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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Esladroar

Segundo o dicionário da Porto Editora, consiste em "limpar (as plantas) dos ladrões ou rebentos novos que
são supérfluos". Esladroar, informa o Serviço de Avisos Agrícolas, serve para arejar as vinhas  facilitando a aplicação dos produtos fito-sanitários e criando condições adversas ao fungos, mormente ao míldio, ao oídio, ao black-rot.
Esladroei ontem e hoje, com os resultados que as fotos, de má qualidade, mostram.
Na primeira, vê-se como as vides, aproveitando a minha ausência, cresceram  incontroláveis, ao ponto de impedirem a passagem entre as linhas -- que estão afastadas 3 metros entre si.
O resultado do meu esladroamento radical está patente na segunda foto.
Terminado, logo outra necessidade premente surgiu: cortar as ervas daninhas nas linhas, que se emaranhavam nas cepas.  

E, porque o trabalho no campo está sempre atrasado, ainda reguei em duas courelas. Tarefa demorada, dura, a arrastar mangueiras cheias de água pela terra, e que exige conhecimentos rudimentares de mecânica, porque o motor não pega, o chupador desferra...
Enfim, como escreveu Cesário Verde,


Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as podo e empo.
Ah! O campo não é um passatempo
Com bucolismos, rouxinóis, luar.

Eis-me derreado, com o corpo a exigir descanso. Amanhã verei as novas nas redes sociais e blogues, responderei a quem o merece, irritar-me-ei com o fracasso da "salvação nacional". Ou talvez não, que o assunto já me enjoa. Cada vez acredito menos na salvação.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Campeonato da Europa da JSKA

De Vilaça Pinto, meu mestre de karaté, chegou-me a seguinte nota informativa, que divulgo  com todo o prazer. Parabéns ao mestre e aos seus alunos participantes no campeonato, os quais se distinguiram internacionalmente, honrando a nossa associação e o nosso país.
Campeonato da Europa da JSKA em Suhl, Alemanha, nos dias 12 e 13 deste mês de Julho.
O dia 12 foi preenchido com 2 sessões de treino técnico e curso de arbitragem sendo o dia seguinte dedicado à referida competição.
A delegação portuguesa:
Vilaça Pinto, José Xavier, Vitor Carreira, José Jerónimo, Carla Jerónimo, Rui Jerónimo, José Mendes, Paulo Almeida, José Maurício, Bruno Carvalho, Rosa Jerónimo, Alvaro Domingues, Mariana Semblano, Telma Silva e Marta Franco (acompanhante).
Gostaria de relevar a presença portuguesa pela forma exemplar como participou em todas as actividades deste encontro (treino técnico, arbitragem e competição). Relativamente à competição destacaram-se pelos resultados obtidos os seguintes competidores:
José Xavier - 1º Lugar em Kumite veteranos;
Rui Jerónimo - 1º Lugar em Kata seniores;
Carla Jerónimo - 1º Lugar em Kata seniores;
Mariana Semblano – 1º Lugar em Kata cadetes;
Telma Silva – 1º Lugar em Kata infantis;
José Maurício – 3º Lugar em Kata e Kumite veteranos;
José Jerónimo – 3º Lugar em Kata veteranos;
Bruno Carvalho – 5º Lugar em Kata seniores.
Gostaria ainda de salientar a importância desta presença portuguesa numa prova internacional participada por 14 países e 250 competidores, tendo lugar exactamente na Alemanha, país onde o nosso destino é traçado como membro da CE.
A subida dos competidores portugueses ao pódio “impôs” durante aqueles breves instantes aos países presentes, também eles membros da CE, uma imagem de valor e competência que nos orgulha a todos e que nos devolve a autoestima que nos tem vindo a ser roubada.  
Cumprimos com brilho e dignidade o nosso dever enquanto representantes de Portugal e esta é a razão porque lhe peço que não deixe que este acontecimento passe sem ser justamente anunciado.
Cumprimentos, Oss!
Vilaça Pinto

