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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Gheke Pepe: explicação do título

O título de um romance é sempre uma escolha difícil e arriscada. É a primeira possibilidade de perder leitores. Eu deixo-me levar pelo instinto, o que, por vezes, implica longa e laboriosa procura.
Por exemplo, Do Lacrau e da sua Picada vai buscar o título ao capítulo final, em que surge curandeiro que promete curar o cancro com a picada do escorpião, o que suscita no narrador uma  analogia entre a verdade daquele homem, honesto mas ignorante, e a verdade da sua mocidade maoista. 
Entre Cós e Alpedriz teve vários títulos provisórios: A Joaquina, De Um Verão Até ao Outro... O título final decorre do anexim repetido na obra: "Entre Cós e Alpedriz, qualquer burro é juiz!" 
Um Amor Inventado  -- porque o escrevi motivado por poema que marcou a minha juventude:  A Invenção do Amor, de Daniel Filipe.
Gheke Pepe: o título surgiu-me num sonho, após noite em que tinha estado a ler Borges. Por superstição, guardei-o. Eis como ocorre ficcionado na obra:

Ouviam-se desvairadas linguagens de estranhos povos a que chamamos ingleses, sendo embora muitos deles galeses, bretões, escoceses — em comum, a destreza no manejo do arco e do punhal e o amor à guerra e às matanças. E nesta Babel até me parecia já familiar o falajar moçárabe dos numerosos alentejanos e algarvios que engrossavam a nossa hoste. Havia de tudo: fidalgos e vilãos, patriotas, matadores, ladrões. D. Nuno, para disciplinar a hoste, havia proibido mulheres e jogo no arraial, embora os ingleses tivessem as suas próprias práticas no recato de suas tendas, de onde, por vezes, jorrou sangue: como me dissera tempos atrás meu primo, matavam a homem com uma frieza desconcertante, sem uma palavra ameaçadora, sem um gesto de aviso, sequer sem um olhar, menos ainda com breve oração pela alma que despachavam sem confissão para Satanás, e continuavam o jogo ou a bebida como se nada de anormal ali se passara. Bebiam continuamente da sua cerveja, horrível bebida acre, de uma aguardente fortíssima a que chamam uísque, do nosso vinho e bagaço…
Na noite anterior, certamente devido à mistura de tão desvairados linguajares, ao variegado de estandartes e ao abuso da bebida, tive sonho assaz estranho: nele, o meu escudeiro erguia alto o pendão da minha hoste, um leão garboso com os dizeres Gheke Pepe. Não se me afiguravam palavras de nenhuma das linguagens do nosso exército, pelo que lhe perguntei o que significavam. E ele, rindo, respondeu-me:
 — Bebiam mais do que falavam.
 — Improvável, retorqui.
Tão forte fora a impressão causada pelo sonho que logo de madrugada acordei o meu valido e o incumbi de nos fazer tal pendão, cosendo no pano o leão do brasão que capturei nos Atoleiros, tendo depois conseguido a troco de meia canada de aguardente que um galês pintasse nele a vermelho em lindas letras góticas a estranha inscrição, que por algum motivo lhe deve ter parecido familiar. Por gestos, quis saber o que significava.
 — Bebiam mais do que falavam, expliquei-lhe no meu inglês macarrónico, acompanhado por gestos elucidativos.
Riu perdidamente ao ponto lhe faltar o fôlego e, quando o recobrou, só me repetia, apontando para mim primeiro, para ele depois: — You no, us, us! Portuguese falar so much!
Quando o meu escudeiro alevantou a lança em cuja ponta drapejava o pendão, logo a curiosidade atraiu os moços, cavaleiros e peonagem da nossa Ala do Namorados, e o próprio Rei, intrigado, se me dirigiu, fazendo-me corar como donzela ao tratar-me por dom:
 — D. Rodrigo Semedo, que dizeres bizarros são esses que haveis escritos no vosso estandarte?
Risonho, D. João aprovou. Agradava-lhe a ousadia de hastear pendão, a bizarria dos dizeres, antecipando o mundo novo que ali começaríamos, livres das peias da vassalagem aos grandes senhores de outrora.
Cavaleiros moços, invejosos da atenção que o Rei me dera e do sucesso do meu estandarte, apoucavam-me: que só fizera um novo por não o haver velho e nele faltavam símbolos de Nosso Senhor e de Sua mãe…
— O meu linhagem remonta pelo menos ao tempo da senhora rainha dona Tareja e meu avô Rodrigues pelejou no Salado e lá foi armado cavaleiro pelo próprio rei de Portugal, que então o alcunhou de Sem Medo. E o meu outro avô, Lançarote Pessanho, meu parente por via materna, foi almirante do senhor D. Pedro. Qual de vós se me iguala? E a Jesus e à Virgem, havemo-los no estandarte do Condestável e no do Rei, que a todos os demais se sobrepõem e que nós haveremos de defender do inimigo com as nossas forças e vidas.
A eles, quase todos filhos de infanções, calou-os a réplica, mas a inveja persistia: D. João tratara-me por dom e em público, a mim que sendo embora fidalgo de quatro gerações a tal título nem eu nem ninguém de meu linhagem ganhara até então direito, nem sequer meu avô Semedo no Salado, nem o meu avô Pessanho, quando almirante e nas boas graças de el-rei — e o pendão era lindo, atraía as atenções de todo o arraial:
 — É convosco que os Castelãos primeiro virão brigar, vendo que vos haveis apropriado de estandarte leonês, ou intrigados pela vossa algaraviada. E porfiavam: os dizeres deviam falar de S. Jorge e de Portugal, não de bêbados.
Meu primo, alferes da nossa ala, chegado também ele a admirar o estandarte, exortou-os: — Leixá-los vir, não é o que todos nós queremos, que o inimigo primeiro que a qualquer outro nos acometa? Enchei os vossos corações de brio e de orgulho, leixai de parte a inveja de D. Rodrigo Semedo, que guerreou bravamente nos Atoleiros, onde o próprio Condestável o armou cavaleiro sobre o sangue de fero inimigo que ali derribara, ajudou na conquista do Alentejo, defendeu com el-rei Lisboa, sempre leal e valente. Quereis também vós alçar pendões? Pois ganhai hoje esse direito, que aqueles de vós que cavaleiros já sois aqui honrareis vosso título e linhagem e aqueles que ainda o não são neste campo de Aljubarrota virão a ser armados por seus feitos e proezas. Se inveja deve haver, que seja da ferocidade, da valentia, do sangue inimigo derramado. E levantando a espada faiscante exortou-nos:
— Irmãos, é hoje o nosso dia. Triunfar ou perecer!, bradou.
E toda a Ala dos Namorados gritava altas vozes com ele: Triunfar ou perecer! — sob a mofa dos ingleses, duvidosos do valor daqueles moços imberbes, nunca antes provado em batalha feroz como a que se avizinhava. Pobres inocentes, que imaginavam a guerra a partir das novelas de cavalaria, torneios honestos e elegantes, cavaleiro contra cavaleiro, quase amigos que apenas se digladiavam por amor de suas damas. Tinham-me perguntado qual a minha. Não percebi. E eles, como se conhecedores fossem da guerra e de suas leis, quase com sobranceria: — Qual o nome da dama pela qual vos bateis? Que todo o cavaleiro deve ter uma a quem honrar com seus feitos.




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