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domingo, 21 de julho de 2013

Respeitinho, ouviram?

O respeitinho é a versão nacional do respeito. Ao contrário deste último, que se impõe naturalmente e funciona em ambos os sentidos, sem subserviências, o respeitinho apenas vai de baixo para cima e decorre da desigualdade social ou económica, do cargo desempenhado, de aparências e fingimentos. Não suporta a contestação, receoso de desmoronamento como castelo de areia. Precisa de dinheiro ou de prestígio social, pelo que não dispensa títulos académicos como engenheiro (Sócrates), doutor (Relvas) ou funcionais: empresário, actor, modelo, jurista, escritor...
O diminutivo não é carinhoso, nem sequer depreciativo. É violento, ameaçador, frequentemente gritado, dedo indicador em riste: Respeitinho, ouviste!

Apoiado na autoridade, faz esquecer aos que têm responsabilidades sociais e políticas a necessidade de se darem ao respeito dignificando os cargos que exercem (e.g., Cavaco Silva, Assunção Esteves) – e perdido o medo em que se estriba, não surpreende  a arruaça, o insulto por parte daqueles que nunca aprenderam a diferença entre criticar e ofender, falar e berrar.
Respeitinho, portanto. Na política, no emprego, no mundo académico, no artístico, em casa. Nada de discordâncias, nem que seja no Facebook ou na blogosfera. Nada que possa beliscar a imagem laboriosamente criada pelos novos ídolos de pés de barro, mesmo que a crítica seja apresentada com todo o respeito. Porque essa gente só aceita a bajulação, manifestação típica do respeitinho.

Respeitinho, ouviram?

FOTO: Leonard Freed, A disputa, 1968

4 comentários:

João Andrade disse...

Caro,

Subscrevo por inteiro o que vai no post. Tem dias o que vou contar, aventurei-me nos meus escassos roteiros por blogues de alguns pseudo-intelectuais/literatos. Por infelicidade, fui calhar ao do José Luis Peixoto, um homem que, aos 38 anos, ainda se acha na desconfortável posição de ter que justificar tanto os livros de sua autoria como os públicos que, "enganadamente", os compram. Refere que o facto de uma empregada a dias o ler num transporte da Carris em nada lhe desmerece os escritos e que tal não devia servir para o catalogar nas leituras de supermercado. Qualquer coisa como isto... Fiz-lhe ver que a sua obra não se definia tanto pela estirpe de quem o lia, que nesse ponto ia com razão, mas antes pelo teor do que lhe perpassava a narrativa. E que, essa, era fraca. Que desilusão tive! O flor de estufa, até hoje, não me aceitou o comentário...Recordo que, naquela altura, no exacto momento em que carreguei para que o dito fosse submetido, surgiu no ecrã uma mensagem dizendo que "a sua aceitação depende do tom moderado da mensagem". Caro Cipriano, desculpe-me o termo, mas que mentira de merda a do Zé Luis. É que, desde sempre, a aceitação da minha crítica dependeu somente de uma coisa. Da pura bajulação. E esse frete, não lho fiz.

Abraço

Jose Catarino disse...

De facto, o respeitinho é fundamental para a construção da imagem e a imagem para o marketing... A literatura não é excepção. Publica-se sobretudo quem tem imagem susceptível de vender, compra-se livros de quem é conhecido, especialmente no nosso país, em que se lê pouco e, não raro, os livros comprados são para oferta:
-- Comprei-te o Lobo Antunes, sei que gostas...
Por educação, para não passar por ignorante, o outro não responderá: --- Ah, só das crónicas. Nunca lhe consegui ler um romance!
Por outro lado, o sucesso comercial, os prémios conseguidos nos meandros pelas editoras, a bajulação de leitoras apaixonadas, tudo isso pode dar a volta à cabeça dos escritores, envaidecê-los, cegá-los ao ponto de desprezarem as críticas ou, até, de se ofenderem com elas. E, no entanto, numa actividade que se desenrola na corda bamba, a crítica, mesmo se sentida como injusta, é fundamental para o aperfeiçoamento, isto se o escritor quiser ir além do sucesso ou insucesso, ambicionar deixar marca com obra-prima que ainda não escreveu e talvez nunca venha a conseguir escrever.
Este tormento passa ao lado daqueles que alegremente escrevem porque inspirados, facilmente se satisfazem, respondendo aos raros críticos "para quem é, bacalhau basta."
Até aqui, tudo bem. Mas tenho dificuldade em calar a irritação que me suscita o desprezo que publicamente manifestam pelos que se esmifram para produzir um parágrafo decente. Só me dá vontade de lhes dizer: Não vêem a merda que escrevem? Não se enxergam?
Ora, ao que me conta, foi algo semelhante que resolveu fazer ao Peixoto. O homem vive da literatura, viu em si um concorrente invejoso, despeitado, a ameaçar-lhe o pão nosso de cada dia! E se no cérebro de alguma das leitoras embevecidas de JLP as suas palavras tivessem eco e suscitassem dúvidas? Já se apercebeu do drama existencial que teria causado na amante desiludida? Ou acreditará que é fácil convencer uma mulher de que uma coisa é o autor e outra a obra? Não, ela ama ou odeia por inteiro. Se não gosta da pessoa, detesta-lhe a obra. Se lhe ama a obra, adora a pessoa. Até que.

João Andrade disse...