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Barranco de cegos

"...ora se um cego guiar outro cego, ambos acabarão por cair no barranco."
Simão, o discípulo a quem Jesus gostava de chamar Pedra por ser curto  de entendimento, pediu "explica-nos essa parábola."
"Ora imagina um reino que na sua cegueira se deixa guiar por cegos. Que é que lhe acontecerá?
"Cairá no barranco."
"Até tu, Pedra, o vês. Só os seus naturais, tão cegos, preferem comentar, discutir, argumentar e contra-argumentar -- a abrir os olhos e reconhecer que são conduzidos por cegos, inevitavelmente para o precipício."
"E esses cegos que os guiam, Mestre?"
"Perdoai-lhes, que não sabem o que fazem. Nunca souberam. Tem-lhes valido a cegueira e  a curta memória do povo. "
Simão, A Pedra, considerou e reconsiderou parábola e interpretação. E concluiu: "enfim, quando caírem no barranco, abrirão os olhos."
Tornou o Mestre, desapontado com o discípulo: "Dizes isso porque nunca ouviste falar dos portugueses."

sábado, 6 de julho de 2013

O Sol é grande

Este tempo, tão do agrado dos apreciadores de caracóis, cerveja, areais e escaldões, é-me por demais incómodo. Não durmo bem, acordo constantemente para ligar e desligar o ar condicionado do quarto, pouco mais posso fazer que, à noitinha, dar rega parcimoniosa às plantas em tentativa de as aguentar, e sou vítima dos insectos, mosquitos e moscas, que me picam impiedosamente, mesmo por cima da roupa, mesmo por cima do repelente, quando o aplico, como hoje, em que madruguei e fui aos Montes regar para tentar salvar alguma coisa — a maior parte da minha agricultura é de sequeiro pela simples razão de que apenas tenho água de poço em duas pequeníssimas fazendas e, devido à chuva constante, só pude semear o feijão e o milho demasiado tarde.  Mas, mesmo que tivesse água em abundância, de pouco adiantaria, porque, mais do que a sede, é o ar quente, literalmente em fogo, que mata as plantas.
É assim o nosso clima, há que o aceitar com resignação, rir das previsões de médio e longo prazo dos meteorologistas, os quais acertam tanto como os economistas e comentadores televisivos, deixar a conversar com as urtigas os visionários que apontam a agricultura como salvação nacional, confundindo a produção de salsa ou rabanetes na varanda  com profissão ou negócio.
E, entretanto, esperar que a canícula se vá... até ao próximo Julho.
Título: do soneto de Sá de Miranda "O sol é grande, caem co’a calma as aves", centrado na mudança, tema tão do agrado dos clássicos. Reconhecendo, como eles, que só para nós o tempo não é cíclico, pelo que " tudo o mais renova, isto é sem cura!" pois só na natureza ao Inverno sucede a Primavera.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Ladainhas da minha infância (2)

Outra ladainha:
Sou soldado soviético
Sem Salazar saber
Se Salazar soubesse
Seria sacrificado.

Ladainhas da minha infância (1)

O verso e a rima são óptimos meios de memorização. Cinquenta anos depois de as ter aprendido, tenho ainda bem presentes várias ladainhas. Como esta:
Menina Angélica
Picou um dêlico
Numa agúlica
De sapatélico.
Menina Angélica foi ao mélico.
Menina Angélica não teve cúlica.
Menina Angélica no cemitélico.

Ódios velhos

As mulheres odiavam-se. Mesquinhamente. Ralhavam, brigavam por tudo, de questões de águas a passagem por serventia que entendiam ser sua. Mãe e filha contra a prima. Que é em família que nascem e se apuram as maiores inimizades.
Os homens não se envolviam. Na taberna, no café, no adro, falavam-se, sem azedume,  mas sem grandes confianças. As crianças conviviam entre si, às escondidas das mães.
Certa noite, uma delas, a estudar em Alcobaça, contou que nós, da família inimiga, planeávamos deitar a mão a casal de pombos do Mosteiro, levá-los para a aldeia, fazer criação -- para sermos os felizes donos de tão belas aves, invejados pelos demais garotos.
Era verdade, mas detinha-nos o medo. De sermos apanhados a roubar. De denúncia na escola, onde os pombos cativos teriam de permanecer escondidos nos nossos sacos até à hora de saída. De valente surra ao chegar a casa com eles, que os nossos pais não nos criavam para ladrões, o mal é começar, seja por alfinete, fruta, ou casal de borrachos.
A mulher exultou. A hora da vingança chegara. Contra o mais velho de nós, órfão de pai -- assim atingiria mais cruelmente toda a nossa família. E havia o despeito por órfão e pobre andar "a estudar".
Na manhã seguinte, logo à saída da camioneta, o filho convidou o outro: queria mostrar-lhe uma coisa. Que o acompanhasse, ia ter uma surpresa.
Teve. Ao passarem pelo posto da Guarda Nacional Republicana, entrou e gritou para o guarda da portaria:
-- Venho fazer queixa deste menino, que anda a roubar pombos no Mosteiro!
O guarda devia ser pai, saber o que são crianças. Talvez detestasse denunciantes.
-- Desaparece já daqui, senão quem fica preso és tu!
Acrescentou ainda, para correr dali com o miúdo, paralisado pela surpresa:
-- Por levantares falsos testemunhos!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Cor serpentis

