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domingo, 28 de novembro de 2010

No jobs for the boys

Tanta ingenuidade é confrangedora:
Passo Coelho avisou hoje que "os espertalhões que sabem colocar-se, na hora certa", ao lado de quem "vai ganhar" que "não terão guarida, nem complacência" por parte do PSD.
Não terão guarida como, se sempre estiveram lá dentro, à espera da oportunidade que vai tardando? Camarada Passos, já és crescidinho, deixa-te destes dislates. Ouve o que te digo: os partidos, e nomeadamente as suas jotas, são lodo do mesmo charco. Se, um dia, longínqua miragem, vieres a ser primeiro ministro (e não menosprezes o actual, que é mestre na arte do ludíbrio e do engano, e só sai do governo com tira-nódoas -- e, além dele, tens à perna o teu amigo Cavaco), se vieres a ser primeiro-ministro, cala-te bem caladinho, deixa-te de declarações pomposas, chega-lhes pela calada, sem complacência, a roupa ao pêlo, aos "espertalhões", e terás o meu respeito, a minha admiração. Ficarás para a história como o primeiro governante a conseguir fazê-lo...
(Et ne m'en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s'aiment
Même si je ne les connais pas
Jacques Prévert, "Barbara" )

sábado, 27 de novembro de 2010

As enguias

Enterradas no lodo, bem longe do claro céu, mourejam as enguias, sempre desconfiadas das luzes que fascinam as borboletas ingénuas. Repelentes, de hábitos repugnantes, sobrevivem onde o peixe graúdo, que delas se alimenta, desdenharia viver – mas não se pense que, modestas, discretas, ao menos vivem em paz; não: desde pequeninas que as perseguem impiedosamente. Mei×ão, chamam-lhes, e vendem-nas a preço de oiro, devoram-nas às dezenas em cada dentada... As que logram sobreviver, adoptam rudes modos de vida, ou eu ou eles, e todos fechamos os olhos e só nos indignamos quando as suas histórias sobem fétidas do lodo e borbulham chocantes à superfície dos brandos costumes: “Que horror! Más como as cobras!”
Ei-las, evisceradas, palpitantes, contorcendo-se na frigideira, em fuga do azeite fervente, ei-las que caem no lume vivo, nos seus cérebros atrofiados por trevas milenares uma única vontade, a de sobreviver, uma única ânsia, o Mar dos Sargaços da Redenção deste viver ignóbil...
Como as compreendo, como lhes invejo essa força, essa vontade de lutar desesperadamente, inutilmente, indiferentes à crua realidade, perdida já a esperança do regresso à bonança de um qualquer mar… Ah, antes o inferno da escolha entre frigideira e lume. Antes escamados, esventrados, que resignados ao tango do Orçamento…

Publicado no Delito de Opinião, convite de Pedro Correia. Muito obrigado!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

25 de Novembro

Posts em vários blogs, como este e este, recordam-me da efeméride. Eu estive . Tinha 21 anos e vivi-o por dentro, com muito medo, completo desnorte -- afinal, de que lado estava eu? Como se furriel miliciano tivesse direito a tomar partido! Um dia, escreverei sobre a forma como vivi esse dia e, pior, os seguintes, a comandar soldados em barricadas, os oficiais, como sempre, resguardados no quartel, as carreiras protegidas qualquer que fosse o lado vencedor. 
Por hoje, fico-me por este fragmento inédito de uma das minhas narrativas:
"combate-se nas ruas, nas ruas onde todos nos manifestamos, pela libertação do camarada Saldanha Sanches, pelas 40 horas, pela unicidade sindical, contra os fascistas que o Otelo tarda em toirear no Campo Pequeno, em apoio do companheiro Vasco… E morre-se no 25 de Novembro no cerco à Polícia Militar, em que umas dezenas de comandos cercam 2500 PMs bem armados e entrincheirados no interior do quartel, bravos que, ainda na véspera, desfilavam briosos, camuflado, lenço vermelho ao pescoço, punho erguido, soldados, sempre, sempre ao lado do povo, rijo tiroteio e rendem-se ao inimigo figadal, sempre pronto a acertar velhas contas retornadas das colónias --- era a Polícia Militar, resguardada da guerra nas cidades, que prendia por bebedeiras e desacatos os comandos de licença, uns dias longe do mato e das matanças."
FOTO: sou o primeiro, à direita, ajoelhado.

