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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Um Verão trágico

Longa reportagem da SIC sobre a morte de um golfinho, de mais de cinquenta anos, comove-me quase até às lágrimas -- que só não rompem porque não cortei cebola para o almoço, em que comi salsichas de infeliz porco, com pobres batatas fritas, cortadas aos palitos... Assim decorre este Verão trágico, com um leão de mais de doze anos assassinado vilmente, a esvair-se em sofrimento idêntico ao das suas presas... Há dias, tinha um borracho morto na capoeira. Hoje, pombo doente.
Tudo culpa do governo e da degradação do Serviço Nacional de Saúde. 
Paz eterna para a alma de todos estes pobres animais, feridos cruelmente ou doentes, e das batatas e feijão verde que cortei impiedosamente...

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

À conquista de Ceuta

Foi há seiscentos anos. No meu romance inédito Gheke Pepe decorreu assim:
"Porém, nada do que se escreve é o que aconteceu: faltam as cores, os odores, os ruídos, mais do que tudo, a juventude sumida nesse rio que se aproxima da foz para se diluir no mar do olvido, águas indistintas onde tudo o que antes correu se dissolve inexoravelmente… Ou, como na balada de meu primo, cantada a bordo da nau que nos levou até Ceuta, “é no fel que tudo fenece.”

— Cantai-nos uma de vossas cantigas para nos animarmos, pediu D. Henrique, para nossa surpresa, que o infante ao saber-nos seus protectores, zangara-se arrogantemente: já não tinha, barafustava, idade para precisar de amas; menos ainda queria ser guardado por velhos.
Meu primo ainda se quisera escusar; mas o filho de nosso rei e senhor insistiu gentilmente: — Uma de vossas cantigas de amigo, trovador.
Assim instado, meu primo cantou — para galhofa geral. O que aqueles moços queriam era tão só divertirem-se às nossas custas. Não fossem eles os infantes que juráramos proteger com nossas vidas e ter-se-iam prontamente arrependido — se nossas espadas para tal lhes dessem tempo.
— Senhor, protestou meu primo, vosso vassalo sou. A vosso pai sempre bem servi e ele mesmo me incumbiu, é certo que contra vossa vontade, de zelar por vossa vida e segurança. Não é assim justo, nem de cavaleiro (como tal, em Ceuta sereis armado) escarnecer do seu fiel servidor. Compreendo e aceito que minhas cantigas vos não agradem; mas por que as pedistes então?
D. Duarte, mais velho, mais avisado, levou dali o irmão e os moços que com ele acamaradavam. E, pouco depois, em seu nome e no do pai, pediu-nos encarecidamente que desculpássemos D. Henrique: era da tenra idade, era dos mimos com que fora criado, do excesso de atenções de todos os que o rodeavam.
— Vós, senhor fidalgo que tantas provas de valor destes ao serviço de meu pai e de tantos grandes senhores por essa Europa fora, não vos podereis sentir amesquinhado por aquelas infantilidades.
— Senhor, tornou-lhe meu primo, é a majestade que fala pelos vossos beiços ainda bem tenros. Dareis, vejo-o, um grande rei, digno de vosso pai e de nosso reino. Vossa vontade é a minha vontade. Já esqueci a desfeita de vosso irmão.
— Para mostrardes que ressentimentos não haveis, cantai-nos então uma de vossas cantigas.
— Senhor, bem gostaria de o poder fazer, mas a guitarra está desafinada, a voz rouca. Dir-vos-ei porém umas cobras que fiz há tempos e vos poderão ajudar quando sobre nós reinardes:

Longe, longe, vão os sonhos
De minha mocidade
Que a maior idade
Torna medonhos
Assim nos tornamos enfadonhos
Aos ouvidos de nossos senhores
Esquecidas as mercês prometidas
Ninguém nada nos agradece
É no fel que tudo fenece…

