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terça-feira, 30 de julho de 2013

Angry bird

A minha guerra não é com os porcos, antes com outros javardos, os seus primos javalis. Os quais, desde que por aqui apareceram, destroem tudo, manifestando especial apetência pelo meu milho. Apreciam-no tanto que há dois anos nem uma espiga colhi. No ano passado vinguei-me: não semeei. Mas neste resolvi arriscar, fiado de que encontraria soluções na internet. Pois não há.
Logo que começaram o ataque, gulosos pelos grãos ainda de leite, ripostei com solução de conterrâneo: um rádio a tocar. Devo tê-los surpreendido.
Mas são matreiros. Depressa perceberam que dali não vinha perigo. E agora, receio, dançam ao som da música enquanto me devastam o milheiral...
Se alguém conhecer solução, fico muito agradecido. Desde que não envolva bruxaria nem rezas.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Vieira do Minho

O hotel rural Quinta da Travessa, onde pernoitámos. Banho na piscina, lado a lado com as vacas da quinta. Fresco, acolhedor, simpático, muito bem arranjado. Lá nos recomendaram para jantar o melhor restaurante que encontrámos em toda a longa viagem: A Tasquinha. 
Carne barrosã genuína, impecavelmente confeccionada, bacalhau tão bom como antes nunca tinha provado, verde do proprietário, tinto e branco, deitado com requinte para as tradicionais tigelas... Abade de Priscos para quem ainda se aguentou com ele, para mim bagaço de vinho verde, também da casa e a fazer-lhe inteira justiça.
Da revolução, não vi nem vestígios...
Vale outra visita, mesmo que apenas para voltar a comer n' A Tasquinha.

Póvoa de Lanhoso


Concelho onde a revolta da Maria da Fonte começou. A protagonista terá sido Maria Angelina, a quem

"Chamavam[-lhe] da Fonte por ser da freguesia de Fonte Arcada." (Camilo Castelo Branco, Maria da Fonte).

A Maria da Fonte
Não é mulher como as mais
Usa facas e pistolas
Para matar os cabrais


Fogueira de São João

Moscego, moscego, vem à cana que tem sebo!
Cana ao alto, o miúdo corre descalço rua abaixo indiferente a topadas, pula a fogueira que esmorece, ardidas as vides, lança para o brasido piparote há anos abandonado na berma, as chamas elevam-se até aos fios do telefone, iluminam fugazmente a rua triste de um país triste, volta a saltar a fogueira, olhos fechados ao atravessar a labareda, a cinquenta anos de distância sinto novamente o cheiro a chamuscado das sobrancelhas e cabelo, a fumarada enegrece-me a face, amanhã na escola gozarão comigo, chamar-me-ão carvoeiro... 
Noutras ruas da aldeia haverá outros rapazes a saltar outras fogueiras, luzes que à distância têm a insignificância das estrelas que polvilham o fundo negro do céu, tantas, tão brilhantes, e um dia cada uma delas terá um nome — aquela, que brilha serena, destacando-se de todas as outras, não é estrela, é Júpiter, o maior dos planetas; além, mais abaixo, rente ao horizonte, refulge Sírio, a estrela dupla da constelação do Cão Maior, e acima, no cinturão de Órion, o caçador, há duas nebulosas, M42 e M43. Que melhor tempo, o da infância, em que ignorante me deslumbrava com as maravilhas do Mundo e do Universo, ou este, o do fraco conhecimento, em que pouca coisa me espanta?

