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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Quem sabe e quem pode

Aproveita o lindo dia de Sol. Resguardado do vento, almofada, nada lhe falta. Como Walt Whitman, também eu invejo os animais:

“I think I could turn and live with the animals, they are so placid and self contained;
I stand and look at them long and long.
They do not sweat and whine about their condition;
They do not lie awake in the dark and weep for their sins; 
They do not make me sick discussing their duty to God; 
Not one is dissatisfied-not one is demented with the mania of owning things; 
Not one kneels to another, nor his kind that lived thousands of years ago;
Not one is responsible or industrious over the whole earth.”

Gheke Pepe: explicação do título

O título de um romance é sempre uma escolha difícil e arriscada. É a primeira possibilidade de perder leitores. Eu deixo-me levar pelo instinto, o que, por vezes, implica longa e laboriosa procura.
Por exemplo, Do Lacrau e da sua Picada vai buscar o título ao capítulo final, em que surge curandeiro que promete curar o cancro com a picada do escorpião, o que suscita no narrador uma  analogia entre a verdade daquele homem, honesto mas ignorante, e a verdade da sua mocidade maoista. 
Entre Cós e Alpedriz teve vários títulos provisórios: A Joaquina, De Um Verão Até ao Outro... O título final decorre do anexim repetido na obra: "Entre Cós e Alpedriz, qualquer burro é juiz!" 
Um Amor Inventado  -- porque o escrevi motivado por poema que marcou a minha juventude:  A Invenção do Amor, de Daniel Filipe.
Gheke Pepe: o título surgiu-me num sonho, após noite em que tinha estado a ler Borges. Por superstição, guardei-o. Eis como ocorre ficcionado na obra:

Ouviam-se desvairadas linguagens de estranhos povos a que chamamos ingleses, sendo embora muitos deles galeses, bretões, escoceses — em comum, a destreza no manejo do arco e do punhal e o amor à guerra e às matanças. E nesta Babel até me parecia já familiar o falajar moçárabe dos numerosos alentejanos e algarvios que engrossavam a nossa hoste. Havia de tudo: fidalgos e vilãos, patriotas, matadores, ladrões. D. Nuno, para disciplinar a hoste, havia proibido mulheres e jogo no arraial, embora os ingleses tivessem as suas próprias práticas no recato de suas tendas, de onde, por vezes, jorrou sangue: como me dissera tempos atrás meu primo, matavam a homem com uma frieza desconcertante, sem uma palavra ameaçadora, sem um gesto de aviso, sequer sem um olhar, menos ainda com breve oração pela alma que despachavam sem confissão para Satanás, e continuavam o jogo ou a bebida como se nada de anormal ali se passara. Bebiam continuamente da sua cerveja, horrível bebida acre, de uma aguardente fortíssima a que chamam uísque, do nosso vinho e bagaço…
Na noite anterior, certamente devido à mistura de tão desvairados linguajares, ao variegado de estandartes e ao abuso da bebida, tive sonho assaz estranho: nele, o meu escudeiro erguia alto o pendão da minha hoste, um leão garboso com os dizeres Gheke Pepe. Não se me afiguravam palavras de nenhuma das linguagens do nosso exército, pelo que lhe perguntei o que significavam. E ele, rindo, respondeu-me:
 — Bebiam mais do que falavam.
 — Improvável, retorqui.
Tão forte fora a impressão causada pelo sonho que logo de madrugada acordei o meu valido e o incumbi de nos fazer tal pendão, cosendo no pano o leão do brasão que capturei nos Atoleiros, tendo depois conseguido a troco de meia canada de aguardente que um galês pintasse nele a vermelho em lindas letras góticas a estranha inscrição, que por algum motivo lhe deve ter parecido familiar. Por gestos, quis saber o que significava.
 — Bebiam mais do que falavam, expliquei-lhe no meu inglês macarrónico, acompanhado por gestos elucidativos.
Riu perdidamente ao ponto lhe faltar o fôlego e, quando o recobrou, só me repetia, apontando para mim primeiro, para ele depois: — You no, us, us! Portuguese falar so much!
Quando o meu escudeiro alevantou a lança em cuja ponta drapejava o pendão, logo a curiosidade atraiu os moços, cavaleiros e peonagem da nossa Ala do Namorados, e o próprio Rei, intrigado, se me dirigiu, fazendo-me corar como donzela ao tratar-me por dom:
 — D. Rodrigo Semedo, que dizeres bizarros são esses que haveis escritos no vosso estandarte?
Risonho, D. João aprovou. Agradava-lhe a ousadia de hastear pendão, a bizarria dos dizeres, antecipando o mundo novo que ali começaríamos, livres das peias da vassalagem aos grandes senhores de outrora.
Cavaleiros moços, invejosos da atenção que o Rei me dera e do sucesso do meu estandarte, apoucavam-me: que só fizera um novo por não o haver velho e nele faltavam símbolos de Nosso Senhor e de Sua mãe…
— O meu linhagem remonta pelo menos ao tempo da senhora rainha dona Tareja e meu avô Rodrigues pelejou no Salado e lá foi armado cavaleiro pelo próprio rei de Portugal, que então o alcunhou de Sem Medo. E o meu outro avô, Lançarote Pessanho, meu parente por via materna, foi almirante do senhor D. Pedro. Qual de vós se me iguala? E a Jesus e à Virgem, havemo-los no estandarte do Condestável e no do Rei, que a todos os demais se sobrepõem e que nós haveremos de defender do inimigo com as nossas forças e vidas.
A eles, quase todos filhos de infanções, calou-os a réplica, mas a inveja persistia: D. João tratara-me por dom e em público, a mim que sendo embora fidalgo de quatro gerações a tal título nem eu nem ninguém de meu linhagem ganhara até então direito, nem sequer meu avô Semedo no Salado, nem o meu avô Pessanho, quando almirante e nas boas graças de el-rei — e o pendão era lindo, atraía as atenções de todo o arraial:
 — É convosco que os Castelãos primeiro virão brigar, vendo que vos haveis apropriado de estandarte leonês, ou intrigados pela vossa algaraviada. E porfiavam: os dizeres deviam falar de S. Jorge e de Portugal, não de bêbados.
Meu primo, alferes da nossa ala, chegado também ele a admirar o estandarte, exortou-os: — Leixá-los vir, não é o que todos nós queremos, que o inimigo primeiro que a qualquer outro nos acometa? Enchei os vossos corações de brio e de orgulho, leixai de parte a inveja de D. Rodrigo Semedo, que guerreou bravamente nos Atoleiros, onde o próprio Condestável o armou cavaleiro sobre o sangue de fero inimigo que ali derribara, ajudou na conquista do Alentejo, defendeu com el-rei Lisboa, sempre leal e valente. Quereis também vós alçar pendões? Pois ganhai hoje esse direito, que aqueles de vós que cavaleiros já sois aqui honrareis vosso título e linhagem e aqueles que ainda o não são neste campo de Aljubarrota virão a ser armados por seus feitos e proezas. Se inveja deve haver, que seja da ferocidade, da valentia, do sangue inimigo derramado. E levantando a espada faiscante exortou-nos:
— Irmãos, é hoje o nosso dia. Triunfar ou perecer!, bradou.
E toda a Ala dos Namorados gritava altas vozes com ele: Triunfar ou perecer! — sob a mofa dos ingleses, duvidosos do valor daqueles moços imberbes, nunca antes provado em batalha feroz como a que se avizinhava. Pobres inocentes, que imaginavam a guerra a partir das novelas de cavalaria, torneios honestos e elegantes, cavaleiro contra cavaleiro, quase amigos que apenas se digladiavam por amor de suas damas. Tinham-me perguntado qual a minha. Não percebi. E eles, como se conhecedores fossem da guerra e de suas leis, quase com sobranceria: — Qual o nome da dama pela qual vos bateis? Que todo o cavaleiro deve ter uma a quem honrar com seus feitos.




quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Cantiga de amigo

A acção do meu romance mais recente, Gheke Pepe, decorre sobretudo no período da crise política que vai de 1383, data do assassínio do Conde Andeiro, a finais de 1385, após a batalha de Aljubarrota, e termina pouco depois da conquista de Ceuta, em 1425.
Não foi minha intenção escrever um romance histórico, pelo menos como o género é hoje entendido. Pretendi, isso sim, escrever uma história passada numa época que me fascina, homenageando obras que muito admiro, como a picaresca Lazarilho de Tormes, o D. Quixote, a Menina e Moça, o Décameron. E, acima de tudo, quis homenagear um dos meus mestres na arte da escrita, cuja obra foi a principal fonte para a construção do pano de fundo histórico: Fernão Lopes, também personagem desta narrativa.
Apaixonado pela lírica trovadoresca, estudada com outro mestre, o Professor Lindley Cintra, e por mim ensinada durante décadas, até ter sido banida dos programas do Ensino Secundário, não resisti à criação de um trovador serôdio, mesmo sabendo que o último dos trovadores foi D. Pedro, Conde de Barcelos, falecido em 1354. Surge, assim, o fidalgo boémio Álvaro Domingues, a esbanjar talento por tabernas e putarias, como eram então designadas as "safe house" que António Costa se propõe construir em Lisboa. Álvaro Domingues é autor de cantigas de escarnho e maldizer, epigramas e baladas, e desta cantiga de amigo, paralelística com quatro dísticos monórrimos e refrão, leixa-pren, alternando a rima em /i/ com a rima em /a/. De notar o valor conotativo de "brial", hímen por extensão semântica, o oxímoro presente em "dona virgo", a evolução do estado de espírito da donzela, que passa da euforia inicial, apaixonada e a começar o enxoval de noiva, ao desespero patente nos dísticos finais, o que confere diferentes valores semânticos ao refrão. 
Amar amado amar amigo
O brial começado o brial tecido
Ai meu amigo ai meu amado

Amar amigo amar amado
O brial tecido o brial começado
Ai meu amigo ai meu amado

O brial começado o brial tecido
Chor’eu dona virgo o brial rompido
Ai meu amigo ai meu amado

O brial tecido o brial começado
Chor’eu dona virgo o brial rasgado
Ai meu amigo ai meu amado

IMAGEM: extraída de Oliveira Marques (2010), A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, Esfera dos Livros.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Velho Défice, Empréstimo, o Rapaz, e o Burro Pibe *

