Número total de visualizações de páginas

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Na fábrica

Avança sonolenta a noite, as horas demoram a passar, medidas pelas peças feitas, etiquetadas, empilhadas, os minutos contados pela máquina que incessantemente abre o molde, acende a luz verde, há que rapidamente correr a rede de protecção, extrair a peça escaldante, soprando-a com a pistola de ar comprimido, segurá-la ao de leve para evitar as queimaduras, inúteis as luvas distribuídas já bem esburacadas, depois rapidamente fechar a rede de segurança, logo a luz avisadora passa a vermelho e a máquina gigantesca injecta plástico a centenas de graus, os breves segundos em que água fria o arrefece no interior do molde para que solidifique são gastos a aparar com navalha as rebarbas da peça anterior, a soprar nos dedos para aliviar as queimaduras, e eis que a máquina apita imperiosa, já outra peça está pronta a sair, os olhos sempre atentos aos mostradores, se a temperatura baixa, a máquina começa a estragar, se sobe, o plástico fundido pode explodir nas nossas mãos ou na cara. Raro é o mês sem acidente, raros são os camaradas mais velhos com todos os dedos nas mãos, um ou outro já maneta. 
Somos nove contando com o chefe de turno, trabalhamos à vista uns dos outros, mas estamos sós, não há conversas, nem mesmo para espantar o sono que causa erros, e aqui os erros pagam-se com o corpo. Respiramos o cheiro do plástico derretido, penetram-nos até às entranhas os ruídos dos moldes a abrir, do bater seco das grades de protecção, os silvos do ar comprimido a sair das pistolas, sempre, acima de tudo, o zumbido dos potentes motores eléctricos, o troar grave dos compressores. 

Como sacerdotes servimos esta nova divindade, fria e implacável como os antigos ídolos, como eles a exigir dedicação total, atenção permanente, sacrifícios frequentes -- queimaduras, dedos amputados, mãos até. É ela que impõe o ritmo, segundo os seus humores, é ela quem mais ordena na fábrica, por isso nem quando o chefe de turno se aproxima a desfito e às suas luzes, ouvidos sempre atentos ao seu trabalhar, mãos lestas a abrir a grade de protecção do molde, a extrair e rebarbar a peça enquanto quente, que fria não dá.
-- Estás atrasado, não vais conseguir fazer tanto como as mulheres do turno da manhã!
-- Porra, elas trabalham duas em cada máquina e com matéria prima boa, a mim calham-me os desperdícios de plástico triturados. Ainda tresandam a peixe podre!
-- É só teres mais atenção à temperatura.
Respondo com palavrões, que interrompo para desabafo: -- Lá está esta merda a estragar outra vez! E reclamo matéria prima boa, da que está no armazém e fornecem às mulheres no turno de dia.
Nega. Ordens do patrão. Com a crise do petróleo, ganha mais com a valorização do material do que com as peças fabricadas. Especulação, portanto.
-- Com o frio da madrugada, a máquina estraga menos. Se te esforçares, ainda recuperas.
-- Esforçar, ainda mais? E corro já escada acima até ao topo da máquina a empurrar com cabo de vassoura os detritos de plástico reciclado, moídos na máquina ao lado por miúdo de catorze anos que deixou a escola. Com cuidado, que o sem-fim é voraz e parece apetecer-lhe a minha mão, o braço até...
-- Olha que a distracção é a morte do artista, ainda me grita o encarregado, já a ajudar camarada velhote, dos seus quarenta anos, que bêbedo que nem cacho não dá vencimento à máquina que cospe galhetas umas atrás das outras. Vale-lhe a amizade do chefe de turno, seu vizinho, do encarregado geral a quem, dizem, poda a vinha.
Evito pisar o cimento sempre molhado da água das mangueiras de arrefecimento que volta-não-volta se desenfiam. Aqui tudo trabalha a alta voltagem. Na semana de férias que tive pelo casamento, morreu camarada electrocutado na minha máquina. Causa da morte segundo a certidão de óbito passada pelo médico do seguro: congestão. Para fugir à indemnização por acidente de trabalho. 
Há-de vir o tempo em que trabalhador terá direitos, saberá como reivindicá-los, protestará e será ouvido. Não ainda neste Março de 1974. A máquina não dá choque, provou-mo o encarregado com medição por multímetro. Sem me convencer, que já levei uns bons esticões, talvez apenas quando está de mau humor, por isso calço sola de borracha e evito pisar o cimento molhado quando lhe toco. 
Aí pelas quatro da manhã volta o chefe de turno, apenas diz Vai comer a bucha, e logo toma conta da minha máquina, aproveito a meia hora de repouso para dormitar sobre sacos de matéria prima, apesar da comichão que faz, junto do compressor para aproveitar o calor que irradia, sempre a medo, que já explodiram alguns em fábricas da vizinhança. 
Pelas oito, começam a chegar as mulheres, olham-nos como a presas, uma boazona deixa escapar Aí, não fosse eu comprometida..., a boca sabe-me a sono, o corpo está exausto, só quero que me substituam depressa para correr e apanhar a camioneta, chegar a casa, deitar-me e tentar adormecer, nada fácil quando toda a gente está acordada e entende que a noite se fez para dormir...
FOTO: outra fábrica, hoje ao abandono. A minha deu lugar a um centro comercial...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Quarenta e dois anos depois

3 de Fevereiro é o dia de aniversário da minha mulher. E o da noite em que começámos a namorar.
Foi em 1973, no Big Ben, um café de estudantes. 
Indiferentes à densa fumaça do tabaco, beijávamo-nos, esquecidos dos outros, que talvez nos olhassem espantados, sem cuidar dos riscos do presente, das incertezas do futuro: eu era militante anti-colonial, e nessa noite tinha de fazer dez pinturas comemorando o 4 de Fevereiro, com o risco de ser preso, abatido, que a polícia não brincava em serviço nem fora dele. Ou ter de passar à clandestinidade por denúncia, como pouco depois aconteceu.
Fui servente de pedreiro, operário de plásticos. Na Marinha Grande, dormíamos no chão, sem mobília. Fui chamado para a tropa aos 20 anos. Saneado após o 25 de Novembro. Pouco depois, professor. Conhecemos o desemprego simultâneo, numa época em que não havia subsídio de desemprego. Até esparguete comi -- e desde a tropa que o não podia ver à frente. Outra vez professor. O meu ordenado, então o único, não chegava para a renda da casa e a comida. Valeu-nos a família, com pequenos empréstimos que todos os meses pagávamos... e voltávamos a pedir. E as batatas que nos davam, os ovos, o possível. Mário Soares cortou-me parte do subsídio de Natal, e fiquei sem dinheiro para comprar sapatos que substituíssem os únicos que tinha, com as solas rotas, um horror em tempo de chuva. Apiedado, ao vê-los de biqueira aberta, um colega mais velho arranjou-me explicandos. Por agasalho invernal, um casaco de malha, tricotado pela minha mulher.
Bien sûr, nous eûmes des orages
Passaram os anos, criámos as filhas. As dificuldades enrijaram-nos. Aproximaram-nos quando nos afastaram.
Vingt ans d´amour, c´est l´amour fol
E outros vinte. E mais dois.

