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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Onde estavas, Zé, no 25 de Abril?

A dormir.
Era uma da tarde e acordou-me a minha mulher, tínhamos casado um mês antes, para me dizer que, segundo boato ouvido na padaria, havia um golpe de estado na capital. "Pois sim, deixa-me  mas é dormir", devo ter respondido, com o sono de pedra dos vinte anos, e voltei a adormecer, não sobre fofo colchão, mas no chão, que cama não tínhamos. 
Naquela semana fazia na fábrica o turno da meia noite às oito e precisava desesperadamente de dormir. Também não tínhamos televisão nem rádio. Nem mobília nenhuma, exceptuando um mocho comprado no mercado.
Vivia na Marinha Grande e trabalhava (operário de plásticos) em Leiria. Motivos: estão em Do lacrau e da sua picada. Chego à cidade ainda de dia, procuro sinais de agitação, nada. Na Praça Rodrigues Lobo encontro o Luís Marques, também ele na clandestinidade, que não via há coisa de um ano. A notícia do golpe de estado trouxera-o até à claridade. Tal como eu, não acreditava que viessem aí grandes mudanças: "Coisas do Spínola e dos spinolistas", terá dito, e eu acreditei. E fui trabalhar, porque o patrão também não tinha ouvido falar em revolução.
Muita coisa mudou. Logo nos dias seguintes, aqueles que até então nos insultavam quando nos manifestávamos nas ruas contra a guerra colonial e o fascismo, que telefonavam à polícia quando pela calada da noite pintávamos paredes, que nos denunciavam como perigosos agitadores comunistas ao encontrarem propaganda nos quartos alugados, reconverteram-se ao vermelho, mas só no cravo na lapela, e muitos tornaram-se guardiães do regime.
Apesar deles, do dia de trabalho para a nação, do fim da luta de classes que apregoavam, o país mudou. Tanto, e para melhor, que está hoje irreconhecível. 
Aos que fizeram a revolução, agradeço a criação de condições para acabar com a ditadura, a sua polícia política, a guerra colonial, para democratizar e desenvolver. Embora, não poucas vezes, tal ter sido conseguido contra eles -- e em dia de festa não é bonito lembrar tais coisas. 
Quanto ao povo, esse está nas praias, aposto, a festejar feriado a que dá tanta importância como ao 5 de Outubro, ao 1 de Dezembro, à Nossa Senhora Não-Sei-de-Quê...

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Sexo e género

SEXO é uma categoria biológica; GÉNERO é uma categoria gramatical. Sobre a categoria biológica, que se pronuncie quem sabe; mas sobre a categoria GÉNERO, lembro que em Português só pode ter um de dois valores: Masculino e Feminino, diferentemente, por exemplo, de línguas como o Inglês, que têm também o GÉNERO Neutro. A gramática de uma língua não é politicamente correcta. É o que é, e importa respeitá-la. Não o fazer, por moderno, ou chic, ou prá-frente que se queira parecer, apenas revela ignorância, que nada abona em favor do partido que até tem líder com mestrado em Linguística. Dizem.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Batatas com pele e fruta por descascar

Parece ter virado moda em tudo o que é restaurante, tasca, boteco, servir as batatas com pele -- a murro. O que era uma receita camponesa, que muito aprecio no tempo da batata nova, generalizou-se. Poupam em mão de obra, poupam na matéria prima.
Acontece que não gosto da pele dura das batatas velhas, e vejo-me em palpos de aranha para a separar da polpa quando me servem tal manjar. Mas há outra razão para querer as batatas descascadas: é na pele que se acumulam os pesticidas utilizados tanto durante a produção como, sobretudo, na conservação. Eu tenho ouvido cada história! -- por exemplo, há agricultores que aquando da colheita mergulham durante 24 horas os sacos de batatas em Decis, um insecticida não homologado para o efeito. Ou noutro qualquer, que tenham em armazém para combate ao bichado da fruta!
Depois, há os tratamentos regulares, no mínimo mensais, com insecticidas em pó para combater a traça da batata (a "fia-maria" , diz-se na minha terra) e antiabrolhantes para evitar que grelem, perdendo peso e qualidade.
E então, mesmo bem lavadas, o que pouco adiantará pois os pesticidas costumam ser resistentes à lavagem, seguem para o forno com a casca onde os resíduos se acumularam -- o que não mata engorda, diz o povo.
Batatas assadas a murro -- sim! Mas novas, quando a pele é tenra e ainda não receberam cobertura de pesticidas. E apenas das minhas, que sei o que levaram, quando levaram.
Dir-me-ão: assim, não podemos comer nada! Discordo. Precisamos é de saber o que comemos. Os supermercados deveriam apresentar garantias de que batatas, fruta, hortaliças foram analisadas e estão isentas de resíduos químicos ou que estes se encontram abaixo dos limites internacionalmente fixados. E, para vos preocupar um pouco mais, acrescento que não são as grandes associações de produtores que estarão em incumprimento, mas, mais provavelmente, os pequenos agricultores que, mal informados, vendem os "bons" produtos do campo sem controle, especialmente nas regiões de minifúndio, em que estreitas leiras de horta pegam com pomares, nada impedindo que as hortaliças frescas vendidas na praça ou mercado pela manhã tenham levado banho de pesticida que o vizinho aplicou no seu pomar durante a noite, quando faz menos vento...
A fruta -- só como da minha, e na época -- fica para outra ocasião. Mas descasquem-na, se não for da vossa árvore. E não obriguem as crianças, como tentaram fazer em tempos a um dos meus netos na escola, a comer a fruta com casca.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

A etimologia de um palavrão

Ainda eu era professor quando uma aluna de 12 ano, a protestar contra preconceitos, me deu como exemplo a palavra "caralho", que, dizia ela, se reportava a um dos mastros das caravelas, pelo que mandar alguém para o dito cujo significava, no tempo dos Descobrimentos, mandar subir ao mastro. Sempre valorizei, e muito, o facto de os meus alunos serem capazes de pensar pela própria cabeça e de defenderem os seus pontos de vista com argumentação sólida e nunca me agastaram assuntos ou palavrões, contanto que fossem discutidos com seriedade, como era o caso.
Porém, duvidei da etimologia e prometi verificar. Porque, como lhe disse, eu já tinha encontrado a palavra, ou o palavrão, em textos muito mais antigos, por exemplo nas Cantigas de Escarnho e Maldizer e lembrava-me até, mas não citei, de uma de Afonso X, rei de Leão e Castela, que exaltava o peninsular, "cuja grossura sua" as damas preferiam.
Assim fiz. Mas a falsa etimologia do palavrão parece ter-se tornado "mito urbano", estribado na crença actual de que toda a informação encontrada na internet é igualmente válida, agravada com a falta de exigência quanto ao rigor das fontes.
Na falta de um dicionário etimológico credível, o Professor Lindley Cintra, de quem tive o privilégio de ter sido aluno a Literatura portuguesa III (Teóricas) e Linguística Românica, recomendava o Dicionário da Porto Editora. Continuo fiel aos ensinamentos do Mestre por nada de novo ter surgido de então para cá em termos de dicionários etimológicos.
E é esta a a tipologia proposta no referido dicionário: "Do latim *caraculu-, «pequena estaca»"
Aqui vai portanto a correcção, embora convencido da inutilidade. A palavra é, repito, muito anterior aos Descobrimentos, o que não invalida que nessa época a possam ter empregado para designar mastro de caravela ou nau. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Segurança Social e obras públicas

Desaprovo e fico muito preocupado com a decisão de António Costa de usar 1400 milhões de euros da Segurança Social para financiar um programa de construção e recuperação do património. O dinheiro dos trabalhadores jamais deveria ser usado para financiar os patrões, no caso as grandes construtoras que tanto têm lucrado com a política de betão e obras públicas. 
Que me diz a isto, camarada Jerónimo? Outro sapo vivo que vai engolir?

