia de anos atrás saíamos e logo víamos se chovia, se ventava -- não havia então avisos de fenómenos extremos de vento. E os nossos antepassados foram à Índia, talvez por então não haver IPMA nem alertas. Eis-me portanto no campo, entre Terra e Céu, a fazer desparra tardia na vinha a ver se os cachos por vindimar aumentam de grau. Precavido com capa para a chuva pelo sim, pelo não. Lá pelas quatro e meia da tarde desponta sobre a colina nuvem suspeita. Como animal farejo o ar, quase sinto a electricidade: vem aí carga de água, vem aí trovoada. E eu não gosto nada de ser surpreendido por uma delas em cima do tractor. Pelas minhas previsões, a chuva vai desabar dentro de cinco minutos. Acertei em cheio e a chuva também, em cima de mim, a meio do percurso para casa. Acompanhada por granizo grosso como ervilhas e relampejar constante.
Não, não penso que teria sido melhor não ter vindo para o campo, não, não me dão saudades o conforto da casa, o sofá, um filmezito de sábado à tarde. Viver afastado da natureza não é, para mim, viver.
E os alertas? Pois até agora nada de mais: um bom aguaceiro, trovoada, nada que justifique tanto alarmismo. Compreendo que os meteorologistas precisem de se defender das acusações dos autarcas, mas se continuam a profetizar diariamente catástrofes acontecer-lhes-á como ao rapaz que para se divertir gritava "Lobo!"
FOTOS: (1) o Tex, cão a quem os alertas não assustam, sempre pronto para pular dentro da caixa do tractor e fazer-me companhia. (2) Temporal que se aproxima.
FOTOS: (1) o Tex, cão a quem os alertas não assustam, sempre pronto para pular dentro da caixa do tractor e fazer-me companhia. (2) Temporal que se aproxima.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Morrer nos Montes
Colho a maçã Starking, este ano abundante, lustrosa, sempre atento à escuridão que se adensa. Vem aí temporal. Mas o vício do campo apouca os receios da molha, até o maior, o de ser apanhado por trovoada em cima do tractor.
Chega até mim o dobre a finados do sino da aldeia. Coitado, outro velho que se foi, penso, de cada vez que venho à aldeia morre alguém.
Os primeiros pingos de chuva, grossos, esparsos, fazem-me correr para o tractor, acelerar para casa. Mesmo a tempo. Tocada a vento forte, a chuva cai bruta sobre a povoação, e eu já resguardado, começo novas tarefas, desta feira a preparar adega e utensílios para a vindima.
Telefona-me um amigo distante a dar-me triste nova: ao que leu no jornal, morreu nos Montes um jovem, 23 anos, em acidente de tractor. Assim morreu o meu pai, assim morreu um vizinho, assim têm morrido tantos outros, por cá e nos arredores. Sempre me choca a morte no trabalho, mais ainda quando se trata de um jovem promissor, cheio de sonhos de agricultura biológica, produção de ervas aromáticas, a amanhar encostas soalheiras que outrora foram férteis e ficaram perdidas até que ele, e outros como ele, as começaram a desbravar, lavrando-as, plantando-as, tornado-as num regalo para os olhos.
Mas o bucolismo, a pacatez campestre são ilusão. A beleza de uma terra bem amanhada, de uma horta viçosa, de um pomar a "zombrar" com frutos reluzentes esconde, não raro, perigos corridos, sustos apanhados. E nós, mesmo sabendo-o bem, continuamos a arriscar, para desfazer um tufo de ervas sobrevivente que desfeia a lavoira, para destruir um silvado na estrema, como no acidente que vitimou o meu pai, ou reparar um velho caminho, como me constou que sucedeu neste acidente.
Não conhecia o infeliz moço. Sou quase estranho e estrangeiro na minha própria terra, de onde saí aos catorze anos. Mas lamento sinceramente que os seus sonhos agrícolas lhe tenham sido funestos. À sua família, a todos os que o amavam, as minhas sentidas condolências.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Como um rio
Seduz-me a fluidez
e a plasticidade da água
que corre livre de empecilhos. Assim queria a minha escrita: clara, cantante,
envolvente, a fervilhar com a perpétua
guerra entre vida e morte. À superfície, a tranquilidade ilusória, quebrada por um ou outro
salto de peixe, ou cortada por pacato barco a remos; nos remansos e fundões, o refulgir dos cardumes, à meia-água os barbos de longos bigodes, de tocaia, nos limos
ondulantes, na sombra dos salgueiros, nas ervas da margem, a enguia voraz, o
achigã matador, a delicada
víbora, a sanguessuga
repugnante.
