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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O Drácula

No segundo ano do meu estágio, então chamado Profissionalização em Exercício, chegaram vários colegas de outras escolas. 
Um deles, alto, magro, camisa sem colarinho, longo sobretudo preto, olhar esgazeado, pose de génio, foi logo alcunhado por um de nós: Drácula.
Incompreendido por todos nós,  exceptuando uma outra estagiária, do seu grupo disciplinar, a quem apalpava as coxas nas reuniões, seduzida pela “linguagem do Mestre” — era assim que se lhe referia — pois o nosso Drácula respirava Lacan, arrotava Lacan, tratava-nos, tanto a nós, colegas de estágio, como aos orientadores, com tal sobranceria que me lembro de ouvir um dizer-lhe que, de cada vez que abria a boca, era para nos chamar burros.
Num seminário em que ele arengava interminavelmente, insuportavelmente, um orientador, baixo, obeso, que sempre dormia nas reuniões após o almoço, desculpado pelos seus pares com  problemas cardíacos de que efectivamente sofria e cedo haveriam de o vitimar, interrompeu o forte roncar e, ouvindo o Drácula a proclamar, deliciado com o efeito de choque da boutade, que todos nós temos três pais, resmungou alto:
— Só se és tu!
Ruidosa gargalhada geral quebrou o formalismo, desvaneceu o enfado e enfureceu o distinto orador.

Mas os alunos conheciam-no por outra alcunha. “O professor do c*”.
Isto porque, na aula de apresentação, incomodado com a entrada às pinguinhas da turma, berrou para um dos retardatários com o seu sotaque cerrado do Porto:

— Olha lá, pá, que c*ralho de turma é esta?

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O sindicato e eu

Assim que fui colocado pela primeira vez tratei de me sindicalizar. Entendia ser essa obrigação de cada trabalhador. E, na minha ingenuidade, até li e concordei com os estatutos do sindicato.
Levei a sindicalização a sério. Apresentei lista, candidatei-me a delegado sindical na escola em que então estava colocado — e perdi.
Paciência. Tal não arrefeceu a minha fé sindical.
Até que, após greve selvagem, os professores de uma escola de Lisboa foram despedidos.
Logo o sindicato estendeu asa protectora, comprometendo-se a pagar-lhes os salários, conforme estabelecido nos estatutos.
E eu aprovei.
Mas, poucos meses depois, a pretexto de uma lacuna no boletim de candidatura (lacuna que o certificado de habilitações anexado esclarecia), me vi no desemprego. Sem economias, com renda de casa elevadíssima— as casas para arrendar eram então raras como a chuva neste Outono —, família a meu cargo, nada de empregos, de trabalho naquela época em que o país e a economia andavam pelas ruas da amargura.
E lá vou eu ao sindicato. A querer que pressionassem o Ministério a reapreciar o meu boletim de candidatura. Não valia a pena. Havia milhares como eu, tratava-se de manobra do governo para diminuir drasticamente o número de professores provisórios. Processar o Ministério? Para quê, se lá não havia duas pessoas a dizer o mesmo?
Então, e o subsídio de desemprego, que consta dos estatutos e foi já atribuído aos colegas da escola X?
Riram-se. O sindicato não tinha verbas para tal, diziam. Em funcionários, assessores, equipamentos, rendas, ia-se todo o dinheiro das quotas.
Fui colocado meses mais tarde. E uma das primeira coisas que fiz foi cancelar a minha sindicalização.
Passaram muitos anos. Um amigo, delegado sindical, convenceu-me a voltar a aderir ao sindicato. Fizemos greve prolongada, bem organizada. O governo ia ceder. Depois de tantas greves simbólicas, em que perdíamos o salário para que o PC marcasse posição, finalmente uma que íamos ganhar. E uma manhã, ao entrar na escola, soube que o sindicato, o Teodoro, nos tinha novamente traído, pondo fim à greve sem nos ouvir.
Outra vez cancelei a sindicalização.
Há quem nunca aprenda certas lições. Como eu.
Nos tempos negros da Maria de Lourdes e da sua famigerada avaliação fui a uma reunião sindical, pedi o papéis e voltei a ser sindicalizado.
O dirigente sindical que me inscreveu  bandeou-se para o Ministério da Educação.
E eu continuei a pagar a quota, 1% do salário, até à aposentação.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Da violência nas escolas

