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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Os nossos amigos de Peniche

Tenho a firme convicção de que a Grécia não sairá sozinha do Euro. Mal parecia e não seria sinal suficiente para apaziguar os mercados, como agora se designam os especuladores que emprestam a juros de 100%. Como não acredito que a acompanhem países de Leste, o "espaço vital" da Alemanha pelo menos desde Hitler, adivinhem que país acompanhará os gregos na bancarrota e como eles receberá idêntico convite para sair do euro e da UE.
Se formos os escolhidos, sobreviveremos? Creio que sim. É o que fazemos desde 1143. Se abandonarmos as ilusões. Se não esperarmos mais dos nossos amigos europeus do que dos velhos amigos de Peniche. Para quem se não recorda, aquando da ocupação francesa, aguardava-se ansiosamente a chegada de uma força inglesa que tinha desembarcado em Peniche; mas os nossos amigos de Peniche preferiram pilhar também eles a nossa terra a enfrentar os franceses; e quando mais tarde os derrotaram, não só lhes forneceram transporte e lhes permitiram levar o produto do saque, como lhes garantiram protecção contra a fúria popular.
(Para informação mais rigorosa, ler Ir pró maneta, de Vasco Pulido Valente)

Obama e a crise europeia

Já aqui repetidamente escrevi que nada entendo de finanças, sempre sublinhando que foram os entendidos que nos conduziram ao actual estado de coisas. Só não esperava ouvir Obama culpar a Europa pelo descalabro das economias mundiais, quando os EUA, ao que por cá consta, estão em pior situação e ele, tal e qual o nosso Sócrates, se limita a apresentar aos americanos promessas optimistas. Yes, we can. Palavras, promessas. Nada de sólido, nada de substancial. Político de plástico. Pura gelatina política, como disse de outro Manuel Maria Carrilho.

(Só consigo interpretar a culpabilização da Europa à luz da velha história da mulher que aconselhava a filha: --- Chama-lhes putas! Chama-lhes putas, filha, antes que te chamem a ti!)

Falir sim, mas devagar

Agora que a nova imperatriz europeia conseguiu aquilo que queria e para que tanto trabalhou -- a falência da Grécia -- vê-se atrapalhada com as consequências para os bancos alemães. Atrasará portanto o processo, o tempo suficiente para garantir que o gregos, mesmo depois de falidos, ficarão obrigados ao pagamento dos créditos alemães.
Não sei o que é mais repugnante: se o cinismo de Merkel, se a subserviência dos governantes gregos.

domingo, 11 de setembro de 2011

C'est trop facile

C'est trop facile d'entrer aux églises
De déverser toutes ses saletés
Face au curé qui dans la lumière grise
Ferme les yeux pour mieux nous pardonner

Tais-toi donc Grand Jacques
Que connais-tu du Bon Dieu
Un cantique une image
Tu n'en connais rien de mieux

C'est trop facile quand les guerres sont finies
D'aller gueuler que c'était la dernière
Ami bourgeois vous me faites envie
Vous ne voyez donc point vos cimetières

Tais-toi donc Grand Jacque
Et laisse-les donc crier
Laisse-les pleurer de joie
Toi qui ne fus même pas soldat

C'est trop facile quand un amour se meurt
Qu'il craque en deux parce qu'on l'a trop plié
D'aller pleurer comme les hommes pleurent
Comme si l'amour durait l'éternité

Tais-toi donc Grand Jacques
Que connais-tu de l'amour
Des yeux bleus des cheveux fous
Tu n'en connais rien du tout

Et dis-toi donc Grand Jacques {2x}
Dis-le-toi bien souvent
C'est trop facile

De faire semblant.
(É muito fácil
É muito fácil
fingir...)

sábado, 10 de setembro de 2011

Jornalismo calhandreiro

Como comadres intriguistas, aproveitam todas as oportunidades para atiçar as animosidades, incendiar os ânimos: Ricardo Carvalho contra Paulo Bento, este contra Mourinho, Seguro contra Assis, Passos Coelho contra Gaspar, Gaspar contra Catroga, PSD contra CDS, PS contra PSD... 
Diz-se que disse. Descontextualizam as afirmações, deturpam as frases, extraem à martelada conclusões, torcendo os verbos  a seu bel talante: "espero que" será notíciado como "ministro declara" ou "ministro promete". Investigar, estudar, informar com objectividade? Para quê, se dá trabalho e não vende? 
O interesse nacional, a necessidade de nos unimos em torno de princípios, de respeitarmos acordos, de silenciarmos aquilo que não deve ser público porque é do foro privado, ou releva de opiniões irrelevantes, ou dos disparates que todos dizemos, sobretudo quando a cabeça nos ferve ou o cansaço nos aturde?
Nada disso. Quanto pior melhor.
Incendiários, digo eu.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Check-up

-- Diga lá então de que é que se queixa.
-- Doutor, estou bem de saúde, não me queixo de nada.
O médico levanta os olhos e encara o "paciente" pela primeira vez. Impaciente, que a sala de espera do Centro de Saúde está cheia.
-- É que fumo que nem um cavalo...
-- Ah, quer que o ajude a deixar de fumar...
-- Não, doutor. É que também bebo como uma esponja...
-- Quer então deixar de beber e de fumar...
-- Não, doutor. Quero que me passe uns exames para saber se posso continuar a beber e a fumar.

Terão lido?

Segundo o Jornal da Madeira, 
Ora Jerusalém é, como toda a gente sabe, de Gonçalo M. Tavares. O romance de Mia Couto, também ele excelente, intitula-se Jesusalém.
Acrescenta o referido jornal que
O júri premiu o livro de Mia Couto pela originalidade da intriga e pela «linguagem dúctil e permeável»,...
Descontando a gralha "premiu", no caso irrelevante, que diabo é isso da «linguagem dúctil e permeável»? Algo que dispensa a leitura da obra premiada? Tão boa, insisto, que não faltam razões para lhe atribuir prémios, não sendo necessário inventá-las.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Carrossel

...e lamentava novamente todos os momentos desperdiçados por não ter reparado que os dias desfilavam velozmente como os cavalinhos do carrossel da feira, sempre correndo, ora subindo, ora descendo, — Mais uma volta! 'Tá a andar! Entravam crianças, saíam adultos, aqueles que de fora olhavam viam apenas rostos e corpos que rodavam, bem agarrados ao cavalo de pau ou rodopiando em banco rotativo, e na vertigem que as voltas causavam, não sabiam já se os velhos que de lá saíam, — O quê, já acabou? Passou tão depressa!, não seriam as crianças que tinham visto pouco antes a entrar...
Entre Cós e Alpedriz
Pois é, vai começar o meu 36º ano lectivo, 38º de descontos, uma vez que comecei a trabalhar em 1973.Sem queixumes, mas já sem o entusiasmo de antigamente, graças à Milu e aos que se lhe seguiram.
FOTO: Estrasburgo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

C'est le pinard qui sauvera la France

Mas receio que não salve a Grécia: nem todo o seu vinho chegará para embebedar o ciclope alemão, vazar-lhe o único olho e devolver a liberdade ao povo grego, a quem muita falta faz um astucioso Ulisses, condutor de homens. Só me ocorre sugerir aos helénicos que bebam e rebebam, para esquecerem não a vergonha de beber, mas a impossibilidade de pagarem juros de 100%.

Está tudo grosso?

Perguntava há tempos João Jardim num congresso do PSD. Bom, se estivesse ainda hoje tudo (i.e., toda a gente) grosso(a), seria menos mau: ninguém veria as contas da Madeira e, sobretudo, esta notícia passaria despercebida:

Juros gregos a 1 ano perto de 100%


Pois não é que passou? Vi o telejornal do Canal 2 e não ouvi qualquer referência. Não fora eu ambientalista, logo amigo de poupar água, e deixaria de beber do meu vinho à refeição.

sábado, 3 de setembro de 2011

Cortes e impostos

Com o país cortado a mais não poder ser e ajoujado ao peso dos impostos, sugiro a esse ministro que parece saído de péssima rábula dos Gato Fedorento um corte que muito urge e mais tarda: corte as suas próprias intervenções. Ou, o que será pior medida porque teremos não apenas de o sofrer, mas ainda de o continuar a ouvir, que se auto-aplique pesado imposto de cada vez que abrir a boca em público. Imposto que pode ser extensível aos comentadores televisivos, que já nem sei qual é o pior mal, se aquele que sofro na carteira, se o dos ouvidos...