Este meu fascínio pela água deve ter origem semita,
talvez judaica, a ver pelos apelidos de meu pai (Silva, Catarino), a que não serão alheias as origens da minha aldeia natal, povoada por
cristãos-novos. Muito
misturada com sangue moçárabe, resquício da longa colonização muçulmana da região,
a que pôs cobro D. Afonso Henriques, ao tomar
Alpedriz em 1143.
Assim sou. Uma
Palestina, sempre em guerra comigo mesmo, sempre descontente com o lodo que
desajeitadamente levanto do leito e turva as águas que quero claras, para nelas reflectir o Grande Rio que
passa inexoravelmente e não
volta jamais.
domingo, 31 de agosto de 2014
Contra o fecho de escolas
Fecham as escolas, obrigam as crianças a viagens demoradas e perigosas, todo o dia afastadas das famílias. Desertificam o interior do país. Porém, não me consta que tenham encerrado os serviços inúteis do Ministério da Educação. Quando muito, mudam-lhes o nome.
Na 24 de Julho, na Praça de Alvalade, na 5 de Outubro, nas capitais de distrito, essa hidra de mil cabeças (quem duvidar que as conte) inventa constantemente tarefas inúteis para melhor sobrecarregar escolas e professores, alimenta a burocracia, alimenta-se da burocracia. Uns bons anos atrás, inspirado em factos reais (como mestre Camilo, "não tenho imaginação, tenho memória") trouxe para a ficção uma das suas funcionárias.
"Podia ter telefonado a combinar encontro, mas preferi aguardar a minha nora à porta de casa. Asneira. Passaram as cinco, hora a que é suposto chegar do emprego, as seis, as sete... Eis que finalmente aparece, sai do carro, divertida, radiosa. Interpelo-a, volta-se, vê-me, e quem cora sou eu, homem de outro tempo, ao ver sair pela porta do pendura cavalheiro bem posto que a abraça pela cintura... Ela, surpreendida por me ver ali, à sua espera, mas sem perder a pose nem a prosápia, afasta discretamente o braço do parceiro e cumprimenta-me afectuosamente com duas frescas beijocas nas faces escaldantes: que gosto em ver-me, que prazer, há tanto tempo, que fizesse o favor de subir... Recuso.
Não, não aceita desculpas, certamente veio para falarmos, e depois é sempre um prazer receber o "ex"-sogro, remata descaradamente... E com o mesmo despudor apresenta-me o seu "namorado", acrescentando pudicamente que só o era desde que se tinha separado do Bruno, não fosse eu imaginar coisas...
Ah, não me obrigará a entrar, a fazer sala estupidamente, a ouvir os seus argumentos (sempre o que mais facilmente se arranja). Já estou perfeitamente esclarecido, dispenso mais explicações, e se as julga necessárias não é a mim que as deve dar.
"Adeus", digo secamente, e começo a afastar-me.
Parece surpreendida: "Mas não entra? Temos tanto para conversar... "
"Comigo, não. Já percebi tudo." Afasto-me apressadamente, ignorando malcriadamente os seus chamamentos. Como é que é? Corneia o meu filho e quer a minha bênção? E já no carro, a caminho de casa onde o Bruno aguarda ansioso por boas novas, enquanto peso as palavras, procuro a forma de lhe dizer o que tem de ser dito sem agravar mais a sua neura depressiva, faz-se-me luz, tão certo como dois mais dois serem quatro!
Quando casaram, uns anos atrás, a mulher era professora e queixava-se constantemente dos alunos e respectivos pais, das colegas e da escola, do excesso de trabalho e das agruras da profissão. Colocada no Alentejo, fazia então uns duzentos quilómetros diários de casa para a escola e da escola para casa. O Bruno, para lhe evitar tal incómodo, e também para a ter mais perto de si, aproveitou conhecimentos partidários, meteu cunha, conseguiu que fosse destacada para um qualquer serviço do Ministério da Educação. Nova, gira, certamente aproveita as trinta e cinco horas de ócio para namorar! Não admira, portanto, que se queixasse da sensaboria da relação conjugal, depois de um dia de trabalho exaustivo, por entre mails com anedotas, toques de telemóvel, SMS aos colegas mais atraentes, namorisco no bar antes dos almoços de trabalho para discutir os mais prementes problemas educativos das escolas a seu cargo, como a pertinência do razoado dos respectivos projectos educativos..."