Mário Nogueira, dirigente vitalício do meu sindicato, voltou ontem a envergonhar-me publicamente. Foi em declarações que prestou à TV a propósito da agressão a um aluno por parte de um professor de TIC.
Para Mário Nogueira, não há presunção de inocência quando se noticia que um professor bateu num aluno. Essa presunção fica, talvez, reservada para os políticos corruptos, seguramente para os pais que agridem professores e funcionários. Nem importa, antes de mais, apurar os factos, aguardar os resultados do processo disciplinar que foi ou vai ser instaurado.
Adiante.
O que me envergonhou mais, o que me enojou, foi ouvi-lo a retomar a velha discriminação contra os professores não profissionalizados.
(Tantos anos após o 25 de Abril, o velho preconceito, de que também  eu fui alvo, primeiro miniconcursiano, depois provisório, continua subjacente:
— O colega é efectivo? Não? Então não devia estar a dirigir esta reunião!
— Vá-se queixar à direcção, que me nomeou!
Mas doía. E a prova é que não esqueci.)
Agora Nogueira com conversa parecida. Como se na formação para a profissionalização se aprendesse a não perder a cabeça! Como se a formação fizesse uma qualquer triagem segundo as competências científicas e pedagógicas, a adequação aos requisitos da profissão, à saúde mental, até!
Como se não houvesse no activo alguns profissionalizados que jamais deveriam estar à frente duma turma!
Como se as condições de trabalho em certas escolas não fossem suficientes para qualquer um se passar!
Não. O problema é que o colega, que até pode ser engenheiro informático, não tem a profissionalização.
Já quanto à agressão de Valença, feita por pai orgulhoso do feito, tanto que até organizou contra-manifestação com a tribo, nem uma palavra. Bater em funcionários e em professoras e professores, tal como em polícias, não tem idêntica gravidade. Não merece que se pronuncie.
Porque neste caso, seguramente, a culpa é dos agredidos. Mesmo se profissionalizados.

domingo, 13 de outubro de 2019

Pedantice

No supermercado, estendo uma alface para o empregado das pesagens:
— Bom dia! Pode-me pesar...
E ele, bem humorado:
— Sim, mas duvido que o senhor consiga subir para a balança!
Tenho mau feitio. E não gosto de ser corrigido por um mocinho ainda imberbe. Talvez para depois se gabar de ter gozado com o velho.
De modo que...
— Recorri à elipse, processo linguístico que permite omitir um constituinte frásico, reconstituível a partir do contexto. No caso vertente, como lhe estendi o saco com a alface, era óbvio que o objecto do pedido de pesagem, pelo que o não realizei foneticamente.

Assim mesmo, o discurso todo. Para que soubesse que ainda está muito verde para gozar com os velhotes.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Putas e vinho verde