Com a despensa vazia, o Velho Défice resolveu ir aos Mercados. Albardou o Pibe, levou consigo o neto Empréstimo para aprender a comerciar. Contentes todos como a madrugada que se abria em luz, cantorias e promessas, por razões diferentes embora: Grandes negócios vamos fazer, e o Velho esfregava as mãos de contente. E o Neto Empréstimo, mais interessado no passeio, caras novas, a antecipar barracas de feira repletas de brinquedos, carrosséis e carrinhos de choque, finge interesse nos negócios: como nos receberão nos Mercados?
Não vês tu este dia radioso, que nos augura negócio vantajoso?
Antes nada dissesse: logo o céu enegrece, vem o vento agreste, esfria o ar matinal, desaba forte temporal. Mau prenúncio.
E uma turista para outra, vinda dessas alemanhas, a pedalar rijo na bicicleta para não ganhar banhas: Coisa estranha esta é! O malandro do Velho folgado a cavalo, o pobre Moço a pé!
Acabrunhado, diz o Velho para o petiz apeado: Troquemos, monta tu o Pibe a cavalo antes que alguma alemoa nos pregue um estalo.
E um loiro, finlandês talvez: Coisa nunca antes vista, a cavalo o rapaz, a pé o pobre velho já incapaz.
Montemos então os dois o Pibe, a ver se essas agências não ralham mais, diz o Velho Défice. Que dirão de nós nos Mercados?, demanda ao Neto, sobrolho carregado.
Que fazeis, desalmados? Ah, não aparecer a Protecção dos Animais! Não vedes que assim o pobre Pibe esmagais?
Apeemo-nos, vamos à pata, que o Pibe siga seu caminho aliviado, até lhe solto a arreata.
Logo, logo, coro de protestos indignados: Coisa jamais vista, Défice e Empréstimo apeados para o Pibe se sentir aliviado!
E o Velho, sempre atento às vozes do Mundo: Levemos então nós o Pibe às costas.
Gargalhadas trocistas de uns deputados socialistas: O Velho Défice agora é avarento e carrega às costas o Jumento! E as moças do Bloco, para lhes não ficar atrás: Uma criança ajoujada sob o peso da montada! Para que quereis tal asno, a que Pibe chamais, se nele não montais, antes às costas o carregais como se fôsseis vós os animais?
E o Velho Défice, sem outras ideias, pergunta-me, como se a sábio se dirigisse: Diz-me tu, ó Zé, que muito estudaste, Que farei com esta montada, Pibe chamada, como contentarei as agências e calarei as vozes do Mundo, que faça o que fizer, me criticam a cada segundo?
E eu opino também: Devias saber, ó Velho, que quem quer ganhar eleições põe-nos o burro sobre o costado. Depois, é bem sabido, é sempre o povo o sacrificado.

*Reposição. A propósito do regresso aos mercados, hoje.

Nobre povo (II)


(Em jeito de resposta a Um jeito manso, a propósito do post anterior)
Suportam as sequelas do temporal sem confortos que consideramos indispensáveis como banho, telefone, telemóvel, televisão, internet, aquecimento, café...
Reparam os estragos, recuperam o que podem à força de trabalho, reinventam velhas técnicas de sobrevivência, improvisam, desenrascam-se, divertem-se a contar histórias, reacendem os candeeiros de petróleo, deitam-se cedo, esperam que o amanhã seja melhor.
Com a confiança de quem sabe que, na mesma aldeia, muitas vezes nas mesmas casas, mas com muito menos, os avós sobreviviam, criavam os filhos, resistiam o melhor que podiam às doenças, aceitavam a inevitabilidade da velhice e da morte. Entrementes, eram ou não felizes, conforme as agruras da vida e o feitio de cada um.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Nobre povo

Ontem estive na minha aldeia. 
Há três dias sem electricidade, sem água. 
Despejo para o lixo o conteúdo do congelador do frigorífico. 
Uma vizinha está a cozinhar tudo o que tem na arca frigorífica  para evitar que se estrague.  Lamenta, não o prejuízo próprio, mas que o mau tempo tenha arruinado a festa de São Vicente, um dos padroeiros da terra, e, sobretudo, o trabalho perdido das festeiras. 
Uma prima conta-me a rir que se lava com a água da chuva. 
Árvores arrancadas, telhas levantadas, vidas transtornadas. Não ouço protestos, não presencio conversas azedas. 
Não é conformismo, é a arte ancestral da sobrevivência que persiste nesta aldeia, talvez em todas as aldeias devastadas pelo temporal. 
Pouco antes de regressar, volta a electricidade. Mas não, ainda, a água.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Divagações em dia de invernia

Esquecemos-nos do que era Inverno e Verão, por isso precisamos dos alertas coloridos da Meteorologia para saber se nos devemos resguardar, ou aquecer, ou refrescar. Convencemo-nos de que nós mandávamos e a Natureza obedecia. Elegemos por responsáveis pelos nossos percalços os governantes, pelo que, quaisquer que sejam as  asneiras que façamos, haverá sempre alguém para nos salvar, no mar, nos rios, nas montanhas, na neve. Se por culpa das autoridades, que não nos alertaram adequada e atempadamente para o risco de desabamento de falésia, ou de mar violento, ou de avalanche, alguém morrer,  todas as diligencias serão feitas, sem olhar a despesas, para recuperar, resgatar, como agora se diz, o corpo. 
Aí de quem se atrever a recordar fábulas com cigarras e formigas. Aí de quem defender que o infortúnio advém sempre da nossa incúria, do nosso desleixo. 
Aí de quem disser que somos responsáveis por aquilo que nos sucede.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Leitores no Scribd

No passado, coloquei uns contos no Scribd. Hoje voltei a passar por lá a ver como estava de leituras. 2311, o que não coincide com a estatística abaixo apresentada. Mais importante, A Sereia, talvez o meu melhor conto, figura em 5º lugar. E, outra surpresa, tenho quase tantos leitores no Brasil como em Portugal.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Fodudo no cu *