— Senhor, vereis que, quando reinar, de vós (e abarcou-nos a ambos no mesmo olhar) me não esquecerei.
Quero crer que não nos esqueceu, apenas que na sua árdua missão de nos governar, neste reino atormentado por fomes e pestes, tem assuntos mais urgentes a que acudir. Nada pôde fazer por meu primo, caído em Ceuta na salvação do infante D. Henrique, que na sua arrogância e desejo de glória, se afoitara no ataque à cidadela e os sarracenos cercaram: a não ser mandar trasladar seus restos para a pátria, mas, morto, nada importará a meu primo o lugar onde apodrecem suas ossadas. Por mim, que com pouco me contento, nada fez, nada lhe pedi, nem ao senhor D. João. Por aqui me arrasto, do quarto até taberna onde engano a fome, da taberna até à Ribeira, invisível para os vizinhos como os velhos soem ser, olhado com desprezo pela nova fidalguia que comprou os títulos pagando a capitão da nau que a Ceuta os levou para os fazer cavaleiros, antes ainda de chegarem a terra, sem jamais entrarem em guerra ou escaramuça que fosse: Vai vilão a Ceuta, vem cavaleiro de papel passado."

terça-feira, 18 de agosto de 2015

É pró menino e prá menina!

Também eu disse e repeti vezes sem conta que é tudo uma questão de educação, de aprendizagem social. Os rapazes brincam com bolas e automóveis e as meninas com bonecas porque são esses os brinquedos que os adultos lhes dão, por os considerarem mais apropriados.
Asneira. Os anos e a observação vão-nos ensinando que tão preconceituoso é dar obrigatoriamente bolas aos meninos e bonecas às meninas, como o inverso, tentando contrariar a natureza. Porque ela existe e não se regula por lógica nem por preconceitos. Mas se dúvidas ainda tivesse, tê-las-ia visto esfumarem-se no sábado passado, primeiro aniversário da minha única neta, já habituada a disputar os carros ao irmão. Demos-lhe uma boneca, e era vê-la embevecida, a tocar-lhe nos olhos, na boca, nas orelhas, sobretudo a apertá-la ao peito em carinhosos abraços. E não a largou todo o dia! 
Dois ou três  anos atrás observei idêntica reacção quando a então única menina da família, uma sobrinha-neta, a que não faltavam brinquedos, mas não tinha nenhuma boneca, ao entrar no quarto de uma das minhas filhas deparou com uma maior do que ela: logo se lhe abraçou carinhosamente e foi contristada que deixou  a 'menina' ao sair -- dias depois oferecemos-lhe uma, a primeira, e sua companheira inseparável.
Não faltarão senhoras a afiançar que em crianças gostavam de subir às árvores e de jogar à bola com os rapazes; que, ainda hoje, se aborrecem com companhia feminina e as eternas conversas de filhos, reclamações sobre a cabeleireira, críticas à mulher a dias, troca de receitas culinárias, e preferem convívio masculino, onde as conversas são outras. Mas não confundamos as coisas: é natural que apreciem a companhia masculina, como nós, homens, apreciamos a feminina, e quanto a conversas a trivialidade é idêntica, embora, por estarem menos habituadas, lhes pareça talvez terem alguma originalidade e frescura -- excepções, como o convívio aqui relatado com António Luiz Pacheco, João J. A. Madeira, António Breda, Miguel Raimundo, as nossas mulheres, são isso mesmo: excepções. Rareiam as pessoas capazes de conversas interessantes e, como o narrador do Principezinho, quando sabemos que os nossos interlocutores são incapazes de ver elefantes dentro de jibóias, falamos de política, negócios, viagens, desses assuntos que tanto interessam às pessoas crescidas e fazem mover o Mundo.
Observem, experimentem. Analisem sem preconceitos. E tirem as vossas conclusões, certamente tão incorrectas como as minhas, que nunca faltaram nem faltarão as maria-rapaz que odeiam bonecas nem os rapazes que as adoram...