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Chuva e fome

A chuva que insiste em nos incomodar, e a mim me impede de plantar as batatas, era há apenas meio século causa de desemprego e fome -- e não era a fome de que hoje os jornais nos falam, era aquela com que se definhava e morria, que não havia então subsídios, nem apoios, nem banco alimentar contra a fome, nem solidariedade organizada. Nesse tempo duro, de penúria e de falta de quase tudo, passei por privações hoje inimagináveis, embora nunca tenha passado fome, nem andado descalço e semi-nu à chuva por falta de roupa e calçado. Mas vi, recordo, e dei testemunho, quanto mais não seja para que se nos queixarmos de barriga cheia, não o façamos na ignorância daquilo por que os pais de muitos de nós passaram.
"Chuva e vento, vento, chuva e frio. Gemia água a terra, rebentaram as nascentes, os regatos cresceram até serem novamente rios, submergiram as pontes, matando mesmo a filha do Mouco. De manhã, atravessara com outras mulheres o rio de Cós, que no Verão é apenas um humilde fio de água, levando o jantar ao homem, empregado na padaria, as outras seguindo para a Castanheira, com o comer para os companheiros, que laboravam num lagar de azeite. Demorou-se, ajudando-o a carregar as braças de pinheiro ainda verdes com que aquecia o forno, mal protegidas da chuva numa arribana próxima, e no regresso encontrou a ponte já submersa pela inundação. As companheiras recearam atravessar a enchente, mas, ou afoita ou em fezes pela criança de dois anos que deixara sozinha fechada em casa, certamente a chorar desalmadamente há horas, acordando só e sentindo-se talvez abandonada, aventurou-se. Quando já estava na outra margem, afundou-se subitamente numa cova oculta na água barrenta e, apesar de não ter perdido o pé, o ar contido nas roupas levantou-a e a enxurrada arrastou-a sem que ninguém lhe pudesse valer; só no dia seguinte o corpo foi encontrado, numa várzea do Valado.
E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os pexins. Há meses que não podiam pescar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.
Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.
Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.
Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha seja o vinho vendido."
José Cipriano Catarino, Entre Cós e Alpedriz, Leyaonline 

terça-feira, 15 de março de 2016

Leiria, 1968

A cidade cabia toda no olhar se a observássemos de um dos pontos mais altos, como o Castelo ou a Senhora da Encarnação. Ia-se a pé a todo o lado, esquivando nas ruas antigas os carros impacientes, de buzina fácil, novos senhores da cidade frequentemente envolvidos em toques e choques. Logo acorriam mirones das lojas e cafés, formava-se ajuntamento, todos conhecedores do código da estrada, estalavam discussões gritadas, por vezs violentas,
-- Este senhor é que tinha prioridade porque vinha da direita!
-- Qual prioridade, qual quê, o senhor não parou porque não quis, já eu tinha passado o eixo da via quando me bateu!
-- Quem bate por trás é sempre culpado, sentenciava camponês que viera feirar ao mercado.
-- Oiça lá,  sem matarruano, o que é que você percebe de leis?
Rolam já embrulhados pela calçada, ora o citadino por cima, ora o campónio -- e quando um logra montar a cavalo o outro, chega-lhe uns sopapos pouco convencidos.
-- Ninguém os aparta?, pergunta mulher, com vontade de estragar o divertimento da turba.
-- Ora, não se matam. e quem se mete de permeio apanha também.
É o que acaba de acontecer, homenzarrão fiado talvez na corpulência tenta separá-los, ei-lo que rebola também, camisa rasgada na bulha com o citadino, enquanto o campónio, livre do ataque, mete a fralda nas calças, apanha do chão a boina, incentiva o grandalhão, feliz com a desforra por interposto paladino.
Apita a polícia, separam-se os brigões, ninguém quer questões com a autoridade, não há vencedor nem vencido, ambos se ameaçam ainda, fingem querer atirar-se um ao outro, confiantes em que os braços que os seguram os não largarão e a polícia não permitirá mais desacatos. 
E é junto dos agentes que condutores acidentados e testemunhas argumentam, a um mais exaltado acalma-o aviso ameaçador -- Veja lá se quer ir à esquadra!, fita métrica na mão os polícias medem a rua, a distância às rodas, em bloco de notas esboçam croquis do sinistro, apitam novamente, ordem para dispersar, e as pessoas, obedientes, reentram nas lojas e cafés, onde prosseguirão as discussões acaloradas, mas agora pacíficas.
Outras vezes é a sirene da ambulância a soar imperiosa, exigindo passagem no caos do trânsito, ainda sem sinais nem rotundas, sobre tamborete no cruzamento sinaleiro impaciente de luvas brancas manda encostar, dar passagem, desimpedir o caminho, e o meu colega Ramalho corre à frente dos demais garotos até ao hospital, a uns centos de metros, a certificar-se de que o sinistrado não não é o pai, vendedor da Carbo Sidral sempre na estrada e amigo de carregar no acelerador.
Nas tardes amenas, após saída da escola e lanche, desço ao centro, detenho-me na contemplação das montras, dos cartazes do cinema, depois sento-me por instantes no jardim, alheado, em sonhos permanentes, saudoso da família, solitário na cidade, antes de passar pelo quiosque onde compramos e vendemos livros usados, Mandrake, Major Alvega, "cobóis" da colecção Seis Balas, Os Cinco e os Sete, policiais -- banda desenhada e literatura de cordel. Por vezes,  sentam-se homens no mesmo banco, tentam meter conversa, pedem lume ou oferecem cigarros. Sem sucesso, não fumava, não tinha fósforos, e conversas só comigo mesmo. Paneleiros, saberia mais tarde, mas naquele tempo, com a ingenuidade aldeã dos treze anos, paneleiro era apenas insulto, como ranhoso de merda, cabrão, filha da puta. Perturbado pelas interrupções,  levantava-me, prosseguia as deambulações. Peripatético, diria de mim se então conhecesse a palavra. Andar e pensar, andar e sonhar, como os heróis dos meus romances, a caminharem na ponte dos navios de trás para diante, de diante para trás, enquanto davam caça a piratas ou congeminavam planos de batalha, ou nas calmarias pensavam nas amadas distantes, imaginando-as fiéis, a prepararem o enxoval para casamento quando eles forem promovidos por bravura.
Interrompia o devaneio ao passar junto do stand da Ford, a admirar embasbacado o sonho reluzente de todos os rapazes da cidade, um Ford Capri, modelo desportivo, que me fitava com a soberba expressa nos seus grandes faróis.  Mas, novidade, acima deles há uma placa: VENDIDO. A quem, interrogava-me atónito, quem podia dispor assim de cento e vinte contos? O dono de uma fábrica de plásticos, como aquela onde eu seria operário anos depois -- outra história, já aqui contada. 
Era, aprendia,  o poder indecente do dinheiro, a roubar tudo o que nos encantava, tal como os jogadores de futebol do União nos levavam, logo do portão da escola, as beldades que amávamos platonicamente, e a nós, pobres admiradores mal vestidos, magoados com o olhar de desdém que elas nos deitavam ao entrarem para os carros último modelo dos futebolistas, só restava desabafo amargo: Putas! 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Ainda a guerra com o MEO

Lá para meados do mês, posso ficar incomunicável durante uns dias -- sem telefone, telemóvel, internet, etc.
Isto porque, cumprindo com a minha palavra, como sempre procuro fazer, cancelei agora TODOS os serviços do MEO. 
Como se lembrarão, a guerra começou por  alguém do MEO falsificar documento imputando-me um contrato de banda larga móvel a que nunca aderi e a empresa, abusando da minha confiança, ter retirado dinheiro aproveitando autorização para débito directo concedida unicamente para o serviço M4O;  com o cancelamento, o conflito aproxima-se agora do fim, embora ainda me esperem muitas irritações e dissabores, que o mais difícil de esfolar é o rabo.
Só posso lamentar que uma empresa da dimensão do MEO se tenha recusado a apurar em processo interno o sucedido, identificando e agindo contra o autor da vigarice, optando por perder irremediável e definitivamente cliente que já vinha dos tempos em que apenas havia telefone fixo.

terça-feira, 1 de março de 2016

Os meus ajudantes

Na horta, conto com a preciosa ajuda de muitos auxiliares, como este, em plena caçada matinal, aproveitando a terra mexida.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Lição de vida

Esta andorinha, impedida de trabalhar pela forte chuvada que cai, aproveita-a para tomar banho de chuveiro.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A pensar nas batatas

A lavrar, ontem, aproveitando um dia bonito deste Fevereiro tão incerto. Pode ter sido trabalho deitado a perder pela chuva de hoje e pela que está prevista para os próximos dias. Pode S. Pedro, o manda-chuva, obrigar-me a plantar as batatas noutra courela. Assim é a agricultura: jogo de azar. Fica o prazer de uma tarde bem passada, a fazer o que gosto, sozinho, longe de aborrecimentos

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Teoria da conspiração

Irrita-me passar um serão a validar facturas: quase duzentas minhas, outras tantas da minha mulher. Se eu não tenho dificuldade em etiquetar despesas de oficina, restaurante, cabeleireira, esteticista,  porque é que os funcionários das Finanças, pagos para fazer esse trabalho, o não conseguem?
Dizem-me que algumas empresas têm vários CAE ou diferentes actividades para um mesmo CAE. Admito que sim. Mas não cabe antes de mais às finanças e a essas empresas resolverem esse problema, em vez de obrigarem o cidadão contribuinte a ser simultaneamente contabilista? E aqueles milhões de pagantes que usam com dificuldade o computador? Sobrecarregam familiares, amigos, ou vêem-se obrigados a pagar a quem lho faca para as Finanças, que nos levam couro e cabelo nos impostos, folgarem?
E o meu amigo, que escutava estes desabafos:
-- Ah, eu não valido as facturas!
Olho-o intrigado. Isto não está para desperdícios, ninguém quer pagar ainda mais de imposto.
-- Tenho um empregado das Finanças que mas valida.
Ah, então é isso! Não se faz o trabalho para receber por fora!