Acordei estremunhado com gritaria que alvoroçava toda a Travessa do Mata-Porcos, mas antes que assomasse à janela a apurar o motivo da algazarra, entra-me quarto adentro a dona da moradia acompanhada de brava regateira que arrasta consigo pela orelha moço. Olham em volta e não encontrando meu primo, viram-se furiosas para mim, atravessam-se-me à frente, impedindo-me de deitar a mão à espada pendurada em prego na parede ao lado da cama, a regateira empurra-me contra o tabique, deita-me as manápulas à camisa de dormir: onde estava esse canalha, meu primo, que lhe sodomizara o filho?
Olho-a aparvalhado, de nada sabia. Quando tal sucedera?
Não importava, berrava. Não viera a discutir calendários, mas a exigir reparação. Ou acusava-o na justiça e, quanto mais não fosse pela má fama que tinha, não se livraria de ser dependurado como tordo na boiz. Onde estava?
A gritaria atraía mais e mais gente, primeiro mulheres das vielas e da vida, logo seguidas por rapazes vadios que jogavam à bilharda na rua, homens desocupados que por ali arrastam os dias, toda a gente revoltada contra os fidalgos pervertidos que, lá por serem ricos e poderosos, se arrogam o direito de abusar das pobres crianças indefesas, e tantos e tantas entraram porta adentro que o pequeno quarto depressa ficou completamente atravancado, eu espalmado contra a parede, sofrendo safanões, piparotes, injúrias, como se fora o acusado. Tentava protestar a minha inocência, a ignorância do sucedido, mas ninguém queria ouvir as minhas razões: — Cala-te que és igual a ele. Família, farinha do mesmo saco.
A indignação popular crescia: — Ah, isto agora mudou de figura, acabou-se o tempo do “quero, posso e mando”, doravante outro galo cantará, que já não têm quem lhes acuda por parte da aleivosa da rainha!
— Hão-de pagar, senhora comadre, por aquilo que fizeram, por aquilo que nos têm feito, por aquilo que nos fariam se os deixássemos! Este já não escapa e o outro, quando lhe deitarmos a mão…
E das escadas, sem conseguir entrar, o taberneiro judeu grita que comêramos e bebêramos do seu sem pagar. Para não ficar atrás, berra a minha senhoria que lhe devíamos o aluguer do quarto. E a criada gorducha das redondezas acusa-me de dela haver abusado – fora ela a convidar-me, seduzida, ao que então me dissera, pela minha juventude e beleza, naquele tempo em que eu, receando ser sodomita, trabalhava para esclarecer as dúvidas e fatigar o que supunha ser a causa do pecado. E, acrescentava altas vozes, com ela fizera porcarias que são contra a nossa santa religião – coisas que ela me ensinara, no seu gozo da minha virgindade, dessas a que as mulheres recorrem quando querem contentar os homens e receiam emprenhar, pelo que se não admirava que também houvesse penetrado o pobre rapazinho no cu, pois a ela o mesmo fizera, isto depois de a desvirginar — e ninguém ria! 
Encostado à parede, via-me já como o pobre Bispo, como o tabelião e o prior de Guimarães que com ele jantavam, mortos sem por quê, lançados da torre da Sé afundo, desnudados, mutilados, a apodrecer em plena rua devorados pelos cães, roídos pelas ratazanas, infestados pelas larvas das varejas, sequer sem enterro cristão. E tomado pela cobardia que, por vezes, acomete até os mais valentes, gritei: – Mas é a meu primo, o senhor fidalgo Álvaro Domingues, que esta senhora acusa. E ele não está. Eu nada tenho a ver com isto, nunca vi o moço mais gordo!
O ruído enfraqueceu. E eu continuei: — Esta mulher acusa a meu primo, não a mim. E não diz quando ocorreram os acontecimentos...
E ela: – Quando? Ora toda a gente sabe. De há meses para cá. Ainda ontem...
Interrompi-a triunfante: – Mentes, má puta velha! Há mais de uma semana que meu primo saiu de Lisboa, a juntar-se à hoste de D. Nuno Álvares Pereira, acrescentei, na esperança de que o patriotismo e a adoração por D. Nuno sossegassem a populaça.
Mas a velha era osso duro de roer: – Teu primo e tu são unha com carne. Ambos pervertidos e invertidos. Basta ver que dormem juntos, na mesma cama, dizia e apontava com gesto largo o estreito leito que partilhávamos. E virando-se para o filho, rapazote dos seus quinze, dezasseis anos, a penugem do bigode a despontar: – Este também foi? E perante o olhar duro da mãe, o moço aquiesceu com meneio de cabeça. E a velha, triunfante: – Diz alto o que te fizeram estes malandros.
— Tenho vergonha…
— Ou contas ou arrebento contigo antes de arrebentar com o fidalgote!
 — Tomaram-me à força, numa esquina do Poço do Chão, e fui por eles fodudo no cu...