O hippie vai à tropa

Levantado fardamento e arma, doravante o nosso anjo da guarda, minha companhia noite e dia, assim nos doutrinam, formámos por alturas, mais ou menos desalinhados, 
— Nos rangers, resmunga o comandante de pelotão, um aspirante, alinhávamos a tiro de pistola! Ai de quem avançasse o nariz!
Nenhum de nós se atreve a rir. Esta gente é doida. E para camarada lisboeta, hippie de barbicha e cabeleira pelos ombros, tal e qual o Che Guevara, que antes da formatura tocava guitarra na espingarda guinchando Almost cut my hair: — Você devia ir cortar o cabelo, aparar a barba, antes que o nosso capitão o veja...
Não, não cortava. Que lhe mostrasse o artigo do RDM que proibia cabelo comprido. 
— É consigo. Se fosse eu, ia já cortá-lo. E passou aos rudimentos de ordem unida.
Implica comigo. Pudera. Colocou-me na vanguarda por ser o mais pequeno, onde dou inevitavelmente nas vistas. Desengonçado, sem aprumo. Sem brio militar — pois se o que eu quero é livrar-me da tropa! Como quase todos os outros. Muito poucos conseguirão. Dos três incorporados da minha terra, safar-se-á um por miopia, bem mais grave do que a minha, outro por ser tão gordo que não há fardamento que lhe sirva...
Para o final da manhã, juntamo-nos aos outros pelotões, já formados na parada. O capitão arenga. A armar-se em gajo porreiro, feliz por o 25 de Abril o ter libertado do autoritarismo, que, diz, detestava; agora o discurso é pedagógico: tudo o que nos vai ser exigido é para nosso bem. Os castigos não devem ser recebidos como humilhação, antes como correcção, e servem para melhorar a nossa condição física; o órgão recreativo, e nós rimos do jogo de palavras do capitão, quer-se lavado para evitar chatos e coceiras.  As botas devem estar sempre engraxadas, não para parecermos nazis dos filmes, mas porque se conservam melhor e são mais confortáveis; a farda irrepreensivelmente limpa e engomada por questão de brio e de higiene; as excrescências pilosas... bom, havia que distinguir. E passeava entre nós, mirando, discreteando. Barbas, bom, aceita-as nos comandos, ou nos fuzas na Guiné, de onde tinha regressado recentemente, para dar ar aterrador às tropas especiais; não as mandava cortar, mas então que as cuidassem, que as aparassem; bigodes como o meu, e olha-me trocista, precisavam de ser engraxados; o cabelo, curto para não enredar nos matos nas duras provas que nos aguardavam ou, e provocou mais risos, alimentar piolhos. 
Aguardávamos curiosos o que diria do camarada hippie. Nada. Nem pareceu vê-lo. E ninguém mais lhe chamou a atenção para o cabelo comprido. Parecia ter ganho.
No sábado, após o cross, formámos na parada para a revista que antecedia a saída de fim-de-semana. Inspeccionadas as fardas, avaliado o reluzente das botas, o comandante de pelotão distribui os passaportes que autorizam a saída. 
À voz de "Destroçar!", ouvi o camarada das gadelhas: 
— Meu aspirante, falta o meu!
— Ah pois, esquecia-me. 
E risonho entregou-lho — rasgadinho em inúmeros pedaços.
Quando regressei, na segunda-feira de madrugada, o camarada hippie estava irreconhecível, cabelo cortado à escovinha. Voluntariamente.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Sem paciência para disparates

(1) Todos os meus romances têm sido motivados por poemas. Entre Cós e Alpedriz não foi excepção. O nome da protagonista, Guiomar Afonso, foi roubado a este poema de Roi Queimado (séc. XIII), que tanto aprecio, apesar de se tratar de um autor injustamente desconsiderado por ter sido alvo de uma cantiga d' escarnho e de mal dizer do seu contemporâneo Pero Garcia Burgalês:
Pois que eu ora morto for
sei bem ca dirá mia senhor:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
  
Pois souber mui bem ca morri
por ela, sei que dirá assi:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
  
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix'e dirá:
- Eu sõo Guiomar Afonso!
Roi Queimado
Para gente distraída: Guiomar não é Guimar; não há, nunca houve, nos Montes nenhuma Joaquina Guiomar Afonso. Se a minha personagem tivesse existido realmente, teria hoje cento e doze anos! Só mesmo gente ociosa para especular se será esta ou aquela!
(2) O meu pai chamava martinho-larau ao pica-pau. Aproveitei o nome, sem saber que há essa alcunha na terra. Mas digam-me: como podem confundir uma pessoa ainda viva com uma personagem que teria hoje uns bons cento e trinta anos? Como podem estabelecer correspondência entre realidade e ficção se a minha personagem morreu em briga à enxadada (p. 91) aí por 1920?
(3) Querem personagens com existência real? Procurem o meu avô 'Sargento', a minha avó Francisca, o meu pai Afonso (Afonso Carriçudo / Alça a perna e mija tudo (p. 180), os meus amigos, como o Adelino Galfarro, precocemente morto de cancro, o meu primo Zé Luís, vitimado por acidente de carro, como o foram o Adolfo, o Carlos, encontrem o Zé Firmino, o único sobrevivente desse acidente. Procurem-me a mim, que lá estou "um cachopo bem mais pequeno, pequeno de mais par a idade, (...) o cagarola..." (p.223), como estou na toirada, como lá está o mar tal como o vi aos quatro ou cinco anos... 
(4) É ocioso perder tempo em tentativas de usar o romance para intrigas e brigas; é tarefa insensata, que não resiste à simples cronologia dos acontecimentos. Em vez disso, apreciem essa obra de amor à aldeia onde nasci e às suas gentes, dedicada "aos homens da minha terra, grandes contadores de histórias, cujo talento bem invejo e gostaria de poder imitar", recordem o sofrimento em que viveram os nossos antepassados, sintam a dor da perda causada pela passagem do tempo e pela inevitabilidade da doença e da morte.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Violência doméstica

Aí por 1990, a minha mulher foi chamada à escola da nossa filha mais nova, e escutava, atónita, a professora primária.
Meias palavras, frases veladas: — As vítimas tendem a entrar em estado de negação. Mas é pior. Veja lá, se precisar de auxílio posso encaminhá-la...
— Mas está a falar de quê?
— Bom, é sempre melindroso falar nestas coisas, não é? E baixando a voz: — A Sofia contou que o ambiente familiar é mau...
— O quê?
— Vê, é o que dizia, a negação sistemática... Confidenciou-me ela que lá em casa toda a gente se dá mal, reconheceu que há violência...
— À tarde, falamos com ela.
— Mas veja lá como lhe falam, o que lhe vão dizer, não esqueça que as crianças são sempre as maiores vítimas...
À tarde, já em casa, interrogatório: — O que é que foste contar à tua professora?
— Nada!
— Mas ela disse à tua mãe que te tinhas queixado do mau ambiente familiar, que tinhas dito que cá em casa toda a gente se dá mal, que há violência...
E a criança, com naturalidadel: — Ah, sim, falei nisso.
— Mas que violência é tu viste, quem é que se dá mal?
— Ora, tu gritas com as galinhas, chamas-lhes nomes! Até já te vi bater no galo com a colher de pau!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O carneiro