Estava no início de carreira, professor provisório sem habilitação própria, miniconcursiano, como nos designavam pejorativamente os colegas já instalados, e coube-me horário nocturno.
A tentar esconder o pavor, olhei para aqueles alunos, todos mais velhos do que eu, e comecei a aula de apresentação. 
Ia talvez a meio do tempo lectivo quando aluno mal encarado, olhos turvos pelo nevoeiro, abre a porta da sala, entra e senta-se sem dizer água-vai nem água-vem.
Não ia perder a face logo na apresentação!
— Boa noite! 
Nem me olhou.
— Boa noite! E, já agora, manda a boa educação que ao entrar atrasado bata à porta, peça licença para entrar... Como o não fez, e já se instalou, quer apresentar-se?
Olhou-me com desprezo.
— O que eu quero é putas e vinho verde!
A turma, do major reformado da Força Aérea à freira do hospital vizinho, olha-me na expectativa.
E eu, em tom duro, aparentado uma coragem que bem gostaria de ter:
— Então enganou-se na porta, que isto não é nem taberna nem casa de putas! É uma sala de aula, e se quer ficar é para se portar com respeito e educação!
Deitou-me olhar assassino, do género lá fora ‘comezas’, levantou-se e foi embora.

Mas não: nem dessa vez, nem em nenhuma outra, fui espancado por alunos. E aquela ave nunca mais apareceu nas minhas aulas.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Do meu vinho e da minha escrita

Anos atrás, num dia em que se acabou o vinho na colectividade da minha terra, telefonou-me um sobrinho a perguntar se vendia um pote de 10 litros.
Não, não vendia. Dava. Que o fosse buscar.
Tempos depois, perguntei-lhe o que é que os entendidos, bebedores diários e inveterados, tinham achado da minha pinga.
Devia ter adivinhado: santos de ao pé da porta não fazem bom vinho, menos ainda o Zé, que nunca foi agricultor a sério, nem anda a cair de bêbedo nas noites de sábado; ainda se fosse descendente dos “ricos” da terra, ainda se o vendesse, que o dado não presta, nem permite dizer que não vale o que custou...
Não, aquilo não era vinho, sem o forte sabor do sarro dos tonéis, sem dose cavalar de metabissulfito — feito com toda a higiene, conservado em cuba de aço, não sabia a vinho!
Soube depois que o meu sobrinho, desgostoso, retirou o invólucro interior e colocou-o dentro de  embalagem de cartão da marca habitual. Aí beberam-no, ao que me parece sem mais protestos, excepto quando um dos habitués se queixou dias depois: Este vinho não é da... (a marca da caixa de cartão)!
Como é que sabes?
Deixei de cagar preto!
(O que tem isto a ver com os meus romances? Tudo. As editoras rejeitam-nos por razões análogas e preferem as cagadas. E depois queixam-se da falta de leitores.)

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Uma história em ar

As três jovens saíram a passear.
Vamos no meu carro, tirei a carta e preciso de praticar.
Damos uma volta, paramos a lanchar.
E assim chegou a hora de regressar.
A condutora dá à chave, o motor de arranque soluça, sem força para fazer o motor pegar.
E agora, telefonamos ao teu marido para nos vir desenrascar?
Não, que vai ralhar. E gozar.
Empurramos o carro até àquela ladeira, pega de empurrão, e depois já podemos voltar.
Empurram duas, o carro move-se devagar, pára logo que solta a embraiagem. E já próximo da ladeira, diz uma para a condutora: Tens de vir também ajudar!
Empurram as três. O carro embala na descida, pega, aí vai ele a acelerar!
A pobre dona olha para as amigas, desconsolada: E agora? O meu marido vai-me matar!
Não, o teu carro é que vai matar aquela velha que vai a atravessar!
E em pânico, desatam as três a gritar:
Fuja, fuja minha senhora, o carro vai-a atropelar!
Lá ao fundo, a velhota olha, sem compreender, avista o carro que desce desembestado, apressa-se, o andarilho não ajuda, na aflição deita-o fora, em passinhos trôpegos corrica, chega à berma e trepa para o patamar.
Mas, entretanto, o carro, desviado por buraco, curvou e espatifou-se contra muro num estrondo de assustar.
E agora, como vamos regressar?
E que direi ao meu marido quando chegar?
Estão já junto do automóvel, dianteira espatifada, radiador a fumegar.
Olha, dizemos que foi o buraco que o fez estampar!

E nem estaremos a mentir, lá está o buraco para o provar!