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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Lição de vida

Esta andorinha, impedida de trabalhar pela forte chuvada que cai, aproveita-a para tomar banho de chuveiro.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A pensar nas batatas

A lavrar, ontem, aproveitando um dia bonito deste Fevereiro tão incerto. Pode ter sido trabalho deitado a perder pela chuva de hoje e pela que está prevista para os próximos dias. Pode S. Pedro, o manda-chuva, obrigar-me a plantar as batatas noutra courela. Assim é a agricultura: jogo de azar. Fica o prazer de uma tarde bem passada, a fazer o que gosto, sozinho, longe de aborrecimentos

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Teoria da conspiração

Irrita-me passar um serão a validar facturas: quase duzentas minhas, outras tantas da minha mulher. Se eu não tenho dificuldade em etiquetar despesas de oficina, restaurante, cabeleireira, esteticista,  porque é que os funcionários das Finanças, pagos para fazer esse trabalho, o não conseguem?
Dizem-me que algumas empresas têm vários CAE ou diferentes actividades para um mesmo CAE. Admito que sim. Mas não cabe antes de mais às finanças e a essas empresas resolverem esse problema, em vez de obrigarem o cidadão contribuinte a ser simultaneamente contabilista? E aqueles milhões de pagantes que usam com dificuldade o computador? Sobrecarregam familiares, amigos, ou vêem-se obrigados a pagar a quem lho faca para as Finanças, que nos levam couro e cabelo nos impostos, folgarem?
E o meu amigo, que escutava estes desabafos:
-- Ah, eu não valido as facturas!
Olho-o intrigado. Isto não está para desperdícios, ninguém quer pagar ainda mais de imposto.
-- Tenho um empregado das Finanças que mas valida.
Ah, então é isso! Não se faz o trabalho para receber por fora!

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Sempre a aprender

Conta-se que o primeiro podador foi um burro: roeu uma videira, a qual produziu mais e melhor, pelo que o dono passou a imitar o asno, cortando também as outras.
É assim que tenho podado. Com pena por não fazer melhor, sempre a deitar olhares invejosos para as árvores podadas por quem sabe. E agora, que surgiu a oportunidade, inscrevi-me e estou a frequentar curso de podador.
Para não continuar a podar "à la burro".
Hoje era dia de trabalho de campo, tesoura na mão, pois o formador, engenheiro agrícola com doutoramento na área da fruticultura, entende que é nos pomares, a contas com as árvores, que se aprende. Mas a chuva obrigou a mudança de planos...
Eis-me em casa, outras podas, limpando textos de galhos, ramos secos, ladrões, esporões doentes, lenhos podres, atarracando verdascas, porque, como na poda das árvores, corta-se para produzir fruta e não madeira.
FOTOS: (1) Ilustração do pintor João Alfaro para a capa do meu Entre Cós e Alpedriz, que acabou por não ser utilizada; (2) na poda de pessegueiros, antes da formação.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Ah, rapazes do meu tempo!

Às vezes, normalmente em funeral de familiar na aldeia, encontro colega da escola primária, daqueles que não vejo há mais de meio século. E não o reconheço. Por exemplo, o Fernando, que me conta que abandonou a escola na segunda classe, e foi trabalhar para forno de tijolo, como as crianças de Esteiros. Acrescenta com orgulho legítimo: ele, que a pobreza deixou semi-analfabeto, conseguiu dar destino diferente aos filhos: o rapaz, que me apresenta, é engenheiro e já está empregado, a filha termina Economia. 
Recordo outros colegas, uns mortos, outros desaparecidos na diáspora montense, que nos levou, a quase todos, a abandonar a aldeia natal. Sugiro um almoço para nos encontrarmos. A ideia não o entusiasma. 
Porque na minha aldeia todos andam mal com todos. Não se falam. Ódios ancestrais, conflitos de há décadas, mexericos, intrigas, questões de vizinhança. Diferenças de classe herdadas de outro mundo, em que aldeia estava dividida em "ricos", os que tinham muitas terras e empregavam servos, e "pobres", com umas leiras de seu, mas sempre dependentes dos primeiros. 
Emigração, acesso aos estudos generalizado, 25 de Abril, mudaram a aldeia, mas não as mentalidades.
Nem mesmo no funeral, nem mesmo no cemitério, quando a terra que o coveiro lança sobre o caixão devia fazer recordar a efemeridade da vida e sentir o ridículo das questiúnculas que nos dividem, se decidem a esquecer rancores velhos, para voltarmos, por minutos que sejam, àquele tempo em que éramos apenas nome próprio e alcunha de família, o Zé Chaparrinha, o Fernando Galfarro, o Zé Balias, o Zé Codicas, o Armindo Escabelado, e tantos outros, e corríamos descalços por vinhas nos jogos de "coque", tomávamos banho em pelota no açude, roubávamos fruta nos pomares, disputávamos ninhos, jogávamos à pedrada...
Éramos então poucos, somos hoje menos. Muito menos. Como mais ninguém o faz, vou eu organizar o encontro, correndo o risco de almoçar ou jantar sozinho -- porque este não vai se for aquele, ou nesse dia não pode, ou não tem interesse nenhum na companhia dos outros.
Agradeço contactos e sugestões.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Um amor inventado (excerto)

