Número total de visualizações de página

domingo, 22 de dezembro de 2013

Natal (Do lacrau e da sua picada)

Nem se despe, para quê a maçada, se se deita sozinha — quem a viu e quem a vê! — e sobre a cama que insiste em rodar, sempre no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, volta atrás no tempo, muito atrás, até à meninice agora tão distante, agora tão longe, nos antípodas do tempo e do espaço.
Bons tempos, esses, os da infância, quando o mundo era de confiança e se crescia feliz e protegida, ignorante de tudo, até da própria pobreza, feliz com a roupa herdada das primas, feliz com os primeiros brincos, com uma simples boneca de plástico, nua como todos nós ao nascer, para depois lhe costurar os vestidos, ajudada pela mãe ou pelas primas mais crescidas... Bons esses natais, em casa dos avós, o mau tempo lá fora... O vento, furioso, investindo contra a casa, procurando orifício por onde entrar, as mulheres ao lume cosendo, remendando, tagarelando sempre, as panelas negras como carvão fervendo as couves para os porcos, a cafeteira enfarruscada aquecendo o café de cevada ou a água com açúcar para a sossega, o sapato deixado na lareira à espera das prendas que o Menino Jesus trará pela calada da noite, descendo pela chaminé quando todos dormirem...
Depois, a cama roda em sentido oposto, os avós já morreram, primeiro ele, depois ela. Os pais instalam-se de vez na casa herdada, fazem obras, o centro da casa, passa a ser a sala de jantar, completamente modificada e mobilada, a lareira só raramente é acesa, para não sujar, o presépio dá lugar à Árvore de Natal, o Menino Jesus é substituído pelo Pai Natal; então já tudo perdeu a graça, os pais deixam-se de fitas e acabam por lhe entregar em mão as prendas.

Do lacrau e da sua picada (2008)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Agonia

A mulher e a filha, que uma só não pode com ele, levam-no para dentro de casa, deitando-o no divã onde dorme só. Ocorre-lhe, então, que toda a sua vida foi apenas um dia que agora chega ao fim, embora a agonia se possa arrastar por meses ou mesmo anos, como sucedeu ao avô, acamado durante seis anos. Até lá, pelo seu cérebro enevoado como o de recém-nascido continuarão a desfilar imagens, sensações, fragmentos de histórias, que não raro se amalgamam numa outra maior — e as personagens desmenti-la-iam se a ouvissem, dizendo que pessoas, tempo e acontecimentos estão
baralhados, mas isso não importa — que é um nome, que é uma data mais do que um açude efémero que tenta deter por um momento que seja Vida e Tempo? O passado mais longínquo e o presente mais recente fundem-se  e vê novamente jovens rostos que morreram velhos — Aquele é o Mitadá, e o velho tem agora oito anos, e ambos ouvem a bisavó contar como fugiram dos franceses para a Mata da Castanheira e como por lá sobreviveram, era ela uma menina e os franceses emboscaram-nos: — Matamo-los?, perguntou um. — Não, deixa-os ir, são apenas crianças, respondeu outro, sem que nenhum dos miúdos estranhasse que a avó tivesse compreendido o Francês, é o deslumbramento da descoberta de um ninho de melro num vergueiro na cova da Silveirinha, e as avezinhas implumes e cegas abrem novamente os bicos enormes relacionando o ruído da folhagem afastada com a chegada dos progenitores, é a cabaça de água-pé que leva à boca em dia de estiagem, e a bebida faz novamente gluglu enquanto lhe escorre pelas goelas abaixo, é a satisfação do estrume nos poceirões da burra a caminho do chão-de-horta que depressa fará crescer enormes pepinos e tomates, patarecos e melancias e sempre, sempre, a água que corre livre pelas regueiras e que ele captura numa folha de couve para sorver deliciado matando a sede em dia de Verão escaldante... 
Como o vento que em certos dias de Inverno sopra de todas as direcções, dando-nos a sensação de o ter sempre pela frente, assim são as suas memórias, surgindo sem causa, por vezes indesejadas, impondo a sua própria lógica, que, a bem dizer, não é nenhuma, pois talvez nem mesmo o Sol, que nasceu bem antes da humanidade e certamente morrerá bem depois dela desaparecer, saiba porque se levanta todos os dias a Nascente para se deitar a Poente.
Porque se lembra agora dos ninhos? Porque sofre novamente como quando os rouxinóis-pais o seguiram durante toda uma tarde, piando dolorosamente, por lhes ter tirado os filhos ainda implumes, sonhando, na sua ingenuidade infantil, criá-los e impressionar toda a aldeia ao ser o único possuidor de rouxinóis cantantes? Morreriam pouco depois, nesse mesmo dia, tendo-os antes abandonado já moribundos sobre um muro velho, na esperança vã de que os pais cuidassem deles e deixassem de o perseguir piando de forma tão dorida que a recordação lhe dói hoje como lhe doeu então.
Cai a noite sobre a aldeia, mas não cai ainda a noite sobre o Jaime, pondo fim ao seu definhar lento, qual candeia a que o azeite vai faltando, tresandando a ranço ardido e nauseabundo…

Entre Cós e Alpedriz (2007)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Do vento e do barro

Soprou-me o vento sobre o barro, assim fez o meu ser,  pés colados à terra, cabeça acima das nuvens. Cozeu-me à sua imagem — irascível, instável, amigo de larguezas e de solidões. Deu-me por brinquedos imaginação e argila para os moldar — quase sempre aviões, como os que sobrevoavam as vinhas por onde corria descalço, braços abertos como asas tentando elevar-me da mediocridade terrena, e embalado nas descidas pulava barreiras e silvados, e por instantes também eu voava, não tão alto como os jactos que traçavam no céu linhas brancas, nem como os falcões que nele planavam, nem sequer como as esquivas perdizes de voo curto — era antes esvoaçar de melro de moita em moita, coisa de metros, depois, o preço de cada sonho: trambolhão na realidade, amortecido pela terra mole sempre amiga, para outra vez  me levantar e acelerar ladeira abaixo, outra ribanceira, outro salto, outra queda... 
No seu soprar constante o vento levou-me os cabelos um por um, metaforizou as minhas ribanceiras, os meus silvados, os meus voos, só preservou a veleidade de querer elevar-me acima da terra de que me fez, isolando-me daqueles que por todo o lado protestam, resmungam, vociferam, insultam, ameaçam. 
Torno-me suspeito pelo silêncio — a minha linguagem é outra. Oiço as vozes, escuto as raivas, misturo-as, observo as vidas, confundo-as, depois moldo-as no barro da minha escrita, sopro-lhes a vida, na esperança de que se não esboroem tão depressa como o pó de que o vento me fez...

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

As uvas do pessoal

O povo. Espezinhado, oprimido durante meio século — sem erguer a voz. Veio o 25 de Abril e era ouvi-lo gritar que jamais seria vencido. Na vanguarda, o sr. João: chegara a hora da mudança. De  fazer cooperativa, onde pobres e ricos entregassem a fruta, as uvas, e recebessem justa paga. 
Defendia a ideia há muito, no café, no largo, respeitosamente escutado — afinal era o senhor João, proprietário de muitas terras, empregador de servos —, mas, mal virava costas,
— O que ele quer sei eu!
Sabiam. Que toda a gente é igual, todos querem tudo para si, nada para os outros. Que Deus fizera torto o Mundo e não havia dilúvio que o endireitasse. Que o homem é o ladrão do homem. Não que negassem razão ao sr. João. Bem sabiam que os intermediários vendiam em Lisboa os pêssegos cinco vezes mais caros. Que penavam para receber o dinheiro do vinho vendido, esmolando adiantamentos junto dos compradores, figurões da terra, os quais pagavam quando e como queriam. 
Mas no minifúndio os camponeses têm dupla personalidade, simultaneamente proprietários e assalariados; cuspiam nas mãos, como se ainda segurassem o cabo da enxada, empurravam a boina para o alto da cabeça, acenavam afirmativamente, sim senhor, uma cooperativa é coisa boa, isso é que nos resolvia as coisas, mas mal o sr. João virava costas costas lá vinha
— O que ele quer sei eu!
Desconfiavam dele, bem se via. Era ateu. Contra o regime. Desconfiavam da família: um tio, republicano velho, estivera envolvido nos motins contra Salazar e, murmurava-se, em morte de homem. Um irmão, desertor, estava fugido em França.
Veio o 25 de Abril e o sr. João assumiu-se: era da CDU. Para os camponeses — comunista, como sempre tinham suspeitado.
A cooperativa avançava, empregava gente na abertura dos alicerces:
— O que é que fazes agora?
— Ando na construção da adega dos comunistas!
Nunca passou das fundações. Matou-a a caça aos comunistas, no Verão Quente de 75. Pouco importava se eram militantes ou meros simpatizantes. O ódio ancestral ao jacobinismo, aos pedreiros livres, aos ateus, renascera com as ocupações de terras no Alentejo, e os mais raivosos eram aqueles que de seu pouco iam além dos sete palmos que nos esperam no cemitério. 
A cooperativa, que comprara uvas, não as pagava, que o vinho não escoava, perdidos os mercados africanos com a descolonização. 
Pôs-se a esperança na ajuda revolucionária:
— A União Soviética compra o nosso vinho!
Não fazia diferença o serem vermelhos — contanto que o quisessem. E durante algum tempo sonhou-se largo, seriam muitos milhões de bêbedos eslavos a trocar o ruim vodka, que tanto mal faz à saúde, pelo nosso tinto quem sabe se graças a ele se operaria o terceiro milagre de Fátima, a conversão da santa Russia. Mas os tempos não estavam para milagres, e a fraternidade revolucionária era mera propaganda. O vinho não se vendia.
E numa noite homens revoltados pintaram em letras vermelhas no muro da casa do sr. João 
Pequeno Cunhal
Quando é que pagas as uvas do pessoal?" 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Outonais

