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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Cor serpentis

Nas últimas décadas do séc. XX, embalados pelo desafogo económico do pós-guerra, que acabou por se fazer sentir em Portugal por volta dos anos 90, esquecemos que, como no título do romance de Yefremov, o capitalismo tem coração de serpente. Caíram por terra utopias socialistas e comunistas, encarnadas na União Soviética, que colapsou, na China, com a sua invenção “um país, dois sistemas”, nas caricaturas albanesa e norte-coreana. O capitalismo, esquecidos os sofrimentos do passado, foi aceite como o sistema menos mau, por preservar a liberdade, e o sofrimento das classes trabalhadoras nos séc. XIX e XX encarado como fatalidade histórica, finalmente ultrapassada pelo progresso e pela dura conquista de direitos: as oito horas, pelas quais tantos e tantas deram a vida, um salário decente, férias, apoio no desemprego, na doença, na velhice...
Porém, esse capitalismo do passado sobrevivia. Longe de nós, por exemplo no Paquistão, com crianças de oito e nove anos a labutar de sol a sol carregando tijolos escaldantes, acabados de sair do forno ­­-- como nos Esteiros; na China, onde os operários trabalhavam (e trabalham) em condições intoleráveis, quase idênticas às dos operários europeus na revolução industrial. Mas, acreditávamos, os orientais percorreriam o mesmo caminho que nós e acabariam por se libertar das grilhetas, haveriam de conquistar direitos básicos, cumprir regras de protecção ambiental, gozar de protecção na doença e na velhice.
Paulatinamente, o capitalismo ocidental, aparentemente civilizado, deslocalizou as fábricas para esses países, onde se trabalha por pouco mais do que o pão ou o arroz de cada dia e não há qualquer respeito pelo ambiente, movido não apenas pela ganância, pela sede de lucro que lhe é inerente, mas sobretudo pela procura absurda das riquezas virtuais e astronómicas em que os ganhos resultam não tanto da produção de bens e da prestação de serviços, mas principalmente  da especulação bolsista. Absurdo que faz com que as acções de uma empresa caiam quando tem lucros e distribuí dividendos, e subam quando anuncia dezenas de milhares de despedimentos. Ou quando compra outra bem rentável -- para a fechar. Ou quando...
Absurdo e imoralidade, de mãos dadas. Brilhantes correctores da bolsa e dos grandes grupos financeiros jogam com a vida das pessoas, empresas e países, indiferentes à miséria que causam, apenas interessados nos maiores ganhos dos seus accionistas, muitos dos quais nem em dez vidas a gastar à tripa-forra conseguiriam dissipar as fortunas já acumuladas. E eles, quais drones que assassinam à distância e do outro lado do mundo, sem ver os olhos do homem, da mulher, da criança cuja miséria agravam, enchem-se de orgulho pelas proezas diárias, são bem remunerados, promovidos, imperialmente gratificados pelo mal quotidiano que infligem.

Quando, anos atrás, após vigarices merecedoras de pesadas penas de prisão, os gestores desses grupos financeiros sentiram avizinhar a falência, eles e os seus gurus, que sempre tinham defendido a independência do capital face ao estado, exigiram protecção dos governos – e conseguiram nacionalizações originais, passando para o sector público os seus “activos tóxicos”, as quais podem ser resumidas na fórmula “o contribuinte suporta os prejuízos, nós embolsamos os lucros”. Não lhes foi difícil persuadir os governantes, que assim acautelaram o seu futuro: fora do governo, espera-os um cargo bem remunerado num conselho de administração, a que jamais acederiam não fora a política.
Agora, em nome da competitividade, querem igualar as nossas condições de trabalho, direitos laborais, salários e modo de vida aos que vigoram no terceiro mundo, e não o inverso, generalizando a precariedade, baixando os salários, endurecendo as condições de trabalho, diminuindo o subsídio de desemprego, dificultando o acesso à saúde, proletarizando os professores, lançando na miséria os velhos…
Entre nós, em nome da credibilidade internacional, e para que os grupos financeiros nos emprestem o dinheiro de que carecemos para lhes pagar os juros, espreme-se o povo, arruína-se o país: os juros baixam na razão directa dos tormentos infligidos, o que agradará aos calvinistas germânicos, aos cristãos fundamentalistas americanos, uns e outros convencidos de que a pobreza é castigo de Deus pela nossa preguiça, e a riqueza deles recompensa divina pelo seu labor.
Que ninguém se iluda: o capitalismo tem, sempre teve, sempre terá, coração de serpente. Era já assim quando Jesus zurziu nos ricos do Seu tempo -- uns santos, se comparados aos actuais. Os quais, tal como no Seu tempo, não têm qualquer pejo em combinar a hipocrisia religiosa com práticas ignóbeis. Fariseus, chamava-lhes Ele. Porém, para todos aqueles que, como eu, duvidam da vida eterna e da recompensa ou castigo após a morte, a Sua mensagem admirável, passados dois mil anos, pouca esperança de transformação do presente nos deixa. Decididamente, o Seu reino não é deste mundo. 
Que nos fica então, sem cristianismo, sem socialismo -- que, disse-me há quase quarenta anos João Machado (1), pode demorar dois mil anos a chegar, mas é inevitável?
Não sei. Por isso, tendo escrito por várias vezes neste blogue que o actual estado de coisas não é sustentável, fiquei-me por solução de sobrevivência possível, inspirada na resiliência do nosso povo.
Não surpreenderá, portanto, que pouco me motive a algazarra dos media em torno dos mandaretes nacionais da Troika, e me abstenha até de reproduzir os respectivos nomes, irrelevantes como eles próprios. Não passam de marionetes ao serviço da serpente.

(1)   Em jantar que reuniu perto de uma centena profissionais do MRPP da zona de Lisboa que haviam saído do movimento em protesto contra linha dominante e a que fui convidado por um amigo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Na rota da Maria da Fonte

Já aqui dei conta do meu fascínio pela Maria da Fonte, a quem se atribui a liderança da revolta do Minho, em 1846,
"feita por homens de saco ao ombro, e de foice roçadora na mão para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem, e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos..."
Costa Cabral, ministro do Reino, 20-4-1846
Interessa-me a época, o contexto, algumas das personagens, as motivações, e, sobretudo, o mito. E aproxima-se o momento de, com tempo, visitar os locais dos motins. Não espero encontrar muito dessa época -- algumas das paisagens, a luz, os cheiros, pouco mais. Da mulher (ou mulheres), e cento e sessenta e sete anos depois, restará apenas o nome, o hino, algumas estátuas. E o fantasma,  como assegura Camilo Castelo Branco:
"Ah, a alma da Maria da Fonte  adeja por ai, paira sobre este povo lusitano, para quem é forçoso que vigore sempre uma tolice messiânica ou revolucionária, quer ela se chame D. Sebastião ou Maria da Fonte."
Itinerário:
Fafe, Famalicão, Póvoa de Lanhoso, Vieira do Minho.
Depois: Terras do Bouro, Montalegre, Boticas, Vidago, Chaves, Valpaços, Mirandela, Macedo de Cavaleiros, Bragança.
Miranda do Douro, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta, Almendra.