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
Incêndio na aldeia
Pela rua abaixo, mulheres gritam, correm homens e rapazes, perguntando uns contra os outros onde é o fogo; e uns afiançam que é na Charneca, porque o povo se apressa nessa direcção, outros gritam que é no Outeirinho, o clarão do incêndio parece vir de lá, e todos acorrem feitos um rio humano que quer dar combate ao inimigo antes que ganhe forças e devaste a povoação. Logo avistam, subindo do tear do Abel, labaredas medonhas que cortam a chuvinha e a negrura da noite, rolos de fumo que descem asfixiantes, envolvendo os gritos de medo, de desespero, de incentivo, cada qual querendo ser o primeiro, e eis mulheres que acorrem, umas carregando baldes nas mãos, outras canecos e almudes à cabeça, enchidos no poço mais próximo, felizmente logo do outro lado da rua, eis homens valentes que entram pelo tear adentro, protegendo com boinas e bonés a face das chamas que lhes chamuscam cabelo e barbas por fazer, e eles deitam abaixo barrotes e madeiros inflamados, e eis que o telhado ameaça desabar e gritam, — Fujam, fujam, que morremos aqui, prontamente todos recuam, e é com a raiva da impotência que vêem as chamas tomarem conta do negócio do Abel e do emprego certo de uma dúzia de mulheres. Ah, mas não vão ceder, pelo menos sem luta árdua, e mal o telhado desaba, atiram-se novamente para o brasido, pisam-no com as fortes botas de cavador, lançam terra com as enxadas, despejam baldes e canecos que as mulheres lhes passam, e a água prontamente estruge, guincha, evapora-se em rolos de fumo. É então que o Abel chega com um motor de rega, rapidamente se estendem as mangueiras, se ferra o chupador e, após esforços para o fazer pegar, a água jorra em abundância e as chamas recuam, aliviando o povo que aproveita para respirar um pouco e endireitar as costas, já de si doridas de toda uma vida de enxada.
— Ah, o progresso!, comenta-se, vendo como uma única máquina desenvolve mais trabalho do que uma multidão exausta, mas pouco depois o motor tosse, engasga-se, a preocupação espelha-se em todos os rostos, parece que vai parar, — Que será? Falta de gasolina?, e prontamente, não imagino saída de onde, surge uma lata de combustível, mas, na quase escuridão, atabalhoados, nervosos, não acertam com o bujão do motor, e é mais o líquido entornado do que o que entra no reservatório. Logo, logo, o Gamela teve ideia luminosa: acendeu um fósforo e chegou-o ao depósito para que vissem o que faziam. Foi um estoiro. Aqueles que atestavam o motor foram lançados a metros de distância, tombando chamuscados, alguns com o cabelo ou a roupa a arder, não sei se da gasolina inflamada, se da raiva que os consumia; outros, mais afastados, dando vazão ao sentimento justiceiro do povo, expulsam dali o rapaz à força de sopapos e de pontapés no traseiro, e ele, lesto, esgueira-se, as atenções momentaneamente distraídas com o uivo da sirene dos bombeiros que finalmente chegam e depressa extinguirão o incêndio — afinal, já quase tudo tinha ardido naquele barracão.
Aliviados, regressam aos poucos a casa, ainda lentamente, olhando frequentemente para trás, tossindo devido à fumaça que o rescaldo elevou e agora envolve a povoação, sempre comentando uns com os outros que podia ter sido bem pior se não tivessem evitado que o fogo chegasse às casas próximas; é agitados que se deitam novamente e por isso demoram a adormecer, apesar de a noite decorrer agora sossegada, sem roncos, nem gemidos amorosos, nem ralhos, apenas ao longe o ruído grave dos motores que inundam o tear do Abel, entrecortado pelo ladrar à desgarrada dos cães acorrentados nos quintais, alvoroçados pela agitação, incomodados por solidão e por carraças.
Um amor inventado, LeyaOnline
terça-feira, 5 de agosto de 2014
Um empresário
Se eu tivesse juízo, ou ambição, escrevia coisinhas lindinhas, ou então deprimentes, pois me parece que para ambas não escasseia público e procura. Como me falta o sentido prático e por ambição literária apenas tenho a de escrever o que quero, como quero, desperdiço esforço e tempo com textos como o que se segue, extraído de um conto já com uns anitos. E depois, de cada vez que se fala noite e dia do último escândalo financeiro, se pergunta ingenuamente como é que se chegou a este ponto... bom, lembro-me: já escrevi sobre isso. Como há dias aqui coloquei excerto de um conto premiado que fala de bancos e acções, hoje, para desenjoar do BES, segue um centrado no têxtil. Afinal, a causa de sempre para a nossa decadência: somos país de chico-espertos.
"— O Velho come aquelas gajas todas. Nem imaginas. E mais as secretárias dos clientes, na Alemanha. Vai lá todos os meses, sempre carregado de boas prendas para elas. Por isso, faz bons negócios, e diverte-se à grande, o cabrão.
