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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A arte da Poupança

Após esbanjamento sem limites por parte do Estado, das empresas, dos privados, a palavra de ordem actual parece ser poupar. Não é que o verbo poupar seja conjugado: talvez para o não erodirem, ouço-o quase sempre no infinitivo. Dito de outra forma, não é tanto o eu poupo, tu poupas, ele poupa... que se ouve por aí; é mais como poupar, sob a forma de livros, receitas, programas de televisão, tudo isto a fazer-me crer que poupar é bom --- para os outros.
Como os media me não poupam os ouvidos, eu, que nunca fui propriamente esbanjador (embora aprecie uma extravagância de vez em quando), eu, que não sou discípulo nem parente do Tio Patinhas, dei por mim --- puro espírito de contradição, atitude infantil --- a não poupar nas palavras contra esta moda de poupar.
Eis o meu ponto de vista: você poupa, não come fora e o restaurante onde almoçava fecha e os empregados vão para o desemprego receber subsídios que V/ paga; para além do mais, se não é daqueles que cozinham, a sua mulher vai cansar-se de lhe preparar o farnel noite após noite --- e V/ acaba sozinho. Já pensou no que isso lhe vai custar? Onde encontrará outra como ela? E os custos da lide doméstica? E os gastos com as meninas do alterne? Concedo: poupará na Sport TV, no ginásio, que o ménage exigirá o seu tempo livre e toda energia de que dispuser.
Pois poupe. Poupe muito na electricidade, que a EDP, vendo os lucros a diminuir, o Estado vendo as receitas dos impostos a cair, depressa compensarão as quebras com novos aumentos. Poupe em tudo. Quanto mais poupar, mais o desemprego aumentará, mais pobre o país ficará. Ah, V/ terá uns euros aferroalhados num banco a taxas de juro inferiores às da inflação --- que dificilmente reaverá se o banco for à falência. Ou se formos expulsos da UE, como acontecerá se a economia não crescer --- e como crescerá ela, se nós, ex-esbanjadores, dermos em poupar? Ou se a UE se desagregar, como tudo indica que sucederá? 
Poupe. Rodeie-se de ouros e bens de luxo; os gatunos apreciarão. Ou os seus herdeiros, se entretanto morrer--- talvez um deles seja a mulher que o deixou para viver com outro menos poupado, a tal de quem ainda se não divorciou para poupar.
Poupe. Poupe no ginásio, poupe na comida. Nada de vícios. Poupe na vida saudável. Poupe no infantário, poupe na escola dos seus filhos. Poupe muito, faça-se alemão e poupe até no sono. Poupe, que o governo, este, o próximo, não importa qual, apreciará. Só se pode tirar a quem tem, não é? E para o consolar na sua vida poupada, divirta-se com a anedota (não reclame se não achar graça porque é de graça) daquele noivo que desabafava enquanto olhava desconsoladamente para aquela coisa que, por hábito de poupança,  recusava gastar-se em diversão nupcial:
--- E andei eu a poupar-me para isto!
E a noiva: --- Bem fiz eu, que me não poupei.

Apelo à emigração

Não podemos antes emigrar o governo? Ou, vá lá, estes moços secretários de estado? Mesmo que, primeiro, tenhamos de os desempregar? E não se assustem: já vivi sem governo e não foi pior. Basta ver que de cada vez que o Álvaro abre a boca...

Universos alternativos

Desiludam-se: no actual quadro político-financeiro não há esperança para a Europa, nem sequer para o mundo ocidental. Os especuladores regem-se pelo lucro imediato, nada lhes interessam os empréstimos a juros de dois ou três por cento por maiores e melhores que sejam as garantias. E é ver-lhes o soliso amalelo enquanto os juros dos investimentos constituídos com os nossos fundos de pensões sobem, atingem os setenta e tal por cento na Grécia (grande risco, grande rentabilidade, se der para o torto não serão ‘eles’ a perder, que o dinheiro é nosso, dos ocidentais) e os especuladores esflegam as mãos de contentes com os prémios de gestão que vão arrecadar.
Nem com Átila, o Huno, nem com Gengis Khan lograram dominar-nos. Conseguem-no agora, demais a mais com o nosso dinheiro. Tal como a Alemanha, vencida nas duas grandes guerras, emerge com o seu IV Reich.
Vou ler mais sobre universos paralelos e mundos alternativos.

