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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Nunca mais Primavera

Badaladas do sino
Ecoam pela aldeia deserta
Porta-voz do destino
Recordam aos velhos a morte certa

Quando será nunca mais Primavera
Pelo menos um dia radioso
Que enfeite a atmosfera
Neste tempo tão chuvoso?


Ah, rapazes do meu tempo
Ah, mocidade da minha geração
Uma fogueira no peito
Uma laranja em cada mão
Esqueçamos o tempo já passado
Vamos apanhar gelo
Vamos colorir o coração

(Nasçam malmequeres
Cresça a couve
que se sache e se monde
que se colha e se coma)

Lá, onde corre a fresca regueira
onde cresce o agrião
Enchamos o cinzento de laranjas
uma no céu, uma em cada mão

O sino dobra novamente a finados...

(Entre Cós e Alpedriz)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Tiago e o avô

Em dia de temporal, fechados em casa. Quase como no soneto de Correia Garção, substituindo  "a rezar" por "a dormir" e "jogando" por "pintando" (dinossauros, com o Afonso, no Paint).

Cheios de espessa névoa os horizontes,
Espantosas voragens vem saindo!
Foi-se o Sol entre as nuvens encobrindo,
Voltando para o mar os quatro Etontes

 
Caiu a grossa chuva pelos montes,
Os incautos pastores aturdindo;
E engrossados os rios vão cobrindo
Com embate feroz as curvas pontes

 
Com medonho estampido, navorosos.
Os longos ecos dos trovões soando.
A rezar nos pusemos temerosos.

 
Parou a chuva; correm sussurrando
Os torcidos regatos vagarosos;
Não me atrevo a sair, fico jogando.


Correia Garção


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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Duro Inverno

"... Então, o mais tardar na própria noite, procuram fazer as pazes, passando dos berros e das lágrimas à ternura e depois ao prazer, adormecendo nessas noites frias de Inverno enroscados um no outro como cobras, bem aconchegados sob cobertor de papa e mantas de trapos, enquanto a nortada procura friesta por onde entrar e a chuva tomba desalmadamente sobre as colinas, escorre pelas regueiras, inunda os chãos-de-horta, transforma regatitos em riachos furiosos, que tudo arrastam consigo — árvores, pontes de madeira, gado, pessoas até, como sucedeu à filha do Mouco, numa tarde em Cós.
(...)

E um dia, inevitáveis como o Inverno que a todos atormentava, apareceram os pescadores. Há meses que não podiam ir ao mar, a fome apertava. E apertava-se a garganta dos camponeses ao verem aqueles homens valentes, que não receavam mar e temporais, pedindo esmola por amor de Deus. Os cavadores, também eles impedidos pelo mau tempo de ganhar o sustento, comoviam-se e cada um dava o que podia: um punhado de batatas miúdas, das mesmas que a mulher cozia para os porcos, uma tira de toucinho, uma ou outra maçã ou passas de uva, figos secos, uma fatia de broa e, sempre, um copo de água-pé ou um rijo mata-bicho, aquecendo o corpo e queimando as tristezas, que, bem o sabemos, nem dão de comer nem pagam dívidas.
Então, abrigados nas adegas, ouviam os pescadores horas e horas a fio enquanto fora a chuva batia nas paredes, jorrava dos beirados, corria pelas ruas, fazia transbordar as regueiras, transformando tudo num mar de água. As conversas corriam soturnas como o tempo, recordando os entes queridos levados pelo mar na longínqua Terra Nova, na costa de Peniche, às vezes até junto à Nazaré, mesmo à vista das famílias. E partiam, as ceroulas de flanela arregaçadas pelas canelas, os pés descalços, por poças e atalhos, mendigando pelas aldeias que atravessavam, guardando nos sacos de serapilheira que carregavam às costas a pobre dádiva dos pobres, a quem também escasseava o sustento para si próprios e para os seus; partiam, levando com que mitigar momentaneamente a fome à família enquanto os homens da terra permaneciam nas adegas e arribanas ou iam para a taberna beber fiado.
Como pregoeiro do mau tempo, entoando na gaita-de-beiços a triste melodia do inverno, chegou o amola-tesouras, tentando atrair freguesas com o mesmo assobio com que na Primavera se oferecia para capar os porcos, os mesmos alforges na bicicleta, de onde agora extraía um esmeril para afiar facas e tesouras, alicate e arame fino para consertar as varetas de chapéus de chuva. Também para o galego os tempos estavam maus, calcorreando estradas alagadas e caminhos de lama, a bicicleta à mão, sempre debaixo de chuva inclemente, para ganhar um cruzado aqui, outro ali.
Chegou o cesteiro, instalando-se ora numa adega ora noutra, e habilidosamente entrelaçava vergas fazendo cestos onde as camponesas transportariam ovos ou fruta, poceiros para as uvas na vindima, poceiras para a fruta que venderiam nas praças de Alcobaça ou de Pataias, poceirões onde os burros carregariam o esterco para as hortas quando o tempo levantasse. Ao contrário da formiga, trabalhava de Inverno, mas só receberia mais tarde, talvez apenas no final do Outono: — Pago-te quando vender um casco de vinho..., ambos sabendo que o mais difícil é receber, seja a jorna ganha, seja o vinho vendido.
(...)
O duro Inverno prolongou-se até finais de Abril, alargando constantemente o fosso entre ricos e pobres e multiplicando estes últimos, em boa parte à custa dos que tiveram até então uma pobreza remendada, apoiada numas courelas que lhes asseguravam alguma independência, mas que agora se viam forçados pela necessidade a empenhar ou a vender por tuta-e-meia.
As geadas queimaram as batatas novas; o feijão e o milho não medravam, antes pareciam definhar, amarelentos; o granizo, a que cá chamamos pedraço, destruiu boa parte das uvas e o míldio devastou as vinhas, apesar das pulverizações constantes com calda bordalesa, que a chuva prontamente lavava. Faltava a lenha e os cavacos encharcados que podiam conseguir nos pinhais eram ciosamente guardados pelos donos, que, em vez de agradecerem a limpeza gratuita que as mulheres faziam às matas, retirando com longas varolas os ramos secos, carregando a caruma e as pinhas para atear o lume, o tojo para chamuscar o porco, se as apanhavam em flagrante delito exigiam pagamento da carga, como se tivessem com quê, aproveitando, se estivessem sozinhas, para sugerir que então pagassem com o corpo. (...)"
Entre Cós e Alpedriz