Apesar de o negócio do têxtil pressagiar já crise, corre a rodos o dinheiro, não rareiam ainda os fundos provindos da CEE, uns para formação profissional, outros para modernização da maquinaria, actualização tecnológica, construção de uma ETAR, incentivos e apoio à exportação… Não importa o pretexto. Os efluentes continuam a seguir direitinhos e fedorentos para o rio Vizela. Os operários sabem mais do que precisam para trabalhar, se querem estudar matriculem-se no liceu à noite, e fazem falta junto das máquinas, nem pensar em os dispensar umas horas que seja para os cursos de formação profissional; as verbas recebidas para pagar a formadores e a formandos embolsa-as o patrão (então não paga o salário a engenheiros e a operários, pontualmente a 30 de cada mês?) As máquinas actuais servem muito bem, e das exportações trata ele próprio, como faz com os incentivos à exportação, gastos em prendas e noites de hotel com as secretárias alemãs. E o sobrante é investido meticulosamente em carros topo de gama, jipe para a mulher, almoços e jantares de luxo, iate na marina de Vila do Conde, mulheres e despesas de sedução — despesas de representação, como as inscreve o seu contabilista.
Veio há pouco ao Norte o primeiro-ministro Cavaco Silva avisar que é tempo de acabar com as despesas sumptuárias no vale do Ave. Pois sim. Como sempre, os seus discursos sibilinos servirão para mostrar à posteridade, quando se recandidatar à Presidência da República, que lançou oportunamente os alertas e deixou continuar a roubalheira — palavras, leva-as o vento. Chegará o dia em que os têxteis serão liberalizados, a fábrica declarará falência, pouco depois o Velho abrirá outra com novos subsídios, outros empréstimos bancários, e a vida à tripa-forra prosseguirá até que a Europa se canse de nos financiar. Então o industrial viverá dos proventos acumulados e bem acautelados, uns em nome da mulher, que oportunamente entrará com processo de divórcio embora continuem a coabitar (pobrezinhos, não têm outra casa onde viver!), o palacete posto a salvo de penhoras judiciais, em nome da filha, se lhe leiloarem bens em hasta pública serão seguramente os carros velhos, pois os amigos nas finanças continuarão a valer-lhe como ele antes lhes valeu, também o apartamento em Portimão será oportunamente resguardado dos credores, esse fica em nome do filho, que agora descobre que a internet também serve para o engate, enquanto lentamente, faixa a faixa, o CD-ROM vai gravando as músicas pirateadas que à noite venderá aos amigos, modesta ajuda para farra e passa…"
domingo, 27 de julho de 2014
Conservador me confesso
A propósito do post anterior, o meu amigo Reinaldo chama-me conservador. E põe-me a reflectir. Porque desde a infância procuro saber quem sou, o que sou. Mas conservador?
Bom, como classificar homem casado com uma só mulher, há mais de quarenta anos, nestes tempos de casa e descasa? Que respeita a palavra dada, os compromissos assumidos? Que paga prontamente as dívidas? Que prefere, sem a menor dúvida, a comida tradicional portuguesa à de autor, gourmet e quejandos? Que usa lenços de pano, sempre calça peúgas debaixo das sapatilhas, a que não chama ténis, cumprimenta com aperto de mão clássico os amigos e preserva-os ao longo dos anos? Que dizer de um homem que, nos tempos que correm, põe, como sempre pôs, os valores acima dos interesses, dos apetites? Que aprecia rotinas, que pratica a mesma arte marcial há mais de três décadas?
Visto assim, nenhuma dúvida de que sou um conservador.
Por outro lado, não sou avesso à inovação. Escrevo num iPad e não com caneta Parker de aparo de ouro. Antes escrevia no computador, desde que adquiri o primeiro, no início dos anos noventa -- e mais para trás escrevia à máquina. Aderi à fotografia digital nos seus primórdios, farto de câmara escura. Prefiro ler ebooks a papel -- mas a minha vista e os meus hábitos de leitura podem ajudar a explicar esta preferência pouco conservadora. Fascinam-me as engenhocas, as descobertas alheias, as novidades do progresso tecnológico e, sobretudo, científico.
Mas o meu amigo quer insinuar que sou politicamente conservador. Ora aí tenho de discordar. Desde que me afastei da praxis política, pouco depois do 25 de Abril, não me filiei, não me tornei simpatizante de nenhum partido, o que me permite manter a distância, a visão fria sobre as respectivas ideologias e ideias (um deserto) e as políticas propostas - infelizmente, digo-o com pena sincera - é tudo a mesma merda. Todos, com as suas políticas, ou com a ausência de políticas alternativas, nos mergulharam na fossa fedorenta de onde não vejo como conseguiremos sair. Já votei em todos os partidos, inclusive, confesso-o com alguma vergonha, no partido do Reinaldo, como aconteceu recentemente nas eleições autárquicas, precisamente porque alguns dos candidatos eram amigos cujo mérito reconheço e admiro...