 — Por qual deles?
Pois não o sabia. O olho de trás é furado, acrescentou com esgar malandrino. Talvez até por ambos… 
A fúria da multidão recrudescia. Pouco lhes importava que fosse inocente ou culpado. Afinal todos somos pecadores, assim reza a nossa santa religião, os maiores de todos são os poderosos, a mim não faltariam portanto pecados nem acusadores — se não foi teu primo foste tu, matam-se primeiro, o Senhor apurará depois a inocência ou a culpa e proferirá sentença em conformidade. E uma jurava altas vozes por tudo o que há de mais sagrado que sim, eu era sodomita, vira-me embrulhado com um rapaz, demais a mais judeu, aos beijos na boca e com lambuzadelas como os cães, em tal pouca-vergonha que nos enxotara dali para fora, e cresciam de novo para mim, arrepanhavam-me a camisa, empurraram-me para fora do quarto, lançaram-me escadas abaixo sob socos e pontapés, arrastaram-me pelos pés para o meio da rua enquanto troçavam cruelmente das minhas misérias que a camisa de dormir enrolada ao pescoço não lograva esconder, cuspiam, escarravam, atiravam terra e pedradas à pobre tripazinha que culpavam de haver penetrado rapazinhos, quando a velha, receando que pusessem cobro a meus breves dias com crueldades terríveis antes de haver em mãos o provento do ardil, se interpôs entre mim e a turba: – Pagas já em dinheiro pela desonra e maldades que fizeste a meu filho, ou preferes pagar com o corpo?
E ouvi na multidão a homem que se mantém de mulheres, certamente indignado por algumas delas me haverem ofertado seus serviços: – Paga primeiro em dinheiro, depois com o corpo
 — Pagas ou não?, berrava a regateira, enquanto me sacudia violentamente pelas abas da camisa de dormir.
— Eu também quero o meu dinheiro da vitelinha e das sardinhas comidas e jamais pagadas!
— E eu, os meus alugueres atrasados! 
— E eu, esganiçava-se a criada gorducha sem que nenhum a não desmentisse, exijo reparação por me haver desonrado!
E todos em uníssono:
— Primeiro a mim, que para isso cá vim e me fodeu o rapaz no cu!
— Não, a mim, que me papou as sardinhas e a vitelinha e me mamou o bom vinho!
— A mim, que fui por ele desvirginada!
E eu, apavorado, que em situações como aquela qualquer valente se acobarda, nem ousei continuar a protestar inocência: — Pago.
Prontamente todas as mãos se estenderam. 
 — Comigo não tenho..., mostrando com gesto a nudez, que a camisa de dormir enrolada ao pescoço não ocultava.
 — Vamos então buscar a contia ao quarto de Vossa Senhoria. 
Sempre debaixo de repelões, safanões, estaladas, que todos queriam molhar a sopa e fazer justiça por suas mãos além de receber as contias cujas suas diziam ser, empurravam-me para dentro de casa, depois escadas acima até ao cubículo onde dormia. Nem tentei protestar que lá também nada tinha. Antes, num daqueles relances de ousadia em que a juventude é fértil, sacudi as mãos que me empurravam, entrei lampeiro como se tivesse o colchão forrado a dinheiro, de um pulo alcancei a espada, feri aos mais próximos sem gravidade, apenas cortes que os fizeram recuar de surpresa e de dor, e antes que me acometessem enraivecidos pelo logro e pela reacção, saltei pela janela para os telhados e corri, corri desalmadamente sempre perseguido por rapazolas, entre os dianteiros o que me acusara de o haver fodudo no cu, enquanto em baixo, pelas ruas e vielas me perseguiam os homens, mais atrás corriam as mulheres ululando por vingança, sangue, castigo cruel para pederastas e sodomitas. E eu, com asas nos pés, pulava sobre casas, saltava de ruela em ruela, telhas partiam-se à minha passagem, uma vez ou outra quase cai dentro dos sótãos, até que, junto à Sé, avistando a prelado a subir indolente a rua, saltei para a rua, tomei-lhe as rédeas, apeei-o da montada sob a ameaça da espada e, enquanto o diabo esfrega um olho, piquei a mula rua abaixo, finalmente a salvo dos meus perseguidores, apenas vestido com a camisa de dormir esvoaçante que nem sempre ocultava as partes pudendas, tão magoadas pela crueldade justiceira da populaça. Por onde passava, atraía a atenção e a mofa, uns a chamarem outros: — Mestre, venha cá fora ver isto! 
E gritavam-me, com a falta de respeito a que, melhor ou pior, me ia habituando: 
— Fidalgo, foges de marido sanhudo? 
— Ná, é de puta a quem ficou a dever.
— Taberneiro. Taberneiro, que o fidalgo é ruim caloteiro.
Gheke Pepe
* Título pilhado a Fernão Lopes. Na época arcaica, verbos terminados em -er tinham o particípio passado em -udo (eg., saber, sabudo).

