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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ferido d'asa (4/4)

Que é a vida do nosso perdigão, rei exilado preso ao terreiro por tiro traiçoeiro? Uma vaga memória daqueles tempos em que com golpe de asa vigoroso transpunha os vales e mais depressa chegava ao próximo outeiro do que o jipe do caçador lampeiro? Saudades do bando que governava e protegia, dos perdigotos que nasciam às dúzias em cada ninhada e lestos corriam logo à desfilada? Memórias desse tempo que foi e já não é, receio do que o Outono trará quando soarem os primeiros tiros de Setembro – apenas para rolas e tordos, mas Pedro não lê editais e esconder-se-á apavorado como os demais animais.
Eis que chega o dia fatídico da guerra impiedosa aos bichos de pena, fugir ou ficar, correr ou voar? De todo o lado assobia chumbo, só Pedro resguardado no SANTUÁRIO está a salvo – se caçador incumpridor o não matar:
-- Não vi as placas, senhor guarda! Juro pela saúde da minha mãezinha!
-- E também não viu que era perdiz, não rola ou codorniz?
-- Pois não, senhor guarda! Se não voava, apenas corria como rato pelo mato!
Terá o caçador punição, só a Pedro pendurado no cinturão de nada adiantará ser confiscado: depois de morto, pouco lhe importará ser ou não cozinhado. Por isso, sempre desconfiado dos homens e das suas leis, esconde-se novamente em silvado e reza, reza mentalmente para que o domingo acabe depressa e leve consigo Outono e Inverno, ambos de penúria desagradável e risco de vida incalculável.
O perigo veio dos outros bichos: -- Porque não morre Padre Pedro, velho, inválido e resmungão, em vez dos jovens perdigões, das moças perdizes? Porque não segue a própria pregação, despachando-se a entregar a alma ao Criador e a carne ao caçador? Pacto com o Maligno haverá.
E na manhã seguinte, logo que os animais dispersos pelo tiroteio da véspera reagruparam, chegam-se a pedir contas ao profeta. Ignoro se combinaram o protesto pelas redes sociais dos animais, essas que cruzam fios de alta tensão com restolhos, vinhas e olivais, se espontaneamente se congregaram justiceiros: ali estava toda a bichada de Aqui e d’Além, bandos de perdizes em que já não reconhecia ninguém, rolas tolas, pombos que voam aos tombos, cucos malucos, laparotos marotos, lebréus algo incréus, um texugo sanhudo, o javali que corre por aqui e por ali, melros e melras de sangue nas guelras – enfim, tudo o que era bicho de pêlo, de pena. Queriam explicações: porque o não caçavam a ele, Pedro, o Desasado, por demais fácil de apanhar impedido de voar, e a eles perseguiam e matavam em vinhas e olivais?
Pedro, cercado, sofria insultos, bicadas e patadas, exaltam-se ainda mais os ânimos -- que se faça ali e já justiça popular, depois o tribunal divino apurará se agiram bem ou mal. Que se entregue ao Criador este pregador, que se sacrifique para que não mais os persiga caçador.
Chega-se uma das raposas desconfiadas, que de tanto perseguidas, caçadas, envenenadas, quase foram exterminadas:
--- Amigos, tal coisa não queirais vós fazer. Deixai-me, que eu prestes sobre ele porei remédio.
E ia abocar o pobre Pedro, quando este, num arrojo de génio deu em gritar: --- Milagre! Milagre! Olhai e vede! Uma linda senhora sobre aquela azinheira, o Sol que anda à roda da terra inteira!
Milagres é o que todos queremos, por eles ansiamos, pena rarearem, culpa da nossa fraca fé – e os bichos alevantaram os olhos ao céu, e ofuscados pelo Sol já lhes parecia que sim, rodava como as cabeças, agora voltadas pela azinheira, e de facto clarão e luzes que enchiam os olhos encandeados  pousaram sobre a copa. Logo a tola da rola deu gritar: -- Milagre é este, espantosa coisa de ver, senhora tão linda pousada em azinheira -- tão leve que nem os ramos curvam sob o seu peso! E bico por terra, sem mais ousar fitar a aparição, rogava: -- Senhora das Aves e dos Céus, intercedei por nós, pecadores! Acabai com os caçadores!
E o Mocho dorminhoco, despertado pela revolução, a mostrar erudição:
-- Sinal divino é este sem dúvida, perdoai a Pedro Perdigão, que mal não nos traz e tem do divino a protecção.
Meneia três vezes a veneranda cabeça e diz:
-- Vejam lá agora os sábios na escritura que espantosas coisas são estas da natura!
Que é feito de Pedro Perdigão, perguntar-me-eis? Pois ia jurar que ainda ontem o ouvi cantar…

domingo, 9 de outubro de 2011

João Jardim e eu

Tenho de reconhecer a amarga derrota: João Jardim mantém a maioria absoluta e eu, até ao momento, apenas tenho 3 votos!
Enfim, amanhã, segunda-feira, publico o final de Ferido d'asa. E ou muito me engano ou vou desapontar uma certa leitora, que, creio, não votou...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Final de "Ferido d'asa"

Falta publicar a última secção do conto para se saber como termina. Já escrevi o final e não o vou modificar, mas, para continuar a brincadeira, sugiro aos leitores e leitoras que votem no inquérito aqui à direita. Podemos depois confrontar as propostas com o meu final. Repito, não o vou alterar, embora não exclua a possibilidade de, mais tarde, vir a ajeitar esta historieta que, ao contrário do que é a minha prática, foi escrita às três pancadas e quase não teve ainda correcções.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ferido d'asa (3/4)

III
Por qualquer razão incompreensível, como se receio houvessem dos defuntos ali sepultados, os caçadores passavam ao lado do Cemitério, chamavam imperiosos os cães. E Pedro aprendeu que, desde que não passasse para lá das placas com o estranho dizer, não corria o perigo de ser novamente caçado.
Recuperou dos ferimentos, mas não voltou a voar. Pobre perdigão que perdeu a pena, condenado a viver deficiente, bicho da terra tão pequeno!. Mas Pedro, se pena de si tinha, não a mostrava. E quando ao longe, numa manhã espevitada pelo Sol, se ouviu o Cuco a anunciar a chegada da Primavera, Pedro sentiu nas veias o sangue a remoçar e atreveu-se a soltar o Chamamento do Bando.
Antes o não fizera. O bando aterrou perto, mas para assistir à tareia que o novo Perdigão em funções deu no pobre Pedro. Ensanguentado, acachapado em moita como coelho apavorado, viu – teve de ver – o Arnaldo Perdigão arrastar a asa às perdizes cujas suas antes haviam sido, a montá-las galifão, e elas, submissas, a baixarem-se  e a levantarem felizes a cauda para que as cobrisse. Efémero é o amor, quem não aparece esquece, que esperavas, Pedro, desaparecido durante todo um Inverno, as tuas penas a salvo enquanto as do bando se iam, uma após outra, e as aves, depenadas e amanhadas, acabavam estufadas e servidas à mesa?  Esqueceste, acaso, que é obrigação do Perdigão oferecer-se em sacrifício para salvação do bando? E apareces após este tempo todo, a chamar as fêmeas como se as mereceras, tu que não soubeste morrer quando devias, tu pobre aleijado, a querer cobrir perdiz como se foras jovem brigão com tal direito, são e escorreito?
Escarninhas afastam-se as perdizes, à cabeça o imponente perdigão, inchado como galo de engorda. 
Pedro, eremita a viver nas redondezas solitárias do cemitério, refugia-se no estudo, procura a sabedoria, descobre as virtudes da religião, como acontece amiúde com os animais e homens a quem fêmea falta: 
-- Ah, este mundo é ilusão, tudo passa, tudo muda, tudo vai sempre de mal a pior, para quê a agitação, a correria, a busca da riqueza e da fama, se inevitavelmente acabamos mortos por tiro traiçoeiro ou de maleita na cama? Todo o esforço é vão, toda a glória inútil, endireitai os caminhos do Senhor para que nos proteja de fome e de caçador, sede humildes, reparti o que tendes, quanto mais derdes mais havereis, seja neste mundo, seja depois, quando voardes pelo Céu Eterno, livres para sempre das peias carnais!
A bicharada das redondezas escutava a pregação, mas mais ouvia do que a seguia: nos bandos de perdizes, o perdigão não as repartia, antes defendia bravamente contra rivais, fossem eles iguais com bando próprio, fossem deficientes ingentes que recorriam à pregação com vista à sedução e posterior cobrição…
Por isso, Pedro, mal avistava perdigão pimpão a aproximar-se, atraído pela prédica, prestes se protegia em silvado evitando briga de que sairia sovado perdedor; e logo que o concorrente se afastava, retomava o sermão, sacerdote pedófilo, cuco esperançoso de atrair franganita ingénua e fazer filhos em bando alheio. Não sei se alguma vez o terá conseguido: os machos, conhecida a sua fama de santo de pau carunchoso, impediam à bicada as fêmeas de se aproximarem do cemitério; e elas próprias troçavam cruelmente do pobre perdigão, aleijado desasado e velho -- e o pobre Pedro, se porventura acabou converso pela própria pregagem, nem por isso deixou de cobiçar a perdiz alheia.