Era uma tarde de domingo, e eu, no alpendre, ao sol, lia tranquilamente o Expresso. Chama-me a atenção tropel rua abaixo. Um carneiro. Coitado, terá sorte se não for atropelado. Ia recomeçar a leitura quando o vejo, no quintal vizinho, a olhar-me. Não me preocupei. Separava-nos muro alto. De um salto, ei-lo no meu quintal, à briga com o meu cão, o Clip, um boxer. Acorro a tentar evitar que aqueles vândalos destruam a horta – o que depressa fazem, antes que consiga prender o Clip, que ladra furioso e corre em torno do carneiro que investe à marrada.
Como vou pôr na rua esta visita indesejada? Lembro-me dos cobóis. Com baraço, prendo-o pelo pescoço e puxo. Finca as patas no chão, não o consigo fazer avançar. Grito pela minha mulher. Peço-lhe que bata nas traseiras do carneiro enquanto eu puxo. E ela começa a bater, a medo – com talo de couve! Esforço-me, o carneiro cai por terra asfixiado. Alivio o garrote. Recomeçamos os três. Muito a custo, conseguimos pô-lo na rua.
Mas ele, em galope rápido, entra novamente no quintal do vizinho, daí salta o meu muro, ei-lo outra vez no meu quintal. E nós a escorraçá-lo. Centímetro a centímetro, que ele asfixiava e desmaiava frequentemente. Então deixava-o respirar, pôr-se de pé, ainda cambaleante, e vai de o puxar para fora do meu quintal.
Outra vez a mesma história. Lembro-me de enigma do livro da escola primária, algo como como transportar num barco um lobo, um cordeiro e uma folha de couve, e adapto-o: solto o cão, consigo, muito a custo, que o seu ladrar mais enervava o intruso, fechar o carneiro no canil, a investir contra a rede que ameaçava romper, saio a perguntar aos vizinhos com rebanhos se lhes faltava rês. O primeiro que encontro está a cair de bêbedo. Depois de me fazer entender, o que demorou, que as minhas palavras só a custo atravessavam a névoa alcoólica que o envolvia, bem patente no bafo que exalava, lá me diz que acha que não.
Figuras que fazemos: eu, que por ali não conhecia ainda ninguém, a tocar às campainhas, a bater às portas: -- Vizinho, apareceu um carneiro no meu quintal, sabe de quem é?
Depois de muito porfiar, lá dei com o dono. Ou com a pessoa que me disse que sim, tinham-lhe fugido cordeiros assustados com um cão, ainda lhe faltavam alguns. E lá vamos, eu, o vizinho, o filho, um baraço para trazer o animal de volta ao redil: -- Olhe que não o vai conseguir trazer à corda! Experimentei e ele finca as patas no chão, não há como o fazer andar.

Mas trouxe. E, surpresa, sem oferecer resistência. O truque? Pois o filho levanta uma das patas traseiras do animal, e aí vai ele, a seguir o dono como um cordeirinho.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O gatinho na oliveira

Noite gélida de Dezembro. Tinha então uma cadela rotweiller, e ela ladrava furiosa. Saí para o quintal a tentar perceber o que se passava. Nada descortinei na escuridão. Mas a cadela olhava para cima, para a oliveira que pega com as capoeiras. Não a consegui acalmar. Era tarde, mais de meia-noite, não queria que o seu ladrar poderoso, insistente, incomodasse os vizinhos. Fui buscar lanterna. A custo, avistei um gato no alto da árvore. Obriguei a cadela entrar em casa, na esperança de que o gato fosse à sua vida. Em vão. Quando, muito tempo depois, deixei sair a cadela, que não acalmava, a história repetiu-se. Eu queria sossego, queria deitar-me. Comecei por atirar objectos para a oliveira tentando assustar o gato. Subiu ainda mais.
Sem saber o que mais fazer, lembrei-me de usar água, sabido que é que os gatos a detestam. E vai mangueirada até ao alto. Mas o bichano, mesmo ensopado, não descia. 
Ouço chamar. Prendo a cadela, vou ao portão. Eram os vizinhos novos. Preocupados porque o seu gatinho siamês estava desaparecido.
Bom, estava um gato em cima da minha oliveira…
Se podiam entrar. Claro. E fui-me desculpando: até lhe atirei com uma pouca de água a ver se descia, coitado… Não imagino o que terão pensado ao ver o charco debaixo da árvore, depois ao recuperarem o bichano ensopado, a tiritar como varas verdes, que a vizinha aconchegava no regaço, a tentar aquecê-lo, parecendo não ligar às desculpas que eu repetia: sem saber como fazer o gatinho descer, só me tinha lembrado da água…
FOTO: a cadela, Sete de seu nome de família. Com um tubo de PVC, o seu brinquedo favorito. Saudades.

Mulheres endiabradas

Houve, há, mulheres do diabo, volteiras, capazes de surrar impiedosamente um homem. Já vi algumas. Mas nenhuma como a deste episódio
Anos atrás, ao chegarmos ao café das imediações, deparámos com rapaz a tentar estancar o sangue que lhe jorrava da face. Sem querer ser parte nos conflitos daquela gente, entrámos, apesar do sol de inverno pedir esplanada. Ao balcão, uma jovem, estatura mediana, forte, berrava ao telefone e, olhos a fuzilar, olhou-nos como se também nos fosse desancar. Pedi os cafés, acrescentei, a querer distância da moça enraivecida: -- Vamos lá para fora. E perguntei à empregada,filha da dona, enquanto pagava para abalarmos depressa: -- O que é que foi?
Em voz baixa, sempre sem despregar os olhos da porta, não viesse de lá a outra, contou: aquele rapaz, e apontou-o com o olhar, pedreiro, ao vê-la chegar, teria murmurado algo; desconfiada, a volteira partiu uma garrafa e cravou-a impiedosamente na cara do moço. Depois, entrou, não a proteger-se de retaliações, mas a exigir o telefone, e ligou para a polícia a reclamar a sua presença.
-- Mas, acrescentava a empregada, eles não querem vir, que anteontem, no, e disse o nome de café vizinho, armou desordem, veio a polícia e arrumou um dos agentes com joelhada entre as pernas!

FOTO: a Maria da Fonte / Não é mulher como as mais / Usa facas e pistolas / Para matar os Cabrais!

O lateiro

O lateiro* (Da série, Na tropa)
Sofria então do apetite voraz dos vinte anos, agravado por exercícios físicos intensos e castigos frequentes. Com motivo, sem motivo, ou por dá cá aquela palha,
-- Tá a encher! Faça (a fórmula de tratamento era sempre respeitosa) aí trinta flexões e dez cangurus!
ou porque todo o pelotão era castigado,
-- Mais dez!
ou por recusar parvoíces,
-- Vá dar vinte àquela árvore! 
--  Então faz já vinte flexões aí. Protesto: corre água por baixo. -- Assim, são cinquenta. Se as fizer bem feitas não se molha! 
Mas os braços exaustos mal conseguiam levantar a barriga do chão. 
-- Mais vinte, que essas foram aldrabadas!
E nos crosses que antecediam a saída de fim‑de‑semana, que fazíamos com as botas da tropa,  a farda de trabalho, os arreios, os carregadores e o cantil, ambos vazios, muitas vezes carreguei, para além da minha G3, a de camaradas menos robustos fisicamente: enquanto não estivesse todo o pelotão formado e impecavelmente arranjado na parada, não havia saídas para ninguém. Ora não podia perder a única carreira do sábado à tarde para a minha terra...
Pois a fome era constante, a fraqueza muita, a comida péssima.
-- Como é que está o prato, perguntavam-me os camaradas, antes de se atreverem a provar. Se dizia "Está bom", traduziam por "Pode-se comer". Caso contrário, ficavam-se pela sopa e pelo "casqueiro", o saboroso pão estaladiço, cozido no quartel. E seguiam para a camarata, a completar a magra refeição com  pitéus -- alheiras, chouriços, queijo, bolos, tudo trazido de casa em cada fim-de-semana, e, quando havia saídas à noite, enchiam-se de tostas, sandes e galões nos cafés da cidade. Não eu, que não podia, nem queria: obrigam-me a estar aqui, têm de me alimentar. 
Logo ao pequeno almoço, enfiava dentro de carcaça um pacote inteiro de 250 gramas de manteiga genuína, único luxo alimentar da minha recruta, e empurrava aquilo com a mixórdia de café com leite em pó, a que, dizia-se, adicionavam químicos para tirar a tesão. Ao almoço e ao jantar, virava a travessa, se os outros, apetite perdido à vista dos manjares servidos, apenas sujavam os pratos de segundo para não serem acusados de levantamento de rancho e se retiravam enojados a comer dos armários.
Pois num belo dia de muita chuva, em que rastejávamos pela lama, rolávamos por ribanceiras, treinávamos a "queda na máscara" sobre urzes e espinheiros, o aspirante confidenciou: -- Hoje há rancho melhorado! E não revelava que prato seria esse a substituir o maldito espaguete gorduroso, que fiquei a odiar para o resto da vida, ou o arroz espapaçado, adubado talvez com um ou dois estilhaços de carne horrível. 
Aguardávamos impacientes na formatura por ordem de entrada no refeitório. Os longos minutos pareciam horas, depois passaram a horas. Mais de duas, de pé, na descansada posição de Descansar. Desesperava com fome, receava desmaiar de fraqueza, como vira já suceder a outros. 
Eis que surge o comandante de companhia. com as duas notícias da praxe, uma boa: teríamos frango assado; outra má: tinha havido uma avaria na cozinha! E pedia voluntários para ajudar, não é a vossa função, senhores instruendos, mas para almoçarem mais depressa...
Sabia, tal como todos os outros, que na tropa nunca se deve ser voluntário para nada. Mas a fome era negra e avancei, na esperança de, uma vez dentro da cozinha, deitar mão a perna de frango, a asa que fosse...
E pela primeira vez entrei na cozinha de um quartel. Cheiro nauseabundo. Porcarias por todo o lado. Chão imundo, gorduroso. E vi, com estes dois que a terra há-de comer, tarde, espero, um soldado a limpá-lo com esfregona, a mesma que de seguida introduziu numa das enormes panelas antes de outro para lá despejar o arroz que iria acompanhar o frango assado.
Nunca mais entrei na cozinha de um quartel -- mas aquele cheiro nauseante, inconfundível,permanece entranhado nas minhas memórias quarenta anos depois.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Artimanhas da escrita