Nas últimas décadas do séc. XX, embalados pelo desafogo económico do pós-guerra, que acabou por se fazer sentir em Portugal por volta dos anos 90, esquecemos que, como no título do romance de Yefremov, o capitalismo tem coração de serpente. Caíram por terra utopias socialistas e comunistas, encarnadas na União Soviética, que colapsou, na China, com a sua invenção “um país, dois sistemas”, nas caricaturas albanesa e norte-coreana. O capitalismo, esquecidos os sofrimentos do passado, foi aceite como o sistema menos mau, por preservar a liberdade, e o sofrimento das classes trabalhadoras nos séc. XIX e XX encarado como fatalidade histórica, finalmente ultrapassada pelo progresso e pela dura conquista de direitos: as oito horas, pelas quais tantos e tantas deram a vida, um salário decente, férias, apoio no desemprego, na doença, na velhice...
Porém, esse capitalismo do passado sobrevivia. Longe de nós, por exemplo no Paquistão, com crianças de oito e nove anos a labutar de sol a sol carregando tijolos escaldantes, acabados de sair do forno ­­-- como nos Esteiros; na China, onde os operários trabalhavam (e trabalham) em condições intoleráveis, quase idênticas às dos operários europeus na revolução industrial. Mas, acreditávamos, os orientais percorreriam o mesmo caminho que nós e acabariam por se libertar das grilhetas, haveriam de conquistar direitos básicos, cumprir regras de protecção ambiental, gozar de protecção na doença e na velhice.
Paulatinamente, o capitalismo ocidental, aparentemente civilizado, deslocalizou as fábricas para esses países, onde se trabalha por pouco mais do que o pão ou o arroz de cada dia e não há qualquer respeito pelo ambiente, movido não apenas pela ganância, pela sede de lucro que lhe é inerente, mas sobretudo pela procura absurda das riquezas virtuais e astronómicas em que os ganhos resultam não tanto da produção de bens e da prestação de serviços, mas principalmente  da especulação bolsista. Absurdo que faz com que as acções de uma empresa caiam quando tem lucros e distribuí dividendos, e subam quando anuncia dezenas de milhares de despedimentos. Ou quando compra outra bem rentável -- para a fechar. Ou quando...
Absurdo e imoralidade, de mãos dadas. Brilhantes correctores da bolsa e dos grandes grupos financeiros jogam com a vida das pessoas, empresas e países, indiferentes à miséria que causam, apenas interessados nos maiores ganhos dos seus accionistas, muitos dos quais nem em dez vidas a gastar à tripa-forra conseguiriam dissipar as fortunas já acumuladas. E eles, quais drones que assassinam à distância e do outro lado do mundo, sem ver os olhos do homem, da mulher, da criança cuja miséria agravam, enchem-se de orgulho pelas proezas diárias, são bem remunerados, promovidos, imperialmente gratificados pelo mal quotidiano que infligem.

