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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Que fazemos debaixo do Sol?

Para quê fazer, por exemplo, água-pé, se o pessoal, depois de a provar, e mesmo que esteja muito boa, a não bebe, preferindo o vinho do ano anterior? E eu também...
Para quê escrever, se os editores nada querem comigo, se os leitores dos meus romances, exceptuando Entre Cós e Alpedriz, se contam pelos dedos das mãos — talvez de uma das mãos?
Não sei. Tal como não sei se a vida terá algum sentido. Ou se faz sentido preenchê-la de manhã à noite com inutilidades.
Nada de novo, nada de original nestas minhas medíocres reflexões — já o velho Eclesiastes o disse e muito melhor do que eu:
“E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito, e que proveito nenhum havia debaixo do sol.” (Ec. 2.11)
Mesmo assim, enquanto as forças, que vão já escasseando, me não faltarem, enquanto a cabeça funcionar e os meus múltiplos interesses se não esvanecerem por completo, vou continuar. Porque sou teimoso, casmurro de tal forma que nem a mim próprio logro convencer-me e, mesmo sabendo da inutilidade do esforço, prefiro-o de longe ao arrastar da vida e da velhice em estéreis conversas de café, ao definhar tristonho, sem desejar partir, sem querer ficar.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

O Nada da vida

Num universo saído do Nada — talvez um entre miríades a brotarem constantemente como bolhas de metano em pântano — hoje com mais de cem biliões de galáxias, cada uma com com mais de cem biliões de estrelas, uma infinidade de planetas, nascemos nós, condenados a regressar depressa a esse Nada, como luz que apaga e nada deixa atrás de si, nem sequer simples fotões a viajarem infinitamente no tempo e no espaço...
Comecemos pelo óbvio. 
Não tivesse eu nascido e nada sofreria. Não me atormentariam os mistérios do Universo, nem me incomodariam os sofrimentos da Humanidade, nem o seu destino inexorável, nem recearia o vazio que é a morte, essa eternidade sem tempo, sem ontem, nem hoje, nem amanhã, sem causas e sem efeitos, sem conhecimento, nem sofrimento, nem prazer. 

Ou tivesse eu morrido na infância, como esteve para suceder vezes sem conta, antes de ter consciência de que estava vivo. Hoje, nem uma memória seria, falecidos todos aqueles que me me podiam recordar com pálida tristeza.