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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Nome profético

A empresa pública criada pelo governo para recuperar calotes chama-se Parvalorem:

Há, portanto, razões de sobejo para dizer Parva-lorem em vez de par-valorem: parva é a figura que fará ao tentar recuperar os calotes; lorem, de lorem ipsum, texto que na linguagem jornalística serve para encher espaços...

domingo, 29 de abril de 2012

Contra a unanimidade

Para limpar os ouvidos da conversa encomiástica do professor Marcelo sobre a "doçura" do povo português, eis  o Cântico Negro, de José Régio, na versão vigorosa de Villaret. 

O comilão

Diz o povo: quem não presta para comer não presta para trabalhar. Não se subentenda, porém, que qualquer comilão é trabalhador aplicado e eficiente. Basta ver o caso do ex-primeiro ministro, cujo nome não menciono  para não conspurcar o blogue:

"Despesas com almoços e jantares chegaram a atingir 12.800 euros só num mês.
"Correio da Manhã" escreve que o gabinete do ex-primeiro ministro José Sócrates gastou durante os seis anos de Governo mais de 460 mil euros em almoços e jantares no País e no estrangeiro. E em três anos sucessivos gastou mesmo mais do que a verba orçamentada: em 2007, 2008 e 2009, a rubrica Representação dos Serviços recebeu uma dotação total de 225 656 euros, mas a despesa total, segundo a Secretaria-Geral da Presidência do Concelho de MInistros, atingiu 260 174 euros, um aumento de 15,3%.
As mais elevadas do gabinete do ex-primeiro ministro com almoços e jantares ocorreram, precisamente, de 2007 a 2009: em cada um desses anos, os encargos anuais com refeições oscilaram entre 80 mil euros e 90 835 euros.
Março, maio, agosto, novembro e dezembro são os meses que concentram despesas mensais mais avultadas com almoços e jantares. Por exemplo, 11 109 euros em dezembro de 2006, 10 742 euros em agosto de 2008 e 12 813 euros em novembro de 2009." (No DN)
Irra, bem nos comeu -- e come, e comerá -- por parvos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Rosas

Deliciadas com a chuva, abençoam o céu que, finalmente, a dá.

Ó vadio!

Muito aprende na escola quem quer aprender. O Afonso, seis anos, diz-me: -- Ó avô, cão vadio é um animal sem dono.
-- É, confirmo.
-- Mas quando o Tex foge, tu gritas: Ó vadio!

O negócio das rescisões amigáveis

Em empresas públicas que me abstenho de nomear é prática corrente proceder a rescisões amigáveis quando o trabalhador se aproxima da idade da reforma: leva a indemnização, fica com o subsídio de desemprego, receberá a reforma quando este último acabar. Tudo é calculado como se de bónus se tratasse. Agora que o governo quer proceder a rescisões amigáveis na Função Pública, receio que, mais uma vez, estas venham a ser negócios apetecíveis para aqueles que sabem viver e têm bons padrinhos: -- Sr. X, está na altura certa para rescindir...
A ver vamos, que não falta gente com olho neste país. E, como sempre, trama-se, em nome da moralidade, aquele que cumpre ou a quem faltam os tais bons padrinhos.

Resgates

Tudo se resgata hoje em dia: a Grécia, pescadores desaparecidos, o cadáver da avó afogada ontem em Matosinhos. Sugiro aos senhores jornalistas, antes de voltarem a resgatar o que quer que seja, que olhem para o dicionário (Porto Editora):

Resgatar 
verbo transitivo
1. obter o resgate de;
2. livrar do cativeiro;
3. libertar de (castigo ou situação de inferioridade); remir;
4. reaver (um penhor); desempenhar;
5. cumprir;
6. expiar;
verbo reflexo
libertar-se; remir-se;
(De resgate+-ar)

Impotência

O governo pode cortar-me o vencimento, o subsídio de férias e o de Natal, pode cortar a quem trabalha o que bem entende para tranquilizar os mercados. O governo não pode tocar nas parcerias público-privadas, nem em nenhum dos outros contratos escandalosos assinados pelo anterior governo, ou assustaria os mercados. É bom que o governo se não esqueça de que os mercados não votam nas nossas eleições e boys e grandes empresas poucos votos têm. Isto de ser prepotente com os mais fracos e subserviente com os poderosos pode sair-lhe caro.
ADENDA: o governo justifica a sua impotência com a blindagem dos contratos.  Até podia aceitar -- se por igual respeitasse a blindagem dos contratos de quem trabalha.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

E o 25 de Abril?