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sempre a aprender

Conta-se que o primeiro podador foi um burro: roeu uma videira, a qual produziu mais e melhor, pelo que o dono passou a imitar o asno, cortando também as outras.
É assim que tenho podado. Com pena por não fazer melhor, sempre a deitar olhares invejosos para as árvores podadas por quem sabe. E agora, que surgiu a oportunidade, inscrevi-me e estou a frequentar curso de podador.
Para não continuar a podar "à la burro".
Hoje era dia de trabalho de campo, tesoura na mão, pois o formador, engenheiro agrícola com doutoramento na área da fruticultura, entende que é nos pomares, a contas com as árvores, que se aprende. Mas a chuva obrigou a mudança de planos...
Eis-me em casa, outras podas, limpando textos de galhos, ramos secos, ladrões, esporões doentes, lenhos podres, atarracando verdascas, porque, como na poda das árvores, corta-se para produzir fruta e não madeira.
FOTOS: (1) Ilustração do pintor João Alfaro para a capa do meu Entre Cós e Alpedriz, que acabou por não ser utilizada; (2) na poda de pessegueiros, antes da formação.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Ah, rapazes do meu tempo!

Às vezes, normalmente em funeral de familiar na aldeia, encontro colega da escola primária, daqueles que não vejo há mais de meio século. E não o reconheço. Por exemplo, o Fernando, que me conta que abandonou a escola na segunda classe, e foi trabalhar para forno de tijolo, como as crianças de Esteiros. Acrescenta com orgulho legítimo: ele, que a pobreza deixou semi-analfabeto, conseguiu dar destino diferente aos filhos: o rapaz, que me apresenta, é engenheiro e já está empregado, a filha termina Economia. 
Recordo outros colegas, uns mortos, outros desaparecidos na diáspora montense, que nos levou, a quase todos, a abandonar a aldeia natal. Sugiro um almoço para nos encontrarmos. A ideia não o entusiasma. 
Porque na minha aldeia todos andam mal com todos. Não se falam. Ódios ancestrais, conflitos de há décadas, mexericos, intrigas, questões de vizinhança. Diferenças de classe herdadas de outro mundo, em que aldeia estava dividida em "ricos", os que tinham muitas terras e empregavam servos, e "pobres", com umas leiras de seu, mas sempre dependentes dos primeiros. 
Emigração, acesso aos estudos generalizado, 25 de Abril, mudaram a aldeia, mas não as mentalidades.
Nem mesmo no funeral, nem mesmo no cemitério, quando a terra que o coveiro lança sobre o caixão devia fazer recordar a efemeridade da vida e sentir o ridículo das questiúnculas que nos dividem, se decidem a esquecer rancores velhos, para voltarmos, por minutos que sejam, àquele tempo em que éramos apenas nome próprio e alcunha de família, o Zé Chaparrinha, o Fernando Galfarro, o Zé Balias, o Zé Codicas, o Armindo Escabelado, e tantos outros, e corríamos descalços por vinhas nos jogos de "coque", tomávamos banho em pelota no açude, roubávamos fruta nos pomares, disputávamos ninhos, jogávamos à pedrada...
Éramos então poucos, somos hoje menos. Muito menos. Como mais ninguém o faz, vou eu organizar o encontro, correndo o risco de almoçar ou jantar sozinho -- porque este não vai se for aquele, ou nesse dia não pode, ou não tem interesse nenhum na companhia dos outros.
Agradeço contactos e sugestões.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Um amor inventado (excerto)

[A meados dos anos sessenta do século passado, dois jovens, entusiasmados com as proezas do grande ciclista Alves Barbosa, montam nas bicicletas e partem da aldeia para darem, eles mesmos, a volta a Portugal. Na descida da Serra da Estrela, em Manteigas, um deles descobre o amor inventado...]

"Em cima, o sobrado parara de ranger e o silêncio profundo envolve novamente a pensão; em baixo, o Jorge esforça-se por se manter acordado para dizer das boas ao João quando voltar. Mas o João não pode descer, novamente preso entre as pernas da criada, que como tenazes o retêm dentro de si, ensinando-lhe que amar requer tempo e vagar; ternamente, a Berta olha-o das profundezas dos seus olhos verdes, diz-lhe meiguices como ele nunca ouviu e certamente jamais ouviria se não saísse da aldeia natal e a encontrasse tão longe, na Pensão Estrela, nos contrafortes da serra do mesmo nome, e arrulha, arrulha, mergulhando pelos olhos dele dentro à procura da alma, talvez para confirmar se se ajusta tão bem à sua como a boca dele ao seu mamilo esquerdo; a barba do companheiro pica-a e inocentemente diz que quando se casarem será melhor ele barbear-se à noite; esquece que o rapaz está completamente saciado, tão depressa não precisará de mulher e, quanto a casamento, Deus o livre enquanto puder — e quando casar não será com uma sopeira, mesmo tendo-se deitado uma noite com ela, ele, que ela terá passado sabe-se lá quantas, vá-se lá saber com quem! As pernas que o retêm, impedindo de sair de dentro dela o que restava dele, empurram-no furiosamente, a mão direita explode na cara do João com o som seco de um tiro de pistola, e é fera assanhada que grita, baixinho, para não provocar escândalo, apontando a porta — que desapareça dali. A surpresa da agressão, a violência da bofetada, dessa primeira vez em que ela lhe bateu, a indignação da moça, levam-no a não querer ser expulso como cão que entra na igreja apenas porque a porta está aberta. É ele que tenta emendar a asneira, é ela que tapa a cara com as mãos e o repele de si com os cotovelos, nua como nasceu, e tão brava está que nem o ouve, fala, fala: bem a enganou, julgou-o diferente dos outros, mas é apenas mais um porco que depois de se espojar volta para o seu masseiro e o seu curral; se já tem o que queria, ou mais do que isso até, porque não desaparece, dali, da vida dela?
Desorientado, exausto e sonolento, o João não sabe o que quer, mas sabe que não pode deixar a moça naquele estado e não acha justo depois de tudo o que ela lhe deu portar-se de forma tão ingrata, como peixe astuto que comeu a isca e escarnece do anzol. A Berta chora inconsolavelmente, enrolada no divã, os joelhos encostados ao queixo, uma das mãos cobrindo os olhos, ou para o não ver, ou para esconder dele a sua nudez, sabido que é assim que as mulheres reagem por pudor, diferentemente dos homens, que, se surpreendidos nus, se obstinam em ocultar com as mãos o que lhes pende entre as pernas; cauteloso como aranha que se aproxima da fêmea, receoso daqueles cotovelos, perigosos e cegos, batem por instinto naquilo que lhes toca, aproxima-se e diz: — Gosto de ti!, a única frase bonita e sincera que lhe ocorre naquele momento de desorientação. Não foi grande coisa, mas a Berta já sabe que não é dado à retórica; virou para ele os olhos verdes e, por entre lágrimas de desilusão e de raiva, surpreendeu-se: — O quê? 
Timidamente, o João repetiu o que antes dissera. Então ela deitou-lhe ao pescoço os braços que antes o repeliam, encharcou-o nas lágrimas que não cessavam de correr, e sem deixar que os olhos dele fugissem dos seus, repetiu-lhe, através deles, que nunca mais, mas nunca mais, lhe dissesse aquelas coisas feias; não o queria contrariado um instante que fosse junto de si; solteiro ou casado, podia deixá-la quando quisesse se não gostasse mais dela; mas sem ordinarices, entendia?
Estranha o rapaz que as lágrimas femininas aticem aquela parte do corpo que já esmorecera, suplicando por repouso... Quem diria que têm esse efeito, ao tombarem sobre os homens?"
Um amor inventado, JCC

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

43 anos de namoro

Quando começámos a namorar, a 3 de Fevereiro de 1973, o mundo era outro. Mas mudava depressa. Os americanos, com todo o seu poderio, tinham sofrido derrota humilhante no Vietname. Cá, a ditadura herdada por Marcelo Caetano agonizava. O "orgulhosamente sós" salazarista era por todo o lado interpretado como "vergonhosamente sós", tão mal acompanhado que Portugal estava: só Israel, sionista, e a África do Sul do aparteid nos apoiavam nas votações das Nações Unidas. A guerra colonial estava no auge, e nem a censura conseguia evitar que os jornais antecipassem a derrota iminente: lembro-me de título de primeira página do Diário de Notícias reproduzindo declarações do ministro da defesa, general Costa Gomes,  proferidas em visita a Moçambique: "A situação é grave, mas não desesperada".

