Número total de visualizações de páginas

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Em torno da poesia (1 de vários)

A poesia tem sido presença constante e marcante na minha vida. Porém, como contarei em várias mensagens, nem sempre assim foi, e aquilo a que chamo poesia pouco terá a ver com muito do que hoje se abriga debaixo do seu guarda-chuva -- ou guarda-sol, que vem aí o calor.
Não escrevo poesia. Tal como não escrevo música, nem pinto. Cada qual é para o que nasce. Ou tem talento para essas artes, ou não tem. Eu não tenho, e descobri-o bem cedo.

Na adolescência escrevia umas quadras anti-fascistas piegas, coisas do género:
O pão que o diabo amassou
Será comido por ele só
Chorará então como chorou
Aquele de quem não teve dó!

Depressa evolui para formas mais livres, vazando a inspiração em textos atafulhados de imagens, tentando imitar  poetas como Daniel Faria (ainda hoje me encanta A Invenção do Amor, que motivou o meu terceiro romance), José Gomes Ferreira, José Régio...
Então conheci Federico Garcia Lorca, em carta do meu primo António, com poemas que dactilografara, tomado de admiração por esse poeta que descobrira recentemente. Aquela música entrou-me logo nos ouvidos, Verde que te quero verde, Ai, Antoñito el camborio! A morte sai e entra, a morte entra e sai... Que bela fogueira deram os meus "poemas"!
O golpe fatal nas minhas ambições poéticas, porém, foi dado quando li Pessoa, e por via dele, Whitman, Klebnikov, Maiakovski. Prévert mais tarde. Vi claramente visto o que é arte. Dei-me conta das  minhas limitações insuperáveis. Porque, ao contrário do que por aí se diz, o querer não é tudo. Não chega desejar ser águia para ter as asas, as garras, a bravura - arriscamo-nos a não passar de cacarejadores de metáforas.
Pior: não consigo impedir-me de aplicar esse filtro a tudo o que leio. Pouco escapa. E aquilo que escapa é, quase sempre, mais velho do que eu.
Estará a poesia moribunda, ou será dos meus pobres olhos, que teimam em apreciar velharias? Suspeito que nem uma coisa nem outra. Que a poesia continua viva e pujante, e o o problema estará no desfasamento entre qualidade e divulgação, como aliás, também sucede na prosa literária. Até porque muitos dos poetas são seres tímidos, apreciadores da sombra, a quem a exposição confrange e repugna.
(Continua)

terça-feira, 28 de maio de 2013

Compaginações

Caiu-me no goto o verbo compaginar, tão do agrado dos políticos. Quase tanto como as "narrativas" de que fala Sócrates, recauchutado em Paris. Só não sei como compaginar os prémios astronómicos (quase meio milhão de euros) dados pelos bancos que nós subvencionamos a alguns dos seus gestores com alertas como este, do Banco de Portugal, a avisar que a banca vai ter de continuar a assumir perdas.
Trata-se, seguramente, de uma outra "narrativa". Em que não será exigido, como não foi antes, a devolução desses prémios quando os negócios de ouro do ano passado se revelarem ruinosos talvez já no próximo...
Ah, se a vida fosse, para nós, pagantes,  tão fácil de rescrever como o são as "narrativas" dos banqueiros e dos políticos!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Leitura recomendada

Não sou muito dado a actividades sociais e fujo como o diabo da cruz dos eventos que me cheiram a feiras de vaidades, onde importa estar presente para ver e ser visto. Mas faço questão de participar  naqueles que me tocam, como foi ontem o caso do lançamento do livro de Pedro Correia Vogais e consoantes politicamente incorrectas do acordo ortográfico.