Flores outonais

Só falta o aroma, suave, discreto --- embriagador para as abelhas, sempre azafamadas, sem tempo a perder, que o Sol é de pouca dura e as flores depressa murcham...

"Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
"

(Bocage)

FOTO: a nespereira do meu quintal, mesa posta para as abelhas. Clicar nela para ampliar.
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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O vampirismo do romance

Sorve todo o tempo livre e não dá descanso no tempo ocupado. Enerva-me quando afazeres profissionais me obrigam a pô-lo momentaneamente de lado. Suga-me quando acordado, ensonado, até a dormir, em sonhos. Deita-se e levanta-se comigo, martela-me a cabeça frase a frase, palavra a palavra, sempre descontente, sempre exigente. Alimenta-se de tudo o que nas gavetas e nas pastas do computador lhe parece apetecível -- contos não publicados, histórias incompletas fadadas para outro destino, vasculha posts do blogue, na esperança frequentemente vã de encontrar pasto para a sua voracidade. E um dia, se terminado -- sei-o por experiência anterior -- deixa-me vazio, sem mais nada para contar, sem mais nada para escrever, enjoado só de o ver, incapaz de mais uma vez o reler sem vomitar. Nem então me dá sossego: vai à sua vida,  sim, exigindo embora que o apadrinhe, o proteja, o divulgue, o venda até, a mim que sou um desastre nos negócios...
Chamou-se Do lacrau e da sua picada, chamou-se Entre Cós e Alpedriz, veio outro cujo nome que não pode ainda ser divulgado, eis agora as Plêiades (título provisório), que exige ser terminado. Vampiros que, como na canção de José Afonso, comem tudo e não deixam nada.

Destaques do dia

(Os links não correspondem aos títulos dos posts)
Eduardo Pitta, sobre a regra e a excepção.
Pedro Correia, sobre a coerência de políticos respeitáveis.
João Gonçalves, sobre a emigração altamente qualificada.
Sérgio de Almeida Correia, sobre a nova revolução cubana.
De Rerum Natura, sobre a arte de dar peidos (que é mesmo o que a conversa da ministra do trabalho e dos dirigentes sindicais está a pedir).

No Delito de Opinião

Graças à amabilidade do Pedro Correia e da equipa do blogue, o meu texto, As enguias. Muito obrigado a todos.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Hoje, quarta, é dia...

de feriado municipal no Entroncamento. Que vai servir para fazer um teste para quinta-feira (os professores não fazem nada, é só férias e dias livres).

Receita para a bancarrota, do grande Eça

"— Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz? E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar absolutamente. Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta — cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota.
— Num galopezinho muito seguro e muito a direito — disse o Cohen, sorrindo. — Ah! sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da Fazenda!... A bancarrota é inevitável; é como quem faz uma soma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hem! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
— A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela — continuava o Cohen — que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país...
Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionária constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos maganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, de Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a bancarrota estalava. Somente, como ele disse, isto não convinha a ninguém.
Então Ega protestou com veemência. Como não convinha a ninguém? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! À bancarrota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um país que vive da inscrição, em não lha pagando, agarra no cacete; e procedendo por princípio, ou procedendo apenas por vingança — o primeiro cuidado que tem é varrer a monarquia que lhe representa o calote, e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal, livre da velha dívida, da velha gente, dessa colecção grotesca de bestas..."
Eça de Queirós, Os Maias (negrito meu)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Mudem de rumo, mudem de rumo

Como canta José Afonso (nunca conseguirei chamar-lhe Zeca).

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Gaba-te, cesta...