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

14 de Agosto de 1385

Foi há 630 anos que a Sorte deste país se decidiu no campo das armas. Em Aljubarrota. No meu romance (inédito) Gheke Pepe foi assim.
"Como o toiro orgulhoso que investe cego por pedaço de pano que o enerva e impede de ver o gume afiado do ferro que o vai trespassar, trotam briosos os cavaleiros, lanças ao alto, depois esporeiam as montadas em carga feroz, o chão foge sob as patas dos cavalos, na vanguarda, antes que a nuvem de pó os esconda da vista, avisto o conde D. João Afonso e Gonçalo Eanes de Castelo de Vide, trigoso homem de armas que prometera ser o primeiro a ferir de lança — e pouco mais atrás, meu próprio irmão, que reconheço pelo pendão. Desperta-nos do torpor D. Nuno, com ele gritamos a plenos pulmões S. Jorge, Portugal!, e aprestamos os nossos corações para receber a nossos inimigos como o Condestável recomendara: apeados, pés bem fincados no chão, lanças em riste, passos lentos, sem temor do número nem do clamor do inimigo, havendo fé em Deus, na Virgem sua mãe, na nossa coragem e no amor à pátria.
O ímpeto da carga da cavalaria é afrouxada por uma chuva contínua de flechas e de farpões, que obriga os cavaleiros a protegerem-se sob os escudos, cavalos e homens tombam por terra, relinchos, gemidos, gritos horríveis dos feridos dão lugar à jactância anterior, acorrem os peões a socorrer a seus senhores, mas também eles se vêem empecidos pelo tombar constante de setas e virotões e não poucas vezes se mistura ali o sangue vilão com o nobre e o animal. Os archeiros ingleses, calmos como a morte, já não disparam sincronizados à voz nuvens de setas contra o céu, antes visam os alvos próximos, o cavalo de um, a perna deste, o olho daquele se acaso levanta o bacinete para encontrar caminho por entre as nossas covas de lobo. Desorientados com esta guerra viloa, tão contrária às leis da cavalaria, os inimigos partem as lanças, demasiado compridas para combater a pé, apeiam para enfrentar a nossa peonagem que, se os derruba, prontamente lhes levanta o elmo e faca no olho dá a escolher: resgate ou morte. E sempre, sempre, os frecheiros ingleses a visar alvos que logo tombam, atroa o chão a queda das pesadas armas, eis os inimigos que se aproximam, empurram os nossos, penetram no campo e julgando mais fraca a nossa ala, sobre ela carregam ferozmente. O meu jovem escudeiro, que o anterior, Antão Enes, morrera de peste em Lisboa, lança na mão, treme como varas verdes, outros jovens fidalgos fazem tenção de recuar, foi, vejo-o agora, um erro permitir que estes jovens inexperientes nos sofrimentos da guerra tivessem uma ala à sua responsabilidade, acode meu primo, sempre destemido: — A mim, portugueses! A mim! E lança-se brioso contra o próprio mestre de Santiago, com poderoso golpe de facha o derriba — para sempre, saberemos depois. A seu lado, também eu me atiro aos mais nobres do inimigo, para isto nascemos, não para enganar judeus e mouros por um prato de sardinhas. Que os nossos nos admirem, que os inimigos nos receiem. Dizia meu avô: quando a batalha degenera em corpo a corpo, sempre de sorte incerta, não interessa a técnica, não importa a vida, nossa ou dos nossos inimigos. Só há uma coisa a fazer, carregar sobre eles, bater com todas as forças do corpo e da alma, romper cotas de malha, cortar armaduras e corpos, decepar membros, perfurar olhos, pisar a vilanagem que os protege, matar, matar, cavalos, cavaleiros, peões — até que o estandarte inimigo tombe também ele por terra. 
Mas por cada um que derribávamos dez ou vinte caíam sobre nós e nos cercavam. Contra o número não abasta a coragem e empurraram-nos para o centro do quadrado, rota a nossa ala, tantos, tão fortes, tão valentes eram os castelhanos e tão esforçados os fidalgos portugueses que a seu lado se batiam galhardamente, contra a própria terra embora. 
Então, vendo o desespero de tão poucos esmagados por tantos, acudiu-nos o próprio Rei, que galopou em nosso socorro: — A mim, irmãos, cá sou el-rei, bradava, para que o seguíssemos. E na confusão de corpos vivos, mortos, de homens e de bestas, lançou fora a lança, que de pouco préstimo era naquele caos, e começou a ferir de facha, derribando inimigos como se fora simples cavaleiro desejoso de cobrar glória. E a batalha recrudesceu renhida, cruel, entre relinchos de cavalos, gritos de cavaleiros, gemidos de feridos, pedidos de misericórdia agora inúteis, que não se faziam já prisioneiros pelo resgate, e a terra empapou-se de sangue nosso, dos nossos mercenários, dos nossos inimigos, todos feitos irmãos na mesma morte. E quando caía já o Sol atrás do outeiro vizinho, tombou por terra, não sei como, o estandarte castelhano e o meu escudeiro, ardido guerreiro passado o pavor inicial, deu em gritar: — Já fogem! Já fogem!
E os castelhanos, desorientados, não compreendendo o que se passava, sem se aperceberem de que estavam a ganhar, deram em fugir e nós, antes que reorganizassem, demos em cima deles, acossando-os sem piedade. Depois foi a matança ignóbil, aquele momento de todas as batalhas em que os cobardes chacinam os valentes que se rendem, nem os feridos que agonizam por terra poupam, para os roubar, para vingar a sua própria cobardia. E na noite que se seguiu, até mulheres, soube-se mais tarde, mataram a espanhóis com quem se haveriam deitado alegremente houvessem sido eles os vencedores… 
Vae victis!"