Quando, anos atrás, após vigarices merecedoras de pesadas penas de prisão, os gestores desses grupos financeiros sentiram avizinhar a falência, eles e os seus gurus, que sempre tinham defendido a independência do capital face ao estado, exigiram protecção dos governos – e conseguiram nacionalizações originais, passando para o sector público os seus “activos tóxicos”, as quais podem ser resumidas na fórmula “o contribuinte suporta os prejuízos, nós embolsamos os lucros”. Não lhes foi difícil persuadir os governantes, que assim acautelaram o seu futuro: fora do governo, espera-os um cargo bem remunerado num conselho de administração, a que jamais acederiam não fora a política.
Agora, em nome da competitividade, querem igualar as nossas condições de trabalho, direitos laborais, salários e modo de vida aos que vigoram no terceiro mundo, e não o inverso, generalizando a precariedade, baixando os salários, endurecendo as condições de trabalho, diminuindo o subsídio de desemprego, dificultando o acesso à saúde, proletarizando os professores, lançando na miséria os velhos…
Entre nós, em nome da credibilidade internacional, e para que os grupos financeiros nos emprestem o dinheiro de que carecemos para lhes pagar os juros, espreme-se o povo, arruína-se o país: os juros baixam na razão directa dos tormentos infligidos, o que agradará aos calvinistas germânicos, aos cristãos fundamentalistas americanos, uns e outros convencidos de que a pobreza é castigo de Deus pela nossa preguiça, e a riqueza deles recompensa divina pelo seu labor.
Que ninguém se iluda: o capitalismo tem, sempre teve, sempre terá, coração de serpente. Era já assim quando Jesus zurziu nos ricos do Seu tempo -- uns santos, se comparados aos actuais. Os quais, tal como no Seu tempo, não têm qualquer pejo em combinar a hipocrisia religiosa com práticas ignóbeis. Fariseus, chamava-lhes Ele. Porém, para todos aqueles que, como eu, duvidam da vida eterna e da recompensa ou castigo após a morte, a Sua mensagem admirável, passados dois mil anos, pouca esperança de transformação do presente nos deixa. Decididamente, o Seu reino não é deste mundo. 
Que nos fica então, sem cristianismo, sem socialismo -- que, disse-me há quase quarenta anos João Machado (1), pode demorar dois mil anos a chegar, mas é inevitável?
Não sei. Por isso, tendo escrito por várias vezes neste blogue que o actual estado de coisas não é sustentável, fiquei-me por solução de sobrevivência possível, inspirada na resiliência do nosso povo.
Não surpreenderá, portanto, que pouco me motive a algazarra dos media em torno dos mandaretes nacionais da Troika, e me abstenha até de reproduzir os respectivos nomes, irrelevantes como eles próprios. Não passam de marionetes ao serviço da serpente.

(1)   Em jantar que reuniu perto de uma centena profissionais do MRPP da zona de Lisboa que haviam saído do movimento em protesto contra linha dominante e a que fui convidado por um amigo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Na rota da Maria da Fonte

Já aqui dei conta do meu fascínio pela Maria da Fonte, a quem se atribui a liderança da revolta do Minho, em 1846,
"feita por homens de saco ao ombro, e de foice roçadora na mão para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem, e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos..."
Costa Cabral, ministro do Reino, 20-4-1846
Interessa-me a época, o contexto, algumas das personagens, as motivações, e, sobretudo, o mito. E aproxima-se o momento de, com tempo, visitar os locais dos motins. Não espero encontrar muito dessa época -- algumas das paisagens, a luz, os cheiros, pouco mais. Da mulher (ou mulheres), e cento e sessenta e sete anos depois, restará apenas o nome, o hino, algumas estátuas. E o fantasma,  como assegura Camilo Castelo Branco:
"Ah, a alma da Maria da Fonte  adeja por ai, paira sobre este povo lusitano, para quem é forçoso que vigore sempre uma tolice messiânica ou revolucionária, quer ela se chame D. Sebastião ou Maria da Fonte."
Itinerário:
Fafe, Famalicão, Póvoa de Lanhoso, Vieira do Minho.
Depois: Terras do Bouro, Montalegre, Boticas, Vidago, Chaves, Valpaços, Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Bragança.
Miranda do Douro, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta, Almendra.


Olha a Lua!

Dizia La Rochefoucauld que algumas pessoas nunca se teriam apaixonado se não tivessem ouvido falar de amor. Vou mais longe: muita gente não teria olhado ontem para a Lua se as televisões não dissessem que estava maior e mais brilhante ­-- omitindo que essa é a pior altura para observar o nosso satélite, já que o brilho oculta os pormenores...