Abutres e 'arrenúncias'

Duas boas notícias, e em época que tanta falta nos fazem: os abutres pretos voltaram  a Portugal após ausência de 40 anos e Jorge Coelho fez uma 'arrenúncia', prescindindo da pensão que, como jovem reformado, recebia do Estado, i.e., de mim e de vocês.
Estou intrigado com o regresso dos abutres. Terá constado que ainda há por aí uns restos para esmifrarem?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Dia chuvoso

Em dias como o de hoje, martelam-me a cabeça os versos de José Gomes Ferreira, aqui citados de memória:
Chove.
Mas que importa
Se estou abrigado nesta porta
A ouvir a chuva que cai do céu
Numa melodia de silêncio
Que ninguém ouve senão eu?

Chove.
Mas é do destino de quem ama
Ouvir um violino até na lama

Pena é estar novamente na hora de sair do abrigo...

domingo, 23 de outubro de 2011

Entropia social

Se desgostar de uma jarra e a lançar ao chão, escaqueirando-a, não a melhoro – quando muito, alivio a raiva. Se, por dela necessitar, a tentar reconstituir, espera-me um longo e minucioso trabalho, o de reunir cuidadosamente cada um dos pedacinhos e tentar colá-lo na posição correcta. Uma coisa é certa: dificilmente a jarra ficará melhor, mais funcional, mais bela depois de quebrada. E, se avaliar custos, esforço, tempo despendido, depressa concluirei que o alívio da raiva nem sequer compensou o trabalho de varrer e recolher os cacos. Por isso, o ser humano aprende, logo em criança, que a raiva se alivia de forma não destrutiva, compreendendo as suas causas, ponderando os efeitos, canalizando-a para fins positivos.  O controle da raiva é, assim, a principal fronteira entre civilização e barbárie.
Ora nos tempos difíceis em que vivemos não faltam apelos à exteriorização da raiva, à preservação pela força dos “direitos adquiridos”. Preocupante, a carecer de atenção especial, parece-me a crescente insubordinação de alguns sectores das forças armadas: ócio e armas, receio de perda de privilégios quase feudais, são combinação deveras perigosa em época de crise. E não falta por aí quem deite gasolina na fogueira, esquecendo que eles se defendem a eles mesmos -- e quem brinca com o fogo acaba por se queimar.
Lembremo-nos do Chile. Da Argentina.

Quando as pedras falam

O insensato envelhece à maneira do boi: ganha peso, mas não sabedoria -- terá dito Buda ou outro que tal. Ou plus ça devient vieux plus ça devient (con), cantava o Brel. 
Ei-lo a encher ecrãs com as suas banhas, somando disparates: há um PREC de extrema-direita, os militares devem colocar-se ao lado do povo contra a polícia se esta o reprimir, como sucedeu no Egipto... É um nunca mais acabar, sempre a fazer jus à alcunha que os camaradas de armas lhe deram nos idos de 75: A Pedra Falante.

sábado, 22 de outubro de 2011

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Curiosidade

É surpreendente verificar que este blogue é visitado por pessoas das sete partidas do Mundo, que assim se juntam à família e aos amigos. 
Sejam bem-vindos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Tadinhos dos políticos

Os políticos portugueses são mal pagos e desperdiçam ao serviço da coisa pública  os anos mais rentáveis da sua carreira -- repetem constantemente.
É o que confirma este estudo do Expresso, que segue o percurso de 15 políticos, comparando a sua situação antes e depois de passarem pelo governo. Coitados, por este andar em breve estarão a pedir o rendimento social de inserção.
Fico à espera de estudo análogo sobre os nossos autarcas, deputados e comentadores. Para saber se estes últimos continuam a pregar que a culpa não pode morrer solteira. Que nós, portugueses, vivemos no passado recente acima das nossas possibilidades. Ou que as estatísticas mostram que cada português...