Onde estava eu? A viver na Marinha Grande, na clandestinidade; a trabalhar por turnos como operário de plásticos na Júlio Ferreira e Filhos, em Leiria, pelo que o golpe de estado me apanhou a dormir: tinha despegado às oito da manhã. Não havia então telemóveis, nem internet, eu não tinha televisão nem rádio. A revolução começaria dias depois, perto do 1º de Maio e mudaria este país, tornando-o irreconhecível. Democratizar, descolonizar, desenvolver, tudo isso se fez e só por ignorância ou má fé se pode negar que se vive hoje incomparavelmente melhor do que então. Porém, ninguém me viu, nem verá, de cravo na lapela, o emblema adoptado pelos vira-casacas.

O burro do espanhol

Será que os helvéticos desconhecem a história do burro do espanhol, o tal que morreu precisamente quando já estava desabituado de comer? É o que parece, a fazer fé nesta notícia do Público:
"A justiça suíça confirmou hoje que uma mulher desta nacionalidade morreu em Janeiro de 2011 depois de ter iniciado, semanas antes, um regime conhecido por “dieta do sol”, que requeria que ela parasse de comer e de beber, vivendo apenas dos raios solares."
Imagem: do pintor João Alfaro

Constatação

É triste um homem ter de morrer para se ouvir dizer tanto bem dele.

25 de Abril

O melhor neste dia, para além da chuva, que finalmente caiu, terá sido o discurso de Assunção Esteves, douta presidente da AR. Não tivera eu coração empedernido e teria certamente chorado ao ouvi-la (sic):
"A crise económica que atravessa a Europa é, porém, na verdade,  também..."
Em verdade, em verdade vos digo: não é o acordo ortográfico que está a assassinar a língua portuguesa.

sábado, 21 de abril de 2012

La chanson de Jacky

Même si un jour à Knokke-le-Zoute
Je deviens comme je le redoute
Chanteur pour femmes finissantes
Même si j’leur chante "Mi Corazon"
Avec la voix bandonéante
D’un Argentin de Carcassonne
Même si on m’appelle Antonio
Que je brûle mes derniers feux
En échange de quelques cadeaux
Madame, je fais ce que je peux
Même si j’me saoule à l’hydromel
Pour mieux parler d’virilité
A des mémères décorées
Comme des arbres de Noël
Je sais qu’dans ma soûlographie
Chaque nuit pour des éléphants roses
Je chanterai ma chanson morose
Celle du temps où j’m’appelais Jacky

{Refrain:}
Etre une heure, une heure seulement
Etre une heure, une heure quelquefois
Etre une heure, rien qu’une heure durant
Beau, beau, beau et con à la fois

Même si un jour à Macao
J’deviens gouverneur de tripot
Cerclé de femmes languissantes
Même si lassé d’être chanteur
J’y sois dev’nu maître chanteur
Et qu’ce soit les autres qui chantent
Même si on m’appelle le beau Serge
Que je vende des bateaux d’opium
Du whisky de Clermont-Ferrand
De vrais pédés, de fausses vierges
Que j’aie une banque à chaque doigt
Et un doigt dans chaque pays
Et que chaque pays soit à moi
Je sais quand même que chaque nuit
Tout seul au fond de ma fum’rie
Pour un public de vieux Chinois
Je r’chanterai ma chanson à moi
Celle du temps où j’m’appelais Jacky

{au Refrain}

Même si un jour au Paradis
J’devienne comme j’en serais surpris
Chanteur pour femmes à ailes blanches
Que je leur chante "Alléluia!"
En regrettant le temps d’en bas
Où c’est pas tous les jours dimanche
Même si on m’appelle Dieu le Père
Celui qui est dans l’annuaire
Entre "Dieulefit" et "Dieu vous garde"
Même si je m’laisse pousser la barbe
Même si toujours trop bonne pomme
Je m’crève le cœur et l’pur esprit
A vouloir consoler les hommes
Je sais quand même que chaque nuit
J’entendrai dans mon paradis
Les anges, les Saints et Lucifer
Me chanter la chanson d’naguère
Celle du temps où j’m’appelais Jacky.

{au Refrain}

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Felicidade

Tristezas não pagam dívidas, pensará o João, indiferente ao calote nacional que terá inevitavelmente de pagar. É isto que nos faz falta, um sorriso aberto e a mão levantada, fechada embora, não se perca o pouco que ainda nos resta. E o avô, de ordinário sorumbático, responde com outro sorriso à felicidade do João.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Os meus leitores

Estatísticas do Scribd. Clicar na imagem para ampliar.

domingo, 15 de abril de 2012

A história da semana

É o conto "Jogo de azar", AQUI. "Ao meu pai, mouro de trabalho, padeiro e muitas coisas mais. Com saudade" -- escrevi na dedicatória. 2 pp, rigorosamente verdadeiras, o que não melhora nem piora a história. Catarse, digo eu.