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

As judias


Fui então os olhos e os ouvidos do Mestre na Judiaria. Não era tanto o que os judeus me diziam que interessava: também o Mestre os ouvia amiúde. Eram os pormenores que pudessem alertar para partida iminente. Mas na Judiaria a vida decorria como fora dela, na cidade cercada: privações, fome, pedidos de esmola, mancebas que me chamavam das janelas e se me ofereciam a troco de comida ou de dinheiro, sempre a medo de serem descobertas e castigadas por se deitarem com cristão — mas a fome, delas e sobretudo de seus filhos, sobrepunha-se ao medo da punição. Também em casa de D. David, tão rico ao que se dizia, a parcimónia imperava: havia o caldo aguado em que desfazíamos o pão ázimo, já de si duro, hortelã, salsa, poejos, orégãos e outras ervas a boiarem em vez das couves que há muito haviam acabado, por vezes, raramente, pequena tira de carneiro salgado ou carapau enjoado a dar o tempero. Comecei a trazer às escondidas nacos de borrego, de cabrito, mais raramente de vaca, e entregava-os à criada para que a minha amada, tão debilitada pela doença que a minha ausência lhe causara, ganhasse melhor cor e fosse perdendo a magreza que dela tomara conta; mas Esther dava-os à irmã, criança em quem receávamos descortinar sinais de tísica, na sua magreza, na palidez, na vivacidade e na lucidez surpreendentes na sua tenra idade — e nas visões. A princípio, não me quisera delas falar nem consentia que Esther o fizesse. Mas tão ligadas eram aquelas irmãs que até o amor por mim pareciam partilhar e tão faladoras que as incomodavam os silêncios que por vezes tombavam sobre a sala onde namorávamos, sempre separados pela mesa. Depressa esgotava eu as novidades, pois não me alongava na descrição dos padecimentos da cidade dada a nojo dentro e fora da judiaria, nem contava os meus feitos nas escaramuças, que não fica bem a gentil-homem gabar-se — e quase sempre pouco haveria para relatar: rápidas surtidas, choque brutal com os inimigos, fortes golpes de facha que amassavam os corpos por debaixo dos bacinetes e vestidos de malha, derrubes de lança mais aparatosos e humilhantes do que perigosos, por vezes alguns feridos em sofrimento atroz, mais raramente mortos de parte a parte. O resto eram conversas de homens, sempre vulgares, em linguagem de caserna, impróprias para donzelas cultas e delicadas como eram aquelas judias. Então, talvez por precisar de desabafar, talvez para que eu partilhasse as atribulações da sua família e da sua raça, no presente e no porvir, Esther falou dos pesadelos da irmã e vendo que os não apoucava nem ridicularizava, a própria Sara ganhou confiança e ousou contá-los, creio eu que em vã tentativa de deles se libertar: em eras por vir, os judeus padeceriam horrivelmente, vivendo a medo, a medo falando, a medo calando, as crianças roubadas aos pais e baptizadas à força cristãs por entre choros horríveis, levadas para longes terras para serem criadas por famílias cristãs, condenadas a jamais reverem pai e mãe, se acaso vivos ainda fossem; homens eram desmembrados por padres para que confessassem pecados e crimes que não haviam cometido e, ou morriam das sevícias, ou, confessando, seriam queimados juntamente com as mulheres e os filhos enquanto os cristãos os insultavam e escarneciam dos seus padecimentos…
— Vês tudo isso nos teus sonhos?
Negou, abanando a cabeça. Era muito pior. Não via, vivia. Nos seus pesadelos, ela era o homem torturado, a criança roubada à mãe e para mui longe levada, era o seu corpo que ardia nas fogueiras sob insultos e escarros dos cristãos…
— Tudo isso são sonhos. Deves esquecê-los quando acordas, fazem-te mal porque sofres com eles como se verdadeiros foram.
— E são, fidalgo. Deveis ter já reparado que nos sonhos não sentimos os odores, não vemos as cores, pelo menos como quando em vigília. Ah, se soubésseis como são aflitivos os gritos das crianças que ardem, como é horrível o cheiro da carne humana queimada, como fedem as masmorras em que sou encarcerada! Mas, sabei, virão outras eras muito piores, em que nós, judeus, somos arrebanhados como gado, metidos à força em estreitas carruagens mais compridas do que a nossa Lisboa, homens, velhos, mulheres, crianças, tantos de cada vez que não dá para contar, para sermos mortos aos milhares em salas de ar envenenado, os cabelos rapados para urdirem com eles meias, a pouca gordura dos nossos corpos famintos aproveitada como se da de animais se tratasse. 
— Impossível, retruquei. Em tempo algum tal acontecerá, pelo menos na nossa Europa, tão civilizada, toda ela cristã. Torturar, matar, acredito. Agora calçar peúgas feitas de cabelo de mortos ou usar a sua gordura, jamais tal sucederá no mundo cristão.
— Nem todos são cristãos. Mas naquela era, até os que o são, mais do que a Deus adoram a um homenzinho ridículo, cara rapada e bigodinho tão insignificante como ele. Quem o vê, não imagina a sua ruindade: é pior do que o próprio Satanás. Já lestes o Apocalipse?
— Não. Não sei muito Latim. Mas já ouvi dizer que o apóstolo João viu o fim do Mundo.
— Assim é. Então dizei-me: se ele o viu, não o posso também eu ver? 
Protestei contra a blasfémia: os profetas acabaram com a vinda de Cristo ao Mundo. Acabaram os profetas, começaram os santos. Porque deixou de ser necessário preparar a vinda do Messias — e, adivinhando o sorriso escarninho de Sara, lembrei-me de que para os judeus Jesus é, apenas, outro profeta, mas não ainda o Salvador que os reconduzirá ao prometido reino do leite e do mel. Pois continuam a penar e a padecer, dispersos por este mundo que tanto os persegue e atormenta por os seus antepassados matarem o Filho do Homem…
Atalhou-me Esther: — Não discutamos as nossas religiões, que há catorze séculos se não entendem, como mãe e filha desavindas. E — olhou reprovadora para a irmã — deixemo-nos de conversas fúnebres, de pesadelos aterradores. Que pensará de nós o meu namorado? Sorriu-me: — Pois nem parece que estamos a namorar.
— Bem guardados por mim. E digo-vos, mesmo sabendo que sou causadora de vossa tristeza, este vosso namoro é um dos meus raros prazeres. Ao ver-vos tão apaixonados, ao ver como me fingis ouvir enquanto os vossos olhos se procuram e encontram, esqueço por momentos o meu pesar e o meu triste destino.

