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quarta-feira, 22 de maio de 2019

Chico Buarque

Estávamos em 1972, havia a guerra colonial, a agitação constante nas universidades, as manifs nas ruas que o regime não lograva impedir, a música que nos chegava de fora, Brel, Simon&Garfunkel, Donovan, Chico Buarque, Patxi Andion, por cá a de José Afonso.
O meu primo, então a frequentar o Conservatório, pediu-me que comprasse bilhetes para concerto que Chico Buarque ia dar num cinema entre os Restauradores e o Marquês, esqueci o nome. Quando lhe entreguei o bilhete, 
— Compraste também para ti?
— Não. Estou teso...
Insistiu para que comprasse, quis pagá-lo ele. Recusei, e voltei ao tal cinema. Comprei o mais barato, para o poleiro, o último balcão. E lá me sentei, a ver no palco figuras minúsculas que tocavam os primeiros acordes — o conjunto do Chico (hoje diz-se banda), o MPB4. Na sala, gigantesca, uma pessoa aqui, outra ali.
Então, chega funcionário a pedir para nós, os do poleiro, nos sentarmos na primeira fila, para que Chico Buarque não actuasse para cadeiras vazias. Tive, assim, oportunidade de assistir ao seu espectáculo juntinho a ele.
Excepcional. Mas com fraca assistência, nem a banda a passar colocou a sala ao rubro. E o cantor, a determinada altura, desabafou: não sabia se as suas músicas eram apreciadas em Portugal, mas no Brasil quase ninguém as conhecia. 
Pois, cá, fora do meio intelectual, apenas a banda a passar tinha chegado às massas, embora na rádio se ouvisse muita música brasileira, eu quero buzinar o seu calhambeque e quejandos.
Ainda bem que tudo mudou. Chico Buarque, que talvez fizesse suas as palavras (creio que) de Brel, algo como não sou poeta nem músico, faço canções — conheceu no Brasil e cá a glória merecida pelo seu talento, enorme e diversificado (letrista, músico, actor, escritor), e acaba de ser distinguido com o Prémio Camões.
E eu tive o privilégio, graças à insistência do meu primo, de o ter visto no palco, tão perto que quase lhe podia tocar, quando era jovem, antes da consagração, e de me ter embevecido com a sua genialidade e a dos músicos que o acompanhavam...
(A time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence
A time of confidences
Long ago it must be
I have a photograph
Preserve your memories
They're all that's left you
Simon&Garfunkel, Old Friends)

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Os raposinhos

Fui ensinado a recusar todas as dádivas de toda a gente que não pertencesse à família mais chegada. Por palavras, sobretudo pelo exemplo. Suponho que para não ficarmos “na obrigação”. Na desconfiança ancestral de que ninguém dá nada a ninguém desinteressadamente. 
Os olhos a aguar, a boca a salivar — mas não, não aceitava, muito obrigado, mas não quero, ou não gosto, ou agora não me apetece.
— Toma, vá lá, sou eu que te quero dar!
Escondia as mãos atrás das costas, olhos baixos, cabeça a menear negativamente, contrariando o coração, atormentando o pobre estômago, sempre tão carente de guloseimas.
Pobre e remendado, mas orgulhoso como faminto fidalgo espanhol.
De tempos a tempos, passava pela aldeia mendigo.
— Mãe, está ali um pedinte!
— Leva este punhado de batatas ao pobrezinho e diz-lhe que Nosso Senhor o favoreça!
O mendigo metia a pobre dádiva no saco de serapilheira por entre ladainhas de agradecimento, e ia bater a outra porta, de gente que não pedia nem aceitava esmolas, embora quase tão pobrezinha como ele.
Ora um dia apareceram-me à porta a pedir dois homens na força da idade, aspecto de cavadores. Aqueles não eram mendigos, bem no via pelo aspecto, e por serem dois. 
Ladrões?
Vendo-me paralisado pelo medo, à janela do primeiro andar, riram: não vinham roubar nada, andavam a pedir. E um deles abriu o saco de serapilheira, onde, em vez de batatas, feijões, maçãs ou cacho de uvas, havia uma ninhada de lindos cachorrinhos a ganirem tão tristes que de vê-los e ouvi-los se me partia o coração.
— Raposinhos, disse o homem. Matámos os velhos e estes em breve vão pelo mesmo caminho.