Campo Maior, cidade das flores

Nuvens negras, aguaceiros, os estragos do temporal da véspera neste estranho verão alentejano, nada faz desanimar o povo. Nem as noites gastas a abrir as flores de papel que a chuva fechou, nem as madrugadas a substituir as desbotadas por outras reservadas para desastres como este, nem a lida debaixo de guarda-chuva a resguardar com plástico arcos e colunas. Bem-dispostas e bem-dispostos como se tivessem dormido boas noites, orgulhosos da façanha da vila, que não é pouca coisa dar tecto às ruas com milhares de milhares de flores de papel, agradados com o número inesperado de visitantes, acolhem-nos com cordialidade em vias de extinção noutras partes. E, vendo-nos desconfortavelmente abrigados de chuvada que tinge as ruas com as cores que antes eram das flores, trazem-nos cadeiras de plástico e com a humildade de quem faz coisas grandes sem de tal se aperceber, contam sem amargura nem arrependimento o que têm batalhado para que o mau tempo não destrua a decoração da cidade e frustre as expectativas dos visitantes.
Que diferença, este povo que se não lamenta nem desiste, nem pergunta se é em vão que labuta na preservação da beleza artificial que a natureza inveja, abomina e destrói, e o país que as notícias matinais me revelam, dirigido por políticos como Vítor Gaspar, que a televisão pública, na sua atávica sabujice, passa durante tempo interminável a exemplificar as melhores técnicas soporíferas em aula na Universidade de Verão do PSD. Aula tão boa, tão boa, que os contribuintes, cada vez mais sobrecarrados com cortes e impostos,  têm também de gramar. Porque uma desgraça nunca vem só.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Setembro (reposição)

"Eis Setembro, que chega fresco e risonho como a Primavera, após outro Agosto infernal, de calor e de incêndios. Não nos iludamos: nada voltará a ser como dantes. Setembro jamais será Abril, mesmo que este Sol e esta luz nos queiram convencer de que a Primavera dura todo o ano e a juventude é eterna, mesmo que a cidade pareça a mesma, com o castelo indiferente à passagem dos séculos e o Lis correndo sempre ao encontro do irmão gémeo, para juntos procurarem o mar, sonho de todos os rios." Ler mais

Assim começa Do lacrau e da sua picada

(Imagem do pintor João Alfaro)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sombras de varas tortas

Assombra-me (e inspira-me, confesso-o) a sinceridade com que certas mulheres mentem na blogosfera. Mor espanto me fazem quando mentem dizendo verdades. Artistas, há que reconhecê-lo. 
Não se trata já de vida dupla, a virtual a ofuscar a real, matéria sobre a qual escrevi recentemente um conto, ainda inédito. É algo muito mais interessante, como se fosse a pessoa a perseguir a sua própria sombra, corrigindo-a, afinando-a pelo diapasão da moda blogosférica. 
Trabalho fascinante, insano embora, este de endireitar a sombra da vara torta. Será objecto de conto logo que tenha tempo para o escrever.

domingo, 28 de agosto de 2011

Comércio tradicional

Alguém me conta: -- Vou montar um negócio.
E eu, conservador, faço aquelas perguntas cautelosas: ramo, localização, clientela, previsões de crescimento, de sobrevivência até...
-- Ora, dá para os outros, também há-de dar para mim.
Num país em que os empresários têm em média o 6º ano, que mais se pode esperar?
A ilusão durará uns meses. Depois ficarão os credores a arder e os concorrentes solidamente estabelecidos mais próximos da falência, destruídos em guerras de preços nesta concorrência desleal.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A descida da ladeira

Insisti com a minha filha mais nova, então na adolescência, como insistia com os meus alunos, para que lesse literatura. Dei-lhe A Morgadinha dos Canaviais, obra que me havia encantado na minha própria adolescência.
E no fim-de-semana seguinte, estranhando a ausência de comentários: -- Que tal o romance?
-- Não li e não vou ler.
Fiquei siderado.
-- Porquê?
-- Porque já li 8 páginas e ainda vêm a descer a ladeira!
(Lembras-te, Sofia?)
ADENDA: A Sofia lembra-se  e corrige-me: não foi As Pupilas do Senhor Reitor, como inicialmente escrevi, mas a Morgadinha. Não desciam, mas subiam. Há muito que não releio Júlio Dinis. Aqui vai o início do romance:
Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
Uma grande merda, reconheço-o hoje.  Aprende-se muito com os filhos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Tempo bem aproveitado

No seu blogue, o pintor e amigo João Alfaro faz um inventário algo amargurado ("Mas não sou capaz. Sou vencido pela preguiça, pela incapacidade de criar...") do seu trabalho no último ano, o primeiro da sua reforma. João, quem como tu aproveitou um ano de reforma para fazer tudo isto pode orgulhar-se do aproveitamento do tempo. Um abraço e desculpa roubar-te a imagem.

Da agiotagem intolerável

Sempre que aqui escrevo sobre economia e finanças começo por deixar bem claro que nada percebo do assunto, salientando, no entanto, que foram os entendidos que nos conduziram à presente situação de pré-falência e à perda de independência nacional, talvez mais acentuada do que durante o domínio filipino. E dana-me ver que não apenas a situação actual é insustentável, como nada se faz para romper com ela: a Grécia paga (pagará?) juros de 46% em empréstimos a dois anos. Isto é agiotagem no pior sentido da palavra, e a Grécia devia simplesmente declarar insolvência, tramando os banqueiros que a chulam. Porque quem rouba a ladrão...
Dir-me-ão: nós não somos a Grécia. Pois não. Ainda há pouco Obama também dizia que os EUA não eram a Grécia, não eram Portugal. E viu-se no que deu, com a descida quase imediata do rating dos EUA.
Estamos todos no mesmo barco, à mercê dos mesmos piratas, caminharemos na prancha uns após outros, isto se não os enfrentarmos com as armas da sacanagem, essas com que nos querem esfolar vivos.
Que armas temos ao nosso dispor? O medo. Devemos substituir o medo de que não nos continuem a emprestar pelo receio dos credores de não receberem os juros a que se julgam com direito e, eventualmente, o capital já investido. Que não haja pruridos de consciência: trata-se de dinheiro roubado, que agiotagem é crime. E os agiotas têm os sentimentos na carteira.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Oiros

As festas do Minho e os anúncios omnipresentes "compra-se ouro, máxima descrição" provam a quem dúvidas tiver que o oiro, ou ouro, voltou a estar na moda. E eu lembrei-me de já ter antes escrito sobre o nobre metal. Foi Entre Cós e Alpedriz:
Atrai as atenções uma mota com side car, ribombando como os foguetes que regularmente atroam os ares, estremecendo vidros e obrigando a semicerrar as pálpebras enquanto se aguarda o próximo estrondo, já anunciado pelo sibilar na subida aos céus. Prontamente todos a rodeiam, admirando-a — Ah, como gostariam os rapazes de poder ter um dia uma BMW reluzente como aquela! Também as mulheres se aproximam, mas não é a máquina que as seduz, é o conteúdo que o dono e a mulher retiram do barco com rodas e expõem: brincos, pulseiras, anéis, fios, tudo pregado a tabuinhas que fazem as vezes de expositores, reluzem em tons de oiro e de prata. Conversam com o casal de vendedores, relembrando a jóia que o marido lhes comprou há anos, quando a vida corria melhor, inteirando-se da valorização de então para cá:
— Quanto é que vossemecê me dava agora por esta pulseira? E alardeiam orgulhosas a mais-valia conseguida com o investimento ou dizem à vizinha que sim, aqueles fios são lindos, mas não se comparam com o que herdaram da avó, entretanto enriquecido e adornado com uma libra de oiro. Os ourives confirmam sorridentes, certos de que a melhor publicidade vem das clientes satisfeitas, assim nem é difícil convencer o povo de que oiro e prata são dos poucos bens duradoiros neste mundo, valorizando sempre, pelo que vale a pena o sacrifício, gozarão elas a beleza das jóias, fruirão os herdeiros do seu valor, sempre crescente.
Mulheres com outro poder de compra chegam-se, tomam nas mãos os artigos, sopesam-nos, criticam a qualidade para ouvirem da boca dos negociantes juras de honestidade e quilates de garantia; deixar-se-ão convencer e procurarão os respectivos homens...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A verdade e o azeite

Sempre me fez espécie ver tantos  a viverem à grande e à francesa, apesar de, em muitos casos, terem salários bem inferiores ao meu. Como é possível, interrogava-me sem os invejar, férias no estrangeiro volta-não-volta, jipes, carros e carrões, vivendas luxuosas, roupa da moda e de marca para os filhos, a que não faltam também os telemóveis topo de gama... E eu a vê-los prosperar, culpando o meu estômago por não passar da cepa torta, já que as estroinices são pagas com extras que, em anos bons, vou ganhando, tudo declarado às finanças. 
Bem me telefonavam dos bancos, bem me enviavam SMS a oferecer milhares de euros postos na conta sem precisar de fazer nada. Em vão. Agora bancos e devedores queixam-se. O pior é que, tal como com o BPN, sobrará para mim. 