Era tão desesperada que o general a não negava. E, se dúvidas houvesse, bastava ver as longas listas de mortos, sobretudo furriéis e alferes milicianos, que o mesmo jornal publicava diariamente e eu recortava para afixar no bar do Instituto Comercial onde estudava. Pouco. Já então a actividade revolucionária me absorvia de tal forma que o meu tempo era gasto a escrever e distribuir panfletos, de dia nas escolas e universidades, de noite nos "meus" bairros populares (Madragoa e Alvalade), a fazer "selos" (como chamávamos às tiras autocolantes com slogans revolucionários impressos com carimbo) e a colá-los por todo o lado, nas paragens de autocarro, nas vitrinas dos bancos, nas árvores de jardim, a pintar paredes, reuniões clandestinas, actividades de recrutamento, manifestações diárias...
Perdido de sono, de que sempre sofri e sofro, incapaz por natureza de noitadas, faltava frequentemente às primeiras aulas. Sempre alerta para não ser seguido ou preso pela PIDE, ia irregularmente às outras, sentava-me junto à janela, pronto a saltar e fugir se me tentassem prender lá. Nas aulas, escrevia constantemente, mas não eram apontamentos de aluno atento, antes panfletos estereotipados, para imprimir e distribuir mais tarde.
A minha vida era então a Revolução. Ou quase. Porque havia também a paixão inconfessada pela colega da foto, tirada antes de namorarmos. Sem coragem de me declarar, a medo de a perder.
Amigos. Colegas de estudo, inseparáveis nas aulas, nos intervalos, uma noite por outra noite no Big Ben, café de estudantes próximo da Faculdade de Ciências, onde o fumo era de cortar à faca e eu lhe tentava explicar os mistérios da matemática, a resolução de equações de segundo grau, o enigma dos números imaginários,

-- Se são imaginários não existem!
-- Mas repara, qual é o número que elevado ao quadrado dá -4?
-- Menos dois!
-- Mas não pode ser, bem sabes que o quadrado de um número negativo é sempre um número positivo!
E ela protestava contra a tirania dos axiomas, a irracionalidade dos números irracionais, a incompreensibilidade dos números imaginários! Coisa mais absurda, a Matemática! Não se podia ficar apenas pelos números naturais, afinal aqueles que importam a futura contabilista?

Pois na noite de 3 de Fevereiro, dia do seu aniversário, começámos a namorar. E, quarenta e três anos depois, ainda não parámos. 
FOTOS: (1) Junto a Económicas, em cuja cantina almoçávamos frequentemente; (2) a estudar, salvo erro na estufa fria, aí por 1972. Somos o par da direita.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Um amor inventado

A escritora e ilustradora Beatriz Lamas de Oliveira deixou esta nota de leitura no Facebook:
"Um amor inventado, de José Cipriano Catarino.

págª 132: " ..ocorreu à Berta, como raio que iluminasse a escuridão da noite, que o pai não era mau por causa do vinho, antes se embebedava para impunemente poder exercer a maldade".
Berta, a protagonista, é dura e inflexível como as penedias onde foi criada.
Amores, a mim, que sou a leitora deste livro, todos me parecem inventados. São desejos, ânsias, quereres que procuram uma realidade. É talvez como se a vida fosse uma pulsão, entre duas forças antagónicas. O bem e o mal. O bem todos o compreendem e aceitam. O mal quase todos o preferem ignorar e para ele buscam desculpas. Mas quem nunca enfrentou o mal, inventa, não o amor, mas a vida. E as mulheres, a quem demove o choro do homem ou as desculpas do vinho, estiolam em jardins onde nunca chove. Mas amam, por vezes, perdidamente.
Aconselho a leitura do livro!"

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Entre Cós e Alpedriz

A escritora e ilustradora Beatriz Lamas Oliveira deixou no Facebook esta nota de leitura:
"Entre Cós e Alpedriz"_é o livro que estou a ler.Vou na página 139. Autor José Cipriano Catarino.
Neste livro, que devia ser lido por todos os que têm problemas de memória, conta-se com realismo e vivacidade a história de Joaquina Guiomar Afonso. Através da história singular desta mulher, vão surgindo factos históricos que marcam duramente a vida dos camponeses em Portugal no seculo XX. A primeira guerra mundial, a pneumónica, as fomes dos anos ruins, as secas e dilúvios que sempre infernizam a vida daqueles sobre quem o marmeleiro cai. Homens e mulheres vivem dentro do livro, sinto-os vivos como se os tivesse conhecido, sinto-me triste pelas suas dores e pelas cruzes que carregam. É a história colectivo do Povo, aquele que tem as costas largas e anda sempre na boca dos "outros".
Aconselho a leitura. Avivar a memória é como afiar a navalha.
Beatriz Lamas, in Facebook

MUITO OBRIGADO!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Morte pelada

Passavam os anos, mais aquela mulher se queixava. Dores insuportáveis, sofrimentos sem fim, graves doenças.
Mulher doente, mulher para sempre.
"Ah, se ao menos a Morte me levasse!"
Mas a Morte gosta de escolher as vítimas. Deixava-a ficar. A penar. A lamentar-se. 
Um dia, o pobre marido, já sem paciência para tanta lamúria, combina com o criado: "Matas e depenas o peru, à noite bates à porta, respondes que és a morte e vens buscá-la."
E para a mulher: "Consta que a Morte anda pelas redondezas..."
"Virá à minha procura?", pergunta apavorada.
"Não é o que queres?"
"Sim, mas como a conheço?"
"Ora, a Morte é como alma depenada..."
Ceiam à luz da candeia. Batem à porta. "Quem é?", sussurra a mulher assustada.
"Sou a  Morte!", geme à porta o criado.
"Que queres, Morte danada?"
"Venho por alguém que chamou por mim..."
"Esconde-te na cama, diz para o marido, deixa-me conversar com essa malvada. Que me leve, a mim, que cá já não faço nada!"
Abre-se a porta. O criado atira-lhe o peru aos pés.
"Ó Morte depenada
Não me leves a mim
Leva o que está escondido debaixo da almofada!"
(Popular, contado à minha maneira"

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Tempo da poda

Com este bom tempo, digam-me lá se há melhor sítio para estar que no meu Casal, a podar os pessegueiros?
Duvidam? Perguntem ao TeX.




sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Oito máximas importantes do Karaté

Os antigos mestres viam o karaté como uma forma de estar na vida, contribuindo para o aperfeiçoamento do indivíduo e da sociedade. Um exemplo está na máxima que todos os praticantes conhecem, mas poucos respeitam, segundo a qual o essencial não está na vitória ou na derrota, mas no aperfeiçoamento do carácter. Máxima que sempre me faz sorrir ironicamente... Talvez por ter ouvido a mestre: "Se a prática do combate aperfeiçoasse o carácter, os pugilistas deveriam ser santos".
Pois hoje, com este tempo chuvoso que me priva do meu treino individual, deu-me para traduzir um excerto de Karaté-Do Kyohan, de Gichin Funakoshi, obra que considero a Bíblia da Arte da Mão Vazia, antes chamada Arte da Mão da China, ou, simplesmente, Mão (Té).
"Oito máximas importantes do karaté:

  1. O espírito está em harmonia com os céus e a terra.
  2. O ritmo do corpo é o do Sol e da Lua.
  3. A Lei tem em conta simultaneamente a dureza e a doçura.
  4. É preciso agir de acordo com o tempo e as mudanças.
  5. É preciso aplicar as técnicas quando se encontra a abertura.
  6. O 'Ma' necessita do recuo e do avanço, do encontro e da separação.
  7. Os olhos não devem perder a mínima mudança.
  8. As orelhas ouvem intensamente em todas as direcções."
Gichin Funakoshi, Karaté-Do Kyohan, p.248, tradução francesa de Tsutomu Ohshima, 1979.