A apresentação, na Bertrand do Picoas Plaza, apinhada de gente interessada e atenta, coube  ao editor, a Pedro Mexia e ao autor. Divertida, esclarecedora, cativante, defendeu posições que eu mesmo, quando no activo, tinha reivindicado na minha escola, como o direito de os professores opositores se poderem declarar objectores de consciência. 
O livro, que li entusiasmado na viagem de regresso, constitui um estudo exaustivo sobre a génese e a implementação do acordo ortográfico de 1990, as suas vicissitudes e motivações, em Portugal, no Brasil, nos restantes países de língua portuguesa; põe a nu as incoerências, os disparates, as asneiras resultantes da sua aplicação (embora saliente aspectos positivos), e propõe um plano de acção claro, sucinto, exequível para resolver a trapalhada criada pela incompetência ou o desleixo de (pessoas que se dizem) linguistas e políticos. 
Bem fundamentado, claro na exposição, combina o rigor com a arte de bem escrever.
Apenas senti a falta de uma secção, mesmo que genérica, sobre as motivações económicas do acordo: encontros e conferências internacionais, com as inerentes mordomias, ganhos com a formação, guerras pelo controlo do mercado livreiro, substituição quase forçada dos dicionários e demais ferramentas de língua... Porque, pressinto, as motivações para a elaboração do acordo ortográfico de 90 e as posteriores pressões para a sua aplicação podem não ter sido sempre nobres e elevadas -- científicas nunca foram, nem pretenderam ser, como o livro deixa claro, citando um dos pais deste aborto.
Seria a ocasião de proponentes e defensores deste acordo ortográfico prepararem obra que desminta as evidências e rebata os argumentos apresentados por Pedro Correia, justificando a aberração em vigor. Seria, mas duvido de que isso aconteça, tal a solidez das Vogais e consoantes politicamente incorrectas, provavelmente estocada final no acordês e possível ponto de partida para emenda consistente das asneiras -- que um pequeno grupo não escolhido, não nomeado, trabalhando à revelia dos linguistas e demais intelectuais, impôs sem debate público à sociedade portuguesa, à brasileira, e quer impor aos demais países da lusofonia...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Avante, cidadões (II)

Tu quoque, Cavacus?
Ouvido e visto (por 2 vezes)  há pouco no telejornal da TVI quando o senhor professor doutor presidente recomendava as termas para a cura "dos diabetes" (sic) e dos cidadões espanhóis.
(Onde se prova que eu estava errado e o leitor João Andrade tinha razão.)
No muro do cemitério de Alpedriz, já perto do 25 de Abril de 1974, uma pintura, hoje grafíti ou grafito, expressava então o desencanto e a revolta popular:
"Homens da nossa terra! A nossa junta de freguesia está entregue a analfabetos!"

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Da inutilidade inútil


Rentes de Carvalho, estribado em longa experiência e saber, com este post reforçou as dúvidas que regularmente me atacam, concernentes ao esforço e tempo que gasto com a minha escrita, que a poucos interessa, menos ainda lêem: 
"a "literatura" há muito deixou de ser o que parecia, é um produto como o detergente e, como ele, tem marca, vende-se no supermercado. Infelizmente é produto que não lava, nem eleva."
É um facto — um editor disse-me, creio que já aqui o contei: "Que é que quer, você não dorme com o Pinto da Costa nem trabalha em casa de alterne...". Um facto que me deveria obrigar a repensar a minha dedicaçao à escrita, a orientar os meus esforços noutra direcção, talvez na do lazer.
Porém, acredito eu, o destino não se escolhe, não se altera facilmente. Pelo que só me resta prosseguir afincadamente com actividades que a razão me diz serem inúteis. 
Como o estudo. Que me levou a candidatar-me a um mestrado, motivado sobretudo pelo desejo de voltar à faculdade onde tinha estudado vinte anos antes, em circunstâncias difíceis, que me não permitiram então aprofundar matérias que me seduziam. Que, volta-não-volta, me incita a terminar o doutoramento em Linguistica Computacional.
Como o karaté, que ensinei durante trinta anos sem  ganhar um tostão que fosse, e em que persisto, mau grado os protestos do corpo. 
Como a agricultura, sempre arriscada, sempre trabalhosa, quase sempre ruinosa.
Uma vida laboriosa, preenchida, bem comida, razoavelmente bebida, a que faltará algum tédio, muito fastio, a darem charme a posts choramingas como este.
E volto às actividades inúteis, que não dão pão, nem prestigio. Porque tem de ser, porque não sei viver de outra forma.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Portugal é uma choldra ignóbil

Diz Eça n' Os Maias e nós, pelo menos desde então, repetimo-lo constantemente sob variadas nuances. Lá fora é que é bom, "felizes os que partem" (Cesário Verde), por cá aproveita-se o Sol e pouco mais, estivemos e estamos na cauda da Europa, é certo que Camões nos situa na cabeça, mas dá-se-lhe desconto, era poeta e tão mal a pátria o tratou...
Pois não é que li hoje isto?
"Portugal ocupa o 13.º lugar num ranking dos melhores países para se ser mãe, elaborado pela organização não-governamental Save the Children. A lista de 176 países é feita com base em critérios como as condições de saúde materna, as taxas de mortalidade infantil ou o nível de educação, o salário médio e a participação política das mulheres em cada um destes países."
Pois é. À frente dos EUA e do Reino Unido, ouvi na TV. Afinal, não é só o Sol que se aproveita nesta choldra ignóbil.