E, vendo que naquela casa se não safavam, os meus pais ausentes, eu dinheiro não tinha, e se o tivesse não o dava, seguiram rua fora, convencidos de que, como benfeitores da Humanidade, mereciam paga por exterminarem aquela praga — enquanto eu chorava de impotência e raiva por não ser grande e valente para salvar os pobres raposinhos do saco.

sábado, 6 de abril de 2019

Como apoucar factos

Perante o facto, inegável, de que há demasiadas relações de parentesco no actual governo, a sua central de contra-informação riposta, recordando relações análogas nos governos de Cavaco Silva. 
Nem sequer argumento com a oposição passado / presente, nem com a expectativa de ver os governantes actuais a procederem de forma diferente, de acordo com a tão propalada “ética republicana”.
Não. Prefiro recordar a velha história da velha que ensinava a filha: 
— Chama-lhes putas, filha, chama-lhes putas, antes que te chamem a ti!
Porque não se nega o facto. Apenas se diz dele ser prática comum.  E depois queixam-se do crescimento dos populismos, das extremas-direitas. O que esperam, se estão sempre a lembrar que, discursos à parte, a prática dos políticos se revela, afinal, igual quando está em causa a defesa dos seus privilégios e interesses mesquinhos?

É para isso que pedem o nosso voto? Para fazer igual àqueles que criticam?

sexta-feira, 15 de março de 2019

Diálogo de surdos

Sábado, na esplanada de um restaurante em pequena cidade da província.
— Vanessa, esta tarde preciso de ti no salão!, diz a mãe para a filha, moça dos seus dezassete anos.
— Não há nada para eu fazer!
— Só que atendas quem chega, já me ajudas muito.
Amuada, a jovem, virou a cara para o lado: — Porque é que me não avisaste antes?
— Sabes bem que a mãe precisa de ajuda.
O pai mete-se: — Vanessa, porque é que não vais ajudar a tua mãe?
— Agora vou para a Biblioteca, tenho lá os meus amigos.
— Não são os teus amigos que te dão de comer.
— É sempre o mesmo. Só me dizem quando tenho outras combinações!
— Tens a semana toda para estares com eles. Porque é que não estiveste com eles hoje de manhã?
— Porque estive a aspirar, a arrumar, a passar a ferro…!
— Não querias que a tua mãe fizesse isso depois de sair do trabalho, à noite?
— Queria era que me dissesse com tempo quando é que precisa de mim. E aquilo é uma seca. Não tenho nada, nada, que fazer!
— Se aparecer alguma cliente, a tua mãe não precisa de largar o que está a fazer.
— Deixa lá, diz a mãe, e aponta a expressão da filha: — Não quero ninguém a receber as clientes com estas trombas.
— Tenho voleibol às quatro!, diz, lágrimas a correr pelo rosto.
Passa o tio, dono do restaurante, e manda-a tirar os pés de cima da mesa: 
—Isso é para fazeres lá em casa!
— Em casa, o pai não deixa!
— Ah, estava a ver que te não dava educação!

Momentaneamente, fico a sós com o pai da moça: — Isto é um problema, gerir conflitos constantes entre mãe e filha. A mãe fica lixada por a Vanessa a não ajudar, a Vanessa reponde-lhe com duas pedras na mão…

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Outros tempos

O S. era um velho implicativo, quezilento, amigo de armar zaragata por ofensas reais ou imaginárias. E passava o tempo a sacanear os outros, por maldade, e para se vangloriar das partidas pregadas.
Ora um dia veio,  humildemente, pedir ao dono do café e padaria, malandro como ele, o favor de lhe guardar metade dum cabrito na arca congeladora: 
— Bem vês, tive de o matar e só para a mim e para a patroa é carne demais... Se mo puderes guardar umas semanas, até à Páscoa...
E rematou, desconfiado: — Mas não  lhe tiras bocado, pois não?
— Por quem me tomas? Achas que preciso da tua carne para alguma coisa?
— Bem, sendo assim, deixo-o à confiança, venho buscá-lo para a Páscoa! E agradeceu muito o favor.
Ele a virar costas e o padeiro a passar palavra: — Logo à noite apareçam e tragam o vinho, que a ceia ofereço-a eu, é cabrito assado no forno!
Bela patuscada, bem regada, acompanhada com pão quente acabado de sair do forno. 
Chegou a hora da gabarolice. 
— Sabem de quem era este cabrito?
Pois não sabiam. Mas riem já, pressentindo partida  pregada a infeliz.
— Do S. 
Espanto geral. Como é que tinha conseguido passar a perna a esse sacana, tão desconfiado, tão matreiro?
—Veio-me pedir para guardar na arca meio cabrito esfolado, amanhado, prontinho a assar, só precisei de temperar!