sábado, 14 de abril de 2012

A história da semana

Leitoras que muito prezo  queixam-se da dificuldade em acompanhar a 'publicação' semanal dos textos; e a mim tem-me faltado tempo para rever, retocar os que ainda guardam oportunidade de saírem, não da gaveta, mas da pasta do computador. Assim, após a desta semana, passarei a disponibilizar menos histórias por mês.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A voz do mestre

Muitos procuram desesperadamente um guia espiritual, mestre, guru, salvador,  e nessa busca quase socrática chegam-se ao suposto mestre, colam-se-lhe, bebem-lhe as palavras, imitam-lhe o comportamento, copiam-lhe os tiques, citam-lhe as frases -- até que um dia descobrem desiludidos que seguiam  não a um santo mas apenas a um homem, com as suas fraquezas, os seus vícios, o seu lado insuportável. E novamente depositarão as esperanças noutro, não querendo ver, ou não o conseguindo fazer, que é em si mesmos que devem procurar o seu mestre, esforçar-se arduamente para o polir para o aproximar da quimera que perseguem e, se acaso o conseguirem, ter a coragem de assumir perante eventuais discípulos as fraquezas da sua condição humana, desiludindo-os.
É este o drama que a consciência nos impõe, o de sermos capazes de lucidamente nos aceitarmos como homens, ignorantes e mortais, talhados para o fracasso, lutando embora para o ludibriar. O mais do que isto é a poesia de Fernando Pessoa, em que a voz do mestre sempre soa:
Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter
Felizes, nós? Ali, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez,

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar;
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

C' est trop facile

É demasiado fácil criticar os vícios deste país e das suas gentes, indignar-me com as trapalhadas dos políticos, zurzir na porcaria da televisão. Demasiado fácil e sempre apreciado. Queirosiano, dirá quem gosta do estilo. Eu cansei-me. De ler o tal estilo queirosiano, de escrever batendo no pobre ceguinho que é este país, que somos nós, que sou eu. País que assassina a sua língua à revelia do acordo ortográfico, que fala demasiado alto, que se está cagando para os direitos dos outros, ao sossego. ao silêncio, à privacidade. Que desconhece o significado de discrição e de tudo faz uma peixarada. País que é o meu, país cujos 'intelectuais' encontram fonte de inspiração precisamente  nos nossos vícios, defeitos, fealdade, mau gosto. À semelhança de Eça. Tal como, a fazer fé em reportagem televisiva, Lobo Antunes, que terá feito sucesso nos EUA com crónicas sobre as mulheres portuguesas de bigode. 
"Chama-lhes putas, filha" -- ensinava a mãe. "Chama-lhes putas, antes que te chamem a ti!"
Assim andamos nós. Porque, como canta o grande Brel, é demasiado fácil / é demasiado fácil / fingir:
C'est trop facile,
C'est trop facile,
De faire semblant.



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Abril

Abril é o meu mês, sete o dia, e ambos me contaminaram ao nascer, fazendo-me incerto como Abril, ora de águas mil, ora primaveril, individualista como o sete, número ímpar, primo, que só por si mesmo ou pela unidade se deixa dividir. Como se não bastasse, Carneiro obstinado e persistente, sempre a cair em barrancos, sempre sem emenda. Enfim, eu.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O regresso dos duplos

Há tempos escrevi aqui sobre um dos meus filmes favoritos, A sombra do guerreiro, de A. Kurosawa, que tem como herói um duplo, e analisa de forma fascinante a relação entre a pessoa e a máscara: 

Em Kagemusha, a sombra do guerreiro, um condenado à morte é forçado a tornar-se no sósia de um  senhor feudal com quem apresenta parecenças espantosas. E, quando o senhor morre, para evitar o caos, o duplo assume a identidade dele com tal perfeição que, para assombro dos poucos que sabem do ardil, pensa, fala, age como o senhor, impressionando-os ao ponto de o julgarem possuído pelo espírito do defunto.
De forma genial, Kurosawa mostra-nos um homem a perder a sua identidade e a assumir a de outro, a transformar-se paulatinamente nele, para, desmascarado, acabar expulso do castelo sob o olhar triste do "neto".
Ora leio no DN que  Madonna está a treinar cinco mulheres  para se fazerem passar por Madonna, que é, ela mesma, uma máscara. Não se poderá dar o caso de, às tantas, ser difícil distinguir a máscara original das clonadas, ou, até, de uma delas superar o original?

domingo, 1 de abril de 2012

A história desta semana

As bruxas já roubam clientes aos psicólogos. O fenómeno parece estender-se à classe média, instruída mas desencantada, amargurada, a necessitar de acreditar em algo, em ter a esperança, ténue que seja, de que a sua vida profissional, ou pessoal, ou familiar, vai melhorar em breve. Ora, como tempos atrás escrevi uma historieta em que uma mulher desesperada recorria à bruxa para que a livrasse do marido, lembrei-me de aproveitar o ressurgir da moda das bruxas e publicá-la AQUI. 6 pp.