[A meados dos anos sessenta do século passado, dois jovens, entusiasmados com as proezas do grande ciclista Alves Barbosa, montam nas bicicletas e partem da aldeia para darem, eles mesmos, a volta a Portugal. Na descida da Serra da Estrela, em Manteigas, um deles descobre o amor inventado...]

"Em cima, o sobrado parara de ranger e o silêncio profundo envolve novamente a pensão; em baixo, o Jorge esforça-se por se manter acordado para dizer das boas ao João quando voltar. Mas o João não pode descer, novamente preso entre as pernas da criada, que como tenazes o retêm dentro de si, ensinando-lhe que amar requer tempo e vagar; ternamente, a Berta olha-o das profundezas dos seus olhos verdes, diz-lhe meiguices como ele nunca ouviu e certamente jamais ouviria se não saísse da aldeia natal e a encontrasse tão longe, na Pensão Estrela, nos contrafortes da serra do mesmo nome, e arrulha, arrulha, mergulhando pelos olhos dele dentro à procura da alma, talvez para confirmar se se ajusta tão bem à sua como a boca dele ao seu mamilo esquerdo; a barba do companheiro pica-a e inocentemente diz que quando se casarem será melhor ele barbear-se à noite; esquece que o rapaz está completamente saciado, tão depressa não precisará de mulher e, quanto a casamento, Deus o livre enquanto puder — e quando casar não será com uma sopeira, mesmo tendo-se deitado uma noite com ela, ele, que ela terá passado sabe-se lá quantas, vá-se lá saber com quem! As pernas que o retêm, impedindo de sair de dentro dela o que restava dele, empurram-no furiosamente, a mão direita explode na cara do João com o som seco de um tiro de pistola, e é fera assanhada que grita, baixinho, para não provocar escândalo, apontando a porta — que desapareça dali. A surpresa da agressão, a violência da bofetada, dessa primeira vez em que ela lhe bateu, a indignação da moça, levam-no a não querer ser expulso como cão que entra na igreja apenas porque a porta está aberta. É ele que tenta emendar a asneira, é ela que tapa a cara com as mãos e o repele de si com os cotovelos, nua como nasceu, e tão brava está que nem o ouve, fala, fala: bem a enganou, julgou-o diferente dos outros, mas é apenas mais um porco que depois de se espojar volta para o seu masseiro e o seu curral; se já tem o que queria, ou mais do que isso até, porque não desaparece, dali, da vida dela?
Desorientado, exausto e sonolento, o João não sabe o que quer, mas sabe que não pode deixar a moça naquele estado e não acha justo depois de tudo o que ela lhe deu portar-se de forma tão ingrata, como peixe astuto que comeu a isca e escarnece do anzol. A Berta chora inconsolavelmente, enrolada no divã, os joelhos encostados ao queixo, uma das mãos cobrindo os olhos, ou para o não ver, ou para esconder dele a sua nudez, sabido que é assim que as mulheres reagem por pudor, diferentemente dos homens, que, se surpreendidos nus, se obstinam em ocultar com as mãos o que lhes pende entre as pernas; cauteloso como aranha que se aproxima da fêmea, receoso daqueles cotovelos, perigosos e cegos, batem por instinto naquilo que lhes toca, aproxima-se e diz: — Gosto de ti!, a única frase bonita e sincera que lhe ocorre naquele momento de desorientação. Não foi grande coisa, mas a Berta já sabe que não é dado à retórica; virou para ele os olhos verdes e, por entre lágrimas de desilusão e de raiva, surpreendeu-se: — O quê? 
Timidamente, o João repetiu o que antes dissera. Então ela deitou-lhe ao pescoço os braços que antes o repeliam, encharcou-o nas lágrimas que não cessavam de correr, e sem deixar que os olhos dele fugissem dos seus, repetiu-lhe, através deles, que nunca mais, mas nunca mais, lhe dissesse aquelas coisas feias; não o queria contrariado um instante que fosse junto de si; solteiro ou casado, podia deixá-la quando quisesse se não gostasse mais dela; mas sem ordinarices, entendia?
Estranha o rapaz que as lágrimas femininas aticem aquela parte do corpo que já esmorecera, suplicando por repouso... Quem diria que têm esse efeito, ao tombarem sobre os homens?"
Um amor inventado, JCC