De um lado do rego, a terra revirada pela charrua, do outro o verdura dos cardos a exigir lavoira. Um pouco mais longe, à esquerda, a vinha, avermelhada pelo Outono, quase a despir-se para dormir no Inverno. Em baixo, a eira e a sua casa. Ao fundo, massa indistinta azulada pela distância, os pinheirais que ocultam da vista o mar. Ausente da foto, mas a pairar sobre tudo isto, o cheiro a terra amanhada, solidão e silêncio, brutalmente quebrado pelo trabalhar do tractor, a protestar contra o esforço de esventrar barro, de virar leivas, de pôr a raiz ao sol às ervas daninhas -- ou, como gosto de lhes chamar, mal situadas.
Depois fresei uma tira da terra lavrada, abri regos, semeie ervilhas, couve-nabo e  -- perfeita loucura! -- plantei batatas, que a geada seguramente queimará. Assim é a agricultura: um risco assumido, uma aposta frequentemente perdida. Mas, lá reza adágio da minha terra, "mais vale perder a semente do que a sementeira". E a alegria de semear em dia soalheiro até faz esquecer o desgosto que já deu, que provavelmente dará -- encontrar batatal queimado pela friagem matinal.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Corte na aldeia

Toca o telemóvel.
—  Queres almoçar amanhã connosco?
— Sim, com todo o gosto. Estou na aldeia, mas regresso logo à tarde, conta comigo.
— À uma, no Alto Pina.
— Sim, mas consegues estar lá a essa hora? Com este frio deves ter montes de doentes...
— Aparece à uma, vais-te entretendo com as entradas, que eu não demoro.
Vamo-nos juntando. Um engenheiro que rompeu com  o Partido Comunista após quarenta anos de militância. Um pára-quedista reformado, meio surdo das explosões da guerra da Guiné. Um industrial. Um ancião, sempre muito bem posto, que foi contínuo na primeira escola em que trabalhei, perfeito gentleman, hoje como então — para recolher os estênceis, batia à porta da sala de professores e antes de entrar sempre perguntava se os senhores professores davam licença. Um poeta e historiador, que foi presidente de conselho directivo dessa escola até se aposentar. Um advogado. O médico anfitrião. E este cronista, sempre agarrado à comida como a querer matar carências dos velhos tempos. E à bebida. Não ao "louro chá no bule fumegando", tão do agrado das pessoas finas, mas ao roxo tinto, que desde Homero faz as delícias dos poetas, escritores e amantes das letras.
De que se fala nesses almoços só de homens, sem jovens? Política, futebol, trabalho, sociedade, família? En passant. A acompanhar as entradas. Dos conhecidos? O necessário para saber — O que é feito dele, há tanto tempo que o não vejo! —  Pois encontrei-o na semana passada...
Dos velhos tempos? Apenas para recordar boas histórias, primorosamente contadas.
Dos dramas existenciais? Sim,  que não acreditamos em vida após a morte, nem nos alegra eventual reconhecimento póstumo, mas, mesmo assim, e apesar de tudo, teimamos em escrever poemas, textos, contos, romances, como se...  E todo o restaurante ri à gargalhada quando o poeta resume as glórias post mortem que nos aguardam: — A viúva vai ao cemitério pôr-nos flores, lá conhece viúvo também ele choroso, juntam-se...
O mais é o filme que apreciámos ou não, os livros, as crónicas do Lobo Antunes na Visão, a exposição de pintura do nosso amigo João Alfaro. Depois, mesa limpa de pratos e travessas, vem a poesia.
A voz do poeta embarga-se ao ler o seu  "In memoriam Do Amílcar Fialho" (para nós, o Padre Amílcar). Interrompe-o o industrial, com a rudeza a que a amizade masculina recorre para esconder as lágrimas:
— Dê cá isso, que você não sabe dizer os seus poemas!
...se ele pudesse
ainda estar aqui
com o seu coração do tamanho
das tasquinhas do mundo
com sua voz rouca de fumo e álcool...

Recordamos o padre falecido, homenzarrão pleno de força, vozeirão a trovejar pelos corredores da escola, impressionante de aspecto, bruto de modos — homem bom como poucos, amigo de ateus e de comunistas.
Depois, "Almondinas":

Dizem que o rio chora toda a noite
Nas lágrimas tombadas dos salgueiros.
(...)
Dizem que o rio canta toda a noite...
Ou são os pássaros que traz na voz
Que soltam o seu canto a perseguir o vento
E as pedras nuas da distância?
Almonda! Almonda! Almonda!
Um eco...
(...)
Senta-se connosco a proprietária do restaurante, mulher gira e simpática, a fazer as suas recomendações para a sobremesa. Doentes do médico vêm-no cumprimentar, chegam-se conhecidos, o farmacêutico da aldeia, delegados de informação médica. Puxamos mais cadeiras para a mesa, oferecemos hospitaleira a garrafa, aplaudimos as canções de jovens, engenheiros agrícolas e comerciais de empresa da região, que em mesa próxima tocam e cantam maravilhosamente.
Fora, o sol outonal, já baixo, estende longas sombras das árvores pelo pátio, a lembrar-nos que vão sendo horas de partir. Ainda prolongamos pelas despedidas conversas inacabadas, que a fria nortada obriga a abreviar. Retomá-las-emos no próximo almoço. 

NOTAS:
(1) Título roubado ao poeta leiriense Rodrigues Lobo.
(3) O verso "o louro chá..." é, toda a gente o sabe, de Correia Garção.
(2) O poema In Memoriam é do António Mário; Almondinas, de Maria Sarmento.

domingo, 24 de novembro de 2013

25 de Novembro

O triste Avalor

Mas de nenhuma parte chegavam notícias. O João procurou nas grandes cidades, nas pequenas, nas vilas e aldeias deste país, por lugarejos e casais. Telefonou para todas as terras onde tinha conhecidos, muitos deles da tropa, perguntando se por lá tinham visto mulher e criança com tais e tais características. Pediu os endereços e escreveu a emigrantes, em França, na Suíça, na Holanda, na Suécia, no Canadá, no Brasil, nos Estados Unidos. Em vão. Ninguém tinha visto a Berta, nenhum indício dela. Logo que teve uma pequena licença, passou dias e dias em embaixadas e consulados, dormindo no meu quarto de estudante, arrastando-me consigo na demanda, para o ajudar com os meus fracos conhecimentos de francês e de inglês. Nada. A Berta desaparecera deste mundo, como ameaçara fazer. 
Dia após dia, noite após noite, pensou em partir também ele, sem rumo, sem destino, numa busca incessante, qual Avalor procurando em barca à deriva a sua Arima — mas o Mundo é tão grande e o homem bicho da terra tão pequeno — e uma réstia da razão que nos despoja da grandeza dos homens de antanho impediu-o de se perder por esses caminhos fora, numa peregrinação incomparavelmente mais louca do que a volta a Portugal em que a conhecera...
Notas
(1) Para os mais esquecidos: Avalor e Arima  são personagem da Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro.
(2) O fragmento pertence a um romance meu.

domingo, 17 de novembro de 2013

Chiqueda ou Chaqueda?