Olha a Lua!

Dizia La Rochefoucauld que algumas pessoas nunca se teriam apaixonado se não tivessem ouvido falar de amor. Vou mais longe: muita gente não teria olhado ontem para a Lua se as televisões não dissessem que estava maior e mais brilhante ­-- omitindo que essa é a pior altura para observar o nosso satélite, já que o brilho oculta os pormenores...

Assim vai o Mundo, assim andam muitas pessoas a mando da TV: vêem o que ela lhes aponta, protestam quando manda, festejam trivialidades com idênticos esgares, gritos parecidos, semelhantes pulinhos. 
No entanto, algumas delas dizem-se mais informadas, mais cultas, mais q.ualificadas. Pois deveriam pensar que tão ou mais importante é o espírito crítico, sem o qual a informação pode ser manipuladora, a cultura uma farsa, a qualificação uma treta.

FOTO: 25-8-2010. O luar de Agosto só tem rival no de Janeiro.

sábado, 22 de junho de 2013

Património da Humanidade

Grande ideia essa, a de classificar os nossos bens mais preciosos como Património da Humanidade, pondo-os a salvo de credores e hipotecas. Infelizmente, os sportinguistas descuidaram-se.

Lugares comuns

Dizem: é preciso dar a volta à situação. Ora, pergunto eu, isso tem lógica? Se dermos a volta à situação, não acabaremos na mesma posição?

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Rimas, aliterações e assonâncias

Rentes de Carvalho alerta neste post para o desprezo que alguns escritores parecem mostrar pelo ofício da escrita, ao centrarem o seu labor na história, não fazendo, ou relegando para outros -- editor, revisor, etc. --, o trabalho fastidioso de lapidação da frase e de polimento de texto.
Tais autores esquecem algo que é óbvio para os poetas: o som é tão importante como o sentido, pelo que, não raro, ao descurarem o trabalho formal, prejudicam o ritmo e a elegância do texto.
Porém, atrevo-me a acrescentar aos conselhos do mestre um outro, extensivo, aliás, a todos os conselhos de todos os mestres: depois de os ter interiorizado, é preciso esquecê-los. Ir mais além -- ou jamais passaremos de imitadores. Primeiro aprender com humildade, depois aplicar com zelo, finalmente seguir o nosso próprio instinto, escrevendo segundo o nosso gosto.
Assim, as assonâncias, de que Rentes de Carvalho dá abundantes exemplos, tanto podem revelar desleixo do escritor como evidenciar uma intenção estilística. Neste caso, corre-se o risco de desagradar a certos leitores, que podem ver nelas expressão de mau gosto. Outros, pelo contrário, menos presos aos cânones, sabedores de que o escritor transgride frequentemente a norma, podem deixar-se enlevar pelo efeito encantatório das repetições.
Com efeito, se tudo na natureza se repete -- os batimentos do meu coração, nascer e pôr-do-sol, dia e noite, estações do ano, luzes, formas, cheiros, sabores, sensações, prazeres, sofrimentos --, se a poesia e a música assentam na repetição, porquê evitar a repetição de palavras e de sons na mesma frase?
Veja-se o que faz o Padre Vieira no excerto que se segue e que, contraditando Rentes de Carvalho no que concerne à utilização das repetições, confirma, no entanto, a sua chamada de atenção para a necessidade de o escritor proceder a apurado trabalho formal, palavra a palavra, frase a frase, parágrafo a parágrafo:
Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e, depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão, e começa a formar um homem, - primeiro, membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda; ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama; e fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Efabulações

Deux Pigeons s’aimoient d’amour tendre
(La Fontaine)
De manhã à noite, era um arrulhar permanente:
-- Tu, me amas tu?
E ele, roçando o pescoço no dela, bicando-a amorosamente, rodava sobre si mesmo, com a cantoria de sempre:
-- Duvidas tu? Duvidas tu?
O dono, que os comprara no mercado, detesta animais presos, e pombos, aprecia-os a voar em liberdade. Por isso, logo que o choco começou, abriu o pombal.
Ela foi a primeira a sair. Durante dois dias não voltou, deixando o coitado, sempre apaixonado, preso sobre os ovos. Bem a chamava, nos breves instantes em que abandonava funções para se alimentar:
-- Por onde andas tu? Por onde andas tu?
Em vão. Num telhado vizinho, ela acamaradava com outro bando, parecia até não lhe desagradar a corte constante de um macho das redondezas.
Até que voltou, como se nada fosse com ela, sem contas a prestar, explicações a dar.

Daqueles ovos, nada nasceu.
Habituaram-se os dois a sair, para esticar as asas, apanhar sol e chuva nos beirados, debicar livremente no quintal.
-- Tu, me amas tu?
E ele rodava pimpão: -- Pois duvidas tu? Duvidas tu?
Nova postura, novo choco. Nasceram dois borrachos.
Era uma lufa-lufa constante a alimentá-los. Trabalhava sobretudo o pombo, pai extremoso. Que ela, mais presente embora, dava as suas voltas, ausentava-se, por vezes todo o dia, regressava ao entardecer, ar cândido, santificado, de quem jamais faz asneira. Os borrachos cresciam vorazes, exigentes, sempre esfomeados, em constante piadeira : -- Papinha para mim! Papinha para mim!
Um dia também o pombo se ausentou por mais tempo do que o costumado. Piam os pequenos que é uma dor de alma: 
-- Papinha para mim! Papinha para mim!
Os lamentos chegam a telhado próximo, onde a mãe se deleita com os arrulhos do pombo vizinho, e acode pressurosa a alimentá-los.
Nessa noite, sussurrou crítica amargurada:
-- Tu sempre fora, tu sempre fora!
E ele, furioso, rodopia brioso:
-- Que queres tu, que queres tu?
Dias depois, ele deixou de dormir em casa. Avisto-o ao longe, em telhado soalheiro, a rodopiar garboso enquanto arrulha a pombita de bando numeroso:
-- Me queres tu? Me queres tu?
No pombal, ouve-o desconsolada a pobre companheira, ela que se esfalfa a jornada inteira para alimentar a ninhada.

Os dois pombos amavam-se ternamente…

FOTOS
(1) A pomba desamparada, com ar de pobre coitada, que não merece ser trocada.
(2) Os filhotes, já espigadotes, incomodados com estes dichotes.

domingo, 16 de junho de 2013

O campo vai à cidade

E leva umas lembrançazinhas, coisa de somenos na quantidade, do melhor na qualidade. Batatas novas, cebolas, alfaces, courgettes, umas cenouras, pêssegos carecas temporões, ameixas, ovos caseiros, de galinha e de codorniz...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Coisas da horta

"Semeia e cria, e terás alegria."