E ele a dar-lhe...

Eduardo Pitta continua a sua cruzada em prol da avaliação de professores. E eu tinha resolvido não voltar a falar da dita cuja, mas os seus posts tiram-me da preguiça. Meu caro Eduardo (posso?), o problema para mim não é, e nunca foi, a avaliação. Desde miúdo que adoro exames e avaliações. Quando era mais ingénuo, também eu defendi uma avaliação que, se não excluísse do ensino doidos varridos, baldas, ignorantes e convencidos, pelo menos não lhes permitisse progredir por igual na carreira. O problema é que, com as avaliações que foram sendo implementadas, me convenci de que estes seriam os excelentes e os muito bons, mestres nas evidências e na arte de encontrar buraco onde progridem, sem alunos e não raro sem trabalho. Ou seja, a desenvolverem as tarefas que o actual sistema de ensino sobrevaloriza, em vez do trabalho reles de dar a cara perante turmas de 28 alunos, uns 56 pais e uns tantos avós, frequentemente descontentes com as notas do professor, que não dá vinte a cada um dos pupilos. 
É só isto. Proponha o Eduardo um avaliação decente, com assistência às aulas, análise de currículos,  provas públicas, assiduidade, cumprimento do dever, etc., e cá estarei a apoiá-lo. Avaliações à la Maria de Lurdes, não, muito obrigado.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A chaminé ainda fuma

Estávamos em 1973 e eu era servente de pedreiro em Leiria. Naquele momento estava a dar serventia a dois estucadores, um velho, pelos meus padrões da época, outro um jovem da Prisão-Escola, que por bom comportamento estava autorizado a trabalhar fora. Tudo corria bem até que entrou o encarregado. O jovem presidiário, como se tivesse o diabo no corpo, deu em atirar loucamente massa para o tecto, alisá-la velozmente, máquina de estucar de 20 anos a querer impressionar o encarregado. O "velho" continuou no seu ritmo, sempre certo, calmo. E o encarregado, que fora carpinteiro antes de passar a costa direita:
-- Ó F, está a ver como é que se faz? -- apontando o bom exemplo, encarcerado por assalto violento à mão armada a casal de octogenários.
O estucador zangou-se. O que contava era o trabalho feito no final do dia, quantidade, mas sobretudo  qualidade. O encarregado enfureceu-se, a conversa subiu de tom, ambos exaltados, enquanto o jovem presidiário, com a força da idade, estucava como se com ele nada fosse.
E o mais velho: -- O quê? Então é isso? A chaminé ainda fuma e a despensa tem batatas. 
Arrumou a trouxa e foi-se embora, naquele tempo em que não havia subsídio de desemprego.

Viagens gastronómicas

Almoço no Alto Pina, Alcorochel, Torres Novas. Queijo fresco, pão  caseiro, jaquinzinhos com arroz de tomate, costeletas de borrego grelhadas, tinto da casa, melão, cafés. Infelizmente não havia os pastéis de nata do costume. A simpatia da dona, tudo muito bom, 20 euros, duas pessoas. Vale a pena.

Metam-no no cu

É a resposta a todos aqueles que atiram à cara dos outros com "o dinheiro dos meus impostos". Da primeira vez que ouvi a frase, há um ano, passavam jactos sobre a praia e um miúdo pergunta:
-- Pai, são F16?
E o progenitor, sábio e pedagógico:
-- Lá andam esses cabrões a queimar "o dinheiro dos meus impostos!"
Depois foi o finlandês que interpelou Passos Coelho num restaurante da Madeira durante a campanha eleitoral: -- Espero que não esteja a pagar com "o dinheiro dos meus impostos!"
Ontem, os manifestantes anti-papa em Madrid: -- Não com o "dinheiro dos meus impostos!"
Sugiro que comecem a trazer na lapela a declaração de IRS, o IMI, os descontos para a Segurança Social, para que eu não fique a pensar que são eles que vivem dos impostos e das contribuições dos outros. Que eu pago escrupulosamente, até porque não tenho como fugir. E não me queixo, apesar de saber que parte deles e delas vai para subsidiar malandros e para pagar reformas que eu nunca terei, muitas vezes para gente mais nova do que eu, que já tenho 38 anos de descontos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Os Maias

Excelente post de Pedro Correia: o Eça de Os Maias (e, acrescento eu, o do Crime do Padre Amaro e dos Contos) é um prazer inesgotável. E pensar na guerra que me espera a tentar convencer os miúdos do 11º ano: ao menos, olhem para o romance em vez de se contentarem com a leitura das sebentas que resumem as histórias e as dissecam no pior estruturalismo -- ou, pior ainda, ficarem pela versão telenovelesca.

Hodie uinum bibo

Contava eu um jantar na tasca da Tia Maria*: queijo curado, sopa de feijão, pão muito bom, alheira e morcela grelhadas, tinto a cair na necessidade, umas costeletas de borrego também elas grelhadas a compor... Logo um conhecido, desses que se privam de viver em nome de (um certo conceito de) vida saudável)  se chega irónico, a tentar fazer-me azia: -- Só colesterol!
Não fumo porque não gosto, faço exercício porque gosto, como bem e bebo sem me embebedar, não estou nesta vida para me mortificar mais do que o necessário, pelo que essas conversas de colesterol, índice de massa corporal, adoçante em vez de açúcar, nada de álcool, alimentação hipo-calórica, etc., nunca me convenceram. E estudos como este, se não me tranquilizam, que a Velha da foice não se esquecerá de mim, permitem-me continuar a saborear a comida sem remorsos nem má consciência. Porque, como alguém gravou numa taça há milhares de anos em língua pré-latina, hodie uinum bibo, cras minime.

*A tasca fica no Livramento, Porto de Mós, do lado direito quando se sobe. Vale a pena.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A meados de Agosto

A meados de Agosto o tempo muda e o calor do Verão dá lugar, por dois ou três dias, à fresquidão outonal. Começa a morrinhar ao cair da noite, e essa chuvinha molha-tolos, como uma cortina de água suspensa entre céu e terra, cola-se às pessoas, às árvores e às casas, tomba depois já reunida em grossas gotas, enlameia o pó dos caminhos, some na terra sequiosa.

sábado, 13 de agosto de 2011

Escrever e ser lido

Escrevo neste blogue consciente da quase inutilidade do acto -- e não me levo tão a sério que esperasse ou desejasse que fosse diferente. Não quero influenciar ninguém, embora tenha a veleidade de aventar ideias, frequentemente em bruto, dispensando-me de argumentação que as possa tornar mais aceitáveis. E surpreendo-me por vezes, seja ao consultar a estatística, seja ao ver um dos meus posts recomendado para leitura e num dos meus blogues favoritos, o Delito de Opinião. Ao Pedro Correia, mais uma vez, o meu muito obrigado.

Se fosse em Lisboa?