ADENDA: veja-se também esta notícia do Sapo:
Os cortes previstos no Orçamento do Estado para 2012 não poupam os políticos. Cavaco Silva vai receber menos 20 mil euros. 
(Será por estas e por outras semelhantes que anda agora tão contestatário?)

Nuvens negras

neste tempo tão soalheiro. Parece-me avistar, para lá do horizonte de cortes e de contestação, a pior ameaça que paira sobre qualquer espécie animal: o espectro da fome. 
Compramos quase tudo o que comemos. Pouco produzimos, para o que bem nos ajudou a ciência económica de governantes como Cavaco Silva. Havia, diziam-nos, pessoas a mais nos campos, a agricultura não poderia ser rentável com tanta gente, os campos ficaram ao abandono, as embarcações de  pesca foram abatidas. Em troca de subsídios. Para os grandes "agricultores" da capital, para os armadores. Subsídios para Portugal não produzir.
Consta que lá fora já ninguém nos empresta dinheiro. Como compraremos a comida que diariamente nos é necessária? Como resistirão as populações das grandes cidades, que foram levadas a abandonar o campo, desprestigiante e desinteressante, para viverem no conforto citadino? Voltaremos aos tempos da primeira república, com motins frequentes causados pela falta de pão -- não estou a falar em sentido figurado; é mesmo pão, feito de farinha e de água, mais desta que daquela. Pão seco, com a manteiga da fome.
Homem prevenido vale por dois. Pelo sim, pelo não, com o quarto neto a caminho, vou aumentar as sementeiras e plantações. Enquanto houver batatas, não se morre à fome. Já Iphones e Ipads não valerão um papo-seco se as minhas previsões se confirmarem -- e bem desejo estar enganado.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Siderado pelos cortes hoje anunciados

Nem por sombras me passou pela cabeça o que aí vinha, nem mesmo quando escrevia e dizia que o pior estava para vir. Ei-lo que chega, veremos se ficamos por aqui. Para já, é a proletarização da classe média baixa. Vamo-nos ver gregos nos próximos tempos. Que poderão durar anos, ou eternizarem-se. Suponho que nem dependerá de nós. Apenas nos podemos contorcer, forçados a optar entre lume e frigideira.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A Mensagem em Mirandês

Um jovem estudante de medicina, de seu nome Leite de Vasconcelos, ouviu um colega de quarto cantar numa língua desconhecida. De tal forma ficou intrigado que, sabendo pelo colega que era falada na terra dele, lá foi estudá-la e apresentou num congresso de Filologia a descoberta de uma língua românica até então desconhecida: o Mirandês.
Estudos subsequentes revelaram que Leite de Vasconcelos estava errado: O Mirandês era, afinal, Leonês contaminado pelo Português. O Mirandês estava em vias de extinção até que foi introduzido como língua oficial nas escolas de Miranda do Douro. Anos atrás fui passear para a região de Miranda, com a esperança de ouvir o Mirandês. Nada. Português com prosódia regional, um ou outro regionalismo, alguns arcaísmos. Português, sem dúvida. Por vezes, há reportagens televisivas sobre esta "língua" e eu, curioso, escuto atentamente na esperança de ouvir alguém falar mirandês. Em vão. Uma ou outra diferença lexical, algumas fonéticas, mas a mesma sintaxe. Nem os miúdos que aprendem o Mirandês na escola o falam.
Pois hoje leio no Blogtailors que a Mensagem foi publicada em Mirandês. Quem a vai ler? Quanto terá custado? Quem pagou? Deixem-me adivinhar: foi o FMI. Que tal publicá-la também em Latim, em Grego antigo, em Sânscrito, em Hitita?
CURIOSIDADE: Muitos anos atrás, fiz eu o último teste da minha licenciatura, Linguística Românica. Tanto calor que o Professor Lindley Cintra pediu-nos licença e tirou o casaco. No teste, um texto que eu identifiquei como Leonês de uma região muito próxima de Portugal, a partir de porteguesismos nele presentes. Só me faltou acrescentar, porque de tal me não apercebi, que era Mirandês...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Pishing

