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sexta-feira, 28 de maio de 2010

Dos intelectuais

Desconfio de quem se intitula intelectual.
Por isso, de cada vez que um movimento intelectual se organiza e se torna notícia, demais a mais pronunciando-se sobre matéria em que não é mais competente do que um zé-ninguém como eu próprio, recordo-me do grande Prévert:

Il ne faut pas laisser les intellectuels jouer avec les
allumettes
Parce que Messieurs quand on le laisse seul
Le monde mental Messieurs
N'est pas du tout brillant
(...)
Répétons-le Messsssieurs
Quand on le laisse seul
Le monde mental
Ment
Monumentalement .


Jacques Prévert

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Antidepressivo

Também eu. Valha-nos esta Primavera serôdia, em que as rosas teimam em nos recordar que este mês quase findo é Maio. Governos e desgovernos vão e vêm e a crise é endémica entre nós. Como as rosas.

 "Circunda-te de rosas, ama, bebe
    E cala. O mais é nada."
Ricardo Reis

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O regresso da autodefesa

Conta-se que os antigos pescadores recusavam aprender a nadar: em caso de naufrágio, sofriam menos. É, parece-me, ideia semelhante que impera nas sociedades contemporâneas, em que as pessoas recusam aprender técnicas de autodefesa, preferindo confiar na misericórdia dos agressores. Ora a agressão mudou muito, tanto nas suas motivações como nas consequências. Se num passado não muito distante era motivada, hoje não são raros os casos de violência gratuita, que pode culminar em ferimentos graves ou, até, na morte das vítimas e a atitude dócil de cordeiro, que oferece sem resistência o pescoço ao lobo, não só não é dissuasora de ataques como até os pode precipitar. 
Vêm estas considerações a propósito de notícia que acabei de ver na Euronews: na China, a autodefesa foi introduzida nas escolas após uma série de ataques contra crianças, frequentemente mortais. Surpreendeu-me porque, no berço do Kung Fu, antepassado das artes marciais, tais práticas tinham sido banidas por Mao, que as considerava feudais, e os mestres perseguidos e condenados aos campos de "reeducação". Depois, com a ocidentalização, apenas foram promovidos estilos mais suaves, como o Tai Chi Chuan, expurgados das suas aplicações em combate -- e foi essa faceta de "arte marcial não marcial", não raro reduzida a coreografia que tem por única função a melhoria da saúde, que popularizou esses estilos no Ocidente, em detrimento das práticas tidas por violentas, como as variantes "externas" do Kung Fu ou o Karaté.
Receio que não falte muito, desvanecida a ilusão de que o ser humano é naturalmente bom e a violência sempre condenável, para que entre nós se reequacione a necessidade da prática da autodefesa, que as artes marciais promovem. E, antes que me lancem acusações fáceis e frívolas, recordo que estas artes privilegiam a formação do ser humano, ensinando que só é legítimo recorrer à violência em último recurso -- mas então há que o fazer empregando os meios necessários e suficientes para preservar a integridade física dos agredidos.
NOTAS:
(1) Emprego o termo Kung Fu por ser suficientemente conhecido para dispensar explicações;   as referências à sua evolução recente são propositada e necessariamente superficiais.
(2) Na foto, O Xavier e o Mendes, nos exames em Paredes de Coura, 2009.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Vilaça Pinto Sensei no Entroncamento

Na próxima sexta-feira, 21-5-2010. Ginásio Il Korpo, 16H30-18H30. No dia seguinte, sábado, orientará treino de instrutores em Leiria.
Fotos: treino de Março passado, mesmo local.

Menção honrosa

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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Rosa alba

Do meu jardim.
Maio. Para recordar Reis, que cantou as rosas:
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.