Em cada discurso do general De Gaulle, mesmo naqueles que proferiu em momentos de crise profunda, de quase guerra civil, havia, invariavelmente, uma palavra rara. 
O presidente vai falar esta noite? Pois reuniam-se frente aos televisores, em casa, nos cafés, nas brasseries, nas colectividades, ouviam-no religiosamente até ao fim, cada qual querendo ser o primeiro a identificar a palavra, a explicar triunfante o seu significado, a listar as acepções, a discutir a pertinência do seu emprego.
Também eu recorro frequentemente a este truque para ser lido e verificar se o fui. Não se amofinem. Lembrem-se d'A Queda, de Camus: "Ah! Noto que implica com este imperfeito do conjuntivo. Confesso o meu fraco por este modo, e pela frase castiça em geral." 
Portanto, não me censurem por recorrer amiúde a arcaísmos sintácticos e lexicais. Os quais, afinal, talvez não sejam de tão mau gosto como os palavrões, quando são utilizados escusadamente...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Mobilizado para a Guiné

Enquanto o primeiro texto sobre as minhas vivências na tropa não sai, fiquem com este do escritor João Madeira, extraído do seu romance O Rio que Corre na Calçada e apreciem a arte de bem escrever.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Não me falem de tropa!

-- Não me fales de tropa! Já não posso ouvir falar de tropa!
Desabafo concluído, os moços acabados de chegar do quartel para breve fim-de-semana não falavam de outra coisa. Alguns, poucos, pela patente militar ou pelo estatuto social, eram rodeados por ouvintes respeitosos, que lhes bebiam sôfregos as palavras. Mas os zés-ninguém tinham de se esforçar para conseguirem um pouco de atenção para as suas histórias já gastas, e alteravam enredos, procuravam o exótico, sublinhavam o picaresco, deitavam mão às artimanhas que a fala permite para prender ouvintes -- imitavam os linguajares dos bimbos ou dos algarvios, variavam o tom de voz, enfatizavam os gestos, abusavam dos trejeitos, para que os não os interrompessem: -- Essa já conhecemos! -- e antecipassem imediatamente o final.
Como eles, com quarenta anos de atraso, também eu me proponho dar vida um punhado de historietas banais do meu tempo de tropa, ciente de que hoje, menos ainda do que na época, a poucos interessarão:
 -- Não me fales de tropa! Já não posso ouvir falar de tropa!
Não há problema. Como se diz na minha terra, a quem não quer tenho eu muito que dar.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Quarenta anos atrás...

Dá vontade de rir pensar que este bando de miúdos enfezados, engravatados, eram soldados– instruendos e estavam a ser duramente preparados para a guerra e para nela comandarem praças pelas picadas de Angola – Spínola pretendia descolonizar as restantes “províncias ultramarinas”, mas preservar a jóia do Império.
Este é o meu pelotão, um dos cinco de cada uma das cinco companhias de instruendos do quartel, comandado pelo aspirante, atrás, ao meio, facilmente identificável por ser o único de quico. Um ranger. Dos duros. Não parece, pois não? Fosse hoje e veríamos no seu lugar matulão culturista, cara borrada, ar de mau, não com a farda de trabalho, mas envergando imponente camuflado, mangas arregaçadas a exibir os poderosos músculos. Mudam-se os tempos, mudam-se os soldados.
Sou o terceiro a contar da direita, na fila do meio, óculos e bigode. Incorporado à força, aos vinte anos, exactamente quarenta anos atrás, no Regimento de Infantaria n. 7, de Leiria. Deram-me fardamento, a descontar no pré, uma G3 para companhia permanente, um lugar num beliche duma camarata, pespegaram-me ao peito letreiro com um número para saber que de indivíduo passava a soldado-instruendo 1093/975.
Saudades? Nenhumas. Não gostei da tropa, da ordem unida, da vida regulada pelos toques de clarim, das formaturas, dos discursos intermináveis sofridos na parada na posição nada descansada de "descanso", da comida que hoje não dariam aos porcos, dos castigos por dá cá aquela palha, dos fins-de-semana cortados, da instabilidade que o ambiente de pré-guerra civil causava. 
Porém, estive lá. Contrariado, mas estive. Quarenta anos atrás, que passaram quase sem que desse por eles.

Virgens ou uvas?

Não surpreende a aversão das religiões à ciência: pois se esta lhes está constantemente a destruir, não apenas certezas, mas, pior, as mais deliciosas das promessas! Por exemplo, leio no blogue de Rentes de Carvalho, Tempo Contado, que um estudioso do Alcorão sustenta que as virgens prometidas aos mártires são um erro de tradução; o que os espera são apenas... uvas brancas! Leiam o post, sigam os links, que vale a pena.

Lobos livres e cães acorrentados

Sempre que vejo um cão acorrentado, lembro-me da fábula de La Fontaine: um mastim possante, luzidio, bem tratado, tenta convencer um lobo escanzelado a abandonar a vida selvagem e a deixar-se domesticar. Não só se livra da fome crónica, das perseguições, das armadilhas e venenos, como até passa a ter direito a acepipes de luxo, como ossos de frango e de pombo mal esburgados, afagos sempre que o dono estiver de feição. Mas o lobo, prestes a deixar-se convencer, repara numa marca no pescoço do cão.
-- Que é isso?
-- Nada, disfarça o cão. Mas o lobo insiste. E o cão acaba por confessar que são marcas da coleira com que o prendem. Preso? Ah, o lobo não trocaria a liberdade por todas as iguarias do cão, por um tesouro que fosse. E deu em fugir com tal ímpeto que até hoje não parou de correr.
(A fábula pode ser lida, por exemplo, neste link.)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

No campo

Ontem, quinta-feira. Outro dia de labuta intensa: de manhã. trasfega do vinho (foto 1). De tarde, abri regos de drenagem (foto 2), não se dê o caso de vir para aí chuva intensa como nos dois anos anteriores, e, aproveitando a charrua montada, lavrei um bom talhão (foto 3). Foto 4: o feliz lavrador