Aquando dos motins de Londres, os jornalistas ingleses revelaram coragem e civismo ao confrontarem os gatunos com os seus próprios actos, com perguntas do tipo "Acha correcto o que está a fazer?" 
E eles desculpavam-se com insinuações de racismo: "É por ser um jovem negro, desculpem ser um jovem negro", ou armando-se em novos robins dos bosques: "Estou a recuperar o dinheiro dos meus impostos".
Se tivesse sido em Lisboa, qual teria sido a atitude dos nossos repórteres televisivos, alguns dos quais se comportam como incendiários sociais, mais preocupados em amplificar os conflitos do que em relatá-los com objectividade?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Bom Londres é Portugal

Os motins de Londres revelam algo que o discurso politicamente correcto tentou fazer esquecer como coisa do passado, irrepetível no presente: a barbárie ameaça constantemente a civilização e ai desta última se não se souber defender com a violência necessária e suficiente, fazendo orelhas moucas ao canto dessas sereias para quem bater é um acto cívico, se o espancado for um polícia, ou uma violação dos direitos humanos se o agredido for um meliante que pilha e incendeia. À la guerre comme à la guerre, n'est-ce pas?
(Título: pilhado a Fernão Lopes, que, como ninguém, nos mostra o que a turba é capaz de fazer e os motivos que inventa para se justificar -- a morte do Bispo e daqueles que com ele jantavam, a tentativa de assalto à judiaria...)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Coisas que traz o Verão

A uns, evasão; a quase todos, transpiração; à Ivone, inspiração. Muito bom este poema. Parabéns.

domingo, 7 de agosto de 2011

Herdanças e heranças

Uma velhota esteve nove anos morta em casa. Durante esse tempo, não teve herdeiros, suponho. Ninguém a visitou, ninguém lhe telefonou, ninguém estranhou a sua ausência o suficiente para meter dentro a porta da casa e saber o que lhe teria acontecido. Culpa do Estado.
Ah, a velhota tinha bens. Pois os herdeiros apareceram e até "pensam" (a notícia sugere que quem pensa é a advogada) processar o Estado:

Herdeiros não sabem dos bens da idosa que esteve morta nove anos dentro de casa

Os herdeiros da idosa que esteve morta durante nove anos em casa, em Rio de Mouro, continuam sem conseguir apurar onde se encontram os bens que estavam na casa antes da venda do imóvel em hasta pública.

Silly season

(1) Em certos empregos, um mês de trabalho dá direito a férias:
...[Passos Coelho] vai estar uns dias com a mulher e as filhas "para recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai", notando que "vai ser um período mais curto do que seria a nossa vontade, mas será o possível dentro das actuais circunstâncias".
(2) O que quer o homem dizer com "recuperar tempo do [seu] papel enquanto marido e pai"? Que governar é tempo perdido? Que "marido e pai" é um papel (representado, suponho)? Que o tempo perdido pode ser recuperado?
Desisto. Ou serei eu a precisar de ir não sei para onde recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai. Apenas sugiro que da próxima se desenfie uns dias sem dar cavaco a ninguém e, sobretudo, ao dito cujo. Ah, e não precisa de nos querer mostrar que é marido dedicado e pai extremoso. Já foi eleito.


sábado, 6 de agosto de 2011

A riqueza virtual

Bombardeado diariamente com imbecilidades noticiosas, vejo-me obrigado a, mais uma vez, meter a foice em seara alheia, falando da área económico-financeira, de que nada entendo, como a minha própria situação evidencia. Em defesa da minha pretensão, um argumento que julgo supremo: foram os entendidos, os génios das finanças, que conduziram o Mundo ao ponto em que se encontra. Portanto não saberão muito mais do que eu... Aqui vai.
Poucos animais se preocuparão com riquezas. Uma das excepções será o cão, pervertido por longo convívio com o homem. O meu, por exemplo, se acaso tem abundância de ossos, enterra o excedente; mas como esquece onde enterrou o seu tesouro, escava todo o jardim em busca da sua riqueza perdida...
O ser humano, complicado por natureza, tem desde há muito procurado algo que o superiorize em relação aos seus semelhantes: conchas, contas de vidro, quinquilharia, gado, artefactos em metais até há pouco perfeitamente inúteis, como ouro e prata. A riqueza resultava, não raro, da acumulação de objectos sem finalidade utilitária, frequentemente em associação com a arte. Havia, claro, riquezas sólidas, como a terra, casas, meios de produção, mas pelo reduzido peso que têm na economia actual, esqueço-as neste post.
Hoje, o que há é, antes de mais, especulação. Suponhamos que um pintor impressionista vendeu um quadro. Essa venda incluía materiais, mão-de-obra, talento artístico, criatividade, etc. De onde veio o valor actual, milhares ou mesmo milhões de vezes superior ao da primeira venda, se nenhum valor foi acrescentado à pintura original? A resposta é: especulação. Uma empresa colocou no mercado acções, as quais  valorizaram astronomicamente relativamente ao preço de venda inicial? Especulação. Uma moradia foi vendida e revendida em curto espaço de tempo sempre com grandes valorizações: especulação. E para a especulação poder funcionar é necessário emitir cada vez mais papel-moeda, já esquecida a correspondência que em tempos houve entre as notas e riquezas mais consistentes, como o ouro. De modo que chegámos a um momento da história em que a riqueza é antes de mais especulação, com fraca ou nenhuma relação com a actividade produtiva. Assim, quando uma empresa reduz a produção, despede pessoal, as suas acções sobem e, inversamente, quando anuncia lucros e aumentos de produção, caem. Absurdo? Sem dúvida. Por isso abundam as notícias como esta:
As bolsas mundiais já perderam mais de 3,1 biliões de euros desde que a crise da dívida soberana na zona euro se instensificou, desde o princípio da semana passada, de acordo com a contabilização feita pela agência Bloomberg.
Aparentemente, não há qualquer relação entre a produção de riqueza não especulativa e a queda bolsista. Se assim for, as quebras ocorrem sobretudo na área especulativa, afectando o valor virtual e não tanto o valor real das empresas cotadas, seguramente bem inferior.
Será já no próximo ano que se lembram de mim para o Nobel da Economia?
ADENDA: veja-se também esta notícia:
Homem mais rico do mundo perde 8 mil milhões de dólares em quatro dias

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Reforma ao Sol

Se não chover. Vejo que o ministro Álvaro não consegue escapar à tentação de encontrar uma solução salvadora para a pátria, à imagem e semelhança dos seus antecessores. Tivemos Soares, que descobriu o milagre da adesão à CEE, Cavaco com a receita do bom aluno europeu, o seu ministro das Obras Públicas a cobrir de betão o país, Guterres e as Tecnologias da Informação (que em 2010 colocariam a Europa -- e Portugal -- à frente dos Estados Unidos), Sócrates e os magalhães...
Faltava-nos esta, fazer de Portugal o asilo da Europa. Senhor ministro, a trazer gente dos países nórdicos e do Reino Unido, não prefere as gajas boas que por lá abundam? É que velhos, a começar por mim, somos de mais e já nos falta a genica para cuidar deste jardim à beira-mar plantado, quanto mais dos velhotes e velhotas que quer importar. 
Senhor ministro, dois conselhos: aprenda a calar-se e esqueça a pretensão de salvar a pátria. A não ser que a queira salvar das idiotices com que cada governante nos afunda mais um pouco.

domingo, 31 de julho de 2011

Citação

O mal que atinge um membro corta-se ou tolera-se;  quando atinge um organismo inteiro, o homem sabe que é então uma questão de vida ou de morte, ataca e defende-se. Mas uma criatura que perece por imprevidência, fraqueza, logro, não é o Homem -- e o povo sabe-o.

Agustina Bessa Luís, A Sibila

Povo manso

Tenho tanta dificuldade em compreender a projecção mediática que os noruegueses dão ao seu mais recente serial killer como a sua reacção mansa às chacinas que perpetrou. É que ainda não ouvi ninguém, dos dirigentes políticos e policiais aos homens e mulheres entrevistados na rua, a exigir apuramento das responsabilidades e castigo exemplar do assassino, a quem dão livre acesso aos media para livremente expor os seus dislates como se tivesse acabado de ganhar as eleições. Parecem um pacato rebanho de tímidas ovelhinhas conformadas a balir lugares-comuns politicamente correctos. Muito cristão, sem dúvida. Mas que ninguém se espante se o exemplo frutificar.

sábado, 30 de julho de 2011

Regresso

Sete meses depois, dos quais quase quatro internada em hospitais, a maior parte do tempo nos cuidados intensivos e intermédios, por três vezes à beira da morte, eis a minha mãe de volta. Hoje em minha casa, numa festinha de alegria pelo seu regresso do mundo das sombras.