São Miguel de Seide

Após breve passagem por Famalicão, onde almoçámos sofrivelmente, embora barato, apressámo-nos a prestar homenagem a mestre Camilo, autor de Maria da Fonte, visitando-o na sua terra. O Centro de Estudos Camilianos revelou-se uma desilusão. Uns tantos livros de Camilo, nenhuma exposição, nenhum entusiasmo por parte dos funcionários. Nada para ver, excepto a arquitectura do edifício, semelhante, pareceu-me, a outro do mesmo arquitecto, Siza Vieira, que já tinha visitado em Santiago de Compostela.
Receando mais um barrete, seguimos para a Casa Museu de Camilo. 
Surpresa. O responsável e guia é profundo conhecedor da vida e da obra de Camilo Castelo Branco. Passámos horas em cavaqueira apaixonada, a falar do grande ausente e dos seus livros. 
Felizmente a Casa de Camilo está entregue a um verdadeiro camiliano, que junta à erudição o prazer de ensinar. Com humor, simpatia e cortesia. Porque se me tem calhado outro funcionário, teria dali desandado, apressado e desgostoso.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Santo Tirso

O percurso aqui anunciado em demanda da Maria da Fonte foi pretexto para um excelente passeio pelo Minho, Trás-os-Montes e Alto Douro (de 25 a 29 de Junho), só prejudicado pelo calor que então assolou o país. Calor que tornou mais apetecíveis as piscinas dos hotéis e motivou refrescantes passeios nocturnos à beira-rio por cidades como Chaves ou Bragança.
Na foto, Santo Tirso, o primeiro objectivo.

Ajax

Para quem se não recorda desta trágédia de Sófocles, quando Ajax embarca para a guerra de Tróia, o pai recomenda-lhe que se coloque sob a protecção da deusa Atena; o herói, arrogante, recusa: com a ajuda dos deuses, até o mais fraco dos homens triunfa; ora ele haveria de vencer pelo seu próprio mérito...
Assim era no século V a.C., assim é hoje. Ai de quem recusa suplicar favores, de quem não homenageia os deuses e deusas do seu tempo com os rituais e sacrifícios exigidos pelo cânone! A independência paga-se caro. Pagou-a Ajax com a vida. Pagou-a, por exemplo, Cesário Verde com o desprezo de editores, críticos, jornais:
Independente! Só por isso os jornalistas 
Me negam as colunas. 
Receiam que o assinante ingénuo os abandone, 
Se forem publicar tais coisas, tais autores. (...)
A adulação repugna aos sentimentos finos; 
Eu raramente falo aos nossos literatos, 
E apuro-me em lançar originais e exactos, 
Os meus alexandrinos... 
Ai, ai, Ajax...

terça-feira, 23 de julho de 2013

Kyrie eleison (2)

É o que me ocorre dizer ao ouvir a Avoila: voz melodiosa, encantadora, modos de perfeita senhora. Até me faz ter saudades da Odete Santos.

domingo, 21 de julho de 2013

Kyrie eleison

Em criança, governava Salazar, pensava que era frase dos oposicionistas: Queria eleições!
Hoje, ao ver as trombas dos dirigentes partidários a quem Cavaco Silva as negou, repito a frase, já consciente do seu significado: Senhor, tende piedade!

Respeitinho, ouviram?

O respeitinho é a versão nacional do respeito. Ao contrário deste último, que se impõe naturalmente e funciona em ambos os sentidos, sem subserviências, o respeitinho apenas vai de baixo para cima e decorre da desigualdade social ou económica, do cargo desempenhado, de aparências e fingimentos. Não suporta a contestação, receoso de desmoronamento como castelo de areia. Precisa de dinheiro ou de prestígio social, pelo que não dispensa títulos académicos como engenheiro (Sócrates), doutor (Relvas) ou funcionais: empresário, actor, modelo, jurista, escritor...
O diminutivo não é carinhoso, nem sequer depreciativo. É violento, ameaçador, frequentemente gritado, dedo indicador em riste: Respeitinho, ouviste!

Apoiado na autoridade, faz esquecer aos que têm responsabilidades sociais e políticas a necessidade de se darem ao respeito dignificando os cargos que exercem (e.g., Cavaco Silva, Assunção Esteves) – e perdido o medo em que se estriba, não surpreende  a arruaça, o insulto por parte daqueles que nunca aprenderam a diferença entre criticar e ofender, falar e berrar.
Respeitinho, portanto. Na política, no emprego, no mundo académico, no artístico, em casa. Nada de discordâncias, nem que seja no Facebook ou na blogosfera. Nada que possa beliscar a imagem laboriosamente criada pelos novos ídolos de pés de barro, mesmo que a crítica seja apresentada com todo o respeito. Porque essa gente só aceita a bajulação, manifestação típica do respeitinho.

