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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Um balão de dez tostões

-- Ó rapaz, deita-me já essa porcaria fora!
O garoto protesta. Não senhora, era o que faltava! E não é porcaria nenhuma, é um balão do grandes, dos de dez tostões, que só se vendem em Alcobaça.
A mãe ralha, ameaça, chama-o para lhe tirar aquela porcaria, achada na sarjeta, que ele insiste em meter na boca, em soprar a ver se enche como balão dos grandes, dos de dez tostões, só vendidos em Alcobaça.
O garoto foge, recusa deitar fora o preservativo usado, sempre assim foi, os jovens sabem sempre tudo, deles é o mundo das certezas, e a mãe tem vergonha de lhe dizer o que é aquilo, para que serve ou serviu, por isso insiste nas ordens gritadas, mas não obedecidas.
Volta-se para mim, uns anitos mais velho, na esperança de que corra atrás do filho, o faça largar aquela imundície. E lá vou eu.
Em vão. 
-- Isso querias tu, que eu deitasse fora o balão que achei para ficares com ele! E foge à minha frente, ligeiro, sempre a tentar enchê-lo...
-- Isso é uma camisa-de-vénus!
-- É o quê! Pensas que me enganas?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Avalor e Arima

O episódio do triste Avalor, que parte em demanda da sua Arima (in Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro) motivou este excerto de Um amor inventado.
"Mas de nenhuma parte chegavam notícias. O João procurou nas grandes cidades, nas pequenas, nas vilas e aldeias deste país, por lugarejos e casais. Telefonou para todas as terras onde tinha conhecidos, muitos deles da tropa, perguntando se por lá tinham visto mulher e criança com tais e tais características. Pediu os endereços e escreveu a emigrantes, em França, na Suíça, na Holanda, na Suécia, no Canadá, no Brasil, nos Estados Unidos. Em vão. Ninguém tinha visto a Berta, nenhum indício dela. Logo que teve uma pequena licença, passou dias e dias em embaixadas e consulados, dormindo no meu quarto de estudante, arrastando-me consigo na demanda, para o ajudar com os meus fracos conhecimentos de francês e de inglês. Nada. A Berta desaparecera deste mundo, como ameaçara fazer. 
Dia após dia, noite após noite, pensou em partir também ele, sem rumo, sem destino, numa busca incessante, qual Avalor procurando em barca à deriva a sua Arima — mas o Mundo é tão grande e o homem bicho da terra tão pequeno — e uma réstia daquela razão que nos despoja da grandeza dos homens de antanho impediu-o de se perder por esses caminhos fora, numa peregrinação incomparavelmente mais louca que a volta a Portugal em que a conhecera..."

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Pêssegos

Comigo, tudo tem história. E histórias. Estes pêssegos, por exemplo. Semeio os caroços, transplanto as arvorezinhas que nascem para vasos que ofereço aos amigos,
-- Não quero! É árvore melindrosa, exige muitos tratamentos, ocupa terra, exige cuidados durante todo um ano para produzir durante quinze dias! Mais vale comprar na frutaria! 
Mitos. Há lá fruta melhor que a caseira, vinda na sua época?
E a minha mulher:
-- Planta-os no Casal, o teu tio Zé tinha lá pêssegos fantásticos!
Assim dividimos tarefas. Ela a pensar, eu a fazer.
No ano seguinte: -- Devias enxertá-los!
Sim. Mas a vista é má, as mãos tremem. Vamos (moramos a sessenta quilómetros do Casal) os dois. Eu digo como é, tu fazes.
Ei-la promovida a oficial enxertador. A saber mais do que o mestre, logo à primeira enxertia. Deita os olhos para o belo pomar industrial do vizinho, de frutos lindos, a dobrarem as ramagens com o seu peso.
-- Vai ali ao teu vizinho tirar umas borbulhas.
-- Não vou sem autorização.
-- Que mal tem tirar uns raminhos?
Aqui o povo dá tudo, basta pedir. Mas ai de quem se apropriar de uma simples palha alheia!
Por sorte, chega o dono. Sorte porque lhe posso pedir, sorte porque me não apanhou a roubar-lhe umas vergônteas: -- Joaquim, dás-me meia dúzia de borbulhas? 
Que levasse as que quisesse. E ele mesmo me indica as melhores qualidades para um amador, daquelas que os mercados não apreciam, ou pelo calibre, ou por não aguentarem o transporte e a conservação. Assim se têm perdido algumas das melhores variedades, como o "Jota Galo" (J. Halle) da minha infância, os pêssegos mais saborosos que alguma vez comi.
Diz-se que pegam melhor enxertos e estacas roubadas. Outro mito. Aqueles já produzem. Por enquanto, o suficiente para as provas.