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Um Natal inesquecível

Com os meus desejos de que todos, amigos e menos amigos, conhecidos e desconhecidos, tenham o melhor Natal que lhes for possível, aqui vai historieta apressada a recordar um Natal especial para mim.
" O Natal trazia invariavelmente o desapontamento: em vez de brinquedos, o Menino Jesus apenas me deixava peúgas num dos sapatinhos; no outro,  filhós desenxabidas. 
Ah, mas este ano seria diferente, bem o anunciara o sr. prior na missa de domingo, bem o confirmara a catequista: uma viúva rica da terra, contemplada com quinhentos contos de reis na lotaria, faria depois da missa uma distribuição de brinquedos às crianças pobres.
Com que euforia corremos da igreja até à casa da viúva, na ânsia de, chegando primeiro, conseguir os melhores brinquedos. Ei-los em prateleira, bem defendida por barreira de beatas: automóveis de plástico, cavalinhos de madeira, belas bolas de futebol, a imitar as de cauchu, "tátechumbo", como lhes chamávamos.
— Têm de esperar pelo sr. prior! 
Que nisto do dar, faz falta a pompa, o cerimonial, a pregação da moral, os bons conselhos.
Os meus colegas de escola e de rua, imbuídos do espírito natalício, empurravam, deitavam olhares ferozes aos outros, ameaçavam, preveniam: — Aquele carro é para mim! 
— A bola é minha!
A custo, o mulherio impedia a pilhagem. E quando o sr. prior, entretanto chegado, deu por terminada a prelecção, que nenhum de nós ouviu, hipnotizados pelos brinquedos já escolhidos, diz a viúva, milionária por graça divina:
— Agora, meninos, com compostura, cada um vai tirar um brinquedo da prateleira!
Foi um assalto. Uns empurraram as mulheres, outros furaram-lhes por entre as pernas, logo deitaram a mão ao que puderam, e abalaram em correrias triunfantes levantando o troféu conquistado.
Também eu avancei — mas a prateleira estava já vazia. 
Saía a chorar,
— Que tens, meu menino? Não gostaste da nossa festa?
E eu, a fungar: — Já não há brinquedos para mim...
— Então toma este, e a viúva estendeu-me casinha que, caída por terra, tinha escapado ao assalto infantil. Brinquedo de menina, do tamanho da cabeça do meu dedo mindinho, de consolo nulo para a criança que acabava de perder automóveis e bolas e via arruinado o sonho de que, finalmente,  o Menino Jesus, lhe desse brinquedo, por interposta pessoa que fosse... "

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Custos repartidos

O velhote pedia ao bombeiro -- Precisava que vocês me viessem cortar a nogueira...
-- Isso arranja-se...
-- Mas olha que as nozes são para os meus netos! E a lenha fica para a minha família... Mas deixa lá, e sorriu malandro, o trabalho fica para os pretos!
O bombeiro mudou de cor. Ao chico-esperto só conseguiu responder: -- Bom, mas há custos...
-- Custos? Que custos? Vocês têm as escadas, as serras...
E o bombeiro, a desviar a conversa: -- Porque é que vossemecê quer cortar a árvore?
-- Toda as manhãs, quando abro a porta da cozinha, vejo-a à frente!
-- Sorte a sua, eu, de manhã, quando abro a porta da cozinha, vejo logo a minha sogra...
-- Bom, mas cortam a nogueira, não é?
-- Já lhe disse, há custos... Tem de falar com o comandante.
-- Assim, corto-a eu! E não tenho custos.
Pois teve, mas os custos foram repartidos: ao avarento, a proeza custou a vida; aos bombeiros, retirar-lhe o corpo, caído na estrada.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Português Técnico

"Em ata, o júri justificou a atribuição do galardão a XXXXXXX, pela "escrita ágil de um autor que sabe realizar uma especial economia de efeitos, encontrando uma linguagem em que o português é falado em interceção com outros modos".
Quanto ao romance "YYYYYYYY" o júri salientou "a abordagem etnográfica a que o romance procede, pouco presente no panorama da atual ficção portuguesa, expressa numa narrativa bem conduzida, cuja frase é, no geral, vertebrada, sendo sentimentalmente envolvente e suscetível de atravessar diversos patamares de leitura"."
Parafraseando Calisto Elói, o que significam em vernáculo estas tretas vertebradas em intercepção com outros modos?

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Contagem de protecção

Sempre me indigna ver muitos a agredirem a um só, demais a mais caído -- espancado talvez pelos mesmos que tanto o bajularam quando estava de pé, poderoso e arrogante. 
Contem até dez, deixem-no recuperar a dignidade, esmaguem-no no próximo round se forem capazes e entenderem que merece a surra. Com lealdade, de instituição para homem, não assim, não agora, neste vale-tudo ignóbil.

domingo, 23 de novembro de 2014

Do lodo e da lama


Não partilho a alegria que parece ter tomado conta deste país pela prisão, certamente temporária, do antigo primeiro-ministro. Nem me coloco do lado daqueles que inventam justificações para apresentarem a detenção como resultado da perseguição dos seus inimigos. 

José Sócrates, o engenheiro dominical, irritou-me enquanto governante com a sua arrogância e, sobretudo nos anos finais do seu governo, com a sua cegueira obstinada que conduziu o país à perda da pouca soberania que lhe restava após a adesão à União Europeia e ao Euro. Não foi pouco. Mas foi eleito com o voto livre do povo, da primeira vez também com o meu, pelo que então dei por mim a repetir frequentemente "T'as voulu, t'as eu, de quoi te plains-tu?" (quiseste, tiveste, de que te queixas?), dito que a sua forte conotação sexual tornava ainda mais apropriado. 
Foi corrido em eleições livres. Adiante. Não me movem desejos mesquinhos de vingança. Se é culpado, que se faça prova em tribunal, que seja sentenciado com a justiça possível pela senhora dos olhos vendados. Que os devia desvendar mais vezes, para, ao errar, não ter a desculpa de não ver o que faz.
Pois eu, retirado na aldeia por uns dias, quase sem ver televisão, com acesso limitado à internet, ocupado de manhã à noite, nem sofri com o circo mediático, o mesmo que tanto favoreceu Sócrates nos seus tempos de governante, quando tratava por tu os chefes de redacção e não se coibia de lhes telefonar a pressioná-los. Não. O que me incomodou deveras foi o ataque massivo de mosquitos e moscardos que me deixaram num triste estado, apesar do repelente com que me cobri, ao teimar arrancar as batas-doces já afogadas em lamaçal e sob a chuva que não cessou de cair. 
FOTOS: (1) o meu fiel amigo, o Tex, sempre pronto a saltar para a caixa do tractor e a acompanhar-me nas idas ao campo; 
(2) a batata-doce, coberta de lama.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Como comprei Paroles, de Prévert

Todas as manhãs, a caminho da faculdade -- o metro acabava então em Entrecampos --, a fazer tempo para a primeira aula, Latim, detinha-me em frente a montra a namorar livro por que me apaixonara. Não, nem pensar na extravagância de gastar com ele os escassos tostões, sempre bem contados, indispensáveis para as fotocópias e raros livros que não podia deixar de comprar. Estava em ano de azar, de dia estudante, a levantar pelas cinco da manhã, apanhar ronceiro comboio regional e passar o dia na faculdade, à tardinha caminho inverso, para trabalhar até à meia-noite, comer apressadamente e dormir o possível. O mais, estudava no comboio, dormia no comboio, corrigia os testes no comboio. Ao meu lado, trabalhadores ferroviários, mais ou menos da minha idade, ocupavam as viagens entre jogos de cartas e larachas. E eu, que sempre detestei madrugar, consolava-me: para mim, são só mais três anos. Para estes será a vida inteira...
No ano anterior, a vida pregara-me partida: por não ter assinalado com cruz quadrado no boletim de concurso, tinha sido excluído e passado a "mini-concursiano", com contrato e salário a terminar no fim de Julho para só voltar a receber bem depois de lá para Novembro recomeçar a actividade lectiva. E a minha mulher perdeu primeiro a habilitação própria de que dispunha, por alteração legislativa, e logo a seguir o emprego. Não havia então subsídio de desemprego para professores...