Mistificações

A ninguém fica bem dizer mal de um morto -- até os seus arqui-inimigos hoje protestam amizade de três décadas. Mas ouvir, como acabo de ouvir na TV2 à Sandrinha, que morreu um dos maiores génios do séc. XX -- porra, é de mais. Que descobriu S. Jobs, para além da arte de nos vender aquilo de que não precisamos? A Teoria da Relatividade (restrita e alargada), a Mecânica Quântica, a Teoria das Cordas? Acaso descodificou o genoma humano? Que medicamentos, que tratamentos médicos lhe devemos? Foi ele que preparou as missões Apolo ou que ajudou sondas a voarem para além de Júpiter, outras a descerem em Marte? Inventou os computadores, criou o HTML, lançou a Internet? Foi ele que escreveu alguns dos melhores romances, que publicou poemas que marcaram esse século, que realizou os filmes mais emblemáticos? Ajudou de forma marcante o terceiro mundo? Devemos-lhe a paz nalguma região conflituosa do planeta? O fim da fome, de doenças endémicas? O seu legado, se é que há legado, em que consiste, resistirá ele ao Tempo?
Morreu um homem ainda novo, o que é sempre terrível. Feito de fraca carne humana, que ganhou e deu dinheiro a ganhar a muita gente. Mais nada. Que descanse em paz. E que todos os seus fãs, essa gente que passa a noite a pé à espera de ser dos primeiros a comprar o último brinquedo da maçã, me deixe em paz.

Ocaso

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ferido d'asa (2)

II
Acordou ao anoitecer. Ali não poderia ficar, qualquer raposa ou doninha dele faria o jantar. Arrastou-se por entre dores terríveis, quase a desistir, até que, às cegas, logrou alcançar a saída. Fora, a lua cheia iluminava o campo, onde ir, onde dormir? O bando andaria longe, as perdizes sobreviventes dispersas e aterrorizadas, incapazes de lhe valer mesmo se as encontrasse – e nem forças para o chamamento havia. Ah, se fosse pombo empoleirar-se-ia em alto ramo – e como, se tinha a asa derribada? Também escondido em moita seria facilmente encontrado pelo faro dos inimigos e, incapaz de fugir, terminaria os seus dias entre dentes esfomeados, de nada lhe valendo ter escapado a cães e caçadores.
De um dos lados, o silvado acabava em barreira. Subiu-a penosamente e num esvoaçar desesperado, quase de uma asa só, saltou largo, longe, aterrando bem em cima das silvas – que trespassaram as penas e o feriram dolorosamente. A salvo dos inimigos de quatro pernas, não o estava porém dos voadores, e enfiou-se o mais que pôde dentro do silvado.
Não dormiu. As dores martirizavam-no, Cristo pregado numa cruz de silvas, como ele inocente coroado de espinhos, como ele vítima da ferocidade dos homens. Ali se deixou ficar, imóvel para que os picos o não martirizassem mais, bebendo as gotas de orvalho, debicando – alimento estranho para papo habituado a grãos – as doces amoras, coisa de se manter, de sobreviver, náufrago em mar de silvas ondulando ao vento logo acima da sua crista.
A primeira visita que teve foi do peneireiro. Bicho peneirento. Avistara-o lá das alturas em que caça, olhos penetrantes de falcão, pousou, não logrou alcançar Pedro, bem defendido pela agudeza dos picos. Ficou por ali a dar-lhe conversa, tal e qual como os políticos e os economistas fazem com os humanos: -- Compadre, vais morrer de qualquer maneira. Sabes bem que já não te safas. Posso livrar-te do sofrimento. Uma bicada minha e acaba-se tudo. Que me dizes?
-- Vai-te...
-- Malcriadão. Mas enfim, perdoo-te a ofensa, estás nas últimas, deliras já. Corresses tu pelos campos com o teu bando e queria ver-te a falar-me assim. Enfim – e levantou aos céus o olhar cínico --,  perdoai, Senhor, as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. É o teu destino. Vais morrer. Precisas de me matar também?
Pedro não respondeu. Precisava de poupar saliva, o Sol atravessava a vegetação sem se picar e queimava o perdigão como se fora Verão.
-- Vá, fala, diz alguma coisa. Sabes que te admiro, o maior perdigão d'Aqui e d'Alèm. O mais vivaço. O maior cobridor. Nenhum outro tinha bando com tanta fêmea. Sempre cumpridor das obrigações para com cada uma delas, bem o vejo lá de cima. Queres agora acabar vilmente, a apodrecer neste silvado, devorado pelas formigas, sem proveito para ninguém, nomeadamente para mim, que só te não comi antes porque não quis?
-- Vai-te... , tornou a responder o malcriado. Nunca me caçaste porque sou mais esperto e mais ligeiro do que tu. Não fora a arma de fogo do Homem e nunca chegarias à fala comigo. O que faço com a minha carcaça só a mim diz respeito. Fica para aí o dia inteiro a palrar como gralha, que é bom morrer com companhia. Pode ser que os caçadores voltem por mim…
O peneireiro agitou-se nervoso, olhou em volta receoso. Ao longe, latiam cães. De caça? De guarda? O ladrar é o mesmo… E prudentemente o falcão bateu as asas, elevou-se nos ares fora do alcance de espingardas, nas alturas de onde podia vigiar Pedro, se ousasse sair a procurar refúgio no arvoredo.
À noite veio a raposa, veio a gineta, veio a doninha, todas com muita conversa, a propor-lhe expedita e grátis eutanásia. Veio o furão, animal medonho, vampiro dos coelhos, a cobiçar-lhe o sangue – e pouco havia. Mas nenhum animal se conseguiu aproximar.
Passaram outros dias. Precisava de sair, comidas as amoras da redondeza. E Pedro, numa madrugada, quando os inimigos nocturnos se tinham já resguardado e antes que os dos ares se levantassem, ora empoleirando-se, ora esvoaçando, alcançou a barreira. Furtivamente, embrenhou-se por entre o arvoredo. Com tanto azar que, descobriu-o depressa, era outra vez dia de caça.
Tiros e mais tiros. Gritos, latidos. Outra vez tiros. Vida infernal, a dos animais do campo, cara a liberdade, custosa a sobrevivência, por todo o lado tantos inimigos, os piores são os caçadores e os seus cães, piores porque ferem longe e nem sequer matam por fome…
Do alto do outeiro, o perdigão estendeu a vista e assistiu horrorizado às caçadas. Pareceu-lhe que dois lugares escapavam à sanha matadora: junto das casas e perto do cemitério, onde uma placa colocada pelos homens tinha sinais esquisitos que Pedro bem via mas não compreendia: SANTUÁRIO. Foi para lá que se dirigiu.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ferido d'asa

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha

Logo aos primeiros tiros, Pedro Perdigão tombou redondo por terra. Baque tremendo, dor terrível, sufoco, poeira e sangue – outro resignar-se-ia ao fim inelutável, não ele, Pedro Perdigão.
--- Busca, Fagote! Busca a perdiz! Por ali, ela foi por ali!
Ah, destino ingrato, cair de tiro, morrer abocado por rafeiro, sexo transmudado como se fora paneleiro!
Latidos excitados, Pedro corre ligeiro evitando as dentadas, ziguezagueia, ora o acossam da esquerda, ora o acometem da direita, para onde virar, por onde fugir, a cachorrada vem de todo o lado, -- Busca, busca o ferido!
(Assim está melhor, morrer por morrer que seja como macho, senhor do harém d’Aqui e d’Além.)
Tenta a canzoada atalhar-lhe o caminho, impedi-lo de alcançar o silvado vizinho, Pedro faz das tripas coração, esvoaça um pouco, o suficiente para lhes passar por cima, eis túnel apertado dos coelhos, por lá entra como se animal da terra fosse, os cães seguem-no, na sua excitação nem sentem a dor de cada arranhão, de fora, esbaforido o caçador, incentiva, ameaça, manda – mas não há cão na matilha, por pequeno que seja, que caiba em passagem tão estreita. Pedro avança, espuma de cansaço, de dor, as feridas do tiro rasgadas pelos espinhos acerados das silvas salvadoras, e, a salvo dos perseguidores, desmaia, exausto e exangue.