Democracia à portuguesa

Convenci-me de que nós, portugueses, temos fraca apetência pela democracia. Preferimos alguém a mandar e nós a protestar. Só assim consigo explicar que nas associações que por aí proliferam, nos jornais de província, nos clubes, nos sindicatos, nas autarquias, se mantenham há quase 40 anos os mesmos rostos, com excepção dos raros que, entretanto se reformaram, a doença incapacitou, ou a morte levou. 
Da parte dos mandantes, o apego ao poleiro -- Só saio corrido, quem comeu a carne que roa os ossos! -- e raramente alguém os afronta, que há sempre muitos interesses e conveniências em jogo. Da parte dos mandados, a cobardia, a preguiça, o comodismo. Que levam os sócios a faltar às reuniões de eleição de corpos gerentes para não correrem o risco de integrar as direcções, sempre numerosas -- por vezes, os sócios já não são suficientes para todos os cargos inúteis existentes.
Ouvem-se então as lamúrias do dirigentes cessantes, que também eles adoram queixar-se: é o desinteresse dos associados, é a incompreensão dos poderes públicos, é a vida familiar tão sacrificada, é "eu acho que devia entrar sangue novo"... Um estrangeiro que estivesse presente e compreendesse o Português pensaria: estão a pedir para sair. Erro crasso, nada percebe da nossa cultura. Aquilo nem desabafos são, é a deixa para os graxas de serviço, sempre presentes, os envaidecerem com elogios. Então, bem contra vontade, com sacrifício pessoal e sobretudo familiar, ei-los prontos a carregar sobre os ombros outro mandato, a bem da coisa pública, a bem da Nação!

Uma vez, numa reunião de karaté, já na fase dos queixumes, o presidente cessante coloca o lugar à disposição. 
-- Mas tu não queres continuar? -- pergunta o presidente da mesa da assembleia geral.
O outro enrola. Que sim, que não, mas os sócios deviam fazer isto e aquilo... 
Nós bocejávamos. Percebiam-se bem as suas duas vontades: que não ocupasse o cargo rival presente, e que lhe suplicássemos a recandidatura.  
O presidente da mesa, sempre palavroso,  empatava com malabarismos verbais. Homenzarrão do Norte, impaciente com a estafada retórica costumeira,  interrompe-o bruscamente: -- Despacha-te com isso, que quero almoçar!
O presidente da mesa, furioso: -- Queres ser presidente?
-- Vai-te foder!
Comprova-se assim que as nossas estruturas democráticas são como os cemitérios da velha anedota: quem está fora não quer entrar e quem está dentro não pode sair... 
E o Tó Zé?, contra-argumentarão  os leitores que tenham conseguido ler o post até aqui.
Pois, afianço-vos, a sua conversa de querer governar é mera variante do dito que exterioriza a bravura nacional:  "Agarrem-me, que eu não sei o que faço!" Agarrem-no, portanto, para que não venha a desgraçar a carreira respondendo a jornalista da televisão  como o meu amigo do Norte.

Sacrifício das famílias

Representante dos pais protesta contra o contexto da realização dos exames do 1 Ciclo por só ter sido possível com "sacrifício das famílias". 
Far-me-ia confusão tal entendimento, a mim que defendo que ser pai, ser família, implica sacrifício pela prole -- assim procedem quase todos os animais. Que qualquer pai, ou mãe, demais a mais presidente de associação, tem o dever de pôr a educação dos seus filhos à cabeça das prioridades -- não se dera o caso de eu ter sido professor 36 anos e ter ainda bem presente que alguns pais são bem ciosos dos seus direitos, reais, imaginados, proclamados, mas recusam obstinadamente qualquer dever, chegando ao ponto de deixar para o Estado o encargo com o pagamento da pensão de alimentos dos filhos, ou faltar-lhes com panela de sopa -- Ah, eles comem na escola, para isso os mando lá, agora até trazem jantar para nós! E é vê-los e vê-las todas manhãs, depois de despejarem os rebentos na escola, a animarem a economia local tomando no café pequeno-almoço saudável e barato, à base de tostas mistas, sumos Compal, bolos e galões...