Tudo bem pesado, parece-me evidente que o fiel da balança se inclina nitidamente para o lado conservador. Mas, assim gosto de me ver, assim gostaria de ser, conservador esclarecido, de olhos abertos. Conservador, mas não de direita, nem atacado pela cegueira conservadora do PC ou do Bloco, nem afectado pelas fogaças mediáticas de um PS acéfalo. Sem preconceitos, livre para votar no partido que, em cada eleição, me apresentar o projecto mais credível, ou menos mau, ou candidatos que respeite. Ou em nenhum, como fiz nas últimas eleições presidenciais.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
O Caixinha e o caixão
Cheguei
um pouco atrasado à primeira aula da
manhã, já os corredores do Instituto
Comercial estavam vazios. O professor de Elementos de Direito Civil, Caixinha de seu apelido, pessoa de ordinário
afável, camarada, sempre a insinuar que também ele estava contra o
regime, parecia esperar apenas por mim para começar raspanete
exaltado: ele a tratar-nos bem, como pessoas, nós a espetar-lhe a
faca nas costas, mas daqui para a frente outro galo cantará,
acabaram-se as confianças, cada macaco seu galho!
Consciência
tranquila, nada sabendo, nada compreendendo, olhava-o fixamente, a
tentar perceber o que o teria zangado daquela forma -- pelos vistos
comigo, e os meus colegas da dianteira pareciam confirmar as suas
suspeitas, voltando as cabeças para trás, para mim, como se eu
fosse o responsável pela fúria sonorosa que se tinha apossado do
homem.
Numa
qualquer interrupção, talvez a receber o livro de ponto, bichanei a colega do lado: porque é que o Caixinha estava tão
bravo?
Passou-me
à socapa panfleto acabadinho de sair, emanado da clandestina
Pró-Associação de Estudantes, composta predominantemente por
alunos expulsos nas greves dos anos anteriores, os quais agora integravam
também o Estar na Luta, de Económicas -- onde o pasquim fora
elaborado.
Da
primeira à última página, professores e
funcionários eram ofendidos, ridicularizados. E encontrei, pelo
meio, desenho tosco, feito a estilete no estêncil, de uma faca e um
caixão, a ilustrar texto com título sugestivo:
CADA
CAIXINHA FABRICA O SEU CAIXÃO
Compreendi
então. As evidências estavam contra mim, desde o meu aspecto --
cabelo comprido, barba, camisa de camuflado comprada na Feira da
Ladra --, ao comportamento e às companhias: chegara atrasado, como
para evitar que me relacionassem com o panfleto, e viam-me amiúde com revolucionários; não sabiam, não podiam saber, que
eles, no entanto, não confiavam em mim, que era então anarquista, e
por isso mesmo me não tinham posto a par dos conteúdos do panfleto,
nem mo tinham dado para distribuir.
No
intervalo, avisto o Luís M., "estudante" que apenas
entrava no Instituto para agitação: -- A malta, pá, tem que se
unir, pá, contra o director, pá...
--
Então, já leste? Tá bom, não tá?
Protesto.
Mal escrito, conteúdos injustos e reles. Então o do Caixinha...
--
Um bom filha da puta, pá! Os professores são todos fascistas, pá,
ou social-fascistas. Uns bufos! E tu, ou estás com os estudantes e a
luta, ou estás com o inimigo. O do Caixinha está muito bom, os
estudantes gostam, pá, já muitos mo disseram, pá, há que
desmascarar esses gajos que se fingem amigos dos estudantes, pá...
Fui eu que o escrevi, podes ir bufar-lhe...
Obviamente
não fui. E no ano seguinte, cabelo curto, barba rapada, vestuário
normal, eu era já um "estudante progressista", de dia a
manifestar-me nas ruas de Lisboa berrando vivas à
ditadura do proletariado, de noite a pintar
nas paredes Abaixo a guerra colonial, a distribuir pelas caixas de
correio tarjetas com votos de longa vida ao camarada Mao...
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Memórias
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Menos Dois
-- Senhores alunos! senhores alunos, grita, tentando fazer-se ouvir sobre o clamor geral, estou aqui não como professor, mas como engenheiro! Para vos dizer que se continuam a bater com os pés as escadas caem!
FOTO: em frente, o edifício onde funcionou o Instituto Comercial de Lisboa.
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Memórias
segunda-feira, 30 de junho de 2014
Julho é ladrão...
[Dois
anos atrás
sofri a agonia da minha mãe.