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O Inverno do nosso descontentamento

Não se trata de Shakespeare, nem do romance de Steinbeck --- é a triste realidade em que o nosso país vive. Como uma desgraça nunca vem só, diz o povo no seu optimismo secular, à crise financeira, ao desemprego crescente, ao endividamento, aos escândalos políticos, somam-se este Inverno ataques da natureza raramente vistos na nossa terra: Oeste, Madeira, tornados...
Agrada-me a chuva que inunda campos sequiosos,  alegro-me vendo cheios os poços vazios no Outono. Mas estamos no fim de Fevereiro, e o Sol, "cá dele", como se diz na minha aldeia? E sem Sol nada se cria, nem sequer nabiças e nabos, que tanto apreciam a chuva, sem Sol que enxugue os campos impossível cultivá-los, e muito em breve será demasiado tarde para as minhas sementeiras de sequeiro...
Precisamos urgentemente de Sol que torne glorioso este Inverno inusitado -- diferente daquele que ficou em Alcácer Quibir.
(Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York;


Shakespeare, Ricardo III )

Farrapos de nuvem

...E um olhar destemido atravessa o tempo
Atravessa-me no meu tempo  – eu sei, não sou daqui
daqui onde a mãe chuva é  delícia
e o mau tempo  prazer

Não como a ave que traz à terra o branco do céu
e o solta em efémero grito ...

(Fragmento de um rascunho meu, já antigo)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Não deserto do ensino

Não meti os papéis para a reforma hoje. Faltou-me a coragem. Afinal, é a minha vida desde 1976. Por pior que o ensino se tenha tornado, por pior que vá ficar --- e vai, não duvido, por muito que a minha ministra sorria --- não me imagino a viver fora dele. Eu sei, alguma vez terá de ser. Mas não hoje, mas não agora.
Nem preciso de inventar desculpas, argumentar com penalizações e quejandos. É só cobardia. Sem a minha profissão, sofreria do síndroma do membro amputado. É um sacerdócio, uma cruz que tenho de carregar, por sentido de dever, ou por não ser capaz de viver de outro modo. Não adianta arranjar desculpas.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Elefantes, jibóias e desertores

Para o Reinaldo:

Cá está o elefante a que me referia, engolido por uma jibóia.
Quanto ao desertor, se não mudar de ideias até lá, será o mocinho da foto. Amanhã, antes que se torne impossível e se veja obrigado a continuar até ao fim dos seus dias uma inglória carreira de palhaço.
Demain de bon matin
Je fermerai ma porte
Au nez des années mortes
Le déserteur, Boris Vian

O desertor

C'est pas pour vous fâcher
Il faut que je vous le dise
Ma décision est prise
Je m'en vais déserter

( [Sr. Presidente] não é para o irritar
É preciso que lho diga
A minha decisão está tomada
Vou desertar)
(Boris Vian, Le déserteur)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A avó Zé

A avó Zé vista pelo Afonso. Trabalho de artista, na linha de Miró.  Evidencia, sem margem para dúvidas, que o talento para a pintura foi herdado do avô materno --- eu próprio. 
Põe os olhos neste pequeno pintor, João. Admira a disposição, a subtileza cromática, a linguagem não figurativa mas fortemente expressiva, a melancolia do modelo...

