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Domingo, 18 de Março de 2012

Fome de leitura

Uns têm, outros não. Por isso, entendo ser desperdício de dinheiro iniciativas como o Plano Nacional de Leitura. Para mim, o que importa é pôr os livros ao alcance de cada criança, de cada adulto. Se tiverem a paixão da leitura, devorá-los-ão, mesmo que ainda os não saibam ler, como faz o Afonso, aqui a explicar algo às bisavós. Ontem, 17 de Março.

Pelos defuntos

A velhota retira à sua pensão de miséria, já escassa para a farmácia, dez euros para pagar missa por alma do seu defunto; o padre acrescenta o nome do falecido à lista do dia pretendido, não mais de oito nomes, até as missas têm limites de repartição. E por esse acto tão simples, pôr um nome numa lista e pagar dez euros, o defunto beneficiará de mordomias no além, talvez menor tempo de espera no Purgatório, caso a justiça divina seja tão demorada como a portuguesa, ou alívio de pena, caso a justiça divina seja corruptível.
Cá se fizeram, cá se pagam, não ao divino, mas aos seus comissários.
XXI séculos depois de Cristo, como pode a Igreja colaborar nesta farsa, tão contrária aos ensinamentos do seu Mestre, explorando a crendice de pessoas frágeis, carenciadas, pobres entre as mais pobres, estrafegadas pelo custo de medicamentos, taxas moderadoras, custos do transporte para esses hospitais que deslocalizaram para as grandes cidades, aumentos nos transportes, electricidade -- talvez, até, a passarem  fome?

Sábado, 17 de Março de 2012

O conto desta semana

É uma das histórias de Do lacrau e da sua picada. Um jovem casal, vida provinciana, bovarismo, violência conjugal. Assim escrevia eu uma dúzia de anos atrás. Para os meus fiéis trinta leitores, A menina do shopping, que pode ser lida AQUI.

Terça-feira, 13 de Março de 2012

Pâmpano

Eis a minha vinha que desperta da dormência invernal e dos troncos nodosos despontam jovens pâmpanos, de onde sairão longas vides, parras, cachos de uvas -- o milagre da Primavera repete-se num ciclo indiferente a secas, crises, querelas políticas. Assim houvera eu de ser, capaz de renascer em cada Março encarnando a Esperança, como se antes nunca tivesse vivido, intactas e inteiras as ilusões da mocidade.

Domingo, 11 de Março de 2012

Com o João

Passada a gripe, que me deitou abaixo durante quase duas semanas, corro a ver o João; encontro-o muito maior, mais gordo, as peles já cheias. Dorminhoco como de costume.

Sexta-feira, 9 de Março de 2012

O conto desta semana

Ferido d' Asa, disponível para leitura AQUI.

FOTO: Pedro Perdigão, quando nos conhecemos, ambos mais moços.

Quinta-feira, 8 de Março de 2012

O conto desta semana

Amanhã publicarei história mais ligeira, já conhecida dos leitores deste blogue: Ferido d' Asa, inspirada em versos que Camões glosou: Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha. 
Creio que surgiu desta forma: num domingo de Novembro, estava eu a labutar no meu Casal, e por lá passaram, em momentos diferentes, dois caçadores. Eles porque não caçavam nada, eu para endireitar as costas, lá nos pusemos na conversa, discreteando sobre os males do Mundo, da pátria e da agricultura. E uns dias depois, sem que nela tivesse pensado ou me apetecesse escrevê-la, a história veio ter comigo. Coisa rápida, quase sem correcções. 5 pp.

FOTO: no Casal, em farda de trabalho.

Terça-feira, 6 de Março de 2012

O primeiro voo

Na época, voar não era trivial e poucos se podiam dar ao luxo de o fazer. No meu caso, o meu pai era operário da KLM, a companhia holandesa de aviação, pelo que tinha direito a grande desconto no preço do bilhete. 
A aventura começou bem antes: fui sozinho, já me não recordo como, para Lisboa, e na confusão do aeroporto, balcões, línguas, voos a chegar e a partir, perdi o avião. Soube depois que ainda o tinham atrasado 15 minutos à minha espera. O senhor do balcão, algo preocupado com um miudito de província, enfezadito, catorze anos, escreveu-me um bilhete para apresentar em Schiphol: "Please help mr. Catarino to..."
Passei a noite no café, mesmo ao lado da pista, a ver as descolagens e aterragens dos enormes jactos ali ao lado, por entre o cheiro asfixiante do petróleo queimado. E na manhã seguinte, lá fui a pé com os outros passageiros para o "meu"avião, o tal Super Caravelle, pouco mais do que a camioneta de carreira da minha terra, mas com asas. Falávamos todos uns com os outros como se fôssemos conhecidos, a disfarçar o aperto de estômago quando a subida era cortada por brusca descida, e nova subida, cada vez mais altos...
Estávamos indignados, que na véspera tinham roubado o título ao  Joaquim Agostinho, acusando-o de dopping. Não acreditávamos: ele nem sequer precisava disso, que venceu com mais de uma hora de avanço. Não. Agostinho era humilde, era batalhador, era esforçado, e os poderosos deste país, a começar por essa cambada da federação, invejavam-no, tinham-lhe raiva, desprezavam-no pelas suas origens campónias.
Pouco depois, o almoço. Olhei envergonhado para os talheres, tantos, para que serviriam? E não ousava começar a comer para que se não apercebessem da minha ignorância rústica, quando uma das senhoras riu alto: -- Bom, isto deve servir tudo para o mesmo. Vou usar este mais pequenino, que me dá mais jeito, A tensão desanuviou, cada qual comeu com os talheres com que bem entendeu, mesmo os meus companheiros da classe média lisboeta não estavam habituados a tanto requinte. Deixei-os em Bruxelas e segui já ao pôr-do-sol para Amsterdam, baixinho, sobre os polders onde ainda havia moinhos de vento como nas ilustrações do chocolate holandês, a beber café delicioso.
No aeroporto, não me consegui desembaraçar: o meu Inglês era pobre, o Francês melhor, até que o polícia me pergunta: "Combien de temps vous rendez-vous en Hollande?" Eu puxava pela cabeça, até tinha estudado o verbo rendre no final do 3º período, mas o que significava? E nada me ocorria nem o polícia parecia capaz de encontrar sinónimo. Valeu-me a chegada do meu pai, passaporte na mão.

Fobias

Aí por volta de 1976, ganhei medo de andar de avião. Nada de especial, apenas uma série de mal-entendidos, línguas desconhecidas, a minha imaginação delirante. Já antes tinha voado, a primeira vez num Super Caravelle, uma geringonça fantástica, creio que em 1968; depois disso, voei mais vezes, sempre com desconforto, receoso de explosivos, terroristas, incêndios provocados por fumador na casa de banho. Mas isto é que eu não esperava:

PSP prende fornecedor de droga de estrela da televisãoHoje40 comentáriosJorge Esteves estava sob escuta por crimes violentos, mas acabou por ser preso por fornecer droga a figuras da moda e televisão e também a pilotos da TAP.
(No DN. Negrito meu).