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Amigos, livros e almoço

HNão  viemos dos quatro cantos do mundo -- afinal, ele é, dizem, redondo e nós somos pessoas modestas. Mas da Mealhada veio o António Breda e a família, de Óbidos o João Madeira, eu e a minha mulher do Entroncamento, de Santarém jovem poeta e historiador, e todos nos encontrámos na casa do António Luiz Pacheco, onde ele e a Fernanda nos receberam com elegância aristocrática à altura da casa da quinta, antiga residência eclesiástica do séc. XVIII.
Excelentes entradas -- salada de polvo, ovas com tomate, camarão, queijos --, vinhos da região, deliciosa garoupa assada, melão, doces cortados com medronheira...
Despretensiosamente, sem máscaras, primeiro ao almoço, depois pela tarde fora, falámos das nossas leituras, discutimos os nossos livros, apontámos pontos fracos, trocámos experiências  concernentes à edição, à distribuição e à comercialização, cortámos amigavelmente na casaca de amigos ausentes com a mesma lisura com que o faríamos se estivessem presentes, contámos histórias e episódios das nossas vidas, partilhámos expectativas, projectos, sonhos.
Despedimo-nos já bem tarde, agradecendo aos anfitriões a excelente tarde e a pensar já no próximo encontro.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

"Antes quero asno que me leve que cavalo que me derrube"

Gosto de burros, sejam eles de raça, como os mirandeses, ou rafeiros como a burrinha que tive na minha mocidade. E não gosto dos espertalhões que, com ideias de jerico, me querem fazer de burro. Como aquele que não sai da televisão, a explicar como é que os burros mirandeses podem prevenir os incêndios. 
(Talvez por a estratégia preventiva estar entregue a asnos a floresta arda inevitavelmente em cada Verão. Adiante.)
Uns anos atrás, outro propunha rebanhos de cabras. Cada qual puxa a brasa à sua sardinha, que é como quem diz aos financiamentos que espera vir a alcançar com as suas ideias asininas. 
Para estes doutores tudo é fácil e só por burrice não é implementado: cabras, ou burros, ou para o ano porcos, vão por esses montes fora, comem não a erva tenra, mas os silvados que tudo invadiram, o tojo e a urze dos pinhais, e o fogo, chegando a vales limpos, pára, menino bem comportado. 
(Ora eu, que já vi as chamas a passarem de monte para monte, deixando quase incólumes os vales... Que vi, na televisão, devo confessá-lo, oliveiras inflamarem-se sem chamas à  vista...)
Eu, que nada sei, sorrio: sempre me lembro de incêndios. Só que antigamente não eram notícia, salvo quando matavam umas dezenas de militares, e nesse tempo incendiário apanhava a pena máxima, salvo erro 28 anos de prisão, que não raro se convertiam em prisão perpétua. Nesse tempo, matas e pinhais eram limpos por mulheres à lenha, que não tinham outro combustível, os matos eram rapados para a cama do gado e para chamuscar os porcos nas matanças.
Nesse tempo, poucos bombeiros havia. Tocava o sino a rebate e todo o povo acorria, homens com enxadas, mulheres com canecos e baldes, garotos com a coragem da inconsciência. 
Depois veio a emigração, para a França e para as cidades, os campos foram abandonados, o mato cresceu livremente. Veio o 25 de Abril, os incendiários foram desculpabilizados, as penas muito aligeiradas, o povo tornou-se espectador e comentador televisivo, o combate aos fogos foi delegado nos profissionais: -- Deixa arder, que o meu pai é bombeiro! Deixa arder, que isto vai para os comunistas...  
Veio a indústria da celulose, os grandes negócios com os incêndios e com o combate aos incêndios...
Fizeram-se leis que não são cumpridas. Não raro, nem se sabe quem é o dono da floresta. O Estado é o pior proprietário, o mais desleixado, o menos cumpridor
Agora os burros são a solução. Bom, se os ensinarem a seguir os incendiários e a mijar nas fogueiras que ateiam, por que não? 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O poeta maldito e outros lugares-comuns