Ganhar e perder


Não pensar em ganhar. Pensar em não perder.
(Um dos vinte preceitos da arte do karaté)
Eu seria mais popular e a leitura dos meus textos mais apreciada se dissesse aos meus colegas aquilo que querem ouvir, se lançasse invectivas aos governantes, que abomino, se apelasse à guerra sem quartel nas greves em curso. Bem o sei, e é com profunda mágoa que reconheço não o poder fazer. Porque os estaria a enganar. Passo a explicar-me.
Se os dirigentes sindicais jogassem xadrez, teriam estudado cuidadosamente tabuleiro, disposição das peças, possíveis jogadas do adversário antes de lançarem à aventura toda uma classe que, apesar deles, ainda é das mais conceituadas aos olhos da população nacional. Jogariam para ganhar, ou, na pior das hipóteses, para não perder. Porque, neste momento, uma derrota aliena irremediavelmente o futuro dos professores (e o do país, mas essa é outra história).
Irresponsavelmente, arriscaram tudo em duas jogadas, atacando com torre e rainha: greve às avaliações, fácil, pois basta em cada um conselho de turma um professor fazer greve para que a reunião tenha de ser adiada por 48 horas, e a greve aos exames. Ora esta última dificilmente trará o almejado sucesso: se em cada agrupamento dez por cento não aderir à greve, haverá duas ou três vezes mais vigilantes do que o necessário. 
Em risco de xeque-mate iminente, resta-lhes, aos nogueiras, sacrificar a peonagem, seja implorando um qualquer acordo que lhes permita desistência aparentemente airosa, seja lançando-a em desesperadas manobras suicidas, como cordões humanos a bloquear escolas, cadeados nos portões e quejandos. Manobras dilatórias que não dignificam a classe nem, sobretudo, lhe asseguram qualquer ganho real, antes aumentam a confusão, a barafunda, o caos nas escolas -- e quem sofre com a degradação da imagem do professor, quem é?
Haverá recursos judiciais interpostos por sindicatos, associações de pais, professores. Mas enquanto decorrerem, e vem aí Agosto, chega o novo ano lectivo, o pavor dos horários zero, as colocações para alguns, a terrível mobilidade para outros, o desemprego para muitos.  Quem então tiver horário, respirará de alívio; quem o tiver perdido, terá pouca capacidade de intervenção útil, pouco mais podendo fazer do que descarregar a cólera em insultos nos blogues ou em recepções aos governantes.
Que fazer, pergunto, perguntarão os colegas que, furiosos, me tenham lido até aqui, repetindo a pergunta leninista?
Receio que nada do que façam altere a situação. Esta batalha, que os sindicatos tornaram decisiva, parece-me perdida -- e como gostaria de estar enganado!
Por isso, se tivéssemos dirigentes sindicais à altura da classe, estariam agora a estudar meticulosamente todas as possibilidades de derrota, para, recuando onde puderem, avançando onde for possível, minimizarem as perdas, ou construírem a vitória possível. 
Com estratégia evidente, em vez de palavreado oco.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Da luta dos professores

A profissão de professor, aparentemente invejada por alguns, nunca foi de vida fácil. Quando eu estava no activo, costumava dizer que devia ser a única em que só se pode mijar de 90 em 90 minutos. Das poucas que exige concentração total durante hora e meia, para logo, após intervalo minúsculo que mal dá para mudar de sala e ir às sanitárias, voltar ao mesmo. Um olho no burro, outro no cigano. A antecipar problemas, a tentar atalhá-los na origem, antes que pequena fagulha se transforme em incêndio dificilmente controlável. E, simultaneamente, a tentar ensinar algo que reputamos importante. Interpretar um poema, por exemplo.
Trabalha-se por prazer quando as turmas são boas, quando os alunos querem aprender e questionam o professor, exigem dele entrega total. Pelo que sairá exausto, vazio, para descontrair e recarregar após breves minutos de disparates na sala de professores  -- para nova sessão. Que pode ser com turma mediana. Daquelas que não se porta mal, apenas se está nas tintas para o que o professor diz. Ou uma da más, talvez com alunos embriagados, alguns aparentemente drogados, outros a provocarem zaragata, com os colegas, com o próprio professor. Talvez façam concursos de peidos, e interrompam constantemente o professor a queixar-se do mau cheiro, a querer abrir janelas para que a arruaça de fora e a de dentro se confundam numa só. 
(Dei por mim a desabafar: era professor de Português com formação em literatura e especialização em linguística, hoje trabalho como segurança. Sem os meios necessários e suficientes para impor a disciplina. Talvez por me saberem karateka, nunca me agrediram, embora, por vezes, pouco tenha faltado.)
E o resto. A burocracia estúpida, inútil, ridícula. A roubar tempo, muito tempo, escasso para aquilo que deveria ser o cerne da profissão: o trabalho com os alunos. Os pais, quantas vezes sobrecarregados com problemas, não raro a pedirem ajuda para se tentarem entender com os filhos. A desabafarem os seus dramas pessoais, conjugais, familiares, profissionais. Os avós, que tentam educar, na falta de pais que o façam, os netos. Angústias, sofrimentos alheios que levamos connosco para casa, agravados pelo desespero de pouco podermos fazer para ajudar quem precisa -- o avô cuja neta anda na má vida, o pai cujo negócio avizinha a falência, a mãe desempregada, aquela cuja filha adolescente engravidou...
Os conselhos de turma, As reuniões de grupo e de departamento, de clubes, de projectos. O serviço de exames. O trabalho de corrector, com prazos exíguos, grandes exigências, pressão enorme. E o resto. Tanto, tão fastidioso, que poderia ficar toda a noite a descrevê-lo.
Mas o pior está para vir. Ameaça de desemprego, precariedade, leccionação simultânea em várias escolas. Aumento brutal de horário, sem ter em conta que o trabalho do professor na escola é a parte visível do icebergue. De longe a menor. 
Não surpreende, portanto, que os colegas queiram lutar. Se eu estivesse no activo, fá-lo-ia, mesmo sabendo que ia perder. Mais uma vez por culpa dos sindicatos, incapazes de definir uma estratégia de luta que vise a vitória e não a propaganda. Ou porque querem os professores revoltados, descontentes, para os poderem usar quando lhes convém -- ou aos partidos de que são correia de 
.transmissão