Islamitas e islamistas

Incomodado com a constante referência do Público a "islamistas", fui conferir ao dicionário da Porto Editora. Como previa, só conhece "islamitas":
 adjectivo e substantivo 2 géneros
que ou pessoa que segue o islamismo;


(De islame+-ita)
Não haverá dicionários lá pelo jornal?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Jion

A minha tokui-gata (kata favorita). Gostei desta interpretação (Didier Lupo) e das respectivas aplicações (bunkai):

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Atadores e atacadores

Ainda os sapatos (não, não fui aos saldos). Ouve-se frequentemente dizer: vou atar os sapatos. E eu interrogo-me: um ao outro? Ou será apertar aqueles cordões chamados atacadores? Será que uma das acepções do verbo atacar (vou atacar os sapatos) está em vias de extinção? Que vamos passar a ter atadores em vez de atacadores?

Coisas difíceis

Comprar um par de sapatos (um sozinho não serve para nada). E devia ser fácil: 39, castanhos ou pretos, de atacar, confortáveis, discretos e a prometerem durar. A vendedora, já impaciente com a esquisitice, tenta impingir-me uns.
-- Pois, mas os atacadores fazem parte dos sapatos e quando se partirem fico descalço.
Olha-me assarapantada com tanta ignorância: -- Mas são uns sapatos de vela!
-- Minha senhora, não os levava nem que tivessem motor-fora-de-bordo!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Rua Garré, Madri e outras que tais

Irrita-me a moda -- sinal de velhice, isto de me irritar a moda -- de não pronunciar as consoantes em que terminam certas palavras, geralmente nomes próprios que têm, ou aparentam ter, origem estrangeira. Por exemplo, João Baptista da Silva Leitão, que considerou nome e apelidos impróprios para poeta e escritor (-- Já leste as Folhas Caídas? Sim, do Silva Leitão!) acrescentou-lhe Almeida Garrett. Com dois tês, para, dizia ele, lerem pelo menos um. Pois hoje basta uma reportagem sobre a rua que tem o seu nome para termos úlcera de estômago, à força de ouvir referir a Rua Garré.
Outras vezes são as notícias de Madri, o final botado fora -- mas, estranhamente, nunca ouvi Párri, mas sempre Paris... 
Eu, por mim, sem medo de que me julguem ignorante, persisto em pronunciar à portuguesa os nomes próprios estrangeiros, na linha do que defendia o nosso primeiro gramático, Fernão de Oliveira, a propósito dos estrangeirismos:  nós cá trataremos de os amansar.

domingo, 17 de julho de 2011

Leituras

Leio sobretudo  por duas razões: por prazer e para aprender. Sem isto, bem pode um autor  receber encarecidos encómios dos críticos -- e como eu confio neles, no seu bom gosto e, sobretudo, na isenção! -- , pode até ir posar nu para a auto-estrada, que eu, na melhor das hipóteses, folhearei a sua obra-prima, lendo-a em diagonal, apenas  para ter a certeza de que estou a ser meramente preconceituoso e não estupidamente preconceituoso.
De momento, estou a ler The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture of Reality [Kindle Edition]. Interessa-me muito mais o Espaço e o Tempo do que, por exemplo, as desventuras de um quarentão que quer ser pai. Enfim, há gostos para tudo e longe de mim pretender insinuar que querer compreender o Universo, o Espaço e o Tempo seja mais interessante do que uma paternidade serôdia.

sábado, 16 de julho de 2011

Alves dos Reis

Génio das finanças português. Atribui-se-lhe a pergunta: "Que é roubar um banco ao pé de fundar um banco?" Na sua genialidade decidiu produzir notas falsas exactamente iguais às autênticas. Com sucesso. Apenas -- um desses azares, comparáveis às "notações" da Moody's -- um caixa de um banco ficou perplexo ao encontrar duas notas iguaizinhas, com a mesma matrícula. Por culpa deste picuinhas, Alves dos Reis teve um fim triste, indigno do seu talento para as finanças.

ADENDA: o meu amigo Acácio duvida de que a trafulhice de Alves dos Reis tenha sido descoberta graças ao episódio das notas iguais. É muito provável que eu esteja enganado: reproduzi a anedota que ouvi em miúdo. Descoberto dessa ou de  outra forma, Alves dos Reis teve um fim de vida sofrido e, o ponto que me interessa, foi seguramente um génio incompreendido das finanças, antecipando em quase um século a política financeira dos Estados Unidos: emitir dólares sem cuidar da correspondência entre o papel e o respectivo valor em ouro ou em qualquer outra riqueza.
Já agora, Acácio: não terás na tua colecção uma das notas de Alves dos Reis?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Regresso

De dez dias de férias em Lagos. Reencontro com estatísticas, relatórios, mail atrasado e, em breve, a 2ª fase dos exames. Felizmente (para mim, que já não estou na praia), o tempo refrescou. Ah, e há também umas notícias com piada: o Obama a comparar os EUA com Portugal, dizendo de nós o que os nossos governantes ainda há dias diziam da Grécia: nós não somos...
Decididamente, o capitalismo atingiu o estádio supremo da estupidez. Ao ponto de o presidente americano não conseguir perceber que emitir dólares não é produzir riqueza. Nas últimas décadas, os génios das finanças não fizeram mais nem melhor do que Alves dos Reis ou a D. Branca. Conseguem entender?
Yes, we can.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Nascido a 4 de Julho

O Miguel, que hoje fez três anos. Como diz o povo, são eles que nos fazem (sentir) velhos, tão depressa crescem.
Olho negro, nariz negro, grita IÁ, respondem os irmãos IÁ, influências do Panda Kung Fu. Talvez mais tarde se venham a interessar pelo karaté.

domingo, 3 de julho de 2011

Ufa!

Terminei há instantes pesada tarefa que por esta altura todos os anos me espera. Até que se fartem de mim e chamem gente mais jovem. Enfim, conteúdo funcional, nada a acrescentar. Salvo que me dói a mão e até tenho calo no dedo anelar direito de tantas vezes escrever o meu nome. Quase oitenta vezes seguidas, ao ponto de já nem ter a certeza de como me chamo. 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Strauss-Kahn revisitado

Por uma e outra vez, manifestei aqui dúvidas sobre a violação de uma empregada de hotel pelo então boss do FMI. E revoltei-me ao ver multidões em fúria, à porta do tribunal, a injuriá-lo, gajas histéricas a exigirem a sua cabeça porque se não é culpado desta, é-o certamente de outras, numa versão moderna da fábula do lobo e do cordeiro: Se não foste tu, foi o teu pai! -- afinal, cenas déjà vues aquando do processo Casa Pia. Os ricos, os poderosos, os influentes, que as multidões adulam, são sempre culpados e merecem expiar os pecados da turba que os lincharia alegremente. Sempre foi assim, de Cristo aos regicídios, talvez por isso o Santo Ofício queimasse uns pobres diabos para evitar que a populaça assasse os grandes diabos. Catarse.
Não me surpreende, portanto, que hoje os media noticiem fragilidades na acusação. Só me surpreende que tenha sido preciso tanto tempo -- o suficiente, porém, para que Strauss-Kahn fosse substituído no FMI -- para verem o óbvio. E às numerosas indignadas deste país e d'ailleurs, só posso sugerir que da próxima vez se lembrem da dúvida metódica para que não baste uma criatura gritar que foi abusada para crucificar alguém. Não é apenas a presunção da inocência; é a diferença entre a barbárie e a civilização.

Da entropia

A segunda lei da termodinâmica é uma formulação científica do pessimismo: num meio fechado, a entropia aumenta sempre. Toda a organização se consegue à custa do caos criado – e este cresce sempre. Prosperaram sociedades organizadas na Europa e na América do Norte, tão ricas que até dispensavam migalhas para ajudar as vítimas do caos necessariamente criado em África e na Ásia; tão ricas que depois das matérias primas passaram a importar também os operários -- até concluírem que era preferível deslocalizar a produção e os seus custos humanos e ambientais. E a entropia diminuiu no antes chamado Terceiro Mundo, aumentando consequentemente no Ocidente. O caos da Grécia, da Espanha, não é fenómeno passageiro e localizado: é um sinal dos tempos. Num meio fechado como é o planeta Terra, a entropia aumenta sempre.