Foi o tempo em que voltei a comer esparguete. Pela primeira vez depois da tropa, onde aprendi a abominá-lo. Foi o tempo em que esperei pelo subsídio de natal, que recebia por duodécimos correspondentes aos meses em que trabalhara no ano anterior, para comprar roupa para a nossa filha -- então era só uma --, uns sapatos para mim, que os únicos que tinha, solas esburacadas, metiam água quando chovia. E o primeiro-ministro, Mario Soares de seu nome, entendeu mandar pagá-lo --com corte de um terço! 

Certamente contristado ao olhar para os meus sapatos, a abrirem a boca, colega mais velho, a quem por isso mesmo continuo grato, arranjou-me explicações, que dava aos sábados à tarde. Sobrevivemos com parcimónia que hoje provocaria sorrisos de escárnio. E sempre pagámos pontualmente renda de casa, pequenas dívidas contraídas junto da família. 

Pois lá para finais do ano lectivo, um poucochinho mais desafogados, que a minha mulher arranjara emprego, pude entrar na livraria e comprar o tal livro.

Com que prazer o li na viagem de regresso, à noite nos intervalos das aulas, depois vezes sem conta pela vida fora! Ainda hoje permanece vivo o carinho por esse Livre de Poche, de seu título Paroles, de Jacques Prévert, Dele aqui fica o belíssimo poema em que dois caracóis vão ao enterro de uma folha morta, seguido de paráfrase para eventuais leitores mais jovens, que porventura não dominem o Francês.



CHANSON DES ESCARGOTS QUI VONT À L'ENTERREMENT
"A l'enterrement d'une feuille morte
Deux escargots s'en vont 
Ils ont la coquille noire 
Du crêpe autour des cornes 
Ils s'en vont dans le soir 
Un très beau soir d'automne
Hélas quand ils arrivent
C'est déjà le printemps 
Les feuilles qui étaient mortes
Sont toutes réssucitées 
Et les deux escargots 
Sont très désappointés 
Mais voila le soleil 
Le soleil qui leur dit 
Prenez prenez la peine 
La peine de vous asseoir 
Prenez un verre de bière
Si le coeur vous en dit 
Prenez si ça vous plaît 
L'autocar pour Paris 
Il partira ce soir 
Vous verrez du pays 
Mais ne prenez pas le deuil
C'est moi qui vous le dit
Ça noircit le blanc de l'oeil
Et puis ça enlaidit 
Les histoires de cercueils 
C'est triste et pas joli 
Reprenez vous couleurs 
Les couleurs de la vie 
Alors toutes les bêtes 
Les arbres et les plantes 
Se mettent a chanter 
A chanter a tue-tête 
La vrai chanson vivante 
La chanson de l'été 
Et tout le monde de boire 
Tout le monde de trinquer 
C'est un très joli soir 
Un joli soir d'été 
Et les deux escargots 
S'en retournent chez eux 
Ils s'en vont très émus 
Ils s'en vont très heureux 
Comme ils ont beaucoup bu 
Ils titubent un p'tit peu 
Mais là-haut dans le ciel 
La lune veille sur eux" 



Jacques Prévert, Paroles

(Dois caracóis vão, carregados de luto, ao enterro de uma folha morta, numa noite de Outono; quando chegam, é já Primavera, as folhas mortas ressuscitaram, e os caracóis ficam desapontados; Mas o Sol convida-os a sentarem-se, a beberem um copo de cerveja (si le coeur vous en dit), as histórias de caixões são tristes e nada bonitas. Então todos os animais, as árvores e as plantas se põem a cantar a plenos pulmões a verdadeira canção dos seres vivos, a canção do Verão. E toda a gente a beber, e toda a gente a emborcar, é uma bela tarde de Verão. E os dois caracóis regressam a casa, comovidos, muito felizes. Como beberam bastante, vacilam um pouco, mas lá no alto do céu a Lua olha por eles.)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Coisas do demiurgo

De chofre, a minha sogra, 84 anos lúcidos, pergunta-me ao jantar: se acredito que que o nosso destino está escrito em livro, ou se somos nós que o fazemos.
Encolho os ombros: não sei. Não tenho a sabedoria de Santo Agostinho, e não me apetece reflectir por entre colheradas de sopa sobre determinismo e livre-arbítrio. Já a minha sogra se alonga, indiferente à resposta: arrepende-se de muitas asneiras, como a de num passado já longínquo ter deixado a casa em que vivia para ir para a de uma das filhas. Não me pronuncio. Parece não haver maneira de recuar ao passado a emendar os erros -- tantos que eu gostaria de poder corrigir! Só nos resta conviver com eles, por dolorosa que seja a recordação. E não repetir aqueles que se possam evitar.
Mas a questão inicial subjaz: determinismo ou livre-arbítrio? Como explicar-lhe que há o ADN, que há a sociedade, a educação, a avaliação correcta das situações em que a vida nos coloca, sempre difícil quer por insuficiência de informação, quer porque tendemos a decidir com o coração e não com a cabeça, e esta, frequentemente, tem por função encontrar justificações para as escolhas do coração... Não sei se a vida nos deixa muita margem de escolha.
Porém, admitir que a nossa vida está, foi, previamente escrita, no sentido em que as nossas escolhas estão quase sempre condicionadas, faz-me pensar que é da autoria de mau escritor -- afinal, a velha concepção platónica segundo a qual este mundo grosseiro, desconcertado, imperfeito, foi obra do demiurgo, um deus trapalhão, incapaz de reproduzir materialmente a perfeição das abstracções.
Não era nada disto que a minha sogra queria saber com tal questão, longamente meditada. A pergunta foi artifício retórico para iniciar o desabafo que se seguiu. Com as pessoas erradas. Que fazem o que podem para ajudar a resolver o seu problema a seu contento, nada fácil quando se esbarra com uma parede de certezas, indiferente aos sentimentos, aos pensamentos dos outros intervenientes -- outra evidência  de que afinal não podemos escolher o nosso destino.

sábado, 1 de novembro de 2014

Escrever é suspeito

As noites alongavam-se intermináveis, eu esperava no café das bombas de gasolina que amanhecesse para apanhar o primeiro autocarro, voltar a casa, dormir, dormir. Aquele purgatório repetia-se sempre que estava no turno das quatro à meia-noite.
A princípio, percorria a cidade adormecida a pé, dos Parceiros aos Marrazes, à estação; experimentei deitar-me no mato, escondido dos olhares, e tentei dormir. Mas o frio que remanescia da terra penetrava cortante pelo capote, pelas camisolas, pela carne, chegava aos ossos, e pouco tempo depois lá voltava eu ao café, o único que estava aberto durante toda a noite. Uma bica, um rissol, a um canto ocupava o tempo a escrever. Panfletos que depois haveria talvez de bater à máquina, imprimir na maquineta, esse copiador artesanal, e pela calada na noite deixar debaixo de automóveis estacionados, uma pedrinha em cima, para que só fossem descobertos muito depois de eu por lá ter passado. Ou poemas – textos empolgados, abundantemente adjectivados, recheados de metáforas e imagens, que há muito destrui. Assim ocupava a solidão dessas noites.
Aí pelas três, quatro da madrugada, quando cabeceava com sono, chegavam em vários carros sete ou oito clientes, sempre os mesmos. Com histórias de grandeza imaginária, à portuguesa, a impressionar ouvintes, mas sobretudo com fados. Ali ficávamos, o dono do café atrás do balcão, eu a escrevinhar, os fadistas a animarem a noite. Tinham jeito. Tinham garra. E desconfiavam de mim, naquele tempo em que todos desconfiávamos uns dos outros: que fazia eu ali àquelas horas, quando todos os outros dormiam? Nunca mo perguntaram. Mas pressentia a desconfiança nos seus olhares.
Até que um dia, já depois do 25 de Abril, um dos calmeirões se me dirigiu, como se falasse para o grupo: quem era aquele gajo, sempre a ouvir e tirar notas?

