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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Cantiga de amigo

A acção do meu romance mais recente, Gheke Pepe, decorre sobretudo no período da crise política que vai de 1383, data do assassínio do Conde Andeiro, a finais de 1385, após a batalha de Aljubarrota, e termina pouco depois da conquista de Ceuta, em 1425.
Não foi minha intenção escrever um romance histórico, pelo menos como o género é hoje entendido. Pretendi, isso sim, escrever uma história passada numa época que me fascina, homenageando obras que muito admiro, como a picaresca Lazarilho de Tormes, o D. Quixote, a Menina e Moça, o Décameron. E, acima de tudo, quis homenagear um dos meus mestres na arte da escrita, cuja obra foi a principal fonte para a construção do pano de fundo histórico: Fernão Lopes, também personagem desta narrativa.
Apaixonado pela lírica trovadoresca, estudada com outro mestre, o Professor Lindley Cintra, e por mim ensinada durante décadas, até ter sido banida dos programas do Ensino Secundário, não resisti à criação de um trovador serôdio, mesmo sabendo que o último dos trovadores foi D. Pedro, Conde de Barcelos, falecido em 1354. Surge, assim, o fidalgo boémio Álvaro Domingues, a esbanjar talento por tabernas e putarias, como eram então designadas as "safe house" que António Costa se propõe construir em Lisboa. Álvaro Domingues é autor de cantigas de escarnho e maldizer, epigramas e baladas, e desta cantiga de amigo, paralelística com quatro dísticos monórrimos e refrão, leixa-pren, alternando a rima em /i/ com a rima em /a/. De notar o valor conotativo de "brial", hímen por extensão semântica, o oxímoro presente em "dona virgo", a evolução do estado de espírito da donzela, que passa da euforia inicial, apaixonada e a começar o enxoval de noiva, ao desespero patente nos dísticos finais, o que confere diferentes valores semânticos ao refrão. 
Amar amado amar amigo
O brial começado o brial tecido
Ai meu amigo ai meu amado

Amar amigo amar amado
O brial tecido o brial começado
Ai meu amigo ai meu amado

O brial começado o brial tecido
Chor’eu dona virgo o brial rompido
Ai meu amigo ai meu amado

O brial tecido o brial começado
Chor’eu dona virgo o brial rasgado
Ai meu amigo ai meu amado

IMAGEM: extraída de Oliveira Marques (2010), A Sociedade Medieval Portuguesa, Aspectos da Vida Quotidiana, Esfera dos Livros.

2 comentários:

João Andrade disse...

Outro grande mestre, tanto da língua como do género, é Alexandre Herculano. Vocacionando a sua vida para as letras e para a História, tratou de legar, a título de herança, os tesouros que constituem a sua obra, em especial a sua História de Portugal.
Boa sorte com o romance.Agora, pelo que vejo, dado que foi importunado pela TSU, que resolveu finalmente bater-lhe à porta, sempre vai tendo mais tempo para aprimorar os escritos.

Jose Catarino disse...

Um homem admirável, Herculano. De princípios, íntegro, enojado com a política e o regime que ajudou a implantar, virou-se para a agricultura. Não aprecio a sua poesia, prefiro a prosa. Ainda há pouco tempo reli O Bobo e as Lendas e Narrativas.