 (Numeradas por mim para facilitar leitura e apreciação.)
1.Procuremos a harmonia, busca transversal às artes marciais japonesas, como, por exemplo, o Aikido, em vez de nos desgastarmos em guerras constantes pela afirmação pessoal rebaixando os outros, atitude típica da infância e da adolescência, mas imprópria do adulto.
2. O ritmo do corpo deve obedecer ao ying (Lua) e ao yang (Sol). Como convencer jovens karatekas de que o treino yang é bom, mas não basta, há que o enriquecer com a vertente ying?
3. A Lei não deve ser vista como o conjunto das regras de arbitragem, ou do dojo, ou do código civil, nem sequer como os Direitos Humanos, mas como algo que rege o Universo, que remete para (2). Doçura, suavidade, estão ausentes da prática até mesmo no estilo de karaté que foi buscar o nome a esta máxima: o Go ju-Ryu, à letra a escola da força e da suavidade, ou no Ju do, hoje nos antípodas do ramo de salgueiro. Dúvidas? Vejam uma arte suave, como o Tai Chi, mesmo na sua vertente mais dura, como no estilo Chen.
4. Nem podia ser de outra forma num mundo composto de mudança, nas palavras de Camões. Apenas insisto no tempo, que fará inevitavelmente de cada jovem karateka um velho. E que o deveria pensar se deve treinar destruindo o seu corpo e não raro o de outros, seguindo a mentalidade de mestres formados na Segunda Guerra Mundial, cujo ideal de vida era morrer gloriosamente aos vinte anos. Não morreram, mas transmitiram a Arte como se cada um de nós fosse um samuraizinho sem sabre. Felizmente sobreviveu nos livros o testemunho dos mestres anteriores a esse período negro da História e do Japão.
5. Não desperdiçar energia em técnicas inúteis, para espectador ver. Um golpe, uma vida, defendiam os antigos mestres, mesmo sabendo que dificilmente um único golpe é letal. E não esquecer outro ensinamento do mestre: se um objecto apresenta uma cavidade de dois centímetros cúbicos, então dois centímetros cúbicos de água são suficientes para o encher. Que é como quem diz: procurar e não desperdiçar as aberturas do inimigo, evitar ter pontos fracos.
6. Qualquer karateka com prática do kumité tem suficiente experiência da importância do recuo e do avanço no Ma, que costumamos traduzir de forma redutora como distância; pode não estar suficiente sensibilizado para a necessidade de encontro e separação, sobretudo se fizer muita competição.
7. e 8.: a atenção ao que nos rodeia é fundamental para não sermos apanhados desprevenidos pela vida. Para isso, é preciso que as ilusões não distorçam a realidade. Ou, como diz o mestre em poema seu, "Em todas as coisas, o Homem deve manter o espírito claro".
Nota final: seria um erro crasso restringir estas oito máximas à prática do karaté. Como o mestre escreveu na página 7, "A vida através do karaté-do é a própria vida, tanto pública como privada".

FOTO extraída da obra citada: o mestre exercitando-se no makiwara


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A luta continua


Lembram-se da minha guerra com o MEO, motivada por um serviço de banda larga que não subscrevi? Sim, esse, de que me não facultam o contrato verbal ou telefónico -- pois se ele não existe! -- e a "prova" da entrega do equipamento é um documento com assinatura falsa, de alguém que desconheço?
Já apresentei queixa na PSP, acabo de apresentar outra na ANACOM, amanhã será na DECO... 
Vou até ao Papa, se for preciso. Por enquanto, só estou a exigir o cancelamento do contrato a que sou alheio, a devolução das verbas indevidamente retiradas da minha conta aproveitando débito directo para o M4O, entretanto cancelado, e um pedido formal, por escrito, de desculpas.
Por enquanto.
Mas a fúria que me dá esta vigarice, juntamente com o tempo perdido a tentar resolvê-la, agravada pelas respostas arrogantes e burocráticas do MEO podem, a qualquer momento, fazer-me querer ser ressarcido de incómodo, deslocações à loja MEO, tardes aí perdidas, serões como este estragados a reclamar daquilo que aparenta ser um caso de fraude, roubo de identidade, falsificação de assinatura, utilização abusiva da autorização de débito directo.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Bricolage

O que me falta em habilidade sobra-me em vontade. Assim, meti mãos à obra, desmanchei resguardo velho de polibã por se ter quebrado um dos vidros, e montei este, comprado no Aki. Não ficou nada mal. Levou três serões, que os dias são reservados para outras actividades.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Agradecimento

É duro, confesso, continuar a escrever romances na quase certeza de que nenhum editor se interessará pela respectiva publicação. Mas não é surpreendente, tendo em conta que os editores de ficção nacional se contam pelos dedos de uma mão (e sobrarão dedos) e enfrentam eles mesmos dura luta pela sobrevivência, a qual os aconselha a não arriscar em autores sem peso mediático -- e, menos ainda, no dizer do meu amigo António L. Pacheco, em plantadores de couves, de bigodinho. O que, aliás, já me tinha sido dito por um editor contactado depois do sucesso do Eu, Carolina, obra autobiográfica que se vendeu como sabonetes: "O que é que V/ quer, se não dorme com o Pinto da Costa, nem trabalhou numa casa de alterne?")
Note-se que me não me têm faltado propostas de publicação de editoras -- pagando. O que continuo a recusar, indiferente aos eufemismos que envolvem as propostas. A pagar, prefiro fazer edições de autor, que me ficam muito mais baratas, não cedo direitos, os livros são meus, faço com eles o que bem entender. E pouco me afectam os comentários escarninhos dos críticos da edição de autor, que partem da ideia implícita -- e errónea -- de que, se as obras auto-publicadas tivessem mérito, não faltariam editores interessados, esquecendo, por exemplo, Camões, Fernando Pessoa, cada um com apenas um livro publicado em vida, esquecendo aqueles que só foram publicados postumamente, ou os que recorreram sistematicamente à edição de autor, como, por exemplo, Miguel Torga...
Envergonhar-me-ia a auto-publicação se me dissessem que o aspecto gráfico dos livros é mau, que encontraram erros de ortografia ou de sintaxe, incoerências nas histórias, que as narrativas não prestavam, etc.
Porém, os numerosos leitores que ao longo dos anos me têm feito chegar o seu feedback, não raro por escrito, têm sido pródigos em encómios. Haverá, presumo, outros tantos que nada disseram, ou porque não gostaram, ou porque não leram; mas não é meu desiderato agradar a todos. E muito me apraz sentir o respeito dos pares, na certeza de que, oficiais do mesmo ofício, conhecem bem os truques, sabem onde procurar os pontos fracos como costumam fazer nas suas obras antes de as darem à luz pública, faltar-lhes-á como a mim a paciência para amadorismos.
Por isso me encho de orgulho -- tão legítimo como o do operário que terminou a contento tarefa penosa e exigente -- ao ler a recensão que Cristina Torrão, escritora radicada na Alemanha, teve a amabilidade de escrever no seu blogue e no Facebook sobre o meu romance Um amor inventado, e que pode ser encontrada AQUI.
Muito obrigado, Cristina, muito obrigado João Madeira, muito obrigado António Pacheco! Muito obrigado a todos aqueles que ao longo dos anos me têm feito chegar as suas opiniões, persuadindo-me de que vale a pena continuar a escrever! 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O 35

Era casinha modesta da CP, em bairro ferroviário, divisões minúsculas, quintalzinho dividido por curto passeio de cimento até à capoeira e barracas, pequeno alpendre encostado à casa, sob o qual, aos domingos, almoçávamos em mesa tosca de madeira, resguardados do Sol no Verão, aconchegados por ele no Inverno, quando penetrava baixo, pouco acima dos muros caiados.
Era exigência da minha sogra ter a família reunida para o almoço dominical, a que não seria alheia a consciência das necessidades que todos nós passávamos -- raro era o mês em que não precisávamos de lhe pedir pequeno empréstimo, coisa de uns centos de escudos, pago logo que recebíamos o ordenado.
O meu sogro, rijo assentador, alto, seco, de força invulgar, rabugento por natureza, conformava-se com a vontade da mulher, sacrificava-se pelas filhas -- mas os genros? Franzinos, fracotes, sem apetência para a enxada de bicos, nem jeito algum para granjeios de hortelão -- um desgosto que o deve ter perseguido até ao final da vida, aos 85 anos. Ah, como deve ter lamentado que nenhuma das filhas lhe tivesse dado genro à maneira, um desses homenzarrões de força, capazes de assentar travessas na via sob estiagens e invernias, disposto a acamaradar com ele ao despegar do emprego para uns copos na taberna do Pescador, famoso pelo peixe frito, antes de ir amanhar até à noite a horta emprestada!
Nós três, com o apetite dos vinte e poucos anos, fazíamos orelhas moucas a remoques, deliciados com a comida da nossa sogra, cozinheira exímia: caldo verde ou sopa de feijão, frango assado, ou coelho frito ou guisado com ervilhas, feijoada, empadão... Quase tudo da casa, quase tudo cozinhado no fogão a lenha alimentado com madeira de velhas travessas do caminho de ferro, rachadas pelo meu sogro com a bita do serviço.
E tanto como a boa comida, apreciava eu o convívio alegre, por vezes povoado por pequenas quezílias, que nunca deram azo a animosidades sérias e duradouras como as da minha aldeia, onde frequentemente as famílias, pais e filhos até, se não falavam, zangados em disputa por palmo de terra nas partilhas, ou por águas, ou por direitos de serventia, quase sempre por mesquinhez, invejas, má língua.

