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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

À conquista de Ceuta

Foi há seiscentos anos. No meu romance inédito Gheke Pepe decorreu assim:
"Porém, nada do que se escreve é o que aconteceu: faltam as cores, os odores, os ruídos, mais do que tudo, a juventude sumida nesse rio que se aproxima da foz para se diluir no mar do olvido, águas indistintas onde tudo o que antes correu se dissolve inexoravelmente… Ou, como na balada de meu primo, cantada a bordo da nau que nos levou até Ceuta, “é no fel que tudo fenece.”

— Cantai-nos uma de vossas cantigas para nos animarmos, pediu D. Henrique, para nossa surpresa, que o infante ao saber-nos seus protectores, zangara-se arrogantemente: já não tinha, barafustava, idade para precisar de amas; menos ainda queria ser guardado por velhos.
Meu primo ainda se quisera escusar; mas o filho de nosso rei e senhor insistiu gentilmente: — Uma de vossas cantigas de amigo, trovador.
Assim instado, meu primo cantou — para galhofa geral. O que aqueles moços queriam era tão só divertirem-se às nossas custas. Não fossem eles os infantes que juráramos proteger com nossas vidas e ter-se-iam prontamente arrependido — se nossas espadas para tal lhes dessem tempo.
— Senhor, protestou meu primo, vosso vassalo sou. A vosso pai sempre bem servi e ele mesmo me incumbiu, é certo que contra vossa vontade, de zelar por vossa vida e segurança. Não é assim justo, nem de cavaleiro (como tal, em Ceuta sereis armado) escarnecer do seu fiel servidor. Compreendo e aceito que minhas cantigas vos não agradem; mas por que as pedistes então?
D. Duarte, mais velho, mais avisado, levou dali o irmão e os moços que com ele acamaradavam. E, pouco depois, em seu nome e no do pai, pediu-nos encarecidamente que desculpássemos D. Henrique: era da tenra idade, era dos mimos com que fora criado, do excesso de atenções de todos os que o rodeavam.
— Vós, senhor fidalgo que tantas provas de valor destes ao serviço de meu pai e de tantos grandes senhores por essa Europa fora, não vos podereis sentir amesquinhado por aquelas infantilidades.
— Senhor, tornou-lhe meu primo, é a majestade que fala pelos vossos beiços ainda bem tenros. Dareis, vejo-o, um grande rei, digno de vosso pai e de nosso reino. Vossa vontade é a minha vontade. Já esqueci a desfeita de vosso irmão.
— Para mostrardes que ressentimentos não haveis, cantai-nos então uma de vossas cantigas.
— Senhor, bem gostaria de o poder fazer, mas a guitarra está desafinada, a voz rouca. Dir-vos-ei porém umas cobras que fiz há tempos e vos poderão ajudar quando sobre nós reinardes:

Longe, longe, vão os sonhos
De minha mocidade
Que a maior idade
Torna medonhos
Assim nos tornamos enfadonhos
Aos ouvidos de nossos senhores
Esquecidas as mercês prometidas
Ninguém nada nos agradece
É no fel que tudo fenece…

— Senhor, vereis que, quando reinar, de vós (e abarcou-nos a ambos no mesmo olhar) me não esquecerei.
Quero crer que não nos esqueceu, apenas que na sua árdua missão de nos governar, neste reino atormentado por fomes e pestes, tem assuntos mais urgentes a que acudir. Nada pôde fazer por meu primo, caído em Ceuta na salvação do infante D. Henrique, que na sua arrogância e desejo de glória, se afoitara no ataque à cidadela e os sarracenos cercaram: a não ser mandar trasladar seus restos para a pátria, mas, morto, nada importará a meu primo o lugar onde apodrecem suas ossadas. Por mim, que com pouco me contento, nada fez, nada lhe pedi, nem ao senhor D. João. Por aqui me arrasto, do quarto até taberna onde engano a fome, da taberna até à Ribeira, invisível para os vizinhos como os velhos soem ser, olhado com desprezo pela nova fidalguia que comprou os títulos pagando a capitão da nau que a Ceuta os levou para os fazer cavaleiros, antes ainda de chegarem a terra, sem jamais entrarem em guerra ou escaramuça que fosse: Vai vilão a Ceuta, vem cavaleiro de papel passado."

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