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terça-feira, 17 de julho de 2018

Degradação do estatuto social dos professores

Estávamos nos anos 80, e o comboio tornava a minha escola muito procurada. Os professores vinham efectivar, ficavam dois ou três anos até conseguirem vaga mais próxima. De Coimbra ou de Lisboa, sem vontade de ver definhar a sua brilhante existência em vila de província. 
Era chegarem, não raro atrasados, culpa do comboio, com justificação assinada pelo  chefe de estação, aceite com a benevolência da direcção, que lhes retirava as faltas, “darem” as suas aulas, saírem à pressa, muitas vezes antes do toque, para apanharem o próximo comboio que os levava dali para fora,  para a civilização onde podiam respirar de alívio e criticar pelos cafés a escola que era a sua, mas não sentiam como tal. 
Isto quando a CP não estava em greve — maquinistas, ou pessoal de estação, ou revisores, ou outros, pouco importava. Não podiam vir à escola, falta de transporte.
A nós outros, que vivíamos a escola como nossa, embora nenhum fosse natural da vila, só nos restava resmungar contra tal desapego, incomodados com a imagem que passava para fora, todos os professores metidos no mesmo saco. 
Até porque alguns pareciam não ter compreendido a mudança que acarretava terem passado de alunos a professores. 
Lembro-me, por exemplo, de um, guedelhas desgrenhadas, barba por fazer, a correr pela sala de professores, abrir a janela, gritar para um aluno que passava no átrio:
— É pá, chama-me esse gajo!
O aluno, estupefacto, olhava-o sem compreender.
E o meu colega, a ver que perdia a boleia para a estação:
— Depressa, chama-me esse gajo... Aquele professor que vai além...


Pois é, a degradação do estatuto social da profissão começou em nós, começou por nós.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Contagem do tempo de serviço dos professores

No pouco que vi do debate parlamentar, estranhei nenhum partido recordar as “ajudas” à banca e a indemnização aos respectivos “lesados”, os vultuosos perdões de dívida aos grandes clubes de futebol pela CGD, quando Costa disse e repetiu que não tinha 600 milhões para a reposição da contagem do tempo de serviço dos professores. E o silêncio cúmplice da (soit-disante) esquerda.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Alfarrabistas e livrarias que fecham

Há uns anos, procurei pelas livrarias da zona do Chiado um livro. E explicava aos empregados desinteressados o que queria: em Português, de autor português, que tratasse da vinha e do fabrico do vinho. Sabia que devia haver porque, no passado, tinha lido várias obras com essas características na Biblioteca Municipal.
Sem o menor interesse, todos, em todas as livrarias, me diziam não haver tal livro.
Então, lembrei-me dos alfarrabistas e fui às Escadinhas do Duque. Na primeira loja em que entrei, uma senhora, já bem na meia idade, fazia o Sudoku e mal levantou os olhos para me ouvir. Não tinha nada do que eu queria, disse. E, já sem esperança, entrei no alfarrabista seguinte, que, salvo erro, pegava com a loja anterior.
Atendeu-me um senhor de idade avançada, octogenário, que me ouviu atentamente e sentenciou: o que procura é o livro do engenheiro Octávio Pato. O mais completo e o melhor. Venha comigo. E levou-me à loja anterior, foi directo a montão de livros, retirou um, passou-mo, Aqui o tem. E deixou-me a pagar à senhora do Sudoku.
Guardo preciosamente tal livro, a minha Bíblia no fabrico do vinho. Todos os anos o consulto, nem que seja apenas para dosear o ácido tartárico e o metabissulfito de potássio.

Já percebem porque é que fecham as velhas livrarias e os alfarrabistas?

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Numpelecebo!

Da única vez na minha vida em que entrei num restaurante chinês, depois de estudar a ementa à procura de comida que a minha boca aceitasse, pedi pato com grelos. Veio, e eu chamei a empregada para reclamar: aquilo era frango com brócolos! E ela, até aí fluente no Português, só me dizia: Numpelecebo! Numpelecebo!
Pois nunca mais entrei num restaurante chinês porque também eu Numpelecebo!

sexta-feira, 30 de março de 2018

Ler no telemóvel

Certamente já toda a gente sabe, mas aqui vai na mesma. Descarregando para um telemóvel (smartphone) a aplicação gratuita Kindle, passa-se a poder não apenas ler com facilidade e conforto os ebooks disponíveis na loja da Amazon, entre eles os meus livros, de que anexo duas fotos ilustrativas, mas, também, milhares de livros gratuitos, o que é especialmente importante para quem gosta de ter sempre consigo os clássicos.
É também possível descarregar gratuitamente amostras dos ebooks à venda, o que me permite decidir da compra após a leitura dos primeiros capítulos. Evito, assim, muitas compras precipitadas, frequentemente influenciadas pelas críticas, de livros que depois não leria por se não enquadrarem nos meus gostos.