(Sei que é a avó porque o Afonso mo disse; porque se me tivesse dito que era um marciano teria acreditado na mesma. Também me pintou, mas não está satisfeito com o retrato: não conseguiu fazer o bigode; descontentamento de artista, que certamente motivará a próxima obra-prima.)
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Amigos, amigos...

Nem que me tivesse saído o Euromilhões: as propostas de amizade surgem às dezenas por dia --- fulano (não imagino quem seja) "adicionou-te como amigo(a) no Facebook. Precisamos que confirmes que conheces X para que sejam amigo(a)s no Facebook"....
Já pensei em criar um filtro anti-spam. Para não ter de o fazer, lembro que tenho feitio intratável, interesses pouco apetecíveis (gosto de trabalhar, de transpirar), não perco tempo com conversas de salão, não vou em futebóis, não troco um livro do Camilo (estou a ler O Senhor do Paço de Ninães) por todos os que estão nos tops, não gosto de viajar, não como massas (e pizzas só com muita larota), não suporto aquilo a que hoje chamam música (e tenho uma lesão do ouvido interno nos 43 db)...
Em resumo: não sou nada recomendável para amigo. Por que não vão bater a outra porta?

"Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho. 
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia
!"

Álvaro de Campos, Lisbon Revisited

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Domingo

Dia de frio (ah, este aquecimento global!), corpo dorido de treinos de karaté na sexta (Entroncamento) e no sábado (Leiria) dirigidos pelo sensei Vilaça Pinto (sem fotos, esqueci-me das pilhas).
Hoje seria dia de descanso, tinha-o decidido, mas a imagem é enganadora. Como diz o meu narrador numa novela que recentemente terminei,
"sete dias tem a semana, cada qual de labuta, só o Senhor, porque é Deus Todo-Poderoso, pôde descansar num deles..."
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Asfixia democrática

Oiço na televisão, Canal 2, Telejornal das 10H, moço boy do PSD em comissão parlamentar:
"Quando se há receio..."
Enganou-se, penso eu. Mas ele, que, pelos vistos, aprendeu técnicas de retórica, repete e repete: "Quando se há receio..."
A senhora presidente, que até foi ministra da educação (como Couto dos Santos, o tal do "Se eu fosse aluno bastaria-me ver a prova" a propósito da PGA) não poderia encomendar umas aulitas de língua portuguesa, pelo menos para os seus moços que falam para a televisão? Ou asfixiá-los democraticamente, para não acrescentarem a uma desgraça outra bem maior?

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Desenhos animados

Sempre gostei de desenhos animados. Dos do meu tempo, em que um coelho esperto fazia patifarias, ou um canário torturava um pobre gatinho, dos do tempo das minhas filhas, a Heidi, depois Scubidu, o cão que ria... Agora, com os meus netos, vejo Os Irmãos Coala, o Carteiro Paulo, Vila Moleza... 
As histórias melhoraram muito. Gosto, por exemplo, do Carteiro Paulo, que é feliz a distribuir o correio, nestes tempos em que ser feliz é (1) estar reformado; (2) viajar; (3) comprar. 
Ou da Vila Moleza, com heróis sempre activos e dinâmicos em luta contra o sedentarismo juvenil e trocando os doces pela comida saudável. E o mau perde sempre! Eu sei, na vida é ao contrário, mas lá que dá gosto vê-lo cair vítima das suas próprias armações, dá. Boas lições de vida para os mais pequenos --- o meu neto mais velho vai fazer quatro anos --- e satisfação para o avô, antes que as noticias do telejornal o tragam de novo a este mundo em que
Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.

Mal d'olhos

Tenho um queratocone. O suficiente para intrigar os conhecidos, sempre prontos a dar sugestões, na sua vontade de ajudar:
--- Porque é que não vais ao oftalmologista? Porque é que não usas óculos?
--- Porque não vejo com eles.
--- Então é porque precisas de mudar de lentes. Etc.
Mas há mais e pior. Um problema que não me afectava há oito anos voltou --- e sei que se vai repetir, como então aconteceu.
A visão começa a ficar indistinta, turva. Um pequeno ponto brilhante --- e eu digo: cá está esta merda outra vez. No canto superior direito, com os olhos abertos ou fechados, surge, brilhante, uma luz curva zigzagueante, como quando olhamos para o filamento de uma lâmpada de incandescência, as cores decompostas como se luz passasse através de um prisma. Então já vejo pouco e mal. Fecho os olhos. A imagem cintilante permanece entre dez a vinte minutos. Depois alarga, dilui-se, as cores quase se combinam e acaba por desaparecer.
Das primeiras vezes, há um dez anos, consultei, apavorado três ou quatro oftalmologistas. Os quais apresentaram várias hipóteses para o fenómeno, nenhum tratamento: insuficiente irrigação do nervo óptico, prenúncio de dores de cabeça... Convenci-me, então, que teria de conviver com  a maleita. Nada fácil: ficar com a visão gravemente afectada ao volante na 2ª circular em hora de ponta, ou numa aula em turma difícil, disfarçando para que me não pressintam fragilizado --- já passei por tudo isto e muito mais --- não é nada bom. Pior é no domingo passado ter recomeçado.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Se Portugal fosse pessoa*