Caro,

Ao contrário de Peixoto, eu não sou escritor. Pelo menos, no activo.Sinceramente, sei ainda não estar pronto, se é que alguma vez estarei. Você mesmo di-lo, ainda que por palavras diversas, quando afirma "..ambicionar deixar marca com obra-prima que ainda não escreveu e talvez nunca venha a conseguir escrever." Poucos o conseguem e eu não serei diferente.
A minha lassidão literária, pelos menos lassidão ao ponto de aventurar o patamar da publicação, deve-se ao facto de não querer ter que enfrentar a verdade que reside na história actual do país. A de não ser lido. Idolatro Camilo Castelo Branco, amo a obra de Eça, sou um embriagado pela leve obra de Dinis, admiro a austeridade e mestria de Herculano, sou faminto pelas palavras de Vergílio Ferreira. Mas isso não vende, ou vende pouco. E o que não vende, não é lido. E vice-versa. Invejo-o a si - e, por isso, lhe sigo o blog - pois não apenas sabe escrever, como, após sucessivas recusas das editoras face aos seus romances, o amigo insiste, insiste. Persiste. Talvez acredite mais em si do que eu em mim, e daí prossiga aquilo a que considero destino/fim que auto-traçou para os poucos momentos em que não será apenas pó e em que à terra pertencerá, em exclusivo.
Não percebi bem se no seu comentário depreciou a minha atitude. De qualquer das formas, sei que não foi a melhor. Mas a de Peixoto também não. Aí, estamos compensados. O fulano é marketing e a escrita é oca, bacoca. E isso, sim, irrita-me, dado o manifesto desrespeito para com escritores de outros tempos, que só fizeram foi escrever. Escreveram bem, ao contrário de Peixoto.

Abraço

Jose Catarino disse...

Olá. Começando pelo fim, não depreciei, de maneira nenhuma, a sua atitude. Bem pelo contrário. Já, por demasiadas vezes, (por exemplo, nos defuntos sites Escrita Criativa, Luso-Poemas, recentemente no Facebbok) procedi da mesma maneira, chamando a atenção a escritores, poetas, artistas em geral, para aspectos que se me afiguram susceptíveis de poderem melhorar nas suas obras. Invariavelmente se irritaram, se ofenderam, apesar de os meus comentários serem construtivos e muito modalizados, educados, humildes até. Coisa de chamar a atenção de um poeta ou poetiza para a necessidade de apurar o trabalho formal, de um escritor para o excesso de diálogos, a redundância narrativa, etc.
Pensa que algum me agradeceu? Invariavelmente, a resposta é a de que assim é que gostam e, portanto, fica assim. E eu não volto a ceder à tentação de lhe dar uns conselhozitos, para onde me empurra a deformação profissional, com 36 anos a corrigir textos que até podiam estar bons, mas com uns retoques melhorariam significativamente.
Ora a crítica interessa-me e ajuda-me muito. Na semana passada, recebi mail de uma amiga após leitura do meu último romance (não publicado), Gheke Pepe. Saltei os numerosos elogios, e concentrei-me numa crítica que me levou a repensar a organização da obra e a necessidade de inserir à cabeça uma advertência ao leitor. Porque se a minha amiga não percebeu é porque não deixei claro algo que reputo fundamental -- e pedi-lhe para, logo que termine as férias, nos encontrarmos para discutirmos a questão. Não para provar que tenho razão, antes para robustecer o meu livro, preparando-o para os julgamentos dos leitores, seguramente mais apressados e menos benevolentes do que a minha amiga. Ora isto é que é a amizade. Não ficar pelos encómios, apontar aspectos menos conseguidos antes que outrem o faça.
É fundamental a humildade. Nem imagina o que sofri, o quanto levei nas orelhas na escrita da minha dissertação de mestrado. Algumas linhas foram rescritas vezes sem conta. E eu muito agradeci e agradeço à minha orientadora por não deixar passar nada.
Diferentemente, muitos escritores da moda parecem agir por vaidade, recusando cegos qualquer crítica que os ajude a reorientar o trabalho para que o talento de que dispõem seja melhor aproveitado. Não me pronuncio sobre Peixoto pela simples razão de que nunca lhe li um livro, apesar de ter uns tantos dele em casa. Comprados, mas não lidos, porque nenhum me motivou a leitura para além do primeiro parágrafo, embora tenha folheado um ou outro, coisa de ver se encontrava umas linhas que me seduzissem.
Este meu feitio exigente prejudica-me muito: não vou a apresentações de livros e feiras do livro cortejar escritores e poetas pois não tenho cara para lhes pedir autógrafo em obra que não li nem vou ler, porque só leio por uma de duas razões, aliás interligadas: por prazer e para aprender.
Poucos escritores da actualidade podem apresentar página capaz de ombrear com os autores que cita, a que eu acrescentaria, por exemplo, o padre Vieira, Fernão Lopes, Aquilino, Agustina, Mário de Carvalho, algum Saramago, Rentes de Carvalho... São eles, e outros como eles, que me obrigam a trabalhar duro, para que o que escrevo seja, no mínimo, apresentável.
Vai longa a resposta, muito fica por dizer. Tenho um pedido a fazer-lhe: pode, por mail, fornecer-me um endereço para lhe enviar um dos meus romances, por exemplo Entre Cós e Alpedriz, de que restam muito poucos exemplares? Não se sinta na obrigação de o ler, faça como eu, que ponho a maior parte de lado logo às primeiras linhas. E sinta-se à vontade para, caso leia, nada dizer ou, pelo contrário, fazer as críticas que se lhe afigurem justas. O meu princípio, nestas ofertas, é não perguntar nada depois do envio do livro.
Mail: jccatarino@hotmail.com
Um abraço
JCC