— Mas ele não tem cabritos! Viste a cabeça do animal? Não? Ai o cabrão! Foi mas é o cão que lhe morreu ontem!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

A Idade de Ouro

Longe vão os meus tempos de pregador. Hoje, sem pretender converter, nem sequer convencer, as polémicas não me motivam como antigamente e fico-me pela contra-argumentação, na esperança vã de que os factos que avanço levem os meus opositores a considerar, tenuamente que seja, que podem não estar tão carregados de razão como se julgam.
Mas, assim mo mostra a vida e confirma a realidade facebookana, esgrimir argumentos é inútil contra a fé, seja ela a religiosa, seja a das causas que se vão construindo sob os meus olhos cépticos: agricultura ‘biológica’, medicinas alternativas, acupunctura, vegetarianismo, alimentos milagrosos que até curam o cancro e se acaso fracassam é porque ou o doente os descobriu demasiado tarde, ou porque os não consumiu da forma adequada, ou com fé suficiente, atitudes anti-científicas que rejeitam as vacinas, desdenham dos medicamentos, põem em causa evidências como a da Terra ser esférica, ou o homem ter descido na Lua, embora, estranhamente, pareçam aceitar que algumas das nossas naves já viajam para fora do sistema solar...
Será a saudade do passado que me leva a considerar muito mais poética a ignorância meio século atrás, com espíritos e espiritistas, almas assombradas e exorcistas, crendices que me deixavam apavorado por ter ingerido cabelo, a medo que se transformasse no meu interior em cobra, a benzer-me para afastar Satanás, a mijar nas feridas para as desinfectar?
Certamente. Mas a ignorância de antanho resultava da falta de informação. A de hoje envolve sobretudo gente dos meios urbanos, com estudos, que se enreda em argumentos e justificações palavrosas, ignorando uns factos, deturpando outros segundo as suas conveniências, não raro sustentando as suas crenças, inevitavelmente assertivas, em “estudos” facilmente desmentíveis.
Por exemplo, partem de factos inegáveis, como os efeitos secundários dos medicamentos, ou os perigos da utilização dos pesticidas agrícolas, para desencadearem campanhas contra o uso de uns e outros, não querendo ver, pois a fé é cega, que o nosso bem-estar depende crucialmente da utilização correcta de uns e de outros.
Sou velho. Já vivi mais do que o meu pai, talvez tanto como o meu avô Cipriano. E lembro-me muito bem, que as recordações do passado são as que a memória melhor retém, de como era a vida meio século atrás, num Portugal pré-científico, subnutrido e cheio de doenças. Infantis, que as vacinas evitaram. Crónicas e incapacitantes que os medicamentos curaram  ou tornaram suportáveis. Em que o cancro — sim, comia-se tudo biológico, mas morria-se igualmente de cancro — se tratava pondo-lhe ovos cozidos por cima, para que o cancro os comesse em vez do doente. E com rezas, que pouco mais havia.

Essa época, com escasso conhecimento científico, quase sem remédios (lembro-me das sulfamidas, da tintura de iodo, do melhoral, mais tarde do Vick Vaporub), em que apenas comia ‘biológico’ do que havia, quando o havia, não foi uma Idade de Ouro. Foi uma idade de sofrimento. Onde, como diz Álvaro de Campos, eu era feliz e ninguém estava morto. Sobretudo por isso.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Moda Outono/Inverno

As tendências da moda na condução para esta época obedecem ao estilo négligé (ou ‘desleixé’) e são inspiradas no mau tempo que se tem feito sentir, com dias escuros, chuvosos, de visibilidade reduzida, e também em preocupações ecológicas 
Por isso, a moda é conduzir com as luzes apagadas, mesmo que o dia se tenha feito noite; alguns levam a moda tão a peito que nem na noite mais escura acendem as luzes. Poupa as lâmpadas, poupa energia, e, o mais importante, segue os ditames da moda. Alguns, ainda indecisos, optaram por apenas ter luzes de um dos lados da viatura, o que tem a vantagem de permitir uma dupla interpretação: uns, observando o lado escuro do carro, deduzirão que é de fiel seguidor da moda desta estação; outros, pensarão que se trata de uma mota, já que os motociclistas, velhos jarretas que desprezam modas, teimam em circular, de dia ou de noite, com as luzes todas acesas.
Outra tendência da moda deste ano deriva da anterior: jamais sinalizar a mudança de faixa ou de direcção: Era o que me faltava ter de dizer aos outros para onde vou! Viro para onde quero, quando quero, não admito que restrinjam a minha liberdade, para que é que se fez o 25 de Abril?
Tenho observado ainda outra tendência, mas não sei se vingará, por me parecer demasiado infantil: sobretudo na autoestrada, há aqueles condutores que, imaginando-se talvez a competir na Fórmula 1,  se colam ao pára-choques do carro da frente para aproveitar o efeito de sucção e de repente, zás! guinam bruscamente à esquerda e ultrapassam ã falsa fé.

E agora que todos conhecem a moda da estação, vamos lá a respeitá-la: NUNCA acender as luzes, NUNCA sinalizar as mudanças de direcção, e SEMPRE pregar cagaços aos outros condutores, que isto de andar na estrada não precisa de ser enfadonho!