Respeitinho, ouviram?

FOTO: Leonard Freed, A disputa, 1968

sábado, 20 de julho de 2013

A difícil arte da escrita

Chega de tretas sobre o esforço que escrever implica. Ao felizardo bafejado pela inspiração, bastará sentar-se em frente ao computador e pôr em palavras o que lhe vai na alma para criar a sua obra-prima.
Já aqueles que precisam de trabalhar duro para polir uma simples frase, sempre insatisfeitos com o resultado -- o melhor é dedicarem-se à pintura. (1)
Alguém discorda? Pois então medite no testemunho deste escritor consagrado, extraído com a devida vénia de um dos seus clássicos:
(1) Antigamente mandavam-se plantar batatas; hoje em dia, com a agricultura na moda, é preferível aconselhar-lhes mudança de ramo artístico.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Esladroar

Segundo o dicionário da Porto Editora, consiste em "limpar (as plantas) dos ladrões ou rebentos novos que
são supérfluos". Esladroar, informa o Serviço de Avisos Agrícolas, serve para arejar as vinhas  facilitando a aplicação dos produtos fito-sanitários e criando condições adversas ao fungos, mormente ao míldio, ao oídio, ao black-rot.
Esladroei ontem e hoje, com os resultados que as fotos, de má qualidade, mostram.
Na primeira, vê-se como as vides, aproveitando a minha ausência, cresceram  incontroláveis, ao ponto de impedirem a passagem entre as linhas -- que estão afastadas 3 metros entre si.
O resultado do meu esladroamento radical está patente na segunda foto.
Terminado, logo outra necessidade premente surgiu: cortar as ervas daninhas nas linhas, que se emaranhavam nas cepas.  

E, porque o trabalho no campo está sempre atrasado, ainda reguei em duas courelas. Tarefa demorada, dura, a arrastar mangueiras cheias de água pela terra, e que exige conhecimentos rudimentares de mecânica, porque o motor não pega, o chupador desferra...
Enfim, como escreveu Cesário Verde,


Hoje eu sei quanto custam a criar
As cepas, desde que eu as podo e empo.
Ah! O campo não é um passatempo
Com bucolismos, rouxinóis, luar.

Eis-me derreado, com o corpo a exigir descanso. Amanhã verei as novas nas redes sociais e blogues, responderei a quem o merece, irritar-me-ei com o fracasso da "salvação nacional". Ou talvez não, que o assunto já me enjoa. Cada vez acredito menos na salvação.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Campeonato da Europa da JSKA

De Vilaça Pinto, meu mestre de karaté, chegou-me a seguinte nota informativa, que divulgo  com todo o prazer. Parabéns ao mestre e aos seus alunos participantes no campeonato, os quais se distinguiram internacionalmente, honrando a nossa associação e o nosso país.
Campeonato da Europa da JSKA em Suhl, Alemanha, nos dias 12 e 13 deste mês de Julho.
O dia 12 foi preenchido com 2 sessões de treino técnico e curso de arbitragem sendo o dia seguinte dedicado à referida competição.
A delegação portuguesa:
Vilaça Pinto, José Xavier, Vitor Carreira, José Jerónimo, Carla Jerónimo, Rui Jerónimo, José Mendes, Paulo Almeida, José Maurício, Bruno Carvalho, Rosa Jerónimo, Alvaro Domingues, Mariana Semblano, Telma Silva e Marta Franco (acompanhante).
Gostaria de relevar a presença portuguesa pela forma exemplar como participou em todas as actividades deste encontro (treino técnico, arbitragem e competição). Relativamente à competição destacaram-se pelos resultados obtidos os seguintes competidores:
José Xavier - 1º Lugar em Kumite veteranos;
Rui Jerónimo - 1º Lugar em Kata seniores;
Carla Jerónimo - 1º Lugar em Kata seniores;
Mariana Semblano – 1º Lugar em Kata cadetes;
Telma Silva – 1º Lugar em Kata infantis;
José Maurício – 3º Lugar em Kata e Kumite veteranos;
José Jerónimo – 3º Lugar em Kata veteranos;
Bruno Carvalho – 5º Lugar em Kata seniores.
Gostaria ainda de salientar a importância desta presença portuguesa numa prova internacional participada por 14 países e 250 competidores, tendo lugar exactamente na Alemanha, país onde o nosso destino é traçado como membro da CE.
A subida dos competidores portugueses ao pódio “impôs” durante aqueles breves instantes aos países presentes, também eles membros da CE, uma imagem de valor e competência que nos orgulha a todos e que nos devolve a autoestima que nos tem vindo a ser roubada.  
Cumprimos com brilho e dignidade o nosso dever enquanto representantes de Portugal e esta é a razão porque lhe peço que não deixe que este acontecimento passe sem ser justamente anunciado.
Cumprimentos, Oss!
Vilaça Pinto