            Ensinava a minha professora da primeira classe — o que é a memória de uma criança! — que se podia dizer de ambas as formas. Lá vivi, nessa aldeia dos arredores de Alcobaça, entre os seis e os sete anos, lá volto de vez em quando, em busca de referências que se ajustem às imagens bem nítidas das minhas recordações.
            Em vão. Quase nada corresponde. Nem sequer encontro a casa térrea onde morámos, de pátio acimentado, a represa que me fascinava, a mim, que nunca vira tanta água, tão límpida, e nela nadavam rente ao fundo cardumes de peixes enormes — tudo então era enorme! — e cintilavam difusos ao passarem por redemoinho que se formava junto à conduta de madeira enegrecida que canalizava a água para a roda da azenha, de cujas pás escorria cantante para a vala que a levava de volta  ao ribeiro   onde uma manhã afoguei gatinhos, mandado pela minha mãe. Um deles, malha branca na cabeça, mais teimoso, nadou para a margem e eu, com a frieza dos meus seis anos, com uma cana empurrei-o de novo para a correnteza e a morte. Algo me deve ter tocado, ou a crueldade do acto, ou a resistência do gatinho, que ainda nem os olhos abria, para nunca mais ter esquecido o episódio. E nunca mais afoguei gatinhos…

            Lá está a estrada nova, que vi construir, cujo alcatrão derretido pelo calor do Verão se me colava aos pés descalços. A estrada "velha", por onde ia para a escola. Uma tarde, voltei atrás, apavorado com bicho, e a ninguém dizia o nome, os rapazes, supondo que era cobra, armaram-se com paus e pedras e acompanharam-me sem que eu confessasse que o bicho aterrador era simples libelinha, a que chamávamos tira-olhos, e eu fugira receoso de que me arrancasse os meus... Estrada velha onde vi noutra tarde rapazes que se divertiam a masturbar o longo pénis de um burro. Estrada onde surpreendi a garotada caminhando empoleirado em andas, que eu mesmo construí, a partir de descrição ouvida a meu avô, em ida à aldeia — e logo eles, invejosos, fizeram muitas, melhores, mais altas do que as minhas, mas eu desinteressara-me delas e fazia rodeiros com rodas de beterraba, que logo se desfaziam e dava aos porcos, às galinhas.
            Na frente da casa ficava a padaria, onde me enganaram pela primeira vez, levando pão sem pagar — pagaram-no os empregados, que eram os meus pais. Recordo o quarto onde, luz acesa, li e reli o suplemento de sábado do Diário Popular, Ria Connosco, intrigado com o desenho de uma sereia, a primeira que vi; ao lado, no divã, a minha irmã, bebé de ano, dormia tranquilamente sob o meu cuidado, consolada com o biberão de água com açúcar que lhe dera. Eu, inquieto, assustado, com a demora dos nossos pais tinha medo de adormecer, passavam as horas, e eles sem aparecer, eu sem saber deles!
            Era noite alta quando chegaram, tinham ido à terra na motoreta pensando demorar pouco, mas no regresso souberam que estava emboscado polícia da Viação e Trânsito na caça às multas — dois na motorizada, o que era proibido, a pendura sem capacete... E estava por pagar outra, trazia-me o meu pai na motoreta, e o polícia surpreendeu-nos numa curva junto à barragem da fábrica da Fervença, em vão lhe falou o meu pai ao sentimento: tinha-me levado à terra a ver os meus avós, tão pequeno não podia fazer a jornada a pé...

            Nada esqueci. Só não consigo encontrar a Chaqueda ou Chiqueda da minha infância, e ela, no entanto, está lá, irreconhecível sob as novas casas, desfigurada pelos arruamentos. Muito mais bonita, luminosa, com uma história em cada pormenor...

FOTO: azenha que não é a da minha infância, antes do restaurante onde casou a Sofia.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Os marretas

Há quem se compraza com as desgraças do quotidiano, embora não aparente ser muito afectado por elas. Quem gaste o tempo a afundar no pessimismo este pobre país, mesmo quando, como hoje, se ouvem e lêem umas notícias encorajadoras, daquelas que nos trazem algum alento, alguma esperança, ténue embora, após os anos negros em que temos vivido -- e os marretas vá de deitar abaixo, ansiosos para que tudo corra mal, como se o que estivesse em jogo fosse o governo ou as oposições e não este pobre Portugal.
Se gastassem a energia, que não lhes falta para a conversa, a fazer algo por si próprios, pelas suas famílias, pelos outros -- pela pátria -- aposto que muito mais depressa sairíamos do atoleiro. E até lá, o sofrimento seria menos penoso, não tendo de os ouvir de manhã à noite.

FOTO: uma das minhas lavoiras, hoje. O dia estava a pedir. A terra, de sazão: molhada, mas não encharcada. A charrua cortava-a como faca a manteiga. E eu, num dia tão lindo, em lado nenhum me sinto melhor do que a trabalhar na terra, em completo sossego, desligado do Mundo e dos seus profetas da desgraça. 
Como a retoma do crescimento económico, as sementeiras podem fracassar -- foi o que sucedeu na época passada. O tempo pode nem sequer me deixar semear. E todo o trabalho estará perdido.
Vale a pena tudo isto? Respondo com os conhecidos versos do poeta: "Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena."
Mas alma é o que falta ao povo, ao país...

sábado, 9 de novembro de 2013

O nosso dia de sorte

Tinha-me esquecido da greve nas escolas. Surpreende-me a chegada dos meus três netos mais velhos, pouco passava das nove da manhã, eufóricos, em algazarra ensurdecedora -- pobres professores!, penso frequentemente.
À porta, grita-me o Miguel (cinco anos):
-- Avô, hoje é o nosso dia de sorte!

Nos trinta e seis anos em que fui professor, fiz umas greves, outras não. Ponderava os motivos e as motivações. Num prato da balança, o pesado rombo no orçamento, o prejuízo para os alunos, sempre angustiado com a falta de tempo; no outro prato, a revolta, as frustrações, os ganhos possíveis, a solidariedade com os colegas...

E os alunos: -- Stôr, já decidiu se faz greve? Vá, faça lá!
-- Estamos atrasados, os exames estão à porta...
-- Faça lá, que depois a gente até estuda com mais vontade...
-- Tenham paciência, eu é que decido!
-- Mas decida bem. Já basta ainda não nos ter dado um único feriado!

Ouve-se dizer que uma greve para ter consequências tem de prejudicar muita gente. Talvez o mesmo aconteça com as greves dos professores. Mas deixam tanta criança feliz!

(NOTA: deixei passar o dia da greve e o do rescaldo antes de publicar este textozinho. Estou de fora, não quero que os colegas no activo pensem que os quero influenciar.)