Ricardo Reis

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Saldanha Sanches

Leio no Da Literatura que morreu Saldanha Sanches. Conheci-o, talcomo à Maria José Morgado e a tantos outros que há muito me não conhecem ou me esqueceram, na agitação revolucionária do início dos anos 70. Era então figura carismática e respeitada no nosso meio, pela idade, pelo passado (tinha acabado de cumprir sete anos em Peniche pelo PCP), pela clareza das suas posições. Depressa jovens turcos, muito mais radicais, o promoveram e o viriam a precipitar em desgraça, culminando com a sua expulsão por seguir a linha de direita, coisa que, pouco depois, também me sucederia...
Fica a memória de um homem que sempre respeitei, que sempre admirei, que muito gostava de ouvir na televisão. À viúva, que não lerá este post, a expressão da minha solidariedade nesta partida do companheiro de uma vida para a prisão sem regresso. E, apesar de tudo, fica também a saudade daqueles tempos loucos e gloriosos, em que lutávamos, não contra as propinas e quejandos, mas contra a guerra colonial, a ditadura fascista, a pide, a repressão -- e arriscávamos a vida, a liberdade, o futuro. Desses tempos, deixei vestígios em Do lacrau e da sua picada:
(Tantos anos se passaram já! Contudo, fecho os olhos e continuo a ver, fascinado, os escorpiões passeando pelas mãos calejadas do curandeiro, ressequidas e tostadas por uma vida de trabalho de sol a sol, o olhar honesto de quem recusa usar o seu dom para fugir à enxada, com o brilho de quem está disposto a sofrer e a morrer pela sua verdade, mesmo que ela resida no ferrão peçonhento de um lacrau, macho ou fêmea, tanto faz. Ah, como o compreendo, eu que também tive uma verdade, venenosa como aqueles escorpiões, e a perdi algures no tempo, juntamente com a minha mocidade!)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Vacas gordas, vacas magras

Escrevi o "poema" que se segue, a itálico,  aí por 1993/94, era Cavaco 1º ministro e Manuela Ferreira Leite a sua ministra da Educação. Portugal era então, diziam-nos, o bom aluno da CEE, de onde chegava dinheiro a rodos. Cavaco, sempre sibilino, dizia no Vale do Ave que era tempo de acabar com as despesas sumptuárias (sic), mas nada fazia para lhes pôr cobro, providenciando que os fundos comunitários fossem bem aplicados. Analfabetos foram formadores, "empresas" de formação proliferaram como larvas de vareja na carne apodrecida, empresários do têxtil e do calçado trocavam de carro -- e que carro -- quase mensalmente, fizeram-se autoestradas e os jipes que bebiam 16 aos 100 atafulharam-nas,  "agricultores" que nunca pisaram a terra enriqueceram com os subsídios para tudo, até para não produzir, o novo-riquismo, ostensivo e grosseiro, sem volfrâmio nem ouro do Brasil, corrompeu tudo, desde aquilo que sempre esteve corrompido até aos valores que ainda subsistiam aqui e ali -- trabalho, dignidade, decência...   
Nunca ninguém apreciou o meu "poema". Retomo-o hoje, dia das "medidas de redução do défice". Para recordar que os males que nos afligem começaram bem antes, com a destruição propositada e planeada da agricultura, das pescas, da indústria, do ensino... Só que, até pouco tempo tempo atrás, quase ninguém queria ver o que, no entanto, era evidente: se um país não produz, não é viável.

Portugal anos noventa

Destroçado pela derrota derramo minha amargura
Pelos caminhos deste país que já foi de vinho e mel
E a ela perdura, amarela e viscosa como fel,
Tingindo cada rosto, cada figura,
De lívida brancura

Já nada é como era dantes
e o cabelo que me vai faltando é apenas
breve indício do Inverno que se vem aproximando.
Mas o que me dói e não tem cura
neste entardecer azedo
é ver o país a adormecer cinzento
de indiferença e pasmo bafiento

Ninguém faz nada sem proveito.
Pelas auto-estradas que conduzem aos centros comerciais
telemóveis saúdam as novas catedrais
(Por aí fora, o abandono
Matas queimadas, hortas perdidas
peixes lançados ao mar
fábricas fechadas, reformas antecipadas
país de alheio dono
Desespero do desemprego, aldeias abandonadas
oh subsídio-servo-dependência!)

Não, nem orgulho ferido nem sonhos perdidos
agora já só o meu olhar camponês me magoa
como o mato à minha terra onde já nada é como dantes...
Chove no Verão, o Inverno aquece
E o nevoeiro não tece mistérios bastantes
outros que a miséria deste Portugal que esmorece

Só sei que de lado nenhum sairá a luz que rompe as trevas
porque já nem a noite é de breu
nem os dias resplandecem
e os amanhãs não cantam,
silenciosos como a nossa triste terra.