Eu tentava tranquilizar a pobre pequena: tudo isso eram pesadelos, o futuro a Deus pertence e só Ele o conhece, o Homem jamais será tão ruim que faça tais atrocidades a crianças, a mulheres, a velhos indefesos. É certo que na guerra fazemos coisas horríveis, mas contra inimigos tão valentes como nós, que igual ou pior nos fariam se pudessem; mas nela ou na paz é dever do cavaleiro proteger as damas e as donzelas, sejam elas cristãs ou judias. E para as distrair narrei a triste história do moço que tempos atrás perdera a mão direita. Meio verdadeira, meio inventada, bem alongada como pertence.
Gheke Pepe (inédito)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Ebook: Entre Cós e Alpedriz

O meu romance Entre Cós e Alpedriz, que publiquei em edição de autor em 2008 esgotando cinco pequenas tiragens, foi reeditado em formato ebook pela Escrytos (Leya), encontrando-se à venda em todas as lojas online parceiras da Escrytos (Almedina, Amazon, App Leya na App Store, Barnes & Noble, Bookwire, Fnac.pt, Gato Sabido, Google, IBA, iBook Store, Kobo, LeyaOnline, Livraria Cultura, Mundo Positivo, Mybooks, Numilog, Reader's Hub da Samsung, Submarino, Wook).

Trata-se de uma narrativa rural, situada numa aldeia -- a minha -- mas não se restringe ao folclore, ao pitoresco, ao passado: anima-a o drama da condição humana, que ora brilha nos olhos da criança que deslumbrada  vê pela primeira vez o mar, ora empalidece e definha no rosto do homem acamado por trombose.
Governa-a o vento da memória, que reúne vidas e histórias dispersas na eira do Tempo, acompanhando a protagonista, Joaquina Guiomar, pelas vicissitudes do Portugal do século XX desde a "manhã longínqua daquele Outubro chuvoso em que o campino abusou dela" até aos nossos dias.

Sobre Entre Cós e Alpedriz, Rentes de Carvalho teve a amabilidade de me enviar a seguinte mensagem:
Caro colega,
Em quatro noites seguidas fiz a leitura de “Entre Cós e Alpedriz”. Sinceramente lhe posso dizer que o primeiro parágrafo me entusiasmou de tal modo que com grande interesse continuei a ler. A sobriedade da cena de violação e, sobretudo, o sugerir em vez de mostrar ou detalhar, são prova de quem sabe o que encerra o mister escrita.
Essas excelentes qualidades notam-se em várias cenas, e notavelmente no final, quando Joaquina revê o seu passado.
 Assim, pois, lhe dou aqui merecidos parabéns. “Entre Cós e Alpedriz”  não é um livro perfeito -- não há livros perfeitos -- é, sim, um carinhoso, solidário e muito sentido testemunho.
Foi para mim um prazer lê-lo, e grato lhe fico por se ter lembrado de mo oferecer.
Cordialmente,
JRC
Os interessados podem descarregar amostra gratuita numa das lojas online acima referidas.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Povo emigrante

A couchette do Sud Express desperta alvoroçada com o alegre chilrear das passageiras, pressentindo-se na nossa terra.
-- Minha senhora, deixe-me dormir! -- rabujo sonolento.
E elas: -- Ó senhor, a gente levantamos-se cedo!
A noite dorme ainda nos vales da serra, pelas janelas embaciadas vislumbram-se pinheiros fugidios, correm velozes penedias fantasmagóricas, tudo vago, indistinto, difuso da morrinha que tomba incessantemente. No corredor, o revisor tenta convencer passageiro grudado na porta do comboio a voltar para o aconchego da couchette: -- Saia desse frio, ainda falta muito para chegarmos!
E ele, com maravilhosa pronúncia de beirão, floreada de esses ápico-alveolares: -- Num xaio daqui, que quero xer o primeiro a buer um bagaxinho na estaxão da Guarda!
Gente de trabalho, trazida pelo "amor da pátria, não movido / De prémio vil, mas alto e quási eterno". Jovem taxista na banlieue, que acumulou avaramente horas extra para acrescentar dois dias ao fim-de-semana. Proprietário de duas petites surfaces, coisa de mil metros carrés cada, a dimensão ideal, afirma, para o petit commerce. Mulheres que fazem ménage. Se viessem de avião, mais rápido, mais barato, perderiam um dia nas viagens aeroporto-casa e volta, o tempo é precioso, todo ele escasso para tanta saudade.
Ei-los que saem resplandecentes de felicidade por pisarem solo pátrio, sorrisos abertos, olhos molhados não sei se da pegajosa chuvinha molha-tolos, se por avistarem já por entre a cerração velhote ou criança que os espera tiritando no cais...
Povo que lavava no rio e hoje lava escadas em Paris. Ridicularizado no falar, no vestir, nos costumes. Rude, tosco, mesquinho, por vezes brutal. Mas pleno de vitalidade, dotado de capacidade de sobrevivência invejável -- e animado por amor à pátria sem par, incompreensível para muitos.
Povo de Cesário Verde: "Povo! No pano cru rasgado das camisas / Uma bandeira penso que transluz! / Com ela sofres, bebes, agonizas; / Listrões de vinho lançam-lhe divisas, / E os suspensórios traçam-lhe uma cruz! "
Povo de Pedro Homem de Mello e de Amália: "Povo, eu te pertenço".
(FOTO: ainda em França, no TGV)

sábado, 5 de janeiro de 2013

A arte da poda

-- O primeiro podador foi um burro. Corolário:  qualquer burro sabe podar.
Os entendidos, porque também no que à poda concerne não faltam especialistas, sorriem superiores. Há uma poda para isto, outra para aquilo. Uma para ter grau, outra para conseguir grande produção. Uma para a Trincadeira, outra para o Fernão Pires. Outra...
Nem me canso a responder. Afinal, eu podo, eles não. Em vez de argumentos, conto a história, que ouvi ao Tio António Matos, saudoso vizinho já falecido:
"Um homem tinha uma videira e um burro. A videira não dava nada e um dia o burro soltou-se e roeu-a. Naquele ano, a cepa desfez-se em uvas e o homem passou a fazer como o burro, com uma tesoura em vez dos dentes."
Por isso, digo eu, se precisam de podar vinhas, aprendam com os burros. Esqueçam as teorias e cortem.
FOTO: hoje, a podar a minha vinha.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O velho das couves