Empatas

Preciso de uma disciplina de ferro para conciliar trabalho, escrita, família, agricultura e karaté. Ora hoje, terça-feira, dia em que tenho poucas aulas, levantei-me decidido a continuar o romance em que trabalho. Pois não é que um conto nasceu na minha cabeça e teimou em se pôr à frente? Como sempre me sucede, a única maneira de me livrar de empecilhos como este é escrevê-los, para poder passar  adiante. Foi o que fiz. Mas, para castigo do seu atrevimento, e porque lhe não quero dar importância -- que não tem--, publicá-lo-ei aqui e no Facebook, secção a secção.
Não é fábula: falta-lhe a moralidade final; não é história infantil: nem a linguagem, nem, sobretudo, o conteúdo,a tornam recomendável para crianças; não é narrativa para leitores exigentes, com claras conotações literárias, intertextualidades e cidades do jet set. Não é um produto de árduo labor, suor da minha fronte. É apenas uma historieta.
Porque a escrevi então e, mais grave ainda, porque a publico? Porque, coisa rara, me diverti com ela. Nem sempre a escrita é sofrimento.

Do silêncio

No dia 26 de Janeiro do corrente ano, e num período extremamente difícil da minha vida, tomei uma decisão de que ainda me não arrependi: não voltar a fazer comentários em blogues (exceptua-se o Facebook, mas não é um blogue). O respeito que tenho pela minha palavra tem-se sobreposto à tentação de manifestar concordâncias e discordâncias nos blogues que admiro e diariamente sigo.
A cada dia que passa, a cada leitura das caixas de comentários, mais me convenço de que tomei a decisão acertada: os blogueres lidam bem melhor com elogios (e, sobretudo, com a lisonja) do que com opiniões contrárias; por outro lado, não faltam leitores a exprimir opiniões semelhantes às minhas, bem melhor do que eu conseguiria fazer -- sem que me possam acusar de ser movido por sentimentos mesquinhos.
Foi o que aconteceu hoje, com este post.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Sabedoria familiar

O meu bisavô Zabel dizia: "Quem diz mal de si é bruto." Logo eu havia de degenerar e esquecer os sábios conselhos deste meu antepassado, aos quais  poderia acrescentar o "Gaba-te cesta, que sábado vais para a vindima!"
(Infelizmente, a vindima de sábado vai ser a pior dos últimos anos, certamente por culpa da troika.)

Militância policial

Grande sinal de esperança deram os polícias hoje aos portugueses: ao vê-los tão empenhados na luta pelos seus direitos convenci-me de que doravante se não esquecerão dos nossos e nunca mais chegarão atrasados ao local do crime. Tremei, bandidos, a polícia está cheia de energia, nem sabeis o que vos espera!

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Leitura obrigatória

Este post de Rui Rocha, no Delito de Opinião, sobre o drama da colocação de professores. Com o receio de que num futuro não muito longínquo o drama passe a farsa.

Aux armes, citoyens



Sem pretender ser melodramático, notícias como esta 




fazem-me suspirar pela grandeza dos antepassados, que mais do que medir as consequências, agiam e lutavam, certos ou errados, mas segundo as suas consciências. Aux armes, citoyens -- grecs, portugais -- formez vos bataillons. Le jour de la gloire est arrivé.Para que vis déspotas não sejam os senhores dos nossos destinos.

sábado, 24 de setembro de 2011

Treino de Instrutores e Avançados

Hoje, em Leiria. No programa, kihon e kata e kihon e kumité. Direcção: Vilaça Pinto sensei.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Treino de instrutores e avançados

24 de Setembro, na sede do CSK Leiria, junto ao castelo. Início às 10H30. Direcção: Vilaça Pinto sensei.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

sábado, 17 de setembro de 2011

Pragas 2

Que doença esta que atinge já várias cepas? Começam a ficar negras, as uvas murcham... Será black-rot? Muito agradeço a quem me puder ajudar, identificando a doença e indicando tratamento.

Pragas 1

O trabalho que os coelhos me dão! E eles têm 24 horas por dia para descobrir como comer-me as couves. Duas redes, uma enterrada, outra mais acima, que já aprenderam a saltar a vedação. Sem protecção, comem os olhilhos das couves acabadas de plantar e elas morrem. Se alguém conhecer meio de os afastar, legal e que os não moleste fisicamente, agradeço que mo indique.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Elogios e críticas

Pensava eu que os meus escritos eram ignorados, com a excepção de um punhado de leitores, em boa parte familiares e amigos. Ora nos últimos dias fui surpreendido por duas mensagens, uma elogiosa, que não consegui publicar, outra crítica, publicada como comentário. O autor da primeira delas diz que leu uns contos meus e gostou em particular de um deles, o que me deixou deveras satisfeito; já a segunda mensagem critica a minha vaidade, fazendo de mim um caso notável de arrogância e de presunção, isto por eu ter aqui noticiado -- há um ano! -- que então me foi atribuído o Prémio Irene Lisboa. Apreciei sobretudo a tentativa de diminuir a importância do prémio Irene Lisboa: diz o cavalheiro que não é nenhum Prémio Pessoa. Pois não é: o Prémio Irene Lisboa foi-me atribuído em concurso género "prova cega", ao contrário do Prémio Pessoa, que é dado a personalidades seguindo um rotativismo quase previsível. (julgo que foi desse prémio que escreveu Eduardo Pitta algo como "não é um prémio, é uma comenda". )
É noite, estou cansado, que andei a plantar couves, os olhos fecham-se-me. Por isso, colo as duas mensagens neste post, e quem tiver paciência para as ler que as julgue. Ah, não sou mestre em Ciências Literárias, nem sei o que seja isso: sou mestre em Linguística pela Faculdade de Letras de Lisboa, onde defendi em 2001 dissertação intitulada Para o processamento de argumentos não realizados in situ.
MENSAGEM 1
Professor Cipriano:

Espero que o desgaste físico e psicológico inerente à profissão, não interfira com a sua produção literária.
Tive oportunidade de ler : Crime na capital e também outros contos que divulgou. Gostei particularmente do Padeiro.São imagens muito fortes.

Continuação de bom trabalho
João Castelo Branco
MENSAGEM 2
José Cipriano Catarino é um caso sério de egocentrismo na literatura portuguesa. Repare-se no destaque a negrito que resolveu fazer ao facto de o júri ter escolhido, por unanimidade, o seu conto, a concurso com mais 200 trabalhos.
Talvez para alguém com quase 60 anos de idade, com mestrado em "ciências literárias", devesse ser embaraçoso fazer gala com um texto medianamente escrito, e que só denuncia o amadorismo do Concurso Irene Lisboa. Mas não para Cipriano Catarino. Pelo contrário, resolveu celebrar a vitória com pompa e circunstância (isto não é um Prémio Camões), anunciando no seu blog as horas a que foi contactado dando-lhe a notícia de que havia vencido o prémio. Como se do nascimento de um filho se tratasse...
A cereja no topo do bolo (não me consigo conter) é a frase entre comas que surge no cabeçalho do seu blog, excerto do livro "Do lacrau e da sua picada". Não que seja uma frase sem sentido ou com falta de mosto literário, mas parece que Cipriano Catarino faz o trabalho de uma verdadeira editora, na tentativa desenfreada de publicitar a sua magna obra.
Não me leve a mal, caro senhor. Acho que devemos todos continuar a escrever. E, principalmente, a tentar escrever bem. Mas sempre bafejando humildade nos nossos escritos e nas nossas atitudes.
Leia a crítica e entenda-a como uma chamada de atenção.
De resto, os meus sinceros parabéns!

Grande Couceiro

Tinha a República dois ou três anos quando meu bisavô Zabel foi preso pela tropa e conduzido ao quartel, no Mosteiro de Alcobaça.
-- Meu alferes, este saloio vinha rua abaixo a dar vivas ao Paiva Couceiro, Gritava ele: "Força, Couceiro valente! Não há pai para ti, grande Couceiro!"
O alferes olhou severo o meu bisavô, que tremia como varas verdes. -- É verdade isto?
-- Ó senhor...
Repelão e berros: não se trata o senhor alferes por "ó senhor" -- ou pensas que estás a falar com gente da tua igualha?
O oficial, apaziguador: -- Diga lá, bom homem, porque é que gritava pelo Paiva Couceiro.
-- Ó senhor... Queira desculpar, senhor alferes, É que não há burro como o meu, isto com licença de Vossa Senhoria...
--- Burro?
--- Sim, chamo Couceiro ao meu burro por via do seu mau costume de dar couces. Mas tirando esse defeito, nem as mulas aqui do quartel se lhe igualam.
Desnecessário seria dizer que foi imediatamente libertado, com uma recomendação: que não voltasse a gritar pelo Paiva Couceiro na via pública.
IMAGEM: João Alfaro

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A crueza das estatísticas

Tenho amigos que escrevem por prazer. Abençoados. E dizem não compreender que a escrita possa ser tortura. Que se o fosse, não escreveriam. Abençoados. Pois eu vejo-me como um carpinteiro. A aplainar, a polir, a envernizar constantemente. Não gasto os dicionários porque utilizo sobretudo os electrónicos. Sempre abertos, à distância de um clique e para confirmar as acepções de palavras que conheço bem. E há a investigação, nome pomposo para o trabalho de leitura e recolha de materiais. 
Enfim. Não é o choradinho costumeiro que me leva a escrever estas linhas. É que consultei as estatísticas do Word relativas ao novo romance em que trabalho e fiquei com pena de mim mesmo:
Começado a 22 de Maio de 2011
6.607 minutos de trabalho, que é como quem diz mais de 110 horas
145 revisões
Apenas 65 páginas a 1,5 espaços. Se fosse pago à hora... Se fosse sequer pago...
Nenhuma certeza de o conseguir terminar. E note-se que trabalho nos tempos livres, sem prejuízo das aulas, reuniões, testes, vigilâncias, correcção de exames nacionais de 12º ano (1ª e 2ª fases), avaliação de desempenho, uns relatorizitos, desses com que a profissão se diverte. Não muitos, que tenho uma boa mão-cheia deles em atraso. Como foi possível trabalhar tantas horas no meu romance? Resposta: férias. E disciplina férrea.