sábado, 4 de maio de 2013

Coisas do meu tempo: Remington

Em 1972, esta Remington, já bem na meia-idade, acomodada a existência sossegada, rotineira, burocrática, foi emprestada à associação de estudantes do Instituto Comercial de Lisboa. Descontente com os textos que nela escreviam, o director mandou a polícia encerrar a associação mas, antes que a máquina de escrever voltasse para as mãos do inimigo, jovem revolucionário expropriou-a para aparelho técnico clandestino. Passou então, com as teclas a tremerem aflitas, a bater panfletos em stencil, sempre temerosa de que o seu matraquear no silêncio da noite fosse ouvido por vizinho bufo e denunciada à Pide, nesse tempo glorioso em que tipografia clandestina dava direito a dez anos de prisão em Peniche.
Foram sendo presos os revolucionários que, com mais ou menos dedos, batiam os panfletos cheios de chavões, lugares comuns, apelos incendiários à guerra do povo à guerra colonial, vivas ao presidente Mao, morte aos sociais-fascistas. Graças à coragem de muitos deles, alguns dos quais sofreram nas mãos da Pide vicissitudes terríveis, coisa de duas semanas de tortura do sono, afora a estátua, os espancamentos diários, as drogas, apenas caiu nas mãos do inimigo nas vésperas do 25 de Abril, no Pinhal de Leiria, quando um deles foi surpreendido pela guarda republicana na mata em que se acobertava clandestino, a preparar-se já para a vida de guerrilheiro. Com as balas a assobiarem sobre a sua cabeça, viu-se forçado a deixá-la para trás. Mas logo após o 25 de Abril apresentou-se temerário na sede  da Pide em Leiria, a exigir de volta a máquina de escrever, o duplicador, o saco cama...
A velha Remington voltou às suas tarefas, quase a escrever sozinha, que cada tecla conhecia de cor o estilo, o arrazoado panfletário. Mas começara uma guerra suja no interior do partido contra a "linha de direita" e os seus desvios, as expulsões dos melhores multiplicaram-se, ficaram os medíocres, talvez algum teimoso mais bronco. Esquecida pelo partido em minha casa, a máquina conheceu curtas férias enquanto fiz obrigado a tropa.
Depois disso, ainda trabalhou muito. A bater stenceis com testes, a fazer trabalhos da faculdade, que eu voltei aos estudos, a escrever páginas do que viriam a ser, muito mais tarde e completamente transfigurados, os meus contos e romances.
Os computadores condenaram-na, finalmente, à reforma. Coitada, há muito que não escreve, entrevada, desaparafusada, sem fita, com falta de peças, as letras das teclas sumidas, gastas pelo uso. Ei-la, a gozar merecido descanso.

domingo, 28 de abril de 2013

Purga no Facebook

O meu feed de notícias no Facebook está permanentemente atafulhado de lixo, mais parecendo latrina pública que espaço informativo, de troca de ideias, de partilha de interesses. Predomina a sabedoria empacotada, sentenciosa, em versão lite, digest, frequentemente em letras garrafais. Escasseiam pensamentos, mesmo pobrezinhos, mesmo enviesados, mesmo disparatados. Rareiam sentimentos pessoais, originais, inevitavelmente esdrúxulos. As piadas, estafadas, agoniam.
(Eu sei: sou um chato, sensaborão, sem sentido de humor.)
Vou fazer uma purga. Se no genocídio apanhar por tabela pessoa que crê ter algo original para dizer, alguma coisa relevante para partilhar, as minhas desculpas antecipadas. No estado em que o feed está, ou vai ou racha. Assim é que não continua.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sombras

Como o protagonista de O Estrangeiro, Meursault, também eu acredito que todas as vidas se equivalem, pelo menos no instante derradeiro da morte. É minha convicção profunda que deste mundo nada levamos, nem sequer ínfima recordação dos bons momentos. Que a vida é menos do que piscar de pirilampo na noite eterna. Efémero, vago, mortiço. Se alguma coisa lhe pode dar valor enquanto a luz que nos anima se não esvai, são os afectos criados, laços que resistem a ser desatados, lembranças saudosas que serão espoletadas por uma fotografia, um objecto, um lugar, uma brisa, um entardecer.