A família cresceu e multiplicou-se. A velhice roubou à minha sogra as forças necessárias para preparar os almoços de domingo, que começavam na véspera, a matar e amanhar os galos ou os coelhos, a acender alta madrugada o fogão de ferro -- e é possível que a algazarra de tanta gente junta a incomodasse já, ou os protestos do meu sogro, excelente homem, mas sempre rude e áspero, a tivessem finalmente descorçoado.
Há muito tinham deixado o 35, desde então ao abandono. Dele ficaram-nos as memórias, dele fica-nos a tristeza ao vê-lo desabitado, ao abandono, degradado – nem CP o voltou a alugar, nem ferroviário algum aceitaria nos dias de hoje viver em casinha tão modesta, tão pequena, tão sem comodidades. E ficam as saudades desse espaço e desse tempo em que, fazendo minhas as palavras da minha sobrinha, autora da foto, “eu fui tão feliz.”,

FOTOS: (1) entrada, foto da Catarina; (3) pombo observa atento a minha mulher a arranjar alface; (2) neste almoço, lombo assado, seguramente bem melhor do que aquele que servem a Jerónimo de Sousa nas campanhas eleitorais.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os grelos e eu

-- Come-me esses grelos, ladrão! 
-- Não gosto!
-- Até tos meto pelos olhos dentro!
Fui criado com mimos, de comida, de linguagem. À ceia, a que hoje chamamos jantar, os malditos grelos, em abundância, pouca batata, prontamente comida, meio ovo cozido,
-- A metade dele é maior 'ca' minha!
-- Cortei o ovo a meio, não tenho régua na faca!
-- Pois, mas a mim dá-me sempre a metade mais pequena!
-- Cala-te, lambona! São iguais, mas se fosse maior, que mal tinha? Ele é homem!
-- E o que é que isso tem? 
Não dava já para comparar metades, que a minha tinha desaparecido com as poucas batatas, no prato ainda cheio restavam, verdoengos, agoniativos, amargos como fel, os grelos com os seus talos, paus chamava-lhes eu, que se enrolavam na boca e não atravessavam a garganta. Dia bom, as galinhas tinham posto dois ovos, coisa rara no Inverno, um para o meu pai, quando vier cear, o outro para nós. Para a minha mãe, que parte e reparte, mas como mãe fica com a pior parte, os grelos mal azeitados, azedos como ela, exasperada com as nossas brigas, sobretudo com a minha recusa em engolir o pitéu, que mais nada tinha para me dar.
Por isso volta a gritar, que coma os grelos ou mos enfia pelos olhos adentro, pelas goelas abaixo, quem manda, diz, é ela, aí vão eles à força, empurrados com bofetadas, arrepelões, safanões, passam o estreito, Ah, mas nasci torcido, hei-de terá última palavra, e vomito-os triunfalmente,
-- Malandro, não comes, vás prá cama com fome! E vou, orgulhoso, triunfante.
Traumas de infância. Este tão grave que hoje não troco simples grelos cozidos por qualquer comida gourmet da moda. E sempre, enquanto me delicio com os grelos azedos, recordo  com remorsos o que fiz sofrer a minha pobre mãe, recusando comê-los naqueles tempos de penúria. 
Cá se fazem, cá se pagam.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Bricolage

Não tenho grande jeito para trabalhos manuais, mas, desde que me aposentei, não têm conto as obras de reparação que tenho feito em casa e no quintal. Para ocupar o tempo e exercitar o corpo, por economia, e porque me falta a paciência para andar atrás dos técnicos.
Por exemplo, a fachada do muro do quintal estava precisada de pintura, como as fotos (1) e (2) evidenciam. Veremos se a pintura com tinta de areia, precedida de lavagem e fixador, dura mais do que a anterior, feita por profissional. Ficou como mostra a foto (3).




sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Antes que chova

Parece que o Sol nos vai deixar por uns tempos, pelo que hoje adiantei as sementeiras: meio quilo de favas, um de ervilhas, alhos e batatas, estas cobertas com feltro agrícola (manta térmica), a ver se escapam das geadas que hão-de vir.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Aprender até morrer

Estou a fazer o curso de Aplicador de Produtos Fito-Farmacêuticos. E a gostar muito. 
Inscrevi-me, como todos os outros colegas, porque sem certificado e cartão não se pode comprar e aplicar pesticidas já a partir do final do mês.
Faço pouco  uso de pesticidas, porque sou preguiçoso, porque detesto aplicá-los, porque são caros, porque sei que são nocivos para o ambiente e para os consumidores, no caso, eu, a família e os amigos.
Mas, e por muito que me apregoem a possibilidade de os dispensar, ninguém me convence de que é possível prevenir o míldio em batatal, ou na vinha o oídio, ou black rot com mezinhas. Ou de que a calda bordalesa tradicional e o enxofre, permitidos em agricultura biológica, não são também químicos, igualmente nocivos para a nossa saúde e para o ambiente.
Os colegas de curso são minifundiários como eu, da minha idade, e fazem um pouco de agricultura variada para subsistência, entretenimento, pequeno comércio. A formadora é excelente, confiante, segura, clara nas asserções, com discurso límpido, em constante interacção connosco. Não dá para adormecer, apesar de as sessões decorrerem à noite. E já aprendi muito, tendo sobretudo tomado consciência de que, também eu, sempre prudente, fui paulatinamente facilitando no manejo e aplicação desses produtos perigosos, com erros de cálculo, não raro por excesso...

Temos homem?


Hollande, que eu menosprezava, subiu ontem e muito na minha consideração, ao revelar-se nesta crise um 'condutor de homens' à altura dos chefes dos poemas homéricos. Falou e agiu, com firmeza, bateu duro onde pode doer, bombardeando os terroristas na Síria, e propondo revisão da Constituição para impedir o regresso de jiadistas com dupla nacionalidade e retirar a nacionalidade francesa aos acusados de terrorismo.
Não se deixou paralisar pela conversa melada dos bonzinhos que, cobertos com a tricolor, apenas querem debates intelectuais a apurar causas e responsabilidades, mas nada de acções precipitadas, esquecendo que há tempo para reflectir e tempo para agir. 
Temos homem. Afinal, a França ainda os gera, e as crises revelam-nos. Veremos se estará à altura de Charles Martel, Jeanne d''Arc, Napoleão, de Gaulle.

Desamiganço


Ser desamigado por alguém que apenas conhecemos do Facebook não corresponde ao clássico corte de relações, em que a pessoa continua presente no nosso universo, apenas sem interagir connosco. Não, o desamigamento faz sumir do nosso universo entidade virtual, com maior ou menor correspondência real, como personagem de jogo de computador que desaparece ao fechar o programa.
Não há volta a dar, sobretudo se nada nos pesa na consciência. Já não é só a mesma água que não passa duas vezes sob a mesma ponte; é a impossibilidade de entidades virtuais, mais vagas que os fantasmas de antanho, que num momento decidiram desligar-se, voltarem a relacionar-se connosco.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Epigrama do meu trovador

Álvaro Domingues escreveu sobretudo versos satíricos, de qualidade duvidosa, tão impróprios hoje, nestes tempos politicamente correctos, como no seu (morre em Ceuta, em 1425):
"Raramente via a meu primo, que fazia alguma vida social, convidado amiúde para ceias em casa de burgueses ricos e grandes senhores, a quem deleitava com histórias das suas andanças por essa Europa nos seus anos de expatriado, ao serviço de duques e príncipes — eram sobretudo as senhoras da casa, seduzidas pelo exotismo de reinos longínquos, sempre ansiosas por conhecer as grandes capitais europeias, por saber quais as modas, as intrigas, as paixões dos grandes senhores e senhoras. E meu primo, com os seus dons de contador de histórias, e o seu jeito nunca perdido para rimas e outras coisas de folgar e gentilezas, recriava suas narrativas, embelezava-as, pois, mais do que a verdade das histórias, importa o saber contá-las. (...)
E falava então do desprezo que sentia por estas matronas que o tentavam seduzir descaradamente, sem pensarem antes que o esborrachariam sob o seu peso. Improvisara-lhes até epigrama:
Vós, que grande dama vos julgais
Tanto mal me quereis, pois trabalhais
Para me esmagar em vossas camas
Sob vossas banhas, pança e mamas
Deleitai-vos antes com minhas histórias
Apreciai minhas memórias
Que se pouco valor dou à vida
Não a quero em tal sofrimento perdida
Guardo-me para melhor Sorte
Mais honrosa morte
Que debaixo de vós,
dama de grande porte."

