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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O poeta maldito e outros lugares-comuns

O mal dos lugares-comuns é que resultam de uma observação parcial, não raro superficial. O 'topos' do poeta-maldito, por exemplo, criado pelo romantismo, elege como expoente Camões, poeta amargurado, incompreendido pelos contemporâneos, sempre envolvido em paixões ardentes, as quais levam à sua perseguição e, por vezes, à prisão. Na falta de biografia, que da vida de Camões quase nada se sabe ao certo, servem-se da sua poesia para a respectiva construção: por exemplo, no soneto "o dia em que eu nasci moura e pereça" por ter deitado ao Mundo "a vida mais desgraçada que jamais se viu" lêem o desabafo amargurado de Camões --  e o poema é, antes de mais, a versificação do Lamento de Job bíblico: no soneto "Alma minha, gentil, que te partiste" encontram o choro pela morte em naufrágio da Dinamene, "moça china com quem andava de amores na Índia" e não a imitação, ou o plágio, de soneto de Petraca -- aliás, muitos estudiosos nem sequer aceitam que esse soneto seja da autoria de Camões.
Com Bocage, este sim, de vida dissoluta, poeta medíocre, muito apreciado exactamente por isso, e pelas tiradas declamatórias tão ao gosto romântico, obcecado com o paralelismo entre a sua vida e a de Camões, e Forbela Espanca, autora de sonetos interessantes, têm corpus suficiente para estabelecer regra: o grande poeta, o bom escritor, é ser amaldiçoado pelo seu talento, ostracizado pela sociedade a que se julga superior, com direitos especiais, porque vê o que os outros não vêem, vai onde os outros não ousam ir. Pode ser desonesto, vigarista, caloteiro, pedófilo, bígamo, péssimo pai, autor irrelevante -- tudo se lhe perdoa.
E há os outros autores. Aqueles que que sabem que "o poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente" e por isso mesmo se não confundem com as suas máscaras, heterónimos, personagens. Nem sequer são dos piores, ou dos irrelevantes: D. Dinis, um dos melhores poetas da nossa literatura; Fernão Lopes, mestre da arte da prosa e historiador avant la lettre; Sá de Miranda, imerecidamente esquecido e tão imitado por Camões; Bernardim Ribeiro, génio entre os génios; Gil Vicente, até hoje cometa resplandecente do teatro português; Rodrigues Lobo e as suas belíssimas églogas; o Padre Vieira, mestre dos mestres; Herculano, Camilo até, Cesário Verde, Eça, Raúl Brandão, Fernando Pessoa, Ferreira de Castro, Vergílio Ferreira, Saramago, Mário de Carvalho... E tantos outros, que me desculpem a omissão...
Postos nos pratos da balança, num os "malditos", noutro os que distinguem realidade de ficção e autor de obra -- afinal, aqueles que não confundem o cu com as calças! -- o desequilíbrio é por demais evidente. 
Cada qual tem o direito de viver a sua vida como puder ou quiser; mas que não haja ilusões: a qualidade da obra produzida não depende necessariamente da vida, equilibrada ou dissoluta, do autor. Como salienta O. Wilde, no Retrato de Dorian Gray,
"Os bons artistas existem unicamente naquilo que fazem, pelo que são completamente desinteressantes como pessoas. Um grande poeta, um poeta maior, é uma criatura absolutamente destituída de poesia. Mas os poetas menores são perfeitamente fascinantes. Quanto piores são as suas rimas mais pitorescos parecem. O simples facto de ter publicado um livro de sonetos de segunda categoria torna um homem bastante irresistível. Vive a poesia que não consegue escrever. Os outros vivem a poesia que não se atrevem a realizar."

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