ADENDA, só necessária porque (1) Portugal é o país da esperança, seja no regresso de D. Sebastião, seja na protecção da Senhora de Fátima e (2) Portugal é o país da retórica (enfim, de uma certa retórica, onde todos se convencem de que é tudo uma questão de palavras e de conversa fiada -- talvez por isso os políticos saíssem maioritariamente de Direito, isto antes de saírem das jotas):

Contrariamente às leis religiosas ou jurídicas, uma lei científica não conhece excepções, seja aqui seja em Andrómeda: ou está correcta ou não está. E todos os dados disponíveis, toneladas, terabites deles, evidenciam a correcta formulação das duas leis da termodinâmica.

Ajax

Quando o jovem Ajax partiu para a guerra de Tróia, o pai recomendou-lhe que se encomendasse à protecção da deusa Atena. Recusou: com a ajuda da deusa dos olhos garços até o mais fraco dos homens brilharia na guerra. Não, ele haveria de vencer sem a ajuda de Atena e, se preciso fosse, contra a própria deusa – que, vingativa, o enlouqueceu e o precipitou na desgraça. E Ajax empalou-se, lançando-se sobre a própria espada.
Ai, ai, Ajax!
Ai, ai, Ajax! Quase vinte e cinco séculos se esboroaram, tudo continua na mesma: ai de quem não suplica a protecção dos deuses e deusas, fingindo que não lhes vê os pés de barro!

terça-feira, 28 de junho de 2011

A geração mais qualificada

Têm as melhores notas de sempre, em boa parte mercê das explicações, do facilitismo, da inflação, das  pressões que os pais exercem sobre escolas e professores  --  e das calculadoras que contêm as cábulas: façam-lhes o reset antes dos exames (ou interditem o seu uso) e será a catástrofe.
Aprenderam a aprender, a fazer projectos, a investigar, estudaram formação cívica e sexual, tudo em planos aprovados pelos seus representantes e pelos dos seus pais. Rebolaram pelo chão em colchões nas aulas de Teatro, passearam amiúde em “visitas de estudo”, frequentemente até ao estrangeiro. Tiveram o maior tempo de permanência na escola, a maior carga horária de que me recordo; doses cavalares de Matemática, de Física, de Biologia, divididos em turnos por causa das experiências que talvez tenham sido mais raras do que se pensa; inscreveram-se em Moral pelas “visitas de estudo” e pelas notas altas para entrarem para os quadros de mérito e de excelência; fechados na escola, fechados nas salas de aula, transformaram-nas em recreios, saindo amiúde, para ir às sanitárias e aos cacifos, para encher as garrafas de água, para conviver, namorar – e o ruído durante o tempo de aulas tornou-se ensurdecedor, mas só dele dão conta quando fazem os testes intermédios.
Tiveram direito a complementos, a medidas de apoio, a apoio pedagógico acrescido, a tutorias, a professores de apoio, a psicólogos… Aprenderam a escrever colectivamente poemas e histórias, bem aplaudidos em cerimónias públicas, alguns lêem histórias de vampiros e quejandos – mas não tiveram “contacto merecedor de registo” com a literatura, nem sequer aquando do estudo das obras de leitura integral. Não aprenderam a amar a poesia, poucos leram alguma vez um bom romance. Desconhecem a História de Portugal, a Geografia, essas velharias, que ideias novas, como “A minha pátria é a Europa” ou a “Europa das Regiões”, tornaram obsoletas. São do mundo dos afectos, da não memorização, da investigação – que produz não raro trabalhos imprimidos directamente da Net.  Não os culpo: sou também responsável pelas suas “qualificações”.
E depois têm exames. Ora, embora na sua maior parte saibam ler e o façam expressivamente, são incapazes de explicar o que acabaram de ler. Quando escrevem, poucos vão além do estilo telegráfico  dos SMS e da trivialidade do Facebook. A pobreza lexical é confrangedora. Mesmo os textos daqueles que escrevem melhor se ressentem do vazio de conteúdo, da falta generalizada de cultura geral. Não lêem atentamente  as perguntas dos exames  porque tal nunca foi verdadeiramente necessário e nós, professores, sempre valorizáramos a conversa da treta com que enchem papel, aproveitando sempre que podemos uma palavra aqui, outra ali, para o almejado sucesso escolar – evitando planos de recuperação e justificações pelos resultados deles.
Receio que a situação seja irreversível: os professores mais velhos, entre os quais me incluo, sofrem de desalento, de desmotivação, descrentes num sistema de faz-de-conta, em que o que importa é apresentar “evidências” em inumeráveis projectos e relatórios ; os mais novos, que foram formados nas mais variadas instituições e entraram para o sistema com as regras actuais, dificilmente conceberão outro modelo de ensino… E, mesmo que fossem tomadas medidas correctivas – ai do ministro que o ouse fazer! --, na Educação os resultados demoram muito a surgir, por vezes uma ou duas gerações…

Um montense no governo

Foi com  grande alegria bairrista que tomei conhecimento da nomeação de Fernando Santo, meu conterrâneo e ainda colega de escola primária, como Secretário de Estado. Fernando Santo, com quem não falo há quase cinquenta anos devido à diáspora montense, é bem conhecido dos portugueses por ter sido bastonário da Ordem dos Engenheiros. Desejo que contribua significativamente para o sucesso das medidas que nos tirem do lodaçal onde outros nos atascaram, dignificando o nosso país e honrando a nossa aldeia.
Muitos parabéns.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Karaté em Almeirim

Sábado, 2 de Julho. Direcção: Sensei Vilaça Pinto; organização: Sensei Paulo Almeida . Lá estarei.
Foto: em primeiro plano, kumité entre os sensei Paulo e Xavier, Março de 2010, no Entroncamento.

Pára-raios

"Os pára-raios nas igrejas
Servem para mostrar aos ateus
que os cristãos, por mais que o sejam,
Não confiam em Deus"

(popular)

A lição do galo

Serpenteando por entre as colinas verdejantes, brilham as paredes brancas das casas das encostas, destoando uma ou outra no amarelo que foi moda tempos atrás --- e acima de todas elas, sobressai a torre da igreja, encimada por pára-raios agressivamente virado para o céu, servindo de eixo a cata-vento de ferro, em forma de galo orgulhoso, bico sempre apontado para barlavento, cauda larga para sotavento.
Do galo se diz que é inconstante como a aragem que o faz rodar, mas se o observarmos sem ideias pré-concebidas, dia após dia, ano após ano, melhor ainda, se o pudéssemos acompanhar vida após vida, concluiríamos, como eu próprio já concluí, que também ele tem as suas querenças, visto que, podendo apontar em qualquer direcção, o vejo de manhãzinha olhando para Nascente, como se também ele, na sua mudez férrea, quisesse saudar o nascer do Sol, ou o cacarejar que vem dessa direcção lhe animasse uma qualquer molécula orgânica, depositada pelos pardais oportunistas que o usam como poleiro, sujando-o indecorosamente...
Vendo-o assim imóvel, pensar-se-ia até que a ferrugem lhe limitou os movimentos na sua velhice, imobilizando-o nessa direcção; mas não, que quando a aldeia gela fustigada pelos ventos secos de Leste, de onde nunca veio nada que preste, o pobre coitado, não tendo como se resguardar, mais não pode que apontar-lhes o bico, virando a cauda para os lados do mar. (...)
A mim, que raramente termino aquilo que começo, volúvel como o vento, de tal forma que já troco barlavento com sotavento, consola-me este amigo de outros tempos, testemunha muda de homens e de ventosidades, que tanto sabe e tudo cala, apenas preocupado como eu em virar a cauda ao desconforto, o olhar impassível fitando o infinito. Que ele me valha nesta narração, orientando-me para os protagonistas certos, inspirando-me a seguir a direito, sem desvios nem divagações, e, sobretudo, sem verborreia que se pegue ao texto como excremento de galinha às botas do criador.