Os nossos amigos de Peniche

Tenho a firme convicção de que a Grécia não sairá sozinha do Euro. Mal parecia e não seria sinal suficiente para apaziguar os mercados, como agora se designam os especuladores que emprestam a juros de 100%. Como não acredito que a acompanhem países de Leste, o "espaço vital" da Alemanha pelo menos desde Hitler, adivinhem que país acompanhará os gregos na bancarrota e como eles receberá idêntico convite para sair do euro e da UE.
Se formos os escolhidos, sobreviveremos? Creio que sim. É o que fazemos desde 1143. Se abandonarmos as ilusões. Se não esperarmos mais dos nossos amigos europeus do que dos velhos amigos de Peniche. Para quem se não recorda, aquando da ocupação francesa, aguardava-se ansiosamente a chegada de uma força inglesa que tinha desembarcado em Peniche; mas os nossos amigos de Peniche preferiram pilhar também eles a nossa terra a enfrentar os franceses; e quando mais tarde os derrotaram, não só lhes forneceram transporte e lhes permitiram levar o produto do saque, como lhes garantiram protecção contra a fúria popular.
(Para informação mais rigorosa, ler Ir pró maneta, de Vasco Pulido Valente)

Obama e a crise europeia

Já aqui repetidamente escrevi que nada entendo de finanças, sempre sublinhando que foram os entendidos que nos conduziram ao actual estado de coisas. Só não esperava ouvir Obama culpar a Europa pelo descalabro das economias mundiais, quando os EUA, ao que por cá consta, estão em pior situação e ele, tal e qual o nosso Sócrates, se limita a apresentar aos americanos promessas optimistas. Yes, we can. Palavras, promessas. Nada de sólido, nada de substancial. Político de plástico. Pura gelatina política, como disse de outro Manuel Maria Carrilho.

(Só consigo interpretar a culpabilização da Europa à luz da velha história da mulher que aconselhava a filha: --- Chama-lhes putas! Chama-lhes putas, filha, antes que te chamem a ti!)

Falir sim, mas devagar

Agora que a nova imperatriz europeia conseguiu aquilo que queria e para que tanto trabalhou -- a falência da Grécia -- vê-se atrapalhada com as consequências para os bancos alemães. Atrasará portanto o processo, o tempo suficiente para garantir que o gregos, mesmo depois de falidos, ficarão obrigados ao pagamento dos créditos alemães.
Não sei o que é mais repugnante: se o cinismo de Merkel, se a subserviência dos governantes gregos.

domingo, 11 de setembro de 2011

C'est trop facile

C'est trop facile d'entrer aux églises
De déverser toutes ses saletés
Face au curé qui dans la lumière grise
Ferme les yeux pour mieux nous pardonner

Tais-toi donc Grand Jacques
Que connais-tu du Bon Dieu
Un cantique une image
Tu n'en connais rien de mieux

C'est trop facile quand les guerres sont finies
D'aller gueuler que c'était la dernière
Ami bourgeois vous me faites envie
Vous ne voyez donc point vos cimetières

Tais-toi donc Grand Jacque
Et laisse-les donc crier
Laisse-les pleurer de joie
Toi qui ne fus même pas soldat

C'est trop facile quand un amour se meurt
Qu'il craque en deux parce qu'on l'a trop plié
D'aller pleurer comme les hommes pleurent
Comme si l'amour durait l'éternité

Tais-toi donc Grand Jacques
Que connais-tu de l'amour
Des yeux bleus des cheveux fous
Tu n'en connais rien du tout

Et dis-toi donc Grand Jacques {2x}
Dis-le-toi bien souvent
C'est trop facile

De faire semblant.
(É muito fácil
É muito fácil
fingir...)

sábado, 10 de setembro de 2011

Jornalismo calhandreiro

Como comadres intriguistas, aproveitam todas as oportunidades para atiçar as animosidades, incendiar os ânimos: Ricardo Carvalho contra Paulo Bento, este contra Mourinho, Seguro contra Assis, Passos Coelho contra Gaspar, Gaspar contra Catroga, PSD contra CDS, PS contra PSD... 
Diz-se que disse. Descontextualizam as afirmações, deturpam as frases, extraem à martelada conclusões, torcendo os verbos  a seu bel talante: "espero que" será notíciado como "ministro declara" ou "ministro promete". Investigar, estudar, informar com objectividade? Para quê, se dá trabalho e não vende? 
O interesse nacional, a necessidade de nos unimos em torno de princípios, de respeitarmos acordos, de silenciarmos aquilo que não deve ser público porque é do foro privado, ou releva de opiniões irrelevantes, ou dos disparates que todos dizemos, sobretudo quando a cabeça nos ferve ou o cansaço nos aturde?
Nada disso. Quanto pior melhor.
Incendiários, digo eu.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Check-up

-- Diga lá então de que é que se queixa.
-- Doutor, estou bem de saúde, não me queixo de nada.
O médico levanta os olhos e encara o "paciente" pela primeira vez. Impaciente, que a sala de espera do Centro de Saúde está cheia.
-- É que fumo que nem um cavalo...
-- Ah, quer que o ajude a deixar de fumar...
-- Não, doutor. É que também bebo como uma esponja...
-- Quer então deixar de beber e de fumar...
-- Não, doutor. Quero que me passe uns exames para saber se posso continuar a beber e a fumar.

Terão lido?

Segundo o Jornal da Madeira, 
Ora Jerusalém é, como toda a gente sabe, de Gonçalo M. Tavares. O romance de Mia Couto, também ele excelente, intitula-se Jesusalém.
Acrescenta o referido jornal que
O júri premiu o livro de Mia Couto pela originalidade da intriga e pela «linguagem dúctil e permeável»,...
Descontando a gralha "premiu", no caso irrelevante, que diabo é isso da «linguagem dúctil e permeável»? Algo que dispensa a leitura da obra premiada? Tão boa, insisto, que não faltam razões para lhe atribuir prémios, não sendo necessário inventá-las.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Carrossel

...e lamentava novamente todos os momentos desperdiçados por não ter reparado que os dias desfilavam velozmente como os cavalinhos do carrossel da feira, sempre correndo, ora subindo, ora descendo, — Mais uma volta! 'Tá a andar! Entravam crianças, saíam adultos, aqueles que de fora olhavam viam apenas rostos e corpos que rodavam, bem agarrados ao cavalo de pau ou rodopiando em banco rotativo, e na vertigem que as voltas causavam, não sabiam já se os velhos que de lá saíam, — O quê, já acabou? Passou tão depressa!, não seriam as crianças que tinham visto pouco antes a entrar...
Entre Cós e Alpedriz
Pois é, vai começar o meu 36º ano lectivo, 38º de descontos, uma vez que comecei a trabalhar em 1973.Sem queixumes, mas já sem o entusiasmo de antigamente, graças à Milu e aos que se lhe seguiram.
FOTO: Estrasburgo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

C'est le pinard qui sauvera la France

Mas receio que não salve a Grécia: nem todo o seu vinho chegará para embebedar o ciclope alemão, vazar-lhe o único olho e devolver a liberdade ao povo grego, a quem muita falta faz um astucioso Ulisses, condutor de homens. Só me ocorre sugerir aos helénicos que bebam e rebebam, para esquecerem não a vergonha de beber, mas a impossibilidade de pagarem juros de 100%.

Está tudo grosso?