Ah, não! Tudo podia ser – menos bufo. E puxei dos galões. Era dirigente da Comissão de Trabalhadores, do Comité Operário dos Plásticos, este clandestino. Dei-lhes a ler o que escrevia, algum apelo aos camaradas operários para que se levantassem contra a exploração capitalista. Calei-os. Mas creio que ainda hoje, quarenta anos depois, ainda há quem me olhe com desconfiança nos cafés onde escrevo…

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Público deste blogue

Uma consulta às estatísticas das visualizações deste blogue surpreende-me: ultimamente, apesar de pouco ter 'postado', tem tido muitas visitas. E, maior das surpresas, provêm quase todas dos EUA!
Obrigado, amigos americanos! Só espero que a tradução do Google não faça de mim um jihadista!

A lição do estucador

Os dois estucadores, cada qual a trabalhar num lado da sala enorme, aperceberam-se da entrada de um dos encarregados. O mais velho, homem magro, seco, a avizinhar os cinquenta, continuou na sua labuta, com o rigor e a calma habituais. O mais novo, jovem recluso da Prisão-Escola de Leiria, deu em lançar frenético estuque para o tecto, a todo o instante gritava-me: -- Massa! Traz mais massa depressa! Massa! E eu corria a dar-lhe serventia, estranhando, na minha juventude, tanta energia súbita...
O encarregado começou a implicar com o mais velho. Que pusesse os olhos no jovem. Porque afinal ganhava bem mais. Para fazer menos. A conversa depressa azedou.
Às tantas, ouço ao velho estucador: -- A chaminé ainda fuma e ainda tenho batatas na despensa! 
Sem mais palavras, desceu do andaime, juntou as ferramentas e ala!
Também eu, que vou tendo batatas e lenha para o fogo, tenho a presunção de ser livre como esse estucador que nunca mais vi. Independente como ele. Com a arrogância de dispensar padrinhos, recusar empenhos, de não precisar das boas graças de nenhum merdas, dos muitos que infestam este país, que, por isso mesmo, fede insuportavelmente.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O morcego e a gripe das galinhas

Os media alvoroçavam o país. Era a pandemia de gripe. O governo decretou registo obrigatório nas juntas de freguesia das aves de capoeira, potenciais transmissores do vírus. Cidadãos apavorados chamavam as televisões, exigiam que toda a ave encontrada morta fosse analisada. Com o aparato protocolar. Na minha escola colocaram frascos de desinfectante, resmas de folhetos a alertar para a doença, a indicar procedimentos preventivos, arranjou-se uma sala para isolamento de aluno que fizesse atchim! até que chegassem técnicos do centro de saúde. Um colega abria as portas com toalhas de papel, recusando-se a tocar nos puxadores...
Pois com o país paranóico, um cidadão telefona em pânico para a protecção civil: tinha encontrado um morcego morto, exigia que fosse analisado. O responsável, não sabendo o que fazer, telefonou ao delegado de saúde.
-- Não posso fazer nada, vou a caminho do Algarve para umas férias...
-- Ó doutor, o homem não se cala...
-- Diga-lhe qualquer coisa...
-- Mas ele não sossega! Exige, por força, a presença do doutor!
-- Já lhe disse que não posso...
De repente, o responsável da protecção civil teve uma ideia, daquelas que nos fazem gritar como o sábio da antiguidade: Eureka!
-- Ó doutor, os morcegos não são aves!
-- É isso! Diga ao homenzinho que morcego não é ave, não apanha gripe das galinhas!
(História ouvida ao Nuno, em plena pandemia. Que me ocorreu agora ao ler um comentário  sobre morcegos.)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Lá vai o gajo!

— Para a semana, lá vai o gajo!
E lançou em voo cana, a imitar o avião em que partiria para a América. 
Pois um dia o gajo voltou, a férias com a família. Ele transmudado em adolescente gringo, no vestir, nos modos, nos interesses. Esquecera por completo as amizades de criança, olhava com desprezo para a nossa pobreza, que fora a sua até aos cinco anos. Naquele tempo, em que na aldeia as mulheres cobriam as tranças com lenços, e pouco mais descobriam que as mãos calejadas, as unhas sujas, as canelas peludas, os pés encardidos do pó dos caminhos, a irmã, mais velha, género boazona, deslumbrava a rapaziada com os seus decotes generosos, hot pants reduzidos a expor pernas depiladas, tentadoras coxas bronzeadas que enlouqueciam a rapaziada, a sonhar abri-las. (Ah, não tivessem arrancado as vinhas, e elas poderiam contar das inúmeras punhetas por lá batidas em sua honra por chusmas de rapazes augados!) O pai, que partira cavador, terceira classe feita, trajava agora como turista americano, sapatilhas e meias brancas, calções de cáqui, chapéu de palha, máquina fotográfica reflex a tiracolo. Contavam as velhas que o encontravam meditativo no cruzamento de caminhos, a tirar fotos a coisas sem jeito nenhum, ou a escrever em caderno que sempre o acompanhava. No adro da igreja os homens escutavam-no curiosos: na América, lia vários jornais por dia...
— Portugueses? Há lá jornais portugueses?
Haver, havia. Mas ele apenas lia os ingleses. Porque nos portugueses era só quem tinha nascido, quem tinha sido batizado, quem tinha morrido...
Crescia o espanto nos olhos dos ouvintes, também eles a suspirar por quem lies enviasse carta de chamada para largarem as enxadas e partirem para esse Eldorado, onde se entrava cavador analfabeto e se vivia como lorde letrado. Só eu duvidava de tal proficiência linguística, que na véspera ouvira a mulher, a única da família que se preservara barroa, a contar à minha mãe, após se assegurar de que não havia homens por perto: — Sabes como é que se diz saia em Inglês? Acena a minha mãe negativamente. E a americana, triunfante: — Cona! Pois vê tu, e ria perdidamente, que aquelas cabras andam com a cona à mostra!
É de ternura o sorriso com que recordo estes pequenos nadas da infância, paradigmas daquilo que fomos, daquilo que somos. Pobre país de ludíbrios, de mistificações, de mentiras, em que nos cobrimos de ridículo a fingir ser aquilo que jamais seremos, talvez para esquecer que a vida é cana lançada em breve voo, depois — Lá vai o gajo!  

