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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Ainda a Síria

Desculpem a insistência, era minha intenção não voltar a falar da Síria até a guerra começar. Mas não consigo calar-me. Hoje leio isto no DN:
O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, afirmou hoje que é improvável que o ataque com armas químicas tenha sido perpetrado pelos rebeldes e que uma possível ação militar contra a Síria não contará com tropas no terreno.
Porra, não tem a certeza, baseia-se em palpites aparentemente tão válidos como os meus, que considero improvável ter sido o regime sírio a recorrer às armas químicas, e propõe-se mesmo assim começar uma guerra? Uma guerra que pode depressa degenerar em conflito mundial, que a Rússia não ficará passivamente a ver  os americanos estoirarem alvos estratégicos do seu aliado?
Espertos foram os ingleses, que arranjaram forma airosa de se porem de fora desta pouca vergonha que americanos e franceses preparam para, dizem eles com despudor, defender os seus interesses.

Ainda a Menção Especial no Prémio Glória Marreiros

Como uma criança que com qualquer ninharia fica feliz, assim reajo eu de cada vez que um dos meus escritos merece distinção. Não se trata de alegria semelhante à que nos proporciona rifa premiada em quermesse da aldeia, que dá o direito de levar para casa uma qualquer penicada. Não, é algo de substancialmente diferente, que resulta da satisfação  de saber que alguém me leu, apreciou e achou por bem destacar esse produto do meu trabalho. 
Por isso, ontem corri a partilhar a notícia que acabara de receber: o júri do Prémio (literário) Glória Marreiros tinha distinguido uma narrativa minha com Menção Especial. 
Não o esperava: o concurso era de novelas e, não tendo nenhuma aprontada, enviei sem grande convicção um conto que hibernava na gaveta, apenas porque os concursos e prémios quase desapareceram por força da crise, e eu estava a ver que este ano não desjejuava...
As numerosas mensagens no Facebook a parabenizar-me sensibilizaram-me deveras. Para além das da família e dos amigos de longa data, quero sublinhar a emoção que me deram as de antigos alunos e alunas, que assim mostraram não terem esquecido o professor de outros tempos -- que, não raro, os contrariou, os aborreceu, pautando-se pelo seu sentido do dever e não pela moda pedagógica que postula como motor da aprendizagem o prazer e a diversão. E a propósito desta Menção Especial volto a fazer minhas, como então fazia, as palavras do poeta em Mar Português : "Quem quiser passar além do Bojador tem que passar além da dor."
Um abraço para todos.

A lição da fábula

O regime sírio não é cordeiro, antes lobo feroz. Mas a intervenção armada que se avizinha não se move pelo desejo nobre de proteger e livrar o povo sírio da tirania, antes por interesses vis, como os próprios dirigentes americanos despudoramente agora confessam, ao verem desmentidas as suas acusações de que havia sido o governo sírio a usar armas químicas.
A Casa Branca disse na última noite que os EUA vão "continuar a consultar o governo do Reino Unido – um dos nossos amigos e aliados mais próximos" e a decisão de avançar ou não "será norteada pelos interesses americanos". 
(no Público, negrito meu).
A mudança de argumentos, que aqui previ, assemelha-se em tudo à argumentação do lobo que na fábula de La Fontaine procura convencer o cordeirito de que tem motivos para o punir -- como Hollande. E quando as razões se esgotam, fazem como o lobo, que sem mais pretextos para comer o cordeiro, prontamente o matou e devorou, pois, ensina a fábula, a razão do mais forte é sempre a melhor ("La raison du plus fort est toujours la meilleure").
Como agora. Resta saber se americanos ainda são os mais fortes. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Menção especial

Soube há instantes que o júri do Prémio (literário) Glória Marreiros distinguiu a minha narrativa Na Boca do Inferno com Menção Especial. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Quem usou armas químicas na Síria?

Isto de culpar antes de investigar tem que se lhe diga. Segundo o DN,

"A Síria apresentou ao Conselho de Segurança da ONU provas de que o ataque com armas químicas, a 21 de agosto nos arredores de Damasco, foi realizado por forças rebeldes, foi hoje anunciado.