Perguntava há tempos João Jardim num congresso do PSD. Bom, se estivesse ainda hoje tudo (i.e., toda a gente) grosso(a), seria menos mau: ninguém veria as contas da Madeira e, sobretudo, esta notícia passaria despercebida:

Juros gregos a 1 ano perto de 100%


Pois não é que passou? Vi o telejornal do Canal 2 e não ouvi qualquer referência. Não fora eu ambientalista, logo amigo de poupar água, e deixaria de beber do meu vinho à refeição.

sábado, 3 de setembro de 2011

Cortes e impostos

Com o país cortado a mais não poder ser e ajoujado ao peso dos impostos, sugiro a esse ministro que parece saído de péssima rábula dos Gato Fedorento um corte que muito urge e mais tarda: corte as suas próprias intervenções. Ou, o que será pior medida porque teremos não apenas de o sofrer, mas ainda de o continuar a ouvir, que se auto-aplique pesado imposto de cada vez que abrir a boca em público. Imposto que pode ser extensível aos comentadores televisivos, que já nem sei qual é o pior mal, se aquele que sofro na carteira, se o dos ouvidos...

Campo Maior, cidade das flores

Nuvens negras, aguaceiros, os estragos do temporal da véspera neste estranho verão alentejano, nada faz desanimar o povo. Nem as noites gastas a abrir as flores de papel que a chuva fechou, nem as madrugadas a substituir as desbotadas por outras reservadas para desastres como este, nem a lida debaixo de guarda-chuva a resguardar com plástico arcos e colunas. Bem-dispostas e bem-dispostos como se tivessem dormido boas noites, orgulhosos da façanha da vila, que não é pouca coisa dar tecto às ruas com milhares de milhares de flores de papel, agradados com o número inesperado de visitantes, acolhem-nos com cordialidade em vias de extinção noutras partes. E, vendo-nos desconfortavelmente abrigados de chuvada que tinge as ruas com as cores que antes eram das flores, trazem-nos cadeiras de plástico e com a humildade de quem faz coisas grandes sem de tal se aperceber, contam sem amargura nem arrependimento o que têm batalhado para que o mau tempo não destrua a decoração da cidade e frustre as expectativas dos visitantes.
Que diferença, este povo que se não lamenta nem desiste, nem pergunta se é em vão que labuta na preservação da beleza artificial que a natureza inveja, abomina e destrói, e o país que as notícias matinais me revelam, dirigido por políticos como Vítor Gaspar, que a televisão pública, na sua atávica sabujice, passa durante tempo interminável a exemplificar as melhores técnicas soporíferas em aula na Universidade de Verão do PSD. Aula tão boa, tão boa, que os contribuintes, cada vez mais sobrecarrados com cortes e impostos,  têm também de gramar. Porque uma desgraça nunca vem só.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Setembro (reposição)

"Eis Setembro, que chega fresco e risonho como a Primavera, após outro Agosto infernal, de calor e de incêndios. Não nos iludamos: nada voltará a ser como dantes. Setembro jamais será Abril, mesmo que este Sol e esta luz nos queiram convencer de que a Primavera dura todo o ano e a juventude é eterna, mesmo que a cidade pareça a mesma, com o castelo indiferente à passagem dos séculos e o Lis correndo sempre ao encontro do irmão gémeo, para juntos procurarem o mar, sonho de todos os rios." Ler mais

Assim começa Do lacrau e da sua picada

(Imagem do pintor João Alfaro)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sombras de varas tortas

Assombra-me (e inspira-me, confesso-o) a sinceridade com que certas mulheres mentem na blogosfera. Mor espanto me fazem quando mentem dizendo verdades. Artistas, há que reconhecê-lo. 
Não se trata já de vida dupla, a virtual a ofuscar a real, matéria sobre a qual escrevi recentemente um conto, ainda inédito. É algo muito mais interessante, como se fosse a pessoa a perseguir a sua própria sombra, corrigindo-a, afinando-a pelo diapasão da moda blogosférica. 
Trabalho fascinante, insano embora, este de endireitar a sombra da vara torta. Será objecto de conto logo que tenha tempo para o escrever.

domingo, 28 de agosto de 2011

Comércio tradicional

Alguém me conta: -- Vou montar um negócio.
E eu, conservador, faço aquelas perguntas cautelosas: ramo, localização, clientela, previsões de crescimento, de sobrevivência até...
-- Ora, dá para os outros, também há-de dar para mim.
Num país em que os empresários têm em média o 6º ano, que mais se pode esperar?
A ilusão durará uns meses. Depois ficarão os credores a arder e os concorrentes solidamente estabelecidos mais próximos da falência, destruídos em guerras de preços nesta concorrência desleal.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A descida da ladeira

Insisti com a minha filha mais nova, então na adolescência, como insistia com os meus alunos, para que lesse literatura. Dei-lhe A Morgadinha dos Canaviais, obra que me havia encantado na minha própria adolescência.
E no fim-de-semana seguinte, estranhando a ausência de comentários: -- Que tal o romance?
-- Não li e não vou ler.
Fiquei siderado.
-- Porquê?
-- Porque já li 8 páginas e ainda vêm a descer a ladeira!
(Lembras-te, Sofia?)
ADENDA: A Sofia lembra-se  e corrige-me: não foi As Pupilas do Senhor Reitor, como inicialmente escrevi, mas a Morgadinha. Não desciam, mas subiam. Há muito que não releio Júlio Dinis. Aqui vai o início do romance:
Ao cair de uma tarde de Dezembro, de sincero e genuíno Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
Uma grande merda, reconheço-o hoje.  Aprende-se muito com os filhos.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Tempo bem aproveitado

No seu blogue, o pintor e amigo João Alfaro faz um inventário algo amargurado ("Mas não sou capaz. Sou vencido pela preguiça, pela incapacidade de criar...") do seu trabalho no último ano, o primeiro da sua reforma. João, quem como tu aproveitou um ano de reforma para fazer tudo isto pode orgulhar-se do aproveitamento do tempo. Um abraço e desculpa roubar-te a imagem.

Da agiotagem intolerável

Sempre que aqui escrevo sobre economia e finanças começo por deixar bem claro que nada percebo do assunto, salientando, no entanto, que foram os entendidos que nos conduziram à presente situação de pré-falência e à perda de independência nacional, talvez mais acentuada do que durante o domínio filipino. E dana-me ver que não apenas a situação actual é insustentável, como nada se faz para romper com ela: a Grécia paga (pagará?) juros de 46% em empréstimos a dois anos. Isto é agiotagem no pior sentido da palavra, e a Grécia devia simplesmente declarar insolvência, tramando os banqueiros que a chulam. Porque quem rouba a ladrão...
Dir-me-ão: nós não somos a Grécia. Pois não. Ainda há pouco Obama também dizia que os EUA não eram a Grécia, não eram Portugal. E viu-se no que deu, com a descida quase imediata do rating dos EUA.
Estamos todos no mesmo barco, à mercê dos mesmos piratas, caminharemos na prancha uns após outros, isto se não os enfrentarmos com as armas da sacanagem, essas com que nos querem esfolar vivos.
Que armas temos ao nosso dispor? O medo. Devemos substituir o medo de que não nos continuem a emprestar pelo receio dos credores de não receberem os juros a que se julgam com direito e, eventualmente, o capital já investido. Que não haja pruridos de consciência: trata-se de dinheiro roubado, que agiotagem é crime. E os agiotas têm os sentimentos na carteira.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Oiros

As festas do Minho e os anúncios omnipresentes "compra-se ouro, máxima descrição" provam a quem dúvidas tiver que o oiro, ou ouro, voltou a estar na moda. E eu lembrei-me de já ter antes escrito sobre o nobre metal. Foi Entre Cós e Alpedriz:
Atrai as atenções uma mota com side car, ribombando como os foguetes que regularmente atroam os ares, estremecendo vidros e obrigando a semicerrar as pálpebras enquanto se aguarda o próximo estrondo, já anunciado pelo sibilar na subida aos céus. Prontamente todos a rodeiam, admirando-a — Ah, como gostariam os rapazes de poder ter um dia uma BMW reluzente como aquela! Também as mulheres se aproximam, mas não é a máquina que as seduz, é o conteúdo que o dono e a mulher retiram do barco com rodas e expõem: brincos, pulseiras, anéis, fios, tudo pregado a tabuinhas que fazem as vezes de expositores, reluzem em tons de oiro e de prata. Conversam com o casal de vendedores, relembrando a jóia que o marido lhes comprou há anos, quando a vida corria melhor, inteirando-se da valorização de então para cá:
— Quanto é que vossemecê me dava agora por esta pulseira? E alardeiam orgulhosas a mais-valia conseguida com o investimento ou dizem à vizinha que sim, aqueles fios são lindos, mas não se comparam com o que herdaram da avó, entretanto enriquecido e adornado com uma libra de oiro. Os ourives confirmam sorridentes, certos de que a melhor publicidade vem das clientes satisfeitas, assim nem é difícil convencer o povo de que oiro e prata são dos poucos bens duradoiros neste mundo, valorizando sempre, pelo que vale a pena o sacrifício, gozarão elas a beleza das jóias, fruirão os herdeiros do seu valor, sempre crescente.
Mulheres com outro poder de compra chegam-se, tomam nas mãos os artigos, sopesam-nos, criticam a qualidade para ouvirem da boca dos negociantes juras de honestidade e quilates de garantia; deixar-se-ão convencer e procurarão os respectivos homens...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A verdade e o azeite

Sempre me fez espécie ver tantos  a viverem à grande e à francesa, apesar de, em muitos casos, terem salários bem inferiores ao meu. Como é possível, interrogava-me sem os invejar, férias no estrangeiro volta-não-volta, jipes, carros e carrões, vivendas luxuosas, roupa da moda e de marca para os filhos, a que não faltam também os telemóveis topo de gama... E eu a vê-los prosperar, culpando o meu estômago por não passar da cepa torta, já que as estroinices são pagas com extras que, em anos bons, vou ganhando, tudo declarado às finanças. 
Bem me telefonavam dos bancos, bem me enviavam SMS a oferecer milhares de euros postos na conta sem precisar de fazer nada. Em vão. Agora bancos e devedores queixam-se. O pior é que, tal como com o BPN, sobrará para mim. 