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Bullying avant la lettre

O Tóino brinca pacífico à porta de casa. E eu a gritar-lhe, preparado para fugir ladeira acima:
-- Eh bucha! Não me apanhas, não me apanhas, gordo de merda!
Ele ainda me persegue. Mas depressa se cansa, volta atrás esbaforido, a vociferar ameaças:
-- Ah, quando te agarrar, eu faço, eu aconteço....
À noitinha a minha mãe manda-me fazer recado: -- Vais a casa da avó da Luz...
Tinha de passar pela casa do Tóino.
-- Não vou, tenho medo...
-- Medo de quê, se ainda é dia? Toca a andar, seu medricas! 
Cheguei a casa da minha avó ofegante, coração aos coices, da rápida corrida para evitar maus encontros. Mas no regresso, lusco-fusco, o malandro pegou-me de emboscada: 
-- Desta é que mas pagas!
E agarrava-me por uma orelha, esbofeteava-me, -- Vá, chama-me agora bucha!
Eu choramingava, entre lágrimas e ranho: -- Vou dizer à minha mãe... É tanto me contorci e berrei que consegui libertar-me. Apenas me afastei três pulos, -- Ranhoso, bucha, és só banhas, paneleiro de merda! -- nem sabia então o que era isso. E ele, a quem a fúria dava asas, quase a apanhar-me outra vez, perseguia-me até casa, a rosnar ameaças espumadas: -- Agora é que as levas a sério, dou-te coça que te vai servir de emenda!
A chinfrineira atrai à porta a minha mãe. -- Que guerra é essa, vamos lá a parar com isso!
-- É este bucha que me bateu e quer bater-me mais!
-- Não admito que me chames bucha!
-- Alguma lhe fizeste!
-- Eu? Vinha a passar de casa da avó, agarrou-me de surpresa, começou a bater-me...
-- Porque tu esta tarde chamaste-me nomes!
-- Eu? E para a minha mãe: -- Que eu seja ceguinho...
A minha mãe estava brava. Um marmanjo daqueles -- bucha, gordo, ia eu dizendo, já agarrado às saias dela -- a bater no seu filhinho, criança indefesa, "relezica", e sem quê nem porquê. 
-- Pois a tua mãe vai sabê-las e é agora!
Eis que as nossas mães ralham, a do Tóino que não aguenta mais ouvir a garotada a atentar-lhe o filho, que só quer brincar sossegado, a minha que nomes não fazem sangue nem marcas como as que tenho na cara: -- Ora veja-me lá o que o seu filho me fez ao garoto, acha bem?
-- E você acha bem que o seu lhe chame gordo?
-- Pois se o é!
Era, mas de doença! E doenças não se atiram à cara. 
-- Doença? Vossemecê até conta por aí: "O meu Tó é uma boquinha abençoada, come uma dúzia de sardinhas de cada vez!" 
-- Ora, o que come ou não come é comigo. Felizmente posso dar-lhas, não sou como umas e outras que têm de dividir uma sardinha pelos filhos.
-- Pobre, mas honrada, ouviu? E que o seu filho que não torne a bater no meu!
-- Ora, o seu que lhe não chame nomes! E fecha ruidosamente a porta de casa, farta da peixarada.
No caminho de casa, levo reprimenda forte: -- Ai de ti se eu sei que o voltas a provocar! Quem vai, vai, quem está, está.
-- Eu, mãe?  Ele é que me bate primeiro...
-- Se não podes com ele à unha, chega-lhe à pedrada! Não te venhas é queixar para casa!
Pois sim. Mal saía da escola, atirava a mala para cima da mesa, enchia a boca de torrões de açúcar e corria escadas abaixo antes que a minha mãe me impedisse. Ainda me gritava da janela: -- Onde vais? Já fizeste os trabalhos de casa? Merenda primeiro!
-- Vou brincar, depois faço-os. Não tenho fome, como depois...
Lá estava o bom do Tóino a brincar pachorrento à porta.
-- Eh gordo! Bucha de merda, paneleiro! Não me apanhas! Não me apanhas!
E ele outra vez a espumar ladeira acima: -- Vais ver a coça que te dou quando te agarrar! Ainda te faço pior do que ontem!
-- Ó mãe, o bucha quer bater-me outra vez! grito, ele olha em volta, detém-se por um instante, o bastante para me pôr a salvo em casa, galgando de pulo as escadas. 
-- Vieste a fugir de algum? E a minha mãe, desconfiada por me ver chegar bofes à boca, deita mão a verdasca justiceira.
-- Eu, mãe? Vim a correr para fazer os trabalhos da escola!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O mistério da agricultura biológica

De todos os mistérios da vida moderna, o que mais me intriga é a moda da agricultura biológica. Nascido no campo, descendente de gerações de camponeses pobres, nunca consegui ver na agricultura o maná que agora apregoam. Antes sempre fiz minhas a as palavras daquele papa, Pio não sei quantos: "Há três maneiras de um homem se arruinar. Ao jogo, com as mulheres, com a agricultura. O meu pai escolheu a mais trabalhosa." (Já agora, o meu também. E morreu debaixo do tractor...) Depois, ouvi, li. Que a maior parte dos solos do nosso país não tem aptidão agrícola; que o relevo dificulta ou torna inviável a mecanização; que o clima, quase imprevisível, é uma ameaça permanente. Que sem financiamento...
Pois olho para a televisão e lá estão os profetas da novíssima revolução agrária — a agricultura biológica. Como os adeptos das novas religiões, não se contentam em acreditar, querem persuadir todos os outros de que há um mundo de oportunidades em cada recanto de urtigas, em cada silvado, em cada terra inculta. E trazem consigo um mundo de promessas, de certezas, numa área onde sempre predominou a incerteza da chuva, do Sol, das pragas, do escoamento dos produtos a preço compensador. 
Escuto-os com atenção. Um cavalheiro jovem, bem falante, cujas mãos negam ter alguma vez pegado num cabo de enxada, numa tesoura de poda — ou não estariam assim mimosas, esguias, de unhas irrepreensivelmente cuidadas, a indiciar cuidados de manicure. Três jovens senhoras, branquinhas de cera como ele, por cujas faces nunca passou o quente Suão, a agreste nortada, os ventos carregados de água que fustigam o rosto como agulhas. A agricultura é agora actividade de salão?
Fico à espera de respostas: que é preciso para uma família sobreviver nessa agricultura? Que rendimento pode esperar, por mês, por hectare, ou por cabeça? Como fazem para que o regadio chegue às culturas, como as defendem das pragas, dos coelhos, dos javalis, das geadas inesperadas, das vagas de calor, das semanas de chuva constante em que tudo apodrece? Pagam impostos? Os filhos frequentam a escola? De onde lhes vem o dinheiro para as alfaias, as reparações e manutenções mecânicas? Têm assalariados quando o trabalho urge e não conseguem dar conta do recado?
Muita conversa, nada que me esclareça. E começo a suspeitar de que o negócio possa ser outro. Vender o produto. Dar formação, fazer cursos, talvez para desempregados. Eventualmente, receber subsídios...
Agoiro. Se assim for, como ficaremos quando os subsídios acabarem, que lá diz o povo, não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe? Ou os mercados saturarem. Ou, faltos de rendimento decente e seguro, aqueles que agora pegam na enxada desistirem da salsa, da segurelha e da hortelã?
Mas isto são apenas cogitações de Velho do Restelo, desconfiado de milagres, farturas e facilidades. Que viveu sem electricidade, sem água canalizada, sem saneamento básico, sem papel higiénico, a comer um pouco de carne nos dias de festa, nesses em que talvez houvesse gasosa ou laranjada para as crianças. Que não gostaria nada, mesmo nada, de voltar a viver nessa penúria cruel. E que não consegue imaginar como sobreviver, como sustentar família, com o produto da venda de ramos de ervas aromáticas, umas alfaces, couves, algumas cebolas ou tomates, ou batatas, conforme a estação. 
Também eu defendo a produção nacional, o cultivo dos campos, a ocupação das gentes desempregadas. Poucas coisas me agradam tanto como o amanho da terra. Que não dá férias, nem dias de descanso. Que se não compadece com idealizações. Por isso me irritam os vendedores de ilusões. Que parece não dizerem aos candidatos a agricultor que o trabalho no campo é duro, ingrato, fedorento, porco, estraga as mãos, envelhece precocemente — e todo o investimento de uma vida pode ser perdido numa única noite de temporal, ou num desses incêndios em que o nosso Verão é pródigo.
FOTO: dez anos atrás, na sacha das batatas. Pois este belo batatal foi completamente destruído pelas geadas poucos dias depois. Assim é a agricultura...