O texto que se segue é
um
dos registos da época,
amputado de fragmentos demasiado pessoais.]
Telefonam-me
do lar: a minha mãe
vai a caminho do hospital. Precipito-me, chego ainda antes dos
bombeiros. Fazemos o check in, passamos à
triagem.
O enfermeiro, moço,
preenche formulário,
desinteressado das respostas, coloca-o em placard junto à
porta
de um dos dois gabinetes médicos
de triagem, e começa
a espera. Ninguém
parece ter pressa, nem as enfermeiras, seguras e empertigadas que
andam para trás
e para a frente como se estivessem atarefadas, nem as auxiliares que
se juntam em grupo, galhofeiras, nem os raros médicos,
aparentemente desocupados, todos indiferentes ao sofrimento das
pessoas que agonizam no corredor degradado, na acanhada sala de
espera tão
apinhada de macas que ao movimentá-las
chocam entre si e provocam gritos de dor a jovem acidentado, cabeça
envolta em ligadura ensanguentada, há
horas
ali, esquecido por todos excepto por senhora discreta, elegante —
Olha
a tua professora de Inglês,
diz mãe
para miúdo
que passava sem a ver, ou porque, como os outros miúdos,
há
muito
deixou de conhecer as professoras, ou porque a febre lhe embotou o
discernimento.
Passam
sonolentas as horas, chegámos
pelas quatro da tarde, são
quase duas da manhã,
cabeceio com sono, imagino-me a mim mesmo estendido numa daquelas
macas, agonizante talvez, esquecido por todos de que estamos nas
Urgências,
quem o diria com tamanha demora, com tanta calma dos profissionais.
Em que pensarão
os doentes, a sofrer silenciosamente, apenas o ferido na cabeça
chora baixinho? Talvez, mais do que viver ou morrer, desejem que
aquele purgatório
acabe depressa, arrependidos de terem vindo ao hospital, melhor
morrer em casa, a sós
que seja, que naquela sala de espera, de solidão
e indiferença
atrozes.
A
minha mãe
chama-me, contorno as macas, desvio o olhar dos rostos marcados pela
fealdade da doença
e da velhice, assim serei eu, assim seremos todos um
dia,
uns de olhos fechados, outros de olhar vazio fitando o branco sujo da
parede, Como está
agora?
Abana a cabeça
com indiferença,
sussurra, a voz minada pela fraqueza e quase inaudível
devido à
traqueostomia:
— É
tarde
para ti, vai-te embora! É
tarde,
sim, amanhã
tenho
aulas às
oito, e para além
delas, que são
o meu trabalho, as inevitáveis
aulas de substituição
dos jovens professores que incapazes de aguentar as suas turmas se
baldam, deixando aos velhotes como eu o inferno de aguentar na sala
os seus alunos, sem plano de aula, sem perceber nada das respectivas
disciplinas.
Não
a abandono, há
um
ano e meio que andamos os dois nesta vida, peregrinando de hospital
em hospital, de urgência
em urgência.
Eis que finalmente nos chamam, primeiro para a triagem, depois para a
consulta,
é
ainda
preciso
aguardar pelo resultado dos exames, das análises,
que
finalmente chegam.
— Está
tudo
bem.
— Mas,
doutor, e recordo o historial clínico
da minha mãe,
Veja o estado em que está!
— Como
se sente, dona Isabel?
— Mal,
sussurra, e eu falo novamente da traqueostomia, dos meses entre a
vida e a morte nos cuidados intensivos de Santa Maria após
cirurgia de quatro horas, uma das quais com o coração
de fora, no gelo, a derrame da aorta pleural, a infecção
por bactérias
resistentes aos antibióticos...
— A
sua mãe
tem oitenta anos...
— E
o Manuel de Oliveira mais
de cem...
— As
pessoas não
são
iguais.
E
termina a consulta com a recomendação
de que beba muita água.
Tanto sofrimento, da minha mãe
e algum meu, tantas
horas de hospital, para receitar mais água?
Quantas
urgências,
quantos hospitais conheci já?
Em quantas não
passámos
horas infindas, de espera insuportável?