E ele a dar-lhe...

Eduardo Pitta continua a sua cruzada em prol da avaliação de professores. E eu tinha resolvido não voltar a falar da dita cuja, mas os seus posts tiram-me da preguiça. Meu caro Eduardo (posso?), o problema para mim não é, e nunca foi, a avaliação. Desde miúdo que adoro exames e avaliações. Quando era mais ingénuo, também eu defendi uma avaliação que, se não excluísse do ensino doidos varridos, baldas, ignorantes e convencidos, pelo menos não lhes permitisse progredir por igual na carreira. O problema é que, com as avaliações que foram sendo implementadas, me convenci de que estes seriam os excelentes e os muito bons, mestres nas evidências e na arte de encontrar buraco onde progridem, sem alunos e não raro sem trabalho. Ou seja, a desenvolverem as tarefas que o actual sistema de ensino sobrevaloriza, em vez do trabalho reles de dar a cara perante turmas de 28 alunos, uns 56 pais e uns tantos avós, frequentemente descontentes com as notas do professor, que não dá vinte a cada um dos pupilos. 
É só isto. Proponha o Eduardo um avaliação decente, com assistência às aulas, análise de currículos,  provas públicas, assiduidade, cumprimento do dever, etc., e cá estarei a apoiá-lo. Avaliações à la Maria de Lurdes, não, muito obrigado.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A chaminé ainda fuma

Estávamos em 1973 e eu era servente de pedreiro em Leiria. Naquele momento estava a dar serventia a dois estucadores, um velho, pelos meus padrões da época, outro um jovem da Prisão-Escola, que por bom comportamento estava autorizado a trabalhar fora. Tudo corria bem até que entrou o encarregado. O jovem presidiário, como se tivesse o diabo no corpo, deu em atirar loucamente massa para o tecto, alisá-la velozmente, máquina de estucar de 20 anos a querer impressionar o encarregado. O "velho" continuou no seu ritmo, sempre certo, calmo. E o encarregado, que fora carpinteiro antes de passar a costa direita:
-- Ó F, está a ver como é que se faz? -- apontando o bom exemplo, encarcerado por assalto violento à mão armada a casal de octogenários.
O estucador zangou-se. O que contava era o trabalho feito no final do dia, quantidade, mas sobretudo  qualidade. O encarregado enfureceu-se, a conversa subiu de tom, ambos exaltados, enquanto o jovem presidiário, com a força da idade, estucava como se com ele nada fosse.
E o mais velho: -- O quê? Então é isso? A chaminé ainda fuma e a despensa tem batatas. 
Arrumou a trouxa e foi-se embora, naquele tempo em que não havia subsídio de desemprego.

Viagens gastronómicas

Almoço no Alto Pina, Alcorochel, Torres Novas. Queijo fresco, pão  caseiro, jaquinzinhos com arroz de tomate, costeletas de borrego grelhadas, tinto da casa, melão, cafés. Infelizmente não havia os pastéis de nata do costume. A simpatia da dona, tudo muito bom, 20 euros, duas pessoas. Vale a pena.

Metam-no no cu

É a resposta a todos aqueles que atiram à cara dos outros com "o dinheiro dos meus impostos". Da primeira vez que ouvi a frase, há um ano, passavam jactos sobre a praia e um miúdo pergunta:
-- Pai, são F16?
E o progenitor, sábio e pedagógico:
-- Lá andam esses cabrões a queimar "o dinheiro dos meus impostos!"
Depois foi o finlandês que interpelou Passos Coelho num restaurante da Madeira durante a campanha eleitoral: -- Espero que não esteja a pagar com "o dinheiro dos meus impostos!"
Ontem, os manifestantes anti-papa em Madrid: -- Não com o "dinheiro dos meus impostos!"
Sugiro que comecem a trazer na lapela a declaração de IRS, o IMI, os descontos para a Segurança Social, para que eu não fique a pensar que são eles que vivem dos impostos e das contribuições dos outros. Que eu pago escrupulosamente, até porque não tenho como fugir. E não me queixo, apesar de saber que parte deles e delas vai para subsidiar malandros e para pagar reformas que eu nunca terei, muitas vezes para gente mais nova do que eu, que já tenho 38 anos de descontos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Os Maias

Excelente post de Pedro Correia: o Eça de Os Maias (e, acrescento eu, o do Crime do Padre Amaro e dos Contos) é um prazer inesgotável. E pensar na guerra que me espera a tentar convencer os miúdos do 11º ano: ao menos, olhem para o romance em vez de se contentarem com a leitura das sebentas que resumem as histórias e as dissecam no pior estruturalismo -- ou, pior ainda, ficarem pela versão telenovelesca.

Hodie uinum bibo

Contava eu um jantar na tasca da Tia Maria*: queijo curado, sopa de feijão, pão muito bom, alheira e morcela grelhadas, tinto a cair na necessidade, umas costeletas de borrego também elas grelhadas a compor... Logo um conhecido, desses que se privam de viver em nome de (um certo conceito de) vida saudável)  se chega irónico, a tentar fazer-me azia: -- Só colesterol!
Não fumo porque não gosto, faço exercício porque gosto, como bem e bebo sem me embebedar, não estou nesta vida para me mortificar mais do que o necessário, pelo que essas conversas de colesterol, índice de massa corporal, adoçante em vez de açúcar, nada de álcool, alimentação hipo-calórica, etc., nunca me convenceram. E estudos como este, se não me tranquilizam, que a Velha da foice não se esquecerá de mim, permitem-me continuar a saborear a comida sem remorsos nem má consciência. Porque, como alguém gravou numa taça há milhares de anos em língua pré-latina, hodie uinum bibo, cras minime.

*A tasca fica no Livramento, Porto de Mós, do lado direito quando se sobe. Vale a pena.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A meados de Agosto

A meados de Agosto o tempo muda e o calor do Verão dá lugar, por dois ou três dias, à fresquidão outonal. Começa a morrinhar ao cair da noite, e essa chuvinha molha-tolos, como uma cortina de água suspensa entre céu e terra, cola-se às pessoas, às árvores e às casas, tomba depois já reunida em grossas gotas, enlameia o pó dos caminhos, some na terra sequiosa.

sábado, 13 de agosto de 2011

Escrever e ser lido

Escrevo neste blogue consciente da quase inutilidade do acto -- e não me levo tão a sério que esperasse ou desejasse que fosse diferente. Não quero influenciar ninguém, embora tenha a veleidade de aventar ideias, frequentemente em bruto, dispensando-me de argumentação que as possa tornar mais aceitáveis. E surpreendo-me por vezes, seja ao consultar a estatística, seja ao ver um dos meus posts recomendado para leitura e num dos meus blogues favoritos, o Delito de Opinião. Ao Pedro Correia, mais uma vez, o meu muito obrigado.

Se fosse em Lisboa?