Em Português do Brasil, com erros de pontuação e de ortografia. Logotipo brasileiro. Para pescar a conta bancária de idiotas chapados.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ferido d'asa (4/4)

Que é a vida do nosso perdigão, rei exilado preso ao terreiro por tiro traiçoeiro? Uma vaga memória daqueles tempos em que com golpe de asa vigoroso transpunha os vales e mais depressa chegava ao próximo outeiro do que o jipe do caçador lampeiro? Saudades do bando que governava e protegia, dos perdigotos que nasciam às dúzias em cada ninhada e lestos corriam logo à desfilada? Memórias desse tempo que foi e já não é, receio do que o Outono trará quando soarem os primeiros tiros de Setembro – apenas para rolas e tordos, mas Pedro não lê editais e esconder-se-á apavorado como os demais animais.
Eis que chega o dia fatídico da guerra impiedosa aos bichos de pena, fugir ou ficar, correr ou voar? De todo o lado assobia chumbo, só Pedro resguardado no SANTUÁRIO está a salvo – se caçador incumpridor o não matar:
-- Não vi as placas, senhor guarda! Juro pela saúde da minha mãezinha!
-- E também não viu que era perdiz, não rola ou codorniz?
-- Pois não, senhor guarda! Se não voava, apenas corria como rato pelo mato!
Terá o caçador punição, só a Pedro pendurado no cinturão de nada adiantará ser confiscado: depois de morto, pouco lhe importará ser ou não cozinhado. Por isso, sempre desconfiado dos homens e das suas leis, esconde-se novamente em silvado e reza, reza mentalmente para que o domingo acabe depressa e leve consigo Outono e Inverno, ambos de penúria desagradável e risco de vida incalculável.
O perigo veio dos outros bichos: -- Porque não morre Padre Pedro, velho, inválido e resmungão, em vez dos jovens perdigões, das moças perdizes? Porque não segue a própria pregação, despachando-se a entregar a alma ao Criador e a carne ao caçador? Pacto com o Maligno haverá.
E na manhã seguinte, logo que os animais dispersos pelo tiroteio da véspera reagruparam, chegam-se a pedir contas ao profeta. Ignoro se combinaram o protesto pelas redes sociais dos animais, essas que cruzam fios de alta tensão com restolhos, vinhas e olivais, se espontaneamente se congregaram justiceiros: ali estava toda a bichada de Aqui e d’Além, bandos de perdizes em que já não reconhecia ninguém, rolas tolas, pombos que voam aos tombos, cucos malucos, laparotos marotos, lebréus algo incréus, um texugo sanhudo, o javali que corre por aqui e por ali, melros e melras de sangue nas guelras – enfim, tudo o que era bicho de pêlo, de pena. Queriam explicações: porque o não caçavam a ele, Pedro, o Desasado, por demais fácil de apanhar impedido de voar, e a eles perseguiam e matavam em vinhas e olivais?
Pedro, cercado, sofria insultos, bicadas e patadas, exaltam-se ainda mais os ânimos -- que se faça ali e já justiça popular, depois o tribunal divino apurará se agiram bem ou mal. Que se entregue ao Criador este pregador, que se sacrifique para que não mais os persiga caçador.
Chega-se uma das raposas desconfiadas, que de tanto perseguidas, caçadas, envenenadas, quase foram exterminadas:
--- Amigos, tal coisa não queirais vós fazer. Deixai-me, que eu prestes sobre ele porei remédio.
E ia abocar o pobre Pedro, quando este, num arrojo de génio deu em gritar: --- Milagre! Milagre! Olhai e vede! Uma linda senhora sobre aquela azinheira, o Sol que anda à roda da terra inteira!
Milagres é o que todos queremos, por eles ansiamos, pena rarearem, culpa da nossa fraca fé – e os bichos alevantaram os olhos ao céu, e ofuscados pelo Sol já lhes parecia que sim, rodava como as cabeças, agora voltadas pela azinheira, e de facto clarão e luzes que enchiam os olhos encandeados  pousaram sobre a copa. Logo a tola da rola deu gritar: -- Milagre é este, espantosa coisa de ver, senhora tão linda pousada em azinheira -- tão leve que nem os ramos curvam sob o seu peso! E bico por terra, sem mais ousar fitar a aparição, rogava: -- Senhora das Aves e dos Céus, intercedei por nós, pecadores! Acabai com os caçadores!
E o Mocho dorminhoco, despertado pela revolução, a mostrar erudição:
-- Sinal divino é este sem dúvida, perdoai a Pedro Perdigão, que mal não nos traz e tem do divino a protecção.
Meneia três vezes a veneranda cabeça e diz:
-- Vejam lá agora os sábios na escritura que espantosas coisas são estas da natura!
Que é feito de Pedro Perdigão, perguntar-me-eis? Pois ia jurar que ainda ontem o ouvi cantar…