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Barranco de cegos

"...ora se um cego guiar outro cego, ambos acabarão por cair no barranco."
Simão, o discípulo a quem Jesus gostava de chamar Pedra por ser curto  de entendimento, pediu "explica-nos essa parábola."
"Ora imagina um reino que na sua cegueira se deixa guiar por cegos. Que é que lhe acontecerá?
"Cairá no barranco."
"Até tu, Pedra, o vês. Só os seus naturais, tão cegos, preferem comentar, discutir, argumentar e contra-argumentar -- a abrir os olhos e reconhecer que são conduzidos por cegos, inevitavelmente para o precipício."
"E esses cegos que os guiam, Mestre?"
"Perdoai-lhes, que não sabem o que fazem. Nunca souberam. Tem-lhes valido a cegueira e  a curta memória do povo. "
Simão, A Pedra, considerou e reconsiderou parábola e interpretação. E concluiu: "enfim, quando caírem no barranco, abrirão os olhos."
Tornou o Mestre, desapontado com o discípulo: "Dizes isso porque nunca ouviste falar dos portugueses."

sábado, 6 de julho de 2013

O Sol é grande

Este tempo, tão do agrado dos apreciadores de caracóis, cerveja, areais e escaldões, é-me por demais incómodo. Não durmo bem, acordo constantemente para ligar e desligar o ar condicionado do quarto, pouco mais posso fazer que, à noitinha, dar rega parcimoniosa às plantas em tentativa de as aguentar, e sou vítima dos insectos, mosquitos e moscas, que me picam impiedosamente, mesmo por cima da roupa, mesmo por cima do repelente, quando o aplico, como hoje, em que madruguei e fui aos Montes regar para tentar salvar alguma coisa — a maior parte da minha agricultura é de sequeiro pela simples razão de que apenas tenho água de poço em duas pequeníssimas fazendas e, devido à chuva constante, só pude semear o feijão e o milho demasiado tarde.  Mas, mesmo que tivesse água em abundância, de pouco adiantaria, porque, mais do que a sede, é o ar quente, literalmente em fogo, que mata as plantas.
É assim o nosso clima, há que o aceitar com resignação, rir das previsões de médio e longo prazo dos meteorologistas, os quais acertam tanto como os economistas e comentadores televisivos, deixar a conversar com as urtigas os visionários que apontam a agricultura como salvação nacional, confundindo a produção de salsa ou rabanetes na varanda  com profissão ou negócio.
E, entretanto, esperar que a canícula se vá... até ao próximo Julho.
Título: do soneto de Sá de Miranda "O sol é grande, caem co’a calma as aves", centrado na mudança, tema tão do agrado dos clássicos. Reconhecendo, como eles, que só para nós o tempo não é cíclico, pelo que " tudo o mais renova, isto é sem cura!" pois só na natureza ao Inverno sucede a Primavera.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Ladainhas da minha infância (2)

Outra ladainha:
Sou soldado soviético
Sem Salazar saber
Se Salazar soubesse
Seria sacrificado.