E, como se vê pelas fotos,  nem o aspecto nem a legibilidade são prejudicados.


segunda-feira, 5 de março de 2018

Alerta um pouco técnico e chato: Windows 10 Home

Tenho um computador portátil sem CD-ROM, que comprei há uns bons anos com o Windows pré-instalado. Ora anteontem precisei de o usar, mas cometi um erro que apagou o carregador de arranque (winload.exe) da MBR.
Sem conseguir arrancar o computador, e impossibilitado de recorrer ao velho amigo Linux, que sempre me resolve problemas deste tipo por, como disse, não ter CD-ROM, fui ao site da Microsoft descarregar uma imagem ISO para pen, a fim de tentar arrancar o computador e recuperar o sistema. Só encontrei para Windows 10.
Não foi às primeiras, mas lá pus o portátil a trabalhar. E a história acabaria aqui, não fosse algo muito preocupante, que passo a descrever.
Descontando o facto de não gostar do W 10, tentei repor o Word. Todos os meus programas são legais. Ou comprados, como é o caso do Office — tenho dois, o 2007 e o 2010, ambos em DVD — ou software livre.
Não me foi permitido instalar nada. Nem o Office, da Microsoft, nem, por exemplo, o Chrome. Surgia sempre o aviso indicando que, por razões de segurança, só podia instalar o software existente na loja da Microsoft. Ou comprar outra versão do Windows por 250 euros.
Se bem percebi — o Windows 10 Home já foi à vida — quem o instalar, ou comprar um computador com ele pré-instalado, fica preso à loja da Microsoft, que tem pouco software, caro, e inadequado para muitos utilizadores.
Se assim for, tenham cuidado com a ratoeira. Quase todos os comoutadores são vendidos com o Windows pré-instalado, sem unidade de DVD / CD-ROM, aliás inútil pois é o sistema operativo que só permite instalar os programas comprados na sua loja. E não será fácil para a generalidade dos utilizadores substituírem o Windows por outros sistemas operativos.  

É o que vou tentar fazer esta tarde.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Eu e a Medicina Tradicional Chinesa

Na assistência, barbudos fardados de hindus, outros de rabicho e vestuário tradicional chinês, professoras de ioga de salto alto, alguns discípulos do mestre vestidos à ocidental como eu, que estava naquele seminário atraído pela fama do orador, fascinado pelos seus livros, seduzido pela sua execução de Tai Chi, que conhecia de vídeos comprados na Amazon.
Falava fluentemente o Inglês, bom conversador, gabarola, divertido. Segundo o currículo, a viver há muitos anos nos Estados Unidos, onde se doutorara num qualquer ramo da Mecânica; trabalhou primeiro na NASA, até se deixar disso, e passar a viver das artes chinesas — medicina, tai chi, seminários, livros e vídeos.
E contava, para delicia da audiência, que o seu antigo emprego o matava. Por exemplo, com frequentes pedras nos rins, na bexiga, que a medicina ocidental não resolvia, apesar dos cinquenta dólares que lhe custavam os medicamentos. Em desespero, parou numa herbanária chinesa, comprou um chá por uns cêntimos, que em dois ou três dias o curou, bastando-lhe depois beber desse chá de tempos a tempos, preventivamente. E eu fiquei deveras impressionado, a lembrar-me do que tinha padecido com crise renal uns anos antes. 
Ele continuava a exaltar os prodígios da medicina chinesa, rindo e fazendo rir a assistência à custa da medicina ocidental, cara, ineficaz, nociva para o organismo. Por exemplo, um dia entrou-lhe no consultório um doente desesperado, a quem os médicos davam pouco tempo de vida devido a cancro nos pulmões. Receitou-lhe uns exercícios respiratórios, que ali nos exemplificou, e para sua alegria e surpresa, semanas depois o moribundo entra-lhe pelo consultório aos gritos Doctor Yang (os mais atentos repararão que com o doutoramento em Mecânica se fazia passar nos EUA e cá por médico!), doctor Yang, estou curado! E mostrava exames que comprovavam que o tumor desaparecera.
Bom, aqui confesso que fiquei algo incrédulo; mas continuei calado enquanto o chinês se vangloriava dos múltiplos milagres, dele, da medicina chinesa, da prática da meditação e do Tai Chi.
Até que.
— Quem é que tem problemas de coração?
Ninguém se acusou.
Passou os olhos pela assistência e fixou-os em mim, talvez por ser dos mais velhos (andava então pelos cinquenta, a idade do mestre), ou por ser dos mais atentos, pois tomava notas. Arrepiei-me: o mestre teria visto em mim sintomas de doença cardíaca? E abanei negativamente a cabeça: — Creio que não, fiz há pouco tempo um ecocardiograma, treino karaté, não sinto ainda nenhuma insuficiência cardíaca...
Pois ele tinha. Recentemente, tinha feito um bypass às coronárias, após a morte de um irmão aos 48 anos. E na recuperação o médico — este não era doutorado em Mecânica — mandou-o fazer muito exercício.
— Mas, doctor, faço doze horas diárias de Tai Chi.
E o doctor ocidental a dizer que o Tai Chi é bom para baixar a tensão arterial e o stress, mas não para baixar os níveis elevadíssimos de colesterol que o paciente apresentava. Devia fazer corrida, bicicleta, saco — exercícios violentos, para queimar colesterol.  O que o nosso crítico das práticas ocidentais passou a acrescentar aos seus treinos de  Tai Chi.
“Então curas os outros, curas o cancro alheio, mas que doctor és tu que não te curas a ti mesmo? Vendes seminários caríssimos — salvo erro, e estávamos no princípio do séc. XX, paguei 140 euros para o frequentar durante 2 dias — , mas quando “ela” te bate à porta, confias a tua vida à medicina que ridicularizas e não à que vendes aos outros?” — ruminei, logo ali.
Mas, já que o tinha pago, frequentei o seminário até ao fim. A ver os portugueses “hindus” de amarelo, os “chineses” de branco ou de preto, fascinados, a contribuirem para a discussão da inquestionável presença de extra-terrestres entre nós, a raptar mulheres e a engravidá-las...
Nem tudo se perdeu. O mestre era e ainda é um excepcional praticante de Tai Chi — embora os místicos não participassem nas aulas práticas, ficando-se pelo bar, certamente a comer vegetais e a prosseguirem a discussão sobre os sentimentos dos pobres animais que ao saberem que vão ser abatidos libertam enzimas e hormonas que contaminam a carne e arruinam a saúde dos parvos dos ocidentais.

E nunca mais voltei...