Há anos, desde que me decidi a publicar, que luto para divulgar os meus escritos, imodestamente convencido de que terão algum valor. Com sucesso relativo, embora posts do pintor João Alfaro, mensagens animadoras dos escritores Rentes de Carvalho, Joaquim de Lisboa, José Cavalheiro, do editor Nelson de Matos (entretanto perdida por problema informático) me envaideçam e animem. Na semana passada, foi a vez do escritor Carlos Maduro me presentear com este post, que orgulhosamente reproduzo:
José Cipriano é um amigo que não conheço pessoalmente, mas que descobri aqui na net e de quem sou admirador. Começa pelo nome e acaba no título dos seus livros. Este que aprecio particularmente, Entre Cós e Alpedriz, está na Net e pode ser lido. O Amigo José Cipriano fez o favor de me enviar uma edição impressa e aí a leitura cresce muito mais, mas serve o PDF para abrir o apetite.
     O José é mais um dos finos escritores regionalistas, daqueles que gosto a sério, dominam a pena sem vaidades e pseudo-intelectualidades. Os toiros têm cornos e as vacas tetas. Fica aqui a sugestão duma escrita que não é depósito de agonias existenciais e de prosas poéticas sem nexo.
http://joseciprianocatarino.com/joomla/images/stories/entrecosealpedriz.pdf
 Muito obrigado e um abraço. Um destes dias, encontrar-nos-emos e não faltará assunto de conversa.

domingo, 14 de novembro de 2010

A razão a quem a tem

Numa arrogância de que frequentemente me arrependo, comecei por me rir do actual Papa e da sua voz senil. Mas, paulatinamente, fui mudando de opinião. O homem não é nada parvo. Estou completamente de acordo com estas afirmações do Papa. É exactamente o que venho dizendo e escrevendo, neste blogue e em caixas de comentários de outros que me merecem respeito:

"Perante o arrastar do "desequilíbrio entre riqueza e pobreza, o escândalo da fome, a emergência ecológica e o problema do desemprego", Bento XVI considerou decisivo um "relançamento estratégico da agricultura".

"Parece-me uma boa altura para que se volte a valorizar a agricultura, não em sentido nostálgico, mas como recurso indispensável para o futuro",
sublinhou.
(...)O papa também criticou os países onde, "apesar da crise, se incentivam estilos de vida que convidam a um consumo insustentável, que resulta em danos para o ambiente e para os pobres".

"É preciso apontar um novo equilíbrio entre a agricultura, indústria e serviços, para que o desenvolvimento seja sustentável e a ninguém falte o pão nem o trabalho, o ar, a água e o resto dos recursos que sejam preservados como bens universais".

Alimentar a alma

Escorrem as notícias pelos dias, cinzentas, depressivas como eles, e nós, acabrunhados, envergonhamo-nos com o nosso primeiro ministro, de mão estendida à caridade, mendigando junto dos tiranos das sete partidas do Mundo, enquanto os seus ministros se preparam para o abandonar… Eu sei, Portugal afunda-se, sem que nenhum de nós possa agora fazer o que quer que seja para o evitar. Por isso, sejamos felizes, sem remorso nem receio. Há muitos, muitos anos, aquando de outra crise, não me chegava nunca o dinheiro até ao final do mês e recebi uma carta dos meus pais com uma pequena quantia: faziam anos de casados e queriam que nós (éramos três na altura) fôssemos jantar fora. Havia tanta necessidade, tanta privação, que hesitei: aqueles centos de escudos poderiam ser mais bem empregues em calçado, em roupa… Lembrei-me então de um poema árabe, algo como: “Se só dois pães te sobrarem / vende um / e compra flores / para alimentares a alma”. Fomos jantar ao melhor restaurante local e, bem comido, bem bebido, a alma alimentada, a crise já me não parecia tão assustadora. Desde então, defendo que a importância inegável do mundo material deve ser relativizada para que outros valores mais altos se alevantem.
Neste fim-de-semana comemorámos o São Martinho. Nos Montes, na minha adega, em família, e o tempo ajudou: vento forte, chuva, para que o lume fosse mais aconchegador. A água-pé está excelente: muito bem apaladada, leve, oito ou nove graus. Já envasilhada, pronta para distribuir pelos amigos, na esperança de que, saboreando-a, esqueçam, também eles, a desgraça que é o nosso governo e as humilhações que inflige a este pobre país -- até Timor se propõe comprar a nossa dívida! Que tal ajudar-nos pagando os custos da GNR, que lá zela pela segurança deles?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Coisas boas do Outono