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O vedor

Foi a época em que renasceu o novo-riquismo, animado pelo volfrâmio dos fundos comunitários. Jipes. Viagens a lugares exóticos. Piscinas... 
Alma camponesa a minha. Sempre a duvidar de riquezas fáceis. Avessa a exibicionismos, incomodada com sinais exteriores de riqueza. Sempre do contra, sempre contra a corrente. Indiferente a conselhos sensatos:
-- Tens área, manda lixar a horta, faz mas é piscina! Fica-te mais barato comprares as couves e, já viste, uma piscina! Logo pela manhã um mergulho...
Eu objectava: piscina quer limpeza, manutenção... É trabalhosa, cara... Além do mais, não gosto assim tanto de água. E tinha a piscina municipal a dois ou três minutos de carro... Depois, nenhuma couve comprada tem o gosto das minhas, plantadas com as minhas mãos, regadas com o suor do meu rosto -- que, embora abundante, era insuficiente para a sede delas.
Pensei então fazer um poço. Recomendaram-me um vedor, ferroviário imponente, pela altura, pela largura:
-- Nunca falha! Em vez do forcado de oliveira, usa uma fita de aço. Acerta sempre! E até te cava o poço!
Vem o homenzarrão, percorre o quintal, braços estendidos a segurar a fita de aço torcida, que lhe chicoteia violentamente a enorme pança ao passar em certos sítios: 
-- Tem aqui água que não a gasta!
-- Funda?
-- A três metros.
Eu estava impressionado. E via-me já a regar copiosamente os mimos da Primavera, a fazer horta até no Verão... 
Decidi-me: -- Como é que se faz um poço? 
-- Compre as manilhas, basta noventa de diâmetro, que eu abro-o. Noventa centímetros é o suficiente para eu me mexer lá dentro.
Fiquei preocupado. O homem era gordo, era velho -- e se me morria a cavar o poço? 
-- Faço seguro por quantos dias? 
-- Para mim, não é preciso, tenho Caixa da CP. Mande lá vir as manilhas e depois diga alguma coisa.
-- E o preço?
-- Depois combinamos. O que é preciso é que ninguém fique mal.
Comprei as manilhas. Com uns dois metros de diâmetro, por via das dúvidas -- não queria o homem entalado lá em baixo. E mandei-lhe recados. Semana após semana. 
Cresciam-me orelhas de burro, longas, espetadas, ao ver, dia após dia, o meu quintal transmudado em estaleiro de obras, as manilhas a ocuparem quase toda a horta... Como me veria livre delas?
Sem saber o que mais fazer, fui procurar o ferroviário-vedor a casa. Não estava. A neta, mulher feita, quis saber o que lá me levava. Desabafei, contando a história -- e levei descompostura severa: se achava bem pôr homem daquela idade, doente do coração, a cavar poço; se não tinha vergonha... Tentei ripostar: ele é que se oferecera, nada me dissera do coração, demais a mais não trabalharia de graça, constara-me até que ele costumava abrir poços depois de despegar da CP...
Pior. A culpa era de malandros como eu, que o desencaminhavam, roubando-o ao descanso, afastando-o da família, dos netos. Abalei deselegantemente, de orelhas caídas, para não ouvir mais reprimendas. A moça tinha razão, quem me mandara dar ouvidos a velho gabarola?
O poço? Pois não sabendo de mais ninguém que o abrisse, deitei eu mãos à obra. Com as minhas mãozinhas delicadas de professor. Afinal, era só cavar, cavar... E retirar a terra, coisa que um homem não pode fazer sozinho. Valeu-me a ajuda de familiares e amigos, sempre prontos a dar uma mão, as duas neste caso, em cada uma das minhas ideias malucas.
Tinha os meus trinta e seis anos, muita força de vontade e alguma força física, eles eram rijos e tenazes, por todos lá afundámos o poço até aos sete metros.
Água? Um veiozinho por nascente, que secava em Maio... A convencer-me de que o vedor acertara em cheio: eu não conseguia gastar a água que havia por debaixo do solo!

FOTOS:
1. As manilhas no quintal.
2. A escavar o poço. Nota-se, por detrás de mim, alguma humidade nas manilhas -- a prometida água, tão abundante que a não gastaria.
3. Petisco para os trabalhadores. 

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

As notícias interessantes

A meio da semana, a meio da manhã, o rapaz surpreende a avó com visita inesperada. Olha em volta, e não o vendo, logo pergunta pelo avô.
-- Saiu, foi lá abaixo, à cidade, na motoreta... Hoje não trabalhas?
-- Ele demora?
-- Foi comprar o jornal, deve estar por aí a aparecer. O pior é se encontra este, se encontra aquele, um copito aqui, um copito ali...
-- E eu com tanta pressa! Vim numa correria, é só falar com o avô, e vou-me logo embora. Tenho uma novidade para contar. Mas primeiro tem de ser ao avô. Se quiser, pode ouvir, mas primeiro é a ele.
A espera prolonga-se. Impacienta-se o moço, angustiado com a lenta passagem do tempo, que acompanha de minuto a minuto no smartphone:
-- E se eu fosse ver do avô?
-- Sabes que ele não gosta. Está sempre a dizer: um homem só se procura ao fim de três dias.
Ouve-se finalmente o traque-traque da motoreta. O rapaz corre ao portão, sim, é o avô que regressa, inconfundível silhueta azul operário, capacete estilo penico. Vem com pressa, cumprimenta o neto a despachar, logo faz tenção de seguir para o seu refúgio, o barraco junto ao galinheiro, ansioso por ler no seu sossego as desgraças do dia, ainda a escorrerem sangue das parangonas vermelhas do Correio da Manhã. O neto segue-o, tenta captar-lhe a atenção:
-- Avô, vim cá de propósito para falar consigo, não quis que soubesse por outra pessoa, quero que seja o primeiro a saber...
O avô detém-se, levanta os olhos da primeira página, corta rude o arrazoado, impaciente com as delongas.
-- Saber o quê?
-- Vou ser pai...
-- E o que é que isso me interessa?
Aliviado como se se tivesse livrado de moscardo de zumbido incomodativo, segue para o seu refúgio, a inteirar-se com calma daquilo que é verdadeiramente interessante: os assaltos a residências, os crimes horrendos, os abusos revoltantes, por fim, o futebol, à maneira de sobremesa. Depois, consolado, fechará o jornal e irá ver de almoço...

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Culpa do Halloween

Roubaram a única abóbora da minha produção!

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Ao avizinhar do Dia de Finados

Nasci pobre, criei-me sem mimos, sem conforto, sem brinquedos. Mas a pobreza daqueles tempos não era só material: escasseavam também os afectos, ou pelo menos, gestos de carinho, manifestações de ternura, e sobravam ralhos, repreensões, bofetadas, por vezes cinturadas — castigos invariavelmente agravados pelo meu feitio orgulhoso, que me impedia de manifestar arrependimento pelas asneiras, as quais não eram, parece-me ainda hoje, nem muitas, nem muito graves.
Fiz-me egoísta, tímido, solitário, reservado. Esquivo como bicho bravio. A forte miopia, então por diagnosticar, facilitava o isolamento —   a pouca distância, os vultos tinham rosto indistinto, a mesma névoa os confundia:
"É um bruto! Não conhece ninguém!" — comentava mulher de preto igual a todas as outras, cara quase escondida por lenço, mesmos pés descalços, igual cântaro à cabeça. E eu, olhos sempre baixos, refugiava-me no meu ouriço, alheado da realidade, defendido pelos espinhos da indiferença; e por pudor não exprimia emoções, rejeitava o carinho, reagia à bruta a débeis manifestações de afecto.

Tenho bem vivas as recordações da infância; mas nelas não há beijos, nem abraços, nem quaisquer carícias dos meus avós, dos meus tios e tias. Nem dos meus pais. Nunca disse aos meus avós que gostava deles. Como se tal estivesse implícito por pertencermos à mesma família. Se é que gostava. E, todos o repetiam, essas “mariquices” não eram próprias de rapaz.
A meu pai, a sua morte inesperada, debaixo do tractor, roubou-me a oportunidade de lho dizer  — embora, nunca duvidei disso, ele o soubesse bem. Disse-o à minha mãe, mas apenas nos Cuidados Intensivos de Santa Maria, quando a sua morte nos parecia, a ambos, iminente e fraquejei em choradeira incontida...
Nunca os visito no cemitério. Mas rara é a noite em que os meus mortos me não visitam durante os sonhos, em que não conversamos — e o meu pai morreu há vinte anos. Raro é o dia em que não recordo momentos partilhados com todos eles. E sempre me dói o que perdemos: creio hoje que todos teriam apreciado gestos de ternura, palavras de afecto, que então evitámos, que então calámos. Porquê?
Preconceitos, suponho. E mais me dói a recordação do que então não fiz, do que não disse, do que não tive, quando o Afonso, após duas semanas de ausência, se me lança ao pescoço e com a espontaneidade dos seus sete anos me diz: "Avô, tive saudades tuas!" E o Miguel, cinco anos, me abraça e, diz, vai dar-me “Sete beijinhos.” Quando, a brincar, repito ao Tiago, três anos e tal, sentado comigo no banco de jardim onde saboreio o sossego do fim da tarde, o ralho que mais ouvi na infância: “Mas tu nunca te calas?” e o malandro me surpreende: “Não, avôzinho!” E vendo-me derretido com o diminutivo toda a tarde me trata por avôzinho! E hoje, o João, a caminho dos dois anos, com quem não estou há quase duas semanas, ao ver-me aparecer no FaceTime prontamente resplandece em sorriso e me cumprimenta: "avô!".

Porque é que terei perdido tudo isto na minha infância?