domingo, 9 de outubro de 2011

João Jardim e eu

Tenho de reconhecer a amarga derrota: João Jardim mantém a maioria absoluta e eu, até ao momento, apenas tenho 3 votos!
Enfim, amanhã, segunda-feira, publico o final de Ferido d'asa. E ou muito me engano ou vou desapontar uma certa leitora, que, creio, não votou...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Final de "Ferido d'asa"

Falta publicar a última secção do conto para se saber como termina. Já escrevi o final e não o vou modificar, mas, para continuar a brincadeira, sugiro aos leitores e leitoras que votem no inquérito aqui à direita. Podemos depois confrontar as propostas com o meu final. Repito, não o vou alterar, embora não exclua a possibilidade de, mais tarde, vir a ajeitar esta historieta que, ao contrário do que é a minha prática, foi escrita às três pancadas e quase não teve ainda correcções.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ferido d'asa (3/4)

III
Por qualquer razão incompreensível, como se receio houvessem dos defuntos ali sepultados, os caçadores passavam ao lado do Cemitério, chamavam imperiosos os cães. E Pedro aprendeu que, desde que não passasse para lá das placas com o estranho dizer, não corria o perigo de ser novamente caçado.
Recuperou dos ferimentos, mas não voltou a voar. Pobre perdigão que perdeu a pena, condenado a viver deficiente, bicho da terra tão pequeno!. Mas Pedro, se pena de si tinha, não a mostrava. E quando ao longe, numa manhã espevitada pelo Sol, se ouviu o Cuco a anunciar a chegada da Primavera, Pedro sentiu nas veias o sangue a remoçar e atreveu-se a soltar o Chamamento do Bando.
Antes o não fizera. O bando aterrou perto, mas para assistir à tareia que o novo Perdigão em funções deu no pobre Pedro. Ensanguentado, acachapado em moita como coelho apavorado, viu – teve de ver – o Arnaldo Perdigão arrastar a asa às perdizes cujas suas antes haviam sido, a montá-las galifão, e elas, submissas, a baixarem-se  e a levantarem felizes a cauda para que as cobrisse. Efémero é o amor, quem não aparece esquece, que esperavas, Pedro, desaparecido durante todo um Inverno, as tuas penas a salvo enquanto as do bando se iam, uma após outra, e as aves, depenadas e amanhadas, acabavam estufadas e servidas à mesa?  Esqueceste, acaso, que é obrigação do Perdigão oferecer-se em sacrifício para salvação do bando? E apareces após este tempo todo, a chamar as fêmeas como se as mereceras, tu que não soubeste morrer quando devias, tu pobre aleijado, a querer cobrir perdiz como se foras jovem brigão com tal direito, são e escorreito?
Escarninhas afastam-se as perdizes, à cabeça o imponente perdigão, inchado como galo de engorda. 
Pedro, eremita a viver nas redondezas solitárias do cemitério, refugia-se no estudo, procura a sabedoria, descobre as virtudes da religião, como acontece amiúde com os animais e homens a quem fêmea falta: 
-- Ah, este mundo é ilusão, tudo passa, tudo muda, tudo vai sempre de mal a pior, para quê a agitação, a correria, a busca da riqueza e da fama, se inevitavelmente acabamos mortos por tiro traiçoeiro ou de maleita na cama? Todo o esforço é vão, toda a glória inútil, endireitai os caminhos do Senhor para que nos proteja de fome e de caçador, sede humildes, reparti o que tendes, quanto mais derdes mais havereis, seja neste mundo, seja depois, quando voardes pelo Céu Eterno, livres para sempre das peias carnais!
A bicharada das redondezas escutava a pregação, mas mais ouvia do que a seguia: nos bandos de perdizes, o perdigão não as repartia, antes defendia bravamente contra rivais, fossem eles iguais com bando próprio, fossem deficientes ingentes que recorriam à pregação com vista à sedução e posterior cobrição…
Por isso, Pedro, mal avistava perdigão pimpão a aproximar-se, atraído pela prédica, prestes se protegia em silvado evitando briga de que sairia sovado perdedor; e logo que o concorrente se afastava, retomava o sermão, sacerdote pedófilo, cuco esperançoso de atrair franganita ingénua e fazer filhos em bando alheio. Não sei se alguma vez o terá conseguido: os machos, conhecida a sua fama de santo de pau carunchoso, impediam à bicada as fêmeas de se aproximarem do cemitério; e elas próprias troçavam cruelmente do pobre perdigão, aleijado desasado e velho -- e o pobre Pedro, se porventura acabou converso pela própria pregagem, nem por isso deixou de cobiçar a perdiz alheia.