terça-feira, 4 de junho de 2013

Ratos e homens*

Mais do que a incompetência, evidenciada até à exaustão, a actual geração de políticos prima pela cobardia. Intrínseca. Visceral. Basta ver, por exemplo, o comportamento ontem de Poaires Maduro ao ser insultado por um "popular". Incapaz de responder "sim, os palhaços abundam no país, como esse cavalheiro que aí grita comprova". Ou de o mandar bardamerda mais a conversa. Ou ir gritar com a puta que o pariu. Ou de resolver a questiúncula, não à bengalada, como o deputado Calisto Elói, mas, pelo menos, com uma sonora bofetada.
A altivez que os políticos fingem, querendo dar a entender que os cães ladram, a caravana passa, nada tem a ver com o acto cristão de oferecer a outra face. Para tal, falta-lhes a humildade e a coragem de, efectivamente, oferecer a face. Revela total falta de dedicação ao cargo que aceitaram e que os devia levar a, por maior que seja o medo que interiormente sintam, pensar "aqui sou mais do que eu" e, portanto, agir em conformidade, com total desprezo pelas consequências.
Escolhidos pelo aspecto e pela lábia, sabem vestir, cuidam do cabelo, da barba, das unhas. Metrossexuais. Faltam-lhes, porém, as maiores qualidades de um político, seja ele de esquerda ou de direita, homem, mulher ou outra coisa: ter convicções e tê-los no sítio. Para lutar por elas e pela dignidade do cargo que ocupa.
Ramalho Eanes, em campanha eleitoral pelo Alentejo, foi alvejado a tiro. Encolheu-se, escondeu-se no meio dos seguranças? De modo nenhum. Subiu para o tejadilho do carro tornando-se alvo perfeito, gritou: "É preciso mostrar-lhes que não temos medo!"
Mário Soares foi agredido na Marinha Grande. Era presidente da república e foi insultado por outro "popular" na Leirosa. Encolheu-se? Jamais. "Você está para aí a berrar..."
E seguiu-se uma lição de Português, incidindo sobre o significado de "berrar", e outra de educação cívica, repreendendo-lhe o comportamento.
Outros políticos, mais jovens (por exemplo, um do PS, de barbas, cujo nome me não ocorre, no Norte) têm mostrado que lhes não falta nem convicção nem determinação para enfrentarem a populaça açulada pelos caciques locais ou pelos "sindicalistas".
Mas são excepções. Que não chegam ao poleiro, empeçados precisamente pelas convicções e pelos princípios que os norteiam. Os outros, na sua maior parte, no governo ou na oposição, não passam de ratos. Não de esgoto, nem de sargeta, mas ratos finos. Por vezes, ratoneiros também. Aparentam bravura no seu habitat natural -- parlamento, comícios, reuniões partidárias, ou frente aos microfones da televisão. Mas é tudo fita, tudo postiço. Tremem de medo se umas velhotas lhes cantam  Grândola, Vila Morena.
Nunca partem a loiça, talvez com receio de estragarem as unhas. Desgraçam o país com as suas políticas, enfadam-nos com a sua lábia em que os chavões substituem as ideias, enojam-nos com a sua cobardia. Se confrontados com o passado, safam-se em beleza, explicando que se trata de "narrativas" diferentes. Porque, para eles, tudo é ficção. Excepto os proveitos pessoais, obviamente.
"Pura gelatina política", disse de um Manuel Maria Carrilho.
"De la merde dans un bas de soi" (merda numa meia de seda), disse de outro Napoleão.

(* Título de um romance de John Steinbeck que muito me marcou e cuja leitura recomendo.)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Em torno da poesia (2 de vários)

— José Cipriano, decoraste a poesia, como te mandei?
E eu, olhos baixos: — Sim, minha senhora.
(Era assim que tratávamos a jovem professora primária.)
— Vem então aqui dizê-la.
Tímido, intimidado, subi para o estrado e sem ousar levantar os olhos para as quatro classes, balbuciei, monocórdico:
Em cima desta mesa, desta mesa de estudo, tenho o teu retrato, Mãe! 
A professora queria expressividade, mímica, gestos largos, dramáticos. E eu, cada vez pior. A cabeça sabia o que fazer, como dizer. Mas a vergonha paralisava-me.
— Assim não dá. Vai-te sentar.
Obedeci rápido, antes que descarregasse no meu corpito enfezado a raiva que a possuía, frustrada por não poder impressionar o inspector que viria à escola naquela semana com declamação do melhor aluno, menos de cinco reis de gente...

(O poema de José Régio, Colegial, pode ser lido aqui)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Em torno da poesia (1 de vários)

A poesia tem sido presença constante e marcante na minha vida. Porém, como contarei em várias mensagens, nem sempre assim foi, e aquilo a que chamo poesia pouco terá a ver com muito do que hoje se abriga debaixo do seu guarda-chuva -- ou guarda-sol, que vem aí o calor.
Não escrevo poesia. Tal como não escrevo música, nem pinto. Cada qual é para o que nasce. Ou tem talento para essas artes, ou não tem. Eu não tenho, e descobri-o bem cedo.

Na adolescência escrevia umas quadras anti-fascistas piegas, coisas do género:
O pão que o diabo amassou
Será comido por ele só
Chorará então como chorou
Aquele de quem não teve dó!

Depressa evolui para formas mais livres, vazando a inspiração em textos atafulhados de imagens, tentando imitar  poetas como Daniel Faria (ainda hoje me encanta A Invenção do Amor, que motivou o meu terceiro romance), José Gomes Ferreira, José Régio...
Então conheci Federico Garcia Lorca, em carta do meu primo António, com poemas que dactilografara, tomado de admiração por esse poeta que descobrira recentemente. Aquela música entrou-me logo nos ouvidos, Verde que te quero verde, Ai, Antoñito el camborio! A morte sai e entra, a morte entra e sai... Que bela fogueira deram os meus "poemas"!
O golpe fatal nas minhas ambições poéticas, porém, foi dado quando li Pessoa, e por via dele, Whitman, Klebnikov, Maiakovski. Prévert mais tarde. Vi claramente visto o que é arte. Dei-me conta das  minhas limitações insuperáveis. Porque, ao contrário do que por aí se diz, o querer não é tudo. Não chega desejar ser águia para ter as asas, as garras, a bravura - arriscamo-nos a não passar de cacarejadores de metáforas.
Pior: não consigo impedir-me de aplicar esse filtro a tudo o que leio. Pouco escapa. E aquilo que escapa é, quase sempre, mais velho do que eu.
Estará a poesia moribunda, ou será dos meus pobres olhos, que teimam em apreciar velharias? Suspeito que nem uma coisa nem outra. Que a poesia continua viva e pujante, e o o problema estará no desfasamento entre qualidade e divulgação, como aliás, também sucede na prosa literária. Até porque muitos dos poetas são seres tímidos, apreciadores da sombra, a quem a exposição confrange e repugna.
(Continua)

terça-feira, 28 de maio de 2013

Compaginações

Caiu-me no goto o verbo compaginar, tão do agrado dos políticos. Quase tanto como as "narrativas" de que fala Sócrates, recauchutado em Paris. Só não sei como compaginar os prémios astronómicos (quase meio milhão de euros) dados pelos bancos que nós subvencionamos a alguns dos seus gestores com alertas como este, do Banco de Portugal, a avisar que a banca vai ter de continuar a assumir perdas.
Trata-se, seguramente, de uma outra "narrativa". Em que não será exigido, como não foi antes, a devolução desses prémios quando os negócios de ouro do ano passado se revelarem ruinosos talvez já no próximo...
Ah, se a vida fosse, para nós, pagantes,  tão fácil de rescrever como o são as "narrativas" dos banqueiros e dos políticos!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Leitura recomendada

Não sou muito dado a actividades sociais e fujo como o diabo da cruz dos eventos que me cheiram a feiras de vaidades, onde importa estar presente para ver e ser visto. Mas faço questão de participar  naqueles que me tocam, como foi ontem o caso do lançamento do livro de Pedro Correia Vogais e consoantes politicamente incorrectas do acordo ortográfico.