Era um velho que amanhava pequena horta espremida entre prédios de andares lá para o lado dos Olivais. Ali passava os dias cavando, plantando, sachando, mondando, regando. A catar lagartas, a caçar lesmas, a espantar pardais. Coisa de matar o tempo, ocupar a reforma, exercitar o corpo, espairecer a cabeça, adubar o caldo. Coisa de ter algo de que se orgulhar, ramalhudas couves de Valhascos, repolhos inchados como abóboras, abóboras tão grandes que poderiam ser do Entroncamento, cenouras farfalhudas, grossas como nabos, nabos brancos de neve, alfaces repolhudas de verde viçoso, tudo tão apetitoso que aos domingos não faltavam passeantes curiosos a deixar comentários elogiosos. 
Numa manhã estival, apenas o Sol nascido, chega pressuroso a regar a novidade pela fresquidão matinal antes que o calor aperte e a estrague, e encontra a horta devastada. Parte roubada, parte vandalizada. Como se ali se travara batalha nocturna. Cenouras arrancadas e caídas por terra como cadáveres, alfaces pisoteadas como se a tropa lhes passara por cima, melões esventrados como prisioneiros massacrados, o sumo vermelho de uma melancia derramado como sangue... E o velho sentou-se desanimado no banco onde ao entardecer costumava, qual deus bíblico, gozar o fresco da brisa da tarde enquanto admirava a sua criação -- e chorou. 
Dor e raiva. Mais do que o prejuízo do roubo, magoavam-no os estragos sem outra finalidade que o fazer mal por mal fazer.
-- Malandragem! 
E passava o olhar magoado pela terra juncada de hortaliças em meio crescimento.
-- Ainda se roubassem para comer! Ah, se eu os apanho..., resmungava, sabendo que o melhor seria nunca os apanhar -- deixá-lo-iam em pior estado do que a horta.

Voltou a semear, voltou a plantar. E quando a verdura já sorria a prometer encher-lhe em breve a panela, noutra noite arrasaram tudo.
Desconsolado, nem os amaldiçoou. Abalou pesaroso, macambúzio, a pensar no que fazer da sua vida, assim privada de sentido. 
Na manhã seguinte, os vizinhos encontraram-no enforcado em balaústre das escadas do prédio. 

Breve balanço de 2012


Folheando o meu razão, 2012 emerge como ano bastardo. 
A perda da minha mãe, cortes salariais e de subsídios, fracas colheitas por causa da seca que se prolongou de final do ano até 1 de Abril, sementeiras perdidas... E sempre, sempre, o negativismo nacional a assombrar os dias, nos noticiários, nos jornais, nos blogues, no Facebook, onde qualquer cidadão ou cida-dona é o feliz detentor da  VERDADE e  na sua arrogância se compraz a achincalhar, a ofender quem se atreve a pensar diferente, enlameando mesmo quem dedica a vida a fazer bem aos outros, como no caso Isabel Jonet, que carinhosamente apelidavam Ovelha Xoné...
Porém, presenteou-me com o João, o meu quarto neto neste país envelhecido onde as crianças escasseiam. Não me faltou com saúde, nem com comida na mesa, deu-me alegrias diárias, singelas, como abraço do Miguel e "um avô, tinha saudades tuas", elogios entusiásticos do Afonso aos meus dons culinários enquanto devora simples hambúrguer grelhado na lareira, o beicinho do Tiago, a caminho dos três anos, se lhe não cedo imediatamente o iPad em que escrevo...
Não me faltou com outras alegrias: recebi mais um (pequeno) prémio literário, terminei outro romance, de que aqui darei conta em breve.
Em Setembro, chegou a minha aposentação e recebia-a sem entusiasmo, antes como inevitabilidade: prefiro sair pelo meu pé do que corrido, e da forma como as coisas se estão a pôr... Não vi a reforma como libertação. Fui professor 36 anos, de 1976 a 2012, por vocação, por prazer, embora de há uns anos para cá não faltasse quem, de cima abaixo e de abaixo acima, porfiasse em transformar qualquer possível prazer em tormento, entendendo, talvez, que trabalho tem de ser penoso... Às línguas invejosas, "reformado tão novo", respondo que comecei a trabalhar em 1973 (primeiro como servente de pedreiro, depois como operário de plásticos) e me reformei com 39 anos de descontos, sem nunca ter recebido subsídio de desemprego. Podia trabalhar mais anos? Sem dúvida, mas não nas actuais condições do ensino, inferno que muitos não aguentam durante uma única semana. Deixo o lugar aos mais novos, que bem precisam, com o desemprego que por aí grassa. É assim que pertence: os jovens a trabalhar, os velhos a viverem o melhor que puderem os anos que lhes restam.
2012 já lá vai. Ao verter o razão em balanço, concluo que o bem que houve, e muito foi, deixa saldo positivo a transitar para o exercício de 2013.