Esta sonolência que me ataca logo após o jantar e me impede de trabalhar -- e refastelo-me na cama a reler a Ilustre Casa de Ramires. Tal e qual como escrevi há quase um ano. É seguramente cíclico. Por isso, boa noite.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Tokui-gata

Jion.
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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

As desgraças costumeiras e o peligo amalelo

Durante um mês, preveniram-nos: ou o orçamento é aprovado ou temos o fim do mundo. Agora que o foi, os juros chegaram aos 6,9 e ninguém pode garantir que parem por aí. Se tivesse sido chumbado, como o governo merecia (e nem me quero alongar a discorrer novamente sobre arrogância, promessas, incompetência), se o orçamento tivesse sido chumbado, estaríamos pior? Talvez. Mas seriam os credores a tremer, assustados com a possibilidade de falirmos e os deixarmos a arder. Dificilmente especulariam.
Volta-se o governo para o Império do Meio; não saberá que a China já era civilizada ainda os nossos antepassados resistiam heroicamente à civilização e que sabem mais eles a dormir (não por acaso, já lhes ouvi chamar "os judeus do oriente") do que nós acordados? Não passará pela cabeça dos governantes que os chineses só estão interessados em defender os interesses chineses? Quanto a nós, insignificantes bárbaros do Ocidente, vão-nos cozer em fogo lento, puxando pelos juros para terem os consequentes lucros especulativos, apropriar-se do que por cá houver de valor, impor-nos a sua visão estratégica (quero  agora ver o Dalai Lama em visita a Portugal), os seus produtos, e ai de nós se ousarmos refilar: não diz Manuela Ferreira Leite que quem paga é que manda?

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Todo o terreno

 Ou quase. Post motivado por este, no Albergue Espanhol
Ora digam lá: os jeeps gabados lavram, fresam, gradam?
Arrancam árvores?
(Vídeo: o Jorge e o pai em acção. Foto: tractor atascado até ao motor.)

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Coisas boas do Outono

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Dia de Todos os Santos

Dou-me mal com o calendário e nunca sei a quantos ando. O que pouco me importa. Interessa-me o dia da semana, a agenda serve apenas para marcar os testes, embora os meus alunos sempre me alertem com antecedência, não vá acontecer eu esquecer-me de a consultar – o que, em 34 anos de profissão docente, nunca sucedeu. Por isso me esqueço dos aniversários, do meu inclusive: sei em que dia é, só não sei que esse dia É. E todos os anos sou surpreendido alta madrugada pelo toque da campainha a anunciar ranchos de miúdos ao “bolinho”. Despensa desprevenida, vazia de guloseimas. Para os primeiros, ainda se arranja qualquer coisa, mais simbólica do que apetitosa. Para os que vêm a seguir… Muitas vezes, envergonhado por nada ter para lhes dar, nem abro a porta.
Custa-me não ter com que os contentar (dinheiro não dou, seria incentivo à pedinchice e à mendicidade) porque quando tinha a idade deles também eu madrugava e ia em bando, sacola às costas, de porta em porta, ao “Pão por Deus”. Regressava orgulhoso com sacadas de pão duro, fraca gulodice em casa de padeiro, onde fome nunca entrou, embora a necessidade lá morasse.
Para o ano vou estar prevenido! Só que todos os anos me esqueço de que o Dia de Todos os Santos é dia de bolinho, era dia de Pão por Deus… E como poucas vezes sei em que dia do mês estou, como prevenir-me para esse dia?