FOTO: o meu pai, orgulhoso do atomizador Fontan que comprara recentemente, o meu tio Zé, o meu primo Fernando, e o meu irmão Afonso montado na nossa motorizada Mondial. Por volta de 1970. Não apareço porque fui o fotógrafo.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Desconsolos e consolações

Gosto do frio, da chuva, do vento na face, até de uma boa trovoada, contanto que não esteja demasiado próxima -- por cima da minha casa, como é frequente -- fazendo-me jantar tristemente à luz de velas atum enlatado, pois até o fogão é eléctrico. Gosto das invernias, mesmo temporãs como as de hoje, as maçãs na despensa, o aconchego da lareira e um livro (ebook, para ser mais rigoroso), depois na cama o peso dos cobertores, que ninguém me convence a substituir por edredons, e eu a ler até os olhos se fecharem...
Invernias que anunciam o Todos-os Santos, o São Martinho, o Natal, o Ano Novo -- bons pretextos para conviver, comer, beber, preguiçar e escrever.
O que detesto são as gripes que o mau tempo traz e me perseguem desde que me conheço, as quais em novo me deixavam inválido como um velho e agora -- bom, deitam-me abaixo na mesma, ranhoso, nariz ora entupido ora a pingar, atacado por dores musculares e ósseas, impedido de dormir por tosse convulsiva quase tão dolorosa como a tosse convulsa que me ia matando em miúdo, nesse tempo em que os medicamentos eram o Melhoral, pinceladas nas costas com tintura de iodo, o Vick Vaporub -- e apenas se chamava o médico um pouco antes do padre que ia ministrar a Extrema-Unção...
Contas feitas, no meu razão os créditos das invernias têm excedido largamente os respectivos débitos. Hoje, por exemplo, como a foto sugere:
broas em honra de todos os santos, que são por igual merecedores, mesmo que entretanto algum deles tenha sido des-santificado. Café contra a ameaça de dor de cabeça, uma gota de bagaço da época para desinfectar germes e lavar o açúcar das broas evitando que doa algum dente.
E sim, alegra-me saber que há por aí quem concorde comigo quanto ao saldo dos desconsolos e consolações e o diga muito melhor do que eu, como, por exemplo, esta minha personagem:
— Fidalgo, ponde os olhos em mim, a quem não faltariam motivos de tristeza, e aqui me vedes alegre como passarinho. Digo-vos, a vós que haveis mais e melhor conhecimento do mundo, que percorrestes esta Europa e vistes coisas por nós nem sequer sonhadas: os religiosos mentem, não estamos neste mundo para sofrer, antes para viver a vida o melhor que pudermos. E o que é que a torna deleitosa? Pois dir-vos-ei: o bem comer, que sacia os ventres e fortifica os corpos, o melhor beber, que afasta as tristezas, alegra os corações, a companhia de boas mulheres, amigos verdadeiros, coisas de folgar e gentilezas a polir a bruteza dos espíritos, histórias bem contadas. O resto, o ouro, a prata, as demais riquezas, dão mais preocupações do que satisfação. Alegremos pois a nossos corações, comamos e bebamos — não vos ofendeis, esta noite é tudo por conta da minha casa —, contai-me vossas viagens, vossas aventuras alegres, depois, quando vos cansardes de nossa companhia (e envolveu no olhar as moças que tinha chamado para a mesa), escolhereis qual ou quais levar para o sobrado ou eu vos recomendarei aquelas que melhor vos servirão.

NOTA: texto e personagem são meus, que é como quem diz, criação minha. Faço este alerta por razões que um próximo post aclarará, espero. 

domingo, 27 de outubro de 2013

Um amor inventado (5)

Mais para a noite, já com a sala de refeições limpa e arrumada, a loiça lavada e a cozinha em ordem para a lida da madrugada seguinte, o João e a Berta poderão namorar um pouco, na sala, nada de poucas-vergonhas, chegam as que já fizeram, pensa a patroa, momentaneamente esquecida das suas enquanto jovem... Sentados em frente um ao outro, conversam em voz baixa, mas quando do hall que serve de recepção e de escritório chega o tilintar das moedas retiradas da caixa registadora, se ouve o ranger de ferrolhos que trancam portas e janelas, certos de que os donos da pensão estão ocupados e afastados, perdem compostura e atiram-se desesperadamente um ao outro, ardendo ambos no fogo do desejo, as bocas coladas, a Berta de olhos fechados, os do João arregalados, e as mãos dele, talvez por estarem desocupadas e quererem também elas participar, tacteiam em vão procurando abertura para a pele dos seios da Berta, e ela, receando ser apanhada descomposta, afasta-lhas, mas teimosas, insidiosas, porfiam por cima da roupa, talvez para confirmarem se ainda se ajustam perfeitamente, feitas umas para as outras, dissera a Berta naquela noite de Julho já tão distante... Ah, mas tendo as mãos encontrado passagem e posto a nu um seio, a boca toma a dianteira, ardorosamente, apaixonadamente, já a Berta ruge, novamente em surdina, e tem de o afastar a contragosto — uma mulher como ela não é de ferro, e certas coisas são como o vinho, se não é para fazer efeito mais vale afastar o cálice...

Ouvem porta que bate ao fechar, saltos altos martelam no corredor, advertências inequívocas de que lá vem a patroa, ruidosa para evitar surpresas, para não ver o que não quer — então teria de dizer o que é seu dever mas não seu prazer — e encontra-os decentemente sentados frente a frente, apenas as mãos enlaçadas mostram que se trata de um par de namorados, respeitável, constata com satisfação dona Noémia, que não admite poucas vergonhas em casa sua, embora no seu íntimo saiba que rapaz tão bem comportado, se existe, não servirá nunca para mulher que se preze — há que guardar as aparências, mas não as ilusões. Chega o marido, boceja, são horas de deitar, amanhã, domingo, será dia de trabalho como os outros, sete dias tem a semana, cada qual de labuta, só o Senhor, porque é Deus Todo-Poderoso, pôde descansar num deles...

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Um amor inventado (4)

Amanhã (...) dirá das boas ao mau amigo que o atraiçoou, encher-lhe-á os ouvidos: se pensa que a Berta gosta dele é um grande parvo, está na cara que dorme com o primeiro que lhe entrar no quarto; ofenderá sentimentos e moça perguntando repetidamente quanto é que lhe pagou... O João seguirá mais adiante ou
mais atrás, desinteressado da sua companhia, que parece querer evitar --- como gato que entornou o leite,
na opinião do Jorge, porque não está para aturar as provocações do ex-amigo, pensará amiúde o João e, para fugir às suas conversas, pedalará furioso, cheio de força como se tivesse dormido regalado toda a noite, embora, como sabemos, apenas tenha caído no sono por breves instantes, após cada uma das vezes em que o sobrado rangeu. Vai enlevado no seu mutismo, a cabeça perturbada por ideias e sentimentos contraditórios --- talvez goste da Berta, e o aperto que sente na garganta seja a saudade a magoá-lo: apesar de só se ter afastado dela duas escassas horas, já os separam montes de pedra e montanhas de preconceitos; mais do que a estrada que se abre à sua frente --- rectas, curvas, subidas penosas, descidas em que folgam as pernas --- o que lhe enche os olhos é sempre o rosto da rapariga, os loiros cabelos soltos, os dentes fortes e sãos, a pele branca, as sardas, até nas mamas --- ah, as mamas! Maiores do que pareciam com ela vestida, mas como se lhe ajustavam às mãos, aveludadas e rijas! e os mamilos... Melhor pensar noutra coisa, pedala numa bicicleta e se se entusiasma lá está o selim para o reprimir dolorosamente; por isso, faz subir o olhar, passa pela boca ardente que parece querer engolir inteiro o seu ser, e afoga-se nos olhos, fundos como poço verde dos limos com que as rãs o atapetaram. Olhos que se despediram ‘‘tão tristes, tão saudosos, tão doentes da partida’‘ estavam os rapazes prestes a abalar. Ignorou o Jorge (...), que parecia esperar justificação atabalhoada capaz de lhe salvar o orgulho. Foi direita ao João, já montado na bicicleta, agarrou-lhe o braço nu e suplicou: --- Promete que não te esqueces de mim.

Ao lado, o Jorge, despudoradamente, ofendia a moça e ridicularizava o João: --- Isto é só amor! E para se apaixonar, basta entrar-lhe no quarto, que a Berta deixa sempre a porta aberta! Tás aqui tás casado coa tipa! ‘Bora, que o fotógrafo já está à nossa espera, na estrada de Coimbra!