A apresentação, na Bertrand do Picoas Plaza, apinhada de gente interessada e atenta, coube  ao editor, a Pedro Mexia e ao autor. Divertida, esclarecedora, cativante, defendeu posições que eu mesmo, quando no activo, tinha reivindicado na minha escola, como o direito de os professores opositores se poderem declarar objectores de consciência. 
O livro, que li entusiasmado na viagem de regresso, constitui um estudo exaustivo sobre a génese e a implementação do acordo ortográfico de 1990, as suas vicissitudes e motivações, em Portugal, no Brasil, nos restantes países de língua portuguesa; põe a nu as incoerências, os disparates, as asneiras resultantes da sua aplicação (embora saliente aspectos positivos), e propõe um plano de acção claro, sucinto, exequível para resolver a trapalhada criada pela incompetência ou o desleixo de (pessoas que se dizem) linguistas e políticos. 
Bem fundamentado, claro na exposição, combina o rigor com a arte de bem escrever.
Apenas senti a falta de uma secção, mesmo que genérica, sobre as motivações económicas do acordo: encontros e conferências internacionais, com as inerentes mordomias, ganhos com a formação, guerras pelo controlo do mercado livreiro, substituição quase forçada dos dicionários e demais ferramentas de língua... Porque, pressinto, as motivações para a elaboração do acordo ortográfico de 90 e as posteriores pressões para a sua aplicação podem não ter sido sempre nobres e elevadas -- científicas nunca foram, nem pretenderam ser, como o livro deixa claro, citando um dos pais deste aborto.
Seria a ocasião de proponentes e defensores deste acordo ortográfico prepararem obra que desminta as evidências e rebata os argumentos apresentados por Pedro Correia, justificando a aberração em vigor. Seria, mas duvido de que isso aconteça, tal a solidez das Vogais e consoantes politicamente incorrectas, provavelmente estocada final no acordês e possível ponto de partida para emenda consistente das asneiras -- que um pequeno grupo não escolhido, não nomeado, trabalhando à revelia dos linguistas e demais intelectuais, impôs sem debate público à sociedade portuguesa, à brasileira, e quer impor aos demais países da lusofonia...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Avante, cidadões (II)

Tu quoque, Cavacus?
Ouvido e visto (por 2 vezes)  há pouco no telejornal da TVI quando o senhor professor doutor presidente recomendava as termas para a cura "dos diabetes" (sic) e dos cidadões espanhóis.
(Onde se prova que eu estava errado e o leitor João Andrade tinha razão.)
No muro do cemitério de Alpedriz, já perto do 25 de Abril de 1974, uma pintura, hoje grafíti ou grafito, expressava então o desencanto e a revolta popular:
"Homens da nossa terra! A nossa junta de freguesia está entregue a analfabetos!"

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Da inutilidade inútil


Rentes de Carvalho, estribado em longa experiência e saber, com este post reforçou as dúvidas que regularmente me atacam, concernentes ao esforço e tempo que gasto com a minha escrita, que a poucos interessa, menos ainda lêem: 
"a "literatura" há muito deixou de ser o que parecia, é um produto como o detergente e, como ele, tem marca, vende-se no supermercado. Infelizmente é produto que não lava, nem eleva."
É um facto — um editor disse-me, creio que já aqui o contei: "Que é que quer, você não dorme com o Pinto da Costa nem trabalha em casa de alterne...". Um facto que me deveria obrigar a repensar a minha dedicaçao à escrita, a orientar os meus esforços noutra direcção, talvez na do lazer.
Porém, acredito eu, o destino não se escolhe, não se altera facilmente. Pelo que só me resta prosseguir afincadamente com actividades que a razão me diz serem inúteis. 
Como o estudo. Que me levou a candidatar-me a um mestrado, motivado sobretudo pelo desejo de voltar à faculdade onde tinha estudado vinte anos antes, em circunstâncias difíceis, que me não permitiram então aprofundar matérias que me seduziam. Que, volta-não-volta, me incita a terminar o doutoramento em Linguistica Computacional.
Como o karaté, que ensinei durante trinta anos sem  ganhar um tostão que fosse, e em que persisto, mau grado os protestos do corpo. 
Como a agricultura, sempre arriscada, sempre trabalhosa, quase sempre ruinosa.
Uma vida laboriosa, preenchida, bem comida, razoavelmente bebida, a que faltará algum tédio, muito fastio, a darem charme a posts choramingas como este.
E volto às actividades inúteis, que não dão pão, nem prestigio. Porque tem de ser, porque não sei viver de outra forma.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Portugal é uma choldra ignóbil

Diz Eça n' Os Maias e nós, pelo menos desde então, repetimo-lo constantemente sob variadas nuances. Lá fora é que é bom, "felizes os que partem" (Cesário Verde), por cá aproveita-se o Sol e pouco mais, estivemos e estamos na cauda da Europa, é certo que Camões nos situa na cabeça, mas dá-se-lhe desconto, era poeta e tão mal a pátria o tratou...
Pois não é que li hoje isto?
"Portugal ocupa o 13.º lugar num ranking dos melhores países para se ser mãe, elaborado pela organização não-governamental Save the Children. A lista de 176 países é feita com base em critérios como as condições de saúde materna, as taxas de mortalidade infantil ou o nível de educação, o salário médio e a participação política das mulheres em cada um destes países."
Pois é. À frente dos EUA e do Reino Unido, ouvi na TV. Afinal, não é só o Sol que se aproveita nesta choldra ignóbil.