Assim vai o Mundo, assim andam muitas pessoas a mando da TV: vêem o que ela lhes aponta, protestam quando manda, festejam trivialidades com idênticos esgares, gritos parecidos, semelhantes pulinhos. 
No entanto, algumas delas dizem-se mais informadas, mais cultas, mais q.ualificadas. Pois deveriam pensar que tão ou mais importante é o espírito crítico, sem o qual a informação pode ser manipuladora, a cultura uma farsa, a qualificação uma treta.

FOTO: 25-8-2010. O luar de Agosto só tem rival no de Janeiro.

sábado, 22 de junho de 2013

Património da Humanidade

Grande ideia essa, a de classificar os nossos bens mais preciosos como Património da Humanidade, pondo-os a salvo de credores e hipotecas. Infelizmente, os sportinguistas descuidaram-se.

Lugares comuns

Dizem: é preciso dar a volta à situação. Ora, pergunto eu, isso tem lógica? Se dermos a volta à situação, não acabaremos na mesma posição?

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Rimas, aliterações e assonâncias

Rentes de Carvalho alerta neste post para o desprezo que alguns escritores parecem mostrar pelo ofício da escrita, ao centrarem o seu labor na história, não fazendo, ou relegando para outros -- editor, revisor, etc. --, o trabalho fastidioso de lapidação da frase e de polimento de texto.
Tais autores esquecem algo que é óbvio para os poetas: o som é tão importante como o sentido, pelo que, não raro, ao descurarem o trabalho formal, prejudicam o ritmo e a elegância do texto.
Porém, atrevo-me a acrescentar aos conselhos do mestre um outro, extensivo, aliás, a todos os conselhos de todos os mestres: depois de os ter interiorizado, é preciso esquecê-los. Ir mais além -- ou jamais passaremos de imitadores. Primeiro aprender com humildade, depois aplicar com zelo, finalmente seguir o nosso próprio instinto, escrevendo segundo o nosso gosto.
Assim, as assonâncias, de que Rentes de Carvalho dá abundantes exemplos, tanto podem revelar desleixo do escritor como evidenciar uma intenção estilística. Neste caso, corre-se o risco de desagradar a certos leitores, que podem ver nelas expressão de mau gosto. Outros, pelo contrário, menos presos aos cânones, sabedores de que o escritor transgride frequentemente a norma, podem deixar-se enlevar pelo efeito encantatório das repetições.
Com efeito, se tudo na natureza se repete -- os batimentos do meu coração, nascer e pôr-do-sol, dia e noite, estações do ano, luzes, formas, cheiros, sabores, sensações, prazeres, sofrimentos --, se a poesia e a música assentam na repetição, porquê evitar a repetição de palavras e de sons na mesma frase?
Veja-se o que faz o Padre Vieira no excerto que se segue e que, contraditando Rentes de Carvalho no que concerne à utilização das repetições, confirma, no entanto, a sua chamada de atenção para a necessidade de o escritor proceder a apurado trabalho formal, palavra a palavra, frase a frase, parágrafo a parágrafo:
Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, - primeiro, membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Efabulações

Deux Pigeons s’aimoient d’amour tendre
(La Fontaine)
De manhã à noite, era um arrulhar permanente:
-- Tu, me amas tu?
E ele, roçando o pescoço no dela, bicando-a amorosamente, rodava sobre si mesmo, com a cantoria de sempre:
-- Duvidas tu? Duvidas tu?
O dono, que os comprara no mercado, detesta animais presos, e pombos, aprecia-os a voar em liberdade. Por isso, logo que o choco começou, abriu o pombal.
Ela foi a primeira a sair. Durante dois dias não voltou, deixando o coitado, sempre apaixonado, preso sobre os ovos. Bem a chamava, nos breves instantes em que abandonava funções para se alimentar:
-- Por onde andas tu? Por onde andas tu?
Em vão. Num telhado vizinho, ela acamaradava com outro bando, parecia até não lhe desagradar a corte constante de um macho das redondezas.
Até que voltou, como se nada fosse com ela, sem contas a prestar, explicações a dar.