Um trovador serôdio

Álvaro Domingues, personagem de ficção de romance meu inédito -- desculpem as redundâncias, mas a experiência mostrou-me que não são escusadas, já que os primeiros leitores se deixaram enganar por ilusão do real demasiado bem construída -- deixou-nos, para além das cantigas trovadorescas que ele muito admirava, mas já estavam fora de moda, versos noutros registos. Por exemplo, estes:
"O esquecimento é a morte
De nós e de nossos amados
Uns e outros levados
Pelo Tempo, pela crua Sorte"

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Novembro de 1975

Tinha sido destacado com alguns camaradas, quase todos milicianos, para dar uma recruta em Santa Margarida, campo militar em lugar ermo, com longa avenida entre numerosos quartéis, cada qual com a sua autonomia. Logo numa das primeiras noites, estava eu de sargento de dia, e chamam-me à caserna dos recrutas. Um dos “prontos”, soldados veteranos, de alcunha o Portimão, bêbedo, G3 na mão, ameaçava os moços, a extorquir-lhes dinheiro, bebidas, enchidos, chocolates. Cheguei-me às boas, a tentar levá-lo dali para fora. Recusou sair: queria beber, e, dizia, os recrutas tinham bagaço escondido nos armários.

-- Venha então daí, e peguei-lhe amigavelmente no braço, vamos ao bar, que lhe pago um copo.

Intempestivamente, libertou-se com um safanão, apontou-me a G3 à cara, a dois passos de distância, meteu bala na câmara, grunhiu: -- Sei usar esta merda!

Nem me apercebi do perigo que corria. Inútil a Walter de serviço, no coldre fechado e sem balas. Pistola e braçadeira eram meros adereços da função.

Sem pensar, avancei para ele, desviei o cano da arma, -- Oiça lá, meu sacana. É assim que me agradece por o safar das porradas quando está desenfiado do serviço, como aconteceu ainda no mês passado, você a dormir na cama e o posto de sentinela vazio?

-- Isso não é agora para aqui chamado, contrapôs, aparentemente desorientado.

-- Aí não é? Eu faço-lhe bem e você aponta-me essa merda? É assim que me agradece?

Por entre palavrões e ameaças afastou-se e refugiou-se no quarto.

Queixa apresentada na manhã seguinte, o comandante do destacamento, um major que havia chefiado a descolonização de São Tomé e Príncipe, chamou-o ao seu gabinete na minha presença. E o Portimão, que tinha cursado com distinção a escola de malandragem, desfez-se em falinhas mansas, em tom humilde, desculpou-se, tinha sido do vinho, não tornou a beber...

O major, que acreditava na bondade humana, no arrependimento e na capacidade de regeneração do ser humano, despachou-o com simples raspanete.

E o Portimão continuou connosco.

Nessa semana, os recrutas, em plenário dinamizado pelos SUV (Soldados Unidos Vencerão!), aprovaram várias medidas revolucionárias: não rastejar na pista de técnica de combate porque o chão estava lamacento, e não fazer serviços.

O bom do major, levando-me a passear abraçado pela parada sob olhares escarninhos dos recrutas, explicava-me: havia que respeitar a decisão democrática do plenário, mas era preciso garantir a segurança do quartel. Afinal, tínhamos connosco mais de duzentas armas. Sem os recrutas, teria de ser assegurada pelo oficial de dia, por mim, a quem calhava naquele fim-de-semana o serviço de sargento de dia, pelo Portimão como armeiro. O suficiente. Afinal a unidade estava dentro do campo militar, com segurança à porta de armas. Prosseguia:

-- Olhe, o Portimão pediu-me uma pistola...

Atónito, interrompi o passeio, olhei-o nos olhos: -- Meu major, ele é o armeiro, tem o quarto atravancado com G3! Até em cima dos beliches!

E o comandante, pacientemente: -- Eu sei. Mas diz ele que se lhe aparecer alguém de noite precisa de uma arma pequena. Por isso, dê-lhe a sua.

O major insistiu. E eu entreguei a pistola ao Portimão, já com balas no carregador, conseguidas com grande dificuldade depois do susto que ele me tinha pregado.

Partem todos de fim-de-semana. Na unidade deserta, desabafo com o aspirante que ficou de oficial de dia: -- Já viste a minha figura de palhaço, sargento de dia desarmado? E tive de dar a minha arma ao Portimão, que já tem duzentas...

Tranquilizou-me. Com o quartel deserto, não haveria novidades. -- Olha, a minha mulher e o meu cunhado vêm ter comigo e dormem cá, não faltam quartos livres. Vai-te embora para casa.

Sair do quartel, dormir em casa, com a minha mulher? Irrecusável. Portanto, desenfiei-me. Mas, para evitar que dessem por isso, no domingo regressei antes do restante pessoal. E o pobre aspirante contou-me a toirada da noite de sábado: o Portimão, outra vez bêbedo, e não tendo com quem brigar na nossa unidade, foi armar desacatos para o bar dos sargentos de um quartel vizinho, Engenharia. Chamado o nosso oficial de dia a repor a ordem, ameaçou matá-lo com a minha pistola... A custo conseguiu levá-lo de volta, teve várias vezes a arma apontada à cara, bala na câmara, sem se atrever a deixá-lo sozinho antes que a bebedeira passasse, temeroso pela mulher e cunhado, escondidos na ala dos oficiais...

Desta feita, o Portimão foi recambiado para a nossa unidade de origem, em Torres Novas. Dias depois, voltou a embebedar-se e infernizou o quartel, disparando rajada sobre rajada sobre tudo o que mexia. Os camaradas, resguardados nas esquinas, gritavam-lhe apelos à calma. Em vão.. Havia de matar o comandante, o segundo comandante, o sargento da companhia...

Por volta da meia-noite saiu do quartel. Desarmou pobre polícia, que em pânico se atirou às águas imundas e gélidas do Almonda e a nado fugiu para a outra margem. Depois, não encontrando a quem perseguir na vila deserta, reentrou na unidade sem que o frio da noite lhe tivesse arrefecido a fúria assassina.

Da capital chegaram ordens para o abater. Ninguém o queria fazer. Mas municiados com balas reais, os soldados respondiam ao fogo do camarada, evitando atirar à figura. Até que, pela madrugada, o Portimão, ao atravessar a parada para nova surtida na vila, caiu atingido por estilhaços de rajada, vários ferimentos ligeiros, um testículo a menos, Presídio Militar como destino.

FOTO: em Santa Margarida, com alguns dos camaradas destacados para dar a recruta. Estou à direita, ajoelhado, de óculos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Da tolice humana

Diz o um amigo: pior que tomarem-nos por tolos é demonstrarem-nos que somos tolos. Discordo, apesar de, à primeira vista, a sua proposição parecer inegável. É que por "demonstrar" entendo "tornar evidente através de provas concretas" e não através de recursos retóricos mais ou menos falaciosos. Um tolo -- " aquele que não tem inteligência ou juízo" -- não aprecia, porque não entende, demonstrações, que, quando muito, confunde com argumentações de retórica, como na historieta seguinte, contada à minha maneira.
Um iluminista francês, creio que Voltaire, fazia sucesso nos salões da alta aristocracia russa com os seus argumentos e provas de que Deus não existe. Ora numa dessas festas, quando deslumbrava damas com a sua oratória, falam-lhe de um matemático que tinha descoberto uma fórmula que provava a existência de Deus.
Ainda Voltaire, que pouco sabia de matemática, abria a boca de espanto, e entra homem vestido de camponês, aspecto de monge louco de filme de Eisenstein, que lhe dispara à queima-roupa intrincada fórmula matemática, culminando com imperioso -- Répondez!
Como, se não tinha entendido patavina? O filósofo saiu ridicularizado do salão, fugiu para França apressadamente, tão envergonhado que ponderou o suicídio.
Tolice e vaidade andam frequentemente de braço dado...