Cata-vento

Como o cata-vento: humildemente a apontar um rumo vago. Não faltará quem sobranceiro o despreze, o ridicularize, quem recuse  levantar o olhar do chão das certezas nem que seja apenas para constatar a inconstância dos ventos...
FOTO: Ferreira, Paredes de Coura

domingo, 26 de junho de 2011

Da fé

Invejo aqueles que têm fé sincera, genuína. Por isso, creio que não faz sentido o exercício que o José Ricardo nos propõe:
Porque, penso eu, se Deus me aparecesse à frente, eu já não teria medo de morrer. Nem de nenhuma outra coisa. Não ficaria em pânico, não imploraria prolongamento do tempo de vida, fosse para poder ler  mais uns livros ou para aprofundar a via do karaté.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

É português

O empregado de limpeza mais bem pago do mundo. Chama-se Villas-Boas (atenção ao duplo "L" e ao hífen, apesar do acordo ortográfico) e, segundo li hoje, vai limpar o balneário do Chelsea.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Fadinho do cavanço

Impressionam-me estas declarações patrióticas, sobretudo vindas de quem nos abandonou. Tanto que até lhe dedico esta adaptação do "fado do cavanço" do Corpo Expedicionário Português na 1ª guerra mundial:
Nesta vida de cavanço,
A cavar, como se vê,
Se os boches dão um avanço,
Cava o governante português.
NOTA: A versão original, conforme a História de Portugal, 6º vol., dir. José Mattoso, p. 518, difere apenas no último verso:
Cava todo o CEP.

As férias do governo

Passos Coelho só dá uma semana de férias ao governo. Que diabo, como é que os governantes têm direito a férias se apenas entraram em funções na semana passada? Ou será já a revisão das leis laborais?

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Quando for velho


Jacques Brel
LA... LA... LA...
1967


Quand je serai vieux je serai insupportable
Sauf pour mon lit et mon maigre passé
Mon chien sera mort ma barbe sera minable
Toutes mes morues m'auront laissé tomber
J'habiterai une quelconque Belgique
Oui m'insultera tout autant que maintenant
Quand je lui chanterai Vive la République
Vivent les Belgiens merde pour les Flamingants...
La... la... la...
La... la... la...

Je serai fui comme un vieil hôpital
Par tous les ventres de haute société
Je boirai donc seul ma pension de cigale
Il faut bien être lorsque l'on a été
Je ne serai reçu que par les chats du quartier
A leur festin pour qu'ils ne soient pas treize
Mais j'y chanterai sur une simple chaise
J'y chanterai après le rat crevé
Messieurs dans le lit de la Marquise
C'était moi les quatre-vingt chasseurs...
La... la... la

Quand viendra l'heure imbécile et fatale
Où il paraît que quelqu'un nous appelle
J'insulterai le flic sacerdotal
Penché vers moi comme un larbin du ciel
Et je mourirai cerné de rigolos
En me disant qu'il était chouette Voltaire
Et que si y en a des qu'ont une plume au chapeau
Y en a des qui ont une plume dans le derrière...
La... la... la
La... la... la

Quand je serai vieux je serai insupportable
Sauf pour mon lit et mon maigre passé
Mon chien sera mort ma barbe sera minable
Toutes mes morues m'auront laissé tomber


Jacques Brel

Desprazeres

Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Camões
Quarenta e muitos anos atrás o meu avô paterno confidenciou-me que queria morrer. Porque, perguntava-me e eu não respondia, o que é que cá andava a fazer. Talvez por isto, tenho sempre defendido que devemos cultivar interesses e ocupações que possamos manter em idade mais avançada. E agora que a minha mãe está finalmente num lar choca-me vê-la, desinteressada, apática, como tantos outros à espera de que os dias passem por eles, sem uma alegria visível, sem um sonho, um desejo. Sem vontade, sem a vontade de viver, o que não significa terem vontade de morrer. E dou por mim a pensar como também prazeres anteriores têm já o gosto danado: deixei de ler religiosamente ao sábado o Expresso e há muito que não sinto interesse pela leitura dos outros jornais; de há uns meses para cá a leitura dos blogues tem sido menos intensa, menos atenta, mais aleatória até; depois de A amante holandesa, não comecei nenhum dos muitos romances que esperam por leitura... Estarei eu a ficar desinteressado como os velhotes do lar, o mesmo vazio no olhar, idêntico ar parado, semelhante conversa resmungona? É sabido que quem lida com um coxo acaba por coxear, pelo que prestei atenção às minhas ocupações e leituras. Ora o que verifico é que cada vez leio mais: neste momento, The Elegant Universe: Superstrings, Hidden Dimensions..., Fernão Lopes (Crónica de D. Pedro e re-re-leituras da de D: João I), João de Barros (Gramática da Língua Portuguesa, Ropica Pnefma -- culpa de Mário de Carvalho, que a refere num dos seus romances --, José Mattoso (Naquele Tempo), e tantos outros. O que se está a passar comigo é, suponho, uma crise de impaciência face à superficialidade de alguns textos e, sobretudo, de temáticas da actualidade. 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Uma lição

O Afonso está adoentado. Hoje, a mãe diz-lhe que não vai à escola (o infantário). Recusa.
-- Porquê?
-- Tenho coisas para aprender.
Recordo-me de um estudo sobre iliteracia que mostrava duas realidades nacionais: (1) baixíssima formação e (2) convencimento de que as habilitações e os conhecimentos possuídos eram mais do que suficientes para a execução da função social do inquirido. Coisas como "para aquilo que faço sei de mais" ou "estou velho para estudar (ou para aprender)". Enquanto nação, enquanto povo, enquanto adultos, imitemos as crianças, abandonemos a auto-satisfação arrogante de quem tudo sabe e nada precisa de aprender, recusemos as facilidades em que não haja correspondência entre títulos académicos e conhecimentos obtidos. Neste momento de crise nacional, mais do que protestos deitados, precisamos de nos levantar, de estudar com vontade, de exigir dos professores, não notas cada vez mais altas (chegando a 20, pára-se), mas um ensino de qualidade. Que paulatinamente substitua as patranhas do eduquês por conhecimento científico, técnico, literário. É o que espero, é seguramente o que o país espera, do novo ministro da educação, a quem desejo o maior sucesso. Para bem de todos nós.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O óbvio

A minha mãe estava a melhorar. Devagar, mas progressivamente. Por isso, na terça devolveram-na ao Hospital de Alcobaça, de onde tinha saído a 10 de Março, à beira da morte. Para quem não sabe (e eu não o sabia até lá entrar) o SO é uma espécie de urgência. Arrumam lá os doentes que não têm lugar nos restantes serviços. Arrumam-nos, porque, dizem e eu acredito, mais não podem fazer. Por isso, logo na terça à noite, a minha mãe numa maca, perguntei à médica porque é que estava no SO e não noutro serviço. 
-- É tão óbvio que nem vejo porque é que lho tenho de explicar. 
Tenho muita dificuldade em ver o óbvio, ao contrário dos médicos. Os quais, desde 3 de Janeiro deste ano, diagnosticaram à minha mãe: 1. Tendinite. 2. Zona. 3. Artroses. 4. Trombo-flebite. 5. Infecção pulmonar. 6. Aneurisma da aorta -- este último, certeiro, em Santa Maria. É óbvio que alguns diagnósticos estavam errados. É óbvio que os tratamentos para diagnósticos errados podem ter agravado o seu estado de saúde. É óbvio que se perderam meses preciosos enquanto a saúde se deteriorava. É óbvio que em Santa Maria lutaram incansavelmente pela vida dela. É óbvio (ou não será?) que se o Hospital de Alcobaça não tinha possibilidade de receber e tratar adequadamente a minha mãe, deveria ter sido enviada para outro hospital. É óbvio que não vale a pena salvar doentes com esforço, dedicação e custos elevadíssimos para depois definharem numa cadeira de hospital, quase sem visitas (só 2 familiares, 15-16H e 21H-21H30)), o resto do dia sem ocupação, sem estímulos, sem fisioterapia...
Na quarta-feira, ontem, fui humilhado por uma auxiliar: a visita das 21H começou bem depois das 21H30, hora a que termina; a minha prima entrou primeiro, a meu pedido, que a minha mãe não a via desde 10 de Março, e avizinhando-se o términos da visita, saiu para me dar lugar; eu, como tinha a minha senha e o corredor é muito longo, não vendo segurança nem outro pessoal por ali, entrei à pressa, apenas para me despedir da minha mãe. E encontrei uma auxiliar.
-- O que é que está aqui a fazer?
-- Sou a segunda visita, e mostrei a senha.
-- Faça favor de sair.
Aparvalhado, nem percebia. Pensei que me dizia que a visita tinha terminado. E o tom de voz. Há seis meses por hospitais, ninguém me tinha assim destratado -- e sem razão.
-- Faça favor de sair, repetia, autoritária.
-- Quero só dizer até amanhã à minha mãe.
-- Faça favor de sair, que eu vou buscá-lo à entrada.
-- Mas se estou aqui consigo...
-- Tem de sair. São as normas do hospital.
A perder tempo de visita, caminhei à frente da auxiliar até à porta de entrada, para depois reentrar atrás dela e percorrer novamente os longos e labirínticos corredores.
É óbvio que em Santa Maria me habituaram mal as auxiliares, enfermeiras e enfermeiros, médicas e médicos, do Bloco Operatório, dos Cuidados Intensivos, dos Cuidados Intermédios, da Enfermaria. A todos eles, o meu muito obrigado. Pela gentileza, pela compreensão, pelo apoio, pelos esclarecimentos óbvios que me nunca negaram. Por aquilo que fizeram pela minha mãe. Esperemos que agora se não perca.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Equívocos agrícolas