Daqueles ovos, nada nasceu.
Habituaram-se os dois a sair, para esticar as asas, apanhar sol e chuva nos beirados, debicar livremente no quintal.
-- Tu, me amas tu?
E ele rodava pimpão: -- Pois duvidas tu? Duvidas tu?
Nova postura, novo choco. Nasceram dois borrachos.
Era uma lufa-lufa constante a alimentá-los. Trabalhava sobretudo o pombo, pai extremoso. Que ela, mais presente embora, dava as suas voltas, ausentava-se, por vezes todo o dia, regressava ao entardecer, ar cândido, santificado, de quem jamais faz asneira. Os borrachos cresciam vorazes, exigentes, sempre esfomeados, em constante piadeira : -- Papinha para mim! Papinha para mim!
Um dia também o pombo se ausentou por mais tempo do que o costumado. Piam os pequenos que é uma dor de alma: 
-- Papinha para mim! Papinha para mim!
Os lamentos chegam a telhado próximo, onde a mãe se deleita com os arrulhos do pombo vizinho, e acode pressurosa a alimentá-los.
Nessa noite, sussurrou crítica amargurada:
-- Tu sempre fora, tu sempre fora!
E ele, furioso, rodopia brioso:
-- Que queres tu, que queres tu?
Dias depois, ele deixou de dormir em casa. Avisto-o ao longe, em telhado soalheiro, a rodopiar garboso enquanto arrulha a pombita de bando numeroso:
-- Me queres tu? Me queres tu?
No pombal, ouve-o desconsolada a pobre companheira, ela que se esfalfa a jornada inteira para alimentar a ninhada.

Os dois pombos amavam-se ternamente…

FOTOS
(1) A pomba desamparada, com ar de pobre coitada, que não merece ser trocada.
(2) Os filhotes, já espigadotes, incomodados com estes dichotes.

domingo, 16 de junho de 2013

O campo vai à cidade

E leva umas lembrançazinhas, coisa de somenos na quantidade, do melhor na qualidade. Batatas novas, cebolas, alfaces, courgettes, umas cenouras, pêssegos carecas temporões, ameixas, ovos caseiros, de galinha e de codorniz...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Coisas da horta

"Semeia e cria, e terás alegria."

Ganhar e perder


Não pensar em ganhar. Pensar em não perder.
(Um dos vinte preceitos da arte do karaté)
Eu seria mais popular e a leitura dos meus textos mais apreciada se dissesse aos meus colegas aquilo que querem ouvir, se lançasse invectivas aos governantes, que abomino, se apelasse à guerra sem quartel nas greves em curso. Bem o sei, e é com profunda mágoa que reconheço não o poder fazer. Porque os estaria a enganar. Passo a explicar-me.
Se os dirigentes sindicais jogassem xadrez, teriam estudado cuidadosamente tabuleiro, disposição das peças, possíveis jogadas do adversário antes de lançarem à aventura toda uma classe que, apesar deles, ainda é das mais conceituadas aos olhos da população nacional. Jogariam para ganhar, ou, na pior das hipóteses, para não perder. Porque, neste momento, uma derrota aliena irremediavelmente o futuro dos professores (e o do país, mas essa é outra história).
Irresponsavelmente, arriscaram tudo em duas jogadas, atacando com torre e rainha: greve às avaliações, fácil, pois basta em cada um conselho de turma um professor fazer greve para que a reunião tenha de ser adiada por 48 horas, e a greve aos exames. Ora esta última dificilmente trará o almejado sucesso: se em cada agrupamento dez por cento não aderir à greve, haverá duas ou três vezes mais vigilantes do que o necessário. 
Em risco de xeque-mate iminente, resta-lhes, aos nogueiras, sacrificar a peonagem, seja implorando um qualquer acordo que lhes permita desistência aparentemente airosa, seja lançando-a em desesperadas manobras suicidas, como cordões humanos a bloquear escolas, cadeados nos portões e quejandos. Manobras dilatórias que não dignificam a classe nem, sobretudo, lhe asseguram qualquer ganho real, antes aumentam a confusão, a barafunda, o caos nas escolas -- e quem sofre com a degradação da imagem do professor, quem é?
Haverá recursos judiciais interpostos por sindicatos, associações de pais, professores. Mas enquanto decorrerem, e vem aí Agosto, chega o novo ano lectivo, o pavor dos horários zero, as colocações para alguns, a terrível mobilidade para outros, o desemprego para muitos.  Quem então tiver horário, respirará de alívio; quem o tiver perdido, terá pouca capacidade de intervenção útil, pouco mais podendo fazer do que descarregar a cólera em insultos nos blogues ou em recepções aos governantes.
Que fazer, pergunto, perguntarão os colegas que, furiosos, me tenham lido até aqui, repetindo a pergunta leninista?
Receio que nada do que façam altere a situação. Esta batalha, que os sindicatos tornaram decisiva, parece-me perdida -- e como gostaria de estar enganado!
Por isso, se tivéssemos dirigentes sindicais à altura da classe, estariam agora a estudar meticulosamente todas as possibilidades de derrota, para, recuando onde puderem, avançando onde for possível, minimizarem as perdas, ou construírem a vitória possível. 
Com estratégia evidente, em vez de palavreado oco.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Da luta dos professores