Democracia à portuguesa

Convenci-me de que nós, portugueses, temos fraca apetência pela democracia. Preferimos alguém a mandar e nós a protestar. Só assim consigo explicar que nas associações que por aí proliferam, nos jornais de província, nos clubes, nos sindicatos, nas autarquias, se mantenham há quase 40 anos os mesmos rostos, com excepção dos raros que, entretanto se reformaram, a doença incapacitou, ou a morte levou. 
Da parte dos mandantes, o apego ao poleiro -- Só saio corrido, quem comeu a carne que roa os ossos! -- e raramente alguém os afronta, que há sempre muitos interesses e conveniências em jogo. Da parte dos mandados, a cobardia, a preguiça, o comodismo. Que levam os sócios a faltar às reuniões de eleição de corpos gerentes para não correrem o risco de integrar as direcções, sempre numerosas -- por vezes, os sócios já não são suficientes para todos os cargos inúteis existentes.
Ouvem-se então as lamúrias do dirigentes cessantes, que também eles adoram queixar-se: é o desinteresse dos associados, é a incompreensão dos poderes públicos, é a vida familiar tão sacrificada, é "eu acho que devia entrar sangue novo"... Um estrangeiro que estivesse presente e compreendesse o Português pensaria: estão a pedir para sair. Erro crasso, nada percebe da nossa cultura. Aquilo nem desabafos são, é a deixa para os graxas de serviço, sempre presentes, os envaidecerem com elogios. Então, bem contra vontade, com sacrifício pessoal e sobretudo familiar, ei-los prontos a carregar sobre os ombros outro mandato, a bem da coisa pública, a bem da Nação!

Uma vez, numa reunião de karaté, já na fase dos queixumes, o presidente cessante coloca o lugar à disposição. 
-- Mas tu não queres continuar? -- pergunta o presidente da mesa da assembleia geral.
O outro enrola. Que sim, que não, mas os sócios deviam fazer isto e aquilo... 
Nós bocejávamos. Percebiam-se bem as suas duas vontades: que não ocupasse o cargo rival presente, e que lhe suplicássemos a recandidatura.  
O presidente da mesa, sempre palavroso,  empatava com malabarismos verbais. Homenzarrão do Norte, impaciente com a estafada retórica costumeira,  interrompe-o bruscamente: -- Despacha-te com isso, que quero almoçar!
O presidente da mesa, furioso: -- Queres ser presidente?
-- Vai-te foder!
Comprova-se assim que as nossas estruturas democráticas são como os cemitérios da velha anedota: quem está fora não quer entrar e quem está dentro não pode sair... 
E o Tó Zé?, contra-argumentarão  os leitores que tenham conseguido ler o post até aqui.
Pois, afianço-vos, a sua conversa de querer governar é mera variante do dito que exterioriza a bravura nacional:  "Agarrem-me, que eu não sei o que faço!" Agarrem-no, portanto, para que não venha a desgraçar a carreira respondendo a jornalista da televisão  como o meu amigo do Norte.

Sacrifício das famílias

Representante dos pais protesta contra o contexto da realização dos exames do 1 Ciclo por só ter sido possível com "sacrifício das famílias". 
Far-me-ia confusão tal entendimento, a mim que defendo que ser pai, ser família, implica sacrifício pela prole -- assim procedem quase todos os animais. Que qualquer pai, ou mãe, demais a mais presidente de associação, tem o dever de pôr a educação dos seus filhos à cabeça das prioridades -- não se dera o caso de eu ter sido professor 36 anos e ter ainda bem presente que alguns pais são bem ciosos dos seus direitos, reais, imaginados, proclamados, mas recusam obstinadamente qualquer dever, chegando ao ponto de deixar para o Estado o encargo com o pagamento da pensão de alimentos dos filhos, ou faltar-lhes com panela de sopa -- Ah, eles comem na escola, para isso os mando lá, agora até trazem jantar para nós! E é vê-los e vê-las todas manhãs, depois de despejarem os rebentos na escola, a animarem a economia local tomando no café pequeno-almoço saudável e barato, à base de tostas mistas, sumos Compal, bolos e galões...

sábado, 4 de maio de 2013

Coisas do meu tempo: Remington

Em 1972, esta Remington, já bem na meia-idade, acomodada a existência sossegada, rotineira, burocrática, foi emprestada à associação de estudantes do Instituto Comercial de Lisboa. Descontente com os textos que nela escreviam, o director mandou a polícia encerrar a associação mas, antes que a máquina de escrever voltasse para as mãos do inimigo, jovem revolucionário expropriou-a para aparelho técnico clandestino. Passou então, com as teclas a tremerem aflitas, a bater panfletos em stencil, sempre temerosa de que o seu matraquear no silêncio da noite fosse ouvido por vizinho bufo e denunciada à Pide, nesse tempo glorioso em que tipografia clandestina dava direito a dez anos de prisão em Peniche.
Foram sendo presos os revolucionários que, com mais ou menos dedos, batiam os panfletos cheios de chavões, lugares comuns, apelos incendiários à guerra do povo à guerra colonial, vivas ao presidente Mao, morte aos sociais-fascistas. Graças à coragem de muitos deles, alguns dos quais sofreram nas mãos da Pide vicissitudes terríveis, coisa de duas semanas de tortura do sono, afora a estátua, os espancamentos diários, as drogas, apenas caiu nas mãos do inimigo nas vésperas do 25 de Abril, no Pinhal de Leiria, quando um deles foi surpreendido pela guarda republicana na mata em que se acobertava clandestino, a preparar-se já para a vida de guerrilheiro. Com as balas a assobiarem sobre a sua cabeça, viu-se forçado a deixá-la para trás. Mas logo após o 25 de Abril apresentou-se temerário na sede  da Pide em Leiria, a exigir de volta a máquina de escrever, o duplicador, o saco cama...
A velha Remington voltou às suas tarefas, quase a escrever sozinha, que cada tecla conhecia de cor o estilo, o arrazoado panfletário. Mas começara uma guerra suja no interior do partido contra a "linha de direita" e os seus desvios, as expulsões dos melhores multiplicaram-se, ficaram os medíocres, talvez algum teimoso mais bronco. Esquecida pelo partido em minha casa, a máquina conheceu curtas férias enquanto fiz obrigado a tropa.
Depois disso, ainda trabalhou muito. A bater stenceis com testes, a fazer trabalhos da faculdade, que eu voltei aos estudos, a escrever páginas do que viriam a ser, muito mais tarde e completamente transfigurados, os meus contos e romances.
Os computadores condenaram-na, finalmente, à reforma. Coitada, há muito que não escreve, entrevada, desaparafusada, sem fita, com falta de peças, as letras das teclas sumidas, gastas pelo uso. Ei-la, a gozar merecido descanso.

domingo, 28 de abril de 2013

Purga no Facebook

O meu feed de notícias no Facebook está permanentemente atafulhado de lixo, mais parecendo latrina pública que espaço informativo, de troca de ideias, de partilha de interesses. Predomina a sabedoria empacotada, sentenciosa, em versão lite, digest, frequentemente em letras garrafais. Escasseiam pensamentos, mesmo pobrezinhos, mesmo enviesados, mesmo disparatados. Rareiam sentimentos pessoais, originais, inevitavelmente esdrúxulos. As piadas, estafadas, agoniam.
(Eu sei: sou um chato, sensaborão, sem sentido de humor.)
Vou fazer uma purga. Se no genocídio apanhar por tabela pessoa que crê ter algo original para dizer, alguma coisa relevante para partilhar, as minhas desculpas antecipadas. No estado em que o feed está, ou vai ou racha. Assim é que não continua.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sombras

Como o protagonista de O Estrangeiro, Meursault, também eu acredito que todas as vidas se equivalem, pelo menos no instante derradeiro da morte. É minha convicção profunda que deste mundo nada levamos, nem sequer ínfima recordação dos bons momentos. Que a vida é menos do que piscar de pirilampo na noite eterna. Efémero, vago, mortiço. Se alguma coisa lhe pode dar valor enquanto a luz que nos anima se não esvai, são os afectos criados, laços que resistem a ser desatados, lembranças saudosas que serão espoletadas por uma fotografia, um objecto, um lugar, uma brisa, um entardecer.