Irmãos

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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Menção honrosa

Para o meu conto Mundo Pequeno,  na 11ª Edição do Concurso Literário Prémio Dr. João Isabel, organização da Câmara Municipal de Manteigas.
Fico muito feliz com a  informação, recebida via telefone há momentos. Muito mais do que com a vinda do papa, apesar do feriado (e eu preciso tanto de tempo para escrever), muito mais do que com a vitória do Benfica, porque não vou em futebóis. Enfim, neste mês de Maio parece haver alegrias para todos...

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Fado, futebol e Fátima

Tantos anos depois do fim do salazarismo, não deixa de ser aberrante constatar que dos respectivos três efes apenas o fado perdeu importância. Ontem, gente aos pulos a berrar histericamente "campeões", hoje a praga de Fátima a encher as televisões. Entretanto, o ministro das finanças vai preparando o terreno para novos impostos... Raio de políticos, que nem imaginação têm para inventar novos anestésicos, e voltam sempre às receitas do passado; raio de povo, a quem qualquer pantominice serve para se anestesiar, desde que provoque histeria colectiva, se possível frente às câmaras da televisão -- e esquece que circo é acompanhado de pão: panem et circenses, não era assim, Juvenal?
Cumprimenta clientes que jantam, conhecidos que seroam, toda a gente com os olhos pregados no televisor, TV, dizem os entendidos, ouvidos atentos às conversas, lábios comentando e descomentando, com futebol, fado e Fátima vamo-nos anestesiando e passando o tempo, no ecrã pagadores de promessas rasgam os joelhos entre rezas mastigadas mecanicamente — prometeram, obtiveram a graça, é a altura de a pagar para que no razão divino nada conste em seu desfavor.
— Venha cá, chama imperiosa a dona da pensão, e o rapaz tem um sobressalto, sabe que vai ser interpelado, admoestado, julgado, receia não passar no exame. É isso mesmo: tem de ouvir das boas, não que dona Noémia se tenha esquecido de que também foi na sua juventude criada de servir, também ela engravidou de moço fogoso, quem o imaginaria ao ver o seu discreto marido entretido a criticar o sacrifício dos peregrinos, contrapondo à fé dos ignorantes as novas ideias da igreja, agora mais avessa a sangue derramado, mais arredada de ritos pagãos.
Inédito meu.

domingo, 9 de maio de 2010

Sábado

Tarde calma, chuvosa, estrada deserta, estrada que conhecemos de olhos fechados, percurso que fazemos semanalmente há uns 36 anos. À saída de uma curva suave, a descer, o carro foge para a esquerda, rodopia como em carrossel de feira, dois, três piões, não sei bem, sobe a berma da esquerda, felizmente do lado da encosta, embate contra uma manilha e imobiliza-se. Trabalha. Não ficou atascado. Conseguimos voltar à estrada, tentamos retomar o caminho, fica o susto, felizmente só o susto.
O carro foge em todas as direcções. Um pneu estoirado. Substituo-o, sobre a lama, debaixo da chuva. Arrancamos  -- continua a fugir. E pela primeira vez na vida vi-me forçado a pedir assistência em viagem, reboque...
Provavelmente vai para a sucata. A reparação deve custar bem mais do que ele, de 97, vale. 
Coisas da vida, que pensamos só acontecerem aos outros. Mas, como dizia o meu pai, a sorte de um homem é escapar. Ileso, acrescento eu.