A profissão de professor, aparentemente invejada por alguns, nunca foi de vida fácil. Quando eu estava no activo, costumava dizer que devia ser a única em que só se pode mijar de 90 em 90 minutos. Das poucas que exige concentração total durante hora e meia, para logo, após intervalo minúsculo que mal dá para mudar de sala e ir às sanitárias, voltar ao mesmo. Um olho no burro, outro no cigano. A antecipar problemas, a tentar atalhá-los na origem, antes que pequena fagulha se transforme em incêndio dificilmente controlável. E, simultaneamente, a tentar ensinar algo que reputamos importante. Interpretar um poema, por exemplo.
Trabalha-se por prazer quando as turmas são boas, quando os alunos querem aprender e questionam o professor, exigem dele entrega total. Pelo que sairá exausto, vazio, para descontrair e recarregar após breves minutos de disparates na sala de professores  -- para nova sessão. Que pode ser com turma mediana. Daquelas que não se porta mal, apenas se está nas tintas para o que o professor diz. Ou uma da más, talvez com alunos embriagados, alguns aparentemente drogados, outros a provocarem zaragata, com os colegas, com o próprio professor. Talvez façam concursos de peidos, e interrompam constantemente o professor a queixar-se do mau cheiro, a querer abrir janelas para que a arruaça de fora e a de dentro se confundam numa só. 
(Dei por mim a desabafar: era professor de Português com formação em literatura e especialização em linguística, hoje trabalho como segurança. Sem os meios necessários e suficientes para impor a disciplina. Talvez por me saberem karateka, nunca me agrediram, embora, por vezes, pouco tenha faltado.)
E o resto. A burocracia estúpida, inútil, ridícula. A roubar tempo, muito tempo, escasso para aquilo que deveria ser o cerne da profissão: o trabalho com os alunos. Os pais, quantas vezes sobrecarregados com problemas, não raro a pedirem ajuda para se tentarem entender com os filhos. A desabafarem os seus dramas pessoais, conjugais, familiares, profissionais. Os avós, que tentam educar, na falta de pais que o façam, os netos. Angústias, sofrimentos alheios que levamos connosco para casa, agravados pelo desespero de pouco podermos fazer para ajudar quem precisa -- o avô cuja neta anda na má vida, o pai cujo negócio avizinha a falência, a mãe desempregada, aquela cuja filha adolescente engravidou...
Os conselhos de turma, As reuniões de grupo e de departamento, de clubes, de projectos. O serviço de exames. O trabalho de corrector, com prazos exíguos, grandes exigências, pressão enorme. E o resto. Tanto, tão fastidioso, que poderia ficar toda a noite a descrevê-lo.
Mas o pior está para vir. Ameaça de desemprego, precariedade, leccionação simultânea em várias escolas. Aumento brutal de horário, sem ter em conta que o trabalho do professor na escola é a parte visível do icebergue. De longe a menor. 
Não surpreende, portanto, que os colegas queiram lutar. Se eu estivesse no activo, fá-lo-ia, mesmo sabendo que ia perder. Mais uma vez por culpa dos sindicatos, incapazes de definir uma estratégia de luta que vise a vitória e não a propaganda. Ou porque querem os professores revoltados, descontentes, para os poderem usar quando lhes convém -- ou aos partidos de que são correia de 
.transmissão