"Entregámos às Nações Unidas todas as provas e documentos que mostram que foi a oposição, não o Estado, que utilizou armas químicas", disse aos jornalistas o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Faisal Miqdad.
As provas foram entregues na terça-feira, afirmou o responsável sírio, insistindo que as autoridades jamais utilizariam armas químicas contra civis.
Uma missão de peritos da ONU está atualmente na Síria, onde ficará, em princípio, até sábado, para investigar vários casos de alegados ataques com armas químicas, pelos quais se acusam mutuamente regime e oposição. (...)"
Qualquer que seja a verdade dificilmente mudará o curso dos acontecimentos. Se este pretexto para um ataque à Síria for inviabilizado, arranja-se outro.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Freixo de Espada à Cinta

Sob o calor daquele 28 de Junho, a povoação parecia parada no tempo, quase sem actividade humana — apenas os velhotes descansavam à sombra da igreja.



Lá vamos nós outra vez

Jugoslávia. Iraque. Afeganistão. Líbia. Todos os outros países de que me esqueci. Sempre com bons pretextos, que depressa se verificaram falsos. Não tenho nenhuma dúvida de que os povos de todos esses países, e os vizinhos, estão pior do que antes das intervenções 'bem intencionadas'. De boas intenções está o inferno cheio.
O ímpeto justiceiro dos americanos e dos media que por eles ladram não cessa. Junta-se um Hollande que quer "punir" — foi o verbo que utilizou — o regime sírio. É difícil uma potência colonial como a França ultrapassar os traumas do passado. Sobretudo quando, como hoje se soube, o desemprego em França continua imparável.
Revolta-me o massacre de inocentes, o uso de armas químicas ou de outras contra a população indefesa. Mas não alinho em maniqueísmos, de um lado os bons americanos e seus amigos, do outro os seus inimigos, os maus. Estou farto de ser enganado. O homem é a mesma merda qualquer que seja o seu partido na guerra, todas as guerras são horríveis e as piores são as guerras civis, disse-o um francês sábio, creio que Descartes.  E a qual das partes mais aproveita o uso do  gás,  sabido que é que os vários grupos muçulmanos não hesitam em massacrar os seus para conseguir intervenção estrangeira?
Alegrem-se os media, podem até mandar o Rodrigues dos Santos fazer reportagens em directo de Damasco, terão com que encher os telejornais que preenchem os jantares em família. Alegrem-se os fabricantes de armas, os militares, os políticos, que desviarão as atenções da sua incompetência para governar os respectivos países, da sua incapacidade para cumprir as promessas eleitorais. Alegrem-se as boas consciências, vendo em directo os maus a serem punidos.
Mas vejam se não se esquecem, e se mais tarde não lamentam as atrocidades dos bonzinhos que colocaram no poder.
ADENDA
Diz-me a Cláudia no Facebook:
Nem de propósito, terminei hoje de ler estas 20 reportagens sobre a Croácia e acho que ficam aqui bem: http://www.pierreroux.com/photographe/prefacecroatie.html.

Mogadouro

Já no regresso a casa, a visita resumiu-se ao castelo em ruínas (com um burro à sombra da torre)  e a umas águas em café do centro.