Ladainhas da minha infância (1)

O verso e a rima são óptimos meios de memorização. Cinquenta anos depois de as ter aprendido, tenho ainda bem presentes várias ladainhas. Como esta:
Menina Angélica
Picou um dêlico
Numa agúlica
De sapatélico.
Menina Angélica foi ao mélico.
Menina Angélica não teve cúlica.
Menina Angélica no cemitélico.

Ódios velhos

As mulheres odiavam-se. Mesquinhamente. Ralhavam, brigavam por tudo, de questões de águas a passagem por serventia que entendiam ser sua. Mãe e filha contra a prima. Que é em família que nascem e se apuram as maiores inimizades.
Os homens não se envolviam. Na taberna, no café, no adro, falavam-se, sem azedume,  mas sem grandes confianças. As crianças conviviam entre si, às escondidas das mães.
Certa noite, uma delas, a estudar em Alcobaça, contou que nós, da família inimiga, planeávamos deitar a mão a casal de pombos do Mosteiro, levá-los para a aldeia, fazer criação -- para sermos os felizes donos de tão belas aves, invejados pelos demais garotos.
Era verdade, mas detinha-nos o medo. De sermos apanhados a roubar. De denúncia na escola, onde os pombos cativos teriam de permanecer escondidos nos nossos sacos até à hora de saída. De valente surra ao chegar a casa com eles, que os nossos pais não nos criavam para ladrões, o mal é começar, seja por alfinete, fruta, ou casal de borrachos.
A mulher exultou. A hora da vingança chegara. Contra o mais velho de nós, órfão de pai -- assim atingiria mais cruelmente toda a nossa família. E havia o despeito por órfão e pobre andar "a estudar".
Na manhã seguinte, logo à saída da camioneta, o filho convidou o outro: queria mostrar-lhe uma coisa. Que o acompanhasse, ia ter uma surpresa.
Teve. Ao passarem pelo posto da Guarda Nacional Republicana, entrou e gritou para o guarda da portaria:
-- Venho fazer queixa deste menino, que anda a roubar pombos no Mosteiro!
O guarda devia ser pai, saber o que são crianças. Talvez detestasse denunciantes.
-- Desaparece já daqui, senão quem fica preso és tu!
Acrescentou ainda, para correr dali com o miúdo, paralisado pela surpresa:
-- Por levantares falsos testemunhos!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Cor serpentis

Nas últimas décadas do séc. XX, embalados pelo desafogo económico do pós-guerra, que acabou por se fazer sentir em Portugal por volta dos anos 90, esquecemos que, como no título do romance de Yefremov, o capitalismo tem coração de serpente. Caíram por terra utopias socialistas e comunistas, encarnadas na União Soviética, que colapsou, na China, com a sua invenção “um país, dois sistemas”, nas caricaturas albanesa e norte-coreana. O capitalismo, esquecidos os sofrimentos do passado, foi aceite como o sistema menos mau, por preservar a liberdade, e o sofrimento das classes trabalhadoras nos séc. XIX e XX encarado como fatalidade histórica, finalmente ultrapassada pelo progresso e pela dura conquista de direitos: as oito horas, pelas quais tantos e tantas deram a vida, um salário decente, férias, apoio no desemprego, na doença, na velhice...
Porém, esse capitalismo do passado sobrevivia. Longe de nós, por exemplo no Paquistão, com crianças de oito e nove anos a labutar de sol a sol carregando tijolos escaldantes, acabados de sair do forno ­­-- como nos Esteiros; na China, onde os operários trabalhavam (e trabalham) em condições intoleráveis, quase idênticas às dos operários europeus na revolução industrial. Mas, acreditávamos, os orientais percorreriam o mesmo caminho que nós e acabariam por se libertar das grilhetas, haveriam de conquistar direitos básicos, cumprir regras de protecção ambiental, gozar de protecção na doença e na velhice.
Paulatinamente, o capitalismo ocidental, aparentemente civilizado, deslocalizou as fábricas para esses países, onde se trabalha por pouco mais do que o pão ou o arroz de cada dia e não há qualquer respeito pelo ambiente, movido não apenas pela ganância, pela sede de lucro que lhe é inerente, mas sobretudo pela procura absurda das riquezas virtuais e astronómicas em que os ganhos resultam não tanto da produção de bens e da prestação de serviços, mas principalmente  da especulação bolsista. Absurdo que faz com que as acções de uma empresa caiam quando tem lucros e distribuí dividendos, e subam quando anuncia dezenas de milhares de despedimentos. Ou quando compra outra bem rentável -- para a fechar. Ou quando...
Absurdo e imoralidade, de mãos dadas. Brilhantes correctores da bolsa e dos grandes grupos financeiros jogam com a vida das pessoas, empresas e países, indiferentes à miséria que causam, apenas interessados nos maiores ganhos dos seus accionistas, muitos dos quais nem em dez vidas a gastar à tripa-forra conseguiriam dissipar as fortunas já acumuladas. E eles, quais drones que assassinam à distância e do outro lado do mundo, sem ver os olhos do homem, da mulher, da criança cuja miséria agravam, enchem-se de orgulho pelas proezas diárias, são bem remunerados, promovidos, imperialmente gratificados pelo mal quotidiano que infligem.