terça-feira, 4 de junho de 2013

Ratos e homens*

Mais do que a incompetência, evidenciada até à exaustão, a actual geração de políticos prima pela cobardia. Intrínseca. Visceral. Basta ver, por exemplo, o comportamento ontem de Poaires Maduro ao ser insultado por um "popular". Incapaz de responder "sim, os palhaços abundam no país, como esse cavalheiro que aí grita comprova". Ou de o mandar bardamerda mais a conversa. Ou ir gritar com a puta que o pariu. Ou de resolver a questiúncula, não à bengalada, como o deputado Calisto Elói, mas, pelo menos, com uma sonora bofetada.
A altivez que os políticos fingem, querendo dar a entender que os cães ladram, a caravana passa, nada tem a ver com o acto cristão de oferecer a outra face. Para tal, falta-lhes a humildade e a coragem de, efectivamente, oferecer a face. Revela total falta de dedicação ao cargo que aceitaram e que os devia levar a, por maior que seja o medo que interiormente sintam, pensar "aqui sou mais do que eu" e, portanto, agir em conformidade, com total desprezo pelas consequências.
Escolhidos pelo aspecto e pela lábia, sabem vestir, cuidam do cabelo, da barba, das unhas. Metrossexuais. Faltam-lhes, porém, as maiores qualidades de um político, seja ele de esquerda ou de direita, homem, mulher ou outra coisa: ter convicções e tê-los no sítio. Para lutar por elas e pela dignidade do cargo que ocupa.
Ramalho Eanes, em campanha eleitoral pelo Alentejo, foi alvejado a tiro. Encolheu-se, escondeu-se no meio dos seguranças? De modo nenhum. Subiu para o tejadilho do carro tornando-se alvo perfeito, gritou: "É preciso mostrar-lhes que não temos medo!"
Mário Soares foi agredido na Marinha Grande. Era presidente da república e foi insultado por outro "popular" na Leirosa. Encolheu-se? Jamais. "Você está para aí a berrar..."
E seguiu-se uma lição de Português, incidindo sobre o significado de "berrar", e outra de educação cívica, repreendendo-lhe o comportamento.
Outros políticos, mais jovens (por exemplo, um do PS, de barbas, cujo nome me não ocorre, no Norte) têm mostrado que lhes não falta nem convicção nem determinação para enfrentarem a populaça açulada pelos caciques locais ou pelos "sindicalistas".
Mas são excepções. Que não chegam ao poleiro, empeçados precisamente pelas convicções e pelos princípios que os norteiam. Os outros, na sua maior parte, no governo ou na oposição, não passam de ratos. Não de esgoto, nem de sargeta, mas ratos finos. Por vezes, ratoneiros também. Aparentam bravura no seu habitat natural -- parlamento, comícios, reuniões partidárias, ou frente aos microfones da televisão. Mas é tudo fita, tudo postiço. Tremem de medo se umas velhotas lhes cantam  Grândola, Vila Morena.
Nunca partem a loiça, talvez com receio de estragarem as unhas. Desgraçam o país com as suas políticas, enfadam-nos com a sua lábia em que os chavões substituem as ideias, enojam-nos com a sua cobardia. Se confrontados com o passado, safam-se em beleza, explicando que se trata de "narrativas" diferentes. Porque, para eles, tudo é ficção. Excepto os proveitos pessoais, obviamente.
"Pura gelatina política", disse de um Manuel Maria Carrilho.
"De la merde dans un bas de soi" (merda numa meia de seda), disse de outro Napoleão.

(* Título de um romance de John Steinbeck que muito me marcou e cuja leitura recomendo.)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Em torno da poesia (2 de vários)

— José Cipriano, decoraste a poesia, como te mandei?
E eu, olhos baixos: — Sim, minha senhora.
(Era assim que tratávamos a jovem professora primária.)
— Vem então aqui dizê-la.
Tímido, intimidado, subi para o estrado e sem ousar levantar os olhos para as quatro classes, balbuciei, monocórdico:
Em cima desta mesa, desta mesa de estudo, tenho o teu retrato, Mãe! 
A professora queria expressividade, mímica, gestos largos, dramáticos. E eu, cada vez pior. A cabeça sabia o que fazer, como dizer. Mas a vergonha paralisava-me.
— Assim não dá. Vai-te sentar.
Obedeci rápido, antes que descarregasse no meu corpito enfezado a raiva que a possuía, frustrada por não poder impressionar o inspector que viria à escola naquela semana com declamação do melhor aluno, menos de cinco reis de gente...

(O poema de José Régio, Colegial, pode ser lido aqui)