Mistificações

A ninguém fica bem dizer mal de um morto -- até os seus arqui-inimigos hoje protestam amizade de três décadas. Mas ouvir, como acabo de ouvir na TV2 à Sandrinha, que morreu um dos maiores génios do séc. XX -- porra, é de mais. Que descobriu S. Jobs, para além da arte de nos vender aquilo de que não precisamos? A Teoria da Relatividade (restrita e alargada), a Mecânica Quântica, a Teoria das Cordas? Acaso descodificou o genoma humano? Que medicamentos, que tratamentos médicos lhe devemos? Foi ele que preparou as missões Apolo ou que ajudou sondas a voarem para além de Júpiter, outras a descerem em Marte? Inventou os computadores, criou o HTML, lançou a Internet? Foi ele que escreveu alguns dos melhores romances, que publicou poemas que marcaram esse século, que realizou os filmes mais emblemáticos? Ajudou de forma marcante o terceiro mundo? Devemos-lhe a paz nalguma região conflituosa do planeta? O fim da fome, de doenças endémicas? O seu legado, se é que há legado, em que consiste, resistirá ele ao Tempo?
Morreu um homem ainda novo, o que é sempre terrível. Feito de fraca carne humana, que ganhou e deu dinheiro a ganhar a muita gente. Mais nada. Que descanse em paz. E que todos os seus fãs, essa gente que passa a noite a pé à espera de ser dos primeiros a comprar o último brinquedo da maçã, me deixe em paz.

Ocaso

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ferido d'asa (2)