Kindle

O meu Kindle. Por enquanto -- mas só por enquanto -- estou nos livros gratuitos, alguns dos quais apenas poderia adquirir em alfarrabistas ou em leilões.
O aparelho: excedeu todas as minhas expectativas. Só serve para ler livros ( não é adequado, parece-me, para jornais e revistas). O ecrã, monocromático é fantástico e, surpreendentemente, melhora com a intensidade da luz. Guarda a página em que interrompemos a leitura (de cada um dos livros), permite sublinhar, anotar, é facílimo passar livros e textos a partir do computador ou descarregá-los da Amazon...
Levíssimo, é muito prático para ler na cama -- ou em qualquer outro local.
A compra: no site da Amazon. Sem dificuldades, entrega rápida.
Livros gratuitos para download: aqui, ou pesquisando no Google.
Para saber mais: kindleportugal
Estou convencido de que o Kindle e outros e-readers representam um salto qualitativo (e uma revolução nos mercados) comparável à substituição dos tijolos cozidos, tabuinhas enceradas e afins por papiro, pergaminho, papel -- ou dos livros manuscritos pelos impressos.
E o fetichismo -- cheiro, tacto, empréstimos e brigas por livros não devolvidos? Não sinto a falta... Não daqueles que só concebem os livros em estantes a vergar, que um dia os herdeiros doarão ou leiloarão...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Visita papal

A vista papal trouxe de novo beatice e anticlericalismo  para a ribalta. Nada de novo. Sempre os crentes desejaram converter os ateus e vice-versa. Criticar o fundamentalismo de uns faz pressupor que estamos a tomar partido pelos outros. Eis um excerto que, a propósito da pneumónica, escrevi em Entre Cós e Alpedriz:
A devastação causada pela doença provocou uma forte crise religiosa, uns jurando que tinha sido praga divina castigando o povo incréu pela perseguição à Igreja, tanto no Portugal republicano como por essa Europa fora, por exemplo, na Rússia, que já fora Santa e agora era bolchevique; outros, convencidos de que Deus morrera de velhice ou então a Humanidade Lhe não interessava, como Lhe não interessaria o sofrimento dos vermes nas estrumeiras, atacavam azedamente beatos e beatas, padralhada, como se a fé dos outros os incomodasse tanto como a sua descrença ofendia os fiéis que na missa oravam pela sua conversão.
Imagem: João Alfaro, proposta para a contracapa do romance.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Mata, que é talassa! (ou outra coisa qualquer)

Contava o meu pai, emigrado na Holanda nos anos sessenta, que outro português, lisboeta, enviava todo o salário para a mulher, que, prontamente, o esturrava. E nos dias que faltavam até à chegada da próxima remessa, ensinava os filhos a insultar e a odiar a fotografia do pai -- que longe labutava para que a família tivesse um presente e um futuro melhores.
Lembrei-me desta anedota, verídica, devido a uma pérola hoje recebida via mail, provinda de alguém que não conheço nem me interessa conhecer -- o seu nome vai directo para o filtro anti-spam. Veja-se que  começa por propor "luto pelos assassinos que governam o nosso país"!
DIA 22 E 23 DE MAIO LUTO PELA MORTE DA DEMOCRACIA, DA JUSTIÇA, DA IGUALDADE, DA HONESTIDADE…
PELOS ASSASSINOS QUE GOVERNAM O NOSSO PAÍS…
Eu fiz parte integrante do 25 de Abril de 1974.
Na minha unidade militar prendemos todos os oficiais.
Estou pronto para outro golpe de Estado (para meter esses políticos na cadeia
)
Enquanto vivemos acima das nossas possibilidades, gastando o que não tínhamos nem temos, protestávamos porque se não gastava o suficiente; agora que nos ameaça o espectro da pobreza, de que nos julgávamos exorcizados para sempre, tudo se resolve prendendo uns tantos... A estes justiceiros, recomendo o estudo da História e, nomeadamente, das revoluções. Recordo que propostas deste calibre ainda recentemente foram implementadas entre nós, na 1ª República, que me querem obrigar a comemorar. E veja-se no que deram -- cinquenta anos de salazarismo. Para que estes "revolucionários " não percam a chama nem a esperança, aqui fica esta canção, que certamente apreciarão muitíssimo.
Ah ça ira ça ira ça ira
Les aristocrates à la lanterne
Ah ça ira
Les aristocrates on les pendra
(Ah, isto vai, isto vai, os aristocratas para os candeeiros, ah, isto vai, isto vai, os aristocratas, enforcá-los-emos)



domingo, 2 de maio de 2010

Escrita colaborativa

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Favas

"Maio as dá, Maio as leva". Ou "semeia e cria, e terás alegria". O prazer de as semear e de as colher (as favas dispensam amanhos) só é comparável ao de juntar a família e amigos para as comer.