Passo de tractor pelo adro e revejo o meu bisavó Zabel sentado nas escadas da igreja, mais além, no Outeirinho, o meu avô Catarino, alcunhado Sargento, de bigode branco, boné, agarrado a pau depois que trombose lhe tolheu uma perna, escuto com o prazer de outrora as suas intermináveis histórias de tropa, ouço-o novamente, a cinquenta anos de distância: -- Zé, quando fores grande, hás-de ser aviador!, no banco, simples tábua, por entre sardinheiras, a minha avó Francisca, cega, mantém diálogos vivos a várias vozes com gente já morta, e eu venho mandado buscá-la pela mão  e levá-la até minha casa que é a nossa semana, no caminho passo pelo meu avô Cipriano, de barrete a proteger a careca, a Avó da Luz em luto perpétuo, que de tudo fazia história, aparelha a burra...
Sem que o convoque, chega também o arrependimento pelas vezes em que os tratei mal -- mau génio, revolta por ter de lhes fazer companhia quando queria brincar, correr a coxia, ir aos ninhos, agravada pela rudeza aldeã daqueles tempos em que, muito mais do que hoje, os velhos eram vistos como trastes, estorvo, despesa.

Ah, esta minha memória, que nada esquece, nada me perdoa!

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Por um sestércio


Conta São Mateus que, pregando Jesus no Templo, os publicanos e herodianos, para O porem à prova, Lhe perguntaram se deviam pagar o imposto a César. Jesus, que bem conhecia a sovinice do seu povo, pediu uma das moedinhas com que pagavam o tributo: -- Mostrai-me um sestércio!
Ora aqui é que o cronista omite pormenores relevantes, incapaz de pôr a nu a ancestral avareza judaica. Mas eu, pressentindo que a história deveria estar incompleta, procedi a aturadas pesquisas, recorrendo inclusive a manuscritos apócrifos, alguns deles ainda não publicados, para reconstituir o hiato entre o pedido de Jesus e a sua célebre sentença "Dai a César o que é de César." E, por acréscimo, apurei como ocorreu a expulsão dos vendilhões do Templo...

-- Um sestércio, Mestre? Tu, que abominas o dinheiro, pedes um vil sestércio?
Com aceno de cabeça, Jesus confirmou.
-- Onde vou arranjar agora um sestércio? Olhou em volta. Os outros publicanos fingiam prestar atenção aos vendedores de pombas. Os discípulos de Jesus sorriam trocistas: mais uma vez o Mestre  ganhava as discussões.
Em vão, o publicano escarafunchava nos bolsos da túnica: -- Logo hoje, que vim desprevenido... E para um dos herodianos: -- Ajuda-me, que já riem de nós!
--Também eu estou desprevenido... Nunca trago dinheiro comigo, sempre digo que Jehovah me valerá nas necessidades...
O publicano olha interrogativamente para os outros. Apressam-se a revirar as algibeiras, para mostrar que nada escondem. Um, em jeito de desculpa: -- Acho que tinha um sestércio, mas a minha mulher deve ter-mo apanhado quando lavou a túnica... É sempre o mesmo: dinheiro que ela encontre nos meus bolsos desaparece logo!
-- E tu, dizem a um dos herodianos, que ao demais és também banqueiro?
-- Também nada tenho, irmãos. Sabes bem que nós, banqueiros, somos uns pobres de Deus.
Irritado com os esgares de troça, acrescenta desconfiado: -- E mesmo que tivesse um sestércio, não o punha nas mãos desse Jesus. Havia logo de dizer que pertencia ao Pai e ficava com ele, ou dava-o a pobre, para fazer figura à minha custa!
Jesus, mão estendida, sorria com beatitude, não pela vitória mais do que certa, talvez com pena destes seus irmãos forretas.
O publicano que interrogara Jesus desesperava -- perder a face por um sestércio, um mísero sestércio!
--Vamos pedir ali aos cambistas, emprestar-nos-ão a moedinha.
Os outros olharam-no, duvidosos. -- Que garantias lhes dás, quis saber o herodiano banqueiro.
-- Atrever-se-ão eles a exigi-las, de nós e na casa do Senhor, onde os deixamos exercer a sua actividade?
E para o primeiro deles: -- Irmão, empresta-me um sestércio!
O cambista não era parvo. -- É por via da disputa que tens com o Mestre?
Com aceno de cabeça, o publicano anuiu.
-- Perdoa-me, mas consta que o Mestre dá tudo aos pobres. Quem me devolve depois o meu sestércio?
Foi demais. Os herodianos não se contiveram, empurraram o cambista, berraram -- Todos já daqui para fora, escumalha torpe, que conspurcais a casa de Deus com os vossos negócios vis! E vendo que se não apressavam a desmontar as bancas, um deles ameaçou: -- Ou saís a bem, ou vamo-nos queixar a Pilatos, ao próprio Herodes, que está na cidade!
Fugiram lestos, as bancas debaixo dos braços, mal ouviram o nome de Herodes, que a pedido de Herodíade mandara matar o Baptista e servir a sua cabeça à jovem Salomé em bandeja de prata. Os vendedores de pombas, vendo os colegas cambistas em debandada, tentaram saber a que se devia a fuga precipitada.
-- Herodes..., foi o que ouviram.
--Herodes?, disse um para os outros, como se não tivesse compreendido bem.
E em resposta, ouviu dito que resiste desde então ao desgaste dos séculos:
-- O velho Herodes! Foge, senão ainda te...
-- Colegas, que faremos? Perguntou o publicano que quisera pôr Jesus à prova.
-- Saiamos nós também, de mansinho, enquanto estão distraídos com a fuga dos vendilhões do Templo .
-- E eu, como fico perante o povo?
-- Ora, se algum te perguntar, diz que vais a casa procurar um sestércio.
-- Ou que nós, herodianos, somos tão pobres como Ele.
O banqueiro ainda sugeriu que pedissem a Jesus o milagre dos sestércios, à semelhança do da multiplicação dos pães e dos peixes.
Olharam-no com desprezo: como um homem brilhante nos negócios pode ser tão burro em assuntos comezinhos: -- E onde está o sestércio que Ele há-de multiplicar?
Ainda ouviram o Mestre, que ensinava o povo: -- Dai a César o que é de César e a meu Pai o que lhe pertence!
-- Ora, pois, não vos dizia? Se apanhasse o sestércio, Ele que é o herdeiro do Pai...i

domingo, 21 de abril de 2013

Lembram-se?