Miranda do Douro e o Mirandês

Conhecíamos Miranda do Douro de visita anterior, quando por lá procurei sem sucesso vestígios do Mirandês.
O Mirandês foi descoberto em finais do séc. XIX, contava o professor Lindley Cintra, por um jovem estudante de medicina, de seu nome Leite de Vasconcelos, que ouviu o companheiro de quarto cantar numa língua estranha. Intrigado, foi à terra do colega, reuniu materiais, e apresentou num congresso de Filologia Românica a descoberta de uma língua até então desconhecida.
A paixão pelo estudo das línguas levou Leite de Vasconcelos a deixar a medicina, vindo a ser nome marcante na Filologia Românica. Entre outras descobertas, a de que o Mirandês era afinal um dialecto leonês, vestígio fossilizado do falar do antigo reino de Leão -- hoje dizem que é uma língua, mas importa destrinçar motivações económicas e políticas de argumentos linguísticos.
Ora o Mirandês ficou-me atravessado desde os tempos de faculdade, onde aprendi que apenas em três regiões nacionais se não falava Português -- Miranda do Douro, Guadramil, Rio de Onor --, e porque no meu último teste da licenciatura, precisamente Linguística Românica, feito na sala Leite de Vasconcelos  em dia de tal calor que o professor Lindley Cintra nos pediu licença para desapertar a gravata, saiu um texto que eu identifiquei como sendo Leonês de uma região muito próxima de Portugal, uma vez que continha alguns porteguesismos.
À saída, em conversa com colegas, senti crescerem-me orelhas de burro por não ter visto que só podia ser Mirandês... Enfim, ainda tive treze no teste, então uma belíssima nota.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Ainda a Lua

Tinham matado o porco, e o meu avô Cipriano zangava-se com os filhos, que o não desmanchavam tão depressa quanto queria. E gritava, brandindo o Borda d'Água:
-- Despachem-se, já só falta uma hora para  a Lua Nova!
-- Avô, o que é que a Lua faz à carne?
Com a paciência que temos para com os netos e nos falta para os filhos, esclareceu-me: -- Um homem matou o porco, não lhe pôs sal, a carne estragou-se e disse que tinha sido por causa da Lua.
E outra vez aos berros com os meus tios: -- Despachem-se, vem aí a Lua Nova!

domingo, 25 de agosto de 2013

Poemas de Xanana de Gusmão em Russo

Segundo o DN, que cita um jornal russo, Timor vendeu o seu voto para a organização da Exposição Mundial de 2020. O preço? A tradução e publicação em russo dos poemas de Xanana.
Poucas notícias me espantam, quase todas me enojam.

sábado, 24 de agosto de 2013

De Bragança a Miranda do Douro

Quarto e último dia da viagem pelo Norte. Descampados ermos, secos, que ribeira apertada em vale estreito não logra amenizar. Paisagem a meu gosto, solidão bastante, silêncio violado apenas por cigarras e raros passarinhos.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O homem da Lua

Não eu, mas todos os que têm vista apurada distinguem nitidamente na Lua um homem com molho de silvas às costas. Poucos saberão por que lá está, como lá foi parar, que fez para merecer tal castigo, o da eterna solidão, que nem mesmo os astronautas americanos lhe renderam visita quando, nos idos de 69 pousaram, dizem eles, no nosso satélite.
Pois o homem andava a cortar silvas ao domingo, o que, como todos sabem, é pecado mortal.
Domingo era então dia de bebedeira, de tareia na mulher, de zaragata com os vizinhos, como hoje o é de ida à praia, de almoço fora; pode-se trabalhar, por exemplo, penando atrás de caixa do Continente, ou em bomba de gasolina, ou a servir à mesa, ou a animar festas populares. Livrem-se, porém, de roçar silvas, de pegar em enxada ou tractor -- logo vos excomungarão os que no adro da igreja, no café ao lado, religiosamente cumprem o descanso semanal, prolongando o do resto da semana.
E, fiquem cientes, aguarda-vos castigo idêntico ao do homem das silvas que Deus colocou na Lua para exemplo de todos aqueles que ousarem desrespeitar domingo ou dia santo, seja ou não feriado, cometendo o pecado de trabalhar na terra ou lá ir passear de tractor, sendo porém permitidos os outros veículos todo-o-terreno... 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Aniversário

Da minha menina mais velha.



Os enganos de Deus

Mesmo tendo em conta que os desígnios divinos são insondáveis, muita confusão me faz saber que se pode ter enganado nas Suas escolhas, como depreendo das declarações do papa resignatário. 
(Talvez ninguém devesse falar para a imprensa a partir de certa idade, mesmo que o julgue fazer por inspiração divina...)
Este episódio recorda-me muitos outros, envolvendo personalidades como Margareth Tatcher ou o famoso mestre de karaté G. Yamaguchi, Tesouro Nacional do Japão, que, aos oitenta anos, contou a um jornal que certo dia, para combater o tédio, tinha ido à montanha lutar com um tigre. Resultado: a Japan Karaté Association (Goju-Ryu), a que presidia, demitiu-o e tornou obrigatória a reforma dos seus dirigentes aos setenta anos.