O mal dos lugares-comuns é que resultam de uma observação parcial, não raro superficial. O 'topos' do poeta-maldito, por exemplo, criado pelo romantismo, elege como expoente Camões, poeta amargurado, incompreendido pelos contemporâneos, sempre envolvido em paixões ardentes, as quais levam à sua perseguição e, por vezes, à prisão. Na falta de biografia, que da vida de Camões quase nada se sabe ao certo, servem-se da sua poesia para a respectiva construção: por exemplo, no soneto "o dia em que eu nasci moura e pereça" por ter deitado ao Mundo "a vida mais desgraçada que jamais se viu" lêem o desabafo amargurado de Camões --  e o poema é, antes de mais, a versificação do Lamento de Job bíblico: no soneto "Alma minha, gentil, que te partiste" encontram o choro pela morte em naufrágio da Dinamene, "moça china com quem andava de amores na Índia" e não a imitação, ou o plágio, de soneto de Petraca -- aliás, muitos estudiosos nem sequer aceitam que esse soneto seja da autoria de Camões.
Com Bocage, este sim, de vida dissoluta, poeta medíocre, muito apreciado exactamente por isso, e pelas tiradas declamatórias tão ao gosto romântico, obcecado com o paralelismo entre a sua vida e a de Camões, e Forbela Espanca, autora de sonetos interessantes, têm corpus suficiente para estabelecer regra: o grande poeta, o bom escritor, é ser amaldiçoado pelo seu talento, ostracizado pela sociedade a que se julga superior, com direitos especiais, porque vê o que os outros não vêem, vai onde os outros não ousam ir. Pode ser desonesto, vigarista, caloteiro, pedófilo, bígamo, péssimo pai, autor irrelevante -- tudo se lhe perdoa.
E há os outros autores. Aqueles que que sabem que "o poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente" e por isso mesmo se não confundem com as suas máscaras, heterónimos, personagens. Nem sequer são dos piores, ou dos irrelevantes: D. Dinis, um dos melhores poetas da nossa literatura; Fernão Lopes, mestre da arte da prosa e historiador avant la lettre; Sá de Miranda, imerecidamente esquecido e tão imitado por Camões; Bernardim Ribeiro, génio entre os génios; Gil Vicente, até hoje cometa resplandecente do teatro português; Rodrigues Lobo e as suas belíssimas églogas; o Padre Vieira, mestre dos mestres; Herculano, Camilo até, Cesário Verde, Eça, Raúl Brandão, Fernando Pessoa, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira, Saramago, Mário de Carvalho... E tantos outros, que me desculpem a omissão...
Postos nos pratos da balança, num os "malditos", noutro os que distinguem realidade de ficção e autor de obra -- afinal, aqueles que não confundem o cu com as calças! -- o desequilíbrio é por demais evidente. 
Cada qual tem o direito de viver a sua vida como puder ou quiser; mas que não haja ilusões: a qualidade da obra produzida não depende necessariamente da vida, equilibrada ou dissoluta, do autor. Como salienta O. Wilde, no Retrato de Dorian Gray,
"Os bons artistas existem unicamente naquilo que fazem, pelo que são completamente desinteressantes como pessoas. Um grande poeta, um poeta maior, é uma criatura absolutamente destituída de poesia. Mas os poetas menores são perfeitamente fascinantes. Quanto piores são as suas rimas mais pitorescos parecem. O simples facto de ter publicado um livro de sonetos de segunda categoria torna um homem bastante irresistível. Vive a poesia que não consegue escrever. Os outros vivem a poesia que não se atrevem a realizar."