A agricultura voltou a ser assunto de discussão, talvez devido às recentes intervenções do Presidente da República, que tendo descoberto primeiro o mar e os seus recursos, se volta agora para a terra. Mudou de opinião este "bom aluno europeu", o qual, como é apanágio de alguns "bons alunos", se preocupou então mais em agradar aos seus mestres do que com o futuro nacional, promovendo políticas que  implicaram  o abate da frota pesqueira e o abandono da actividade agrícola.
Porém, esta mudança de posição preocupa-me, não por discordar do aproveitamento dos nossos recursos, mas porque me parece assentar numa ilusão salvadora, sebastiânica, e por ser demasiado tarde para arrepiar caminho. Antes de mais, importa recordar que os nossos solos, na sua maior parte, têm fraca aptidão agrícola, são frequentemente demasiado acidentados, escasseia a água em muitas regiões e o clima é não raro adverso. Os agricultores que ainda resistem têm idade avançada, baixa formação, pouca ou nenhuma apetência pela comercialização e gestão. E os mais novos não terão grande interesse pela agricultura, actividade mal paga, dura e socialmente desconsiderada em todos os tempos e culturas. E nada sabem fazer, não bastando uns cursos de formação do centro de emprego para virar agricultor.
Acresce ainda o facto de a agricultura moderna, latifundiária, à moda da França ou da Alemanha, ser muito exigente em capitais e os respectivos agricultores se encontrarem fortemente endividados. 
Não vale a pena, portanto, ver na agricultura (e talvez nas pescas) a tábua de salvação para o naufrágio nacional. Exceptuando em certas regiões favorecidas pelo clima, pelo solo, que dispõem de infra-estruturas e em que os agricultores têm um savoir-faire que alia a qualidade ao marketing, não haja ilusões: como disse o papa Pio-não-sei-quantos, há três formas de um homem se arruinar: ao jogo, com as mulheres e com a agricultura, acrescentando que o pai tinha escolhido a mais trabalhosa.
Tudo isto parece estar em contradição com a defesa que regularmente faço da terra neste blogue. Não está. A agricultura possível na generalidade do território poderá assegurar a sobrevivência das famílias, proporcionar alguma rentabilidade se combinada com a exploração racional da terra envolvendo o turismo, a pecuária, a caça. Não enriquecerá os agricultores nem lhes dará proventos comparáveis aos que teriam se empregados nas cidades. Terão de se contentar com liberdade, felicidade, exercício físico. E forte desconsideração social. Até na minha aldeia o povo ri quando passo de tractor para a labuta. E imagino o que dirão: grande bruto, a cansar o corpo sem ter necessidade disso. A gastar o que ganha como professor, porque, todos o sabemos, os alimentos comprados nos hipermercados ficam mais baratos do que os produzidos. Mas isso é matéria para outro post, que este já vai longo e eu tenho de me meter ao caminho, rumo a outro hospital para onde transferiram a minha mãe.

sábado, 11 de junho de 2011

Karaté em Paredes de Coura

Chego de mais um estágio fantástico, dirigido como sempre pelo sensei Vilaça Pinto. Cansado, dorido, mas muito satisfeito por ter aguentado a dureza dos treinos. Mais notícias e sobretudo fotos dos exames de graduação, muitas fotos, logo que tenha tempo para as seleccionar. Vão passando.
FOTO: os participantes nos treinos de sexta-feira. No sábado houve mais, mas não foto de família.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ah, le français...

Saudades do tempo em que ensinava Francês -- e como então os alunos queriam aprender! No secundário, a literatura francesa, a música, Brel, embora não fosse francês, tantos outros... Hoje, apesar de ter o meu francês enferrujado, que desde 2000 não vou a França, dou-me conta, ainda, dos pontapés que por cá vamos dando nessa língua que quase foi também minha: é o cantor que traduz "l'ombre de ton chien" por "o ombro do teu cão", são os admiradores do grande Jacques a esquecerem que "doute", 'dúvida' é do género masculino. Que importa? Le français, je l'aime encore, je l'aimerai toujours, sans aucun doute!
FOTO: chez monsieur Michel (de pé), Annonay,   1-15 Abril de 1998. Sentados, da esquerda para a direita, o Sven, sueco, a Clara, a Dália. a Maria José e eu próprio. Curso Les TIC en classe de Langue.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Ressaca pós-eleitoral

Para acalmar euforias -- sim, também eu fiquei muito contente com a saída de Pinto de Sousa --, quero só avivar memórias: antes deste primeiro-ministro, agora democraticamente afastado, houve outros: Santana Lopes (PSD), demitido por notória incompetência, Durão Barroso (PSD), que trocou a governação nacional pelo cargo europeu que ainda desempenha, António Guterres (PS), que se demitiu ao aperceber-se da inevitabilidade de medidas de austeridade. Ventos que semearam causaram as tempestades que hoje nos fustigam.
Calma, portanto. Deixem de nos massacrar o juízo com Passos Coelho, veremos o que faz, como se porta. Não há grandes razões para a esperança. E ele não é D. Sebastião.

domingo, 5 de junho de 2011

Final de campanha

Neste fim-de-semana arranquei as batatas. Quinze horas de trabalho duro, solitário. Calor, muito calor, logo às sete da manhã. Sem o alívio de uma brisa na face, sem que nuvem simpática ocultasse o Sol. O suor (eu sei, gente fina não sua, transpira, e só nos ginásios, mas gente fina não arranca batatas), o suor sempre a correr, copioso, da testa, empapando o boné, das sobrancelhas, como de bicas abertas, do peito, ao ponto de a t-shirt poder ser espremida. No regresso a casa acelerava deliciado o tractor para sentir a fresquidão das sombras dos caminhos. E banho frio, para arrefecer o corpo, e seven up traçada com limão, depois com vinho, agoniado dos litros de água ingerida na labuta.
Final de uma campanha difícil, marcada pela doença da minha mãe, que pouco tempo me deixa para a agricultura, e pelos azares climáticos, com chuvadas habituais aos fins-se-semana. Mesmo assim, já estão armazenadas, sem que tal signifique descanso: é preciso combater a traça, que no ano passado destruiu toda a minha produção, retirar regularmente as podres, mais tarde desgrelá-las amiúde.
Vale a pena? Não. Mas em cada Primavera, enquanto puder, continuarei a plantar batatas. É um bom exercício -- perdi quilos só na arranca --, não pensei no monte de testes que tenho de corrigir até quarta-feira, não me preocupei com desgraças, da doença da minha mãe à situação do país, da Europa, do Mundo -- e tenho o prazer de as comer e a satisfação da abundância: se não se estragarem, chegam para a família até à próxima colheita.

NOTA: a imagem de baixo é de colheita anterior, que este ano não houve quem tirasse as fotos.