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

43 anos de namoro

Quando começámos a namorar, a 3 de Fevereiro de 1973, o mundo era outro. Mas mudava depressa. Os americanos, com todo o seu poderio, tinham sofrido derrota humilhante no Vietname. Cá, a ditadura herdada por Marcelo Caetano agonizava. O "orgulhosamente sós" salazarista era por todo o lado interpretado como "vergonhosamente sós", tão mal acompanhado que Portugal estava: só Israel, sionista, e a África do Sul do aparteid nos apoiavam nas votações das Nações Unidas. A guerra colonial estava no auge, e nem a censura conseguia evitar que os jornais antecipassem a derrota iminente: lembro-me de título de primeira página do Diário de Notícias reproduzindo declarações do ministro da defesa, general Costa Gomes,  proferidas em visita a Moçambique: "A situação é grave, mas não desesperada".

Era tão desesperada que o general a não negava. E, se dúvidas houvesse, bastava ver as longas listas de mortos, sobretudo furriéis e alferes milicianos, que o mesmo jornal publicava diariamente e eu recortava para afixar no bar do Instituto Comercial onde estudava. Pouco. Já então a actividade revolucionária me absorvia de tal forma que o meu tempo era gasto a escrever e distribuir panfletos, de dia nas escolas e universidades, de noite nos "meus" bairros populares (Madragoa e Alvalade), a fazer "selos" (como chamávamos às tiras autocolantes com slogans revolucionários impressos com carimbo) e a colá-los por todo o lado, nas paragens de autocarro, nas vitrinas dos bancos, nas árvores de jardim, a pintar paredes, reuniões clandestinas, actividades de recrutamento, manifestações diárias...
Perdido de sono, de que sempre sofri e sofro, incapaz por natureza de noitadas, faltava frequentemente às primeiras aulas. Sempre alerta para não ser seguido ou preso pela PIDE, ia irregularmente às outras, sentava-me junto à janela, pronto a saltar e fugir se me tentassem prender lá. Nas aulas, escrevia constantemente, mas não eram apontamentos de aluno atento, antes panfletos estereotipados, para imprimir e distribuir mais tarde.
A minha vida era então a Revolução. Ou quase. Porque havia também a paixão inconfessada pela colega da foto, tirada antes de namorarmos. Sem coragem de me declarar, a medo de a perder.
Amigos. Colegas de estudo, inseparáveis nas aulas, nos intervalos, uma noite por outra noite no Big Ben, café de estudantes próximo da Faculdade de Ciências, onde o fumo era de cortar à faca e eu lhe tentava explicar os mistérios da matemática, a resolução de equações de segundo grau, o enigma dos números imaginários,

-- Se são imaginários não existem!
-- Mas repara, qual é o número que elevado ao quadrado dá -4?
-- Menos dois!
-- Mas não pode ser, bem sabes que o quadrado de um número negativo é sempre um número positivo!
E ela protestava contra a tirania dos axiomas, a irracionalidade dos números irracionais, a incompreensibilidade dos números imaginários! Coisa mais absurda, a Matemática! Não se podia ficar apenas pelos números naturais, afinal aqueles que importam a futura contabilista?

Pois na noite de 3 de Fevereiro, dia do seu aniversário, começámos a namorar. E, quarenta e três anos depois, ainda não parámos. 
FOTOS: (1) Junto a Económicas, em cuja cantina almoçávamos frequentemente; (2) a estudar, salvo erro na estufa fria, aí por 1972. Somos o par da direita.