Passo de tractor pelo adro e revejo o meu bisavó Zabel sentado nas escadas da igreja, mais além, no Outeirinho, o meu avô Catarino, alcunhado Sargento, de bigode branco, boné, agarrado a pau depois que trombose lhe tolheu uma perna, escuto com o prazer de outrora as suas intermináveis histórias de tropa, ouço-o novamente, a cinquenta anos de distância: -- Zé, quando fores grande, hás-de ser aviador!, no banco, simples tábua, por entre sardinheiras, a minha avó Francisca, cega, mantém diálogos vivos a várias vozes com gente já morta, e eu venho mandado buscá-la pela mão  e levá-la até minha casa que é a nossa semana, no caminho passo pelo meu avô Cipriano, de barrete a proteger a careca, a Avó da Luz em luto perpétuo, que de tudo fazia história, aparelha a burra...
Sem que o convoque, chega também o arrependimento pelas vezes em que os tratei mal -- mau génio, revolta por ter de lhes fazer companhia quando queria brincar, correr a coxia, ir aos ninhos, agravada pela rudeza aldeã daqueles tempos em que, muito mais do que hoje, os velhos eram vistos como trastes, estorvo, despesa.

Ah, esta minha memória, que nada esquece, nada me perdoa!

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Por um sestércio


Conta São Mateus que, pregando Jesus no Templo, os publicanos e herodianos, para O porem à prova, Lhe perguntaram se deviam pagar o imposto a César. Jesus, que bem conhecia a sovinice do seu povo, pediu uma das moedinhas com que pagavam o tributo: -- Mostrai-me um sestércio!
Ora aqui é que o cronista omite pormenores relevantes, incapaz de pôr a nu a ancestral avareza judaica. Mas eu, pressentindo que a história deveria estar incompleta, procedi a aturadas pesquisas, recorrendo inclusive a manuscritos apócrifos, alguns deles ainda não publicados, para reconstituir o hiato entre o pedido de Jesus e a sua célebre sentença "Dai a César o que é de César." E, por acréscimo, apurei como ocorreu a expulsão dos vendilhões do Templo...