Quando, anos atrás, após vigarices merecedoras de pesadas penas de prisão, os gestores desses grupos financeiros sentiram avizinhar a falência, eles e os seus gurus, que sempre tinham defendido a independência do capital face ao estado, exigiram protecção dos governos – e conseguiram nacionalizações originais, passando para o sector público os seus “activos tóxicos”, as quais podem ser resumidas na fórmula “o contribuinte suporta os prejuízos, nós embolsamos os lucros”. Não lhes foi difícil persuadir os governantes, que assim acautelaram o seu futuro: fora do governo, espera-os um cargo bem remunerado num conselho de administração, a que jamais acederiam não fora a política.
Agora, em nome da competitividade, querem igualar as nossas condições de trabalho, direitos laborais, salários e modo de vida aos que vigoram no terceiro mundo, e não o inverso, generalizando a precariedade, baixando os salários, endurecendo as condições de trabalho, diminuindo o subsídio de desemprego, dificultando o acesso à saúde, proletarizando os professores, lançando na miséria os velhos…
Entre nós, em nome da credibilidade internacional, e para que os grupos financeiros nos emprestem o dinheiro de que carecemos para lhes pagar os juros, espreme-se o povo, arruína-se o país: os juros baixam na razão directa dos tormentos infligidos, o que agradará aos calvinistas germânicos, aos cristãos fundamentalistas americanos, uns e outros convencidos de que a pobreza é castigo de Deus pela nossa preguiça, e a riqueza deles recompensa divina pelo seu labor.
Que ninguém se iluda: o capitalismo tem, sempre teve, sempre terá, coração de serpente. Era já assim quando Jesus zurziu nos ricos do Seu tempo -- uns santos, se comparados aos actuais. Os quais, tal como no Seu tempo, não têm qualquer pejo em combinar a hipocrisia religiosa com práticas ignóbeis. Fariseus, chamava-lhes Ele. Porém, para todos aqueles que, como eu, duvidam da vida eterna e da recompensa ou castigo após a morte, a Sua mensagem admirável, passados dois mil anos, pouca esperança de transformação do presente nos deixa. Decididamente, o Seu reino não é deste mundo. 
Que nos fica então, sem cristianismo, sem socialismo -- que, disse-me há quase quarenta anos João Machado (1), pode demorar dois mil anos a chegar, mas é inevitável?
Não sei. Por isso, tendo escrito por várias vezes neste blogue que o actual estado de coisas não é sustentável, fiquei-me por solução de sobrevivência possível, inspirada na resiliência do nosso povo.
Não surpreenderá, portanto, que pouco me motive a algazarra dos media em torno dos mandaretes nacionais da Troika, e me abstenha até de reproduzir os respectivos nomes, irrelevantes como eles próprios. Não passam de marionetes ao serviço da serpente.

(1)   Em jantar que reuniu perto de uma centena profissionais do MRPP da zona de Lisboa que haviam saído do movimento em protesto contra linha dominante e a que fui convidado por um amigo.