Envergonhado, apenas conseguiu responder que jamais a esqueceria. Então, sem timidez nem discrição, a Berta puxou-lhe a cabeça e beijou-o na boca, profundamente, demoradamente, como se procurasse aprisionar-lhe a alma, ou então apenas impregná-la com lembrança que o acompanhasse na viagem de regresso à aldeia natal e não mais lhe permitisse olvidar a criadita da Pensão Estrela. Partiu, deixando atrás de si palavras de circunstância que se misturavam com as lágrimas que jorravam do poço fundo que eram os olhos da Berta fundidos num só, tão perto de si e tão profundamente o olhava, lágrimas que rolavam pelo avental, tantas, tão abundantes, que algumas tombavam na terra batida do caminho, desaparecendo no pó como as palavras na aragem matinal.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

domingo, 20 de outubro de 2013

Um amor inventado (3)

Recordava, saudoso, uma vez após outra, os momentos que passaram juntos, procurava significados que lhe tivessem passado despercebidos e, antes que o olvido lhos apagasse da memória, revivia todos os pormenores de que se conseguia lembrar — o corpo sardento da rapariga, a cara dela, a sua maneira de olhar e de sorrir e, sobretudo, cada um dos seus gemidos, dos seus suspiros, das suas palavras quando parecia voltar de novo ao presente, como se também ela tivesse caído em poço profundo, saciada, boca aberta, corpo lasso, olhos semicerrados e vazios. Ouvia-a de novo a falar de si própria, contando por alto a pobreza em que nasceu e viveu, quase vendida pelos pais, que assim se livravam de uma boca para alimentar e ainda hoje lhe ficavam com a quase totalidade do magro ordenado, — Não fazes ideia ideia o que é a vida de uma criada, trabalhando de madrugada até às tantas da noite, sete dias por semana, não imaginas o que é preciso aturar aos clientes em má-criação, apalpões e piropos porcos, aos patrões, que não sendo dos piores, são patrões e basta.
Falava, os olhos afundados nos dele, e perguntava-lhe se no dia seguinte ainda se recordaria dela, se alguma vez a procuraria de novo. E o João queria dizer que sim para a não magoar novamente; mas faltava-lhe a prática do logro que torna sincera a mentira, ainda por cima com a Berta a ver-lhe a alma através da menina dos olhos: 
— Mentiroso! E tapava-lhe a boca com a mão, impedindo-o de jurar falso. 
E um amor inventado, que há muito ultrapassara os cinco minutos, crescia como o Zêzere, tão humilde na nascente, no Cântaro Magro, lá no alto da Serra, verdadeiro mar azul em Castelo do Bode, onde o aprisionaram, impedindo-o de jorrar impetuoso para o Tejo para seguirem juntos lado a lado em busca do mar, sonho de todos os rios — também os moços, nascidos em montes tão diferentes, se criam separados para sempre.
Um Amor Inventado  --  romance motivado por poema que marcou a minha juventude:  A Invenção do Amor, de Daniel Filipe. À venda na Leya Online)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Outono de seu riso magoado

Crescem as noites, arrefecem os dias, alongam-se as sombras, até há pouco exíguas, verticais, duras – eis que difusas se confundem com natureza, casas, objectos, pessoas, e a lucidez que sempre nos faltou não alcança destrinçar nessa penumbra a realidade fugidia.
Não é só o Portugal tristonho a definhar, não; é todo um mundo de aparências, de quimeras, créditos, promessas plásticas de juventude eterna, vidas de sonho decalcadas de revistas de cabeleireira… Sabemos hoje (sabê-lo-emos?), que a riqueza era virtual como o dinheiro, como o crédito bancário,  e vemos as prometidas vidas de sonho esvanecerem-se para todo o sempre como sombras que jamais conseguiremos alcançar, ora fugindo à nossa frente se as perseguimos, ora a  seguirem-nos trocistas se lhes viramos as costas. Para nosso desgosto e revolta, espera-nos,  sarcástica, a frugalidade austera dos nossos pais e avós…
NOTAS
(1) post de Outubro de 2010; infelizmente bem actual.
(2) Título: verso de um poema de Camilo Pessanha.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

In illo tempore

Começa a nossa narrativa já não naquele tempo em que Jesus andava pelo Mundo, mas noutro igualmente saudoso, em que a missa era ainda em Latim para gáudio da miudagem que, ao fundo da igreja, o mais afastada possível de beatas, pouco compreendendo e menos ainda querendo entender, adulterava as respostas, mantendo a música: se, do alto do altar, o padre abria os braços e lançava cantado Dominus vobiscum, haveria malandro que substituiria o Contigo também entoado em coro por Merda pra ti também, com ar tão inocente que se, acaso, olhares indignados se viravam para trás era por causa da risota e não do dito... Orate frates, dizia o vigário e o povo respondia em vernáculo Oremos, enquanto ajoelhava no cimento da capela — mas o que se ouvia, se estivéssemos perto e atentos, era moço sussurrar, ao baixar-se como faria em vinha para arrear o calhau: Caguemos!

Pregado no crucifixo, Jesus refulgia quando a passagem da sotaina do padre espevitava as velas, como se também ele animasse com os disparates da mocidade naquele ritual chato e repetitivo e então eu pensava que se Ele saísse da cruz onde o aprisionaram para todo o sempre, também Ele quereria escafeder-se do cheiro a cera e a incenso, sem mágoa abandonaria beatas e templo mal iluminado e, atraído pelo Sol que resplandecia nos vitrais, voaria aliviado para os céus, sem esperar pelo final daquele santo suplício semanal que torturava a nossa juventude e O castigava há quase dois milénios...
Corria assim a vida, lenta, chata, sonhando com os vinte anos, distantes, tão distantes como a eternidade — então eu deixaria a aldeia, embarcaria, correria mundo sofrendo tempestades, evitando icebergues, sim, conhecia já a palavra, que já lera e relera Pedro, Pescador de Baleias, e também eu as caçaria, ou enfrentaria os piratas na Ilha do Tesouro, ou então chamar-me-ia Zé Crusoé e sobreviveria com arte e manha, sozinho numa ilha deserta do Pacífico...
O Sr. Prior prosseguia com o ritual e eu alheava-me novamente, e conversava agora com o próprio Jesus, persuadindo-O a deixar-me ajudá-lO a endireitar o Mundo, que tão mal andava; já então a Morte, como fim de tudo, me apavorava, sem que, por isso, me convencesse a retórica do padre apregoando o Céu, assustando com os padecimentos infinitos do Inferno. Não, aquele Céu de devoção beata, água benta e hóstias desenxabidas, tresandando a cera e a incenso, feito à imagem e semelhança de uma qualquer capela mal iluminada, onde o prazer adviria exclusivamente da eterna adoração a Deus, não me convencia, como me não seduzia viver a Eternidade na companhia dos velhos e velhas que assistiam ao Santo Sacrifício dominical.

Sobrevivíamos; hoje, meio século depois, creio que éramos felizes; naquele tempo, a palavra não tinha significado. Sabíamos o que era doença e saúde, fartura e miséria, frio e calor, mas felicidade não pertencia ao nosso vocabulário.

Um amor inventado. À venda na Leya Online

Idólatras contemporâneos

Adorem a quem quiserem, adorem o que quiserem, mesmo que se não dêem conta do ridículo que é adorar uma estátua, nem sequer interessante. Mandem-na para Roma como passageiro, já que consideram aviltante que viaje encaixotada no porão. Sugiro até primeira classe. Ou, pensando melhor, que mande o papa jacto privado buscar o precioso ídolo. Se não tiver, peça emprestado.
Mas quando se prostrarem, quando rogarem graças à deusa de porcelana, não se esqueçam disto, extraído do vosso livro sagrado:
Ex. 20.2 Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egipto, da casa da servidão.
Ex. 20.3 Não terás outros deuses diante de mim.
Ex. 20.4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
Ex. 20.5 Não te encurvarás a elas nem as servirás...
Afinal, sois crentes, ou só acreditais no que em cada momento vos convém?
Razão tinha Saramago quando dizia que os católicos não lêem a Bíblia...

C'est trop facile

É fácil, é demasiado fácil, fingir. Na religião, na guerra e na paz, no amor. E em tudo o resto. É demasiado fácil enganar os outros e até, se não tivermos cuidado, iludirmo-nos a nós mesmos.

domingo, 6 de outubro de 2013

Um amor inventado (2)

"É tempo de nova pausa na narração, não para virarmos envergonhados a cara para o lado, mas apenas porque os jovens precisam novamente de intimidade, já outra vez o sobrado range, força ele para baixo, responde ela para cima, até parece que estão em desacordo, eles que rugem em uníssono. Deviam ter apagado a luz, para que, mesmo que quiséssemos, não víssemos nada; assim, não há como evitar, diga-se apenas que fazem um belo par, enlaçados, momentaneamente apaixonados, novamente alquebrados, outra vez o João a adormecer — sempre a mesma coisa, só para eles a cena não é monótona."