Leiria, em pavilhão
pré-fabricado,
apesar de o hospital ser novo. Ampla sala de espera, pistas de cor,
amarela, vermelha, azul, consoante a gravidade diagnosticada na
triagem, feita por jovem enfermeira na galhofa com os maqueiros, sem
prestar atenção
às
respostas que eu lhe dava; Alcobaça,
pequeno hospital da Misericórdia,
tão
pouco misericordioso como os outros, a mesma espera, as mesmas macas
amontoadas em qualquer espaço
livre, as enfermeiras divertidas a verem no computador as fotos das
férias
de uma delas; Santa Maria, sentado no chão
do corredor por falta de cadeiras, com a Ana e a Sofia, na penumbra,
à
espera
que por ali passasse o cirurgião
com informações
da operação
ao aneurisma da aorta, depois meses à
porta
dos cuidados intensivos, de cheiro agoniativo, entontecedor, na
esperança
de fugazmente poder ver a minha mãe
ligada à
maquina,
ciente de que podia ser a última,
a piorar de dia para dia, – Mãe,
sou o Zé,
conhece-me? Vago gesto afirmativo, talvez apenas com o olhar, e eu
falo, falo, sempre as mesmas conversas, invento, minto, mesmo que
pareça
ter adormecido, fico até
ter
de sair a mando da enfermeira ou porque se esgotaram os breves
minutos da visita, ou porque soa o alarme de uma das máquinas,
ou porque a minha mãe
está
novamente
engasgada com muco, a precisar de ser aspirada...
Horas
de viagem, horas de espera, para trazer algum alento: —
Mãe,
não
se deixe morrer, precisamos de si! E por resposta, aceno de mão
a revelar desinteresse por tudo, vida e morte...
Tubo
no nariz, tubo na garganta trasqueotomizada, máscara
de oxigénio,
mostradores a indicarem perigosa falta de oxigénio
no sangue, ou ritmo cardíaco,
ou tensão
arterial elevada, ou sei lá
que
mais, naqueles aparelhos que tento decifrar, como tento decifrar a
conversa enigmática
das enfermeiras, talvez não
saibam, apenas cumpram as indicações
dos médicos,
e estes também
nada sabem, há
que
esperar...
Telefona-me
a dona do lar com rodeios. Interrompo-a: a minha mãe
morreu? Confirma.
Acrescenta
pormenores. Estava de pé,
agarrada ao lavatório. Caiu, deitaram-na na cama, vomitou.
Terá
sido
como conta, suponho. Nenhum de nós
lá
estava.
E o médico
está
de
férias,
virá
à noite
para passar a certidão
de óbito.
(…)
Caminhamos silenciosos atrás
do carro funerário,
quase um quilómetro
e a subir, o calor aperta, lembro-me de que no funeral do meu pai,
dezanove anos antes, o padre rezava altas vozes o padre-nosso. No
cemitério
a emoção
vai e vem, só
quero
que tudo acabe depressa, sofri a agonia durante ano e meio, sofro a
sua morte há
já
três
dias, anseio por alívio,
esquecimento. Censuro o meu egoísmo,
recordo que de cada vez que peregrinei para as Urgências
quase recriminava mentalmente a minha mãe
por me fazer sofrer, por perturbar a minha rotina com as suas doenças
que os médicos
não
diagnosticavam, ou diagnosticavam erradamente, minimizando-as, e eu
então
quase lhes pedia desculpa pelo incómodo,
e agradecia veementemente, em vez de censurar a ignorância
ou o desleixo com que a observavam... Acreditava neles porque era o
que queria, o que me convinha, para que tudo continuasse na mesma...
Afinal, quem tinha razão
era a minha mãe:
Está
tudo
a acabar! É
o
fim... E repetia com a certeza de que Julho é
fatal
para a nossa família:
Julho é
ladrão...Em
Julho acaba tudo!
FOTOS: no lar, com a Sofia e eu, a 16 de Junho. Morreu a 22 do mês seguinte.
FOTOS: no lar, com a Sofia e eu, a 16 de Junho. Morreu a 22 do mês seguinte.
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Causas próximas do desconcerto em que vivemos
[A cena que se segue, pouco anterior à entrada do nosso país no Euro, faz parte de um longo conto meu, distinguido em concurso no ano passado. Leiam-na como e se vos aprouver, mas sugiro que, como num jogo, estejam atentos a causas do nosso desconcerto actual.]
"Já o Pedro e a Soraia nos esperam na esplanada, cerveja e tremoços amenizam o final da tarde, indolente como o teleférico ao fundo, como o Tejo que mansamente, imperceptivelmente, segue o seu destino, como as gaivotas que planam sem esforço, esganiçando-se estridentemente, imitadas, na mesa do lado, por umas donas da província, gente que aproveita o comboio para vir passear à capital e comprar vestuário da moda para os rebentos — esses índios que brincam à apanhada por entre as mesas, aperaltados em roupa de marca, Zara e afins.
“Imperiais também para nós, faz favor!”
A minha mulher cumprimenta lisonjeira a Soraia: “Que elegância!”
“É um Valentino, e pavoneia o vestido. Colecção deste ano.”
“Caro?”