-- Um sestércio, Mestre? Tu, que abominas o dinheiro, pedes um vil sestércio?
Com aceno de cabeça, Jesus confirmou.
-- Onde vou arranjar agora um sestércio? Olhou em volta. Os outros publicanos fingiam prestar atenção aos vendedores de pombas. Os discípulos de Jesus sorriam trocistas: mais uma vez o Mestre  ganhava as discussões.
Em vão, o publicano escarafunchava nos bolsos da túnica: -- Logo hoje, que vim desprevenido... E para um dos herodianos: -- Ajuda-me, que já riem de nós!
--Também eu estou desprevenido... Nunca trago dinheiro comigo, sempre digo que Jehovah me valerá nas necessidades...
O publicano olha interrogativamente para os outros. Apressam-se a revirar as algibeiras, para mostrar que nada escondem. Um, em jeito de desculpa: -- Acho que tinha um sestércio, mas a minha mulher deve ter-mo apanhado quando lavou a túnica... É sempre o mesmo: dinheiro que ela encontre nos meus bolsos desaparece logo!
-- E tu, dizem a um dos herodianos, que ao demais és também banqueiro?
-- Também nada tenho, irmãos. Sabes bem que nós, banqueiros, somos uns pobres de Deus.
Irritado com os esgares de troça, acrescenta desconfiado: -- E mesmo que tivesse um sestércio, não o punha nas mãos desse Jesus. Havia logo de dizer que pertencia ao Pai e ficava com ele, ou dava-o a pobre, para fazer figura à minha custa!
Jesus, mão estendida, sorria com beatitude, não pela vitória mais do que certa, talvez com pena destes seus irmãos forretas.
O publicano que interrogara Jesus desesperava -- perder a face por um sestércio, um mísero sestércio!
--Vamos pedir ali aos cambistas, emprestar-nos-ão a moedinha.
Os outros olharam-no, duvidosos. -- Que garantias lhes dás, quis saber o herodiano banqueiro.
-- Atrever-se-ão eles a exigi-las, de nós e na casa do Senhor, onde os deixamos exercer a sua actividade?
E para o primeiro deles: -- Irmão, empresta-me um sestércio!
O cambista não era parvo. -- É por via da disputa que tens com o Mestre?
Com aceno de cabeça, o publicano anuiu.
-- Perdoa-me, mas consta que o Mestre dá tudo aos pobres. Quem me devolve depois o meu sestércio?
Foi demais. Os herodianos não se contiveram, empurraram o cambista, berraram -- Todos já daqui para fora, escumalha torpe, que conspurcais a casa de Deus com os vossos negócios vis! E vendo que se não apressavam a desmontar as bancas, um deles ameaçou: -- Ou saís a bem, ou vamo-nos queixar a Pilatos, ao próprio Herodes, que está na cidade!
Fugiram lestos, as bancas debaixo dos braços, mal ouviram o nome de Herodes, que a pedido de Herodíade mandara matar o Baptista e servir a sua cabeça à jovem Salomé em bandeja de prata. Os vendedores de pombas, vendo os colegas cambistas em debandada, tentaram saber a que se devia a fuga precipitada.
-- Herodes..., foi o que ouviram.
--Herodes?, disse um para os outros, como se não tivesse compreendido bem.
E em resposta, ouviu dito que resiste desde então ao desgaste dos séculos:
-- O velho Herodes! Foge, senão ainda te...
-- Colegas, que faremos? Perguntou o publicano que quisera pôr Jesus à prova.
-- Saiamos nós também, de mansinho, enquanto estão distraídos com a fuga dos vendilhões do Templo .
-- E eu, como fico perante o povo?
-- Ora, se algum te perguntar, diz que vais a casa procurar um sestércio.
-- Ou que nós, herodianos, somos tão pobres como Ele.
O banqueiro ainda sugeriu que pedissem a Jesus o milagre dos sestércios, à semelhança do da multiplicação dos pães e dos peixes.
Olharam-no com desprezo: como um homem brilhante nos negócios pode ser tão burro em assuntos comezinhos: -- E onde está o sestércio que Ele há-de multiplicar?
Ainda ouviram o Mestre, que ensinava o povo: -- Dai a César o que é de César e a meu Pai o que lhe pertence!
-- Ora, pois, não vos dizia? Se apanhasse o sestércio, Ele que é o herdeiro do Pai...i

domingo, 21 de abril de 2013

Lembram-se?

Pois eu lembrei-me, ao encontrar este ninho na minha arrecadação. Suponho ser de pardal do telhado, e os ovos ainda não estão a ser chocados.
Os Ninhos

Os passarinhos
Tão engraçados,
Fazem os ninhos
Com mil cuidados.

São p’ra os filhinhos
Que estão p’ra ter
Que os passarinhos
Os vão fazer.

Nos bicos trazem
Coisas pequenas,
E os ninhos fazem
De musgo e penas.

Depois, lá têm
Os seus meninos,
Tão pequeninos
Ao pé da mãe.

Nunca se faça
Mal a um ninho,
À linda graça
De um passarinho!

Que nos lembremos
Sempre também
Do pai que temos,
Da nossa mãe!

(Afonso Lopes Vieira)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Só nos filmes...

... e no restaurante Alto Pina (Alcorochel, Torres Novas): jovens que, enquanto almoçam, vão dedilhando a guitarra portuguesa, a viola, e cantam. Por prazer, e muito bem. Hoje, tendo sabido pela dona que era o aniversário do meu amigo, alegremente lhe cantaram os parabéns, com votos de "muitas amigas também".
Nem todo o país está deprimido. Resiste-se onde e como se pode. Sobretudo na província. E não é difícil: linda tarde de Sol, verdes campos, céu limpo, azul, o chilreio dos passarinhos a festejarem a Primavera que finalmente chegou, boa comida, bom vinho, amizade, simpatia, afabilidade — facilmente nos esquecemos de que há Mundo para além dos muros do parque do restaurante, e nele atentados, crise, troika, cortes salariais iminentes...
Dum vivimus vivamus!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Na pacatez aldeã

O homem não dá um passo a pé? Problema dele.
Não é da minha conta que para fazer uns míseros metros  pegue no carro. Mas já me afecta que embirre com as paredes, como se lá estivessem apenas para lhe lixar a condução e o carro. Sobretudo quando as paredes são minhas e as deixa no estado que a foto mostra.
Enfim, pior seria, pior será se criança ou velhota não conseguir resguardar-se a tempo quando surge ao volante.
Insinuam as más línguas, que infelizmente abundam nas aldeias, que tal condução errática se deve...
Calúnias. Posso afiançar que, neste caso e em muitos análogos que venho presenciando ao longo dos anos, a culpa foi sempre das paredes.
(Espanta-se o Jeroen, que a tudo assistiu da sua varanda: -- E ainda dizem que nas aldeias nunca se passa nada!)