Pois eu lembrei-me, ao encontrar este ninho na minha arrecadação. Suponho ser de pardal do telhado, e os ovos ainda não estão a ser chocados.
Os Ninhos

Os passarinhos
Tão engraçados,
Fazem os ninhos
Com mil cuidados.

São p’ra os filhinhos
Que estão p’ra ter
Que os passarinhos
Os vão fazer.

Nos bicos trazem
Coisas pequenas,
E os ninhos fazem
De musgo e penas.

Depois, lá têm
Os seus meninos,
Tão pequeninos
Ao pé da mãe.

Nunca se faça
Mal a um ninho,
À linda graça
De um passarinho!

Que nos lembremos
Sempre também
Do pai que temos,
Da nossa mãe!

(Afonso Lopes Vieira)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Só nos filmes...

... e no restaurante Alto Pina (Alcorochel, Torres Novas): jovens que, enquanto almoçam, vão dedilhando a guitarra portuguesa, a viola, e cantam. Por prazer, e muito bem. Hoje, tendo sabido pela dona que era o aniversário do meu amigo, alegremente lhe cantaram os parabéns, com votos de "muitas amigas também".
Nem todo o país está deprimido. Resiste-se onde e como se pode. Sobretudo na província. E não é difícil: linda tarde de Sol, verdes campos, céu limpo, azul, o chilreio dos passarinhos a festejarem a Primavera que finalmente chegou, boa comida, bom vinho, amizade, simpatia, afabilidade — facilmente nos esquecemos de que há Mundo para além dos muros do parque do restaurante, e nele atentados, crise, troika, cortes salariais iminentes...
Dum vivimus vivamus!

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Na pacatez aldeã

O homem não dá um passo a pé? Problema dele.
Não é da minha conta que para fazer uns míseros metros  pegue no carro. Mas já me afecta que embirre com as paredes, como se lá estivessem apenas para lhe lixar a condução e o carro. Sobretudo quando as paredes são minhas e as deixa no estado que a foto mostra.
Enfim, pior seria, pior será se criança ou velhota não conseguir resguardar-se a tempo quando surge ao volante.
Insinuam as más línguas, que infelizmente abundam nas aldeias, que tal condução errática se deve...
Calúnias. Posso afiançar que, neste caso e em muitos análogos que venho presenciando ao longo dos anos, a culpa foi sempre das paredes.
(Espanta-se o Jeroen, que a tudo assistiu da sua varanda: -- E ainda dizem que nas aldeias nunca se passa nada!)

Mistério

Nunca consegui ter tulipas bonitas. Supunha eu que o nosso clima lhes era desfavorável, com muito calor precoce. Eis que vem da Holanda o Jeroen e as suas tulipas resplandecem. Quem sabe sabe, ou ele trouxe consigo um pouco da Batávia?

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Previsão animadora

A da meteorologia. Porque as económicas azedam o humor. Como se as várias entidades competissem entre si para, em cada dia, ver quem faz a previsão mais desanimadora. Cada qual pior do que as outras.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Batatas

Por mais que as queiramos evitar, as notícias da crise financeira e económica, do desemprego, da quebra de
confiança dos consumidores, conseguem encontrar frestas por onde entrar em nossas casas. Parece que este ano nem a agricultura se salva, nem ela nos salva. 
As batatas, por exemplo. Ei-las bonitas, viçosas, promissoras, que não fiz caso das opiniões dos entendidos (também no que a batatas respeita, não faltam) e plantei-as com grande dificuldade em terra encharcada, mal amanhada. Agora ameaça-as a chuva persistente. Sobreviverão elas, se a Primavera não chegar na próxima semana?

terça-feira, 9 de abril de 2013

Contra o cinzento dos dias

Desliguem a televisão, não ouçam as notícias, não se enfureçam com os títulos dos jornais -- os do Correio da Manhã são os mais perigosos para o fígado e sem um bom fígado não se pode beber --, saboreiem o melhor de cada instante, alegrem-se com a beleza que nos rodeia. Os dias, as semanas, os meses, os anos passam inexoravelmente e não voltam mais, nada nem nem ninguém vos devolverá o tempo perdido, e não podemos permitir que governo, oposição e Troika nos roubem nenhum momento de felicidade, por breve ou  insignificante que seja. Esta não é a primeira crise nacional  -- a primeira datará de 1143, não sei bem -- e não será a última. 
É em momentos como este que mais importa seguir os ensinamentos de Ricardo Reis:

Circunda-te de rosas, ama, bebe 
E cala. O mais é nada. 

(Foto: flores da minha glicínia, na falta de rosas, que até o clima conspira contra a primavera.)

quinta-feira, 4 de abril de 2013

No Canal Caveira

Os diálogos, sobretudo ao telefone, são frequentemente de uma pobreza confrangedora, especialmente visível quando reproduzidos por escrito, sem a mímica, os trejeitos faciais, a entoação, o alongamento de vogais, as onomatopeias adequadas, os beijos repenicados no ar, hum, hum...
Há um ano, ainda era eu professor, registei para a posteridade este diálogo (ou monólogo, ou mero exercício da função fática da linguagem, não sei bem),  ouvido e sofrido na sala de professores, enquanto aguardava que a colega ao telemóvel acabasse de lançar as suas classificações e libertasse o computador para que eu pudesse introduzir as minhas.
-- Onde tás?
-- O quê? No Canal Caveira? No Canal Caveira?
-- Ah, tás no Canal Caveira!
-- ... No Canal Caveira!
-- Muito bem! No Canal Caveira...
-- Sim senhor! No Canal Caveira! Não acredito!
-- Não acredito!
-- No Canal Caveira!
-- No Canal Caveira!
--Tás a brincar!
--Tás a brincar comigo! No Canal Caveira!
--Tu, no Canal Caveira!

Muitos canais caveira depois:

-- Beijinhos, tchau tchau!
-- Hum! Hum! beijinho, beijinho!
-- No Canal Caveira! Não acredito!
-- Não acredito!
-- Tu, no Canal Caveira!
Hum, hum, jinho, jinho grande, grande, hum! hum!!

E eu, já por natureza impaciente, a ver o tempo passar, consegui resistir, contive-me e não lhe disse: -- Acredite, colega, o gajo está no Canal Caveira!

Novilíngua

Preciso urgentemente de comprar dicionário e gramática actualizados para entender o português facebookiano:

dizem k um sorriso vale mais k mil palavras,por isso ca vai,....loool.....=)....estas lindissima....tenho.t vist miga,soke n me meto contigo nem nda do genero pk kuand te veijo tax smp com as tuas amigas,lool....beijao gand**
Linda como sempre fonfinha...
tas gira miga