“Um pouco. Mas o que importa é o gosto que proporciona.” — responde ufano o Pedro. Pega nas mãos da companheira como se estivesse em baile e a convidasse para dançar, roda-a de pé, para que apreciemos mulher e vestido no seu esplendor. Reconheço: num corpo daqueles qualquer trapo resplandece; e o Pedro sorri orgulhoso da sua mulher — boa, bem vestida, tudo a preceito, tudo conforme a moda da estação.
O Rodrigo e a Leonor chegam e interrompem sorridentes a exibição, ele com assobio galante, ela batendo as palmas entusiasmada: “Lindo. E fica-te a matar!” E procura com o olhar os outros amigos: “A Soraia e o cujo?”
“Ah, não podem vir, ele tem uma reunião hoje à noite, conselho de turma ou lá o que é...”
“Coitados dos profs, trabalham tanto!”, troça a Leonor. E nem ouve a resposta, deslumbrada com a beleza do vestido da Soraia, que tão bem realça a elegância da proprietária. Também ela e o Rodrigo vestem caro, vivem ricamente, viajam frequentemente. É o boom bolsista, volfrâmio dos nossos dias na forma de fundos comunitários a entrar diariamente a rodos no país, que permite este esbanjamento, esta ostentação, escandalosa aos olhos dos nossos pais: férias frequentes em países de sonho, palmares e praias de águas quentes, mergulho por entre corais, raias e tubarões, festas onde há sempre personalidades do jet set, massagens relaxantes, vestuário de autor, telemóveis e óculos de sol a centenas de contos, gadgets, carros e jipes topo de gama — um povo obcecado em fazer desaparecer vestígios da miséria ancestral, em trocar os tamancos paternos por sapatos Prada, disfarçar o fedor ancestral a estrume com perfumes franceses, olvidar o caldo e a broa dos avós na degustação de pratos artísticos nos restaurantes mais badalados pelas revistas do jet-set e estrelados pelo guia Michelin...
“Vamos ao Brasil nas próximas férias”, conta o Rodrigo. “Para o Nordeste.” E alarga-se já por essas infinidades de dunas e praias de águas azuis, boa comida, aventuras de Jipe pelos pantanais das telenovelas.
Ouvia-os, divertia-me com as suas histórias, o exotismo e a excentricidade seduziam-me também — como à minha mulher, sempre a sonhar com águas quentes e cristalinas, areais a perder de vista, hotéis requintados, mas o nosso rendimento familiar, embora bem acima da média, nem sempre nos permitia acompanhá-los.
O Pedro admirava-se da minha relutância em jogar na bolsa: “Não sabes o que perdes.”
“Também tenho umas acções”, justificava-me.
“Não, ter umas acções”, e imitava o meu tom de voz, “é como fazer um depósito a prazo: seguro, sem dúvida, que mais facilmente cai a serra da Estrela do que irão à falência estes bancos que por aí brotam, BPN, BPI...”
“Criados por políticos…”, acrescenta a minha mulher, e ele continua como se não tivesse sido interrompido: “Com as acções, o importante é comprar e vender. Depressa, em vez de as guardar.”
E discutimos esta promiscuidade entre política, banca, negócios, que assegura a rápida prosperidade de alguns, mas me parece pouco ética. Nasci em família remediada, com princípios morais, trabalho e honestidade, o que explica os meus excessos de prudência, a relutância em jogar na bolsa: “Vender produtos seguros para comprar outros, de valor incerto, não me entusiasma. É absurdo os títulos de uma empresa caírem quando tem lucros e os de outras, que nunca os tiveram, valorizarem constantemente…”
Conversa de comunista. Se queria endireitar sozinho o Mundo em vez de dele fruir, criticava a Soraia, secretária bem paga de uma multinacional: “As acções sobem e descem ao ritmo da oferta e da procura. São as leis do mercado. E toda a gente joga na bolsa se tiver com quê.”
“E precisa? Os bancos estão desejosos de emprestar dinheiro a quem quiser arriscar. Ganham eles, que capital parado não rende, ganham os clientes com as mais-valias, ganham os gerentes, que assim podem atingir os objectivos fixados.”
Eu, como sempre acontece nestas discussões, vacilava. Não eram tanto as frequentes viagens de sonho, as roupas de marca, os gadgets topo de gama que me deslumbravam. Mas há tanta coisa que me seduz e está fora do meu alcance: um jipe para a mulher, que os adora e deixaria de depender de mim para os transportes, um apartamento maior e melhor, se possível com vista para o rio, umas obras em casa dos velhos... Ela, no regresso a casa, invariavelmente insistia comigo: “Tens de investir em acções.”
“Em quais?”
“Sei lá. São assuntos de gajos, como o futebol e a política. Pergunta aos teus amigos o que deves comprar.""
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