sábado, 17 de outubro de 2015

Uma velha foto

Encontrei esta foto, cuja existência desconhecia. Na Escola Técnica de Alcobaça, aí por 1966 ou, mais provavelmente, 1967. Nela, eu e os meus colegas de Ciclo Preparatório e 1º ano de Formação de Serralheiros. Da esquerda para a direita, eu, o João Salgueiro, com quem andei à porrada numa briga épica que me deixou os olhos negros, e hoje é, creio eu, o presidente da Câmara de Porto de Mós, o Isaac, não me recordo do nome do de camisola branca, o Aurélio, que comovia as professoras com poemas inspirados " nevava e eu rotinho, todo nu...", e o Couto, o melhor aluno da turma. Nunca mais os vi, excepto o João Salgueiro na tropa e depois nos cartazes das campanhas eleitorais.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Ménage à trois

Num livro da minha escola primária havia a história de um barqueiro que tinha de transportar para a outra margem do rio um lobo, um carneiro e uma couve.
Se os levasse juntos, haveria desordem a bordo; e não podia deixar em terra o lobo e o carneiro, nem o carneiro e a couve.
Se a memória me não atraiçoa, transportou primeiro o lobo e a couve, voltou atrás tranquilo, que lobo não come couve, pegou o carneiro e pôde deixar no destino todos os passageiros incólumes.
Como fará António Costa, admitindo que se mete à água e não quer meter água?

domingo, 4 de outubro de 2015

Fornada de pão

A levedar no alguidar


Já tendido

Pronto a comer

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Acta desatada

Ontem, pela hora de almoço, encontraram-se na casa da Cristina e do BartolomeuD'Asp José, aliás Frederico, sita num monte de Arruda dos Vinhos, o João J. A. Madeira e este escriba, a quem coube, por força do muito que comeu, bebeu e falou, o registo das ocorrências.
Iniciado o evento com as entradas e vinho licoroso, logo a conversa se espraiou como o olhar pelos montes ermos das redondezas, aqui e ali salpicados de vinhedos e pequenos bosques. Muito se falou, dos amigos que faltaram, o António Luiz Pacheco a mourejar em Angola, o António Breda certamente já com aulas, até de políticos, mas não de política, nas histórias do Bartolomeu, que trabalhou 24 anos na Presidência da República, onde conheceu três presidentes.
Ao almoço, paelha, vinho branco, conversa sempre entusiasmada, depois, estirados em cadeiras de lona, conhaque, o João com o seu cachimbo, a conversa prosseguiu animada, até que, já acompanhados pelo Francisco, o neto já acordado da sua sesta, breve passeio pela propriedade, visita ao sótão onde o Bartolomeu tem oficina de bricolage e biblioteca, e o neto brinca com velhas pistas eléctricas de comboios.
Eram quase oito horas, anoitecia, e ainda conversávamos entusiasmados no parque de estacionamento de hipermercado onde tinha deixado o carro. De livros, nossos e dos amigos ausentes, o Perguntem a Sarah Gross, que me está a surpreender muito agradavelmente, da Cristina Torrão, do Pedro Sande, do conto premiado da Carla Pais...
E não havendo tempo para mais, deu-se por encerrado o encontro, do qual lavrei esta espécie de acta, a qual, nem lida nem aprovada, é aqui publicada.

sábado, 26 de setembro de 2015

Não há sábado sem Sol

Em verdade, em verdade vos digo: campanha eleitoral sem paixão partidária é chatice tão grande como futebol sem paixão clubística. Para quem não torce por este ou por aquele, é descabido tanto alarido para meter uma cruz num quadradinho ou enfiar uma pequena bola numa baliza enorme.
Mas o que custa mais é ouvi-los até que a voz lhes falte a dizer ... a dizer o quê?
FOTO 1: em guerra contra o mato. Antes, tinha já gradado o Vale da Junqueira e as Sesmarias, que estavam no triste estado que a FOTO 2 mostra.
FOTO 1
FOTO 2

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Outra história que acaba bem

Como se lembrarão alguns, há duas semanas comprei e paguei 2000 quilos de lenha, mas, após pesagem em balança de casa de banho, verifiquei que faltavam 1070 quilos.
A lenha da foto foi entregue hoje, a comprovar que vale a pena reclamar com firmeza e fundamentação.
Problema resolvido, outra história que acaba bem.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Cor serpentis

Penso, talvez erradamente, que situações como a que aqui relatei nos últimos dias envolvendo um contrato que desconheço ter assinado com uma operadora de comunicações móveis se devem à precariedade do trabalho e aos baixos salários. Contratam o mais barato, que não é o melhor, nem em profissionalismo, nem em ética. Com a pressão para atingir quotas impossíveis, podem alguns cair na tentação de "fazer" clientes custe o que custar, mesmo que os "clientes" tenham dito redondamente que não... E não é difícil forjar angariações e aceitações de contrato. Nos EUA, os bancos contratavam gente só para falsificar assinaturas em contratos de hipoteca de casas: tinham feito o empréstimo, mas com a pressa não possuíam documentos que fizessem prova em acções de despejo. Ora com a globalização tudo de mau do capitalismo acaba por chegar até nós.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

O poder do Facebook

Ontem, estive 49 minutos às turras com os serviços do MEO, conforme aqui contei, e com resultados quase nulos. Hoje, telefonam-me a informar que a tal Internet Móvel, a que não aderi, foi cancelada, a factura anulada e os pagamentos indevidamente cobrados por débito directo ser-me-ão creditados. Só ainda não vi as "provas" da minha adesão ao tal serviço pois, ao que me disseram, para tal tenho de ir a uma loja MEO fazer o pedido para ouvir a gravação. E vou fazê-lo.
Posso estar redondamente enganado, mas não tivesse eu protestado publicamente, aqui e no Facebook, e talvez não fossem tão lestos a atender a reclamação e a corrigir a anomalia.

Valha-me São Kafka!

Lembram-se da velha anedota machista e parva: quando chegares a casa, dá porrada na tua mulher.
-- Porquê?
-- Ela sabe.
Lembram-se? Pois é como essa pobre mulher que me sinto após ter perdido 49 minutos ao telefone, chamada paga, a querer saber porque é que o MEO me enviou factura de Internet Banda Larga Móvel, se eu não aderi ao serviço, não tenho sequer cartão, e não me conseguem apresentar, até ao momento, nenhuma prova de que, por escrito ou verbalmente, subscrevi esse serviço -- invariavelmente, de há anos para cá, a minha resposta é que não faço negócios por telefone e tanto teimo que perdem a cabeça, juram honestidade, e eu, velho casmurro, sempre Não, não! Mandem-me um contrato escrito para eu ler primeiro, depois logo decido.

49 minutos em que educadamente me exaltei ao saber que me têm andado a cobrar esse valor no débito directo que autorizei para o M4O (tv, telefone, 2 tm, mas nada de banda larga móvel), que não me enviaram facturas em papel por ter aderido à factura electrónica e não enviaram as facturas electrónicas por minha culpa, não percebi porquê.
49 minutos! A menina ficou de, no prazo de dois dias, me apresentarem provas de que assinei o contrato, ou o aceitei por telefone.Espero ansiosamente por elas.
Até lá, valha-me São Kafka!

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Alma do Diabo, Carla Pais

Chegou ontem e li-o de um só fôlego. O diabo do conto tem alma e prendeu-me logo às primeiras linhas! Muito bem escrito, tem por base uma boa história de emigração e turistas, a sugerir-me vagamente a intriga do romance A Amante Holandesa, de Rentes de Carvalho, mas com uma linguagem, um discurso, e desenvolvimento completamente diferentes, que a Carla Pais tem voz própria, que se escuta com prazer e muito promete.      
Personagens interessantes e bem construídas, presença opressiva do sobrenatural em numerosas alusões do narrador, evitando com bom gosto os malabarismos do "realismo mágico", tensão e mistério, que a autora, revelando maestria na arte de contar, não dissipa, não desvenda, não explica, envolvendo assim o leitor na construção de possíveis significados.
Não surpreende, portanto, que A Alma do Diabo tenha vencido o concurso de contos promovido pelo município de São Vicente, local onde, aliás, decorre a maior parte da acção.
Parabéns, Carla, e força nessa escrita. Muito obrigado pela oferta, pelo prazer da leitura, e por te teres lembrado de mim!

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Setembro

"Eis Setembro, que chega fresco e risonho como a Primavera, após outro Agosto infernal, de calor e de incêndios. Não nos iludamos: nada voltará a ser como dantes. Setembro jamais será Abril, mesmo que este Sol e esta luz nos queiram convencer de que a Primavera dura todo o ano e a juventude é eterna, mesmo que a cidade pareça a mesma, com o castelo indiferente à passagem dos séculos e o Lis correndo sempre ao encontro do irmão gémeo, para juntos procurarem o mar, sonho de todos os rios."
Assim começa Do Lacrau e da Sua Picada, escrito quinze anos atrás. Para minha grande mágoa, tinha então razão, Setembro jamais será Abril, por muito que em dias como o de hoje se assemelhem.