Assassino e incendiário

O fogo é pior do que um ladrão, dizia a minha avó. E explicava: o ladrão rouba, o fogo mata e destrói. Há quem mate, depois ateie incêndios -- dez, segundo a polícia -- e se veja recompensado com o rendimento mínimo. A mim, ofende-me que nós, vítimas, tenhamos  de pagar  a criminosos para que lhes não falte tempo livre para os seus desmandos. 
Alguém me dá boas razões para que os incendiários não sejam condenados a trabalhos forçados, limpando matas, combatendo fogos? E para os assassinos não terem de pagar pelo que fizeram? E para o rendimento mínimo ser atribuído a marginais?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Bragança

Ao terceiro dia do nosso passeio pelo Norte pernoitámos em Bragança. Pelo caminho, as visitas já referidas a Mirandela e Valpaços, depois a Macedo de Cavaleiros e à sua praia fluvial. O calor persistia e, para piorar, a minha dor de cabeça atacou-me forte. 
Enfim, aproveitei o que pude: a cidade à noite, passeio à beira-rio -- e como aprecio as cidades que têm rio e dele cuidam! -- excelente jantar. Na manhã seguinte, calcorreámos a cidade, da parte velha à nova, que é a pé que melhor se conhece o país, subindo e descendo sob o calor, procurando a fresquidão das sombras,  a brisa das esquinas, sorvendo, ao passar pelos cafés e pastelarias mais frequentados, o aroma do grão acabado de moer, por entre o corrupio das gentes que vão e vêm da praça...
Bela cidade. Mas sou suspeito, eu, que sempre me encanto com as viagens na minha terra.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Valpaços

A viagem por terras da Maria da Fonte incluiu passagem por Valpaços, onde a 16 de Novembro de 1846 se travou uma das batalhas decisivas da guerra da Patuleia, que se seguiu à revolta do Minho.
Nessa batalha, o Barão do Casal derrotou as forcas patuleias da Junta do Porto, comandadas por Sá da Bandeira, o lendário Sá Maneta, graças à deserção dos regimentos de infantaria 3 e 15, que mudaram de campo.
Na retirada pelo rio Douro, as forças patuleias foram atacadas da margem pelos guerrilhas miguelistas de MacDonnell --  um dos quais o jovem Camilo Castelo Branco.
Tempos e personagens fascinantes, que tenciono incluir no romance que penosamente vou escrevendo. Se algum leitor me puder fornecer elementos sobre o Barão do Casal ou indicar bibliografia, fico muito grato e não deixarei de incluir o seu nome nos Agradecimentos caso a obra venha ser parida.
IMAGEM: a coalizão, aliança entre arqui-inimigos, hoje de difícil entendimento.

sábado, 17 de agosto de 2013

Mirandela

O rio, o parque ribeirinho, as alheiras. De tudo gostámos por igual, e por esta ordem.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Chaves

Chegámos ao entardecer, e logo nos precipitámos para a piscina do hotel, a refrescar de todo um dia de calor, estrada cansativa, alguns percalços. À noite, passeio nocturno pelas margens do Tâmega. Espaço muito bem arranjado, onde as famílias convivem na frescura do rio. Pedras colocadas em fileira à distância de um passo permitem atravessar o Tâmega a vau. O que fizemos, apesar da escuridão.

Esperava-nos, a contrastar com a amenidade das margens do rio, noite de calor infernal. Desculpa tuga do funcionário da recepção do hotel: "O ar condicionado avariou hoje e o técnico ainda não veio..."
De manhã, visita à parte histórica da cidade. Museu, museu militar em torre do castelo, do alto vista panorâmica sobre a cidade. Interessante, a parte velha.