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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Um amor inventado

"Escurecia rapidamente. Dos arbustos ao fundo do jardim chegou o arfar de amantes escondidos e ouviu-se distintamente pergunta augada: — Agora tu deixavas!

— Deixava!, rosnou ela, e talvez ali tenha sido gerado outro ser vivente, que virá ao mundo pela mesma razão que todos nós viemos: porque calhou, como há milhões de anos calha de cada vez que a Vida decide que um único espermatozóide entre milhões de iguais penetrará num óvulo, simplesmente isso, aquele girino que jamais ouviu falar de amor, de moral, que não compreende metáforas, nem filosofias, nem teorias científicas explicativas do seu comportamento, nada cego rumo a um destino que apenas pressente, querendo ser o primeiro e o único, alcançá-lo-á, vá-se lá saber como, a Vida perpetua-se e a morte inelutável do Ser é outra vez adiada.

— Vamos embora daqui, disse a Berta, talvez por ser já noite e o ar estar gelado, talvez incomodada com os gemidos de outro amor inventado agora mesmo e ali ao lado, que tanto pode ser esquecido já daqui a minutos quando a coisa murchar, como durar até que a morte os separe, fortalecendo-se com a passagem das décadas, crescendo em ternura o que diminuirá em desejo... A ver vamos, que é matéria incerta."

Um Amor Inventado  --  romance motivado por poema que marcou a minha juventude:  A Invenção do Amor, de Daniel Filipe. À venda na Leya Online)

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