Aquando dos motins de Londres, os jornalistas ingleses revelaram coragem e civismo ao confrontarem os gatunos com os seus próprios actos, com perguntas do tipo "Acha correcto o que está a fazer?" 
E eles desculpavam-se com insinuações de racismo: "É por ser um jovem negro, desculpem ser um jovem negro", ou armando-se em novos robins dos bosques: "Estou a recuperar o dinheiro dos meus impostos".
Se tivesse sido em Lisboa, qual teria sido a atitude dos nossos repórteres televisivos, alguns dos quais se comportam como incendiários sociais, mais preocupados em amplificar os conflitos do que em relatá-los com objectividade?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Bom Londres é Portugal

Os motins de Londres revelam algo que o discurso politicamente correcto tentou fazer esquecer como coisa do passado, irrepetível no presente: a barbárie ameaça constantemente a civilização e ai desta última se não se souber defender com a violência necessária e suficiente, fazendo orelhas moucas ao canto dessas sereias para quem bater é um acto cívico, se o espancado for um polícia, ou uma violação dos direitos humanos se o agredido for um meliante que pilha e incendeia. À la guerre comme à la guerre, n'est-ce pas?
(Título: pilhado a Fernão Lopes, que, como ninguém, nos mostra o que a turba é capaz de fazer e os motivos que inventa para se justificar -- a morte do Bispo e daqueles que com ele jantavam, a tentativa de assalto à judiaria...)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Coisas que traz o Verão

A uns, evasão; a quase todos, transpiração; à Ivone, inspiração. Muito bom este poema. Parabéns.

domingo, 7 de agosto de 2011

Herdanças e heranças

Uma velhota esteve nove anos morta em casa. Durante esse tempo, não teve herdeiros, suponho. Ninguém a visitou, ninguém lhe telefonou, ninguém estranhou a sua ausência o suficiente para meter dentro a porta da casa e saber o que lhe teria acontecido. Culpa do Estado.
Ah, a velhota tinha bens. Pois os herdeiros apareceram e até "pensam" (a notícia sugere que quem pensa é a advogada) processar o Estado:

Herdeiros não sabem dos bens da idosa que esteve morta nove anos dentro de casa

Os herdeiros da idosa que esteve morta durante nove anos em casa, em Rio de Mouro, continuam sem conseguir apurar onde se encontram os bens que estavam na casa antes da venda do imóvel em hasta pública.

Silly season

(1) Em certos empregos, um mês de trabalho dá direito a férias:
...[Passos Coelho] vai estar uns dias com a mulher e as filhas "para recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai", notando que "vai ser um período mais curto do que seria a nossa vontade, mas será o possível dentro das actuais circunstâncias".
(2) O que quer o homem dizer com "recuperar tempo do [seu] papel enquanto marido e pai"? Que governar é tempo perdido? Que "marido e pai" é um papel (representado, suponho)? Que o tempo perdido pode ser recuperado?
Desisto. Ou serei eu a precisar de ir não sei para onde recuperar algum tempo do meu papel enquanto marido e pai. Apenas sugiro que da próxima se desenfie uns dias sem dar cavaco a ninguém e, sobretudo, ao dito cujo. Ah, e não precisa de nos querer mostrar que é marido dedicado e pai extremoso. Já foi eleito.


sábado, 6 de agosto de 2011

A riqueza virtual

Bombardeado diariamente com imbecilidades noticiosas, vejo-me obrigado a, mais uma vez, meter a foice em seara alheia, falando da área económico-financeira, de que nada entendo, como a minha própria situação evidencia. Em defesa da minha pretensão, um argumento que julgo supremo: foram os entendidos, os génios das finanças, que conduziram o Mundo ao ponto em que se encontra. Portanto não saberão muito mais do que eu... Aqui vai.
Poucos animais se preocuparão com riquezas. Uma das excepções será o cão, pervertido por longo convívio com o homem. O meu, por exemplo, se acaso tem abundância de ossos, enterra o excedente; mas como esquece onde enterrou o seu tesouro, escava todo o jardim em busca da sua riqueza perdida...
O ser humano, complicado por natureza, tem desde há muito procurado algo que o superiorize em relação aos seus semelhantes: conchas, contas de vidro, quinquilharia, gado, artefactos em metais até há pouco perfeitamente inúteis, como ouro e prata. A riqueza resultava, não raro, da acumulação de objectos sem finalidade utilitária, frequentemente em associação com a arte. Havia, claro, riquezas sólidas, como a terra, casas, meios de produção, mas pelo reduzido peso que têm na economia actual, esqueço-as neste post.
Hoje, o que há é, antes de mais, especulação. Suponhamos que um pintor impressionista vendeu um quadro. Essa venda incluía materiais, mão-de-obra, talento artístico, criatividade, etc. De onde veio o valor actual, milhares ou mesmo milhões de vezes superior ao da primeira venda, se nenhum valor foi acrescentado à pintura original? A resposta é: especulação. Uma empresa colocou no mercado acções, as quais  valorizaram astronomicamente relativamente ao preço de venda inicial? Especulação. Uma moradia foi vendida e revendida em curto espaço de tempo sempre com grandes valorizações: especulação. E para a especulação poder funcionar é necessário emitir cada vez mais papel-moeda, já esquecida a correspondência que em tempos houve entre as notas e riquezas mais consistentes, como o ouro. De modo que chegámos a um momento da história em que a riqueza é antes de mais especulação, com fraca ou nenhuma relação com a actividade produtiva. Assim, quando uma empresa reduz a produção, despede pessoal, as suas acções sobem e, inversamente, quando anuncia lucros e aumentos de produção, caem. Absurdo? Sem dúvida. Por isso abundam as notícias como esta:
As bolsas mundiais já perderam mais de 3,1 biliões de euros desde que a crise da dívida soberana na zona euro se instensificou, desde o princípio da semana passada, de acordo com a contabilização feita pela agência Bloomberg.
Aparentemente, não há qualquer relação entre a produção de riqueza não especulativa e a queda bolsista. Se assim for, as quebras ocorrem sobretudo na área especulativa, afectando o valor virtual e não tanto o valor real das empresas cotadas, seguramente bem inferior.
Será já no próximo ano que se lembram de mim para o Nobel da Economia?
ADENDA: veja-se também esta notícia:
Homem mais rico do mundo perde 8 mil milhões de dólares em quatro dias

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Reforma ao Sol

Se não chover. Vejo que o ministro Álvaro não consegue escapar à tentação de encontrar uma solução salvadora para a pátria, à imagem e semelhança dos seus antecessores. Tivemos Soares, que descobriu o milagre da adesão à CEE, Cavaco com a receita do bom aluno europeu, o seu ministro das Obras Públicas a cobrir de betão o país, Guterres e as Tecnologias da Informação (que em 2010 colocariam a Europa -- e Portugal -- à frente dos Estados Unidos), Sócrates e os magalhães...
Faltava-nos esta, fazer de Portugal o asilo da Europa. Senhor ministro, a trazer gente dos países nórdicos e do Reino Unido, não prefere as gajas boas que por lá abundam? É que velhos, a começar por mim, somos de mais e já nos falta a genica para cuidar deste jardim à beira-mar plantado, quanto mais dos velhotes e velhotas que quer importar. 
Senhor ministro, dois conselhos: aprenda a calar-se e esqueça a pretensão de salvar a pátria. A não ser que a queira salvar das idiotices com que cada governante nos afunda mais um pouco.

domingo, 31 de julho de 2011

Citação

O mal que atinge um membro corta-se ou tolera-se;  quando atinge um organismo inteiro, o homem sabe que é então uma questão de vida ou de morte, ataca e defende-se. Mas uma criatura que perece por imprevidência, fraqueza, logro, não é o Homem -- e o povo sabe-o.

Agustina Bessa Luís, A Sibila

Povo manso

Tenho tanta dificuldade em compreender a projecção mediática que os noruegueses dão ao seu mais recente serial killer como a sua reacção mansa às chacinas que perpetrou. É que ainda não ouvi ninguém, dos dirigentes políticos e policiais aos homens e mulheres entrevistados na rua, a exigir apuramento das responsabilidades e castigo exemplar do assassino, a quem dão livre acesso aos media para livremente expor os seus dislates como se tivesse acabado de ganhar as eleições. Parecem um pacato rebanho de tímidas ovelhinhas conformadas a balir lugares-comuns politicamente correctos. Muito cristão, sem dúvida. Mas que ninguém se espante se o exemplo frutificar.

sábado, 30 de julho de 2011

Regresso

Sete meses depois, dos quais quase quatro internada em hospitais, a maior parte do tempo nos cuidados intensivos e intermédios, por três vezes à beira da morte, eis a minha mãe de volta. Hoje em minha casa, numa festinha de alegria pelo seu regresso do mundo das sombras.


Islamitas e islamistas

Incomodado com a constante referência do Público a "islamistas", fui conferir ao dicionário da Porto Editora. Como previa, só conhece "islamitas":
 adjectivo e substantivo 2 géneros
que ou pessoa que segue o islamismo;


(De islame+-ita)
Não haverá dicionários lá pelo jornal?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Jion

A minha tokui-gata (kata favorita). Gostei desta interpretação (Didier Lupo) e das respectivas aplicações (bunkai):

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Atadores e atacadores

Ainda os sapatos (não, não fui aos saldos). Ouve-se frequentemente dizer: vou atar os sapatos. E eu interrogo-me: um ao outro? Ou será apertar aqueles cordões chamados atacadores? Será que uma das acepções do verbo atacar (vou atacar os sapatos) está em vias de extinção? Que vamos passar a ter atadores em vez de atacadores?