* Ler aqui, no blogue de Rentes de Carvalho. O olhar dorido do estrangeirado sobre a nossa pátria, sobre nós, os europeus sem remédio, desde sempre vítimas da nossa própria esperteza saloia.
(Curiosamente, no Público a notícia de que as câmaras se não conseguem livrar dos estádios cuja construção impuseram e nós pagámos e continuaremos a pagar. Enquanto os responsáveis por actos de má governação não tiverem de responder por eles com o seu próprio património --- se é que é o seu património! ---, sem prescrições nem amnistias, sem retórica nem artimanhas de advogados ... Eu sei: em Portugal, isso será no dia de São Nunca. À tarde.)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Aniversários

Não tenho cabeça para datas e deixo passar aniversários que devia recordar. Há algumas excepções: lembro-me do meu e de que no dia de hoje esta menina faz anos e, melhor, que nós começámos a namorar, num café da zona da Faculdade de Ciências, o Big Ben, sempre cheio de estudantes e de tabaco.
Foi em 1973. Para meu desgosto, nesse dia  tivemos de nos separar bem cedo, porque eu tinha pinturas (hoje diz-se grafitos)  marcadas para essa noite, a propósito da comemoração do 4 de Fevereiro, data oficial da guerra em Angola na versão do MPLA, e a polícia estava à nossa espera, sabendo que iríamos pintar e onde o iríamos fazer... Para piorar, os clichés anticolonialistas eram enormes e lembro-me que dos cinco que tinham sido atribuídos ao meu CLAC apenas conseguimos completar dois. Não fora a veterania e o sangue frio da minha camarada do CLAC, bem grávida (que será feito dela? nunca soube o seu verdadeiro nome) e teria sido caçado como coelho. Escapei e no dia seguinte a menina da foto e eu já estávamos outra vez bem agarrados, tão bem que nunca mais nos largámos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A obra nasce

Primeiro uma ideia vaga começa a formar-se na minha cabeça, uma frase surge a reclamar registo escrito --- a obra começa. Vai fluindo penosamente, como ribeirito em busca do seu mar, deriva aqui e ali, recua quando encontra obstáculos insuperáveis, por vezes acumula-se à espera, sempre reclamando trabalho sem me dizer em que direcção seguir, como prosseguir. E, em dado momento, após dias, ou semanas, ou meses, ou anos, (ou nunca),  ganha alma, emerge das sombras, impõe-se-me como história madura, capaz de singrar por si só.
Sim, não dá para acreditar. Confissões destas parecem tretas mistificadoras. Como é que se escreve sem saber o quê? Então não se fazem planos, como aqueles que se exigem aos alunos? Eu não faço. E o processo narrativo torna-se menos intrigante se pensarmos nos nossos próprios filhos. Investimos neles, esforçamo-nos, mas quase sempre seguem o seu próprio rumo, agrade-nos ou não...
Por exemplo, neste momento trabalho num conto em que tento plasmar a minha experiência de operário de plásticos nos idos de 1973. Procuro reconstituir o ambiente, tarefa difícil, porque a escrita é linear, da esquerda para a direita, de cima para baixo, e numa fábrica tudo nos envolve --- ruído das máquinas, dos compressores, das lâmpadas fluorescentes, cheiro a óleo, a plástico fundido, humidade no chão de cimento, que combina perigosamente com a electricidade, pelo que junto a cada máquina há um estrado de ripas de madeira e sobre ele um operário concentrado, mudo, de gestos precisos, olhos atentos aos mostradores, mãos quase insensíveis ao calor que abrem  velozes os moldes. Por vezes, demasiadas vezes, há acidentes: queimaduras graves, dedos ou mão decepada, até um morto por electrocussão --- precisamente o camarada que me substituiu na minha máquina na semana de férias do meu casamento...
Vê-se que esta história vai já adiantada; mas não sei ainda como é que os vários ingredientes se combinarão, qual o desfecho, como será contado... Se prazer há no mister da escrita, é, sem dúvida, este, o da surpresa, a que acresce o da contemplação da obra terminada, com modesto desabafo incrédulo: fui eu quem escreveu isto? Sim, porque cada história é irrepetível, como irrepetível é a minha vida...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Esboço

Do João Alfaro, a experimentar a minha caneta digital.
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