II
Acordou ao anoitecer. Ali não poderia ficar, qualquer raposa ou doninha dele faria o jantar. Arrastou-se por entre dores terríveis, quase a desistir, até que, às cegas, logrou alcançar a saída. Fora, a lua cheia iluminava o campo, onde ir, onde dormir? O bando andaria longe, as perdizes sobreviventes dispersas e aterrorizadas, incapazes de lhe valer mesmo se as encontrasse – e nem forças para o chamamento havia. Ah, se fosse pombo empoleirar-se-ia em alto ramo – e como, se tinha a asa derribada? Também escondido em moita seria facilmente encontrado pelo faro dos inimigos e, incapaz de fugir, terminaria os seus dias entre dentes esfomeados, de nada lhe valendo ter escapado a cães e caçadores.
De um dos lados, o silvado acabava em barreira. Subiu-a penosamente e num esvoaçar desesperado, quase de uma asa só, saltou largo, longe, aterrando bem em cima das silvas – que trespassaram as penas e o feriram dolorosamente. A salvo dos inimigos de quatro pernas, não o estava porém dos voadores, e enfiou-se o mais que pôde dentro do silvado.
Não dormiu. As dores martirizavam-no, Cristo pregado numa cruz de silvas, como ele inocente coroado de espinhos, como ele vítima da ferocidade dos homens. Ali se deixou ficar, imóvel para que os picos o não martirizassem mais, bebendo as gotas de orvalho, debicando – alimento estranho para papo habituado a grãos – as doces amoras, coisa de se manter, de sobreviver, náufrago em mar de silvas ondulando ao vento logo acima da sua crista.
A primeira visita que teve foi do peneireiro. Bicho peneirento. Avistara-o lá das alturas em que caça, olhos penetrantes de falcão, pousou, não logrou alcançar Pedro, bem defendido pela agudeza dos picos. Ficou por ali a dar-lhe conversa, tal e qual como os políticos e os economistas fazem com os humanos: -- Compadre, vais morrer de qualquer maneira. Sabes bem que já não te safas. Posso livrar-te do sofrimento. Uma bicada minha e acaba-se tudo. Que me dizes?
-- Vai-te...
-- Malcriadão. Mas enfim, perdoo-te a ofensa, estás nas últimas, deliras já. Corresses tu pelos campos com o teu bando e queria ver-te a falar-me assim. Enfim – e levantou aos céus o olhar cínico --,  perdoai, Senhor, as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. É o teu destino. Vais morrer. Precisas de me matar também?
Pedro não respondeu. Precisava de poupar saliva, o Sol atravessava a vegetação sem se picar e queimava o perdigão como se fora Verão.
-- Vá, fala, diz alguma coisa. Sabes que te admiro, o maior perdigão d'Aqui e d'Alèm. O mais vivaço. O maior cobridor. Nenhum outro tinha bando com tanta fêmea. Sempre cumpridor das obrigações para com cada uma delas, bem o vejo lá de cima. Queres agora acabar vilmente, a apodrecer neste silvado, devorado pelas formigas, sem proveito para ninguém, nomeadamente para mim, que só te não comi antes porque não quis?
-- Vai-te... , tornou a responder o malcriado. Nunca me caçaste porque sou mais esperto e mais ligeiro do que tu. Não fora a arma de fogo do Homem e nunca chegarias à fala comigo. O que faço com a minha carcaça só a mim diz respeito. Fica para aí o dia inteiro a palrar como gralha, que é bom morrer com companhia. Pode ser que os caçadores voltem por mim…
O peneireiro agitou-se nervoso, olhou em volta receoso. Ao longe, latiam cães. De caça? De guarda? O ladrar é o mesmo… E prudentemente o falcão bateu as asas, elevou-se nos ares fora do alcance de espingardas, nas alturas de onde podia vigiar Pedro, se ousasse sair a procurar refúgio no arvoredo.
À noite veio a raposa, veio a gineta, veio a doninha, todas com muita conversa, a propor-lhe expedita e grátis eutanásia. Veio o furão, animal medonho, vampiro dos coelhos, a cobiçar-lhe o sangue – e pouco havia. Mas nenhum animal se conseguiu aproximar.
Passaram outros dias. Precisava de sair, comidas as amoras da redondeza. E Pedro, numa madrugada, quando os inimigos nocturnos se tinham já resguardado e antes que os dos ares se levantassem, ora empoleirando-se, ora esvoaçando, alcançou a barreira. Furtivamente, embrenhou-se por entre o arvoredo. Com tanto azar que, descobriu-o depressa, era outra vez dia de caça.
Tiros e mais tiros. Gritos, latidos. Outra vez tiros. Vida infernal, a dos animais do campo, cara a liberdade, custosa a sobrevivência, por todo o lado tantos inimigos, os piores são os caçadores e os seus cães, piores porque ferem longe e nem sequer matam por fome…
Do alto do outeiro, o perdigão estendeu a vista e assistiu horrorizado às caçadas. Pareceu-lhe que dois lugares escapavam à sanha matadora: junto das casas e perto do cemitério, onde uma placa colocada pelos homens tinha sinais esquisitos que Pedro bem via mas não compreendia: SANTUÁRIO. Foi para lá que se dirigiu.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ferido d'asa