Mistério

Nunca consegui ter tulipas bonitas. Supunha eu que o nosso clima lhes era desfavorável, com muito calor precoce. Eis que vem da Holanda o Jeroen e as suas tulipas resplandecem. Quem sabe sabe, ou ele trouxe consigo um pouco da Batávia?

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Previsão animadora

A da meteorologia. Porque as económicas azedam o humor. Como se as várias entidades competissem entre si para, em cada dia, ver quem faz a previsão mais desanimadora. Cada qual pior do que as outras.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Batatas

Por mais que as queiramos evitar, as notícias da crise financeira e económica, do desemprego, da quebra de
confiança dos consumidores, conseguem encontrar frestas por onde entrar em nossas casas. Parece que este ano nem a agricultura se salva, nem ela nos salva. 
As batatas, por exemplo. Ei-las bonitas, viçosas, promissoras, que não fiz caso das opiniões dos entendidos (também no que a batatas respeita, não faltam) e plantei-as com grande dificuldade em terra encharcada, mal amanhada. Agora ameaça-as a chuva persistente. Sobreviverão elas, se a Primavera não chegar na próxima semana?

terça-feira, 9 de abril de 2013

Contra o cinzento dos dias

Desliguem a televisão, não ouçam as notícias, não se enfureçam com os títulos dos jornais -- os do Correio da Manhã são os mais perigosos para o fígado e sem um bom fígado não se pode beber --, saboreiem o melhor de cada instante, alegrem-se com a beleza que nos rodeia. Os dias, as semanas, os meses, os anos passam inexoravelmente e não voltam mais, nada nem nem ninguém vos devolverá o tempo perdido, e não podemos permitir que governo, oposição e Troika nos roubem nenhum momento de felicidade, por breve ou  insignificante que seja. Esta não é a primeira crise nacional  -- a primeira datará de 1143, não sei bem -- e não será a última. 
É em momentos como este que mais importa seguir os ensinamentos de Ricardo Reis:

Circunda-te de rosas, ama, bebe 
E cala. O mais é nada. 

(Foto: flores da minha glicínia, na falta de rosas, que até o clima conspira contra a primavera.)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

No Canal Caveira

Os diálogos, sobretudo ao telefone, são frequentemente de uma pobreza confrangedora, especialmente visível quando reproduzidos por escrito, sem a mímica, os trejeitos faciais, a entoação, o alongamento de vogais, as onomatopeias adequadas, os beijos repenicados no ar, hum, hum...
Há um ano, ainda era eu professor, registei para a posteridade este diálogo (ou monólogo, ou mero exercício da função fática da linguagem, não sei bem),  ouvido e sofrido na sala de professores, enquanto aguardava que a colega ao telemóvel acabasse de lançar as suas classificações e libertasse o computador para que eu pudesse introduzir as minhas.
-- Onde tás?
-- O quê? No Canal Caveira? No Canal Caveira?
-- Ah, tás no Canal Caveira!
-- ... No Canal Caveira!
-- Muito bem! No Canal Caveira...
-- Sim senhor! No Canal Caveira! Não acredito!
-- Não acredito!
-- No Canal Caveira!
-- No Canal Caveira!
--Tás a brincar!
--Tás a brincar comigo! No Canal Caveira!
--Tu, no Canal Caveira!

Muitos canais caveira depois:

-- Beijinhos, tchau tchau!
-- Hum! Hum! beijinho, beijinho!
-- No Canal Caveira! Não acredito!
-- Não acredito!
-- Tu, no Canal Caveira!
Hum, hum, jinho, jinho grande, grande, hum! hum!!

E eu, já por natureza impaciente, a ver o tempo passar, consegui resistir, contive-me e não lhe disse: -- Acredite, colega, o gajo está no Canal Caveira!