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Um amor inventado

"Escurecia rapidamente. Dos arbustos ao fundo do jardim chegou o arfar de amantes escondidos e ouviu-se distintamente pergunta augada: — Agora tu deixavas!

— Deixava!, rosnou ela, e talvez ali tenha sido gerado outro ser vivente, que virá ao mundo pela mesma razão que todos nós viemos: porque calhou, como há milhões de anos calha de cada vez que a Vida decide que um único espermatozóide entre milhões de iguais penetrará num óvulo, simplesmente isso, aquele girino que jamais ouviu falar de amor, de moral, que não compreende metáforas, nem filosofias, nem teorias científicas explicativas do seu comportamento, nada cego rumo a um destino que apenas pressente, querendo ser o primeiro e o único, alcançá-lo-á, vá-se lá saber como, a Vida perpetua-se e a morte inelutável do Ser é outra vez adiada.

— Vamos embora daqui, disse a Berta, talvez por ser já noite e o ar estar gelado, talvez incomodada com os gemidos de outro amor inventado agora mesmo e ali ao lado, que tanto pode ser esquecido já daqui a minutos quando a coisa murchar, como durar até que a morte os separe, fortalecendo-se com a passagem das décadas, crescendo em ternura o que diminuirá em desejo... A ver vamos, que é matéria incerta."

Um Amor Inventado  --  romance motivado por poema que marcou a minha juventude:  A Invenção do Amor, de Daniel Filipe. À venda na Leya Online)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Cristiano Ronaldo centenário

Contava-se na minha mocidade que o então presidente da república, Américo Tomás, proferira num dos seus célebres discursos algo como:
-- Meus amigos, estamos aqui a festejar o centenário. Se Deus quiser, cá estaremos para o ano a comemorar o bicentenário.
Recordei-me da anedota ao ler este título no Público online:


Cristiano Ronaldo centenário nas competições europeias

Se Deus quiser, para o ano será, talvez, bicentenário...

NOTA: o Público já desactivou o link.  

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Mundo de solidão


No lar, atrai-me a atenção velhota sem visitas. Noventa e três anos, dizem-me.

Mete-se com ela alguém que a conhece: 
-- Tia Francisca, quer boleia para Árgea?
-- Para quê? Já lá não tenho ninguém...
Espanta-se o conhecido. Pergunta por este, por aquela.
--- Já me morreu tudo...

Vendeta eleitoral

Se querem compreender algo do que se passou ontem, nas eleições, e as reais motivações dos eleitores, esqueçam os comentadores e façam como eu: vão à cabeleireira.
Na conversa, enquanto o pouco cabelo que me resta tomba na toalha, manifesto espanto pela derrota de candidata que aprendi a respeitar nos anos em que trabalhámos juntos e tinha tudo, supunha eu, para ganhar folgadamente a Câmara. Prova provada que de política, como de futebol, não entendo nada.
A cabeleireira surpreende-se: — Mas aqui, no Entroncamento, ela nunca podia ganhar!
— Por ser mulher? — pergunto ingenuamente, cuidando que machismo provinciano tivesse prejudicado a minha ex-colega. Ou eventuais ódios antigos, algo contra o pai, a família...
— Não, porque aqui os ferroviários têm muito peso e ela tirou-lhes o passe e às famílias!
— Mas ela não fez nada disso!
— Ora, é deputada e foram os deputados que tiraram o passe aos ferroviários...

Não é, portanto, com sessões de esclarecimento, propaganda partidária, militância, que se motivam os eleitores. Basta o "diz-se que" para arruinar uma candidatura. E a sanha vingadora: Ah a minha filha ficou sem o passe, a minha mulher tem de comprar bilhete para viajar de comboio? Pois alguém vai pagar por isso. Cá se fazem, cá se pagam!

E não, também eu não votei na Isilda, antes convencido de que ela ganharia sem problemas dei o meu voto a candidato que se tem distinguido na oposição. Também não ganhou, mas a tal já estará habituado... Como eu, que não acerto uma!

domingo, 29 de setembro de 2013

A revolta em Alpedriz

A agregação de freguesias foi feita à revelia das populações, da sua história e cultura, com completo desprezo pelas razões que levaram à sua constituição — antes de mais, a igreja onde o povo se reunia, se baptizava, casava, enterrava os seus defuntos, e os cemitérios onde, a partir de meados do séc. XIX, repousam, mais do que as ossadas, os elos que ligam os vivos ao passado, à família, à terra.
Alpedriz, com história que remonta, pelo menos, a D. Afonso Henriques, que tomou a vila aos mouros e lhe concedeu foral, viu a sua importância crescer ao longo dos séculos. Apesar de distante quatro ou cinco quilómetros de Cós, não manteve ligações históricas, nem culturais, nem, suponho, sociais  com Cós, outro importante centro histórico, que se desenvolveu em volta do seu convento de monjas de Cister. E Entre Cós e Alpedriz fica a minha terra, Montes, que muito progrediu desde que passou a ser freguesia — só então teve esgotos e saneamento, ruas alcatroadas, cemitério, centro de dia para a terceira idade, etc., e agora se vê remetida com a agregação para a apagada e vil tristeza de outrora.
Indigna-se o povo, a quem já quase tudo foi sido tirado e vê agora periclar o pouco que lhe resta, mas que afinal estrutura uma nação: o seu apego ao passado e o sentido de pertença a uma comunidade. Protesta o povo de Alpedriz contra a ignorância e a falta de sentido patriótico que está na origem da agregação de freguesias -- certamente escusadas nas cidades, mas fundamentais nas aldeias...


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Pingo de mel

Pingó mel, diz-se. Na minha terra, figos de Lisboa. De figueira que plantei há dois anos.

Primícias outonais

Dos meus jovens castanheiros.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Pormenores e eucaliptos

No conto O Largo, de Manuel da Fonseca, um bêbedo vê destruída a história que conta empolgado -- por um pormenor. Dizia ele que tinha derrubado com soco um carteirista no (Largo do) Rossio, em Lisboa, e o homem bateu com a cabeça num eucalipto...
Com o progresso, tantos são os eucaliptos que por aí brotam que já houve quem falasse de "Portucaliptal". Pior, são apresentados tão assertivamente, mas defendidos com tal versatilidade, que tornam impossível qualquer debate sério. Por exemplo, numa discussão sobre poesia:
-- Como disse Einstein, tudo é relativo...
-- Mas Einstein não disse nada disso!
Vendo periclitar a imagem que laboriosamente constrói de si mesmo, o nosso interlocutor pode reagir de várias formas:
(1) -- Se Einstein não disse, podia ter dito!
(2) -- E que diferença faz, se estamos a discutir a interpretação do poema?
(3) -- Lá estás tu com a mania de que sabes tudo, nem sei porque é que ainda te dou confiança!
(4) Põe sorriso superior, ignora-nos, talvez dirigindo-se a adulador que oportunamente surgiu.
Duma coisa não tenhamos dúvidas: salva sempre a face, como se tal fosse mais importante do que a correcção da afirmação; e jamais lhe faltarão apoios, que o rigor incomoda muito no nosso Portucaliptal. 
Suponho que esta atitude -- generalizada, transversal, endémica --, se deve ao predomínio secular das Letras sobre as Ciências, com a consequente sobrevalorização da argumentação e dos seus artifícios  em detrimento dos factos.  
Mas, como praga, os danados dos pormenores insistem em saltar à vista, como no conto de Manuel da Fonseca, expondo a olhares atentos o rabo de palha -- que o sábio prontamente tapará ao ser alertado, não com humilde agradecimento pela correcção, mas com palavreado e tretas.

domingo, 22 de setembro de 2013

Sol de Inverno

Nada tem a ver com a telenovela da SIC. É o título do Capítulo 9 do meu romance Entre Cós e Alpedriz (2007), a que pertence este excerto:

Nuvens baixas correm pelo céu, das Sesmarias para a Santa Rita e, muito mais acima, outras vogam lentamente em sentido contrário, vagas, fluidas, incertas, indiferentes às vinhas perdidas que sobrevoam. Já o Sol de Inverno se esconde por detrás do Alto Casal, o dia arrefece, a luz intensa desaparece, fundindo-se com as sombras do crepúsculo. Ah, se estivesse agora nas Tojeiras, vê-lo-ia mais uma vez desaparecer ao fundo entre os pinhais que ocultam da vista o mar, onde se afundará tingindo-o de rubro.
Mar, mar, tão próximo e tão distante, mar gelado no Verão, afagando-lhe os pés descalços, mar cinzento no Outono, cheiroso do mexilhão com que enchia saca de serapilheira para patuscada na adega, mar violento no Inverno, quebrando-se contra molhes e penhascos, mar azul na Primavera, mar das sardinhas e dos chicharros, onde lavram pescadores em ceroulas de flanela, mar que chega aos Montes trazido pela maresia quando o vento sopra de feição ou nas canastras das peixeiras, as pexinas, correndo para evitar que outra chegue primeiro a casa da freguesa, sempre apregoando o pescado com a musicalidade do falar da Nazaré...
Mar — vê-o nitidamente, tal como o avistou do Sítio quando levou o filho Francisco pela primeira vez à praia, teria o moço então uns seis anos. Ah, como lamentava agora o rigor com que tratara a criança, surra em cima de surra, ralhos sobre ralhos, proibições de fazer isto, de andar com este ou com aquele, e nem a desculpa de ter procedido como todos os outros pais, como o seu próprio pai procedera para consigo, lhe servia já de atenuante. Fora brutidade, fora ignorância, fora maldade, e ainda bem que já havia quem começasse a quebrar o costume que se arrastava há tantas gerações que parecia perder-se na origem dos tempos; vê crianças semi-nuas, vestindo apenas uma camisola interior que já não lhes tapa a barriga inchada pela subnutrição, descalças sobre geadas de Fevereiro, arrancando lâminas de gelo da superfície de poças de água, o ranho escorrendo pelas faces — para “enrijar”, dirão rindo cinicamente as bestas dos pais, tentando assim justificar a crueza com que tratam a prole... Logo, logo, o remorso cede lugar à imagem da água do mar espelhada nos olhos do moço enquanto caminhavam ambos pela beira-mar, os pés finalmente livres das botas que todo o ano os aprisionavam, o perfume da maresia enchendo-lhes o peito, o céu azul cortado pelo voo branco das gaivotas, as sardinhas prateadas palpitando nas redes, a alegria resplandecendo no rosto dos pescadores,
como camponeses após abundante vindima — e lamentava novamente todos os momentos desperdiçados por não ter reparado que os dias desfilavam velozmente como os cavalinhos do carrossel na Feira de São Bernardo, sempre correndo, ora subindo, ora descendo, — Mais uma volta! 'Tá a andar! Entravam crianças, saíam adultos, aqueles que de fora olhavam viam apenas rostos e corpos que rodavam, bem agarrados ao cavalo de pau ou rodopiando em banco rotativo, e na vertigem que as voltas causavam, não sabiam já se os velhos que de lá saíam, — O quê, já acabou? Passou tão depressa!, não seriam as crianças que tinham visto pouco antes a entrar...
(A quem possa interessar: o romance está à venda na Leya Online. Em papel, pode ser encontrado, por exemplo, no Parque dos Monges).

Leitura crítica

Proponho como actividade de domingo uma leitura crítica da descrição do deserto que se segue. Depois, podem confrontar os vossos pareceres com os de Rodrigues Lapa, também transcritos.
"Noite encantadora! O luar banha com os seus raios argentinos o areal desértico e imenso. Tudo brilha e refulge sob a claridade branda e suave da Lua. As estrelas, como milhões de pirilampos, estão disseminadas pela quietude misteriosa do firmamento. E no silêncio sepulcral do deserto, apenas cortado pela brisa rumorejante e dolente dos oásis, tudo parece contemplar o céu, meditando no enigma do infinito. Algumas poucas árvores frondosas erguem as copas altaneiras, como que orando a Deus pela solidão atroz que as envolve. Naquela noite alguém lhes faz companhia. É uma caravana. As tendas espalham-se pelo oásis, sob a abóbada das ramagens. Tudo parece dormir. Somente a Lua é cada vez mais brilhante e mais bela, fazendo da areia do deserto um manto branco de virgem a perder de vista nos horizontes longínquos".
"Tudo neste texto soa a falso — a falsidade das coisas que não são vistas nem sentidas directamente por nós.  Os clichés são em número infinito, como as areias daquele deserto postiço: noite encantadora — o luar banha — raios argentinos — areal imenso — claridade branda da Lua — silêncio sepulcral — brisa rumorejante — contemplar o céu — meditar no enigma do infinito — árvores frondosas a erguer as copas — solidão atroz que as envolve — manto branco de virgem — horizontes longínquos.
Uma série de locuções estafadas, de imagens corriqueiras, que, por isso mesmo, nos não produzem a menor impressão artística. A gente sorri-se do inexperiente autor, que procurou fazer estilo, seguindo precisamente o caminho contrário: não nos pôde dar os resultados da sua própria experiência, por não tê-la, e reproduziu apenas o que anda na boca ou nos bicos da pena de toda a gente. O efeito foi desastroso."
M. Rodrigues Lapa. (1984). Estilística da Língua Portuguesa, 11ª ed., Coimbra Editora, Lda., pp. 90-91

sábado, 21 de setembro de 2013

Inveja

Como na cantiga alentejana, não invejo quem tem carros, parelhas e montes  —  mas quem escreve bem.
Como o Padre António Vieira:
A primeira maravilha foram as pirâmides do Egipto, a segunda os muros de Babilónia, a terceira a torre de Faros, a quarta o colosso de Rodes, a quinta o mausoléu de Cária, a sexta o Templo de Diana Efesina, a sétima o simulacro de Júpiter Olímpico. E deixando o anfiteatro, de que só se vêem as ruínas, as pirâmides caíram, os muros arrasaram-se, o colosso desfez-se, o mausoléu sepultou-se, a torre sumiu-se, o farol apagou-se, o templo ardeu, e o simulacro como simulacro, desvaneceu-se em si mesmo. 
Veja-se como o autor evita os adjectivos e explora magistralmente a expressividade dos nomes e verbos, a relação entre ambos — e como as repetições, habitualmente tão maltratadas, surgem inevitáveis.  Que inveja! Que lição! 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Verde que te quero verde

Falhei nas previsões meteorológicas, talvez por ter projectado na Lua os meus desejos de chuva. E com este calor, quase sem água para rega, o verde seria miragem -- não fosse a estufa.
Para minha surpresa, o calor da estufa no Verão não cozeu as culturas, antes as desenvolveu opulentas; com temperaturas quase sempre acima dos 45 graus, tive abundante produção de pepinos, feijão verde, alfaces, rabanetes, cenouras... E fora da estufa, quase nada.
Ei-la, com canteiros de couve à espera de chuva e terra preparada para onde transplantar, mais feijão verde, nabos, nabiças, rabanetes, pimentos, malaguetas, cenouras, alfaces... 
Um oásis.


domingo, 15 de setembro de 2013

Esperança

De que o tempo mude, apesar das previsões meteorológicas o negarem.
Estas nuvens que quase ocultam a Lua podem trazer aí a mudança por que quase todos suspiramos.
É preciso que chova para nos libertar deste calor maldito, evitar que crianças e professores sejam cozidos nas salas de aula.
Para me permitir lavrar, fresar, preparar as terras para as plantações de Outono, já muito atrasadas. Para que as árvores e cepas me não morram à sede.
Para lavar as uvas do pó do Verão e dos resíduos dos pesticidas. 
Para limpar o ar. 
Para tanta coisa.

sábado, 14 de setembro de 2013

Quase como Diógenes

Éramos novos, acreditávamos, procurávamos.  Não apenas um homem -- então como hoje, uma raridade -- mas a humanidade. E a verdade, a beleza, a justiça. De dia, como Diógenes, mas também na negrura da noite, impenetrável, misteriosa, sedutora -- irresistível.
Irrelevante o que achámos. Como a certeza de que as verdades que nos moviam residiam no ferrão peçonhento de um lacrau. Que a justiça, mais retórica, menos retórica, continua a ser a lei do mais forte. Que a própria beleza é passageira...
Mas descobrimos também, como os jovens das gerações que nos precederam, que é a procura que anima a vida, lhe dá sentido, e nos diferencia dos restantes animais, não humanos e humanos. Que a beleza está em ajeitar o caminho que inevitavelmente teremos de percorrer. 

FOTO: o Henrique, anos 70. Acampados na Serra da Estrela, na neve, com frio que nos trespassava. Éramos assim.