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha

Logo aos primeiros tiros, Pedro Perdigão tombou redondo por terra. Baque tremendo, dor terrível, sufoco, poeira e sangue – outro resignar-se-ia ao fim inelutável, não ele, Pedro Perdigão.
--- Busca, Fagote! Busca a perdiz! Por ali, ela foi por ali!
Ah, destino ingrato, cair de tiro, morrer abocado por rafeiro, sexo transmudado como se fora paneleiro!
Latidos excitados, Pedro corre ligeiro evitando as dentadas, ziguezagueia, ora o acossam da esquerda, ora o acometem da direita, para onde virar, por onde fugir, a cachorrada vem de todo o lado, -- Busca, busca o ferido!
(Assim está melhor, morrer por morrer que seja como macho, senhor do harém d’Aqui e d’Além.)
Tenta a canzoada atalhar-lhe o caminho, impedi-lo de alcançar o silvado vizinho, Pedro faz das tripas coração, esvoaça um pouco, o suficiente para lhes passar por cima, eis túnel apertado dos coelhos, por lá entra como se animal da terra fosse, os cães seguem-no, na sua excitação nem sentem a dor de cada arranhão, de fora, esbaforido o caçador, incentiva, ameaça, manda – mas não há cão na matilha, por pequeno que seja, que caiba em passagem tão estreita. Pedro avança, espuma de cansaço, de dor, as feridas do tiro rasgadas pelos espinhos acerados das silvas salvadoras, e, a salvo dos perseguidores, desmaia, exausto e exangue.

Empatas

Preciso de uma disciplina de ferro para conciliar trabalho, escrita, família, agricultura e karaté. Ora hoje, terça-feira, dia em que tenho poucas aulas, levantei-me decidido a continuar o romance em que trabalho. Pois não é que um conto nasceu na minha cabeça e teimou em se pôr à frente? Como sempre me sucede, a única maneira de me livrar de empecilhos como este é escrevê-los, para poder passar  adiante. Foi o que fiz. Mas, para castigo do seu atrevimento, e porque lhe não quero dar importância -- que não tem--, publicá-lo-ei aqui e no Facebook, secção a secção.
Não é fábula: falta-lhe a moralidade final; não é história infantil: nem a linguagem, nem, sobretudo, o conteúdo,a tornam recomendável para crianças; não é narrativa para leitores exigentes, com claras conotações literárias, intertextualidades e cidades do jet set. Não é um produto de árduo labor, suor da minha fronte. É apenas uma historieta.
Porque a escrevi então e, mais grave ainda, porque a publico? Porque, coisa rara, me diverti com ela. Nem sempre a escrita é sofrimento.

Do silêncio

No dia 26 de Janeiro do corrente ano, e num período extremamente difícil da minha vida, tomei uma decisão de que ainda me não arrependi: não voltar a fazer comentários em blogues (exceptua-se o Facebook, mas não é um blogue). O respeito que tenho pela minha palavra tem-se sobreposto à tentação de manifestar concordâncias e discordâncias nos blogues que admiro e diariamente sigo.
A cada dia que passa, a cada leitura das caixas de comentários, mais me convenço de que tomei a decisão acertada: os blogueres lidam bem melhor com elogios (e, sobretudo, com a lisonja) do que com opiniões contrárias; por outro lado, não faltam leitores a exprimir opiniões semelhantes às minhas, bem melhor do que eu conseguiria fazer -- sem que me possam acusar de ser movido por sentimentos mesquinhos.
Foi o que aconteceu hoje, com este post.