Coisas difíceis

Comprar um par de sapatos (um sozinho não serve para nada). E devia ser fácil: 39, castanhos ou pretos, de atacar, confortáveis, discretos e a prometerem durar. A vendedora, já impaciente com a esquisitice, tenta impingir-me uns.
-- Pois, mas os atacadores fazem parte dos sapatos e quando se partirem fico descalço.
Olha-me assarapantada com tanta ignorância: -- Mas são uns sapatos de vela!
-- Minha senhora, não os levava nem que tivessem motor-fora-de-bordo!

terça-feira, 19 de julho de 2011

Rua Garré, Madri e outras que tais

Irrita-me a moda -- sinal de velhice, isto de me irritar a moda -- de não pronunciar as consoantes em que terminam certas palavras, geralmente nomes próprios que têm, ou aparentam ter, origem estrangeira. Por exemplo, João Baptista da Silva Leitão, que considerou nome e apelidos impróprios para poeta e escritor (-- Já leste as Folhas Caídas? Sim, do Silva Leitão!) acrescentou-lhe Almeida Garrett. Com dois tês, para, dizia ele, lerem pelo menos um. Pois hoje basta uma reportagem sobre a rua que tem o seu nome para termos úlcera de estômago, à força de ouvir referir a Rua Garré.
Outras vezes são as notícias de Madri, o final botado fora -- mas, estranhamente, nunca ouvi Párri, mas sempre Paris... 
Eu, por mim, sem medo de que me julguem ignorante, persisto em pronunciar à portuguesa os nomes próprios estrangeiros, na linha do que defendia o nosso primeiro gramático, Fernão de Oliveira, a propósito dos estrangeirismos:  nós cá trataremos de os amansar.

domingo, 17 de julho de 2011

Leituras

Leio sobretudo  por duas razões: por prazer e para aprender. Sem isto, bem pode um autor  receber encarecidos encómios dos críticos -- e como eu confio neles, no seu bom gosto e, sobretudo, na isenção! -- , pode até ir posar nu para a auto-estrada, que eu, na melhor das hipóteses, folhearei a sua obra-prima, lendo-a em diagonal, apenas  para ter a certeza de que estou a ser meramente preconceituoso e não estupidamente preconceituoso.
De momento, estou a ler The Fabric of the Cosmos: Space, Time, and the Texture of Reality [Kindle Edition]. Interessa-me muito mais o Espaço e o Tempo do que, por exemplo, as desventuras de um quarentão que quer ser pai. Enfim, há gostos para tudo e longe de mim pretender insinuar que querer compreender o Universo, o Espaço e o Tempo seja mais interessante do que uma paternidade serôdia.

sábado, 16 de julho de 2011

Alves dos Reis

Génio das finanças português. Atribui-se-lhe a pergunta: "Que é roubar um banco ao pé de fundar um banco?" Na sua genialidade decidiu produzir notas falsas exactamente iguais às autênticas. Com sucesso. Apenas -- um desses azares, comparáveis às "notações" da Moody's -- um caixa de um banco ficou perplexo ao encontrar duas notas iguaizinhas, com a mesma matrícula. Por culpa deste picuinhas, Alves dos Reis teve um fim triste, indigno do seu talento para as finanças.

ADENDA: o meu amigo Acácio duvida de que a trafulhice de Alves dos Reis tenha sido descoberta graças ao episódio das notas iguais. É muito provável que eu esteja enganado: reproduzi a anedota que ouvi em miúdo. Descoberto dessa ou de  outra forma, Alves dos Reis teve um fim de vida sofrido e, o ponto que me interessa, foi seguramente um génio incompreendido das finanças, antecipando em quase um século a política financeira dos Estados Unidos: emitir dólares sem cuidar da correspondência entre o papel e o respectivo valor em ouro ou em qualquer outra riqueza.
Já agora, Acácio: não terás na tua colecção uma das notas de Alves dos Reis?

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Regresso

De dez dias de férias em Lagos. Reencontro com estatísticas, relatórios, mail atrasado e, em breve, a 2ª fase dos exames. Felizmente (para mim, que já não estou na praia), o tempo refrescou. Ah, e há também umas notícias com piada: o Obama a comparar os EUA com Portugal, dizendo de nós o que os nossos governantes ainda há dias diziam da Grécia: nós não somos...
Decididamente, o capitalismo atingiu o estádio supremo da estupidez. Ao ponto de o presidente americano não conseguir perceber que emitir dólares não é produzir riqueza. Nas últimas décadas, os génios das finanças não fizeram mais nem melhor do que Alves dos Reis ou a D. Branca. Conseguem entender?
Yes, we can.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Nascido a 4 de Julho

O Miguel, que hoje fez três anos. Como diz o povo, são eles que nos fazem (sentir) velhos, tão depressa crescem.
Olho negro, nariz negro, grita IÁ, respondem os irmãos IÁ, influências do Panda Kung Fu. Talvez mais tarde se venham a interessar pelo karaté.

domingo, 3 de julho de 2011

Ufa!

Terminei há instantes pesada tarefa que por esta altura todos os anos me espera. Até que se fartem de mim e chamem gente mais jovem. Enfim, conteúdo funcional, nada a acrescentar. Salvo que me dói a mão e até tenho calo no dedo anelar direito de tantas vezes escrever o meu nome. Quase oitenta vezes seguidas, ao ponto de já nem ter a certeza de como me chamo. 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Strauss-Kahn revisitado

Por uma e outra vez, manifestei aqui dúvidas sobre a violação de uma empregada de hotel pelo então boss do FMI. E revoltei-me ao ver multidões em fúria, à porta do tribunal, a injuriá-lo, gajas histéricas a exigirem a sua cabeça porque se não é culpado desta, é-o certamente de outras, numa versão moderna da fábula do lobo e do cordeiro: Se não foste tu, foi o teu pai! -- afinal, cenas déjà vues aquando do processo Casa Pia. Os ricos, os poderosos, os influentes, que as multidões adulam, são sempre culpados e merecem expiar os pecados da turba que os lincharia alegremente. Sempre foi assim, de Cristo aos regicídios, talvez por isso o Santo Ofício queimasse uns pobres diabos para evitar que a populaça assasse os grandes diabos. Catarse.
Não me surpreende, portanto, que hoje os media noticiem fragilidades na acusação. Só me surpreende que tenha sido preciso tanto tempo -- o suficiente, porém, para que Strauss-Kahn fosse substituído no FMI -- para verem o óbvio. E às numerosas indignadas deste país e d'ailleurs, só posso sugerir que da próxima vez se lembrem da dúvida metódica para que não baste uma criatura gritar que foi abusada para crucificar alguém. Não é apenas a presunção da inocência; é a diferença entre a barbárie e a civilização.

Da entropia

A segunda lei da termodinâmica é uma formulação científica do pessimismo: num meio fechado, a entropia aumenta sempre. Toda a organização se consegue à custa do caos criado – e este cresce sempre. Prosperaram sociedades organizadas na Europa e na América do Norte, tão ricas que até dispensavam migalhas para ajudar as vítimas do caos necessariamente criado em África e na Ásia; tão ricas que depois das matérias primas passaram a importar também os operários -- até concluírem que era preferível deslocalizar a produção e os seus custos humanos e ambientais. E a entropia diminuiu no antes chamado Terceiro Mundo, aumentando consequentemente no Ocidente. O caos da Grécia, da Espanha, não é fenómeno passageiro e localizado: é um sinal dos tempos. Num meio fechado como é o planeta Terra, a entropia aumenta sempre.

ADENDA, só necessária porque (1) Portugal é o país da esperança, seja no regresso de D. Sebastião, seja na protecção da Senhora de Fátima e (2) Portugal é o país da retórica (enfim, de uma certa retórica, onde todos se convencem de que é tudo uma questão de palavras e de conversa fiada -- talvez por isso os políticos saíssem maioritariamente de Direito, isto antes de saírem das jotas):

Contrariamente às leis religiosas ou jurídicas, uma lei científica não conhece excepções, seja aqui seja em Andrómeda: ou está correcta ou não está. E todos os dados disponíveis, toneladas, terabites deles, evidenciam a correcta formulação das duas leis da termodinâmica.

Ajax

Quando o jovem Ajax partiu para a guerra de Tróia, o pai recomendou-lhe que se encomendasse à protecção da deusa Atena. Recusou: com a ajuda da deusa dos olhos garços até o mais fraco dos homens brilharia na guerra. Não, ele haveria de vencer sem a ajuda de Atena e, se preciso fosse, contra a própria deusa – que, vingativa, o enlouqueceu e o precipitou na desgraça. E Ajax empalou-se, lançando-se sobre a própria espada.
Ai, ai, Ajax!
Ai, ai, Ajax! Quase vinte e cinco séculos se esboroaram, tudo continua na mesma: ai de quem não suplica a protecção dos deuses e deusas, fingindo que não lhes vê os pés de barro!